Destino Inesperado

15 Apenas um Beijo de Boa Noite


Notas iniciais
Olá, boa noite! Saindo mais um capítulo. E aproveitar pra agradecer os comentários que recebi hj. Vcs fizeram uma autora muito feliz🥰❤️

Washington, DC

Enquanto as crianças brincavam de pular na sua cama, Leon terminava de arrumar as suas coisas com a ajuda de sua mãe. Hoje o dia começou diferente.

— Papai, você vai viajar de novo? — Natalie parou de pular e ficou olhando para as várias malas que estavam prontas no canto do quarto.

"Como ele ia explicar isso?" Pensou aflito encarando Angela que estava de braços cruzados encostado na porta.

— Papai vai precisar se mudar por um tempo — Angela explicou sem rodeios.

— Por que o papai não pode ficar aqui com a gente? — a menina continuou a indagar com sua voz infantil e seus olhos azuis parecendo tristes.

— Ei, o papai vai morar em outra casa, mas vai continuar vendo vocês. E a casa dele é aqui pertinho. — Leon pegou os dois filhos no colo sentindo um nó se formar em sua garganta.

— É, vocês vão ganhar duas casas. Uma da mãe e outra do pai — Angela afirmou tentando amenizar as coisas.

— Ei, princesa, não chore! — A menina abraçou Leon mais apertado e começou a chorar, parecendo entender bem o que está acontecendo com seus pais. Ao ver a irmãzinha chorar, Antony também chorou, fazendo os dois adultos trocarem olhares melancólicos.

Ele ainda aproveitou para levar os seus filhos para a escola, sabendo que a partir de agora a rotina deles mudaria. Depois disso, Kennedy passou o dia todo nervoso, estressado, sem paciência para toda aquela rotina cansativa da Casa Branca, mas teve que se controlar ao máximo para não explodir com ninguém.

Era difícil para Leon manter sempre uma postura cordial e sociável quando de fato queria apenas ficar recluso em sua sala. Nessas horas era que mais sentia falta da adrenalina de ser apenas um agente secreto, porque era fazendo as suas missões que podia descontar suas frustrações e toda a sua fúria, enfrentando vilões, ou matando algum monstro.

De qualquer forma, já não adiantava continuar a se lamentar, o jeito era encarar os fatos com a cara e a coragem e concluir o seu trabalho.

Sua rotina na Casa Branca continuava a mesma, reuniões diárias com a Presidente, o seu Vice, ou lidando com burocracias políticas e cuidando da Segurança Nacional. E, enquanto podia focar no trabalho, os seus problemas pessoais eram facilmente esquecidos. Entretanto, sua rotina normal estava prestes a ser afetada com a chegada do capitão da BSAA.

Chris estava ali a pedido da Presidente Okoye. Eles tiveram uma reunião para falar sobre várias coisas, inclusive do atentado que o Conselheiro da Segurança Nacional sofreu na China e também da sua visita no CAVB.

— Leon disse que a tal Fazenda é incrível. Então, percebi que seria muito bacana se criássemos um centro de refugiados aqui na América. O que acham?

— Bem, acho a ideia muito interessante, senhora Presidente. Mas... — Respondeu Chris de forma educada, após sorver um pouco do seu café. — Mas, essa decisão tem que ser puramente solidária e não por um interesse político.

— De forma alguma, capitão! A verdade é que os Estados Unidos tem um dever moral de corrigir os erros do passado. Devemos isso as várias vidas que se foram em Raccoon City, Tall Oaks, Lanshiang... — Devemos isso, aos sobreviventes do bioterrorismo... E também era o que Adam Benford iria querer... — Okoye se permitiu relaxar um pouco com aquela ideia. — Esse projeto seria, acima de tudo, em memória do meu marido.

— Poderíamos chamá-lo de Instituto Adam Benford. — Leon sugeriu quando a ideia rapidamente passou pela sua cabeça.

— Isso já é um começo. — Os três compartilharam um sorriso esperançoso, enquanto aproveitavam para apreciar os cheesecakes de framboesa.

— E eu também pensei em chamar a sua irmã e a doutora Li Guimeng para nos ajudar nesse projeto. — Isso fez os dois homens compartilharem um olhar apreensivo ao ouvir o nome da beldade asiática.

— Não sei se isso é uma boa ideia. — Chris respondeu, automaticamente, lembrando que Claire e Ada não tinham se dado bem. Além disso, havia um outro contratempo. — Li se afastou do CAVB para cuidar de problemas pessoais.

— Aconteceu alguma coisa com ela? — A pergunta de Okoye deixou Leon ansioso pela resposta.

— Ela adotou uma criança. E agora a menina precisa se adaptar a sua nova casa em Londres e a sua nova família. — Chris deu uma meia verdade.

Li sumiu de Lanshiang e até agora continua ignorando as suas ligações. Ele sabe que ela está magoada, com raiva por conta das mentiras. Se passou mais de um mês e a mulher continuou evitando todo mundo.

Agora será que se Leon entrasse em contato com Ada, ela também iria ignora-lo? Será que Leon não seria a única pessoa a trazê-la de volta do seu isolamento?

Chris se sentia culpado, ao mesmo tempo em que estava com o orgulho ferido, isso o faz encarar Leon com um olhar raivoso. E o Conselheiro Kennedy sentiu a tensão que pairava no ar.

***/ /***

Depois daquela estranha reunião na Casa Branca, o Assessor Presidencial e o capitão Redfield se encontraram em um bar próximo do Hotel Hay-Adams, lugar onde Leon estava ficando atualmente, desde que decidiu sair de casa. Ele encontrou Chris sentado numa mesa bebendo sozinho.

— Bom, eu assumo daqui! Você pode ir. — Ele mandou Dexter (que sempre estava na sua cola) se afastar, deixando os dois homens para conversarem em particular.

— Olá, Kennedy. — O chefe da BSAA lhe serviu um pouco do que parecia ser Jack Daniel's.

— Redfield, o que está acontecendo com você? — Leon se sentou na sua frente, olhando para o copo cheio, mas sem bebê-lo de imediato.

— Sabia que... ela foi embora da nossa Fazenda e agora não quer voltar? — Chris bebeu mais uma dose do uísque.

— Eu não estou conseguindo te entender. — Leon se sentia confuso e preocupado com a situação do capitão.

— Você tinha razão... ela fugiu — Chris desabafou diante da expressão perplexa de Leon. — E você... é o culpado disso! — Ele encheu novamente o seu copo.

— Ei, vai com calma! — Leon resolveu puxar o copo para longe de Chris. — Você e a doutora Guimeng brigaram. É isso?

— Sim. Ela começou a... a... a se lembrar... — Mesmo já começando a sentir os efeitos do álcool em seu organismo, Chris sussurrou cautelosamente. — Ela lembrou de você, Leon. — Por um instante, os dois homens apenas se encararam, cada um preso em seus próprios pensamentos conflituosos.

— O quê?! Você está falando sério? — Leon piscou várias vezes, ainda atônito com aquele comentário.

— Sim, estou. — Ele resolveu pegar a garrafa e beber no gargalo, fazendo Leon revirar os olhos para a sua atitude. — Você deve estar feliz agora. Agora que ela está se lembrando do passado. Agora que ela me odeia.

— Para com isso, Chris! — Leon cerrou a mandíbula tentando se controlar e não chamar atenção. — Para de agir como um namorado ciumento! — de repente a sua dura afirmação fez Chris recuar como se tivesse levado um soco na cara.

Leon estava pronta para enfrentar uma reação explosiva, ou pelo menos prepotente do capitão, ainda mais com o grandalhão começando a dar sinais de embriaguez. Entretanto, não foi exatamente o que aconteceu a seguir...

— Você tem razão, Leon. Eu sou um estúpido por agir assim... como se eu fosse o namorado dela. — O grandalhão de repente ficou cabisbaixo com uma expressão derrotada. — Eu queria... eu quis que nossa relação fosse mais do que... uma amizade colorida... Mais do que apenas sexo...

Kennedy não queria ouvir mais nada, inclusive os detalhes sórdidos da relação íntima entre o Redfield e Ada. Só de imaginar os dois juntos, se beijando, compartilhando a mesma cama, o deixava enojado. Mas, ele também sabia que não tinha nenhum direito de se sentir como se tivesse sido traído pelos dois, afinal, ambos eram livres e desimpedidos.

— Olha, eu acho que você já bebeu demais! — Leon se levantou fazendo um gesto para que Dexter; que estava no balcão do bar flertando com a bartender, viesse o ajudar a arrastar Chris para fora do bar.

— Vamos embora, já?! — O seu guarda-costas não parecia animado.

— Eu tô ótimo! — cortou Chris, teimosamente, empurrando Dexter para fora do seu caminho, quase caindo ao tentar se levantar sozinho, em seguida segurou a gola da jaqueta de Leon. — Nós nunca deveríamos ter mentido para ela. Nunca... E agora eu me sinto... um canalha. Que tipo de capitão eu sou?

— Tá capitão, você está tagarelando demais e isso tá ficando chato! — Dexter reclamou ao passo que carregavam um Chris bêbado para fora do lugar.

— A culpa é toda do seu chefe. Ele estragou tudo... — O homem reclamou uma última vez, para irritação de Leon.

Dois Meses Depois...

Ada passou o tempo ajudando Mei Chin a se adaptar. A menina parecia um pouco aterrorizada naquela mansão luxuosa dos Blanchett, mesmo arrodeada de brinquedos e de vários mimos. A língua também seria outro grande desafio, assim como toda a cultura ocidental, mas ela seria paciente e se viu animada por ter a criança como companhia. A pobrezinha teve dificuldade de dormir também, acabando por fugir para o quarto da ex-espiã e dormindo todas as noites com a sua nova mãe.

Quando percebeu, dois meses já haviam se passado e Ada se viu forçada a ter que assumir as suas responsabilidades também como doutora Li Guimeng, não dava para continuar fugindo para sempre.

E para o seu retorno, ela aceitou o convite para a Exposição de Fotos de Jill Valentine que por ironia do destino iria acontecer em Washington D.C. Ada não se lembrava qual foi a última vez que esteve nas Américas. Provavelmente, sua última visita aos Estados Unidos foi há 6 anos.

Tomar essa decisão de viajar para aquele lugar não foi fácil, era muito arriscado. Por segurança Trent veio com ela e trouxeram Mei Chin, junto com uma equipe de seguranças.

É claro que como o evento era a noite, acharam melhor deixar a menina no hotel com uma babá, prometendo que levariam ela para passear no dia seguinte.

— Li, você sabe que vai encontrar alguns rostos conhecidos lá? — Trent estava preocupado, sobretudo, porque com certeza Leon também estaria lá.

— Eu sei. E tá tudo bem. Não se preocupe comigo, pai. — Ela o encara colocando uma máscara de serenidade no rosto. — Eu sempre fui boa em manter as aparências. — Porém, essa máscara escondia algo que misturava o seu antigo Eu sarcástico e o seu novo Eu que precisava agir com simpatia, cordialidade e cautela.

Quando chegaram a Exposição já havia começado. As fotos tiradas na Fazenda eram incríveis, traziam tantas boas memórias que deixavam uma saudade e uma certa tristeza. Pelas lentes minuciosas e sensíveis de sua câmera fotográfica, Jill conseguiu capturar vários momentos tão especiais e importantes que pareciam trazer um retrato tão bonito, às vezes poético e muito verdadeiro do que representava Um Lugar Para Recomeçar.

— Você é realmente muito talentosa, Valentine. — Ada deu um elogio genuíno olhando para um dos painéis de fotos que a deixou tão encantada.

— Nossa, obrigada! — Jill exclamou se sentindo até emocionada. — Eu amei cada momento que passei lá e acho que cada imagem que consegui capturar, trazem tantas histórias tão diferentes, particulares e cheias de superação, que me fizeram se identificar com aquelas pessoas. — Seus olhos brilhavam enquanto ambas caminhavam juntas observando cada painel, até que acabaram esbarrando com Claire.

Ada tentou fingir simpatia, até elogiou o vestido de Claire que lhe correspondeu fazendo o mesmo elogio. Eventualmente, elas se distraíram comentando sobre o trabalho incrível de Jill e até falando sobre Chris que deveria chegar a qualquer momento.

​Em um momento, Li aproveitou para se afastar delas. Foi naquele instante, que Ada viu o Conselheiro Kennedy cruzar a entrada do salão. Ele não estava sozinho; vinha acompanhado por uma mulher de postura impecável, cabelos pretos cacheados perfeitamente alinhados e óculos de armação fina. Ela vestia um terno de alfaiataria escuro e sob medida que a fazia parecer uma executiva.

Ada ficou paralisada no meio do caminho vendo Leon e a mulher se aproximar de Trent. Ela se sentiu tensa, nervosa e tudo fica pior quando aquele homem decide olhar na direção dela.

De repente Ada percebeu que não estava pronta para falar com ele e ser forçada a conhecer a sua esposa. Então, ela fez o que sua antiga Eu faria: tentou fugir e acabou esbarrando com o capitão Redfield.

— Me desculpa! — murmura frustrada. Os dois se encaram, ela tenta novamente se afastar.

— Li, espera! — Chris agarra o braço dela. — Você está bem? Vamos conversar um pouco. — Dessa vez, ela não tinha como fugir. — Você está linda! — Ele lhe deu um olhar intenso.

A Ex-espiã escolheu usar um vestido vermelho de renda de tamanho midi e com uma fenda que ia até o joelho. Aliás, a escolha de Ada não agradou somente Chris, como também fez os olhos azuis de Leon reacenderem com um brilho bem diferente.

— Como você está?

— Estou bem. Trouxemos a Mei Chin para conhecer os Estados Unidos.

— Nossa que bacana! Ela deve estar radiante. O povo no CAVB tem sentido falta dela e... de você também. — Suas palavras eram sinceras. — Eu não esperava te ver aqui nos Estados Unidos. Não acha que isso é um pouco imprudente?

— Não se preocupe comigo, capitão. Eu estou segura. — Assim que uma garçonete passou na sua frente, Ada resolveu pegar uma taça com champanhe para tentar acalmar a sua ansiedade.

— E, então, quando você vai voltar para Lanshiang? — Chris também resolveu pegar uma taça.

— Não sei. — Ela bebeu sua champanhe, antes de resolver provocá-lo. — Pensei que você não bebesse porque tinha que dar o exemplo.

— Faz tempo que ando quebrando as minhas próprias regras. — Ele sorriu de forma arrogante. — Acho que é culpa da sua má influência.

— Então, foi uma boa escolha eu me afastar de você, capitão. — Seu olhar era duro. — Assim eu não estrago a sua reputação... — E depois usou um tom mais baixo. — Afinal, você é o capitão acima do bem e do mal. Nunca comete erros... Nunca mente.

— Droga! Não faz isso! — bufou tentando controlar o seu temperamento.

— Isso o quê? — Ela agiu de forma dissimulada.

— Você esqueceu do seu passado de manipulação e mentiras? Eu não acho que você tenha direito de me julgar. — Ele não queria que a conversa ficasse tão pesada a ponto de se magoarem outra vez. Sendo franco, o capitão estava cansado de brigar.

— Você não sabe como é difícil ganhar a minha confiança e a minha lealdade? Eu diria que poucas pessoas conseguiram isso — afirmou corajosamente sem pestanejar.

— E eu sou uma delas?

— Você tem dúvidas disso? — Mas, ele não lhe respondeu, apenas desviou o olhar. — A parte injusta é que você teve a chance de me conhecer tão profundamente, de uma forma que ninguém teve a chance. Nem mesmo Trent, ou...

— Leon! — Chris exclamou como se tivesse lido a mente dela. Nessa hora, ambos olharam na direção de Leon que agora estava conversando com a Jill e aquela mulher que Ada ainda achava que era a esposa dele.

— Você teve a chance de me conhecer de verdade, sem máscaras, sem mentiras, sem segredos. Você sabe tudo sobre mim. Até mesmo coisas do meu passado que eu havia esquecido... — Chris continuou em silêncio atônito, permitindo que ela o confrontasse. — Você sabia coisas do meu passado e, mesmo assim, escondeu de mim. — Apesar das acusações, seu tom se manteve o tempo todo ponderado. — E, quando eu te perguntei, você mentiu para mim.

— Isso não é justo! Não fui o único desonesto nessa relação. — Embora o seu tom parecesse neutro, seu olhar era mordaz. — Então, você se lembrou de tudo sobre o seu passado?

— Não. Ainda tem muitas lacunas. Mas, a verdade é que... era mais fácil quando eu continuava não lembrando. — Seus olhares continuaram focados um no outro, ambos ainda mantendo a conversa o mais civilizada possível. — E você tinha razão... É fácil seguir em frente quando você está com amnésia. — De repente sua expressão ficou séria e melancólica de novo.

Houve uma pausa entre eles, deixando que os burburinhos de outras pessoas ao seu redor se fizessem presentes.

— Eu sinto muito. — Dessa vez, Chris abaixou a guarda. — Eu sinto muito por tudo. No começo eu não falei nada, porque Trent me persuadiu...

— Eu sei. Trent me falou. — Ada o interrompeu, demonstrando que entendia a sua situação. — Além do mais, no começo você realmente não se importava comigo e, portanto, não quis se intrometer nisso... Eu te entendo. — Ela deu de ombros.

— É. No começo eu não confiava em você e nem suportava a sua presença. — Agora ambos compartilhavam um sorriso divertido. — Mas, o tempo e a convivência me fez aprender a gostar de você... Talvez, até... me apaixonar. E depois disso, eu não podia te contar a verdade, porque... Eu não queria perdê-la. Eu fui egoísta. — Admitir os seus erros não era tão difícil como se imaginava, era de fato um alívio.

Ada se sentiu tão perplexa com a confissão do capitão. Seus pequenos castanhos mel se desviaram para o Conselheiro Kennedy que também estava a encarando, nesse exato instante, a dama de vermelho resolveu que precisa se afastar, porém Chris continuou a seguindo.

— Li e agora a gente vai terminar assim? Você vai virar as costas e... fugir? — Sua pergunta forçou-a a parar e se virar para confrontá-lo uma última vez.

— Você é um bom homem que merece uma pessoa também bacana, sem um passado complicado e criminoso. — Ela o surpreendeu ao se aproximar e tocar o rosto dele com carinho. — Eu sou a pessoa errada... A Pessoa certa está vindo agora na nossa direção.

— Jill! — Chris balbuciou, assim que Ada recuou, deixando o caminho livre para a Valentina se aproximar e abraçá-lo toda entusiasmada. A ex-espiã os observou com um sorriso triste, antes de seguir o seu rumo.

***/ /***

— Você não consegue nem disfarçar, senhor Kennedy. — Trent o provocou ao perceber que o Conselheiro Presidencial, vez ou outra olhava na direção de Ada. — Não faça nada estúpido.

— Estúpido em que sentido? — Sua testa se franziu e seus azuis se estreitaram, ainda demonstrando um semblante fechado.

— Você sabe muito bem do que eu estou falando. Continue mantendo a distância. É mais seguro para vocês dois. — O embaixador fingia uma calma, mas suas palavras continham uma leve ameaça. Leon ficou irritado, porém preferiu finalizar a discussão.

Mesmo com todo aquele ar denso e nebuloso pairado ali, seus azuis não conseguiam se desviar da beldade oriental que, a propósito de repente tinha desaparecido.

— Ei chefe, eu sei para onde ela foi. — Dexter cochichou. Leon não disse nada, porém ficou extremamente interessado nessa informação. — Ela está no terraço, completamente, sozinha.

Kennedy esperou mais alguns minutos, antes de entrar no elevador e ir atrás daquela mulher. E realmente seu guarda-costas estava certo. Ele a encontrou parada próximo do parapeito, olhando para a movimentação da cidade e bebendo sua terceira taça de champanhe. Do térreo era possível ter uma visão privilegiada de Washington.

— Você é mesmo uma caixinha de surpresa. Eu não imaginava que te veria aqui na capital, depois de tanto tempo. — Leon parou ao seu lado, nesse instante, uma brisa quente soprou, bagunçando o cabelo dela e fazendo-o desejar tocá-la, mas ao invés disso, optou por esconder as mãos nos bolsos de sua calça social e desviar o olhar.

— Senhor Kennedy, o que você faz aqui? — Ela suspirou, traçando a borda de seu copo distraidamente enquanto ficava insegura com a sua próxima pergunta. — Você não deveria estar lá no salão... ao lado da sua esposa?

— Minha esposa?! — A princípio ficou confuso, mas depois sorriu ao perceber que ela pensava que Ingrid Hunnigan era a sua esposa.

— Você é feliz com ela? — Aquela pergunta foi difícil de fazer, mas esperar pela resposta era ainda pior.

— É claro. Ela é linda, inteligente, não tem um passado criminoso nas costas, é a mãe dos meus filhos e eu sou muito grato por tudo que consegui construir ao lado dela. — Ele a provocou com aquelas palavras, esperando que a mulher retornasse com algum comentário sarcástico. Ao invés disso, a ex-espiã lhe deu um olhar que era difícil de decifrar, antes de lhe dar as costas. — Ada... quer dizer, Li... — O homem revirou os olhos frustrado, sendo obrigado a ir atrás dela e se vendo atraído pelo balanço sensual dos quadris femininos. — Ei, espera! — Parou na frente dela a impedindo de fugir. — Você está com ciúmes?! — Por dentro Leon estava se divertindo com a ideia de fazê-la sentir um pouco de ciúmes dele.

— Não é ciúmes! — A única certeza que tinha era que não queria ceder. — Você age como se me conhecesse, mas você não sabe nada sobre mim. Nada! — Suas mãos voltaram a tremer, o que forçou Ada a fechar os punhos com tanta força na tentativa de se controlar.

— Me desculpa, mas eu te conheço muito bem. Eu sei tudo sobre você... Ada. Especialmente, as partes que você esqueceu. — Leon percebeu a situação dela e decidiu se aproximar da mulher e segurar as mãos femininas, aos poucos conseguindo fazê-las se entrelaçarem com as suas. — Você pode imaginar o quanto doeu descobrir que você estava viva, mas que havia se esquecido de mim?- Ada estava entorpecida pela sensação daqueles azuis que ainda refletiam o mesmo olhar gentil do policial novato que um dia conhecerá em Raccoon City. — Você pode imaginar o quanto doeu descobrir que eu não passava de um espaço em branco na sua vida? — Eles se olharam demoradamente, deixando tão em evidência seus sentimentos.

— Por que você não me falou a verdade? Você mentiu como todos outros.

— Até meses atrás, eu achava que você estava morta! E eu... passei pelo luto. Assim como você, eu também fui enganado. — Ele percebeu que Ada se distraiu olhando para as suas mãos, certamente, percebendo que não havia mais a aliança. — Eu tentei ser feliz com a Angela, mas falhei. Meu casamento fracassou. Isso também foi culpa sua...

— Minha culpa?! — Ela arqueou as sobrancelhas e deu o seu famoso sorriso debochado.

— Eu tentei esquecer você. Mas nem quando achei que... você estava morta, eu consegui te esquecer. Você continuou me atormentando. — Ele conseguiu pouco a pouco fazê-la relaxar.

— Leon... — sua voz ficou rouca, enquanto sentia as mãos dele se apertarem agora em sua cintura. — Você nunca será um espaço em branco na minha vida. — Suas mãos delicadas subiram para os ombros largos até se enroscarem no pescoço dele, causando um arrepio tão bom. — Tudo o que eu precisava era... apenas um beijo para começar a me lembrar.

Houve um silêncio de reflexão, olhares penetrantes presos um no outro, em seguida suas bocas se encontram num beijo mais profundo, delicado e, ao mesmo tempo, cheio de urgência. Uma verdadeira mistura de sensações e sentimentos. Ali, encurralada entre seus braços, nas sombras tortuosas daquele térreo, seu coração tão firme, teimoso e insensato, batia freneticamente contra o peito dele, fazendo-o sentir como se seu próprio coração batesse na mesma frequência que o dela.

Como num estalar de dedos, Ada sentiu seus pés perderem o chão quando Leon a ergueu em seus braços, fazendo-a enroscar suas pernas na cintura dele enquanto suas costas tocavam uma estrutura fria e rígida (a parede bem ao lado do elevador). Ele aproveitou para deslizar uma das mãos por dentro da fenda de seu vestido, apertando a sua coxa e quase a deixando louca. Seus corpos continuavam grudados, ardendo de amor e desejo à medida que os toques se tornavam cada vez mais ousados.

De repente, o que era certo, ou errado estava começando a nublar os seus pensamentos. A sua única certeza era que, dessa vez, a mulher que havia estado constantemente em seus pensamentos e frequentado os seus sonhos, estava aqui em seus braços de novo e era real, palpável e inebriante.

Enquanto as suas línguas se duelavam entre si, as mãos masculinas percorriam a pele macia dela e seus corpos continuavam se roçando. Eles estavam quase prestes a ultrapassar todos os limites e transar ali mesmo. Ambos queriam apenas aproveitar o momento de pura paixão, tentando se esquecer do resto do mundo.

A situação era tão sedutora e excitante como também bem perigosa, um passo em falso e tudo poderia se tornar fatal. Sendo assim, mesmo com relutância, eles saíram daquela névoa de luxúria e desejo tão intenso e foram forçados a se afastarem e encarar a realidade.

As portas do elevador se abriram deixando os dois assustados. De lá saiu Dexter parecendo ofegante e desesperado. Assim que viu o casal, seu semblante mudou e o homem sorriu com malícia.

— Ah, vocês se divertiram muito pelo jeito!

{Continua...}