Destino Inesperado

11 A Mentira Que Contamos



Lanshiang, China

Quando chegou no hotel mais luxuoso e famoso de Lanshiang, Leon foi direto para o seu quarto tomar um banho e se trocar. Sua atitude imprudente já havia chamado atenção demais. Sua sorte era que a equipe que cuidava da sua segurança era discreta e leal a ele.

O Conselheiro se pegou rindo debaixo do chuveiro, da loucura que fez de ter mandado parar o carro no meio daquela estrada, cercada por montanhas e perseguir Ada, exatamente, como costumava a fazer no passado. Parecia que era seu carma: ela fugir e ele estupidamente correr atrás dela. Anos se passaram, porém algumas coisas permaneceram as mesmas.

Ele desligou o chuveiro, se secou e se trocou rapidamente. Depois retornou para o quarto onde Dexter lhe esperava sentado, confortavelmente, numa poltrona.

— Estava observando o centro da cidade. E nem parece que já foi vítima de um atentado bioterrorista. — Dexter comentou.

— É. Realmente não parece que esse lugar quase foi destruído anos atrás. Porém, muitas pessoas ainda carregam algumas cicatriz. Algumas cicatrizes bem mais profundas e difíceis de se cicatrizar.

— Então, o senhor parece que se divertiu muito hoje, hein? — Dexter se aproveitou para pegar uma xícara de café enquanto azucrinava seu chefe sobre a visita que fizeram no Centro de Refugiados.

— Foi um dia bacana mesmo. Confesso que foi a primeira vez que eu senti prazer em meu trabalho — Leon disse depois de sair do banho.

No início quando eles se reencontraram, ela não parecia confiar nele, parecia meio na defensiva e isso também o fez pensar na antiga Ada que conheceu em Raccoon City: A mulher com aura fatal, sorrateira, misteriosa e sedutora. Entretanto, a ex-espiã mudou, agora tinha que proteger a sua nova identidade, agir de um modo diferente, aos mesmo tempo em que sofria de amnesia e não se lembrava dele.

Essa era a pior parte: lidar com o fato de que ela não se lembrava dele. Pelo menos aos poucos foi abaixando a guarda, deixando ele se aproximar e ganhar a sua confiança. Assim, eles tiveram um tempo para conversar.

— E tudo isso, graças a uma certa gata chinesa! — Dexter lhe deu um olhar irônico.

— O quê?! — Leon franziu a testa numa expressão séria.

— Eu com certeza passaria a me divertir mais em meu trabalho, se passasse algumas horas sozinho com a senhorita Guimeng.

— Não exagera! — Leon deu um sorriso sem graça e desviou o olhar para a janela, tentando fingir se distrair com a paisagem lá fora. — Nem demoremos tanto assim. — Ele não imaginava que a visita a Fazenda dos refugiados iria terminar com ele pegando tangerinas e depois caindo no meio da terra molhada com ela. Mas, tinha realmente sido divertido.

— Eu olhei no relógio e percebi que vocês demoraram mais de meia hora para retornar. — Dexter se divertia irritando o seu chefe. — Em uma hora dá pra fazer muita coisa, hein. Até brincar na lama, porquinho?

— Cala a boca! — Leon exclamou envergonhado.

— Afinal, o que rolou entre você e a gata chinesa?

— Não aconteceu nada. A coordenadora apenas me mostrou uma outra parte da propriedade que é bastante grande e produtiva, mas eu acabei escorregando e caindo.

— E perdeu a sua camisa. — Ele teve que obrigar seu guarda-costas e motorista a lhe emprestar o paletó e a camisa que ele usava. Afinal, seria muito estranho e suspeito, o Conselheiro Presidencial chegar no hotel com suas roupas sujas. Porém, a sua camisa azul ficou com Ada.

— Pare já com essas insinuações! Tá querendo ser demitido?

— Tá, chefinho... me desculpa. — Dexter tentou segurar a língua dentro da boca, até que a curiosidade se tornou mais forte. — Vocês dois já se conheciam, não é? E acho que Claire sacou isso também.

— Vocês estão totalmente errados. — Leon soltou um suspiro profundo e olhou de novo para a janela do seu quarto. Era estranho estar ali de novo naquela cidade, depois de 6 anos. Depois de tantas mortes e destruição, ver o lugar reconstruído era reconfortante. Mesmo assim, Lanshiang ainda trazia um peso do passado que parecia difícil de ser apagado, ou esquecido. Isso também se refletia na sua própria relação complicada com Ada.

— Bom, eu posso estar enganado, mas eu vi uma sintonia ali entre os dois. E agora... que você está prestes a se divorciar... Então...

— Então, nada! Agora saia! eu quero descansar. — E quando ficou sozinho, Leon se pegou pensando em como a sua vida estava uma bagunça. Angela resolveu pedir o divórcio e ele estava ali do outro lado do mundo, perto da sua antiga paixão. E revê-la mexeu tanto com a sua cabeça e com o seu coração.

Entretanto, a relação deles era proibida e Ada o via como um estranho. E mesmo que fosse se divorciar, ainda precisava manter as aparências. Era por isso que a aliança ainda permanecia na sua mão como um lembrete das suas obrigações. E ainda havia as crianças. Seus filhos eram inocentes e não mereciam sofrer pelos erros de seus pais.


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Depois de um dia agitado e cheio de momentos inesperados, Ada estava pronta para descansar. Depois de um banho rápido, resolveu não descer para jantar com o resto do seu grupo, principalmente porque queria evitar esbarrar com a ruiva, irmã de Chris. E falando no capitão, ela resolveu ligar para ele e saber como a missão estava indo.

Eles ficaram por um tempo conservando. A missão parecia ter surtido algum efeito, conseguiram pegar um terrorista que poderia estar envolvido com os roubos das vacinas usados para combater vírus mutagênicos como o próprio C-Vírus. E entre uma conversa e outra, ambos admitiram que estavam sentindo a falta um do outro e que não viam a hora de se reencontrarem. Embora Chris sentiu que Ada não estava sendo tão sincera, o homem sentiu pela voz hesitante da sua parceira, que havia acontecido alguma coisa.

— Aconteceu alguma coisa com você? — A voz de Chris parecia preocupada.

— Eu estou bem. É só que o dia foi cansativo. Sabe receber esses estrangeiros foi bem chato — Ada comentou de repente pensando no próprio Conselheiro Kennedy.

“Entretanto, será que Leon foi uma visita chata?”

— Eu imagino. E a Claire... você conheceu a minha irmã?

— Você deve sentir orgulho dela. Ela é tão arrogante e teimosa como você. — Ela escutou o riso dele do outro lado da linha. — Vocês são bem parecidos. — Ada riu se lembrando da forma como Claire agiu como uma juíza, ou promotora deixando-a nervosa. — Eu acho que sua irmã... já sabe que sou Ada Wong — murmurou baixinho com medo que alguém a ouvisse pronunciar aquele nome, mesmo estando trancada em seu quarto. Com a viúva de Piers Nivans por perto, a coordenadora-chefe se sentiu um pouco ameaçada.

— Não tem como ela saber. Todo mundo sabe que Ada Wong está morta. — Chris mesmo de longe estava tentando confortá-la. — O seu segredo está seguro. Além do mais, logo estarei aí para te proteger. — Suas palavras soavam presunçosas.

— Ei, capitão, vai com calma! Não me trate como uma donzela em perigo. Eu sei me cuidar — ela resmungou.

— E como foi... o seu... — Chris estava pestanejando demais para chegar no assunto que estava o perturbando. — Como foi o seu encontro com o Leon?

— Foi bem, muito cordial e um pouco... esquisito, sei lá.

— Esquisito por quê? — Chris já ficou tenso, só de imaginar Ada se reencontrando com o Leon, depois de todos esses anos.

Chris ficou tão frustrado quando descobriu por Jake que Leon estava na China e que ele fazia parte da comitiva do governo dos EUA que viria para conhecer o CAVB. Entretanto, o capitão só soubesse disso tarde demais, quando já estava no Penamstan. Porém, sabia que seria impossível impedir esse reencontro.

— Ele fez alguma coisa... contra você?

— Ah, não! O Kennedy foi bem gentil e simpático com todo mundo. Muito diferente dos americanos petulantes que estavam na sua comitiva.

— Mas, houve algo, não é? — Do outro lado da linha a voz de Chris tinha um tom preocupado e Ada percebeu isso. — Vocês chegaram a se falar? Por acaso, Leon falou alguma coisa estranha?

— É... Talvez, ele tenha dito algo que me deixou confusa... Ele foi meio enigmático e, às vezes parecia... magoado... Mas, esquece. Não importa. — No final, Ada tratou de desconversar e decidiu que era melhor finalizar a ligação, deixando o capitão frustrado.

E quando a ligação terminou, Ada se pegou pensando em Leon e nas conversas que eles tiveram.

“Sempre que eu vejo uma borboleta, eu penso em você.” E o jeito que ele falou a deixou tão confusa e, mesmo assim, fez seu coração acelerar.

“Senhor Kennedy, você odiava Ada Wong?”

“Eu tentei muitas vezes odiar você. Mas, eu não consegui... E toda vez que eu tento esquecer você, inesperadamente, você sempre volta para bagunçar a minha vida.”

“Eu não entendo. Por que você está falando isso?” Ada estava atônita, tentando entender o significado das palavras duras do Conselheiro Kennedy.

“Seu pai tinha razão... Era melhor quando eu achava que você estava morta.”

A cada palavra, ou olhar que eles trocaram, ou até mesmo quando eles brevemente se tocaram, tudo parecia cheio de significado e profundidade. Era como se ele a conhecesse de um jeito tão intimo que ela só não se lembrava. E era aí que Ada ficou tensa.

Será que depois de Raccoon City, Leon e ela andaram se encontrando? Talvez, encontros secretos que ninguém mais sabia, só os dois? Será que era por isso que o homem parecia chateado? Por que ela se esqueceu de tudo?

Ela foi até seu guarda-roupa e pegou uma sacola, onde havia guardado a tal camisa social azul dele, que ainda estava suja. Depois cheirou a roupa que ainda possuía um pouco do perfume dele, misturado ao cheiro das tangerinas. Infelizmente, o cheiro da fruta era mais forte e isso a deixou tão chateada.

“Ele é casado! Para de pensar naquele homem!” Seus pensamentos foram interrompidos.

— O que você está fazendo? — Sherry chegou curiosa. — E que camisa é essa?

— É meu segredo. — Ada resolveu guardar a camisa azul e só vai entregá-la, quando estivesse limpa e passada e quando reencontrasse o Conselheiro Kennedy.

— Essa camisa não faz o estilo do Chris. Mas, faria o estilo do... — Sherry não terminou a frase, pois pensou em Leon e ficou apreensiva.

— O que foi? Por que está me olhando assim? — As duas se encararam.

— Eu trouxe o seu jantar. — Sherry lhe entregou uma tigela com um garfo.

— Obrigada.


***/ /***


Assim que chegou do Penamstan, o primeiro compromisso de Chris foi se encontrar com Leon. Eles se cumprimentaram de modo solene e, logo, passaram a focar suas atenções na missão que ambos deveriam pôr em prática juntos.

Os grupos tanto da BSAA quanto da comitiva do Kennedy, depois de toda a peregrinação pela cidade, tiveram uma reunião ainda com o Prefeito de Lanshiang. Alguns acordos foram assinados pelo Conselheiro da Segurança Nacional, tudo foi feito com muita diplomacia de ambas as partes. Por fim a viagem terminou com uma coletiva de imprensa, onde o Prefeito, o Conselheiro e o Capitão deram as suas respectivas entrevistas e ainda pousaram para fotos.

— Bem, eu queria dizer que fizemos um bom trabalho aqui e agora já estamos prontos para retornar para o CAVB, com mais um sentimento de dever cumprido — disse o capitão para os vários repórteres que estavam ali. — Agora é hora de erguemos o nosso acampamento e nos preparar para novas missões.

Após a coletiva de imprensa, Chris e Leon tiveram uma pequena brecha para conversarem sobre certas coisas que, no fim, acabou fugindo do contexto profissional e indo para uma direção um tanto complicada e muito íntima.

— Eu me sinto estranho em estar aqui de novo... em Lanshiang. — Os dois homens trocaram um olhar rápido de compreensão. Eles estavam numa das sacadas do prédio onde ficava a Prefeitura.

— Eu te entendo. No início estar nesse lugar foi difícil também para mim. Cada canto dessa cidade me trazia lembranças horríveis. Eu me lembrava dos meus soldados, do Piers... — Chris soltou um suspiro profundo e ficou com um olhar perdido. — Esse lugar me fez quase perder a minha sanidade.

— Imagino. Bom... pelo menos Lanshiang não virou uma nova Raccoon City. — Da sacada Leon podia vislumbrar as pessoas circulando na frente e na entrada do prédio e, por algum motivo, ele sentiu um pressentimento ruim.

— Então, como foi a sua chegada no CAVB? O pessoal te tratou bem? — Na verdade a pergunta que Chris gostaria de fazer era outra: "E aí como foi o reencontro entre vocês dois? Deu pra matar a saudades?" Obviamente, essa pergunta soaria indigesta para ambos e iria expor o quão ciumento o capitão se sentia.

— Sim. O lugar é Incrível! Vocês tem feito um bom trabalho ajudando essas pessoas. E a senhorita Guimeng realmente foi muito... — Leon franziu a testa tentando achar a palavra certa. — Muito simpática e atenciosa com toda a minha equipe. — Embora por fora o Conselheiro tentasse manter uma postura solene e imperturbável, por dentro ele se sentia ainda alvoroçado ao recordar dos poucos momentos que passou ao lado dela.

— Ah, Li realmente é muito dedicado a nossa Fazenda. Ela é uma pessoa... muito persistente e corajosa — A voz de Chris não era sarcástica, raivosa, ou indiferente como costumava ser na maioria das vezes. — Com certeza o CAVB não existiria sem a perseverança e o charme dela. — Aquelas palavras ditas através de um sorriso que, geralmente não era comum naquele rosto que sempre fora carrancudo, mais uma vez deixou o Conselheiro perplexo.

— Uau! Quando foi que Chris Redfield passou a ser amigo de uma mulher como ela? Quando foi que você começou a acha-la charmosa? —Leon se viu mudando a sua postura cortês. — Eu pensei que você nunca se apaixonaria por uma mulher como ela. — O clima ficou estranho entre os dois.

— O quê?! — A expressão suave de Chris mudou, abruptamente. — Ela se tornou uma pessoa melhor... E acho que tudo mudou entre nós quando começamos a trabalhar juntos. Aliás, foi ela quem foi persistente e correu atrás de mim! — o capitão admitiu com petulância.

— Então, você está apaixonado mesmo? Você é um hipócrita! — Leon não conseguiu segurar a sua língua.

— Qual é o seu problema, Kennedy? Você está com ciúmes? — Chris caminhou até Leon e parou em sua frente, demonstrando uma postura muito dura e ríspida.

— Eu só queria saber por que você não me contou que ela estava viva? Por que você mentiu para mim, Chris? — Leon foi direto ao ponto e fez o capitão recuar e se sentir envergonhado.

Houve um silêncio pesado entre eles. Chris sabia que, cedo ou tarde, eles teriam que ter essa conversa. Ele só não estava preparado para esse confronto agora.

— Eu sei que não foi certo. Mas, tudo que fizemos foi para proteger todo mundo. E, principalmente, proteger ela. — Chris tentou se justificar. — Agora você é um homem casado. Então, cuida da sua família, que eu cuido da Li... Você só precisa manter distância dela. E, assim, ninguém vai se machucar. — Seu tom era exigente que lembrava o mesmo tom que usava para com seus soldados. Só que Leon não era o seu soldado.

— Não se preocupe. Por mim nada vai mudar. Ela continuará segura e livre para viver a vida do jeito que ela quiser. E nós vamos continuar mantendo essa mentira. — Os dois se fuzilaram com o olhar por um momento prolongado. — Vamos continuar fingindo que Li superou o passado, mesmo que isso seja uma grande mentira.

— Mentira?! Quem é você para dizer que a vida que ela construiu é uma mentira, senhor Kennedy?!

— Eu sou o cara que a conhece há muito mais tempo que VOCÊ... Eu sei o suficiente para afirmar que, não tem como superar o passado... quando há uma grande parte dele que Ada nem consegue se lembrar.

— Ah, agora sei qual é o seu problema.

— Qual?!

— Você é um pedaço do passado que ela esqueceu... e isso deve ferir o seu orgulho. — As palavras de Chris eram um grande equívoco, pois no fundo, por mais que a amnésia de Ada o machucou, Leon não era egoísta. Ele também se preocupava com a ex-espiã, possivelmente, sempre iria se preocupar e, acima de tudo, queria vê-la feliz. O ex-agente só não queria ser um espaço em branco na vida dela. — E mesmo se Li se lembrar, o que você acha que vai acontecer? Você acha que ela vai correr para os seus braços, Leon?

Num momento de silêncio fugaz, Leon começou a refletir. Refletir sobre tudo que descobriu nas últimas semanas sobre Ada e a sua nova vida naquela cidade chinesa.

— Não! Ela não vai correr para os meus braços... Ela vai fugir — Leon falou com tranquilidade, pois conhecia bem aquela história. — Não importa o quanto tente segurá-la em seus braços, ela sempre vai embora! — Aquelas palavras severas, deixaram Chris apreensivo.

— Capitão! Leon! — disse Jake Muller transtornado, surgindo de repente. — Vocês precisam ver uma coisa.

— O que aconteceu, Novato?

— O Terrorista que capturamos no Penamstan, acabou de revelar que... o grupo dele planejou um... atentado terrorista.

— O quê? — Os dois homens gritaram ao mesmo tempo.

De repente houve uma explosão, gritos e um tiroteio se iniciou chamando a atenção dos três homens.

{Continua...}