Destino Inesperado
2 O Bom Filho À Casa Torna
Notas iniciais
Lanshiang, China
— Como você está? — Eles estavam num dos hospitais de Lanshiang, se preparando para retornar para suas casas.
— Estou sobrevivendo como sempre, sem nenhum dano real. — Era uma mentira, porque o capitão, embora tivesse sofrido danos físicos superficiais, por dentro estava em frangalhos. — E você?
— Estou me recuperando das costelas quebradas, meu corpo ainda dói e o remédio que me deram me deixa meio grogue. Mas, vou sobreviver — disse Leon ao se aproximar de Chris que estava sentado num banco que ficava na área externa do hospital. — Parece que velhos hábitos nunca morrem. Você vai se matar assim. — Ele advertiu o capitão que estava fumando um cigarro.
— Eu não me importo — o capitão respondeu apático. — Já estou tão cansado de continuar sobrevivendo.
— Não diga isso! Você tem que ficar firme pela Claire. — Ele decidiu se sentar ao lado de Chris. — Eu sei que vai ser difícil contar para ela sobre Piers. — Piers Nivans era o marido de Claire e foi parceiro de Chris nas últimas missões.
— Ela já sabe, Leon... — Chris disse com a voz quebrada olhando para seus azuis. — Sherry contou a ela por telefone, porque eu... Eu não tive coragem... Como eu poderia dizer para a minha irmã que eu matei o marido dela? — O homem desabafou tudo de uma vez, mostrando o quão desesperado estava. — Eu falhei com ela de novo. E eu falhei com a minha equipe. Agora eu me sinto uma merda.
— A culpa não foi sua, Chris. Ele virou uma arma biológica... Se você não o matasse, ele mataria você. — O agente da DSO colocou uma de suas mãos sobre o ombro do capitão, tentando reconfortá-lo de alguma forma. — E no final nós conseguimos salvar muitas vidas. E NÓS impedimos uma catástrofe mundial. — Enfatizou com toda a certeza do mundo.
— Não! — Chris deu mais uma tragada em seu cigarro antes de continuar. — Foi Ela... Ela que se sacrificou por todo mundo. — Suas órbitas azuis atormentadas, voltaram a encarar os azuis austeros de Leon, só para fazê-lo se contorcer desconfortável ao seu lado. — Que ironia, a verdadeira Ada Wong impediu o Apocalipse... Entretanto, o mundo nunca saberá sobre isso.
— Sim. — Leon retirou as mãos dos ombros de Chris, sentindo uma dor gélida na espinha. — Ela se sacrificou por todos nós. — Ele não estava pronto para trazê-la na conversa. Memórias da sua última despedida e do último beijo que trocaram, preencheram a sua mente. — Todo o sacrifício que foi feito por Ela... Por eles: Ada e Piers... tem que ter valido a pena. — Não havia insegurança, ou dúvida em suas palavras, apenas verdades penosas.
Leon olhou para o teto transparente que os protegia da chuva, olhando para o céu acinzentado e viu umas pequenas borboletas brancas voando por ali, fazendo-o se lembrar da espiã e em como ela terminou a sua vida de forma honrada, ao se sacrificar para que a cura do C-Vírus fosse espalhada por toda a cidade.
Em contrapartida, Chris decidiu matar uma curiosidade que ficou martelando na sua cabeça, desde o momento que o agente da DSO se colocou na frente de sua arma para proteger a espiã chinesa.
— Quem diria que Leon Scott Kennedy, o principal agente secreto dos Estados Unidos seria imprudente o suficiente para ter um caso tórrido com Ada Wong, a espiã mais procurado do mundo. — Essa curiosidade sobre a relação entre Leon e Ada, distraiu Chris de toda a sua autoflagelação. — Que segredo sujo você manteve de todo mundo, hein?! — Os dois se encararam e trocaram um sorriso sarcástico. — Por quanto tempo isso durou? — O capitão fumou mais uma vez, deixando uma pequena nuvem de fumaça se perder no ar úmido enquanto esperava o outro homem criar coragem para responder.
— Foi breve e durou o tempo que tinha que durar... porque Ada e Leon são de mundos diferentes. Nunca daria certo. — Desabafar para o capitão Redfield o fez se sentir mais aliviado. — E, foi melhor assim, pois isso me deu a chance de conhecer a Angie. E é com ela que terei a chance de construir a minha própria família — o agente da DSO afirmou, acreditando fielmente em sua própria palavra.
— E mesmo assim você estava disposto a morrer por Ada Wong — o capitão disse sombrio ao se lembrar do seu desejo de vingança, que quase o fez atirar em Leon. — Você já pensou que se eu tivesse apertado o gatilho...
— Mas, você não apertou o gatilho! — Leon retrucou tentando fazê-lo se calar.
— Mas… se eu tivesse apertado o gatilho... — O capitão permaneceu enfatizando. — Você poderia ter deixado uma Angela para ter que criar um filho sem pai. — Leon congelou com aquele pensamento. — E enquanto eu segurava aquela arma e olhei no fundo dos seus olhos, eu percebi uma coisa que me assustou... — Chris deu uma última tragada em seu cigarro, antes de jogá-lo na lata de lixo ao lado e olhar novamente para o outro homem, avaliando os danos da sua afirmação. — Você amou Ada Wong com a mesma intensidade que eu a odiei — afirmou com petulância.
— Eu aposto que se você tivesse passado mais tempo com ela, esse ódio teria se transformado em paixão. — Dessa vez, Leon riu do homem carrancudo que se levantou atordoado.
— Espera... O quê?! Você está completamente louco! Eu não sou você! — Chris continuou a exclamar, fazendo uma cara de desgosto com aquela simples ideia. — Eu nunca me apaixonaria por uma mulher como Ada Wong… — afirmou com convicção, sem imaginar que o Destino reservava uma surpresa inesperada para o seu futuro. — Olha, eu sei que ela nos salvou. Mas no passado essa mulher trabalhou para Albert Wesker. Só de pensar nisso, eu sinto meu estômago revirar. — Ambos trocaram um olhar tenso. — Sem contar que graças a gêmea má dela, a imagem de Ada Wong continuará a assombrar os meus piores pesadelos...
— Vamos pensar pelo lado positivo... — Suas próximas palavras seriam as mais cruéis que Leon já teve que admitir para si mesmo. — Agora será mais fácil seguir em frente, sem a sombra de Ada Wong pairando sobre nós. Não haverá mais mentiras, segredos, ódio, ou amores mal resolvidos. Ada morreu e levou tudo com ela.
Ah, se ele soubesse que estava redondamente enganado...
Londres
Três Meses Depois...
— Como eu disse Albert Wesker está morto. Ele morreu pelas mãos de Chris Redfield. — O sobrenome por algum motivo parecia familiar. — Isso foi em 2009 e naquele ano começamos a pesquisar uma cura para combater o T-Veronica em seu organismo.
— T-Veronica?!
Então, Trent precisou lhe explicar que anos atrás, Wesker havia capturado a espiã e a transformado em sua cobaia. Ele a infectou com o T-Veronica e por anos Ada teve que se adaptar com aquele vírus letal em seu corpo que havia lhe dado habilidades sobre-humanas, mas também foi lentamente a matando. Até que três meses atrás sua filha encontrou a cura no sangue de Jake Muller que, ironicamente, era filho do próprio vilão.
— Espera, o senhor está dizendo que... Albert Wesker, o cara mais egocêntrico, narcisista e megalomaníaco... foi capaz de gerar um filho?
— Parece impossível, mas é a verdade, Li.
— Li?! Esse nome nem parece combinar comigo — reclamou atordoada. A sua mente só se lembrava de ser a espiã chamada Ada Wong, a femme fatale que não tinha um passado.
— Mas, é o seu nome verdadeiro. E é um lindo nome que sua mãe escolheu para você — Trent afirmou num tom caloroso.
A princípio Ada quis lutar contra aquelas revelações, achando que o seu suposto pai estava brincando com a mente dela. Já era assustador demais acordar naquele quarto de hospital, sem nenhuma lembrança da sua vida e do seu passado. Agora ela era apenas uma mente em branco e um corpo frágil que precisava de ajuda até para ir no banheiro.
— Você tem como provar que… somos… parentes? — Então, Trent retirou uma foto de sua carteira que era bem antiga de duas meninas gêmeas e uma jovem mulher que se parecia um pouco com Ada, todas possuíam os mesmos traços asiáticos.
— Sua mãe morreu quando vocês eram bem pequenas. E essa é a última foto que tiraram da sua irmã. — Ele entregou uma segunda foto para a sua filha que ficou incrédula ao vislumbrar outra versão de Ada usando um vestido azul e um echarpe vermelho. — Essa é a Elise Mei... — Havia outra foto da sua gêmea de cabelos compridos, vestida de um jeito mais discreto sorrindo de um jeito alegre e genuíno que a fazia parecer angelical, o completo oposto da espiã que sempre carregava consigo um traço de malícia, sarcasmo e arrogância.
— Uau, agora o senhor me deixou curiosa para conhecê-la. Ah, eu gostei mais do nome dela. — Ada encarou o seu pai com um olhar irônico e isso o fez rir. Por um minuto o clima entre eles ficou leve. — Onde está a minha irmã? — Porém, não durou muito, pois logo veio a parte mais difícil de toda aquela conversa.
— Ela está… morta… — Trent deu as costas para ela sentindo um aperto no coração e foi olhar para a janela. — Você se lembrou que era uma espiã... Mas, se lembra como se tornou Ada Wong? — Sua filha fica em silêncio refletindo sobre a pergunta e, de repente percebe que não se lembra nem como, ou quando se transformou na mulher fatal.
Eventualmente, Trent teve que lhe explicar sobre a Organização liderada pelos Simmons que foram os responsáveis por destruir a sua família. Os Simmons mataram a sua esposa e sequestraram a pequena Li e depois a transformaram na espiã fria e calculista chamada Ada Wong.
— Um dia você descobriu quem matou a sua mãe e as suas tias e o matou. Depois você fugiu. Passou-se vários anos... até que um dia sua irmã conheceu outro Simmons que a enganou, a sequestrou e a transformou em uma nova Ada Wong que fosse mais leal a ele.
— Isso é horrível. — Ada se sentiu triste e chocada. — Então, isso tudo foi culpa minha? — Sua voz ficou embargada.
— Não, querida. Você foi apenas mais uma vítima. — O embaixador da ONU resolveu abandonar a sua postura altiva e agir como um pai ao se aproximou da cama e segurar uma das mãos dela com carinho. — Se há um culpado... sou eu que falhei em proteger as minhas filhas. — Os dois trocaram olhares tristes.
— Eu ainda me sinto confusa, porque tudo parece surreal demais para mim! — Ela voltou a se remexer na cama se sentindo cansada enquanto encarava o homem que, supostamente, era seu pai.
— Eu sei, mas você terá tempo para descobrir tudo isso. E se adaptar a sua nova vida.
Ada retornou para um mundo que era muito diferente do que ela se lembrava. E a única lembrança que tinha era de uma missão em Raccoon City em 1998. E agora existia essa enorme lacuna na sua mente que precisará preencher.
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Ada precisou passar por fisioterapia para conseguir fazer até mesmo uma coisa simples: como pentear o cabelo, ou se levantar da cama e ir ao banheiro. Não era uma tarefa fácil, o tratamento exigiria tempo e paciência. Mas, ela era teimosa e queria voltar a ter controle sobre o seu corpo o mais rápido possível e, então, resolveu tentar fazer isso sozinha.
Aproveitando que não havia ninguém no quarto, ela se sentou na cama e tentou dar o primeiro passo, depois o segundo, o terceiro e isso a faz se sentir mais confiante. Seu objetivo era pelo menos ir até a cadeira de rodas que estava a cerca de um metro da cama.
— Olá... — Até que uma voz grossa a distrai, fazendo-a se desequilibrar e cair. — Ei, você precisa de ajuda?
— O que você acha?! — ela reclama irritada, encarando o dono da voz que, imediatamente, se ajoelha na sua frente para ajudá-la. Internamente, Ada se sentiu aliviada por estar usando o seu pijama bordo, ao invés daquela camisola hospitalar horrível que não cobria nada.
— Ah, me desculpa. — Os dois se encaram fixamente, antes dele cuidadosamente passar uma mão grande por baixo da perna dela enquanto a outra segurava as suas costas, depois o homem a ergue sem dificuldade.
— Quem é você? — ela indaga curiosa apoiando o seu braço no ombro dele. A paciente olhou para o rosto daquele homem, tentando achar algo familiar.
O rosto dele já começava a mostrar sinais do tempo que o fazia aparentar uns 40 e poucos anos ainda mais com aquela barba por fazer, seus olhos eram de um azul-escuro e toda a sua face parecia um pouco sombria, combinados com o seu corpo grandalhão que lhe dava um ar quase ameaçador. No entanto, Ada não sentiu medo dele, estranhamente, se sentiu segura.
— Eu me chamo Chris Redfield. — O capitão a coloca na cama e desvia o olhar. — Sou amigo do seu pai. — Ele não estava vestindo seu habitual uniforme militar, porém vestia uma jaqueta com o emblema da BSAA.
— Ah, você é o homem que matou Albert Wesker. — Ela podia não se lembrar dele, mas o seu rosto de alguma forma parecia mais familiar do que o rosto do seu próprio pai.
— Sim, eu o matei há muitos anos. — Ele parou observando a paciente e surpreso por vê-la acordada e falando. A mulher ainda parecia frágil. Todavia, o que mais lhe chocou foi que os olhos dela já não eram mais vermelhos carmesins por causa do T-Veronica.
Trent havia lhe informado que Ada estava curada do vírus e por isso seus olhos agora voltaram a ser castanhos normais. Porém, isso o fez se lembrar da irmã gêmea dela que tinha sido responsável pela morte de seus homens. E essa lembrança sempre iria perturbá-lo. Talvez, o capitão fosse sadomasoquista para estar ali visitando a mulher que era irmã gêmea da mulher que ele odiava.
— Por que está me encarando desse jeito? — Ada indagou encucada porque Chris tinha se distraído encarando ela, demoradamente.
— Não é nada importante. — Ele mentiu. Nessa hora, uma enfermeira apareceu para lhe dar mais remédios e fazer a avaliação de rotina. Ada aproveitou para lhe pedir um espelho.
Então, Ada tem um choque de realidade, ao encarar o seu próprio reflexo pela primeira vez, desde que acordou do seu coma. Seus cabelos estavam compridos e ressecados, a pele estava pálida e sem brilho, a expressão preocupada já deixava explícita uma marca suave na testa. Era ela ali no reflexo, mas ao mesmo tempo não era. Ela percebeu que não era mais aquela Ada jovem de beleza impecável.
— Eu estou horrível — ela admitiu frustrada.
— Para com isso! Você ainda é jovem... e bonita, só está doente. Todo mundo que fica doente fica assim... horrível. — Isso fez os dois rirem. Em seguida, ambos ficam silêncio e Chris se torna carrancudo. — Seu pai me contou que você está com Amnésia.
— Sim. Ele me contou algumas coisas, mas... — Ela para olhando para aqueles olhos azul-escuros, desejando que esse homem desconhecido, talvez, pudesse ajudá-la. — Tudo o que ele falou é verdade? Posso confiar nele?
Ao invés de lhe responder, Chris retirou o celular do bolso e entregou a Ada para que ela tivesse acesso mais rápido a várias informações sobre o mundo.
Ada ficou surpresa ao se deparar com aquele tipo de telefone sem fio que já possuía uma internet rápida e todas as informações que precisava surgiam ali pela tela do celular, bem na palma da sua mão. Sua mente começou a ser preenchida com várias notícias interessantes sobre a queda da Umbrella, a morte de Albert Wesker, sobre o surgimento de outras organizações bioterroristas como Tricell, Los Illuminados, até chegar na mais recente Neo-Umbrella. E novos vírus foram desenvolvidos como Uroboros, Las Plagas, o C-Vírus.
Ada continuou absorvendo mais informações, descobrindo sobre a criação da BSAA, da Salve-Terra e da DSO (organizações anti-bioterroristas) até chegar nos últimos acontecimentos de três meses atrás, que culminou no assassinato do próprio presidente dos Estados Unidos. Todavia, aquilo não era a parte mais chocante. O pior ainda estava por vir.
"A espiã Ada Wong procurada internacionalmente pela Interpol e pela BSAA, está morta."
“Uau! E agora tinha isso...” Destruíram a sua identidade secreta e agora o mundo sabia como era o rosto de Ada Wong. Quer dizer, havia algo que a deixou confusa, porque nas imagens a espiã chinesa estava usando o mesmo vestido azul e a echarpe vermelha que a sua suposta irmã também usava.
— Não era eu ali. Eu sempre conseguia fugir antes que me pegassem. E eu sempre trabalhei nas sombras, nunca me expondo. — Era única coisa que ela se lembrava perfeitamente.
— E não era você mesmo. — Chris a interrompeu tentando trazer algum sentido para toda a confusão dela. — Era a sua irmã. Ela usou a identidade de Ada Wong para… se vingar de você.
— Nossa... meu querido pai não teve coragem de me contar essa parte. — Seu tom era irônico e rancoroso. — Então, minha irmã morreu me odiando. Assim como o mundo.
— Isso não é bem toda a verdade. Vocês tinham feito as pazes e você ficou ao lado dela até o fim. — Ela virou o seu rosto para olhar nos profundos azul-escuros de Chris, enquanto ele lhe contava algo ainda mais surpreendente. — Há três meses você salvou as nossas vidas, madame. Sem a sua ajuda não conseguiríamos impedir aquela catástrofe mundial. Então, nessa história você não era a vilã. — Por algum motivo, as palavras do capitão aquietaram o seu coração angustiado.
Ada desvia o olhar para a tela do celular e, de repente encontra o nome “Leon Scott Kennedy, agente secreto” e uma imagem de um homem de cabelos loiros, um rosto de traços fortes e maduros com a barba por fazer e um olhar profundo e cansado.
— Agente Kennedy... — assim que ela pronuncia aquele nome, Chris fica tenso e se aproxima da cama, pronta para pegar seu celular de volta. — Eu me lembro que conheci um Leon Kennedy em Raccoon City. — Seu coração ficou agitado ao se lembrar daquele policial novato. — Mas, seria muita coincidência se ele tivesse se tornado um agente do governo. — Ela encara o capitão da BSAA. — Você o conhece?
— Sim, eu o conheço. — Ele diz hesitante pegando o seu celular de volta.
— E quem não conhece o Agente Kennedy. — Trent resolveu interrompê-los entrando no quarto e trocando um olhar nada amigável com Chris. — Ele virou o herói nacional. A propósito, ele é um homem casado agora e em breve será papai... — Ele precisava dar um choque de realidade nela para ver se sua filha parava de pensar em Leon. — Enquanto ele trabalha para o governo estadunidense e virou o típico herói americano, Ada Wong é apenas...
— Uma bioterrorista. — A espiã se calou e ficou triste; não por causa de Leon; mas porque se lembrou que estava presa naquele quarto de hospital prestes a encarar uma vida da qual a sua mente confusa havia se esquecido. Era como se tivesse dormido por 15 anos e só acordado agora. 15 anos que se tornaram tempo suficiente para mudar muitas coisas em sua vida. E, constatar isso, a deixou assustada.
— Ele também acha que eu sou uma bioterrorista? — ela indaga ainda se sentindo assustada com aquelas informações.
— Sim. — Trent mente friamente trocando um olhar com Chris que se sente desconfortável. — Ele também sabe que Ada Wong está morta e enterrada para sempre. Ela morreu em Lanshiang. — A paciente desmemoriada não teve muita escolha, senão concordar com tudo aquilo. — A partir de agora você é apenas Li Guimeng.
— Eu já entendi, chefe. — Ironiza fazendo referência ao fato do homem mais velho parecer mais como um chefe autoritário do que um pai. — Agora eu gostaria de ficar sozinha. — Ela deita e se vira de costas para eles.
— Eu sinto muito por... você saber das coisas desse jeito. — Chris se desculpou, antes de sair do quarto.
Quando os dois homens estavam fora do quarto e longe de Ada, eles acabaram se desentendendo. Chris se sentia culpado porque Trent fez chantagem emocional e o impediu de contar para Leon que aquela espiã estava viva. O diplomata também não queria que sua filha soubesse que teve um envolvimento romântico com aquele agente do governo. Ele dizia que essa era uma forma de manter, todo mundo seguro, inclusive a sua filha.
— Eu estou fazendo isso para protegê-la de um mundo que odeia Ada Wong.
— Eu entendi isso. Mas, você também mentiu sobre o Leon. Você fez ela acreditar que ele... ele a odeia.
— Por que você se importa com isso, capitão?!
— Porque eu estava lá quando o Leon entrou na frente da minha arma para protegê-la. E se ele não tivesse me impedido... eu teria apertado o gatilho e matado a sua filha — o capitão admitiu sem pestanejar.
— Capitão, eu sei que você é um homem honrado e você não quer mentir para o Leon. — Trent resolveu assumir uma abordagem menos agressiva para convencer Chris a fazer o que ele queria. — Leon acabou de se casar e vai ser pai em breve. Acha que ele abandonaria a sua família se soubesse que a sua ex amante está viva? — A tensão é crescente e pesada entre eles. Isso também fez o capitão se lembrar de uma conversa que teve com a sua irmã semanas atrás.
Claire que havia se tornado viúva de Piers estava tão rancorosa e era uma das pessoas que mais odiava o nome Ada Wong. Sua irmã admitiu em lágrimas que nunca perdoaria Leon por ele ser omisso e não ter entregado Ada para as autoridades quando teve a chance. Ela acreditava que se a espiã tivesse sido pega naquela época, os atentados bioterroristas de Tall Oaks e Lanshiang não teriam acontecido e, portanto, seu marido ainda estaria vivo.
O problema é que sua irmã não sabia da verdade, assim como o mundo. Claire não sabia que a verdadeira Ada Wong era inocente e também foi uma vítima de tudo. E tentar revelar a verdade agora faria diferença? Alguém acreditaria?
— Deixe que Li siga com a vida dela, bem longe de Leon e da sombra de Ada Wong. — O diplomata deixou claro que a Mentira que eles contaram já não era mais sobre o certo e errado, mas sim sobre o que era necessário ser feito para impedir um mal maior. No final, Chris cedeu e acabou se tornando cúmplice dessa mentira.
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