Destino Inesperado
10 Em Boa Companhia

Ada acordou se sentindo horrível, pois tinha dormido mal pela segunda noite consecutiva. Ela não conseguia entender o que estava acontecendo consigo, até sonhos estranhos teve e num desses sonhos estava Leon, o que a deixou ainda mais estarrecida. Desde que falou com aquele homem, naquele jantar, sua mente ficou cheia de dúvidas e seus sentimentos estavam confusos.
"Você é a grande heroína dessa história. E merecia ser reconhecida, Ada." Por algum motivo, essas palavras vindas de Leon haviam causado mais efeito nela do que quando Chris havia lhe dito quase as mesmas coisas anos atrás.
"Você era um jovem policial intrometido que queria bancar o herói o tempo todo." Mas, então, ela estragou tudo com o seu medíocre sarcasmo. E nada a preparou para enfrentar o olhar magoado dele.
"Pelo menos você não me chamou de policial ingênuo que "VOCÊ" mentiu e manipulou para conseguir o que queria." Aquelas palavras ficaram remoendo a sua mente, perturbando o seu sono.
"Você precisa manter distância daquele homem. Ele não é confiável. Qualquer aproximação entre você e o senhor Kennedy pode se tornar perigoso. Ainda mais com a irmã do Redfield por perto. Ela odeia Ada Wong, assim como todos os Estados Unidos. Nunca se esqueça disso." O sermão que seu pai lhe deu depois daquele jantar, ainda ecoava na sua cabeça.
— Ei Mulan, para de preguiça e se levanta! — Sherry surgiu já devidamente vestida, com uma calça militar e uma camiseta com emblema da BSAA.
— Por que essa animação tão cedo? — Às vezes, Ada esquecia que não estava em seu luxuoso quarto em Londres.
— Teremos visita. Leon logo vai chegar com a sua comitiva. — Com a ausência do capitão Chris, Sherry assumia a posição de capitã e tinha que colocar sua equipe em ordem.
Ada se levantou e começou a se trocar, sabendo que um certo homem estrangeiro estava para chegar ali pela primeira vez. E, ao refletir sobre isso, seu coração palpitou estranhamente.
— Sherry... você conhece bem o Conselheiro Kennedy?
— Sim. Ele e a Claire salvaram a minha vida em Raccoon City. — Sherry franziu a testa desconfiada da curiosidade repentina da Coordenadora-Chefe. — E ele é tipo um irmão mais velho. — Mas, por que a pergunta? Você se lembrou do Leon?
— Eu sei que o conheci em Raccoon City... Mas, hoje ele é um completo estranho. — Ela terminou de abotoar os botões de sua camisa xadrez e depois parou para escovar os cabelos na frente do espelho. — Trent me disse para não confiar nele.
— Olha, Li... Leon é um cara legal, honesto, uma boa pessoa. E nunca faria nada pra te prejudicar.
Sherry tinha prometido a si mesma que não se intrometeria nessa história complicada entre a ex-espiã e o Kennedy. Aliás, seu amigo tinha brigado com ela, porque a loira meio que ajudou Chris e Trent a esconder a verdade sobre Ada estar viva.
Sherry até pensou em contar a verdade antes para Leon, porém o tempo foi passando e ela viu o capitão Redfield cada vez mais se envolvendo com Li Guimeng e quando percebeu os dois estavam se encontrando as escondidas, encontros românticos secretos. Chris agora sorria com mais frequência, parecia menos carrancudo, andava por aí com uma aura leve e isso era consequência da presença de Ada em sua vida.
Por outro lado, Leon tinha Angela e uma vida diferente nos Estados Unidos. Agora como o porta-voz de um dos governos mais poderosos do mundo, ele não podia cometer erros. E no final, isso pesou para que Sherry continuasse silenciando a verdade.
Entretanto, com a vinda do Conselheiro Kennedy para Lanshiang, talvez, as coisas mudassem. E agora tudo podia acontecer.
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— Olá senhoras e senhores, sejam bem-vindos ao Centro de Atendimento para Vítimas do Bioterrorismo... Ou como carinhosamente chamamos: Um Lugar Para Recomeçar — Ada enfatizou assim que a comitiva norte-americana chegou junto com o Conselheiro da Segurança Nacional. Também haviam chegado novos voluntários, entre eles Claire e a própria Jill.
— Esse lugar parece incrível — Jill elogiou segurando sua câmera fotográfica. Ela queria aproveitar o seu tempo naquele lugar, com a intenção de capturar várias imagens legais e bem reais para fazer uma exposição fotográfica quando voltasse aos Estados Unidos. E ela parecia bastante excitada com a ideia.
— Particularmente, acho que Um Lugar Para Recomeçar combina muito com esse refúgio. É um nome bonito — Leon admitiu com sinceridade, conseguindo roubar a atenção da doutora Guimeng por um instante. Os dois se entreolharam de forma ainda meio distante, mantendo apenas uma postura solene.
Ada percebeu que ele havia escutado o seu conselho e abandonado o terno, optando por usar uma camisa social azul-clara com as mangas dobradas sobre os cotovelos e uma calça jeans cinza-escura. Para não quebrar totalmente o protocolo, ele manteve a gravata.
— É uma honra recebê-los aqui, senhor Kennedy. — Diante de tantos olhares, a dupla se cumprimentou cheio de formalidades. E Leon ficou um pouco surpreso com o novo visual dela: um estilo rural, com camisa xadrez vermelha, botas e os cabelos longos soltos sob um chapéu de palha. Ela parecia realmente ter se adaptado à sua nova identidade. E isso era um pouco assustador e, ao mesmo tempo, fascinante.
— Tenho certeza que será um dia agradável para todos nós. — O Conselheiro disfarçou a sua ansiedade, colocando uma máscara sóbria em seu belo rosto.
A comitiva norte-americana havia sido muito bem recepcionada por alguns soldados da BSAA, ativista da Salve-Terra e outros voluntários que ajudavam Carlos, Sherry e Ada a contarem um pouco sobre como funcionava o trabalho diário do CAVB. E, assim, o grupo continuou a sua peregrinação ao lado também de jornalistas que aproveitavam para entrevistar alguns refugiados e ir conhecendo as suas histórias de vida.
Alguns sobreviventes carregavam muitos traumas físicos, ou psicológicos e pareciam desacreditar que as coisas poderiam melhorar. Mas, haviam outras pessoas que ainda tinham esperanças de dias melhores. Que ainda tinham fé no amanhã.
Eles também visitaram o centro de pesquisa e atendimento médico, onde ficava os medicamentos, os vários tipos de vacinas, incluindo a vacina contra o C-Vírus e entre outros suprimentos básicos, essenciais de saúde e higiene que a ONU enviava mensalmente para eles.
Durante o passeio a coordenadora-chefe decidiu levar o grupo estrangeiro para conhecer o trabalho voluntário de psicólogos, que usavam o método de terapia equestre para ajudar as vítimas das guerras biológicas a superarem seus traumas e também era uma excelente distração para a criançada.
— Como vocês podem ver não há perigo algum. — Ela disse assistindo a pequena Mei Chin montada num pônei. A menina quando viu Li deu um chãozinho e sorriu fazendo aparecer as suas covinhas, que sempre lhe davam um olhar tão angelical.
— Além disso, os cavalos são um ótimo meio de transporte e não poluem o meio ambiente. — Carlos prosseguiu para alívio de Ada que já se sentia cansada e com um inicio de uma enxaqueca. A partir dali, ela deixou que ele assumisse a liderança.
O grupo passou a seguir o seu assistente e se esqueceram um pouco dela. A bela mulher se aproveitou disso, para se aproximar de um dos cavalos de cor caramelo e passou as mãos sobre seus pelos. Isso a deixou um pouco distraída que não viu o Conselheiro Presidencial se aproximar dela.
— Ele tem um nome? — Leon se aproximou com cautela.
— Thor, ele é o meu segundo favorito. — Eles trocaram um breve olhar.
— Thor, o Deus do trovão é o herói favorito dos meus filhos — Leon respondeu tão automaticamente, que até se surpreendeu em revelar tanto sobre si para a ex-espiã que o encarou com um olhar perplexo.
Pensar em Kennedy como um cara que já era casado e pai, fez Ada sentir um gosto muito indigesto. Era como se ela tivesse sido sacodida tão forte pela realidade. A questão mais estranha era: "Por que isso a afetou?"
— Então, quantos filhos o senhor têm? — Aquela curiosidade feminina se tornou inevitável.
— Tenho um casal — ele respondeu também acariciando o cavalo e já sentindo como aquele simples gesto parecia mesmo terapêutico. — A mais velha tem 5 anos e se chama Natalie e o caçula tem 3 anos e se chama Anthony. — Logo, o homem estrangeiro sentiu a necessidade de mudar a conversa. — Se Thor é o seu segundo favorito... Então, qual é o seu número um? — Em resposta a ex-espiã assobiou, chamando a atenção de uma bela égua branca.
— Esta é a Bing qing. — A égua branca veio trotando e parou na frente de sua dona. Leon achou encantador a troca de carinho entre elas. — Ela é muito linda e leal. — A égua deu um relincho como se tivesse lhe respondendo.
— Tem algum significado para Bing qing?
— Bing qing significa clara como o gelo. — Ao ouvir o seu nome a égua soltou um relincho alegre. — Ela tem sido a minha companheira há muitos anos. — Seus olhos castanhos se fixaram nos olhos azuis do belíssimo estrangeiro e, de repente ambos esqueceram que não estavam, completamente, sozinhos.
— Doutora Guimeng! — Eles foram interrompidos por uma repórter veterana que decidiu lhe fazer uma última pergunta. — A senhora considera essa Fazenda o lugar mais seguro do mundo? — Ada ficou pensativa por um instante e depois sorriu, olhando fixamente para a mulher.
— Depois de tantos altos e baixos, de tanto esforço e trabalho árduo, acho que hoje podemos "Sim" afirmar que vocês estão no lugar mais seguro do mundo. — A bela chinesa tinha uma expressão tão tranquila, enquanto sentia certos olhos azuis sobre si. Leon naquele momento, se viu tão encantado pela coragem e percebeu que sentia orgulho dela.
— Isso não é um pouco presunçoso da sua parte?! — Claire decidiu assumir uma posição de resistência contra as palavras de Ada. — Enquanto existir o bioterrorismo e as guerras no mundo... não existirá um lugar seguro. Isso é pura ingenuidade sua. — Suas palavras fizeram a doutora Guimeng parar e se virar para encará-la. — E mesmo com a queda da Umbrella, ou das mortes de Wesker e daquela espiã... Ada Wong... — As duas se fuzilaram com o olhar e o clima parecia ter ficado pesado. — Ainda existem outros bioterroristas e espiões soltos pelo mundo... Talvez, se infiltrando entre nós, fingindo até lutar pelas mesmas causas e ganhando a nossa confiança, só para nos trair depois. — Naquele momento, Li sentiu que a irmã de Chris parecia estar a acusando.
— Ei Claire, o que você acha que está fazendo?! — Leon tentou interferir. — Pare com as suas insinuações! — ordenou entredentes.
— Não me leve a mal, Conselheiro Kennedy... — Ela continua com o sarcasmo. — Mas...
— Mas, se há alguém que o mundo não deveria confiar, é em vocês norte-americanos, que foram manipulados tanto tempo por Derek Simmons. — De uma forma um tanto rude, um dos soldados da BSAA de origem chinesa decidiu interromper. — Nós só estamos aqui trabalhando para limpar a sujeira de vocês.
E, ali se iniciou uma discussão acalorada entre alguns membros da comitiva norte-americana, contra os funcionários do centro de refugiados. Por outro lado, os jornalistas que haviam sido permitido ali, se aproveitaram da situação caótica para conseguir uma possível manchete.
— Já chega! Vamos se acalmar! — O Conselheiro da Segurança Nacional foi forçado a usar a sua autoridade para apaziguar a situação. — Não viemos do outro lado do mundo para criar uma guerra. Nós estamos aqui para ajudar e não para espalhar o ódio — sua voz retumbou firme fazendo todos se calarem enquanto ele dava um olhar duro direcionado a Claire, que de repente pareceu um pouco envergonhada. — Esse lugar abriu as portas para que nós pudéssemos conhecer o trabalho deles. Então, o mínimo que devemos fazer é respeita-los.
— Leon, tem razão. — Sherry retornou ali para checar o que estava acontecendo. — É bom ver que, apesar de todo caos causada pelas guerras biológicas, os sobreviventes ainda tem a chance de recomeçar num lugar como o CAVB. — Ela olhou entre Leon e Claire.
No entanto, a tensão permaneceu a tal ponto que a Coordenadora-Chefe resolveu tomar uma medida radical.
— Acho que por hoje o passeio acabou. É melhor vocês irem embora! — Ada resolveu praticamente expulsar aquela comitiva da sua Fazenda, deixando todo mundo chocado.
Todavia, como nem todo mundo percebeu que havia rolado um pequeno desentendimento, alguém sugeriu que eles tirassem algumas fotos. E lá foi Ada fazer o que ela fazia de melhor: fingir um sorriso e manter as aparências.
O pior foi ter que tirar uma foto ao lado do Conselheiro Kennedy. Os dois pararam lado a lado e se entreolharam, compartilhando do mesmo nervosismo, antes de pousarem para a tal foto. Naquele momento, uma coisa engraçada aconteceu, uma borboleta colorida começou a voar por ali e pousou em umas das mãos de Leon.
— Sempre que eu vejo uma borboleta, eu penso em você — ele sussurrou tão rapidamente, antes de se afastar e entrar naquele carro a deixando confusa.
Quando Ada achou que estaria livre daqueles estrangeiros babacas, ela retornou para sua égua Bing qing e resolveu sair galopando para longe daquela loucura, em busca de um pouco de solidão e paz.
***/ /***
Ela saiu galopando pela estrada cercada por montanhas e passou ao lado do carro onde estava Leon. O Conselheiro vislumbrou a beleza indomável sumir por entre as árvores. Isso aguçou a sua curiosidade.
— Para o carro! — gritou o homem tomando uma decisão imprudente.
— Por quê? Aconteceu alguma coisa? — Dexter ficou confuso, porém continuou dirigindo. Depois do clima de quase hostilidade que se criou dentro daquela Fazenda, o guarda-costas achava que era mais seguro sair o quanto antes daquela região.
— Só para o carro! — O carro parou e os dois carros que seguiam atrás e que também faziam a sua escolta, se viram forçados a parar.
— Leon, o que você vai fazer? Você vai acabar se perdendo! — Seu guarda-costas ficou tenso ao ver seu chefe sair do carro e começar a correr na direção da floresta. Dexter ordena para que outros seguranças fiquem e lhes dê cobertura.
Eles correm por alguns metros entre as plantações, parando somente ao ouvir um barulho de água e um relincho. Não demorou muito para encontrar um rio com uma cachoeira, onde encontrou o chapéu de palha e a camisa xadrez que a mulher usava jogados na grama perto de Bing qing.
— Eu vou ficar bem, Dexter. Agora você volta para o carro e me espera lá.
— Mas, chefe...
— Me obedece, ou eu vou te demitir! — Leon estava desesperado para se livrar do seu guarda-costas.
— Ei, quem tá aí? — Eles ouvem a voz de Ada e trocam olhares apreensíveis.
— Sou eu, o Leon! — Kennedy se manifestou, percebendo que seu guarda-costas recuou, deixando-o sozinho por pelo menos alguns instantes.
— Senhor Kennedy, alguém te seguiu? — Ele a encontrou agachada pegando água do rio com as mãos e bebendo. Ela prendeu o cabelo num coque bagunçado para se refrescar, pois estava muito quente.
— Não. Sou só eu — Leon enfatizou vislumbrando Ada se levantar e se virar para encará-lo, fazendo os olhos azuis dele serem atraídos pelas gotas de água que escorriam, suavemente, sobre a pele macia que agora estava mais bronzeada, até se perderem entre o vão dos seios femininos encobertos por um tope preto, seu olhar ainda desceu parando sobre o abdômen desnudo e tonificado. Ada ainda mantinha a calça jeans desbotada e as botas de montaria.
De repente, o Conselheiro Presidencial dos EUA, desviou o olhar e parou com toda aquela avaliação indiscreta.
— Por que você me seguiu? — ela indagou numa expressão mal humorada.
— Eu te segui porque você fugiu! — o homem exclamou andando até ela e se agachando também para usufruir da mesma água límpida e fresquinha, depois aproveitou para molhar o rosto e a nuca. O Assessor Presidencial se viu surpreso pelo rio parecer tão longe de poluição, tão intocável.
— Eu não fugi! — ela argumentou começando a andar para longe do rio e para longe dele. — Esse é o meu lugar particular e você não é bem-vindo aqui! — Seu olhar era fulminante.
— Bem, para mim pareceu que você estava chateada e fugiu. — De repente ele soltou a língua e revelou mais do que deveria. — Essa era uma característica muito típica de Ada Wong. Fugir, sorrateiramente. — Leon agiu, descaradamente, como se eles fossem íntimos. Isso bastou para ela empacar no meio do caminho e se virar para confrontá-lo.
— O quê?! O que foi que você disse?! — ela exprimiu boquiaberta e franzindo a testa em confusão.
— Eu disse que você fugiu, sim! Exatamente, como Ada Wong fazia sempre que se sentia acuada. — Ele caminhou até parar na frente dela, colocando uma distância segura entre os dois.
— Caso você tenha esquecido... — Ela deu um passo mais perto e lhe sussurrou parecendo meio na defensiva. — Ada Wong está morta! — Com os dois tão próximos a diferença de altura ficou bastante em evidência. — E o meu nome é Li... E você não pode ficar nos comparando como se...
— Não! Eu não esqueci! — enfatizou a desafiando. — Mas, você parece que esqueceu de muita coisa. — Seu olhar era de aço, conseguindo fazê-la se sentir intimidada. — Porém, eu não vim aqui para brigar. Só queria saber se estava tudo bem. — No fim, Leon decidiu suavizar o seu tom, mesmo assim, Ada recuou e decidiu se afastar dele. — Sinto muito pela atitude da Claire. — Ele decidiu segui-la sem saber aonde a mulher estava o levando.
— Olha, o senhor não tem que se desculpar por ela e tampouco se preocupar comigo. — Ada seguiu até umas árvores que estavam cheias de tangerinas. De repente, a mulher ficou na ponta dos pés e começou a colher as frutas que podia alcançar.
— O que você está fazendo? — Ele sorriu se surpreendendo com essa nova versão de Ada.
— Estou pegando tangerinas. Vou levar para as crianças, elas gostam! — Ela se virou arqueando uma sobrancelha e olhando para ele de um jeito sugestivo. — Você vai ficar aí só olhando?
— O que você quer que eu faça?
— Me empresta a sua camisa?
— Por quê? — Ele franziu a testa meio confuso e deu um sorriso tímido.
— Para por as tangerinas. Depois dividimos e eu passo algumas frutas para a minha camisa. — Leon hesitou, mas ao confrontar aqueles pequenos olhos, acabou cedendo.
Após se livrar da camisa e ficar só de regata, ele também passou a ajudá-la a colher algumas das frutas, pegando as que eram fora do alcance dela. De vez em quando, seu peito musculoso roçava nas costas da mulher, causando em ambos certos arrepios.
— Você quer experimentar uma? — Ada pegou uma das tangerinas e começou a descasca-la, usando de ajuda as suas próprias unhas compridas. — Vamos lá, experimente! — Ela lhe deu uma das duas metades enquanto comia os gomos da outra.
— Hmmm, está bem docinha! — Leon elogiou, por um instante, apreciando aquele momento particular ao lado dela. E, por um instante, esquecendo das suas obrigações. — Ai, tem espinhos! — De repente ele se distraiu e acabou se cutucando.
— Deixa eu ver. — Para sua surpresa, Ada se aproximou meio sorrindo, achando graça daquele tamanho homem choramingando por causa de um minúsculo espinho. Depois pegou a mão masculina e passou os seus dedos sobre a palma da mão de Leon e sem querer acabou tocando na aliança de casamento dele, o que provocou em ambos um grande desconforto.
O clima leve e descontraído entre o par, logo, foi ficando cada vez mais nebuloso.
— Eu admito que fiquei um pouco chocada com a Claire. Ela parece odiar muito Ada Wong — Li aproveitou para desabafar.
— Claire assim como o mundo, acredita que Ada Wong era uma bioterrorista que matou muitas pessoas — ele respondeu se recompondo e se afastando dela. — Para ela, Ada foi a responsável pela morte do seu marido. E com a morte dele, ela passou por um período de depressão.
— Nossa! Isso é triste. — Ada parou e ficou pensativa. — Ela tem o mesmo temperamento do irmão, né?
— Sim. Especialmente, o jeito teimoso.
— Bom, talvez, eu deva tentar conquistar a confiança dela, assim como fiz com o irmão. — Leon estreitou seus olhos, intrigado com esse comentário.
— Então, como você fez para conquistar a confiança do Chris? — Ele já tinha desistido de colher frutas, cruzando o braço e esperando a resposta dela.
— Bem... — Ela parou tirando o suor do rosto, enquanto pensava sobre o longo e tortuoso caminho que percorreu para conquistar a confiança do capitão. — Não foi uma tarefa fácil. — Ela sorriu de um jeito maroto, deixando Leon incomodado. — Eu só tive que ser bastante persistente e muito persuasiva. E, talvez, usar um pouco da minha sedução feminina. — Seus castanhos mel piscaram com malícia.
— Então, você e o capitão são... tipo amigos? — Ele sentiu um aperto no coração.
— É. Eu acho que ele se tornou o mais próximo de um amigo e um grande parceiro de equipe. — Seus olhos eram sinceros ao falar de Chris. — Ele é a pessoa que eu mais confio no mundo. — Aquelas afirmações acabaram afetando Leon mais do que deveria. Havia um sentimento de ciúmes e decepção.
Como os dois já haviam parado de colher, Ada se reaproximou de Leon, com uma ideia fixa na cabeça.
— Senhor Kennedy... você odiava Ada Wong? — ela de repente faz aquela pergunta, sentindo o coração acelerar, inexplicavelmente.
— Eu tentei muitas vezes odiar você. — Ele foi curto e grosso. — Mas, eu não consegui... — Os dois se olharam intensamente. — E toda vez que eu tentei esquecer você... inesperadamente, você sempre volta para bagunçar a minha vida. — Agora o homem parecia amargurado.
— Eu não entendo. Por que você está falando isso? — Ada estava atônita, tentando entender o significado das palavras duras do Conselheiro Kennedy.
— Seu pai tinha razão... Era melhor quando eu achava que você estava morta. — Ele sentiu um nó se formar na garganta e uma angústia. A realidade cruel pesou nos seus ombros.
— O quê?! — Ada se sentiu nervosa, angustiada.
— Não importa. Esquece o que eu falei. — Leon lhe deu as costas e saiu andando pelo meio das árvores, sem saber aonde estava indo e, subitamente, acabou escorregando e caindo em um barranco.
— Que porcaria! — xingou furioso e pensando em como agora ele parecia mais como um homem patético do que como Conselheiro Presidencial.
— Senhor, Kennedy! — Ada rapidamente o encontrou. — Você está bem? — Ela mordeu o lábio para não rir.
— O que você acha? — o homem resmungou vendo a beleza oriental pular do barranco sem dificuldade. Ela para e estende a sua mão no intuito de ajudá-lo a se levantar.
Naquela hora ele resolveu se vingar, segurando a mão dela e a puxando, consequentemente, fazendo-a cair ao seu lado sobre a mesma terra molhada. Leon achou que ela iria xingá-lo, porém só ouviu a gargalhada dela. E a sua gargalhada era contagiante.
Os dois pararam de rir e olharam para o céu azul. Era um dia ensolarado e muito quente. E, novamente, um pequeno grupo de borboletas resolveu voar por ali. Eles ficaram, por um momento, apenas observando-as.
Então, o momento precisou ser quebrado. Leon resolveu se levantar e, dessa vez, ele estendeu a sua mão para ajudá-la.
— Me desculpa por tudo que aconteceu hoje. — O estrangeiro de lindos olhos azuis estava se desculpando por Claire e pela sua própria comitiva. E, talvez, também estivesse se desculpando pela sua própria insensatez.
— Tudo bem. Até que no final foi divertido. — Ela sorriu de novo.
— Bem, eu acho que é aqui que nos separamos outra vez. — Seus olhares se cruzaram e, por um instante indefinido, seus olhos ficaram presos um no outro, até que alguém conseguisse quebrar aquela conexão que poderia se tornar muito perigosa.
— Mas, com a promessa que nos veremos em breve, certo?
— Claro. Será um prazer retornar aqui e apreciar a boa companhia e o lugar incrível que você construiu. — E em seus lábios se desenhou um sorriso lindo que fez o coração dela bater, estranhamente.
{Continua...}
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