Destino Inesperado
9 Doutora Li Guimeng

Lanshiang, China
Era finalzinho da tarde e o sol estava quase para se pôr quando a dupla decidiu vagar pela fazenda, ignorando os olhares e questionamentos dirigidos aos dois. Muitos já deduziam que o capitão e a doutora Guimeng era um casal, mas ambos nunca assumiram nada, oficialmente.
— Então, você estará vários dias fora daqui? — ela perguntou após se despedir de algumas crianças e de um dos professores que trabalhava ali na escolinha improvisada.
— Sim. Uma semana e meia que você terá livre de mim. — O homem também cumprimentava as pessoas de forma mais discreta.
— Que ótimo! — Ada decidiu provocá-lo escondendo o seu descontentamento. — Onde é a sua próxima missão?
— Penamstan. — Ada parou no meio do caminho, olhando para Chris com os seus pequenos olhos castanhos cheios de preocupação. — A BSAA vai escoltar alguns refugiados de volta para aquele país e averiguar se o lugar tá seguro.
— Enquanto você vai para essa missão, eu vou para Pequim encontrar Trent. Teremos um jantar diplomático.
— Você não parece animada.
— Acho que estou passando muito tempo aqui na fazenda. Sinto que, talvez, nem sei se vou conseguir interagir com aquelas pessoas lá fora.
— É só usar o seu charme e seu carisma.
Durante a caminhada de retorno para a Sede da Fazenda, suas mãos se roçaram e Chris se aproveitou disso para segurar uma das mãos femininas e puxá-la, fazendo a mulher rodopiar e acabar parando entre seus braços. O homem em seus quase 1,90 de altura, ergueu o queixo dela a forçando a encará-lo.
— O que está em sua mente, capitão? — Ada ficou na ponto dos pés e ergueu suas mãos até os ombros largos dele, massageando-os como se tentasse relaxa-lo.
— Estou pensando que, talvez, pela primeira vez, eu não queira partir para nenhuma missão. Talvez, eu queira ficar assim com você em meus braços. — Ele, então, desceu seu rosto mais próximo dela e uniu seus lábios, beijando-a com sofreguidão.
No dia seguinte, Chris Redfield partiu para o Penamstan, sem imaginar que na mesma noite, o Conselheiro da Segurança Nacional dos Estados Unidos, desembarcou na China.
Pequim, China
Enquanto o Conselheiro da Segurança Nacional dos Estados Unidos dava a sua entrevista em uma coletiva de imprensa, Claire e Jill aproveitavam para circular por ali, conhecendo os amplos salões de mármore do hotel até se cansarem. Eles estavam num dos principais hotéis no centro da cidade, cercados por políticos, jornalistas e figuras de grande influência social e humanitária. Pelas imensas janelas de vidro, as luzes de Pequim começavam a cintilar, escondendo os segredos que aquela noite ainda reservava.
— Esse lugar é bonito — dizia Jill decidindo se livrar do blazer que ela havia escolhido usar por cima do macacão social de cor nude e, para disfarçar a sua baixa estatura, escolheu um sapato cinza prateado de salto alto e fino.
— É bem elegante e charmoso — respondeu Claire se sentando ao seu lado. A ruiva optou por algo básico, um vestido tubinho vermelho curto com gola em V de tecido leve e para combinar uma bota também preta de cano curto e de salto grosso. — Você não para de olhar para porta. Até parece que está ansiosa para reencontrar o seu ex-marido. — Ela provocou a sua amiga.
— Hahaha... Eu só estou aqui pra te fazer companhia — a ex-senhora Oliveira resmungou irritada. — E Carlos é só um brasileiro cara de pau. — Ela decidiu mudar de assunto. — E você está ansiosa para reencontrar o seu irmão? — Aquela pergunta fez Claire engolir em seco, também parando para observar as pessoas que iam entrando ali. Seus olhos, de vez em quando, se cruzavam com os olhos pretos de Justin Dexter, o guarda-costas particular de Leon que estava parado na entrada, cuidando de quem entra e sai do lugar.
— Aposto que ele nem virá para o jantar — ela dizia mexendo numa das mexas de seu cabelo ruivo que, aliás, estava preso num rabo de cavalo.
— Por que você acha isso?
— Você esqueceu que ele não gosta desses eventos? Não posso culpa-lo... É muito chato.
— Pelo menos vocês concordam em alguma coisa!
— Jill... — Havia uma coisa que estava deixando Claire encucada. — Você percebeu que havia uma foto de uma mulher com duas meninas no gabinete do senhor Philip, em Londres?
— Sim. — Antes que Claire perguntassem quem eram elas, Jill já foi se adiantando. — A mulher era a Fang esposa de Trent e as duas meninas são as gêmeas Li e Mei. Trent já me contou a história sobre elas. É muito triste.
— O que aconteceu?
— Fang morreu quando as meninas tinham 9 anos. E pelo que sei sobre as gêmeas, elas foram criadas separadas.
— Por que elas foram separadas?
— O porquê eu não sei. Só sei que Mei também faleceu anos depois.
— Nossa que história trágica. Você chegou a conhecer alguma das gêmeas?
— Não. Mas, hoje isso vai mudar. Hoje vamos conhecer Li Guimeng. — A conversa parou quando Leon se aproximou delas.
Logo, teria um jantar especial com comidas variadas e também, tipicamente, chinesas. Era um jantar de negócios que marcaria o encontro entre o Conselheiro da Segurança Nacional dos Estados Unidos, com a Coordenadora-Chefe do Centro de Atendimento a Vítimas do Bioterrorismo. E, falando nela, ela acabou de chegar numa limusine com seu pai, o embaixador Philip Trent Blanchett. Carlos Oliveira e Sherry Birkin também chegaram com eles.
— Droga! Por que eu tinha que vir mesmo? — a pequena loira perguntou insatisfeita, arrumando o seu vestido preto básico que Ada ajudou a escolher.
— Você está aqui para representar o Chris e a BSAA — enfatizou Carlos Oliveira, ajeitando a calça sobre a sua perna mecânica depois de sair de dentro do carro. O brasileiro escolheu vestir algo que fosse prático e básico, como calça jeans azul com camisa social branca, cuja as mangas foram dobradas, cuidadosamente, do jeito que Jill Valentine costumava gostar. Para ocasião formal. ele até arrumou o cabelo e fez a barba.
— Ah, esses saltos tão me matando!
— Por que você escolheu eles? — Carlos estendeu seu braço para ajudá-la a se apoiar.
— Tudo culpa da Li. — Ada que estava atrás deles e caminhando ao lado de Trent, apenas riu das reclamações da mulher mais jovem.
— Pelo menos você ficou linda e mais mulherão. — Carlos a provocou fazendo ela corar. — Imagina a cara do Jake te vendo vestida assim.
— Eu tirei uma foto e mandei pra ele. Ele ficou arrependido por não ter vindo comigo. Acho que ficou com ciúmes. — A loira riu se lembrando da cara do seu namorado que tinha deixado de estar ali com ela, para acompanhar Chris em sua missão.
Enquanto isso, Trent estava tentando esconder a sua preocupação em ver sua filha ali no meio de pessoas que já haviam conhecido Ada Wong. E uma delas era Leon. Ele não podia arriscar a segurança da sua filha, porém quando tentou convencê-la a não ir, Li que é muito geniosa, obviamente, bateu o pé e resolveu que viria, pois não havia o que temer. A verdade era que, por causa da amnésia, Ada não tinha noção dos riscos.
— E, então, senhora Guimeng... Está pronta para o jantar?
— Sim. Acho que vai ser divertido! — Ela deu um sorrisinho sarcástico, segurando seu braço. Por cima de seu terno caro, Trent percebeu que a mão dela estava tremendo um pouco.
De qualquer forma, Trent tentou manter a calma, sobretudo, porque agora Leon sabia a verdade sobre a sua filha e não abriria a boca. Afinal, se certas verdades viesse à tona, todo mundo tinha muito o que perder, inclusive o próprio Conselheiro Presidencial. Portanto, o embaixador iria confiar que o jantar seria um sucesso e tudo sairia nos conformes.
Os quatro seguiram para dentro do hotel onde aconteceria o tal jantar.
Todos pararam para apreciar a beleza oriental que havia chegado ali acompanhada do diplomata britânico. A partir dali, Ela passou a ser o centro das atenções. Nesse momento, Kennedy que estava preso numa conversa qualquer, se virou para ficar cara a cara com a mulher que ele achava que nunca mais veria novamente.
— É um prazer conhecê-la, Doutora Guimeng. — Leon tinha uma expressão séria quando estendeu a sua mão para cumprimentá-la.
O homem diante dela estava vestido, impecavelmente, num conjunto de terno e gravata azul-marinho que lhe dava um olhar refinado, o rosto dele havia ganhado traços faciais mais marcantes com o passar da idade e sua voz parecia impetuosa. Ada fixou seu olhar nele, demoradamente, apreciando a beleza masculina norte-americana, o rosto dele era familiar e, ao mesmo tempo, era desconhecido.
— É um prazer conhecê-lo, senhor Kennedy. — Imediatamente quando se tocaram, Ada sentiu como se uma corrente elétrica percorresse sua espinha, a mão dele apertando a sua era quente e macia, o seu cheiro masculino era tão forte capaz de impregnar-se nela, a deixando meio tonta. E havia aqueles olhos azuis que a fizeram se lembrardaquele policial novato, alto e magricela que conheceu em Raccoon City. Aquele novato ingênuo que, irritantemente, tentava bancar o herói.
Em contrapartida, o homem não conseguia parar de contemplar cada mínimo detalhe sobre aquela beleza oriental. Ela estava vestida num conjunto que combinava blusa ombro a ombro de cetim, saia lápis verde musgo e uma sandália de salto alto com tiras no estilo gladiadora. Ele também percebeu que seus cabelos compridos haviam ganhado um novo tom de castanhos com mexas iluminadas de dourado que caíam soltos sobre os seus ombros nus. Mas, o que mais lhe espantou, foi o cheiro dela. Sim, aquele perfume familiar e feminino que ainda permanecia o mesmo, alguma coisa que lembrava vinho e flores.
Depois de 6 anos sem vê-la, Leon se viu diante daquela mulher que por tanto tempo atormentava a sua mente e torturava o seu coração. Todavia, aquele momento particular entre eles, não passou despercebido por Trent e Carlos que trocaram olhares apreensíveis. Ambos sabiam da história complicada daqueles dois, embora Ada não se lembrasse disso.
***/ /***
O jantar transcorreu bem. O pessoal comeu, bebeu e trocaram conversas cordiais, ora com temas políticos, ou diplomáticos. Em algum momento, as conversas se tornaram mais descontraídas entre os amigos.
— Que ironia! Agora que percebi que esse jantar é quase uma reunião entre os sobreviventes de Raccoon City — murmurou Carlos com sarcasmo olhando demoradamente para Jill.
— Verdade. Só faltou o Barry e o Chris para a reunião ser completa — Jill comentou já sentindo falta do capitão Redfield. — Sinto saudades dele. — Seu comentário irritou Carlos.
— Agora é tarde demais, Jill!
— O que você está insinuando, Oliveira? — Os dois se fuzilaram com o olhar.
— Que ele já tem uma nova parceira... E ela é uma beleza oriental. — Carlos afirmou dando uma breve olhada na direção de Ada. Sua atitude impulsiva acabou chamando a atenção de Claire e do próprio Leon.
— Uau! Então, a Doutora Guimeng é a nova parceira do Chris? Eles são muito amigos? — Claire troca um olhar irônico com Leon.
— Uma amizade... muito colorida! — Sherry murmura um pouco embriagada pelo vinho, deixando seu grupo da mesa chocados.
— Ei, acho que alguém já bebeu demais! — Jill resolve tirar a taça de vinho para longe da loira que fica indignada.
— E onde está o capitão Redfield? — Leon perguntou mal humorado, olhando para a mesa ao lado onde estava Ada conversando com alguns políticos chineses. Ela em nenhum momento tentou olhar na direção dele e parecia estar muito confortável no meio de outras pessoas, completamente, alheia ao clima de tensão que pairava entre os sobreviventes de Raccoon City.
— Ele partiu paro o... Penamstan — foi Sherry quem respondeu. — Mas, em breve ele vai retornar. E vocês vão poder matar a saudade dele. — Ela brincou sorrindo na direção de Claire.
***/ /***
Ada estava nervosa porque suas mãos não paravam de tremer, ela tentou disfarçar e fingir que estava tudo bem, mas no fim pediu licença e tentou se refugiar no banheiro, achando que poderia ficar sozinha por um instante.
Ada apoiou suas mãos trêmulas sobre a pia do banheiro. As mãos trêmulas eram uma sequela tão inconveniente quanto a amnésia. E sempre que passava por uma situação de estresse, ou quando se sentia ansiosa, elas tendiam a ficar trêmulas e até dormentes, causando uma sensação horrível. Quando ergueu seus olhos para o espelho, viu o reflexo de Claire se aproximando dela.
— Você parece nervosa. Aconteceu alguma coisa, Doutora Guimeng? — Claire perguntou, vindo lavar as suas mãos na pia ao seu lado.
— Eu acho que, talvez... eu seja um pouco como o seu irmão. Odeio esse tipo de reunião burocrática. — Ada forçou um sorriso.
— Bom, eu não vou discordar disso. — Claire compartilhou do mesmo sorriso fingido. — Parece que, no fim, tudo é um grande interesse político. Poucos ali se importam com os direitos humanos, ou em tornar o mundo um lugar melhor. — Ela se virou para o espelho e passou a arrumar a maquiagem.
— Bom, é um prazer conhecer você, Claire. E será um prazer tê-la na nossa Fazenda. — Ada tentou ser simpatia, antes de se despedir. Entretanto, quando estava prestes a sair do banheiro, a irmã caçula de Chris disse algo que a deixou nervosa.
— Alguém já te disse que você se parece com aquela espiã... Ada Wong?
— Não. Isso é uma comparação muito bizarra. — Ela fingiu indiferença, porém por dentro seu coração acelerou e suas mãos voltaram a tremer.
***/ /***
Ada saiu do banheiro apreensiva, decidida a manter distância de Claire e da sua postura inconveniente e desconfiada. Entretanto, ao invés de procurar por seu pai ou Carlos, ela resolveu se refugiar no lindo jardim do hotel que estava vazio. Por um instante, se distrai olhando para a tela do seu celular que marcava 9 da noite.
— Essa é a hora em que você vai fugir? — Ela foi pega de surpresa por aquela voz firme. — Desculpa, não era minha intenção assustá-la, senhorita... Guimeng. — Leon percebeu que ela estremeceu de susto.
— Ah, está tudo Ok. Tudo sob controle. — Depois de se recompor, Ada foi forçada a falar com ele já se sentindo um pouco tensa. Leon também percebeu o modo como a mulher parecia reagir a sua presença, como se tivesse com medo, ou incomodada.
Eventualmente, aqui ou na Fazenda, a dupla teria que ter uma relação ao menos profissional, afinal, havia muito o que debaterem sobre muitas coisas, a fim de cumprirem da melhor forma possível os seus trabalhos. Mas, nesse momento, ele só queria saber se ela estava bem.
— Você pode relaxar um pouco, agora — ele murmurou percebendo que a mulher fechou as mãos em punhos numa postura rígida. — Eu juro que você está segura, comigo. — Leon deu um sorriso leve tentando aliviar o clima.
— Eu só vim tomar um ar fresco. Estava muito abafado lá dentro. — ela conseguiu responder lhe olhando de soslaio.
— Devo admitir que me surpreendi com a temperatura dessa cidade.
— Todo estrangeiro diz a mesma coisa. — Pela primeira vez, naquela noite, eles compartilharam um sorriso. — Mas de dia é bem pior. Por isso lhe recomendo... evitar o terno sob o sol de Lanshiang.
— Certo. Não me esquecerei disso quando for a sua Fazenda. — Leon continuou a dizer com legítimo entusiasmo. — Estou muito curioso pra conhecer o centro para refugiados.
Eles começaram a vaguear pelo jardim apreciando a beleza do local e a conversa foi a distraindo um pouco que, enfim, se permitiu relaxar.
— Modéstia à parte acho que o senhor Conselheiro vai gostar do lugar. — Ada podia sentir os azuis dele o tempo todo sobre ela, como se o homem não pudesse perdê-la de vista.
— Eu ouvi falar muito bem do seu trabalho. Então, tenho certeza que lá deve ser incrível. — Seu tom gentil e o seu jeito autêntico, logo, conseguiu roubar a atenção daquelas íris âmbar.
— Como você conseguiu se livrar dos seus seguranças e assessores? — Pois sendo o Conselheiro da Presidente dos Estados Unidos, ele não tinha liberdade para andar por aí sem os seus cães de guarda.
— Eu tive uma ajuda de um simpático brasileiro.
— Ah, o Carlos?! — Aquele filho da mãe era para estar protegendo ela e não acobertando aquele forasteiro.
— Sim. Como o próprio Oliveira diria: "Aquele cara é massa!" — Ele conseguiu roubar mais um sorriso dela, aquele sorriso torto que era tão típico de Ada Wong. Logo, Leon se deu conta que a cor vermelha que era a marca registrada da espiã, estava no brilho labial que cobria seus lábios. Aqueles lábios sedutores que ele já beijou tantas vezes no passado.
— Ouvi dizer que o senhor já foi agente secreto do governo. — A formalidade com que ela o tratou como se ele fosse um desconhecido, deixou Leon tão frustrado. — Como foi trocar as missões de campo para ser o Conselheiro da Segurança Nacional? — A mulher agia como se realmente não se lembrasse dele.
— Foi estranho no começo. Na verdade ainda é. — Ele sorriu ao refletir sobre isso. — Mas, eu sou um tipo de cara que aprende rápido e sabe se adaptar a qualquer desafio.
— E como é ser o Conselheiro da Presidente dos Estados Unidos? — Ela parecia bastante interessada em conhecê-lo mais.
— Bem, é cheio de responsabilidades, é difícil e tão cansativo. Nos últimos 2 anos e meio, o governo atual tem tentado limpar a sujeira deixada por Simmons. E levará anos até que nosso país consiga reconquistar a confiança e o respeito que tinha das outras nações.
"Caramba, o que o tempo fez com eles?!" Leon refletiu se sentindo estranho tendo aquela conversa tão cheia de formalidades. Havia uma barreira invisível entre eles que os mantinha meio que ligados, apenas por um interesse impessoal. Ada fez ele se sentir como dois estranhos se conhecendo pela primeira vez.
— Mas, agora com o senhor cuidando da segurança do país e assessorando a Presidente, talvez, as coisas se resolvam mais facilmente. Afinal, o senhor faz parte do time de heróis que salvou muitas vidas. Os heróis de Lanshiang! — Agora a beleza oriental parecia um pouco amargurada, ao se lembrar que aquele homem ganhou todo o mérito por salvar o mundo, enquanto ela foi transformada em uma mera vilã clichê.
— Os heróis de Lanshiang?! — Ele arqueou a sobrancelha numa expressão um pouco debochada. — Isso é um pouco injusto. — Porém, de repente seu semblante tornou-se sombrio.
— Injusto, por quê?! — Ada o encarou com um olhar desafiador.
— Porque... — Ele vacilou olhando para ela e pensando em tudo o que aconteceu em Lanshiang. Pensando, principalmente em toda a dor e sacrifício que a verdadeira Ada Wong teve que sofrer para salvá-los. — Porque o verdadeiro herói... foi você... — Sua revelação a deixou desnorteada. — Quer dizer... — Leon se viu dando um sorriso nervoso. — Você é a grande heroína dessa história. E merecia ser reconhecida, Ada. — Li ficou boquiaberta ao ouvi-lo chamá-la por aquele nome.
Ela pensava que esse homem odiava Ada Wong, assim como o mundo. Seu pai a fez acreditar nisso. Trent, aliás, falou para ela tomar cuidado e não confiar em Leon. Isso a deixou confusa e com medo.
Os dois acabaram parando sobre uma ponte de pedra com um lago iluminado. Diante deles, erguia-se um grande chafariz de jardim decorado com uma estátua de Buda no meio de flores de lótus. As flores de lótus cujas pétalas se fechavam durante a noite, escondendo a sua total beleza que só podia ser melhor apreciada durante o dia.
— É melhor nós voltarmos senhor Kennedy. — Ela estava na defensiva e tentou se afastar dele.
— Ei, se acalma! — Ele ousou segurar a mão dela a impedindo de fugir. — Você está com medo de mim? Por quê? — Leon se sentiu ofendido e, ao mesmo tempo, preocupado.
— Eu nem te conheço! — ela esbravejou tentando puxar a sua mão trêmula da mão grande e quente dele.
— Claro que você me conhece. Eu era aquele policial novato que levou um tiro por você em Raccoon City. — Leon continuou segurando firme a mão dela e sorriu com certa petulância. — Acho que essa parte você não esqueceu?
Leon não imaginava que a conversa os levaria até 20 anos atrás quando eles se conheceram. Quando as suas vidas mudaram, dramaticamente.
— Nossa! — Ela exclamou numa expressão de espanto. — É que agora você é tão diferente do que eu me lembrava. — Aquele comentário o deixou pasmo.
— Você também mudou bastante. — Leon queria suavizar o clima entre eles e fazê-la confiar nele. — Eu me lembro, perfeitamente, que aquela mulher fatal de vestido vermelho... não era uma donzela em perigo. Ela era enigmática, durona e teimosa. Mas, agora...
— Agora o quê?! — Ela estreitou seus pequenos olhos e olhou para as suas mãos, logo, vislumbrando a aliança de casamento entorno do dedo masculino. Leon percebeu o olhar dela.
— Você é a doutora Li Guimeng. Uma mulher livre para estar aqui no meio de todas essas pessoas, sem precisar ficar se escondendo nas sombras, ou fugindo. — Leon sorriu com sinceridade soltando a mão dela, assim colocando uma distância segura entre eles.
— Agora você me fez lembrar... daquele policial novato intrometido. — Ela ainda tinha uma postura tensa, ainda assim lhe deu um sorrisinho irônico.
Sua última lembrança dele fora em Raccoon City como o policial novato que tentou salvar a sua vida. Um jovem com seus 20 anos ainda muito ingênuo, mas também muito corajoso e gentil. Contudo, aquelas lembranças que a beleza oriental ainda mantinha daquele garoto de rosto angelical, se contrapôs ao homem alto e forte que estava todo pomposo diante dela. Um homem mais velho, com um olhar mais aguçado sobre o mundo, embora ainda conservasse inabalável a sua personalidade corajosa e incorruptível.
— Você era um jovem policial magricela intrometido, que queria bancar o herói o tempo todo — a resposta sarcástica dela, o fez enrugar o nariz em desgosto.
— Magricela intrometido?! — exclamou arqueando as sobrancelhas. Nesse momento, ele se pegou pensando nas palavras cruéis de Trent. — Pelo menos você não me chamou de policial ingênuo que "VOCÊ" mentiu e manipulou para conseguir o que queria. — E a franqueza crua de suas palavras se refletiu em seus azuis cheios de magoa, deixando Ada confusa.
Obviamente, Leon sentiu mágoa porque ela esqueceu 15 anos de sua vida. E, ironicamente no meio desses 15 anos, Ele foi uma parte fundamental na vida dela. A tensão cresceu novamente entre eles.
— Achei vocês! — De repente a voz de Trent rompeu pela noite chamando a atenção de ambos. — Li, está na hora de irmos embora. — Ele ordena encarando Leon com um olhar nada amistoso. Carlos também surgiu ali se sentindo desconfortável.
Eles se despediram de forma fria e cordial. Por fim, seus olhos se cruzaram uma última vez, antes que Ada fosse levada para longe dele.
Depois de 6 anos, Leon descobre que ela está viva, eles se reencontram e é tenso e estranho. Eles ainda irão se encontrar de novo, mas terão que manter as aparências, mesmo que por dentro seus sentimentos estivessem uma verdadeira bagunça.
{Continua...}
Fale com o autor