Não era como se eu não gostasse do meu trabalho. Na verdade, eu amava o que fazia. Eu simplesmente apenas odiava Zabini. Seu olhar cínico e pretencioso me deixava com vertigem. E ele parecia não gostar de mim. Eu não era de uma família rica. Muito menos, prestigiada.

— Eu tenho escutado – ele começou a dizer. Estava sentado atrás da sua mesa, com as mãos cruzadas. Cotovelos apoiados no tampo da mesa, como se fosse alguém muito importante. Eu permaneci de pé, com os braços cruzados para trás, torcendo as mãos – que você está tendo um caso com o doutor Theodore – Seu ar era de deboche. Senti o sangue ferver nas veias – E não tente negar. Escutei da própria Sra. Parkinson – ele frisou o sobrenome de solteira dela – Sinceramente, eu não tenho relação com isso, ou com quem você sai. Mas, eu não quero que isso manche a imagem da minha editora.

Mordi os lábios, com força. Senti o gosto de sangue, que me fez parar de ter uma reação nervosa. Eu queria calá-lo de alguma maneira, mas eu sabia que não poderia, então me feria de forma inconsciente.

— Eu acredito que isso não diz respeito ao senhor – retorqui, sem me importar. Se eu estava para morrer, então diria tudo o que sentia.

Zabini arqueou as sobrancelhas e deu um sorriso felino. Parecia surpreso por eu enfrentá-lo.

— Deveria cuidar com as palavras, senhorita Granger – alertou, fitando-me, ainda com um sorriso estranho. Como se quisesse me atingir de alguma forma – Eu tenho meus contatos e com certeza você não teria emprego em nenhuma parte, não como editora.

— Eu não me importo.

Isso arrancou um riso dele. Um riso rouco e irônico.

— Claro que você se importa. Vou fingir que não escutei isso – ele disse, voltando-se para a tela do computador dele – Agora, sai. Eu sei que você tem reunião com a senhorita Weasley. Faça ela assinar o contrato.

O tom dele não era pedido. E sim uma ordem. Ele não me fitava mais. Era como se eu tivesse me tornado insignificante. Alguém que não valia a pena o esforço. E isso fora o fim para mim. Eu não suportava mais aquela empresa. Não suportava mais meu chefe. Eu queria gritar e dizer que ele não poderia ser tão condescendente. Nem rude. Eu me vi dizendo essas coisas. Escapou. Eu havia transbordado, como um copo cheio.

— Você tem noção de com quem está falando? – ele perguntou, com um tom irado – Eu não admito que falem assim comigo.

Ele estava de pé agora, com as mãos apoiadas na mesa. A porta havia sido aberta, nesse momento. Eu sei que meus colegas estavam escutando. Talvez, estivessem segurando um suspiro. Nancy passou por mim, com um relatório nas mãos. Parecia tremula. E eu parecia fora de mim. Fora do meu corpo. Parecia enxergar a situação de fora.

— Senhor, por favor, se acalme – ela pedira.

Zabini esbravejou, mas eu não escutava mais. Estava saindo da sala. Escutei ele me chamar, em um tom de ordem. Contudo, eu não me importava mais com nada. Eu queria apenas sair. Correr para longe. Como se isso pudesse me fazer esquecer cada palavra que ele me dissera. Como se eu pudesse apagar cada lembrança dolorosa e triste dentro daquele escritório. Da minha própria vida sem sentido.

Senti alguém puxar meu braço e olhei para trás, vendo o rosto de Harry. Ele parecia sério. E queria dizer algo. Com certeza diria.

— Você não precisa sair assim – ele disse – Tire um dia de folga. Depois volte para o escritório.

Para ele era tão simples. Tão fácil. Ele não se importava com nada. Simplesmente era sarcástico com Zabini, sempre que podia. Ele parecia ter uma certa imunidade naquele escritório. Como se estivesse acima de nós, meros mortais e trabalhadores.

— Eu não posso – confessei, sentindo o peito doer. Estávamos do lado de fora do escritório, no corredor.

Podia escutar Zabini esbravejar do lado de dentro com Nancy e isso me doeu profundamente. Aquela garota não fazia ideia do problema que arranjara. Se fosse inimiga dele, nunca teria chance de se empregar novamente. Não no nosso ramo. Talvez, em nenhum lugar.

Harry me fitou com um olhar que eu não sabia dizer se era pena, ou nojo. Ou as duas opções. Ele nunca fora acolhedor. Mas, parecia que confiava em mim. Nas minhas decisões. E me respeitava como profissional. Era isso que importava. Só que, naquele instante, eu queria que tudo acabasse. Eu não me importava com mais nada. Apenas com a dor insistente na minha cabeça.

— Você pode – Harry insistiu, sem parecer se alterar – Apenas descanse. Eu irei falar com ele.

Então, se afastou, sem me ouvir. Ele era insistente. E um tanto grosseiro. Suspirei, tomando o elevador, abandonando aquela empresa. Ela poderia explodir atrás de mim, como aqueles efeitos cinematográficos. Talvez, pudesse.

**

Atravessei a rua, sem olhar. Não importava que um carro viesse. Estava em uma aspiral de dor, que nem ao menos me importei com a buzina. Apenas senti alguém me puxando pelo braço, me empurrando para frente. Olhei para o lado. Estava quase na calçada. Os carros passavam com certa pressa. A buzina do carro que quase me atropelara continuava cantando, a distância. Pessoas iam e viam das calçadas. Os prédios históricos pareciam enormes. E aquele homem estava ali, novamente. O enfermeiro. Eu o chamaria assim. Os olhos cinzentos me fitavam sem vida, como se realmente não se importasse comigo. Mas, ele continuava segurando me braço.

Subi na calçada, me afastando dele. Ele não fez questão de me seguir, mas então, eu estaquei. Eu não poderia simplesmente não dizer nada para ele.

— Obrigada – eu disse.

Ele deu de ombros, seguindo seu caminho, como se não fosse nada. Eu senti uma certa tristeza por vê-lo sair assim. Ele era muito bonito. Apesar disso, andava por entre as pessoas de uma forma quase fantasmagórica. Como se fosse apenas um espírito passando por entre as pessoas vivas. Ri do meu pensamento. Eu era cética com qualquer coisa espiritual. Não era adepta a nenhuma religião. Minha mãe era protestante. Meu pai, católico. E apesar disso, a crença deles não me fizera escolher qualquer religião. Eu não acreditava em nada, porque a vida era tão dura. Por que tanto sofrimento? Se Deus realmente existia, não deveria cuidava dos seus filhos? Não deveria impedir aquilo tudo? Minha mãe ficaria horrorizada com meus pensamentos. Se ela estivesse comigo, me diria para ter mais fé. O nó se formou e minha garganta.

Então, um carro colidiu com alguém passando pela calçada. Eu não percebi no mesmo instante. Podia ver a pessoa caída no chão. A confusão de pessoas ao redor. Carros engarrafados, esperando o trânsito fluir. O vermelho escorrendo pelo asfalto. E o olhar sem vida daquele homem, do outro lado da rua.

Nada disso era normal.

**

Sentei-me na banqueta alta, na minha cozinha estilo americana. A casa era totalmente aberta. Um conceito de loft que não divide os ambientes. Mais, barato, conceitual e que dizia que quem fosse comprar aquele apartamento, não desejava ter uma família. Ri comigo dessa ironia. Eu que desejara tanto uma família, estava ali, sozinha, em meu trigésimo aniversário. Olhei para o bolinho sobre a mesa e a única vela. Acendera a poucos instantes. Eu deveria fazer um pedido. Talvez, eu pudesse pedir mais saúde. Mais tempo de vida. Apesar disso, minha indignação com o mundo era maior. Muito maior.

— Eu quero que o mundo se dane – falei, baixinho.

Não soprei a vela. Acho que precisava ser mais insistente no pedido.

— Eu quero que o mundo se dane – falei mais alto, enchendo o ar nos pulmões – Eu quero que o mundo se acabe!

Repeti mentalmente o pedido e soprei a vela. Algo estranho aconteceu em seguida, como se o ar estivesse eletrificado. Sabe quando se leva o choque, em contato com uma tomada? Era a mesma sensação. E depois, nada. Eu senti como se o universo tivesse atendido o pedido. Uma pessoa cética como eu estava realmente acreditando em pedidos?

Batidas na porta vieram em seguida. Congelei na minha banqueta. Quem poderia ser naquela hora? Já passava das dez horas da noite. Eu não tinha ninguém para comemorar eu aniversário. Em uma noite de dia de semana, em plena terça-feira, todos que eu conhecia estavam bem ocupados.

A batida persistiu. Eu engoli a seco. Aquele prédio deveria ter uma segurança. Eu lembro de ter. Só entrava quem tinha reconhecimento facial. A portaria teria me ligado se alguém quisesse me ver. Fui até a porta, pé ante pé, tentando não fazer barulho. Olhei pelo olho mágico, querendo saber se não era um vizinho. Esperava que fosse. E não um maníaco que conseguira entrar no prédio. Afastei o rosto, esfregando os olhos. Eu não via alguém, mas uma paisagem. Uma praia. Não, eu não deveria estar bem. Theodore havia dito que eu poderia ter alucinações. E se eu estivesse alucinando? E se não escutara a batida na porta. A campainha tocou. Dei um pulo, sentindo o coração saltar. Definitivamente, alguém estava ali. Abri a porta, com a correia travando. Abri centímetros, sem pensar que poderia ter pegado uma faca, ou algo para me proteger.

— Quem é?

— Você me chamou – escutei a voz de um homem.

Primeiramente, eu não havia reconhecido a voz. Então, me aproximei mais da fresta e pude ver. Era ele. O enfermeiro. Como ele sabia meu endereço? E como ele estava ali? Essas perguntas saíram da minha boca, sem que eu pudesse conte-las.

— Você me chamou – ele insistiu – Eu vim atender o seu desejo.

— O que? – exclamei, sem entender – Que desejo?

Então lembrei. O pedido que fizera. O pedido de aniversário.

Isso era uma piada. Com certeza, uma piada.