Eu não fiquei na sala para escutar aquele homem. Não queria escutá-lo. Simplesmente saí para encontrar Gina. Como o verdadeiro senhor Jones não apareceu e não atendia minhas ligações, resolvi que iria para o próximo compromisso. Não fui seguida por ele, o que era ótimo. Eu não queria mais aquele problema.

A cabeça naquela manhã parecia menos enevoada e a dor não havia aparecido. Atribuiu a uma melhora repentina. O que só poderia significar que a dor viria a qualquer instante, o que fazia meu estômago retorcer. Só consegui esquecer por um momento esquecer desse medo, quando Gina abriu a porta. Os cabelos ruivos caindo em cascata nos ombros. E ela tinha os olhos verdes inchados. O que indicava apenas uma coisa. Ela devia ter chorado. O que me fez sentir pena dela.

“Você sabia que ele voltou?”, indagou ela, me puxando para dentro.

Entrei, me sentindo culpada. Eu sabia exatamente de quem ela estava falando.

“Eu não queria que você soubesse”, confessei.

Gina me fulminou com o olhar, se sentando na cadeira giratória dela, em frente a sua mesa de trabalho. O notebook estava aberto. Sobre a mesa, havia embalagens de doces e lenços descartados. Ela deveria ter chorado o dia todo. Não quis me sentir na cadeira em frente a escrivaninha, apenas observei o apartamento dela. Estava impecável como sempre, apesar do local de trabalho dela.

“Como não consegui te ver ontem”, ela começou, fungando “Eu não vou brigar com você, por não falar que o Dino voltou para Inglaterra”.

“Que alívio”, ironizei, com um sorriso. Ela apertou os olhos, assoando o nariz em um lenço.

“Você sabe que eu amava ele, desde a escola”

“Eu sei, mas ele foi embora sem se despedir. Não valia a pena, de jeito nenhum”

Ela negou com a cabeça.

“Isso eu sei, mas eu esperei ele voltar. Eu esperava todos os dias ele voltar. E simplesmente, quando estava esquecendo ele, eu cruzei com ele em um evento da Victoria 's Secrets!” Ela gritou, indignada. Queria rir disso, mas não podia. Seus ataques histéricos foram o motivo pelo qual meus dias na escola foram engraçados. O bullying que sofria continuamente por ser bolsista e inteligente eram compensados com a força e determinação de Gina. Que sempre corria para me defender. Como nós duas éramos de famílias pobres, nos juntamos, quase nos tornando irmãs. O seu trabalho, no entanto, fez com que eu não tivesse mais tempo com ela. Eu não poderia culpá-la por isso.

“Gin, olha, eu sei que você não está bem, mas precisamos conversar sobre isso”, apontei para a pasta que carregava nas mãos. Resolvi que deveria sentar, já que não fui convidada a fazê-lo. Coloquei a pasta sobre a mesa e a bolsa no chão.

“Eu não quero” ela negou com a cabeça, passando as mãos pelos cabelos ‘Eu simplesmente não posso mais continuar com isso. Esses livros…”, ela suspirou “Eu não consigo mais escrever essa história”.

“Você consegue”, insisti, tirando o contrato de dentro da pasta. Peguei a caneta e passei para ela assinar “Você precisa finalizar a história deles”.

Ela negou com a cabeça.

“Vai ficar desse jeito. Ela vai ter morrido. E fim”

“Você não disse que iria ressuscitar Emma?”, perguntei, um tanto indignada “Não posso aceitar que essa série de livros terminou assim”.

“A vida real é essa. Dura e triste. Vai ser como Romeu e Julieta”.

“Eu não posso aceitar um plágio de Shakespeare”, brinquei, tentando suavizar o clima “Temos que trabalhar no final. Isso é o que importa agora. Seus leitores ficaram muito irritados se não tivermos um final digno”.


Gina listou muitos contras sobre a história que escreveu. Era um romance impossível, entre dois uma princesa e um mago, que por acaso, era muito mais velho do que ela. A história era sobre uma maldição. Uma maldição de uma rosa. Uma rosa que faria com que os mortos se levantassem. Contudo, o mago não sabia que isso lhe traria um custo. O amor da sua vida. Ele fizera tudo que estava ao alcance para atender os desejos de sua majestade. Usando a rosa, ele ressuscitou o filho do rei que morreu em batalha. Apesar disso, no final do segundo livro, esse personagem matou a princesa, a qual o mago amava. Era um melodrama que vendia e parecia encantar as jovens. E se era isso que vendia, então, eu não desistiria tão fácil. Gina escrevia aquela história desde o ensino médio. Como poderia simplesmente deixar aquilo morrer?

“Eu não sei…sinceramente” Gina disse, se levantando da cadeira e indo até a janela “Eu preciso de uma nova inspiração, não sei. Um novo namorado”

Eu ri, achando divertido esse comentário. Ela disse que nunca mais iria namorar, desde Dino. E de repente, era isso que ela precisa agora. Seria fácil. Eu poderia arranjar um encontro pra ela. E foi isso que sugeri.

“Você? Você não sai com ninguém há anos, desde de Rony”

A voz dela foi baixando, como se tivesse dito algo errado. Eu não fiquei magoada. Na verdade, eu não me preocupava mais com Rony. Não. Pra mim, ele tinha morrido. Estava sendo drástica, é claro. Mas, depois de tudo que passei, eu não desejava mais vê-lo.

“Desculpa, Mione” Ela pediu, pegando minha mão. Eu a fitei, sem deixar entrever meus verdadeiros sentimentos. Na verdade, ainda sentia uma certa raiva. A nossa separação culminou no meu pior erro.

“Está tudo bem”

Meu celular começou a tocar, de repente. Puxei da bolsa e vi na tela o telefone de Theodore. Eu não queria falar com ele. Não naquele instante.

“Eu preciso ir agora” disse, me levantando. Deixei o documento do contrato sobre a mesa dela. Gina me fitou com um olhar choroso “Pense no que disse. O seu livro precisa de um final. Se precisar, eu arranjo um cara pra você”

Nós duas rimos. Eu não conhecia ninguém. Não naquele instante, a não ser o pessoal do escritório. Talvez, bom, tivesse alguém interessante.

**

Voltando para o escritório, senti a dor de cabeça aumentar. A pressão estava se tornando constante. O que me fazia sentir certo receio. Eu queria morrer, de verdade? Ou estava apenas amargurada demais? Pensando nisso, estava prestes a atravessar a rua. O sinal ainda estava verde para os pedestres. Até aquele momento, eu estava conseguindo caminhar, mesmo que lentamente. E quando dei por mim, estava de joelhos no chão. Minha cabeça girava. O sinal estava prestes a fechar. Um carro poderia me atingir, naquele momento. E talvez,a vida não importava mais, pois, a dor era debilitante. Eu não queria mais um segundo daquilo. Foi quando de repente tudo parou. Olhei para cima e pude ver aquele homem novamente. Ele estava vindo até mim, de forma calma, como se não estivesse com pressa. Eu achei que naquele momento, ele levaria minha vida, com um anjo da morte. Não havia mais movimentação das pessoas. Tudo estava estático. A dor que sentia sumiu em um piscar de olhos. Ele estendeu a mão para que eu levantasse, mas antes que eu pudesse aceitá-la, ele disse:

“Você tem trinta segundos para se decidir. Ou você aceita minha ajuda e faz o seu desejo ou sua vida termina aqui”

Aquelas palavras foram um choque violento em meu corpo. Eu não imaginava que estaria barganhando pela vida naquele instante. Eu hesitei, hesitei por uns instantes. Mas, então, percebi a falha no plano dele. E isso me dava uma vantagem. Nem sabia o motivo, mas naquele momento, eu havia decidido que iria viver.

“Se eu decidir fazer o desejo, que diferença faria? Eu vou morrer dos dois jeitos”

Ele me fitou um tanto desconsertado.

“A dor pode ser maior agora. Se você aceitar acabar com esse mundo, não sentira nada” retorquiu ele.

Eu ri, amargamente. Não havia escolha. Ou eu morria naquele momento, ou morria sem dor. De qualquer maneira, não parecia bom.

“Eu quero viver” Me vi dizendo “Eu não quero morrer”

Ele suspirou, parecendo cansado.

“Podemos fazer um trato, então” Ele propôs “Você morrerá, independente da sua escolha. Não importa como. Sua vida é perene e não há como prolongá-la. Mas, eu posso fazê-la não sentir dor até o momento que você morrer. Dentro de três meses, eu posso tirar sua dor. Esse é o seu tempo de vida, sem tratamento. Se desejar seguir com o tratamento, a escolha é sua. Mas, quando o tempo acabar, você fará o desejo”.

Queria negar. Aquilo estava errado. Eu viveria mais um tempo, mas o mundo inteiro pagaria pelo meu medo de morrer naquele instante. Por um momento hesitei. Eu não queria acabar com o mundo. Não queria também que as pessoas que me acolheram morressem. Molly, Gina. As duas eram importantes pra mim.

“Não” neguei.

Ele me fitou com incredulidade. Assobiou, se afastando.

“Se é o que deseja”.

Tudo voltou como era antes, a dor. O movimento das pessoas. Alguém estava gritando. Não sei quem era. Então, olhei para o lado e um carro vinha em minha direção. Bom, era isso. Tudo iria terminar, naquele instante.

Mas, não terminou.

Simplesmente, ele pegou minha mão e estava de volta na praia de Torquay. E ele me encarava de forma furiosa.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.