Destino Inesperado
13 Como Se Fosse A Primeira Vez

Lanshiang, China
Ada retornou para a Fazenda com Chris, Sherry e Jake numa viagem meio silenciosa, desconfortável e angustiante. Quando chegaram no centro de refugiados e os dois ficaram sozinhos, o capitão aproveitou para novamente discutir com ela. Ele não gostou de vê-la no hospital, sobretudo, no quarto em que o Kennedy estava internado.
— Eu já disse... fui lá para ver como você estava. E também aproveitei para visitar o senhor Kennedy... Por que você parece irritado com isso? Qual é o seu problema?
— Você é o meu problema! Por que você não percebe que... é perigoso se aproximar do Leon?
— Por que é perigoso se aproximar dele? — Ada cruzou os braços na frente do peito e lhe deu um olhar desafiador. — Isso tem a ver com o meu passado? O passado que eu esqueci?
— Não! — o capitão exprimiu meio atordoado com a pergunta dela. — Olha é... complicado. — Chris percebeu que a conversa estava indo por um caminho espinhoso, da qual ele não tinha permissão para falar. Ou, talvez, a questão era que ele tinha medo de tocar no passado dela que a ligava a Leon.
— Não me diga que você está assim por... ciúmes? — Ela estreitou os olhos em sinal de pura descrença. — Porque isso é muito patético! — E depois riu.
— Patético?! — Chris se sentia indignado abrindo e fechando os punhos. — E você é uma idiota arrogante! — Os dois se fuzilaram com o olhar.
— Chris! — A voz de Jill os interrompeu.
— Jill! — A carranca raivosa dele logo se suavizou e ele abriu um sorriso. Em seguida, Ada ficou em silêncio apenas observando os dois ex-parceiros se abraçarem.
— Eu senti a sua falta, cara!
— Eu também, Jill. É tão bom te ver. — E eles continuaram presos naquele abraço cheio de saudade e naquelas trocas de olhares penetrantes. Afinal, fazia um bom tempo que aqueles dois não se viam.
Percebendo que ela estava sobrando na história, Ada deu as costas aos dois e resolveu seguir o seu rumo, sem se despedir de ninguém.
A coordenadora-chefe esbarrou com algumas pessoas pelo caminho, porém resolveu ignorá-las e subiu para o seu quarto, seguiu até o banheiro, depois se livrou de suas roupas e entrou debaixo do chuveiro.
A água estava fria, mas foi bom para ajudar a acalmá-la e aliviar a enxaqueca chata que estava fazendo a sua cabeça latejar. De repente enquanto estava lavando os seus cabelos, Ada começa a ter um flash de memória muito estranho que envolvia vozes furiosas, barulhos de tiros e passos pesados que corriam por uma plataforma de metal.
Ada sente que sua cabeça vai explodir enquanto sua mente é invadida, repentinamente, por um fragmento de memória de um Chris Redfield apontando o seu fuzil na direção dela:
"Te peguei, Ada Wong!" Os olhos dele lhe encaravam com tanto ódio. Naquele instante, ela sentiu medo, estava vulnerável e encurralada. Então, inesperadamente, uma silhueta masculina surge e começa a atacar o capitão. Eles lutam e quando se separam é que reconhece quem era aquele homem.
"Leon!" grita o capitão apontando a arma agora para o agente americano.
"Chris!" grita Leon com a sua arma em punho, decidido a protegê-la da fúria do capitão.
"Você sabe o que ela fez! E, mesmo assim, vai protegê-la?!"
"Sim, eu vou."
E, com a mesma rapidez que aqueles flashes surgiram, eles somem.
— Ai! — Ada grita com a dor de cabeça e precisa se apoiar na parede para não cair. Ela se sente apavorada sem saber se aquilo foi real ou não.
Com dificuldade retorna para o quarto, veste qualquer roupa, depois vai até uma mesinha ao lado da sua cama, pega um remédio para a sua dor de cabeça e bebe com água, por fim, se joga na cama e apaga completamente.
***/ /***
A coordenadora-chefe tentou voltar a sua rotina na Fazenda, cuidando dos seus refugiados. Ela não teve mais daqueles flashes, porém durante a noite tinha alguns sonhos com aquele americano.
Ada achava que iria enlouquecer por estar sonhando com aquele estrangeiro que, aliás, era um homem casado. Talvez, ela também estivesse carente por um corpo forte e quente para lhe fazer companhia, já que ainda estava brigada com o capitão que, aliás, não veio se desculpar, continuou ignorando-a, ou a tratando apenas de um jeito profissional.
Além disso, Chris agora tinha a sua amiga Jill Valentine por perto. Eles estava muito grudados ultimamente.
Todavia, a beleza oriental precisava se concentrar nos problemas maiores que tinha, como por exemplo a chegada inesperada, ou não tão inesperada da assistência social que estava ali para cumprir a função de levar as crianças que ficaram órfãs para um abrigo, ou orfanato. E, entre essas crianças, estava Mei Chin que chorava porque não queria ir embora. Porque queria que Ada se tornasse sua mamãe.
— Mei Chin, eu sinto muito. — O coração de Ada se apertou encarando aqueles olhinhos inocentes. A menina começou a soluçar e se agarrou a cintura da mulher.
Claire e outros membros do centro de refugiados estavam ali assistindo aquele momento com o mesmo sentimento de aflição e impotência.
— Olha, eu... — Ada parou e se ajoelhou diante de Mei. — Hoje você vai com eles, mas eu prometo que vou dar o meu jeito e vou buscá-la pra ficar comigo. — A menina continuou a choramingar. A mente da ex-espiã trabalhava tentando criar alguma estratégia para conseguir ficar com a criança de forma legal.
— Ei, o que vocês estão fazendo? — A voz do capitão se fez presente. Ele tentou impedir que levassem a menina, tentou argumentar com a assistência social. Os ânimos ficaram um pouco exaltados.
— Espera! — Claire de repente tem um plano. — Há uma pessoa no centro de Lanshiang que pode nos ajudar. — Nessa hora, Ada e Chris trocam olhares.
E essa pessoa era nada mais e nada menos que o próprio Conselheiro Kennedy, que ainda estava se recuperando no hospital. Apesar de ser estrangeiro, ele tinha muita influência e, acima de tudo, arriscou a própria vida para salvar o Prefeito de Lanshiang.
O plano de Claire consistia em usar Leon para influenciar o Prefeito a impedir a transferência da criança para um orfanato. A curto prazo o plano acabou dando certo, bastou uma ligação para que a Mei Chin permanecesse na fazenda dos refugiados.
— Eu tenho uma boa notícia pra você, Mei. — A menina arregalou olhos com medo que a levassem embora. — Você não vai mais embora. Você vai ficar comigo. — A criança de 5 anos se jogou nos braços de Ada a derrubando. Chris e Claire acharam a cena divertida e fofa no meio de todo o caos.
No final, Ada conseguiu a custódia provisória da criança. Porém, isso não resolveria totalmente o problema. A outra solução seria se a ex-espiã adotasse a menina. A ironia era que ela nunca havia cogitado ser Mãe. Pelo menos, não antes de conhecer Mei-Chin.
— E mais uma vez, o Leon salvou o dia! — Chris cuspiu com petulância encarando Ada e depois foi embora irritado por não conseguir disfarçar o seu ciúmes. Ele queria fazer as pazes com ela, porém era orgulhoso demais para ceder.
***/ /***
Depois de passar mais alguns dias em observação no hospital, Leon enfim conseguiu receber alta. E, assim que foi liberado, o homem decidiu tomar um banho rápido e se arrumar, pois não via a hora de ir para sua casa e abraçar seus filhos e sua mãe.
Ele esperava que com o seu retorno para os EUA, a sua vida voltasse ao normal, mesmo que no fundo soubesse que isso era impossível. Especialmente, depois de reencontrar com aquele fantasma do seu passado, que ressurgiu para atormentar a sua mente e o seu coração.
— Merda! — exclamou assustado ao sair do banheiro e encontrar Ada sentada numa poltrona perto da janela. — O que você está fazendo aqui? — A mulher lhe deu um sorriso torto e se levantou vindo em sua direção. Hoje ela optou por usar óculos de sol com armação vermelha, a mesma cor do batom que cobria os seus lábios.
— Oi, eu vim apenas fazer uma visita rápida... — Sua voz vacilou um pouco enquanto seus olhos de traços orientais, vagueavam por entre a camisa social listrada que estava com seus botões abertos, revelando um peitoral masculino pálido, cheio de músculos e um grande curativo no meio do peito, que escondia uma nova cicatriz bem perto do seu coração. — Fiquei sabendo que você vai embora hoje. Então, vim me despedir e... trazer um presente! — Ela ergueu os óculos sobre a cabeça enquanto segurava entusiasmada uma sacola.
— O que é isso? — Ele pega a sacola meio desconfiado, e dentro dela havia um pacote de presente com um laço dourado.
— Deixa eu te ajudar. — Ada nem espera ele pedir, já vai abrindo o laço. — Achei melhor lhe comprar uma nova, a outra ficou manchada. — Mesmo que quisesse ficar irritado, o homem sorriu ao ver a camisa azul nova que ela perdeu tempo comprando. — Espero que sirva.
— Você não precisava fazer isso. — Leon pigarreou nervoso enquanto experimentava a tal camisa diante do olhar presunçoso dela. — Ainda mais porque tenho certeza que o seu... NAMORADO não iria gostar. — O seu tom ácido e a sua insinuação, pegou Ada desprevenida.
— Meu namorado? — Ada decidiu pressioná-lo achando curioso aquela atitude dele.
— Bom, o Redfield é um cara muito fechado, que não costuma trocar afeto em público. Então, ele beijou você...
"Bem na sua frente, esfregando na sua cara que eles não precisavam se esconder de todo mundo." Bem diferente da relação que ela tinha no passado com Leon, que se resumia a um romance secreto, com encontros escondidos e momentos de paixão fugaz. Depois a espiã sumia por semanas e até meses.
— Isso significa que vocês têm... alguma relação muito íntima. — Depois de abotoar a camisa, ele se sentou na cama ao lado de sua mala, onde pegou um par de meias pretas e as vestiu, tentando ignorar a estranheza daquela situação.
— Não que seja da sua conta... mas, Chris e eu... não estamos nos dando muito bem, ultimamente. — Ela não sabia o porquê estava se justificando.
— Tanto faz. — Tentou fingir que não se importava. — Isso não é da minha conta. — O homem estava tentando lutar contra aquele sentimento impertinente que ele não queria nem nomear, mas que era nada mais que puro ciúmes. — Eu estou um pouco com pressa, saio daqui a pouco. — Ele só desejava se livrar dela.
— Pode continuar se arrumando sem problemas. Eu não quero te incomodar. — Só que Ada sempre teve a habilidade de dificultar tudo para ele.
Na verdade ela estava gostando de apenas observá-lo naquela situação tão íntima e corriqueira. Isso atraiu a sua atenção para pequenos detalhes sobre Leon, como as suas roupas bem passadas, a escolha do terno preto e, por fim, ficou curiosa em descobrir qual cor de gravata o belo estrangeiro escolheria para combinar com a sua nova camisa que parecia se encaixar, perfeitamente, sobre o seu torso masculino bem definido.
— E a propósito, essa camisa ficou perfeita em você. — Seu elogio o fez corar.
— Eu confesso que é um pouco aterrorizante ficar sendo observado por você.
— Então, vou parar de ficar só olhando e vou ajudá-lo. — Ela caminhou numa postura sedutora fazendo o seu vestido amarelo de verão se mover, fluidamente acima dos joelhos, deixando exposta suas belas pernas longas.
— O que você acha que está fazendo? — Ele arqueou as sobrancelhas se sentindo desconfiado, enquanto a via se aproximar da cama e mexer na sua mala.
— Aqui. Acho que essa vai combinar. — Ela escolheu uma gravata lisa de cor bordô.
— Uau, uma opção ousada. — Leon se viu sorrindo achando que a escolha era bem a cara dela. Agora viria a parte mais inusitada de toda aquela situação. — Ela parou na sua frente.
— O quê?! Não! Eu posso fazer isso sozinho. — Foi no mínimo engraçado ver as várias expressões que cruzaram o rosto do homem estrangeiro.
— Relaxa, senhor Kennedy. Do que você tem medo? Que eu vá te enforcar com a gravata? — Sua voz aveludada era tão sedutora e seu sorriso sarcástico era contagiante.
"O que mais ele poderia fazer?" A sua razão mandava expulsá-la do quarto, mas o seu coração mandava-o ser gentil e aproveitar esse momento com ela, antes de ir embora, sem saber quando iria reencontrá-la. A sua vida já estava complicada mesmo.
Por um segundo, trocaram olhares cheios de tensão à medida que as mãos femininas subiam até os seus ombros largos e começaram a mexer na dobra da gola de sua camisa, sentindo arrepios a cada vez que aqueles dedos finos lhe roçavam a sua nuca. Ela continuou compenetrada, passando a gravata envolta do pescoço dele, trazendo as duas pontas para frente até enlaçar as duas partes e finalizar com um perfeito nó duplo.
— Bom, obrigado! — Sua voz estava mais rouca. — E, então, como estou? Acha que a gravata combinou com... o seu presente? — Ele lambeu os lábios como se antecipasse um beijo, sem imaginar que a aproximação dos dois, também havia mexido com ela.
— Acho que ficou muito elegante. — Houve um breve silêncio, quando nenhum dos dois sabia como fazer a conversa progredir. Talvez, eles deveriam se despedir e seguirem seus respectivos rumos, porém por algum motivo inexplicável, eles ainda hesitaram em dizer Adeus.
— Eu também aproveitei para vir aqui e... te agradecer. Graças a sua ajuda, eu consegui a guarda provisória da Mei Chin.
— Eu fico feliz em ajudar. Mas, eu não fiz isso sozinho. Isso só foi possível graças a Claire que me ligou e também ao Prefeito de Lanshiang que estava em divida comigo.
— Eu sei... Eu também resolvi... entrar com um pedido de adoção permanente.
— Uau! Você resolveu adotar a garotinha?
— Eu sei que isso é loucura, né? Eu nunca me imaginei um dia... ser mãe. — Suas mãos começaram a tremer.
— Eu acho que isso é incrível. — Leon decidiu segurar uma de suas mãos tentando acalmá-la. — Vai ser uma baita responsabilidade. Do tipo que não dá para fugir?
"Como depois de todos esses 20 anos, ele ainda conseguia deixá-la tão vulnerável e com o coração batendo desse jeito?!" Os dois ainda estavam em pé de frente para o outro. Ela se sentia tão abalada pela proximidade de seus corpos, do cheiro que emanava dele e daqueles lábios que pareciam estar só esperando por um beijo seu.
Os olhos cor de âmbar desviaram dos azuis de Leon para os lábios dele e, de repente, ela fechou a distância entre eles, demonstrando o que queria. A mente dele gritava para se afastar e fugir o mais longe possível dela, mas o seu coração tinha outros planos... O seu coração foi imprudente, o mandou ficar, fechar os olhos e se entregar àquele momento. Apenas deixar ser atraído, mais uma vez, pelo charme e poder daquela linda mulher.
As bocas se encontraram no começo tímidas, suaves, como se fosse o primeiro beijo trocado entre eles. Bem, de certa forma para Ada tudo parecia ser, como se fosse a primeira vez. A sala ficou mais quente quando seus próprios lábios exigentes aprofundaram o beijo, querendo sentir o gosto dele, apreciando também como Leon reagia a sua investida, beijando-a com a mesma paixão enquanto a mão masculina quente e macia lhe apertava a sua cintura, provocando-a e deixando-a tão embriagada, causando um frisson tão gostoso por todo o seu corpo e um sentimento de pertencimento.
Por um instante, eles se beijaram tão, vagarosamente, como se quisesse fazer o momento durar para sempre. Só que o PARA SEMPRE, no fim, nunca dura.
Eles se separaram sem fôlego, com o coração pulsando, desenfreadamente. Em seguida, ela se levantou da cama piscando várias vezes, atordoada não apenas com o beijo, mas também com... Com os pensamentos que começaram a ecoar na sua cabeça, deixando-a desnorteada e assustada. Eram flashes de momentos entre os dois, de palavras ditas por ele cheia de amor, raiva, decepção. Flashes de beijos e toques mais ousados. Eram memórias perdidas que para a mulher ainda não fazia sentido.
"Não! Isso era impossível! O que estava acontecendo com ela?!" Não era tanto o pensamento que a perturbava, mas sim o que isto significava sobre o seu próprio estado mental. Sua cabeça começou a latejar e suas mãos voltaram a tremer.
— Ada... Li... — Seus azuis pareciam tão atormentados.
"Droga!" Havia sido ela quem começou aquilo. Ela que mais uma vez conseguiu fazê-lo ultrapassar os limites. Ela que, mais uma vez, conseguiu envolvê-lo no meio de suas teias invisíveis para sempre mantê-lo em suas mãos. Só que agora Leon se sentia um homem velho e cansado para continuar jogando aquele jogo dela.
— É melhor você ir agora, senhorita Guimeng. — Leon se recompôs indo até a porta e a abrindo, esperando que aquela mulher seguisse seu rumo.
— Leon. — Ela ainda estava atordoada pelo beijo. — Depois de Raccoon City... a gente se viu outras vezes? Nós já nos... nos beijamos outras vezes? — Sua pergunta pegou Leon de surpresa.
— Olha, talvez, você tenha esquecido que eu... eu sou um homem casado. — Ele usou o casamento como pretexto, só para tentar se livrar dela e de seus questionamentos. E, talvez, fazê-la se sentir culpada.
— Ah, claro. Me desculpa, senhor Kennedy! — Sua voz era tão fraca e o olhar que ela lhe deu, fez seu coração se partir mais uma vez enquanto a via ir embora.
Ao sair Ada esbarra com Dexter que tenta cumprimentá-la, mas é ignorado. O guarda-costas encontra um Leon com uma expressão sombria, segurando em suas mãos o que parecia ser um óculos de sol que, logo, deduziu de quem era.
— Chefe, aconteceu alguma coisa? — Leon fez apenas um não com cabeça e, rapidamente, guardou o pequeno acessório feminino no bolso da calça. Depois se trancou no banheiro tentando aquietar o seu coração e apagar as evidências do seu ato impulsivo. Seus lábios ainda estavam sujos do batom vermelho dela.
{Continua...}
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