Destino Inesperado

14 Memórias Corrompidas


Notas iniciais
Esse capítulo contém algumas cenas de flashbacks extraídas da minha história: Segredos de Sangue Livro 1. A mente da Ada nesse capítulo tá uma bagunça.


Lanshiang, China

Infelizmente, nas últimas semanas, Ada estava tendo problemas para dormir, para comer e até para trabalhar. Seu humor também estava sendo afetado, volte e meia ela discutia com alguém, especialmente, com os irmãos Redfield. Ela tentou justificar que seu estresse era por causa do processo de adoção de Mei Chin que ainda estava em andamento. Entretanto, a mulher sabia que seus problemas estavam ligados a um certo quarto de hospital e ao dono de olhos azuis.

Aquele beijo a fez sentir como se uma faísca tivesse acendido dentro dela. Uma faísca mais profunda e perigosa do que a própria atração fatal que sempre existiu entre os dois. Havia esse sentimento tão forte que, por algum motivo ficou adormecido, até que fosse despertado pela boca possessiva e pelos lábios macios de Leon Scott Kennedy.

Aquilo foi um erro. O homem era casado e era o Conselheiro da Segurança Nacional dos Estados Unidos. Ela tinha que parar de pensar nele.

Ela tentou se distrair com a festinha simples de despedida que fizeram para Claire e Jill que iriam embora no dia seguinte. E, em algum momento, se pegou observando Chris conversando com a Valentine, os dois pareciam conversar de forma despreocupada e havia umas trocas de olhares e sorrisos entre eles.

— Uhh... olha só quem eu encontrei aqui espiando?! — sussurrou um Carlos brincalhão. Ela se virou e deu um sorrisinho sem graça. — Você não vai se despedir? — ela percebeu o olhar chateado dele direcionado a dupla.

— Eu já me despedi. — Ela mentiu. — E você vai sentir a falta dela? Na verdade você ainda gosta dela.

— Isso foi uma pergunta, ou uma afirmação? — Com certeza ele ainda gostava da ex-mulher.

— Acho que os dois.

— Eu acho que eu já perdi a minha chance. — Carlos olhou para sua ex-esposa com carinho e depois olhou novamente para Ada. — E você já desistiu do Redfield? — ele retrucou.

— Eu não sei quem é mais babaca, você ou ele! — ela o provocou e ambos riram.

— Qual foi a piada, queríamos ouvir também? — A voz rouca de Chris estava afiada.

— Era sobre você. Pra mim você sempre será uma boa piada. — Carlos falou sarcasticamente dando um soco forte no ombro de Chris, fazendo o homem grandalhão rosnar furioso. Ada poderia dizer que o ciúme pairava no ar.

— Ei pessoal, vamos relaxar aqui! — A voz de Jill soou bastante autoritária, o mesmo tom que usava em sua época na BSAA. — Como você aguenta esses dois?

— Não se preocupe, eles não vão se matar. Cão que ladra não morde! — Ada fuzilou Chris com o olhar. Depois as duas mulheres se despediram meio desajeitadamente.

Assim que conseguiu se livrar de todo mundo, Ada seguiu para o seu quarto e foi tomar um banho demorado e reconfortante.

— Oi. — Quando saiu do banheiro se deparou com um certo capitão, sentado em sua cama. Ele possuía uma expressão animada ao vê-la ali de banho recém-tomado, cabelos molhados, cheirando a shampoo e um corpo esbelto e muito cheiroso coberto apenas por aquele robe de seda de cor escarlate.

— Você invadiu o meu quarto. — Ela lambeu os lábios fazendo olhos dele serem atraídos para a sua boca. — O que você quer? — Depois cruzou os braços na frente do peito.

— Fazer as pazes. — Ele se levantou e começou a se aproximar dela. — Eu senti a sua falta. — Em seguida, ele a puxou para os seus braços.

— Ué, cadê a Valetine para te fazer companhia?

— Uau, você fica mais sexy com ciúmes!

— Cala a Boca!

“Ela precisava de uma distração. E Chris seria a sua distração perfeita.”

Seus lábios, imediatamente, se chocaram num beijo cheio de saudade. Por um instante, a beldade aproveitou para se afastar dele só para voltar a trancar a porta lhe dando um sorriso muito malicioso. Ele se sentou olhando fascinado para a linda mulher que caminhou, sedutoramente, até parar na sua frente a poucos centímetros do seu toque e começou a desatar o laço de seu robe de seda, revelando seu corpo nu.

— Então, estamos fazendo as pazes? — Ele perguntou a puxando sobre seu colo, enquanto o robe escarlate era esquecido no chão.

— Sim. Então, faça valer a pena! — Ele a calou com outro beijo ainda mais faminto que o outro. E depois de ajudá-lo a se livrar de suas roupas, Ada sentiu o homem gentilmente arrasta-los para o meio da cama ficando com seu corpo grande e forte sobre o dela, em seguida, passou a devorar seus lábios e seu corpo, distribuindo beijos molhados desde sua boca, pescoço, seios, descendo pelo umbigo até se demorar entre suas pernas, beijando e lambendo seu ponto mais sensível e lhe causando o primeiro orgasmo.

Instintivamente, Ada fechou os olhos entorpecida pelo momento de êxtase e, acabando por ser surpreendida por um flash de memória, que resolveu aparecer no momento mais inoportuno, criando uma armadilha perigosa dentro de sua própria mente:

De repente, aquele perfume masculino que se grudava a seu corpo tinha mudado a sua essência. De repente, o rosto sisudo com aquela barba por fazer e que lhe fazia cócegas, havia desaparecido e dado espaço para uma face jovem de expressões mais suaves com aquele furinho no queixo lhe davam um ar quase angelical. De repente, os cabelos pretos com algumas mexas grisalhas se confundiam com loiros. De repente, a pele bronzeada se transformava num branco quase pálido que possuía uma cicatriz em especial cravada no ombro esquerdo. De repente, os olhos arrogantes ganham tons de azuis gentis.

Naquele momento, Ada/Li estava presa entre dois mundos: onde a realidade e a ilusão se misturavam e o passado e o presente se confundiam entre si. Ela se sentiu presa entre dois homens tão apaixonados e capazes de confundir a sua mente e seu coração. Dois homens tão diferentes, mas ao mesmo tempo, tão parecidos.

Chris/Leon retornou a fundir seu corpo no dela como se quisessem se tornar um só e ali eles se perderam no meio daquela névoa gostosa de luxúria, paixão e algo mais profundo.

"Leon!" Ada reabriu os olhos só para se ver refletida nos olhos tempestuosos de Chris à medida que a imagem e o nome de Leon ficavam presos nas profundezas de sua mente.

— Parece que não fui o único a sentir saudades — o capitão murmurou feliz e satisfeito, segurando a mulher em seus braços. Ada não negou nem confirmou, apenas deitou a cabeça no peito dele e deixou que os braços de Chris a consolassem, enquanto seu coração se sentia pesado pela culpa e pela dor.

Por um instante, tudo o que ela podia ouvir era o pulsar do coração dele, batendo em seu ouvido no meio daquele silêncio perturbador que parecia ameaçar devorá-la. Não demorou para os braços que a serpenteava começar a fazê-la se sentir sufocada, obrigando-a a colocar algum espaço entre eles.

— Ei, aonde você vai? — questionou Chris. — O que está acontecendo com você? Tem algo errado? — Mas, Li não conseguiu responder e se afastou ignorando os protestos dele, depois se levantou buscando o seu robe e se vestindo, apressadamente, quase como se quisesse se esconder do capitão.

— É melhor você ir embora! — Ada não conseguia encara-lo.

— O que foi que acabou de acontecer entre nós, afinal? — ele ficou perplexo com a atitude dela e começou a se vestir furioso. — Li, olha para mim! — depois segurou os braços dela e a forçou a encara-lo. — O que aconteceu?

— Eu me lembrei! — ela grita transtornada e deixa Chris imediatamente tenso. — Quer saber, eu... eu... tô confusa! Confusa pelo que eu sinto por você... Confusa pelo que eu sinto por... por Leon. — Suas palavras eram sinceras e, igualmente, cruéis.

— Então, esse é o seu problema? Leon?! Quer saber, foda-se você e ele! — esbravejou constatando que ele mesmo não era tão diferente de Leon como pensava.

“Ambos se deixaram levar pelos encantos daquela mulher, se apaixonaram e no fim se ferraram.”

— Espera! Você mentiu para mim! — Ela vociferou dessa vez demonstrando raiva e ignorando, completamente. o rosnado de desgosto dele. — Você tem ciúmes dele, porque você sabia que eu tive um passado com ele? — Havia uma necessidade de preencher as lacunas que existia em sua mente. — Vamos, fala a verdade!

Houve uma pausa demorada e aterrorizante, antes que Redfield decidisse lhe responder.

— Você esteve com o Kennedy e ele não te contou a verdade? Por que será? — Seu tom era amargurado e seu olhar era mordaz. — A verdade era que Leon conseguiu sair dessa relação tóxica e perigosa quando percebeu que você era a mulher errada para ele. Quando conheceu Angela e percebeu que podia seguir em frente sem você. — Ele agiu de forma vingativa, querendo machucá-la da mesma forma que ela estava o machucando. Entretanto, quando olhou para aqueles olhos lacrimejados, imediatamente, se arrependeu e tudo só piorou...

Subitamente, Ada começa a gritar de dor, sua cabeça começa a latejar tão forte que a deixa tonta, Chris precisou segura-la em seus braços para impedi-la de cair.



Washington, D.C.

Um Mês Depois...

—Ei Leon, acorda! — uma voz baixa murmurou ao lado dele. Era Angela que havia acabado de chegar do trabalho e o encontrou cochilando no sofá da sala com as duas crianças.

— Desculpe, estava tão cansado... — Ele entregou Antony para Angela, enquanto pegava a filha mais velha no colo, que se agarrou ao pai, como se os braços dele fossem o lugar mais seguro do mundo..

— Tudo bem. Cuidar das crianças é cansativo mesmo... — O casal carregou as crianças para o quarto.

— Ei, você deve estar faminta. Tem macarronada e podemos compartilhar uma garrafa de vinho. — Ele tentou puxar conversa com Angela, depois de deixarem as crianças dormindo e saírem para o corredor.

— Eu não estou com fome, mas aceito uma taça de vinho. — Eles desceram para a cozinha e iniciaram uma conversa qualquer sobre o fim das férias antecipadas de Leon.

Por conta do atentado que sofreu na China, a Presidente decidiu que seria bom para o seu Assessor se afastar das suas tarefas na Casa Branca, assim, o homem poderia tirar um tempo para se recuperar física e psicologicamente. Dessa forma, Leon acabou ganhando um mês de férias forçadas.

Obviamente, o homem tentou aproveitar como podia seu tempo livre, cuidando dos filhos, os levando para a escola e brincando com eles, coisas tão simples que não poderia fazer se tivesse no trabalho. Além disso, o casal estava em processo de separação, o que logo afetaria a sua rotina com as crianças.

Essa é a pior parte da separação, pensar que não poderá ver os filhos todos os dias.

— Amanhã você retorna para a Casa Branca. Você deve estar feliz com isso. — Angela ironizou enquanto degustava sua taça de vinho.

— Feliz é uma palavra muito forte. Só vou cumprir o meu dever — Leon admitiu com uma expressão séria. — Mas pelo menos vou poder ocupar a mente com os problemas do país.

— Os problemas do país são mais fáceis de lidar do que a sua vida privada, senhor Kennedy? — A língua de Angela estava afiada ultimamente. Leon ficou quieto e perdido em alguns pensamentos conflituosos. Por um instante, deixou um silêncio desconfortável pairar sobre a sala, ao mesmo tempo em que o casal bebia, respectivamente, suas taças de vinho.

Embora eles estivessem separados e Leon dormisse em outro quarto, o casal continuava mantendo uma relação ao menos amigável, sobretudo, por causa das crianças. No entanto, quando não havia ninguém por perto, as coisas eram bem estranhas entre eles, era sempre um clima de tensão.

— Leon! — Angela colocou uma pasta com novos papéis sobre a mesa.

— Ah, mais papeis para eu assinar? O que é isso agora? — Ele começou a folhear o papel percebendo que era sobre o processo de guarda compartilhada.

— Eu já montei até o cronograma para os dias que cada um de nós ficar com elas, incluindo finais de semana e feriado.

— Angela, sempre objetiva e calculista... Você parece que já planejou tudo?! — Leon resmungou com o coração martelando, nervosamente, no peito.

— Ao contrário de você, Leon, eu cumpri a minha promessa... — Ela tentou ser cautelosa com suas próximas palavras. — Eu quero que esse divórcio saia logo para que... eu posso seguir a minha vida, sem ficar presa a uma relação que não tem futuro.

— Você fala de um jeito. Parece que nunca foi feliz comigo! — ele murmurou amargurado, se sentindo uma merda como homem.

— Como eu poderia ser feliz com alguém que sempre esteve com o coração em outro lugar?

–– Eu sei que eu falhei com você, mas... mas, eu te amei, Angie! — Ele bate sua taça vazia sobre a mesa, deixando Angela mais irritada.

— Não como você amou aquela sua ex... que você chamava de... A Pessoa Errada — ela enfatizou deixando Leon desconsertado. Ele abriu e fechou a boca tentando dizer alguma coisa, porém não conseguiu. Sua mente, traiçoeiramente, o fez pensar em Ada e isso o fez colocar mais vinho em sua taça e beber um grande gole.

Quando ele e Angela começaram a namorar, era natural que em algum momento eles revelassem coisas intimas do seu passado. E no meio dessa conversa, o homem deixou escapar que seu último relacionamento não terminou de uma forma amigável.

Ele nunca citou o nome de Ada, apenas se referiu a ela como uma pessoa complicada, cheia de segredos e mentiras e que foi por isso que a relação não durou. Porque Ela era a... “A PESSOA ERRADA.”

— Quando você estava dormindo com as crianças, você estava murmurando um nome... — Imediatamente, Leon ficou tenso. — Vou confessar que não é a primeira vez que te vi murmurar esse mesmo nome. Só que antes eu tinha medo de perguntar quem era ela? — Angela parou e ficou estudando as feições do rosto de seu agora ex-marido, percebendo que ele ficou carrancudo. — Seria Ada a mulher que partiu seu coração no passado? A Pessoa Errada?

— Quer saber, está tarde e eu tô cansado… — Ele se levantou e seguiu para a sala, Angela fez o mesmo.

— Eu fiz umas pesquisas e falei com Claire e descobri que você conheceu uma Ada em Raccoon City... Ada Wong.

— Que loucura é essa! — Leon exclamou irritado, assim que Angela correu na sua frente e o impediu de subir as escadas.

— Claire já havia feito algumas insinuações sobre Ada Wong... Mas, antes eu não dei importância. — Angela continuava o encarando. — Olhe para mim e seja sincero, Leon. Pela última vez, seja sincero comigo! — Ela ergueu a suas mãos e segurou o rosto dele o forçando a olhar no fundo dos seus olhos. — Você foi amante daquela espiã?

— Eu sei o que você está tentando fazer comigo. Mas, não vai conseguir, Angela. — Ele precisava manter a calma, antes que as coisas saíssem do controle. — Acabei de tomar uma decisão agora. Vou sair dessa casa amanhã! E a partir de agora, manda os papeis para o meu advogado. — Leon subiu as escadas com o coração batendo acelerado. Não tinha mais como os dois ficarem debaixo do mesmo teto.

A verdade era que justamente agora em que estava num processo de divórcio e também da guarda dos filhos, Leon tinha que ser bastante cauteloso com cada passo que dava. E principalmente não podia deixar que o seu passado com Ada Wong fosse descoberto e usado contra ele no tribunal.

Londres, Inglaterra


​Dentro do aparelho de ressonância magnética funcional, Ada teve suas atividades cerebrais monitoradas enquanto observava imagens de rostos conhecidos, pessoas com quem deveria ter uma forte ligação afetiva: seu pai, sua irmã, a mãe, o pessoal do centro de refugiados e a pequena Mei Chin. Por último, surgiu uma quarta imagem que a pegou totalmente desprevenida, fazendo suas ondas cerebrais dispararem e seu coração falhar uma batida. A foto havia sido tirada no CAVB, quando Leon visitou o lugar.

​Ao término do teste, a neurologista e Ada pararam para analisar os resultados. A doutora explicou, minuciosamente, as reações registradas: os pontos em laranja brilhante mostravam um aumento súbito no metabolismo e no fluxo sanguíneo de regiões como o hipocampo — responsável pela memória e o centro emocional do cérebro.

— Percebi essa grande alteração, principalmente, depois que você viu a última foto. É como se essa foto tivesse lhe causado uma lembrança forte.

"Sim, quando viu a foto, automaticamente, sua mente a fez se lembrar que ela havia beijado Leon naquele quarto de hospital."

— Esse pico de atividade no seu hipocampo explica as enxaquecas fortes que você sente logo em seguida. Seu cérebro está lutando para processar essa descarga de adrenalina... Agora que tal falarmos sobre esses sonhos repetidos que você tem tido e esses flashes de memória. — Os olhos grandes e bastantes expressivos de sua neurologista pareciam brilhar de entusiasmo. — Quando você acha que esses episódios começaram?

— Ah, eu... eu reencontrei uma pessoa que não via há uns vinte anos.

— Uau, vinte anos é muito tempo! E o que você sentiu ao reencontrar essa pessoa?

— Foi um turbilhão de emoções. — Ada se afastou um pouco da mesa, apoiando as suas costas e a cabeça no encosto de sua poltrona e ficou pensativa. — Foi bom reencontrar essa pessoa, mas...

Durante a noite, a cada vez que fechava os olhos para dormir, ela sonhava com uma vida que quase parecia tão perfeita:

"Caramba, isso foi..."

"Maravilhoso!" diz a espiã o interrompendo, ambos estão deitados com os seus corpos nus entrelaçados, suados e, completamente saciados de tanto prazer. Por fim, Ada sempre beijava o ombro de Leon onde estava cravada a marca do tiro que ele levou por ela em Raccoon City.

"Eu te amo, Ada Wong!" sem vacilar, Leon se declarou. "Eu te amo!"

Todavia, aqueles doces sonhos nunca duravam, pois repentinamente, convertiam-se num terrível pesadelo:

"Já disse pra você parar com os jogos!" Leon disse se esquivando friamente dela. "Eu não sei o que você é, ou o que você quer de verdade, mas sei que nunca mais você vai me manipular." Não era apenas o sentimento de rejeição que ela sentiu, era algo mais profundo. "Eu nunca mais vou confiar em você, Ada Wong. Nunca mais..."

— Por causa dele agora eu tenho esses flashbacks e esses sonhos estúpidos! — Ada continuou a desabafar ainda presa naquelas lembranças de suas noites agitadas.

— Você está se lembrando aos poucos do seu passado.

— Mas, por que só agora eu comecei a lembrar dessa parte do meu passado?

Durante os últimos seis anos, os médicos da Shadows acreditavam que a amnésia da filha de Trent fosse uma das sequelas do T-veronica. Mas, a sua neurologista começou a acreditar que a perda de memória fosse um fator psicológico. Uma questão puramente emocional.

— Eu acredito que esse reencontro, com esse ALGUÉM do seu passado, serviu de gatilho para trazer à tona algumas memórias que você reprimiu, porque lhe causavam dor e sofrimento.

Em uma consulta anterior, a médica já havia cogitado que o caso de Ada fosse a Repressão de Memória que era o esquecimento de lembranças dolorosas e traumáticas. Essas lembranças foram mantidas fora da consciência, mas estavam lá escondidas na parte mais profunda e obscura de sua mente.

— Eu sei que isso pode ser assustador, mas acredito que essas lembranças continuarão a retornar pouco a pouco.

— Mas e se... eu não quisesse me lembrar dessas memórias. — Porque agora ela percebeu que tinha sido mais feliz, quando não se lembrava de Leon. — O que eu devo fazer?

— Você não tem como impedir esse processo e nem como forçá-lo a avançar. Tem que deixar acontecer, naturalmente. — Ada assentiu, embora soubesse que isso seria difícil, mas ela sempre poderia continuar a fingir. — — Agora você precisa tirar um tempo para cuidar de si mesma e continue tomando os seus remédios. Acima de tudo, não se isole e faça aquilo que te faz feliz.

— Mas, e se nada mais me fizer feliz?

***/ /***



Li retornou para a sua mansão, embora achasse que o enorme lugar sofisticado não era de fato seu. Não importava quanto tempo ficasse em Londres, compartilhando o mesmo espaço com o seu próprio pai, sobretudo, após descobrir que Trent escondeu a verdade sobre o seu passado com Leon e ainda manipulou Chris a mentir.

Na verdade todo mundo ao seu redor ajudou a mentir. O próprio Kennedy — o herói americano, também não foi lá muito honesto com ela.

Quando chegou a mansão estava silenciosa, Trent ainda não havia chegado de sua viagem, deixando a casa aos cuidados dos seus empregados. Rapidamente, cumprimentou a governanta e subiu as escadas indo para o segundo andar. Ela se viu parando na frente de um quarto que ficava no final do corredor e entreabriu a porta.

Ali já foi a casa de Elise Mei e ali estava cheio de recordações dela, havia até esse quarto intacto com todas as lembranças da outra gêmea, como fotos, roupas, sua agenda pessoal, outros objetos que mostravam um pouco da própria personalidade de Mei. Ada passou o mês inteiro trancado naquele quarto, na tentativa de se conectar com a irmã, mas era uma grande bobagem, pois a conexão entre as duas ficou no passado distante, antes dela perder a sua memória.

— Senhorita Li, seu pai acabou de chegar. E trouxe um presente para você. — A governante veio chamá-la com uma expressão alegre que deixou Ada desconfiada.

Então, assim que começou a descer as escadas ouviu a voz de seu pai e um gritinho infantil. Assim que a menina lhe viu soltou a mão de Trent e correu na direção de Ada que estava surpresa, emocionada e de repente ficou tão feliz ao ver Mei Chin ali.

— Ah, me perdoe pequena, por ter sumido. — Ada pegou a menina no colo que se agarrou a ela cheia de saudades. A criança sussurrou em seu ouvido que achou que a mulher tinha a abandonado e ficou com tanto medo. Ouvir aquilo fez seu coração ficar apertado. — Sinto muito, Mei... Eu prometo que não vou te deixar de novo!

— Trouxe ela para morar com a gente. Agora Mei Chin faz parte da família. Minha neta e sua filha, Li. — O velho a olhou cheio de esperança de que isso iria amolecer o coração dela.

— Eu ainda não te perdoei. — Ada decidiu deixar isto bem claro.

— Eu sei... mas é um começo, certo?! — Seu pai lhe deu um sorriso.

O homem passou as últimas semanas se sentindo culpado por mentir para filha todos esses anos. As mentiras tiveram consequências. Ada aos poucos começou a ter alguns fragmentos de memória sobre sua relação com Leon. No final, esconder a verdade só causou mais dor e sofrimento para Li.

Li chegou a se afastar do centro de refugiados, por um mês, não atendia a ligação de ninguém. Se isolou dentro da mansão e chegou a ameaçar o pai de sumir sem deixar rastros. Ela teve uma crise de identidade, depois da última discussão que teve com Chris, depois das lembranças de Leon começarem a voltar e a verdade começar a vir à tona. Subitamente, a mulher começou a sentir que a sua vida era uma mentira.

Ada começou a achar que não se encaixava naquela vida como doutora Li Guimeng, Biomédica, ativista e futura mãe. Ela achava que não merecia nada daquilo por causa do seu passado como a espiã Ada Wong. E sendo honesta consigo mesma, no fundo, sentia falta de ser apenas aquela mulher fatal que não temia nada, nem mesmo a morte.

— Sabe o que eu acho... — Seu pai se aproximou dela enquanto observavam a menina conhecendo o seu novo quarto, cheio de brinquedos e tudo o que ela precisasse. Ali a criança seria bastante mimada. — Você tem que parar de tentar ser forte o tempo todo, achando que pode resolver tudo sozinha. Agora você tem uma família, amigos... Agora você tem a Mei.

— E se eu falhar? E se eu não for uma boa mãe?

— Toda mãe e... pai... — Ele hesitou enquanto trocava um olhar com a filha. — Comete erros. E muitas vezes erramos por amor. Você vai entender isso agora que você tem essa menina linda para criar e ensinar tudo.

Trent ficou tão surpreso quando conheceu aquela garotinha com o mesmo nome da sua outra filha já falecida. Seria uma coincidência, ou coisa do destino? Seja como for, ele queria acreditar que aquela criança pudesse ajudar a curar muitas mágoas e, sobretudo, ajudasse a superar o passado.

{Continua...}

Notas finais
E agora o que será que vai acontecer com a Ada, depois de descobrir a verdade?