Eu não abri a porta, de imediato. Na verdade, fechei com força, trancando novamente. A campainha tocou mais uma vez, insistentemente.

— Você me chamou – o rapaz do lado de fora insistiu – Você fez o pedido e eu vim.

Suspirei, sentindo o corpo tremulo. O que era aquilo tudo?

— Você estava me escutando? Me perseguindo? – perguntei, ainda perto da porta.

— Não, eu não tenho tempo para isso. Eu apenas escuto o pedido dos outros. Eu posso escutar o que as pessoas pedem.

Eu ri, histérica. Aquilo só podia ser uma piada. Com certeza, ele devia estar ali, do lado de fora, escutando meu pedido de aniversário e de repente, resolveu fazer aquela brincadeira sem graça.

— Ou sai, ou chamo a polícia.

Não escutei mais barulho do lado de fora. Talvez, ele tivesse saído. Talvez. Resolvi espiar no olho mágico mais uma vez e novamente, vi algo que não fazia sentido. Ao invés de ver o corredor, a imagem que aparecia era da torre Eiffel. Afastei o rosto, esfregando os olhos. Voltei a me aproximar da porta e vi os alpes suíços. Aquilo não estava acontecendo. Com certeza, era mais uma alucinação, ou algo assim.

Eu abri a porta novamente, irritada, soltando a trava de segurança da porta. Não estava pensando direito. Lá, estava então, o rapaz a minha frente, com os braços cruzados, me fitando com ar de deboche.

— Agora acredita em mim? – indagou.

— Acreditar? O que...

— Eu mostrei a Suíça para você e Paris. Agora, acredita em mim? Que posso ouvir o desejo dos outros?

— Você...- Eu esfreguei os olhos. A dor estava vindo novamente. A minha cabeça iria explodir – Só pode ser uma alucinação. Só pode ser isso. Isso não é real.

— E o que é real, de verdade, senhorita Granger? – ele perguntou – Apenas o que seus olhos podem ver? Ou existe algo além disso?

— Isso tudo é absurdo – eu ri incrédula – Você deve ser uma alucinação minha. Só pode ser isso.

— Não. Eu sou bem real. Você até mesmo pensou o quanto eu era bonito, dentro do hospital, hoje pela manhã – corei envergonhada. Ele tocou o próprio rosto, com um sorriso debochado – Esse rostinho, eu sei, é algo muito especial. Mas, voltando a questão, eu sei que você tem três meses de vida, se não fizer o tratamento para o glioblastoma. Sua cabeça está...- ele fez um gesto com os dedos, em direção a minha testa – Está com algo bem feio. Câncer é algo que alguns diriam se o pagamento pelos pecados cometidos.

Fulminei ele com o olhar. Ele só poderia ser um perseguidor e religioso fanático. Provavelmente, deve ter escutado atrás da porta do consultório do Theodeore, enquanto estava consultando.

— Eu sei que você está pensando que sou um perseguidor. Mas, eu não sou. Eu tenho muito o que fazer – Ele passou as mãos pelos cabelos loiríssimos e me fitou decidido – Eu preciso que você faça seu pedido novamente. Vou conceder seu desejo.

— Meu desejo? – ri dele. Como ele poderia conceder um desejo – Então, eu quero uma pizza.

— Não – ele parecia impaciente – Eu posso até conseguir uma para você, mas deseje o que você pediu, quando soprou as velas.

— Com você sabe disso?

— Eu sei tudo – ele deu de ombros – Peça o fim do mundo. E tudo isso vai acabar. A sua dor de cabeça. A minha, para variar.

— O fim do mundo...? – eu indaguei, baixinho – Eu só estava brincando.

— Não parecia uma brincadeira – ele parecia sério demais. Como se realmente estivesse interessado no meu desejo.

— Você faz parte de algum reality show, ou algo assim?

Porque, de fato, aquilo não podia ser sério. Ele franziu o cenho, passando a mão na testa. Ele parecia mais bonito assim, irritado. Corei novamente, me sentindo uma perfeita idiota.

— Eu não faço parte disso. Não faço parte desse mundo humano. Você pode me ver com o deus da destruição. Ou do destino. Não importa como queira me chamar. Eu sou o fim de tudo. Mas, o fim de tudo não conseguira o fim, não por vontade própria. Talvez, o seu desejo, me conceda isso.

Eu gargalhei, sem me importar com meus vizinhos. Estranhamente, eles não saíram para ver a discussão acalorada que estava tendo com o tal deus da destruição, ou algo assim.

— Você não acredita em mim? – insistiu.

— Nem um pouco. Agora, se me der licença...

Eu ia entrar no meu apartamento, mas a mão dele tocou meu cotovelo. Então, me vi em outro lugar.

— Espera, mas o que...?

Quando dei por mim, estava em uma praia. Uma praia em Torquay. A mesma que ia com meus pais. Senti meus olhos pinicarem. Como isso era possível?

— Agora, acredita em mim? – perguntou, me fitando, esperançoso.

*-*

Aquilo tudo não fazia sentido. Como alguém, um ser humano, teria habilidades como aquela? De teletransporte, ou algo assim?

Estava sentada no meu sofá de três lugares, cor chumbo, fitando o rapaz a minha frente, que se reclinava na minha poltrona de couro vermelha preferida. Em sua mão, estava um prato, com o pedaço de bolo que eu comprei para meu aniversário. Apesar de estar incrédula e desconfiada de tudo aquilo, eu não queria ser mal educada e não servir um bolo para ele. Se era para aceitar que tudo aquilo era real, eu deveria saber me portar melhor. Ou talvez, eu estivesse enlouquecendo e devia ter algum parafuso a menos.

— Eu sei que você parece desconfiada – disse, colocando uma garfada grande de bolo de morango na boca.

O canto da sua boca ficou sujo de glace e aquilo não saia da minha mente. Afastei o olhar, mirando meus pés descalços. Sim, era mais seguro. Ele poderia ser bonito, mas era um estranho. Um deus, segundo ele. Sua existência, no entanto, não poderia ser real.

— Tente entender que o pedido que você fizer, vai libertar minha existência desse vazio – ele argumentou – Fazendo esse pedido, até mesmo você não vai sentir a dor de estar morrendo. Nem passar por essa morte dolorosa – A voz dele não continha emoção nesse momento. Voltei a olhar para ele. Não parecia nem um pouco triste pela minha situação, o que me deixou um tanto frustrada. Bom, não nos conhecíamos. Como ele poderia ter empatia por mim?

– Eu sei o que está pensando. Que eu não tenho nenhuma consideração por você, não é? Mas, tente entender. Eu não como, durmo, não sinto dor, frio e nem empatia. Tudo que está relacionado a vida humana, não me toca. Não me afeta. E tenho observado vocês a tanto tempo, que não ainda não os compreendem.

— E por que está comendo o bolo?

Se ele não sentia fome, então, não deveria ter aceitado o pedaço de bolo.

— Ninguém nunca me ofereceu nada – ele deu de ombros – Por um momento, foi tentador aceitar. E meu aniversário já passou.

— Seu aniversário? – perguntei incrédula – Que dia foi?

— Eu não tenho certeza – ele disse, sincero, deixando o prato de bolo sobre a mesinha de centro – Na verdade, eu não deveria ter um aniversário, mas eu tenho. Em algum momento, deuses são criados, não acha?

Deuses...sinceramente, aquilo tudo era uma ideia estapafúrdia.

— Bom, se você diz – eu dei de ombros. Ele anuiu com a cabeça, olhando ao redor – Agora, você disse que pode me conceder um desejo?

— Sim, qualquer desejo. Tudo que quiser. Principalmente, a destruição desse mundo.

Ele era insistente com aquele assunto.

— Tudo mesmo? – ele assentiu – Então, você pode me curar?

— Isso não – ele negou. Por um momento, senti que minhas esperanças esvairiam. E me perguntei, por que estava lutando tanto para sobreviver? – A cura não faz parte do meu departamento, como vocês humanos diriam. Eu lido apenas exclusivamente com o que vem depois da vida, a morte. A destruição.

— Que triste – pensei alto.

— É um tédio – ele passou a mão pelos cabelos – Na verdade, se pudesse, nada disso existiria. A vida não tem proposito. Ela sempre caminha para um fim, que sou eu. Então, porque eu deveria ser parte disso? Mas, enfim. Como não podemos evitar sua morte, posso fazer com que você não sinta dor. Isso eu posso.

— Você disse que não pode me curar.

— E não posso. Mas, posso fazer você não sentir nada. Nenhum efeito colateral dessa dor. Posso esperar um tempo, para você aproveitar o máximo que puder dessa vida e antes de você morrer, você faz o pedido da destruição desse mundo.

— Eu não quero a destruição desse mundo.

Ele pareceu incrédulo, muito humano, para quem disse que não era.

— Mas, você pediu – ele parecia frustrado – Você pediu com tanta sinceridade. Por que está mudando de ideia?

— Eu não sei, eu só...só estava frustrada. Triste.

— Triste com seu chefe?

— Como você...?

— Eu sei de tudo. Posso ler seus pensamentos também. Então, isso é bem fácil

— Você está lendo meus pensamentos?

Fiquei horrorizada, ficando de pé de um salto.

— Calma, eu não fico bisbilhotando assim – ele fez um gesto com as mãos, para eu me acalmar. Como se isso fosse me acalmar de verdade – Eu preciso me esforçar mais para isso. Preciso olhar direto nos seus olhos.

Então, eu fechei por insistindo. Não queria que ele soubesse o que estava pensando. Eu pude escutar ele rindo. Rindo. Sua risada era linda.

— Eu confesso que vocês humanos são engraçados – escutei ele, bem humorado – Se quer falar assim comigo, tudo bem. Então, temos um trato? Eu faço você não sentir dor e se quiser, posso também me livrar do seu chefe...

— Não! – neguei com a cabeça, veemente – Você não precisa fazer nada disso. Eu não quero fazer um trato com um deus – ainda era uma ideia absurda aquela ideia de deus. Um deus da destruição.

Escutei ele suspirar.

— Tudo bem, vou deixar você pensar.

Ele estava perto demais. Nem havia escutado seus passos. Senti ele segurar meu pulso e foi como se tivesse recebido uma descarga elétrica. Ele abriu minha mão, que estava cerrada, colocando algo gelado na minha palma e a fechando.

— Eu deixei com você o que você precisa, para não sentir dor. Coloque e nunca tire. Eu virei te ver sempre a noite, para recarregar.

Então, simplesmente, tudo ficou em silêncio. Abri os olhos, com medo, não sabia do que. Talvez, dele. Talvez, do que sentia. Meu coração estava disparado. Meu corpo tremia por inteiro. Ele não estava mais lá. E não sabia como ele havia saído, porque a porta estava trancada. Abri a palma da minha mão e pude vir um colar de prata, com um pingente de flor de lotus. Olhei para aquilo, achando engraçado. Que presente estranho. Coloquei no pescoço, sentindo peso daquilo sobre a garganta. Era gelado e reconfortante.

Ainda assim, eu tinha certeza que iria acordar e ver que tudo era um sonho. Um mero sonho. Ao menos, era o que esperava que fosse.