Destino Inesperado

12 Zona de Conflito


Lanshiang, China

Ela estava num lugar que parecia meio familiar... Um apartamento simples, com alguns objetos que chamaram a sua atenção, como por exemplo um porta-retrato. No porta-retrato havia uma foto de um homem jovem abraçando uma mulher mais velha, gordinha que possuía olhos azuis gentis iguais aos dele.

“Ela é Sarah Kennedy, a minha mãe.” De repente uma voz grave chegou abruptamente lhe assustando. “Um dia eu irei te levar para conhecê-la.”

“Leon?!” Ela se virou para encará-lo ainda se sentindo confusa. Ele parecia tão jovem, tão alegre e angelical. “Você é lindo.”

“Você também minha gata selvagem.” E o lindo e charmoso homem, caminhou em sua direção e a puxou em seus braços. “Senti sua falta, Ada.” Em seguida, ele a beijou apaixonadamente, deixando-a fora de órbita, como se aqueles lábios possessivos já tivessem a beijado tantas vezes antes.

Um segundo depois, Ada despertou assustada e desnorteada, sentindo seu coração bater de forma irregular e dolorosa. Infelizmente, ela não pôde se esconder entre os braços fortes de Chris Redfield, porque ele estava fora da Fazenda, deixando-a sozinha naquela cama e, completamente, desprotegida e confusa com aquele estranho sonho. Um sonho que a fez sentir sentimentos e sensações muito reais.

É assim que suas noites se tornaram: uma constante de sonhos perturbadores. E quando vinha o dia, as coisas ainda pareciam nebulosas com uma realidade cheia de obrigações, cautela e muita apreensão pelo que o futuro lhe reservava, sobretudo, por um sentimento de medo. Um medo de que aquela calmaria que experimentou nos últimos anos, logo, iria se transformar numa grande tempestade que destruiria tudo o que ela construiu.

Ada permaneceu na janela de seu escritório, observando os primeiros pingos de chuva começarem a cair lá fora, até que alguém bateu na porta. Ela tentou ignorar acreditando que a pessoa iria desistir e deixa-la em paz, poréma batida persistiu e a pessoa em questão decidiu adentrar a sala, atrapalhando o seu momento de solidão.

— Doutora Guimeng, está tudo bem aí? — A voz de Claire forçou a ex-espiã a sair de seus devaneios.

— Sim — afirmou sem se virar para Claire.

— Alguma notícia do Chris? Pensei que ele retornaria hoje para a Fazenda.

— Não se preocupe. Logo, você poderá matar a saudade do seu irmão.

Um silêncio demorado se fez presente, até que os olhos de Claire de repente foram atraídos por um porta-retrato sobre a mesa de Li.

— É você aqui com o embaixador britânico? — O questionamento, imediatamente, chamou a atenção de Ada que se virou para encarar a irmã de Chris. Ficou muito visível o quanto a pergunta a deixou atônita.

— Não. Não sou eu. É... a Elise Mei. — Não havia outro jeito para sair daquela situação, senão responder aquela pergunta. As duas mulheres se olharam, cada uma levando o seu tempo para estudar as expressões da outra.

— Então, você tem uma irmã gêmea?

— Eu tinha uma irmã gêmea... — Ela desviou o olhar se sentindo melancólica. — Mas, ela morreu há muitos anos.

—Sinto muito! — Claire vacilou, antes de prosseguir. — Também percebi que vocês são muito parecidas com a sua mãe. — Seu olhar parecia inocente e interessado na conversa, mas no fundo Ada sentia que a irmã de Chris tinha algum outro propósito com aquela conversa.

— Como é que você sabe que somos parecidas com a minha mãe? — Ela caminhou até a mesa e puxou o porta-retrato das mãos de Claire, ganhando um olhar duro da ruiva.

— Nossa, que ciumenta! — Claire tentou brincar com a situação, porém Ada não se mostrou estar no mesmo humor.

Claire desde que chegou ali, apesar de ser muito prestativa e dedicada ao seu trabalho, tinha sempre um olhar desconfiado e feroz sobre Ada, parecia que sempre estava cuidando de cada passo que a mulher chinesa dava, fazendo-a se sentir quase acuada em seu próprio lar. Sem Chris, ou Leon por perto, as duas mulheres tiverem que se obrigar a se relacionar de forma cortês e muito profissional, até que essa linha entre o trabalho e a vida privada começou a ser ultrapassada.

— Ouvi dizer que vocês foram separadas quando ainda eram crianças e depois nunca mais se viram. Imagino o quão triste deve ter sido isso. — Sua voz ainda continuava calma, porém seus olhos azul- escuros eram tão ardilosos.

— Sim. É uma história triste, cheia de traumas, mas não quero falar sobre isso agora. — Por um breve momento, houve um confronto silencioso entre a duas. — Não me leve a mau, mas acho que se eu começasse a perguntar sobre o Piers, você também não iria gostar. — No momento em que ela afirmou aquilo, a expressão arrogante de Claire, logo, se transformou numa carranca triste.

— Isso não é da sua conta! — Claire não gritou, apenas sibilou de forma ácida.

A discussão só parou quando o telefone tocou com uma ligação que deixou as duas, instantaneamente, desesperadas.



***/ /***


Na Prefeitura de Lanshiang, aconteceu um atentado terrorista durante um evento que reunia também as presenças do Prefeito, da BSAA e do Conselheiro Kennedy. A segurança era para ser bem reforçada e, ainda assim, as coisas saíram do controle, várias pessoas acabaram mortas, ou feridas e entre os feridos estava Leon.

Chris e sua equipe rapidamente conseguiram evitar que o estrago fosse maior, matando os tais homens terroristas, deixando apenas um vivo, porém o homem preferiu se matar ativando uma bomba em seu corpo, quase conseguindo fazer mais vítimas.


Depois do atentado terroristas, o país se viu numa zona de tensão ainda pior do que o normal. A polícia e o exército chinês, junto com equipes da BSAA e da DSO representando os Estados Unidos, foram forçadas a deixar suas diferenças de lado e trabalharem juntos. Interesses políticos e as relações diplomáticas entre duas nações estavam em jogo. Em contrapartida, o senhor Kennedy ainda lutava por sua vida.


Kennedy havia sido trazido para o maior e mais importante hospital da cidade e levado, imediatamente, para a sala de cirurgia. Muito sangue havia sido perdido, a bala havia se alojado próximo do coração, um centímetro mais para esquerda e teria sido fatal. Levou mais de 6 horas de cirurgia até que Chris conseguisse alguma informação e pudesse soltar um suspiro de alívio.

​Um médico renomado, que viera direto de Pequim para assumir o caso do Conselheiro Presidencial, logo surgiu para avisar que o procedimento fora um sucesso. Kennedy estava estável, graças também a Dexter, que doara o próprio sangue para ajudar o chefe a sobreviver.

Foram necessários dois dias de monitoramento tenso na UTI antes que ele estivesse fora de perigo e pudesse, finalmente, ser transferido para um quarto comum do hospital.

Leon acordou se sentindo completamente desnorteado, com o corpo ainda meio anestesiado e se deparando com o seu guarda-costas dormindo todo torto numa poltrona ao lado de sua cama.

— Água... água... — Sua garganta estava seca e doía com o esforço de fazer um pedido tão simples.

— Ohhh... Leon, você acordou! Graças a Deus! — Por sorte Dexter tinha o sono leve e já foi se levantando um pouco tonto para ajudar o enfermo. — Como você está se sentindo? Oh, por favor cara... me perdoe! Meu trabalho é te proteger e eu falhei com você — seu guarda-costas ficava tagarelando nervoso e isso fez Leon esboçar um sorriso fraco.

— Dexter, vê se relaxa! Assim você vai deixar o Leon tonto. — Chris chegou já se sentindo animado ao ver o seu amigo acordado. — Dexter, você precisa comer um pouco, tomar um banho e descansar. Eu assumo daqui!

— Mas, eu tô bem. Eu posso...

— Você já fez muito... Você doou o seu sangue e ajudou a salvar o seu chefe. Agora é hora de ir descansar. Não se preocupe, logo Sherry e Claire vêm para vê-lo. Ele não vai ficar sozinho.

— Chris... tem... razão... — Leon deu outro sorriso para confortar seu amigo e guarda-costas. Relutantemente, Dexter foi embora, deixando apenas a dupla no quarto.

— Caramba, que susto você nos deu!

— É. Ainda estou... confuso!

— Você não consegue ficar longe do perigo, né? — Os dois riram. — Você foi baleado por um tiro bem próximo do seu coração. — Quando Redfield disse isso, imediatamente, Leon tentou se lembrar do ocorrido, porém tudo não passava de um borrão. — Mas, você é sempre o sobrevivente e isso é o que mais importa.

— Droga! — Leon soltou um murmúrio melancólico, o aparelho que monitorava o seu batimento cardíaco continuava num bip irritante, o cheiro e o gosto de remédio era um lembrete horrível de que estava preso naquela cama de hospital.

— O que foi, Leon?

— Angela e a minha mãe já sabem?

— Sim. Quem falou com elas foi a Claire. — E falando em sua irmã caçula...

— E aí, herói... como você está? — Os dois homens são surpreendidos pela chegada de Claire.

— Ei sardentinha, que saudade! — E, antes, que Claire tivesse tempo para raciocinar, ela se viu sendo puxado para um abraço de urso, aquele abraço que seu irmão mais velho costumava lhe dar quando eram tão jovens e a relação fraternal ainda era normal e tranquila.

— Christopher, você tá me sufocando. — Ela ficou dividida entre rir e reclamar, seus olhos ardiam com uma emoção que a ruiva tentou segurar. — Eu... também senti a... a sua falta.

Leon se viu em silêncio, apenas observando aquela cena e achando tão bom ver os irmãos reunidos e conversando, amigavelmente, com alguma provocação aqui e ali.



***/ /***



A frente do hospital estava cheia do pessoal da imprensa e de seguranças que, ao mesmo tempo, protegiam todo o perímetro. A entrada de pessoas não era fácil, lá dentro era permitido só funcionários e familiares. Então, Ada tinha um desafio pela frente: — Como entrar lá sem chamar a atenção?

Ada resolveu que iria visitar Chris e nada iria impedi-la. Essa história de visitar o capitão serviu de um bom pretexto para que os soldados da BSAA, deixassem que a doutora Guimeng viesse com eles para a cidade, sem saber que ela estava saindo as escondidas da Fazenda.

Ada também precisou da ajuda de Sherry para lhe dar cobertura e de um disfarce.

— Toc, Toc... Trouxe alguém para te ver! — Ao ouvir a voz de Sherry, Leon abriu os olhos e se virou na direção da porta, vislumbrando ela entrar acompanhada de uma mulher que usava óculos escuros e um lenço de cetim na cabeça e que lhe deu um sorriso torto muito familiar.

— Ada — o homem sussurrou perdendo a noção do perigo.

— Shhhh...— as duas balbuciaram meio que o repreendendo.

— Me perdoe... Olá, doutora Guimeng! — Ele possuía uma expressão tão frágil que causou um aperto no peito de Ada, mas ela não era a única a ficar abalada ao vê-lo, pois a sua chegada fez o coração dele acelerar, freneticamente.

— Ei bonitão, é melhor se acalmar — Ada brincou ao perceber que houve alteração no aparelho que monitorava os batimentos cardíacos dele.

"BONITÃO?!" Leon se viu perplexo e sentindo uma emoção acolhedora ao ouvir aquele apelido e, de repente se viu retribuindo o sorriso. Isso foi o suficiente para Sherry perceber a troca silenciosa entre eles, havia uma aura de atração pairando sobre os dois.

Sherry se sentia dividida entre a amizade forte que tinha por Leon e entre o dever e lealdade pelo seu capitão. Uma parte dela se sentia como se tivesse traindo a confiança de Chris por ajudar a Ada na sua fuga.

Convenientemente, o celular de Birkin resolveu tocar, se tornando um bom pretexto para a jovem sair do quarto e deixá-los sozinhos.

— Meu Deus! Parece que o dia tá… agitado lá fora! — Leon se forçou a dizer sem graça, ao se ver sozinho com Ada.

— Você não faz ideia! Tá um caos, mas você não deve se preocupar com isso agora.

— E para passar por todo esse tumultuo, você precisou se disfarçar?! — Apesar de estar ainda entorpecido pelos remédios, ele se atreveu a brincar com a situação e arrancou mais um sorriso dela. — Sei lá, esse lenço na cabeça e esses óculos... não são muito originais.

— Eu sei... Eu esqueci o meu melhor disfarce em casa. — Sem perceber ela deu dois passos mais próximo da cama, ficando mais perto dele. — Agora o senhor nos deu um baita susto. Ainda bem que você é conhecido por ser sempre o sobrevivente.

— Dizem por aí que vazo ruim não quebra — o estrangeiro repetiu essa frase que era típica de Ada Wong.

— Você sendo um vaso ruim?! Impossível! — exprimiu fingindo estar indignada. — Talvez, você seja a pessoa mais honesta, corajosa e chata que já conheci. Claro, que não vou ficar aqui enchendo o seu ego, enumerando as suas várias qualidades. — Sua voz aveludada e irônica era um sopro de calmaria no meio de todo aquele caos.

Houve um silêncio que dominou o quarto, tornando difícil descrever se aquele silêncio era confortável, ou estranho, ou assustador, ou todas as três opções. Eles se olharam, demoradamente, mesmo com os óculos escuros escondendo o olhar aflito dela. Até que Ele ousou erguer uma das mãos, alcançando a ponta do lenço dela e o puxou revelando os cabelos castanhos longos e lisos, com suas mexas douradas caindo sobre a sedutora face feminina.

— Ah, você estragou o meu disfarça! — Ela lhe deu outro sorriso torto, entretanto, por dentro a beleza oriental se sentiu nervosa com o olhar tão intenso que aquele estrangeiro lhe dava.

“Por que aquele homem continua mexendo tanto com as suas emoções?!”

— Ah, eu ainda estou com a sua camisa guardada. E eu vou mandar pra lavar. Só acho que talvez ela fique manchada, por causa das tangerinas — Ada começou a tagarelar, nervosamente. — Talvez, eu lhe compre uma camisa nova.

— Assim, você pode guarda a minha camisa manchada como recordação... para nunca mais se esquecer de mim — de novo ele diz aquelas coisas cheias de insinuações e a faz ficar perturbada.

— Por que você diz isso? — Ela precisa resolver essa confusão que está crescendo na sua cabeça e no seu coração. — Aconteceu alguma coisa entre nós no passado... que eu esqueci? — Aquela pergunta ficou martelando na sua mente e perturbou muito o seu sono, sobretudo, depois daquela conversa que tiveram enquanto colhiam tangerinas.

Naquele exato momento, os dois foram interrompidos por vozes ecoando do corredor. Abruptamente, ela se afastou dele e se virou para dar de cara com Sherry, Jake e Chris chegando no quarto.

— Capitão… — Sua voz não passava de um pequeno sussurro tímido.

— Li! — Em resposta, o capitão caminhou até ela e, propositadamente, abraçou a mulher de um jeito possessivo, enquanto um par de azul safira apunhalava as costas dela.

Leon olhou aquela cena se sentindo chocado e com uma inquietação que fazia seu peito arder. Ele vislumbrou o homem grandalhão segurar sua ex-amante entre seus braços e depois beijar os lábios dela sem se importar que eles não estavam sozinhos.

Todo esse jeito afetuoso do capitão, pegou Ada completamente desprevenida. Afinal, eles sempre foram discretos na frente de todo mundo. O que ela não fazia ideia, era que na mente ciumenta do Redfield, aquilo foi para provocar Leon.

Enfim, Sherry pigarreou para quebrar o clima entre o casal e trocou um olhar desesperado com Jake que revirou os olhos e sorriu com sarcasmo achando a situação do triângulo engraçada.

Quanto a reação de Leon? “Se olhares pudessem matar…”

— O que você faz aqui, Li? — Chris indagou encarando Ada que se sentiu meio acuada pela presença dominadora do capitão. — Você deveria estar na Fazenda onde é mais seguro e...

— Eu precisava te ver. Estar lá estava me deixando tão... ansiosa e preocupada. Ai aproveitei para visitar o senhor Kennedy. — Ada sorriu sem graça, olhando fugazmente para Leon que tinha uma expressão carrancuda e depois retornou a encarar Chris. — Nós ficamos muito assustados quando soubemos do atentado. Então, como você está? — Ela decidiu impor alguma distância entre eles, causando uma expressão de desgosto no rosto do capitão.

— Já passei por coisas bem piores... Isso aí não é nada! — Chris cruzou os braços e olhou entre Li e o paciente. — Houve muitos feridos como Leon. Pessoas morreram também, incluindo os três terroristas.

— Bom, o que importa é que vocês dois estão seguros. — Sherry disse tentando aliviar o clima. — E que a ameaça foi contida.

— A nossa sorte é que não foi um atentado com armas biológicas, ou vírus.

— Ainda bem. Se não o estrago seria maior e, talvez, ainda estaríamos lá tentando conter a ameaça.

Enquanto Sherry, Chris e Jake continuavam a tagarelar, Ada e o próprio Leon se mantiveram calados. Ela trocou um ultimo olhar com ele, antes de alguns minutos depois, o capitão da BSAA levá-la embora. Levá-la para bem longe do Conselheiro Presidencial.

No entanto, não importava quantas vezes esses dois se separavam, o Destino Inesperado já tinha planejado quando e como seria o próximo encontro de Leon e Ada.

{Continua...}