Destino Inesperado

6 Um Lugar Para Recomeçar



Lanshiang, China

Um Ano Antes


Ele estava com tanta raiva, sentindo um nó se formar em sua garganta, enquanto deixava a água continuar a cair sobre o seu corpo cansado e machucado. No chão se podia ver sangue escorrendo e se misturando com a água do banho descendo pelo ralo. O sujeito grande e robusto encostou a sua testa na parede fria, de certa maneira pensando sobre os fatos ocorridos até aquele momento.

Hoje tinha sido um dia, insuportavelmente, difícil e a missão de resgate não tinha saído como planejado. Chris estava ainda mais furioso consigo mesmo, sabendo que se ele não tivesse sido ferido, ou tentado salvar a mulher e a sua filha, talvez, as coisas tivessem acontecido diferente e seus soldados ainda estariam vivos. Por outro lado, o veterano de guerra sabia que não poderia deixá-la lá e retirar só a criança, sendo que a pequena lhe suplicava para que salvasse a sua mãe. No fim, o capitão não podia abandona-las lá.

"O que você queria que eu fizesse? Que eu abandonasse você lá com uma mulher ferida e uma criança precisando de ajuda? Eu não podia! Eu fiz o que achei que era o certo." E as palavras do filho de Wesker voltaram para lhe assombrar.

— Que droga! — Agora ele devia a sua vida aquele bastardo que era filho de seu antigo inimigo. E, enfim, pensou no quão irônico isso havia se tornado...

Ele desligou o chuveiro, depois se enxugou com muita dificuldade, sentindo dor no lado esquerdo do peito que havia sido ferido durante a sua missão. Por fim embrulhou a toalha em sua cintura e parou na frente do espelho do armário sobre a pia, onde podia ver bem o seu reflexo. A ferida ainda sangrava e parecia profunda.

— Que saco! — Chris não queria ter que por pontos ali. De qualquer forma, o homem decidiu resolver o seu problema sozinho, pegando um Kit de primeiros-socorros, mas quando fechou a porta do armário, ele quase levou um susto ao vislumbrar o reflexo de Ada surgir atrás dele no espelho. — Que merda! Como você entrou aqui?

— Entrando pela porta — ela falou naturalmente.

— Dessa vez eu tranquei a porta. Então, como você entrou? — Isso a fez rir da cara perplexa dele.

Não era a primeira vez que Ada invadiu o quarto dele. A primeira vez, foi quando o lugar foi inaugurado e a ex-espiã queria saber o porquê do capitão rejeitar a sua oferta de ficar em um dos quartos na Sede da Fazenda. Como o casarão tinha vários quartos, portanto, não haveria motivos para recusar a sua oferta, ainda assim ele recusou de forma grosseira, deixando claro que preferiria dormir em qualquer canto que fosse bem longe dela.

— Eu posso ter perdido a minha memória, mas não perdi certas habilidades especiais de espionagem — ela lhe respondeu presunçosa.

— Habilidades especiais de invadir a privacidade alheia?! — Chris deu um sorriso sombrio, ao mesmo tempo que tentava cuidar do seu ferimento.

— Deixe-me ajudá-lo com isso! — Ada disse ao perceber a sua dificuldade.

— Não! — ele praticamente rosnou lhe dando um olhar de aço. — Eu não preciso da sua ajuda. Agora saia!

— Meu Deus, como você é tão cabeça-dura! — Mas, a filha de Trent não recuou. — Parece que você é feito de uma blindagem tão impenetrável. Eu só não sei se essa blindagem serve para te proteger das outras pessoas, ou para protegê-las de você. — Os dois trocaram um olhar tão penetrante, antes dela desviar seu olhar para o corpo másculo e ainda meio molhado do banho recém-tomado que estava apenas coberto por uma toalha envolta da cintura.

— Você tá gostando da vista?! — Sua voz saiu ainda mais rouca, sentindo seu corpo superaquecer apenas com aquele olhar sem vergonha dela. Redfield só desejava que aqueles olhares não o afetassem tanto.

— Desculpe, eu não resisti. — E ele ficava com mais raiva com a forma como ela sempre conseguia desarmá-lo. Quando percebeu, Ada já havia pegado o kit de primeiros-socorros enquanto entrelaçava a outra mão na dele e o arrastava para fora do banheiro, os levando para o seu quarto.

O quarto era mais pequeno e mais simples do que o dela, porém era bastante organizado. Chris havia escolhido aquele quarto, exatamente por não ter que dividir com mais ninguém e ter um banheiro exclusivo, além de ficar próximo da entrada dos dormitórios masculinos.

— Deixe-me pelo menos me vestir. — O homem pegou a primeira calça de moletom que achou.

— Quer uma ajuda?! — Ela parou cruzando os braços esperando a reação dele.

— Oh, por favor, não exagera! — Ele passou por ela apressadamente e retornou para o banheiro.

Enquanto esperava pelo homem, a bela chinesa resolveu se sentar perto de uma escrivaninha que ficava ao lado da cama, sobre a mesinha havia um notebook e um porta-retrato com uma foto de Chris ao lado de sua irmã e de um cara que segurava um bebê.

— Como você já deve saber, a ruiva é a minha irmã caçula, o rapaz era Piers Nivans, o meu cunhado segurando o filho deles no colo — Chris decidiu lhe responder percebendo o olhar curioso da mulher sobre a fotografia. — Você conheceu minha irmã em Raccoon City e... o Piers em Lanshiang. — Sob o olhar determinado dela, relutantemente, Chris se deitou em sua cama, tentando lutar ao mesmo tempo contra a dor e o desconforto.

— É. Acho que lembro vagamente da sua irmã. Uma jovem corajosa. — Ela se sentou na frente dele e começou a cuidar da sua ferida. — Sherry me disse que Piers era como uma versão mais jovem sua, sem a aura rabugenta... — Ada trocou um olhar rápido com Chris, em seguida voltou-se a sua tarefa de limpar toda área suja de sangue e desinfeta-la com antisséptico. Com o sangue estancado, o corte não parecia tão profundo.

— Me diz Doutora Guimeng, vou precisar de pontos? — Mesmo se contorcendo de dor e de frio, o capitão não conseguia parar de observar cada gesto dela.

— Para a sua sorte, o corte não é profundo. Vou fazer apenas um curativo bem reforçado. — E assim, ela o fez, demorando alguns minutos para terminar de fazer o curativo. Seu olhar ainda era de preocupação ao perceber que o homem carrancudo ainda estava trêmulo. Ada, então, colocou uma de suas mãos sobre a testa dele que estava febril. — Você está com febre. — Em seguida, Redfield a observou se levantar da cadeira e pegar no bolso de seu jaleco uma cartela de comprimidos, depois ela foi até a escrivaninha, onde também havia uma garrafinha de água.

— O que é isso? Veneno?! — Ele continuou a tremer e a suar.

— É um analgésico e antibiótico que vai aliviar a dor e a febre e evitar infecção. — Ada lhe ajudou a se sentar, depois lhe deu a garrafa e o comprimido. O soldado aproveitou para beber uma grande quantidade de água à medida que engolia o remédio. — Agora me prometa que assim que amanhecer o dia, você vai procurar um dos médicos pra ser atendido devidamente. E você vai precisar de mais remédios. — Ela escreveu uma receita com os medicamentos que o homem precisaria.

— Tudo bem, Doutora. Agora você vai me deixar em paz? — o grandalhão murmurou se sentindo meio sonolento.

— Nossa, eu venho aqui e cuido de você com toda paciência do mundo... mesmo assim, você não vê a hora de se livrar de mim, hein Christopher?!

— Obrigado! — só pra afrontá-la, Chris lhe agradeceu com insolência. — Agora você pode ir. E pare de me chamar de Christopher!

— Por quê? Christopher não é o seu nome verdadeiro? — Ela cruzou os braços sobre o peito e estreitou os seus pequenos olhos.

— Só haviam duas pessoas que costumavam me chamar assim, minha mãe e Claire. Uma está morta e a outra não fala mais comigo.

— Sinto muito pela sua mãe! — Ada de repente achou interessante continuar o pressionando, percebendo como sem querer querendo, ele estava se abrindo para ela. — Por que a sua irmã não está falando mais com você?

— Isso não é da sua conta! — ele bufou lhe dando um olhar mordaz.

— Você ainda não respondeu a minha pergunta. — Ela desejava entender a mente complexa daquele homem, nem que para isso atravessasse certos limites.

— Eu já disse pra você sair! — O grandalhão se sentia cansado, então, decidiu ignorá-la e se virar de costas para Ada.

— Então, eu não sou a única que você tenta afastar. Você também faz isso com a sua irmã? Mas, por quê? — A mulher voltou a se sentar agora na beirada da cama, batendo em seu ombro.

— Mas, que merda! — De forma repentina, Ada se viu deitada sobre a cama e sendo encurralada pelo corpo forte de Chris que estava em cima dela. — Você sabe o que eu poderia fazer com você agora, hein? — O coração dela batia desenfreado, diante daqueles olhos azul-escuros. Os dois se encararam com uma intensidade que surpreendeu a ambos.

— Eu sempre tive uma dificuldade imensa para confiar nas pessoas — Ada respondeu, sabendo que essa afirmação era uma das poucas coisas que se lembrava. — Mas, por algum motivo... eu confio em você, capitão. — Suas palavras causaram em Chris uma sensação tão avassaladora em seu coração.

Por um minuto, um silêncio desconcertante caiu sobre eles, até que alguém tivesse coragem de rompê-lo.

— O que você quer de mim, Ada? — ele lhe chamando por aquele nome a deixou confusa. Quer dizer, com o passar desses 6 anos, ela foi se acostumando com a nova identidade de Li Guimeng. Contudo, às vezes, sentia falta de ser apenas Ada Wong.

— Por que você parece se esforçar tanto pra me afastar? É por medo? Ou por ódio? — Li, ansiosamente, observou o homem fechar os olhos, por um instante, refletindo sobre a sua pergunta.

A proximidade entre seus corpos estava deixando o capitão entorpecido que até a dor da sua ferida no peito parecia ter sido esquecida e substituída pelo cheiro dela, pela voz aveludada dela, por aqueles pequenos olhos amendoados que, ora pareciam dissimulados, ora pareciam sinceros.

— Eu tenho pesadelos com Lanshiang e com tudo que aconteceu lá — Chris admitiu ainda de olhos fechados, sentindo o toque suave das mãos dela sobre a sua face. — Os meus soldados morrerem lá por causa... Por causa da sua irmã. E em meus pesadelos a sua irmã é a própria Ada Wong. — Então, ele criou coragem e reabriu os olhos confrontando aqueles pequenos pares de âmbar, sabendo quão corrosivas soavam as suas palavras. — Então, esse pesadelo só termina quando eu aperto o gatilho e... mato Ada Wong. — Por fim soltou um suspiro demorado. — Eu só sei que... esses pesadelos me fazem lembrar o porquê... eu nunca... posso confiar em você. — Ao ouvir toda aquela confissão tenebrosa, a ex-espiã parou de tocá-lo, sentindo seu coração ficar pesado e uma certa amargura renascer dentro dela. Então, eles se afastaram.

— Sabe Redfield, um dia você vai ter que superar o passado e seguir em frente. — Ela se levantou da cama e seguiu para a porta.

— É fácil seguir em frente, quando você perdeu a sua memória e esqueceu parte do seu passado — o grandalhão rebateu olhando para o teto.

Para Ada foi como um tapa na cara cada palavra do capitão. Ele não faz ideia de quão horrível era para a ex-espiã não conseguir se lembrar do seu passado. Pior ainda era não se lembrar de ter conhecido a sua irmã gêmea e perceber que todo mundo que conheceu Mei agora olhavam para Ada (Li) e as comparava. E ela não queria continuar vivendo sendo comparada com o fantasma da outra filha de Trent.

Ada decidiu que estava na hora de deixar o capitão em paz e retornar para o seu próprio quarto arrumado e aconchegante. Sua amizade foi rejeitada, portanto o melhor era manter distância dele. Entretanto, antes que saísse dali, uma mão grande se colocou na sua frente, forçando a porta a se fechar.

— A gente não terminou ainda. — Mesmo cansado ele conseguiu se levantar feito um furacão e, no fim, decidiu não deixá-la ir sem primeiro resolver as coisas entre eles.

— Você já deixou bem claro que me odeia e que não seremos amigos! — a filha de Trent esbravejou enquanto era encurralada entre a porta e o corpo grande e viril de Chris. — Mas, a culpa é minha. Eu forcei a barra...

— Você poderia ficar quieta e só me ouvir?! — A mulher se calou e, assim, Chris criou coragem para revelar os seus segredos mais profundos. — Quando eu tinha 11 anos, eu tive a minha primeira experiência com a dor e o sofrimento. Minha mãe morreu e levou com ela as melhores partes da família Redfield. Meu pai que era um grande piloto de avião, se tornou um alcoólatra violento com quem eu sempre discutia... Perdi a minha infância sendo forçado a amadurecer cedo demais, porque precisava cuidar da minha irmã caçula. Aos 20 anos quando entrei para a aeronáutica, eu sofri a minha segunda perda... meu pai morreu num acidente de carro após dirigir embriagado.

— Eu sinto muito! — Ada não sabia muito bem o que dizer naquele momento, vendo o homem diante dela parecer tão vulnerável e tão transparente. Ela também conhecia o sentimento da perda e como isso pode transformar uma pessoa.

— Perder os meus pais foi apenas o começo para esse ciclo de perdas e decepções que se tornaram constantes em minha vida. — Sua voz estava embargada. — E tudo piorou depois que entrei nessa luta sem fim contra o bioterrorismo. — Seu olhar perdido, logo, encontrou o seu rumo se fixando na bela mulher. — Quer dizer... quando Albert Wesker morreu, eu achei que isso ia acabar. Que eu poderia ter uma vida normal, com relações menos complicadas...

— Relações menos complicadas com Christopher Redfield?! Acho que isso é impossível! — Ada ironizou, conseguindo roubar um sorriso do capitão.

— Sim. Você tem razão. Eu sou um cara complicado. — Entretanto, o seu sorriso divertido terminou num pequeno grunhido de dor ao sentir seu peito doer o lembrando da sua ferida. — Aí, que merda!

— Ah, capitão... você deveria voltar para cama e descansar. — Ada por instinto ergueu uma de suas mãos até aquele peitoral nu e febril, parando bem ao lado do curativo. Com o simples toca dela, o grandalhão sentiu um arrepio percorrer a sua pele. — Desculpa, eu... — Mas, antes que a mulher se afastasse, Chris decidiu ser ousado, colocando as suas mãos calejadas sobre a dela, mantendo-a ali ainda sobre o seu peito, próximo da sua ferida. Especialmente, mantendo-a próximo do seu coração.

— Me desculpa por tudo que eu disse. Eu não te odeio. — Ele foi sincero e a deixou atordoada. — Eu queria te odiar... Mas, eu não consigo. — Eles estavam tão próximos que não havia espaço para uma fuga, a única saída era manter o olhar preso um no outro, transmitindo quase que, silenciosamente, as coisas mais profundas de suas almas.

— Capitão... — De repente Ada se viu tragada por aquelas íris azul-escuras intransigentes.

Chris Redfield sem conseguir mais lutar contra aquela perigosa atração que existia entre ambos, se viu chocando seus lábios desesperadamente sobre os de Ada, calando-a e roubando-lhe todo o seu fôlego, ao passo que se deliciava saboreando o gosto dela em sua língua. Suas mãos grandes e calejadas se prenderam na cintura dela a encurralando em seu abraço de urso, colando seus corpos de tal forma que era como se pudesse sentir cada curva do corpo esbelto da bela mulher.

— Caramba! Nós acabamos de complicar as coisas entre nós — ele dizia ofegante, encostando a sua testa na dela.

— Sim. Mas, ainda dá tempo de parar... — Ela não conseguiu terminar a sua sentença, porque mais uma vez ele lhe calou com outro beijo. Um beijo simplesmente avassalador.

— É tarde demais... — ele lhe sussurrou por entre o roçar de seus lábios. — Você acabou de me fazer quebrar o meu próprio juramento.

“Eu nunca me apaixonaria por uma mulher como Ada Wong…”

No entanto, havia uma questão que era ainda mais grave em toda essa situação entre Chris e Ada. Ela ainda sofria de amnésia e não se lembrava de uma parte importante do seu passado que a ligava a Leon. E o capitão sabia da verdade. Porém, até quando ele vai conseguir esconder essa Verdade dela?

{Continua...}