Dois meses se passaram desde aquele incidente, acordei num hospital com marcas de queimaduras leves e o jovem havia sumido, tentei procurá-lo, mas com o passar das semanas eu acabei desistindo. Desde aquele dia, minhas visões pioraram muito, agora tenho visões todos os dias, e elas não mostram apenas os perigos, é quase como se eu sonhasse tudo que vai acontecer no dia... No começo eu achei esse novo tipo de visão mais interessante, mas ele tinha as mesmas limitações da antiga, eu não conseguia ver rostos, ouvir vozes, identificar lugares, mas via como o dia inteiro seria. O tempo foi passando e as visões continuaram assim, todas as noites, até que eu notei algo de diferente, para ter essas visões, meu cérebro continuava ativo, por mais que eu dormisse, eu só teria mais visões, e quando acordasse, seria como se eu nunca tivesse dormido. Em resumo, eu estou exausto e confuso, o homem sumiu misteriosamente e estou a dois meses sem descansar... — As visões continuam...? Minha namorada veio me perguntar, eu estava deitado na carteira da escola, com uma expressão de cansaço no rosto, todos estavam preocupados comigo, colegas, professores, família, mas só a minha namorada sabia das visões. — O mesmo de sempre... Eu respondi com um pouco de dificuldade, no meu estado atual, mover meus braços, andar, falar, tudo estava difícil de fazer, a única coisa que ainda continuava normal era o meu pensamento. — A gente tem que descobrir o que fazer logo, não agüento te ver assim. Ela passou a mão na minha testa, passando a por baixo de meus cabelos, dei um leve sorriso e inconscientemente fechei os olhos, e adormeci, já sabendo o que ia acontecer... Dessa vez eu conseguia ver com um pouco de esforço onde eu estava, um apartamento bem luxuoso, parecia ser em um prédio muito alto, há uma grande vidraça que permite ver a cidade inteira de lá, e olhando por essa vidraça estava aquele jovem, o que eu havia encontrado no outro dia, ele sorriu pra mim e disse: — Venha logo, ou vai ser tarde demais. Aquele sorriso inocente chegava a me incomodar, mas ele estava certo, não agüentaria mais alguns dias assim... A imagem se embaçou e então acordei, assim que abri os olhos vi Shiki olhando para mim com uma preocupação óbvia em seu rosto. — Não precisa se preocupar, isso vai se resolver hoje. Disse com a voz fraca, sorrindo, não sabia se isso era verdade, mas se era pra eu encontrar aquele homem hoje, então eu vou conseguir mudar alguma coisa novamente... Ela me respondeu com um sorriso esperançoso, ela sabia que eu tinha acabado de ter uma visão. Novamente as aulas passaram, mas dessa vez não era apenas a Shiki, até mesmo o professor olhava algumas horas para mim, preocupado, sem graça de pedir pra eu me levantar pois sabiam que tinha algo errado. No fim das aulas, todos tomaram seu rumo e Shiki veio falar comigo novamente. — Vamos lá? Ela disse com um sorriso enquanto arrumava a mochila em seu ombro. — Vamos? — Sim, eu quero te acompanhar, te ajudar a melhorar. Só pude responder com um sorriso e dizer: — Desculpa, mas tenho que ir sozinho, não sei o que pode acontecer lá. Ela me abraçou novamente. — Se cuida, não se esqueça que eu te amo. Corei um pouco e respondi a ela: — Não fale desse jeito, parece até uma despedida. Ela soltou o abraço, me deu um beijo na bochecha andou um pouco e se virou para mim: — Até, quero ver você bonzinho amanhã. Pelo menos agora não ficou parecido com um adeus. Assim que ela foi embora, voltei a mim, eu tinha que achar aquele homem independente de onde ele esteja. Sai da escola e comecei a andar sozinho pela cidade, eu estava muito cansado, mal conseguia me mexer, minha respiração estava pesada, meus passos estavam mais largos e lentos, a minha mochila, até mesmo minhas roupas pareciam muito pesadas, eu estava achando que não ia agüentar encontrá-lo. Meus olhos já estavam se fechando, não ia conseguir andar mais, minha cabeça começou a pesar, não sabia mas para que lado estava andando, eu estava olhando para o chão, com a noção de que em poucos minutos eu ia acabar desmaiando lá. Estava prestes a perder a consciência, quando esbarrei em alguém, essa ultima batida fez com que meu corpo parasse de vez, não conseguia levantar minha cabeça para me desculpar, meus olhos estavam se fechando... — Você realmente estava se esforçando pra me achar. Eu reconheci sua voz imediatamente, ele segurou meu queixo com a sua mão e levantou meu rosto para que eu pudesse vê-lo, eu sabia, era ele, aqueles cabelos esbranquiçados e os olhos... Ainda não consegui identificar a cor daqueles olhos... Minha visão foi se embaçando e meus olhos se fechando, até que finalmente perdi a consciência.
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