Destino

1 01. Sonhos.


As chamas estavam por todos os lados, pessoas corriam para longe, passando por mim, não conseguia ver seus rostos, eu olhava para os lados desesperado, tentando descobrir onde eu estava, estava tudo embaçado, não conseguia ver nada além das chamas na minha frente, mas havia algo a mais nelas, eu conseguia ver uma silhueta do outro lado da parede de fogo, parecia ser uma pessoa, ela estava parada lá, como se me observasse, minha visão foi ficando mais embaçada até que minha consciência voltou e eu despertei.

— De novo...?

Já estava acostumado com esses sonhos, eram como previsões, sempre que alguma coisa ruim fosse acontecer comigo, na noite anterior eu sonhava com ela, não sei se isso é uma benção ou uma maldição, saber o que vai acontecer pode ajudar a prevenir, mas definitivamente da muito medo... Continuei na cama até adormecer novamente, por sorte, dessa vez não sonhei com nada.

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Fui para a escola no outro dia, apesar de estar acostumado com os sonhos, estava preocupado, não consegui ver aonde seria o incêndio, tinha medo que fosse lá. Assim que entrei na sala uma garota veio na minha direção, com um grande sorriso no rosto ela me abraçou e disse no meu ouvido.

— Bom dia, Saito.

Ela soltou do abraço e olhou para meu rosto sorrindo, em poucos instantes, sua felicidade se transformou em preocupação:

— Teve outra visão...?

Ela me conhecia a muito tempo, ela foi a primeira a saber das minhas visões e desde esse momento sempre se preocupou comigo, seu nome é Shiki, minha namorada, é uma pena eu não conseguir passar muito tempo com ela por causa dessas visões...

— Sim, hoje não vamos poder andar juntos...

Eu disse, e ela em um tom triste concordou, ela já sabia que não tinha outra opção, ficava triste por eu ter que enfrentar tudo sozinho, mas era inevitável, ela estando ao meu lado não mudaria nada, somente que ela correria perigo.

As aulas foram passando, ela passou o dia inteiro me encarando, com seu olhar preocupado, a aula enfim acabou e por sorte não aconteceu nada, enquanto arrumava meu material, ela veio correndo e me abraçou, novamente com sua boca no meu ouvido ela disse:

— Boa sorte.

E foi embora, eu não podia ir para casa, minha família não sabia das minhas visões e não queria me arriscar a feri-los, tudo que me restou era vagar pela cidade até o incêndio acontecer, quando estava prestes a sair da sala, um amigo meu pôs a mão no meu ombro e me disse:

— Que desanimo todo é esse?

Ele sorriu despreocupadamente, ele não sabia das visões, não, ninguém sabia delas, ninguém além da Shiki.

— Estou livre hoje, o que acha de andar pela cidade com seu amigão aqui?

Ele continuou sorrindo, era um bom amigo, apesar de não saber o que estava acontecendo, não podia ir para casa, nem andar com a Shiki, ficaria na cidade, então não vi problemas em andar com ele, eu só precisava conseguir avisá-lo quando achasse que o incêndio aconteceria... É arriscado, mas não vejo outra solução.

— Claro.

Eu disse um pouco inseguro, saímos da escola e fomos andar pela cidade, duas horas se passaram enquanto caminhávamos e conversávamos, até que ele resolveu sentar para almoçar, chegamos em uma praça de alimentação no centro da cidade, e pegamos uma mesa.

— Está cheio aqui, vou pegar a comida e você guarda a mesa, o que você quer?

— Eu não estou com muita fome...

— Você não ta bem, não vou deixar você sem comer nada.

— Então pode me trazer o mesmo que você for comer.

— Vamos ver se você agüenta.

Ele sorriu e saiu andando, me senti um pouco preocupado sobre a comida, mas era uma preocupação boba, já havia praticamente me esquecido sobre o incêndio, até que vi algo preocupante, uma mulher acabará de escorregar e deixar um liquido cair no chão, não consegui ver exatamente o que era, mas ao lado dela havia um homem tentando acender o cigarro, o isqueiro escorregou de sua mão, nessa hora eu me levantei dando uma forte batida na mesa com as mãos, mas a chama do isqueiro se apagou antes dele tocar o chão, sentei me sentindo aliviado e muito envergonhado.

O homem pegará o isqueiro no chão e tentou acender o cigarro novamente, mas o isqueiro estava banhado pelo liquido, quando ele tentou acende-lo, ele se transformou numa pequena bola de fogo, o homem, assustado, o largou imediatamente, fazendo ele cair na poça do tal liquido que começou a queimar muito rapidamente, o homem saiu correndo de susto, e o liquido começará a pegar fogo com mais intensidade, as chamas foram crescendo e consumindo as coisas ao seu redor, plantas, a madeira dos estabelecimentos, todos começaram a correr para a outra saída, assustados pelo fogo, mas eu fiquei lá parado:

— Sohma! Sohma!

Eu gritava com tudo que podia a procura do meu amigo, no meio da multidão eu não conseguia vê-lo, por mais que procurasse, desisti, acreditando que ele não estava mais lá, pensei em correr, mas alguma coisa estava me atraindo, como se algo estivesse pedindo para eu não sair de lá, como se... A visão não estivesse completa ainda. Andei até próximo a parede de fogo, todas as pessoas que estavam lá já haviam fugido, tirando os tropeços e esbarrões, parece que ninguém havia se ferido, sorri sozinho, crendo que o pior já havia passado, até ver a silhueta do outro lado do fogo.

Todas as minhas visões, foram para me mostrar um perigo iminente, apesar do incêndio ser algo muito perigoso, quando vi a silhueta da pessoa, senti que o perigo acabará de se apresentar para mim, o incêndio foi apenas coincidência, o real perigo... Era a pessoa que me encarava por entre as chamas.

— Então é isso, o que o sonho queria me avisar?

A pessoa do outro lado das chamas disse, era um homem, pelo tom de voz deu para reconhecer que era um homem, mas eu nunca ouvi essa voz na minha vida, como ele sabia dos sonhos? Será que tinha os mesmo sonhos que eu? Mas espere, se for o caso, por que ele sonharia com isso? Talvez, o verdadeiro perigo ainda não tenha aparecido...

O homem passou pelo meio das chamas, como se elas fugisse dele, enquanto andava, as chamas se separavam criando um caminho para ele, consegui ver seu rosto, apesar da voz, era muito jovem, aparentava ter não mais que vinte e dois anos, estava com roupas sociais, o que mais me surpreendeu não foi ele passar pelo fogo, mas sim sua aparência, ele tinha cabelos brancos que chegavam aos ombros e seus olhos tinham uma cor diferente, não consegui ver por causa das chamas mas eles expressavam algo... Seus olhos... Me davam medo.

— Você está calmo demais.

Disse o jovem com um sorriso inocente, ele estava enganado, minha vontade era correr dali, mas algo me segurava lá, ainda havia algo me atraindo a ficar naquele lugar.

— Esses sonhos, te incomodam muito?

Ele realmente sabia quem eu era! Como ele sabe das visões, quem é esse homem?!

— Sim.

Concordei quase inconscientemente, com a voz firme, ele sorriu para mim e disse:

— Você não está sozinho garoto, existem varias pessoas com esse problema, mas ele vai se compensar no futuro, até lá, eu só posso fazer isso por você...

Eu não estou sozinho...? Antes que eu pudesse fazer perguntas, ele encostou em minha testa e eu perdi a consciência quase de imediato, cai lentamente no chão tentando gravar a aparência daquele homem, antes de finalmente desmaiar.