Destino ou não - Brittana
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Notas iniciais
Ocasionalmente, minutos, e até horas, passavam a sensação de serem tão rápidos quanto segundos, ou milésimos. Nem se vê, nem se percebe. Daí vem à falsa impressão de “tempo voar”. O que é ótimo. E poucos têm a habilidade excepcional de fazer isso acontecer uns com os outros, de maneira bilateral e autêntica. A fórmula? É a relação estabelecida. São os olhares. São os gestos. São os sentimentos. São as palavras. E às vezes, o ambiente habitado também.
– E como tava no McKinley hoje, Brittany? – Santana perguntou casualmente, ao mesmo tempo em que, cutucava o prato de comida quase vazio à frente, enviando um olhar curioso à líder de torcida do outro lado, em silêncio Brittany ponderou sobre o seu dia inteiro, enquanto terminava de mastigar, vagarosamente, sentada à mesa de jantar dos Lopez, e aí fitou olhos castanhos continuamente a recepção de informações, e as garotas acabaram gargalhando juntas antes de voltarem a dialogar. – Muita emoção, é Britt-Britt? Você ainda vai me matar comendo tão devagar assim.
— Desculpa, Santana... – A loira falou, levando um guardanapo à boca, ainda rindo um pouco com a situação. – Minha intenção nunca foi essa, juro.
Elas riram de novo.
— Aham, tudo bem. Sabe... – A Lopez se apoiou na mesa, como se estivesse analisando-a, cerrou os olhos. – Eu odeio lerdezas, mas... – Abriu um sorriso travesso nos lábios carnudos fazendo suas covinhas aparecerem, e deu uma leve balançadinha na cabeça. – Você é exceção, porque eu acho bonitinho.
A mais alta corou na hora, só pensando: “se Santana pudesse se ver agora, ela estaria apaixonada por si própria” e a morena riu com a feição envergonhada dela, voltando a encostar as costas na cadeira, desviou o olhar para as unhas da mão esquerda, evitando contato visual, senão poderia ficar igual, e Brittany não precisava perceber isso.
— E o McKinley, hein?
— Ahn, na verdade, não aconteceu muita coisa, San... Quer dizer, foi o primeiro dia do Festival de Inverno, e parte do Glee se apresentou, não foram todos que toparam fazer parte disso. Então, demorou um pouco pra gente ser liberado de lá, por causa de todas as apresentações, mas foi legal.
— Hum, eu tinha me esquecido dessa coisa, não perdi nada demais, ótimo. Mal vejo a hora desse ano acabar.
— A Quinn estava tão empolgada com a nossa performance que... – A adolescente parou de falar quando notou os olhos castanho-escuros intrigados da Lopez de volta a ela e engasgou, ao dar-se conta de que, quebrara o sigilo exigido pela capitã das animadoras. – D-digo com os shows. Ela, a Quinn, empolgada com os shows que vimos, eu quis dizer.
Brittany começou a rir, nervosa com a mentira.
— Vocês tem uma performance especial para o tal Festival, é? Interessante, me conta mais.
— Não, não... – A loira negou e apossou-se de um copo de suco repousado próximo a sua mão, tomou um pouco da bebida, e voltou a esforçar-se para corrigir sua falha ao tentar manter um assunto em segredo de Santana, todavia já era tarde. – Eu disse errado, perdão.
— Ah, disse?
— Sim... – Ela desviou os olhos azuis daqueles analisadores maravilhosos à frente. – Totalmente, Santana.
— Parece que alguém aqui fala demais, não acha?
— Imagina, impressão sua, vamos falar sobre... É... Eu...
— O que você e a Barbie estão planejando afinal, senhorita-língua solta?
— Quê? Nada, já falei.
Santana assistiu a Pierce toda desconfortável na cadeira e revirou os olhos cruzando os braços frente ao tronco, bufou.
— Tsc, tsc, tsc, que preguiça de você, Brittany...
— Hã? Por quê?
— Me deixa adivinhar, as Cheerios decidiram fazer uma “revolução” surpreendente no suposto showzinho de inverno, com números extraordinários como: enfiar alguém num canhão e atirar longe? Fazer manobras penduradas em cabos enferrujados de aço? Manipular bastões em chamas? Qual das opções? São tantas, e mesmo assim, eu não consigo encaixar a presidente das puritanas em nada. Engraçado, né? Ah, espera, já sei, querem espalhar a palavra do senhor como “boas” seguidoras que são. Certo? É, pode dar certo.
A latina riu sarcasticamente e voltou a ficar séria. “Definitivamente, Santana Lopez ficava bem bipolar em três casos, alcoolizada, doente e em período menstrual, era bom se acostumar.” Foi o que navegou por entre o cérebro de Brittany, à medida que ela ouvia a outra falar em tom irônico, e sua tarefa ali não era irritar a garota, e sim ajudá-la a melhorar, por mais que fosse difícil.
— Ok, eu não consigo... – A líder de torcida suspirou em voz alta e olhou para o teto, velozmente. – Quinnie, me perdoa.
— Isso foi meio bizarro, Pierce.
Santana constatou os olhos azuis retornarem a encará-la de forma decente, assim relaxou, prestando atenção agora no movimento dos lábios rosados.
— Acho que não tem tanto problema te contar, já que o show é amanhã.
— É...
— Então, a gente tinha se inscrito pra entrar na Competição de Animação Regional de Oregon, lembra? Bom, nós fomos selecionadas há três semanas. – Contou enfim à outra. – Como forma de comemoração a Quinn montou uma coreografia secreta com a minha ajuda e a da Kitty para o Festival de Inverno, para nós revelarmos isso no palco, e tão somente lá, por isso a informação era “confidencial”, porque é a primeira vez que isso ocorre na história da escola, e ela está bem animada e confiante para passar isso adiante como uma surpresa. É isso.
O peito da loira ficou mais leve com a expulsão das palavras. Gostava tanto de conversar com Santana que, era impossível sentir-se culpada depois disso. E caramba, ela guardara em segredo tal fato da outra por tanto tempo, revelá-lo um dia antes do show não seria prejudicial, e mais, ela confiava na sua paixão.
— Imagino que ela esteja bem animada mesmo... – A latina riu. – Parabéns Brittany, isso é muito bom! Só espero estar curada amanhã pra ver com os meus próprios olhos, porque parece que ainda existe algo que valha a pena nessa semana, apesar de tudo.
— Obrigada, Sant. Ah, não se preocupa, você vai estar bem. Preciso te lembrar dos poderes mágicos da comida da sua avó? Acho até que você parou de fungar um pouco...
— Não precisa me lembrar, não, tá no sangue da família.
Elas sorriram.
— Voltando ao assunto, a Fabray finalmente aprendeu alguma coisa né, e você também, coração.
— O que? Por causa das coreografias no geral? Ou...
— Sim, pra quem não fazia nada e só reproduzia aqueles horrores deixados por décadas no time, ela deu um grande salto pra fora da bolha estagnada em que estava. E, apesar da arrogância dela ter aumentado de nível também, prefiro a Quinn assim, é ótimo discutir na aula de Literatura, faz o meu dia, ela não se cansa.
— Sério? Deus, você fica feliz mesmo discutindo com as pessoas?
— Eu? Quem disse isso, Piercezinha? Engano seu, você entendeu errado.
— Ok...
A Pierce levou uma última garfada de alimento à boca, erguendo a visão para observar à morena, em seguida. Terminou o jantar, enfim. Apenas alguns minutos após a mais baixa já ter o feito, diga-se de passagem.
— Já mencionei que come devagar demais? Deve ter passado duas horas mastigando esse finalzinho agora, no mínimo.
— Ah, cala a boca, San!
— Uau, que grossa, corazón.— Ela riu satisfeita com a pequena provocação. – Ai, ai...
Uma pessoa surgiu na cozinha de súbito, aproximando-se das adolescentes, deu um beijo no topo do crânio de Santana, e a mesma enviou-a um olhar fuzilador por causa do comportamento anormal, irritou-se.
— Para, mãe. – Esquivou-se no assento, com o semblante incomodado. – Não encosta, eu tô doente.
— Claro que está, chegou tão tarde, não me admira. – Maribel enunciou passando a mão nos cabelos negros da filha, depois sorriu para Brittany mandando-a um aceno com a cabeça, distanciando-se da outra adolescente. – Não vai me apresentar a sua convidada, Santana?
— Oi...
— Olá.
— Brittany essa é a Maribel vulgo minha mãe, Maribel essa é a Brittany vulgo minha grande amiga, tcharan! Pronto, resolvido.
— Oh, então você que é a famosa Brittany Pierce? Seja bem-vinda a minha humilde casa! O Cesar e a Alma já me falaram de você...
A loira atentou-se no incomodo da amiga ali, contudo correu para mirar os olhos azuis na mulher grávida diante de si. Não queria ser inconveniente na casa dos outros, deixando a dona do lugar no vácuo, no primeiro encontro.
— Famosa não, senhora Lopez. – A menina corrigiu-a e riu sem graça. – Só Brittany, e a sua casa é ótima...
— Que isso, não seja modesta, as pessoas comentam bastante o seu sobrenome pela cidade, você é famosa sim... – Insistiu. – E não minta sobre a minha casa, tá tudo bem, ela não é grande coisa, porém estamos planejando algumas reformas, nada comparado ao que deve estar acostumada, mas é o que temos e é muito bom.
— Eu não estava mentindo...
Santana levantou-se da cadeira, freneticamente.
— Eu vou pro meu quarto, boa conversa-fiada pra vocês, divirtam-se.
A garota sumiu do cômodo e Brittany preocupou-se com a reação dela, Maribel então, sentou-se no lugar onde antes se acomodava Santana, e continuou a conversa.
— Não se preocupa, ela sempre fica assim quando está doente. Enfim, foi por causa do investimento do Robert no hospital Santa Inês que meu marido nos trouxe para morar aqui, sabia? Sua família é a razão de enormes melhorias em Rosefield... – A grávida passou a mão na barriga avantajada, olhando-a de relance. – Meu filho vai nascer num lugar melhor por isso. Nós estamos muito felizes aqui, de verdade. E ah, é tão bom saber que a Santana esteja sendo útil nos seus estudos...
A estudante inquietou-se com a maneira da mulher referir-se à filha como um objeto qualquer sendo “útil” para ela. Balançou a cabeça para cima e para baixo, no automático, assentindo, entretanto não era assim que a Pierce via as coisas, ela enxergava a morena como uma pessoa incrível, talentosa, amável, amiga e muito mais, não algo banalmente-útil que se compra como um acessório barato e usa. A loira sentiu-se ofendida sim, porém tentou ignorar o sentimento invasor, afinal, devia estar apenas equivocada, pois viu o desconforto da Lopez anteriormente, e acabou ligando uma empatia forte demais dentro de si.
— Ahn, de quantos meses o bebê está, Maribel?
— Quase cinco, nós ainda não sabemos o sexo, e nem sei se iremos, mas eu sinto desde o começo que é um menino forte...
— Parabéns!
— Obrigada.
— Agora, eu... – A loira ergueu-se da cadeira e recolheu os pratos usados, os levando para a pia. – Preciso deixar a mesa, desculpa.
— Tudo bem, conversamos outra hora.
— Vou ver se a Santana tá melhor...
— Fica à vontade Brittany, a casa é sua!
(...)
O espelho do banheiro já se localizava todo embaçado de vapor quente, e a garota por lá deixou o chuveiro para trás e passou a mão por cima do mesmo, assim que terminou o banho, livrou-se da camada fosco-úmida e observou seu reflexo no utensílio antes de retirar a touca de banho que envolvia os cabelos negros de sua cabeça, respirou fundo. Melhor inalação para resfriados que aquela, não existia. Depois, abraçou a toalha no corpo recém-secado, e abriu a porta que a levaria de volta ao seu quarto, foi quando Santana enxergou Brittany parada de pé, perto da entrada do recinto, apoiada na parede, ela sorriu e continuou seu caminho até a cama onde residiam suas roupas, passou a trocar-se a partir dali.
— Tranca a porta pra mim, por favor.
— Eu já tranquei.
— Ótimo... – Ela soltou o coque e balançou o cabelo, arrumando-o de leve. – Você também sobreviveu a Maribel, parabéns.
— Obrigada...? – Brittany agradeceu em tom confuso, enquanto fitava a morena de pijama colocado esconder-se embaixo de um cobertor estendido na cama, ela chegou perto e acomodou-se na ponta do colchão, apossando-se de um pé da latina, balançou-o. – Tá se sentindo melhor, Santana?
— Sim, na medida do possível... – A Lopez respondeu, tirando a coberta do rosto, olhou para a loira. – Valeu por ter vindo aqui, trazido comida e tudo mais, acho que deve ter ajudado.
A Pierce sorriu.
— Que bom, estava contando com isso.
— E quando você vai embora mesmo?
— Não sei... – A estudante disse concentrada no pé de Santana que, colocou no colo para massagear. – Por quê?
— Porque você deveria ir, coração...
— Deveria, tipo, agora?
— Sim.
— Tem certeza? – Ela iniciou uma suave massagem no pé da morena, e percebeu o físico dela estremecer e relaxar com os toques precisos de suas mãos, além do fechar dos olhos castanhos para aproveitar ao máximo, e mesmo assim, Santana assentiu o questionamento -na pura teimosia- mas, não foi capaz de dizer em palavras que queria que a outra fosse para casa novamente, pois no fundo não queria. – Hum, e eu acho que você devia parar de ser chata e tentar me afastar de você, porque não vai dar certo assim. E aí, como faz pra nós resolvermos esse problema?
— Eu não estou tentando te afastar de mim... E dios, isso tá muito bom... Que raiva de você, sério...
— Raiva de mim? – A loira riu e continuou seu trabalho. – Por quê? Não fiz nada.
— Porque eu poderia te beijar agora mesmo por isso... Humm, e quanto mais tempo você fica aqui, mais me atenta a passar resfriado pra você, deveria tomar cuidado, não tô brincando...
Brittany gargalhou.
— Você me paga, Pierce.
— Claro, claro, tenta dormir.
— Ok...
De olhos fechados, Santana percebeu seu celular vibrar do criado-mudo, o apanhou e reparou ser o número anônimo enviando-a uma mensagem: “Nem sonhe em faltar amanhã, garota.” Sua expressão mudou na hora. Droga! Ela ficou olhando para a tela do objeto, vidrada.
— Quem é?
— Ninguém importante, Brittany.
— Então descansa, larga o celular.
— Tá. – A latina devolveu o aparelho para o lugar e voltou a apreciar o contato nas mãos pálidas no seu pé. – Você é boa demais nisso...
— Em várias coisas, exceto cozinhar e espanhol né, por enquanto.
— Não fica se achando tanto, eu posso encontrar mais negações em você fácil, fácil.
— Longe de mim me achar, Sant... — Divertiu-se. – Calma, só comentei.
— Acho bom.
— Shh, dorme...
Posteriormente há alguns minutos, a mais alta percebeu que a respiração da outra menina tomou certo ritmo lento, indicando que ela finalmente teria pegado no sono, Brittany ergueu-se da cama e cobriu os pés de Santana, caminhou até o interruptor e apagou a luz, notando certo movimento vindo dos lençóis do colchão da Lopez.
— Coração...— A morena coçou os olhos. – Você tá indo embora?
— Sim, pensei que tivesse dormindo já, San... — A adolescente declarou, pondo-se perto da cama da qual saíra há poucos segundos. – Tudo bem?
— Aham, tudo. – Falou, abrindo os olhos, para enxergar a outra. – Fica mais um pouco...
— Hã, agora você quer que eu fique? Que mudança, uau. Estou surpresa.
— Eu posso mudar de ideia, de novo... Rapidinho, inclusive.
— Não, não faz isso. – Brittany pediu rindo. – Eu fico, porém com uma condição.
— Hum, e que condição seria essa?
— Vou ter que ficar debaixo da coberta com você, porque eu tô morrendo de frio no exato momento, não dá. – Ela admitiu e levantou uma parte do tecido, começando a sentar no colchão, ligeira. – Chega pra lá, vai.
— Você é bem frienta, hein. – A Lopez comentou aos risos virando-se para o lado contrário na sua cama de solteiro, sentiu o corpo de Brittany colar nas suas costas e um braço dela contornar sua cintura, progressivamente. – Você tá se arriscando tanto agora, Piercezinha.
— Você vale o risco.
Suas pernas encaixaram-se no escuro e seus físicos estavam, enfim, em uma posição afável de conchinha.
— Se você estiver doente amanhã por causa disso, não espere o mesmo tratamento da minha parte...
— Ok. – Brittany assentiu tranquila e perpassou o nariz, carinhosamente, nos cabelos negros da retaguarda do crânio de Santana. – Tudo bem por mim.
— Eu não te entendo.
Lábios finos abriram um sorriso e ela permaneceu calada, selando os olhos azuis, satisfeita com o corpo aquecido do frio antecessor.
— Qual a graça de ficar perto de mim assim?
— Precisa ter graça? Não sabia. – Brittany manifestou-se, e riu. – Santana, o que...
— Eu ainda estou tentando enxergar o lado bom disso Brittany, mas a única conclusão que me chega todas as vezes que penso sobre, é de que você é estranha, paranoica pra umas coisas, nem tanto pra outras, tipo, não estar ligando de poder ficar doente com essa falta de distância entre a gente...
— Hey, eu não sou estranha! – A loira enunciou entre risadas. – Não vou ficar doente, ok? Sei disso. Mas afinal de contas, o que você quer que eu diga ou faça? Fala, porque você está me confundindo, primeiro me mandou embora, depois pediu pra eu ficar e agora está querendo me mandar embora de novo, aparentemente.
— Não, eu não estou, é só que... Ah, que pergunta, sei lá o que eu quero que faça... Sei lá...
Brittany, sossegada, abraçou-a mais e resolveu falar:
— O simples fato de eu gostar muito de você, apesar de ser chata pra caramba quando quer, já não basta pra eu estar aqui agora, San? Gosto de ficar perto de você, sempre, não me importa se estiver nos piores dias, eu vou fazer o possível pra melhorá-los como eu puder.
A latina atentou-se ao disparo no seu coração e tornou-se pensativa por um breve instante, e aí concordou.
— Acho que basta sim...
— Que bom. – Ela deu um selinho acentuado no pescoço moreno, um pouco sonolenta, e constatou a pele da ex-líder de torcida arrepiar-se nos lábios rosados, com isso, deu outro beijo por lá e sorriu alegre. – Relaxa Sannie, juro que vou tentar não te morder, confia em mim.
Elas riram juntas. “Britt, eu também gosto muito de você.” foi essa a última frase que Santana emitiu, antes de ser levada para um sono profundo, envolvida por Brittany, sob o cobertor aconchegado de seu quarto.
(...)
A posteriori a sua cochilada, a loira abriu os seus olhos azuis. Situava-se na mesma posição em que se lembrava, abraçada a Santana, com cuidado afastou-se do corpo da garota adormecida e pôs-se de pé. Brittany alongou-se olhando para a cama, deu a volta nela, depositou um beijo na testa da Lopez e ajeitou o cobertor sobre a mesma, antes de deixar o quarto, destrancando-o, saiu. Por mais que não quisesse ir embora, tinha que o fazer. Em seu caminho em direção à saída da residência, ouviu uma voz.
— Brittany, ainda está aqui, niña... – Alma disse sorridente do sofá da sala, e abaixou o volume da televisão para poder falar. – Que milagre! A Maribel comentou e eu mal acreditei, pois ela estava muito cansada quando cheguei aqui, poderia estar confusa, mas vejo que é verdade, que bom.
— Oi, senhora Lopez! – Cumprimentou ela, dando alguns passos para perto. – É, tô aqui ainda, nós adoramos a comida, a propósito... Ahn, você disse: milagre, como assim?
— Oh, me desculpe! – Ela riu. – É que a minha nieta não costuma deixar que, fiquem tão perto dela por tanto tempo quando raramente adoece. E aqui está você até agora, desde que foi buscar o jantar no Breadsticks, impressionante. Acho que é a primeira pessoa que consegue isso. A Santana parece gostar mesmo de você, deixou as barreiras descerem hoje.
— Ah, é...
— Isso é muito bom, finalmente uma amizade de verdade. – A velha declarou voltando a olhar para a tela da TV. – A Santana é muito parecida com o meu falecido marido, só eu conseguia ficar perto dele quando ele ficava mal, e mesmo assim a gente sempre brigava por algo, ele era muito teimoso, mas é preciso ter paciência quando se gosta de alguém, principalmente de teimosos como eles, é de se endoidar a cabeça, ás vezes...
Brittany riu.
— Com certeza. – Ela notou a falta de contato visual da mulher desde as últimas palavras. – Sinto muito pelo seu marido, Alma...
— Tudo bem, nós fomos felizes enquanto durou. – A mulher sorriu para a garota. – Mas, nunca achei que fosse o próprio coração do homem que o levaria de mim.
Ela ficou um pouco confusa com as palavras da avó de Santana, estava distraída demais, resolveu perguntar:
— O-o que houve?
— Ele infartou.
— Ah... – Brittany compreendeu e sentiu um mal estar passar pelo corpo num piscar de olhos, lembrou-se de quando viu Santana saindo de dentro do cemitério de Rosefield meses atrás, tudo se ligou, sua mente recordou-a de toda a simbologia do ambiente, caixões, flores, terra, túmulos, e ela tentou ao máximo afastar os pensamentos ruins, pois odiava cemitérios. – Eu sinto muito mesmo por isso, Alma.
— Ele não quis se tratar, apenas respeitamos a sua escolha, tá tudo bem, nosso casamento foi lindo e construtivo, e eu entendo que tudo na vida que tem um começo tem um fim também, seja bom ou ruim. Nós só não podemos escolher nos afundar com eles, nunca. Coisas assim acontecem, não temos controle, isso é viver, nunca se esqueça disso, Brittany.
— É...
A loira assentiu.
— Eu... Eu vou indo agora... Tudo bem? Desculpa. – A Pierce caminhou até a porta da casa. – Até mais, mande um beijo pra Maribel por mim, for favor...
— Ok, tchau, se cuida niña, e ah, não diga a Santana sobre essa comparação que fiz entre ela e o avô, ela não gostaria, eles não se davam muito bem, justamente por se parecerem tanto.
— Tudo bem, não se preocupa, não vou falar.
Ela sorriu e deixou o lugar.
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