Destino ou não - Brittana
21 Olá Halloween!
Notas iniciais
Um, dois... Um, dois.
Dedos finos, de uma mão delicada, batucavam a bancada negra e extensa da cozinha da casa dos Pierce, de maneira silenciosa e ritmada, enquanto a outra mão segurava um copo de café que ia de encontro a lábios rosados com sede de cafeína. Uma “sede” saudável desta vez. Uma sede moderada. Os olhos azuis encaravam, durante o processo, o celular pessoal, que passou a tocar sem rodeios, há alguns segundos, sobre a bancada da cozinha, abaixo da linha do horizonte.
O aparelho não parava nunca, que insistente.
Brittany cessou o ritmo dos dedos, alcançou o celular, e após a quinta chamada consecutiva daquele contato, pousou o copo vazio a sua frente, calmamente, trocando o aparelho de mão e levando-o ao ouvido direito, em seguida.
— Alô?
— Oi Britt, tudo bem aí? Demorou pra atender.
A líder de franja direcionou o olhar para o relógio do ambiente, e assentiu, mesmo que a outra não pudesse ver. A verdade era que, ela não havia percebido o que acabara de fazer.
— Britt?
— Ah, desculpa... Sim, tudo bem, Quinnie. E com você?
— Tudo ótimo! Estou te ligando pra saber se você vai na festa da Kitty hoje, ou mudou de ideia? Porque nesses últimos dias, né...
A Pierce sentiu a Fabray insinuar algo a ela, em meio a sua frase inacabada e super-irônica, e incomodou-se com o tom da outra. Girou-se no banquinho em que se acomodava para o outro lado, apoiando um cotovelo na bancada atrás de si.
— Hã? O que é que têm esses “últimos dias”, hein Quinn? Termina de falar.
— Você me trocou pela Santana! Óbvio, foi isso. – A loira disse divertidamente, e ao mesmo instante, do outro lado da linha, o rosto da Pierce ruborizou-se, uma grande pena Fabray não ter visto, ela entenderia aquilo de primeira. – Então, vai hoje, certo? É Halloween! Não dá furo nessa, Britt. Por favor...
Bom, a verdade é que a líder de torcida dos olhos azuis só havia ouvido a parte que te interessava, isto é: Santana, o resto da oração inteira, ela simplesmente ignorou mesmo, para o azar de Lucy Quinn Fabray.
— Eu não te “troquei” pela Santana, Quinn!
Fabray sorriu ao ouvir a preocupação existente na voz da outra Cheerio de cabelos louros, como se a mesma estivesse justificando-se de algo errado. Por que ela estava tão afobada com isso? A Lopez estava sendo tão legal assim com ela? Que fato peculiar. Tantas perguntas. O mundo dá voltas e a cada volta o universo torna-se mais confuso, talvez fosse essa a explicação.
— Você ficou grudada nela desde terça-feira, Britt! Me ignorando... E ontem então? Você acha que eu não vi vocês correndo na praia, saltitantes? Doeu tá? Você disse que tinha trabalhos pra fazer.
— Como você sabe disso?!
— Porque eu ia te chamar pra ir na praia ontem! Mas, aparentemente, vocês duas estavam se divertindo tanto que nem me viram, ou os meninos.
— Desculpa...
Brittany sentiu-se um pouco culpada, e teve dificuldade em continuar a conversa telefônica, depois de ouvir a amiga “desabafar” com ela, e suspirou, iria contar a verdade, não tinha nada para esconder da outra. Ou tinha? Não, não tinha. Ela era um livro aberto, ou melhor, semiaberto... Talvez, fechado? Enfim, não mentiria, independentemente, do tipo de livro que era.
— Eu tinha trabalhos pra fazer mesmo, Quinn. Mas é que...
— É que a Lopez é a sua mais nova melhor amiga da cidade, né? Do universo, do planeta, da vida.
— Não! Ela não é.
— É sim! Dá pra notar, amiga... – Fabray afirmou rindo. – Não tem como esconder. Bom, eu não acho que ela seja melhor que eu em nada, nada mesmo, mas, eu aceito ser trocada, ok? Já que ela estranhamente te faz bem com aquele jeito insuportável, Britt... Só que, acho que vamos ter que fazer um acordo, de Fabray para Lopez, porque eu não quero te perder por completo. Vou ligar pra ela e faremos um contrato!
A Pierce começou a ponderar sobre os últimos dias vividos, por culpa da menina Fabray que, acabara de despejar uma cachoeira de informações sobre a loira. Logo pela manhã do dia das bruxas! Entretanto, tudo isso era apenas o inicio, do inicio. Ponderou, ponderou e ponderou, até seus pensamentos aterrizarem ao dia anterior, ou seja:
Sábado, 30 de Outubro...
O sonzinho do toque dos dedos com as páginas, em movimento, do exato livro desgraçado importunador, inteiramente escrito em Espanhol indicado por William Schuester para as aulas, era a única coisa agradável a Brittany Pierce ao longo de toda aquela manhã do penúltimo dia do mês, dia em que ela botava as lições em dia, ou pelo menos tentava botar.
As folhas tinham uma sonoridade, viciante.
Vira, vira, e vira mais uma vez, que capítulo era aquele onde a página parou? O nome? Não importava, realmente. Agora, suas anotações que, recheavam por entre o miolo de todo o livro, pareciam dançar com a distração da loira em parceria as folhas em atividade.
Que tipografia era a usada por lá? No livro. Era tão agradável, tirando é claro, a parte de que estava servindo de base para um texto em espanhol. Se ela conseguisse entender a língua, tudo bem. Ela só queria compreender aquela coisa das trevas. Só isso.
Tic-tac, tic-tac, o tempo rolava solto com o tédio pairando ao ar.
E quando, finalmente, o grafite de sua lapiseira violeta entrou em contato com o papel branco de rascunho sobre sua escrivaninha, Brittany percebeu que por mais que martelasse sua cabeça, não havia entendido nada do livro, nem sabia sequer se havia lido de fato, ou se fingia tal ato, pois não sabia quase nada do idioma, seu conhecimento encontrava-se abaixo de dez por cento, e para piorar, traduzir palavra por palavra não era nada eficiente, como Santana havia lhe avisado na segunda-feira.
“Plim... Plim... Plim” — (Três mensagens novas) — Foi o que a tela do celular avisou à loira, subitamente, e ela teve sua atenção roubada pelo eletrônico, sem qualquer manifestação de culpa ou dúvida. Precisava se livrar do maldito branco da folha de rascunho que ria dela sem dó, nem piedade.
Tudo que fez, foi deslizar o dedo no aparelho, depositando a senha, e depois, passou a abrir a conversa com Quinn Fabray no aplicativo de mensagens, para tudo acontecer.
[Quinn]: Oi Britt, bom dia! [10:07 a.m]
[Quinn]: Tudo bem??? [10:08 a.m]
[Quinn]: Vamos sair agora, comigo? [10:08 a.m]
A Pierce pensou: “É, não é uma má ideia” de imediato, pois queria correr e fugir de suas obrigações no momento, mas então, sua consciência a lembrou abruptamente, de que a loira precisava terminar aquele específico dever de casa desesperadamente, pois a servia como recuperação, e ainda tinha mais outros trabalhos de distintas matérias empilhados ao seu lado, porque havia enrolado para começar todas as coisas.
A arte humana de procrastinar!
Ora, as lições, não se tratavam de nada realmente muito acumulado, mas ainda sim, acumulado. Compreensível? A loira não queria virar uma foragida do McKinley, portanto infelizmente, teria que negar o convite da amiga e continuar com a tortura da lapiseira e a folha vazia, em sua companhia.
[Brittany]: Oi Q! Estou bem sim, espero que você também! ♥ [10:10 a.m]
[Brittany]: Enfim, tô ocupada com pilhas de lições agora :( [10:10 a.m]
[Brittany]: Então me desculpa, de verdade! Marcamos outro dia? [10:11 a.m]
[Quinn]: Ok, boa sorte nesse caso, B. Me liga qualquer coisa, ok? [10:11 a.m]
[Brittany]: Pode deixar, obrigada. Você também, Quinnie! [10:12 a.m]
A loira deixou o celular em um canto da escrivaninha novamente, e voltou a tentar escrever a resenha sobre o romance “lido”, e mais uma vez, ela não conseguiu prosseguir com o caminho do grafite que se transformaria em letras, palavras e frases. Nada saia de sua cabeça, e a lapiseira virou uma estátua entre seus dedos, como ela resolveria isso? Deus. Parecia um labirinto sem fim.
Deixou de lado, um pouco, essa folha de rascunho e resolveu abrir o caderno de outra matéria para adiantar algo, porém, antes mesmo de começar outra ação, batidas em sua porta a interromperam. Brittany virou o pescoço em direção à porta.
— Entra!
Robert girou a maçaneta e adentrou o quarto da filha, ele apertou o nó da gravata preta que envolvia seu pescoço, enquanto aproximava-se, e depositou um beijo na bochecha da garota.
— Bom dia, Brittany.
— Bom dia, pai.
— Tudo certo pro jantar de hoje? – O homem perguntou esperançoso, mas recebeu um desvio de olhar da loira e um suspiro, aquela não era bem a resposta que o mesmo esperava. – Filha, nós estamos tentando marcar esse jantar há semanas... Por favor, dê uma chance a Holly, ela é diferente. Você vai gostar dela!
— É... Que nem eu gosto da cidade?
O senhor Pierce suspirou descontente por ouvir a garota repetir tal coisa, depois de dias sem o fazer. Concluindo que algo estava errado, sentou-se na cama da filha, pensante. Robert só sabia certa porcentagem do porquê da chateação, de fato, afinal, a adolescente não estava assim, desanimada, nos últimos dias. Eles tinham que arrumar uma forma daquilo funcionar juntos, conversar sobre relacionamentos nunca foi uma tarefa fácil para os seres humanos, contudo sempre há uma saída ao fim de todo túnel existente, sejam eles metafóricos ou não, e ambos, pai e filha, precisavam tentar achar a saída deles.
— O que aconteceu? Pensei que essa fase já tinha passado. Você tem aquela sua amiga Quinn aqui, tem o Sam... Ah, e agora tem a Santana também, você parece gostar muito deles.
A garota girou a cadeira de escritório para poder fitar Robert sentado a sua cama e confirmou.
— Sim eu gosto deles. Mas, não da cidade...
— Brittany, eu não quero te forçar a conhecer a minha namorada. Tudo bem? Só que uma hora ou outra vai acontecer, e penso eu que era melhor que nós combinássemos assim como combinamos o de hoje. Tudo depende de você, só preciso da sua aceitação, filha.
— É eu sei...
— Então eu te pergunto, hoje mesmo, ou prefere outro dia?
A loira passou a mão pelo rosto, pressionando-o, perdida em seus pensamentos. Afinal, ela estava sendo ou não, uma pessoa ruim por estar odiando a ideia de o tal jantar para apresentações formais entre filha e namorada do senhor Pierce? Não sabia dizer ao certo, só sentir turbilhões de sentimentos pelo corpo inteiro. O grisalho merecia ter felicidade como todo mundo tem, pelo menos, mais de uma vez na vida, ela não queria ser a barreira para isso acontecer de novo, não mais.
— Tudo bem pai, tudo certo pra hoje. Eu aceito.
Os olhos verdes brilharam com o consentimento que recebeu da pessoa mais importante de sua vida, ele mal conseguia acreditar nas palavras da filha.
— Que bom... – Robert disse sorridente. – Tenho que avisar ao Vitor. Prepare-se para hoje à noite!
— Vou estar preparada. – Brittany disse sem empolgação, tentando sorrir. – Eu juro.
— Isso é muito importante pra mim. – Ele levantou do colchão após ver a loira assentir e caminhou em direção à porta. – Tchau, tô indo pro escritório, até a noite.
A porta fechou-se e ela voltou a encarar os cadernos, a líder estava sozinha no silêncio de novo, um silêncio tão alto que até doida seus ouvidos. O silêncio dos pensamentos. Do jeito que sua pró-atividade estava, Brittany não sairia de lá tão cedo. Mas, por ironia do destino ou não, seu celular começou a apitar não muito depois da saída de Robert do espaço.
A Pierce desbloqueou a tela e percebeu que havia recebido mensagens de alguém especial. Alguém cujo nome é Santana Lopez, e por isso, a loira não conseguiu evitar o sorriso rebelde que cresceu em seus lábios finos, antes curvados de chateação.
[Santana]: Hey Britt-Britt! [10:59 a.m]
[Santana]: Perguntinha do dia: Você considera agora tarde ou manhã? [11:00 a.m]
[Brittany]: Oi Sant! Agora ainda é manhã, né? Haha, por que a pergunta? [11:01 a.m]
[Santana]: A pergunta não foi essa, corázon! Responde direito. Perguntei se você considera tarde ou manhã. [11:01 a.m]
[Brittany]: Meio termo? [11:01 a.m]
[Santana]: Haha! ¬¬ [11:02 a.m]
[Brittany]: Tô brincando! É manhã, pra mim. [11:02 a.m]
[Santana]: Ótimo! Você tá ocupada? [11:02 a.m]
[Brittany]: Na verdade sim. Tenho que começar a resenha de espanhol T_T [11:03 a.m]
[Santana]: Ah, isso? Que enrolação! Não é tão importante assim. Faz depois, haha [11:03 a.m]
[Santana]: Seguinte Brittany, não pense que eu esqueci que você me zoou por correr de tarde sábado passado! Então, só passando pra avisar que, nós vamos correr juntas agora mesmo, já que você considera como manhã, ok? Pra sua felicidade. [11:04 a.m]
[Brittany]: Eu não “considero” nada, esse horário é considerado como manhã universalmente! Não é como se fosse minha escolha. [11:04 a.m]
[Santana]: Tanto faz :p Você sabe né? [11:04 a.m]
A loira encarou a mensagem com o “convite” da latina e expirou o ar pesadamente. Droga, por que Santana queria lhe tirar daquele quarto? Justo ela? Desse jeito ia ficar mais fácil ainda Brittany tornar-se uma foragida do McKinley. Ela não queria estar lá sentada na cadeira de escritório com rodinhas que girava, e girava, em seu quarto, frente à escrivaninha branca com tarefas do colégio.
[Brittany]: Adorei o convite, mas eu não posso ir Sant-Sant. Desculpa! Outro dia talvez? [11:05 a.m]
[Santana]: E quem disse que isso foi um convite? É uma convocação! Você me arrastou pro Breadsticks quinta e ontem com você, agora a senhora está me devendo isso, haha, você não pode negar. [11:06 a.m]
[Brittany]: Hum, não tava sabendo de nada disso não, Santana! Fui enganada :( Que absurdo! [11:06 a.m]
[Santana]: Pensei que soubesse, deixei nítido pra você. Além disso, você ficou dizendo que eu trapaceei porque eu estava vestida pra correr semana passada! Quer apostar que vai perder de novo hoje? Basta vir preparada pra tentar a sorte ;) [11:07 a.m]
[Santana]: Ah, e eu sei que vai vir! Nem adianta dizer que não. Estarei naquele quiosque do dia que a gente se conheceu, te esperando, até. [11:08 a.m]
Sobrancelhas loiras arquearem-se, quem Santana achava que era? Como ela poderia ter tanta certeza assim do que a loira faria ou deixaria de fazer? Haja autoestima para um ser só, que narcisista. Bom, independente de qualquer coisa, a dona dos olhos castanhos estava certa: Brittany iria aparecer sim, porque não havia explicação para como o destino continuava as juntando como imãs, pregar peças, desde sempre, foi um passatempo para o mesmo, assim como também, a conexão celestial entre castanho e azul de certos olhos, desde o penhasco de Rosefield, um fenômeno fantástico, não? Obra do universo em parceria com o famoso destino.
Talvez, isso não fosse prestar.
(...)
— Eu disse que você ia vir Pierce! Eu nunca erro. – Santana disse com um enorme sorriso, e rapidamente percebeu o que havia dito, correu para corrigir-se, lembrando-se do pedido da amiga. – Quer dizer, Brittany.
— Oi, Santana! Bom dia.
Olhos castanhos analisaram a loira dos pés a cabeça.
— Tenho que dizer que você tá maravilhosa com “roupas de correr”, coração.
E os olhos azuis correram para o chão, Santana parecia flertar com ela, mas, era impossível! Garotas héteros não flertavam com outras garotas, a latina só era amigável demais, só isso. Não era isso Brittany? Foco.
— Você também...
— O que você quer fazer primeiro? Correr ou tomar sorvete?
A loira sorriu, e encontrou olhos castanhos animados a sua frente. Sua barra de animação espiritual só cresceu por isso, o dia poderia até terminar por ali que tudo bem, pois o mesmo parecia ter melhorado deveras, apenas pelo simples fato da felicidade da outra ter conseguido alcançar os olhos castanhos facilmente e verdadeiramente, e tal figura era extremamente rara de se ver, ou a Pierce apenas não havia fixado-se tanto nisso anteriormente, ninguém saberia dizer.
— Você tava doida pra repetir isso né, Sant? Admita!
— Vai dizer que você não? – Santana perguntou em meio a risadas. – Vai, responde a minha primeira pergunta! Estou te dando escolhas agora, aproveita enquanto pode.
A estudante loira colocou a mão no queixo como se fosse “A escolha” mais difícil e importante de sua vida inteira, correr ou tomar sorvete primeiro? E raciocinou como uma estátua famosa faz... Só lhe faltava o banquinho para virarem almas gêmeas.
— Hum, acho que a gente devia correr primeiro... – Brittany a lançou uma piscadela, em seguida. – Eu me aqueci e tudo já. Vamos!
Santana observou a empolgação da outra mulher e sorriu.
— Ah é? Foi por isso que demorou tanto? – A latina perguntou alcançando o celular no bolso de sua blusa. – Eu poderia ir embora... Olha aqui, já é praticamente uma da tarde, depois eu é que gosto de correr à tarde, né. Tsc, tsc, tsc...
A loira levou as mãos à cintura e riu da morena balançando a cabeça para os lados, fingindo estar desaprovando-a com a ação.
— Você devia ter me avisado mais cedo! Sabe que horas eu acordo e tudo...
— Para de reclamar, Britt-Britt.
— Mas eu...
Santana levantou um dedo indicador ao ar, calando Brittany no mesmo instante, que passou a olhá-lo confusa, esperando a morena explicar-se.
— Hey, ainda não é uma da tarde... – Ela riu, deu um leve toque no nariz da loira, e abaixou a mão, encarando olhos azuis. – Primeiro jogo: quem chegar ao limite da cidade primeiro escolhe o sabor do sorvete que a outra vai tomar! E eu tava vendo uns superinteressantes pra você, coração. – Santana notificou com a voz maldosa, ligeiramente, e passou a correr pela areia deixando a Pierce para trás. – Tchau perdedora!
A menina observou a outra correndo para longe. Perplexa, gritou:
— Santana, isso não vale! Já começou errado, volta...
— Vale sim, você não pode me acusar de nada hoje senhora super-aquecida com roupas de academia! Venha!
Brittany revirou os olhos de braços cruzados, a Lopez gargalhou com a cena, deu meia volta e puxou a loira pelo pulso junto de si, e ambas embarcaram naquela corrida amigavelmente competitiva, em busca do prêmio proveitoso, estipulado pela morena.
(...)
— É... Pelo jeito, você erra de vez em quando, Sant. — Brittany comentou sorridente, observando a latina segurar aquele sorvete de sabor incomum. – Deve ser muito difícil pra você.
— Cala a boca, Brittany. Você só ganhou porque tem a perna maior que a minha.
— Se você se convenceu disso, quem sou eu pra dizer o contrário.
Santana suspirou.
— Eu não quero tomar isso, Britt.
A Pierce sorriu diabolicamente com o pedido, olhos azuis na morena.
— Não tenha pressa, tá? Temos todo tempo do mundo.
— Você tá parecendo uma pirada...
— Só prove logo, e tudo acabará mais rápido, Sant-Sant.
Santana desviou o olhar e encostou o doce gelado nos lábios e depois na língua, provando, calmamente, o sabor do mesmo, fazendo uma careta desesperada ao sentir o gosto do sorvete. Brittany gargalhou com a reação, tão linda.
— Argh... Do que é isso, mesmo?
— Eu não te falei. – A loira lembrou-a e levou seu amado sorvete de chocolate a boca, antes de voltar a falar, vitoriosa. – Só te conto quando você terminar de tomar. Isso é claro, se você não descobrir por si mesma... Perdedora.
— Você só se finge de boazinha, sua cobra.
— É... Bem isso.
Elas riram.
(...)
Ambas continuaram andando, e tomando os sorvetes, Brittany estava amando o seu, Santana odiando o dela, e agora o jogo havia virado, pois, quem se encontrava rindo da cara da outra se alimentando de algo, era a loira. Engraçado como tudo que vai, realmente, volta na terra, tal coisa chama-se querido Karma.
— Ok, já chega. – A latina avisou. – O que é essa coisa, Britt-Britt?
— Hum... Desculpa, não vi você terminar ainda, Sant.
— Você tem que provar isso, sério! É muito estranho.
— Não obrigada. Sofra sozinha...
Santana sorriu pensativa e virou-se para o lado, levando o sorvete em posse até o nariz da loira, sujando-o, subitamente. Brittany deu um pulo, pele branca no gelo.
— Prefiro sofrer em companhia!
— Santana! – A loira esperneou, surpresa. – Tá doida?
— Eu? Não, imagina só... E você coração?
Brittany imitou-a, sem pestanejar, e passou o sorvete de chocolate no rosto da morena. Agora, ambas possuíam sorvete na ponta do nariz.
— Ah, você não fez isso, joia rara... – Olhos castanhos pareciam assombrados. – Vem cá! Não foge.
— Espera!
A morena deu sinais de que iria acertá-la com o sorvete de sabor desconhecido, novamente, então Brittany começou a correr de costas pela praia, desviando dos "ataques", abanando o ar para a outra parar os passos decididos, e bem pisados, em direção a ela.
— Hey, para Santana! Sério... É sério...
— Tá com medo de que eu te acerte de novo? Eu não vou. Juro de dedinho, coração...
— Duvido!
Elas continuarem correndo até a Pierce escorregar e cair de costas na areia, Santana preocupou-se e atirou-se ao lado dela, de joelhos, largando o sorvete no chão.
— Tá tudo bem, Brittany?!
A garota não conseguia parar de rir no solo, esforçou-se para responder à morena.
— Tá sim... Tudo bem.
Santana sorriu e suspirou, sentando ao lado dela, relaxada. Ambas limparam os resquícios de sorvete do nariz.
— Que bom.
— Nós perdemos os sorvetes, San.
— Não, só você perdeu o seu... Você escolheu um horrível pra mim, não perdi foi nada.
— Era de flores.
Olhos castanhos acharam rapidamente uma Pierce deitada na areia, ao seu lado, fitando o azul do céu. Os olhos da garota tinham a mesma tonalidade do céu que ela tanto assistia, era admirável a imagem. Santana sorriu.
— Que, Brittany?
— O sabor, era flores.
— Ah sim, isso explica o porquê parecia que eu tava comendo uma salada de produtos de limpeza...
— Sério? – Brittany indagou, levantando o tronco. – Desculpa.
— Você vai ter que provar ele outro dia, só assim aceito seu perdão garota. – Deu de ombros, em seguida. – Enfim...
— Não sei se eu quero provar nada, depois da sua descrição...
Santana riu.
— San... Vamos almoçar?
A Lopez observou a outra pelo canto dos olhos e assentiu.
— Tá bom. – Ela ergueu-se e começou a bater na roupa para livrar-se da areia. – Mas, eu quero fazer uma coisa diferente! E tenho uma ideia.
A mão esquerda da morena ajudou Brittany a levantar-se.
— Como assim diferente?
— Segredinho.
Olhos azuis arregalaram-se preocupados com as futuras supostas ações da latina.
— Ah não! Você vai se vingar de mim ou o que? Desculpa.
— Não, Brittany, nada disso.
— Tá... – A loira disse desconfiada. – Eu aceito.
— Perfeito, vamos!
(...)
Brittany adentrou a casa atrás de Santana, ainda confusa, em total silêncio, depois da longa caminhada que tiveram em direção ao lugar, e para piorar a situação, a morena parecia fazer questão de não abrir a boca para nada, principalmente para explicações.
— Santana, por que você me trouxe pra sua casa?
— Porque nós vamos almoçar.
A latina passou pela porta da cozinha e a loira a acompanhou.
— É... Então, o que nós estamos fazendo aqui? Não tô entendendo...
Santana girou o corpo para trás e riu, colocando as mãos na cintura.
— Você é muito boba.
— Hã? Mas, por quê?
— Nós vamos almoçar algo magnífico hoje...
— Aqui? – Brittany olhou ao entorno, e sorriu. – Você chamou sua avó para cozinhar pra gente?
— Não, não... – A Lopez riu e continuou. – Eu vou cozinhar pra você... Pra gente, quer dizer.
Um brilho tomou conta dos olhos azuis, fascinados, quando eles fitaram a morena.
— Você vai cozinhar mesmo?
Santana assentiu sorridente.
— É o mínimo que eu posso fazer.
— Mas, o que você vai cozinhar?
— Então... – A morena deu às costas. – Esse era o segredo. Por isso você vai ficar na sala enquanto eu faço nosso almoço...
— Mas, Santana, eu quero ver!
— Pra que? – Olhos castanhos miraram na imagem da loira histérica. – Você não confia em mim, coração?
— Não é isso, é que... Bom... – A Pierce começou a gaguejar sem saber o que falar. – Érr...
— Britt-Britt, relaxa, deixa comigo, não vou te matar, eu gosto de você. O controle da TV está na gaveta da mesinha.
— Ok. – Ela deixou a cozinha com o coração disparado. – Deus, meu deus...
— Aconteceu alguma coisa? – Santana perguntou da cozinha ao ouvir a voz da loira. – Tudo bem aí?
— Sim!
Não, não estava tudo bem, ela estava gostando da Santana demais, ela não podia se permitir a isso, todavia, aquele ser diabólico era tão tentador e perfeito aos seus olhos azuis e seu coração selvagem e jovem, que lutar contra os sentimentos estava cada vez mais dificultoso.
(...)
— Sant, essa lasanha tava incrível! Boa demais...
— Você acha? – Santana perguntou rindo, e apossando-se do prato que Brittany usara, juntando ao seu, os levando para a pia, no outro cômodo. – Na sua humilde opinião, de "degustadora lerda", eu cozinho melhor que a abuela?
— Abuela? – Brittany perguntou confusa, e então se lembrou do significado da palavra quando viu Santana surgir na sala, novamente. – Ah, da sua avó? Sim, é melhor! Você é uma verdadeira mestre-cuca! Quando vamos repetir? Quero datas.
— Já? – A Lopez perguntou e voltou ao sofá. – Em breve? Nunca? Depende. Basta você me lembrar.
— Ok! Vou anotar pra não esquecer.
Elas riram.
— Mas, eu sei que está mentindo.
— Não estou, Santana. Mesmo!
A morena deu de ombros e fixou os olhos na TV.
— Santana... Eu tenho que ir pra casa. – Brittany informou, de maneira chateada. – Eu preciso começar a fazer a redação do livro de Espanhol.
— Ah, é verdade, né? Tá bom, tchau.
— Eu não queria ir...
Brittany começou a lembrar do jantar que seu pai havia marcado para ela conhecer a namorada dele, e suspirou, mal percebendo que havia deixado escapar que ela não queria deixar a casa da latina no instante, porque estava adorando o seu dia. Santana olhou para a loira e sorriu.
— E você não precisa ir, Brittany. – A morena disse percebendo a chateação da outra, deixando o sofá aos olhares azuis, entrando no quarto, e voltando para sala, ligeiramente, em seguida, com um livro em mãos. – Eu te ajudo.
— O que? Como assim?
— Vou ler pra você.
Sobrancelhas loiras franziram-se, enquanto a Pierce fitava Santana balançar o exemplar nas mãos.
— Mas, eu já li!
— Ah, é? Eu não acredito em você.
— Você me viu lendo!
Santana riu ironicamente, acomodando-se ao lado da amiga.
— Você não estava lendo, estava traduzindo ao pé da letra de forma porca.
— Hey!
— É a verdade, anjo. – A latina folheou o livro. – Vamos lá, vou ler, e te explicar a história depois.
— Por quê?
Olhos castanhos encontraram azuis e Santana sorriu simpaticamente.
— Só porque o livro tem míseras 130 páginas, ou seja, terminamos com ele em duas ou três horas, rapidinho, agora vai depender de você. Aceita a ajuda?
Brittany retribuiu o sorriso que recebera e assentiu bobamente, se ela pudesse ver a cara que ela havia feito no momento da concordância, teria morrido de um infarto instantâneo, pois, talvez tal expressão estivesse a entregando de corpo e alma sobre o que ela estava sentindo sobre Santana.
(...)
— Espero que consiga escrever a melhor redação, hein! – A Lopez desejou à loira, enquanto a levava até a porta. – Tchau.
Brittany deixou a residência e virou-se para trás.
— Obrigada, San...
— De nada. – A morena respondeu desviando o olhar. – Eu...
Num impulso de sentimentos de gratidão que a dominaram dos pés a cabeça, a Pierce deu alguns passos leves em direção a Santana, antes de a mesma terminar de concluir sua frase, e sem raciocinar, a loira envolveu-a em seus braços, carinhosamente.
A primeira reação da latina em relação ao abraço repentino dado pela outra, foi agir como uma estátua, petrificou. Assustou-se e não moveu um músculo sequer, não estava acostumada a abraçar as pessoas, entretanto, rápidos segundos se estenderam-se, e ao perceber que o abraço tinha algo de especial, algo sincero, quente e protetor subiu os braços, de maneira lenta, e apertou Brittany contra si. A loira inundou os pulmões com o cheiro dos cabelos da latina, e sorriu ao notar que agora, o abraço era recíproco.
O únicos sons presentes no universo, eram os de suas respirações sincronizadas.
Brittany não estava só grata por Santana ter lido o livro e explicado para ela, e nem só porque ela resolveu cozinhar, do nada, para ambas, mas sim, pelo contexto do dia inteiro que desfrutaram juntas. Ela estava deixando a casa de Alma Lopez, com o céu semi-escurecido, e com o espírito relaxado, mesmo sabendo que chegaria à sua própria casa, continuamente, e teria aquele jantar que temia tanto.
A loira deu um passo para trás e sorriu, desmanchando o abraço.
— Você me salvou de novo. Sabia?
Santana sorriu sem graça, que situação.
— Tchau, Sant. Fica bem...
— Você também Britt-Britt. Até!
Brittany ainda não sentia vontade alguma de deixar aquela bolha que envolvia as duas, nos olhares fixos entre castanho e azul, mas, ela sabia que tinha que ir ao compromisso que marcara com Robert. Santana ameaçou de entrar na sala, novamente, e foi isso que fez com que a Pierce fosse embora finalmente, como deveria ir, respirando o ar puramente pelo caminho que percorria nas calçadas de concreto, o coração disparado mais uma vez, por conta da latina.
Se alguns segundos a mais tivessem prolongado-se, talvez ela não teria controle mais sobre suas ações.
Logo, a garota chegara em seu lar, tomou um banho quente e demorado, a fim de relaxar os músculos, e depois arrumou-se para o jantar, que no final das costas, havia sido um sucesso, porque como Robert a garantia há meses, Holly era uma mulher incrível, por mais que não fosse a sua mãe.
Voltando ao presente, dia 31 de Outubro...
— Britt? Britt? – Quinn chamou algumas vezes no telefone. – Você tá aí ainda?
— Oi Quinn! Sim, me desculpa. Tava distraída!
— Você anda distraída demais! – A capitã falou e riu. – Então, você vai né, na festa hoje? Porque nós estamos preparadas desde as férias... A propósito, feliz Halloween!
— Nossa, eu tinha esquecido que era Halloween.
— Britt do céu! – Fabray gritou gargalhando. – Você está mesmo no mundo da lua, o que houve querida? Como pode esquecer o Halloween? As ruas estão todas decoradas, e a escola também! Sem dizer a nossa semana temática no clube Glee!
— É complicado...
O cozinheiro Vitor surgiu na cozinha da casa dos Pierce e acenou para a adolescente, deixando várias sacolas de compra sobre a bancada, lotadas de doce.
— Tenho certeza que a Santana também vai! Britt. Isso soa melhor pra você?
Brittany sorriu.
— Eu vou sim... Ok? Não por causa dela, mas, porque nós combinamos isso faz tempo. Até mais tarde.
— Só pra garantir, eu e os meninos te buscaremos às sete horas! Esteja pronta com aquela fantasia...
— Tá bom, Quinn, beijo. – Brittany desligou o celular e encarou o cozinheiro em frente a si. – Nossa, muitos doces aqui.
— Sim, seu pai pediu pra comprar, senhorita. Um batalhão de crianças está a caminho! Cruzei com elas na rua.
— Sério? – Brittany se apossou de um pirulito da sacola quando Vitor assentiu, e ouviu a campainha tocar várias vezes, no mesmo instante, e percebendo o cozinheiro ameaçar sair dali, apressou-se a deixar o banquinho em que estava sentada. – Ah! Deixa que eu atendo.
— Leve esse pote com você. – O homem despejou uma pilha de doces da sacola dentro do recipiente de plástico. – Boa sorte, com os monstrinhos.
— Obrigada!
A adolescente direcionou-se até a entrada de sua casa, com os doces em mãos, e deu de cara com vários baixinhos, fantasiados, animados e saltitantes.
— Doces ou travessuras?! — As crianças gritaram.
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