Parecia que eu estava correndo na praia. Na verdade, eu estava. O que era estranho. Jurava que estava sentada no meu sofá, vendo uma série. Mas, lá estava eu, correndo. Olhei para trás, e pude ver meus pais. Senti meu coração pesado. Eu queria encontrar eles. Queria ir até eles. Dei a volta, correndo o mais rápido que conseguia. O mais rápido. Então, tropecei. Caí com força no chão e senti meus joelhos arderem de uma forma insuportável. Parecia que tinha uma pedra no meu peito, me sufocando. Inspirei e expirei. Olhei para cima e vi a sombra de alguém se aproximando. O sol era a pino, então, não conseguia distinguir seu rosto. Quando a pessoa chegou mais perto, estendendo a mão, pude ver com mais nitidez. Era aquele mesmo homem do hospital. Pisquei algumas vezes. Talvez, se eu fechasse os olhos, ele não estaria ali. Mas, ele continuava ali.

— Não vai levantar? — ele perguntou, ainda com a mão estendida.

Neguei com a cabeça. Eu não queria ir com ele. Eu queria ir sozinha. Ele me deixava nervosa. Estranha. Levantei-me, como podia, limpando minhas mãos na calça. Olhei para os lados, procurando meus pais. Eles não estavam mais lá. De repente, não estava mais na praia, mas em uma floresta sem vida. E aquele rapaz continuava lá, com um olhar insistente.

— Pode fazer seu desejo agora — ele disse — Só faça seu desejo e eu vou embora.

Ele era tão irritante. Tão…tão estranho. Eu não queria fazer desejo nenhum. Nem sabia o que ele queria na verdade.

— Vai embora — pedi.

Porém, ele não foi. Parecia impaciente. Eu dei as costas, então, caminhando. Tropecei algumas vezes. Eu podia sentir seus passos atrás de mim. Olhei ao redor, vendo aquele lugar cinzento demais. Triste demais. As árvores eram estranhas. Não havia uma folha sequer. Parecia que estavam passando por um inverno rigoroso, mas não via neve no chão. Apenas uma cor cinza e estranha no chão.

Eu vou continuar te seguindo, até você fazer o pedido — escutei a voz dele.

Apressei-me, correndo dele. E então, me vi próxima a um precipício. O braço dele envolveu minha cintura. A vertigem tomou conta e eu quase desmaiei. Aquilo tudo não fazia o menor sentido.

— Faça o pedido.

Por que ele insistia tanto nisso? De repente, comecei a escutar uma música insistente, em meu ouvido. Despertei no sofá, me sentindo tonta e esquisita. Suspirei aliviada. Era só um sonho. Estava no meu sofá, na segurança da minha casa. Peguei o celular do chão, vendo que era o horário de levantar. Sete horas da manhã. Um horário terrível, contudo, levantei. Ou melhor, cai no chão, porque eu não tinha forças para permanecer em pé.

Tomei um banho rápido e vesti a primeira roupa que encontrei no guarda roupa. Dentro desse tempo, meu celular tocou várias vezes. Não vi quem ligara, mas chegando no metrô, eu pude ver que Gina ligou insistentemente. Molly também.Senti meu coração apertado. Verifiquei as mensagens enviadas. As duas me parabenizaram e estavam chateadas por eu não ter atendido o telefone no dia anterior. Na verdade, eu não queria falar com ninguém. Não queria explicar que eu tinha uma doença. E que minha vida estava por um fio. Um fio invisível, que se fosse esticado só um pouquinho, romperia.

Não percebi que não me segurava em alguma barra, dentro do vagão. Eu deveria fazer isso. Não sabia se em algum momento o metrô iria parar em um solavanco. E foi o que aconteceu. Apesar disso, eu não caí de frente para o banco, sobre uma passageira que parecia não ter noção que aquele não era o lugar ideal para comer um lanche. Na verdade, alguém me puxou pela cintura, me mantendo estável. Olhei para o lado, para agradecer e me arrependi.

— Você? — indaguei.

Ele não poderia estar ali mais uma vez. O homem do hospital, enfermeiro e deus, pois isso não saia da minha cabeça, estava ali. Com o mesmo sobretudo cinza e o mesmo olhar sem vida. Ele não parecia de bom humor, na verdade. Me desvencilhar dele foi o mais complicado, pois o vagão estava lotado. Consegui me segurar em uma barra, esbarrando na mão de estranhos. O que me causava arrepios. Eu detestava dividir o mesmo espaço pessoal com outras pessoas.

— Você não parece ter dormido bem — escutei a voz dele, ao meu lado.

Como ele era irritante! Continuava me seguindo, como se fossemos conhecidos.

Eu não te dei a liberdade de me tratar com impessoalidade — retruquei — E você…bom… — ele existia. Eu achava que era só um sonho a visita dele no meu apartamento.

— Sou bem real — ele completou a frase, sem que eu pudesse dizer mais nada. Então, sorriu. Um sorriso estranho, como se não conseguisse expressar suas próprias emoções — Agora, pode fazer o pedido. Se quiser, eu até te tiro desse vagão, para que você tenha um dia muito bom, até a destruição desse universo.

Tive vontade de rir. Ele continuava com aquela história estranha do mundo acabar. E isso estava ficando irritante, ao mesmo tempo que hilário.

Não vou desperdiçar meu desejo com isso.

— Não? — ele indagou, parecendo impaciente — Mas, você tinha desejado…

Ele de repente, olhou para frente. Segurava a barra de ferro no alto, onde eu não alcançava. Ele era mais alto que a média dos homens presentes ali. Esguio. E perfeito. Tão bonito quanto um deus deveria ser.

— Você está chateado? — perguntei, me sentindo um pouquinho mal.

Eu não sei se diria isso — ele respondeu, voltando a cabeça para me olhar. Um olhar indecifrável — Eu não desisti ainda.

**

Cheguei no trabalho, sozinha. Ele não me seguiu. Na verdade, ele sumiu de vista. Como se nem estivesse lá. Eu agradeci por isso. Queria apenas focar no livro que tinha no meu tablet, quando consegui um lugar para sentar no metrô. Estranhamente, ele havia conseguido o lugar pra mim, me pedindo para dar um passo para o lado. E de repente, eu estava sentada. Então, ele sumiu sem que eu percebesse. Mas, eu sabia que sua atitude era apenas para me agradar. Ainda não fazia ideia do que estava acontecendo, nem como a existência dele poderia ser real. Apesar disso, era. Tão real, que eu me assustava. Ninguém olhara para mim no metrô como se eu fosse uma completa maluca. Na verdade, nem pareciam me notar. Então, ele esteve ali o tempo todo.

Entrei pelo saguão, sentindo um certo medo de encontrar Pansy. Para minha sorte, não havia ninguém remotamente parecido com ela. Tomei o elevador, dividindo mais um espaço apertado, com um mar de pessoas. Saí no último andar, sozinha. O que era ótimo. Quando cheguei no escritório, percebi que tudo estava do mesmo jeito. Meus colegas estavam concentrados em suas telas, digitando, falando ao telefone. Instintivamente, olhei para a sala de Zabini. Estava com as cortinas cerradas. Ele não estava ali, o que era um alívio. Sentei-me na minha cadeira, depois de acenar para meus colegas. Nancy veio até mim, com um presente. Um cupcake e me abraçou. Senti uma certa emoção por alguém lembrar que fora meu aniversário. Harry me entregou um voucher de compras na Zara, me dando um parabéns formal, que só ele sabia dar. Outros colegas me deram os parabéns, sem muito alarde.

Suspirei aliviada, quando as atenções se afastaram de mim. Voltei para minha tela do computador e comecei a digitar. Só parei quando digitei a data do documento. E imprimir. Foi até a mesa de Harry, pois ele era meu chefe também. Coloquei o documento sobre a mesa. Ele me fitou, segurando o celular. Estava em uma ligação.

— Só um momento — ele colocou a ligação do celular no mudo e me fitou — O que é isso?

— Minha carta de demissão — respondi, sem qualquer emoção.

Ele me fitou do mesmo modo. Então, olhou para a carta.

— Não posso aceitar isso — ele negou, passando o papel para mim.

— Mas, por que não? — perguntei, um tanto indignada.

— Você é a melhor editora daqui — ele cruzou os dedos, apoiando o queixo — E eu não confiaria os melhores autores a outra pessoa. Além disso, eu não estou autorizado a te demitir. Apenas o sr. Zabini.

— Mas…- eu iria argumentar. Não queria falar com Zabini, não queria mesmo.

Ele estava em viagem — continuou Harry, sem se importar que eu estava falando — Vai voltar daqui um mês. Então, você vai precisar aguardar.

Eu queria argumentar, dizer que estava morrendo. E que eu não tinha tanto tempo assim. Mas, Nancy interrompeu, dizendo:

Hermione, o autor Jones está aqui.

— Já? — Eu estava surpresa. Ele nunca chegava no horário.

— Sim. Deixei ele na salinha ali do lado — ela apontou.

Suspirei, olhando mais uma vez para Harry, que voltou para sua ligação, sem me olhar. Até virou a cadeira. Queria sacudir ele, mas não havia nada a ser feito. Só mais um mês, pensei.

**

Entrei na sala, pronta, com minha pasta na mão. O relatório que precisava apresentar para ele, com os gráficos de venda e o contrato para o próximo livro. Mas, parei, estupefata.

— Eu não acredito nisso.

Sentado na cadeira da sala de reunião, o deus da morte, ou seja lá como ele se chamava, me aguardava, com um olhar divertido.

— Senhorita Granger — ele disse formalmente — Espero que aqui possamos conversar.

— Você não deveria estar aqui.

Ele sorriu ainda mais. O que me deixou mais irritada. Dei alguns passos para trás, chamando Nancy.

— Você está vendo esse homem? — perguntei para ela, que me fitou como se eu tivesse algo estranho crescendo no meu rosto.

— Er…Sim… é o senhor Jones — ela afirmou, como se fosse uma pergunta.

— Não, esse não é o senhor Jones. Esse homem…- apontei para ele — Esse homem não é quem diz ser. Você sabe quem é o senhor Jones. Alto, de cabelo escuro…

— Isso — ela concordou — É ele. O que você tem?

Não, não, não.

Nancy foi saindo, me deixando sozinha com o “senhor Jones”. O rapaz na minha frente, no entanto, parecia estar achando divertido meu desconcerto.

— Acho melhor você se sentar, senhorita Granger. Ou vai cansar suas pernas.

Eu queria sumir. Simplesmente, sumir!