Destinazione
11 Reencontro
Notas iniciais
Duas semanas antes...
Estava em Roma, ou no que sobrou do que um dia foi uma majestosa cidade, centro do mundo. Agora as ruas não passavam de lama e dejetos. Lojas com as portas fechadas logo pela manhã, portas e janelas de casas trancadas a sete chaves. Reflexo do que se mostrava ser a ditadura Bórgia. Quantas vidas eles se encarregariam de arruinar além da minha? Incontáveis com certeza, mas o que me deixava num estado de quase desespero, era saber que a cada segundo que o povo se mantinha calado, esse número aumentava.
Roma estava tomada pela pior das pragas: a praga Templária. As construções que há poucos anos fariam os olhos de qualquer italiano brilhar orgulhosos, agora jaziam tomadas pela vegetação que crescia descontroladamente. As pessoas estavam infectadas com o que era chamado de “doença do novo mundo”, trazida pelos colonizadores, além de outras pestes que se espalhavam sem o menor controle. Enquanto isso as belas obras de arte erguidas pela igreja permaneciam majestosas.
A situação que encontrei quando cheguei à Roma era totalmente diferente da que eu esperava. Quando saí de Monteriggioni com Maquiavel, pensei em um delicado equilíbrio que mantinha a ordem e a paz, mas depois de algumas horas passadas na cidade, pude ver que o domínio dos Bórgia era completo. Havia soldados por toda parte, de forma que sequer caminhar sem ser visto era uma tarefa difícil.
– Aonde vamos? – perguntei a Maquiavel enquanto ele nos guiava na direção do rio Tibre. Um lugar um tanto assustador para se estar no meio da madrugada.
“shhh” foi o que consegui em resposta. Fui alertado de que havia ouvidos em todo lugar, mas começava a desconfiar que de fato Maquiavel não queria ouvir o som de minha voz.
Paramos em um beco escuro, malcheiroso e aparentemente sem saída. Maquiavel desmontou de seu cavalo, fazendo sinal para que eu o seguisse, em seguida ele desenterrou um alçapão debaixo de uma pilha de folhas secas e vegetação morta. Os cavalos que havíamos alugado para a travessia da cidade foram mandados de volta por conta própria e eu me perguntava quando teria alguma explicação enquanto esperava Maquiavel acender um lampião para iluminar aquele breu total em que ele havia me metido.
– Aqui estamos meu caro. – falou assim que a luz do fogo clareou o que parecia ser a entrada de um labirinto.
– O que exatamente seria “aqui”? – perguntei já impaciente.
Ele começou a andar e esperou que eu o seguisse antes de continuar.
– Bem, este é um lugar no qual você não quer se perder. É uma rede de túneis quase milenar, antigamente usada para transportes de cargas pesadas e mercadorias sem comprometer as ruas da cidade, há muitas saídas, a maioria delas bloqueada por dentro ou por fora, mas o que realmente interessa é que essas rotas são totalmente desconhecidas atualmente, a não ser por nós.
– E quem seríamos “nós”?
– A irmandade. – ele respondeu como se fosse óbvio – Seu pai descobriu esses túneis e eles nos são muito úteis até hoje.
Meu pai... O que ele diria ao me ver caminhando num rumo incerto como este? Sem saber o que eu mesmo planejava para um futuro próximo...
Felizmente Maquiavel tinha certo dom para perceber quando eu me perdia em minha própria mente e ele não fazia esforços para me resgatar de meus pensamentos, o que eu agradecia no momento.
Caminhamos por cerca de duas horas naquele labirinto e embora eu fosse precisar de um guia para voltar sem dar em um beco errado, me esforçava para prestar atenção em cada curva. Enfim chegamos à uma pequena escadaria que acabava em um alçapão. Maquiavel subiu, deixando o lampião de lado e abriu a portinhola, subi logo atrás dele me deparando com uma sala bem iluminada e muito bem cuidada, embora do lado de fora as janelas estivessem cobertas por vegetação densa.
– Maquiavel! – chamou uma voz alegre que pertencia a um jovem com seus vinte anos.
– Buon giorno Pietro. – ele respondeu num tom amigável.
– Estávamos esperando que voltasse. – o jovem falou sorridente e em seguida apertou minha mão num cumprimento carregado de admiração perceptível – O senhor deve ser o famoso Ezio Auditore. – afirmou – É um prazer, sou Pietro Orsi.
Eu conhecia muito bem a família Orsi, foram importantes aliados na luta contra os Pazzi no início de minha vida como Assassino, até hoje eles se mostravam simpatizantes não apenas com a causa dos Assassinos, mas com minha família, o que os tornava de plena confiança.
– O prazer é meu Pietro. – aparentemente minha resposta sincera fez o garoto sentir a alegria do dia.
Então essa havia se tornado a sede dos Assassinos em Roma, uma casa de tamanho discreto suficiente para ser escondida pela vegetação densa da ilha Tiberina. Um lugar inteligente devo admitir, e de difícil acesso, era perfeito. Foi de certa grosseria minha não ter ido cumprimentar os irmãos que ajudariam em tão importante missão, mas naquele momento eu só conseguia pensar no quanto estava cansado dos longos e ininterruptos dias de viagem até Roma, meus reflexos já não existiam mais e eu não era capaz nem mesmo de espantar uma mosca, quem dirá de realizar cumprimentos e discutir planos. Até mesmo minha fome teria de esperar algumas horas, eu precisava dormir.
No dia seguinte com o humor melhor e bem alimentado, o grupo de 25 Assassinos se reuniu para discutir as estratégias. Depois de muito debatermos sobre invasão, envenenamento e ameaças, foi decidido que esperaríamos até o domingo de Páscoa.
– Todo o ano acontece uma grande cerimônia com missas o dia todo. – falou Pietro que apesar de jovem se mostrava extremamente inteligente e sagaz.
– Com todo o alvoroço que acontece atualmente na cidade eles podem decidir não fazer. O papa não vai se arriscar a aparecer em público, querem tanto a cabeça dele quanto querem a de Cesare. – rebateu Bruno, um dos homens corpulentos e altos que pareciam estátuas ao fundo da sala.
– Exato. Com tudo o que vem acontecendo, a resistência por parte dos romanos, as guerras que os Bórgia vêm lutando... Eles precisam mostrar que a igreja não está abalada, que apesar de tudo o que o povo tem feito para resistir à total dominação, eles estão inatingíveis e o poder que possuem é irrevogável. – passei a ficar impressionado com a mente de Pietro, ele pensava exatamente como eu, mas fala mais rápido.
Tendo quase certeza de que os Bórgia estariam vulneráveis no domingo de Páscoa, decidimos por esperar, manter nossos espiões em posição e atentos a qualquer sinal de mudança nos planos anuais da igreja e manter a calma. Calma era fundamental neste momento em que tudo parecia conspirar para dar errado. As pessoas se sentiam cada vez mais acuadas e poucas ainda resistiam à palavra dos Bórgia, que agora era a lei em Roma. A cidade parecia ter sido reclamada pelos espanhóis, os soldados usavam armas, tecidos e couro espanhol, à noite ocorriam touradas onde Cesare costumava exibir suas habilidades para um enorme público – um erro de sua parte, afinal eu pude estudar meu inimigo e saber como ele reagiria no campo de batalha.
A cada dia o poder dos Bórgia crescia, tinham o apoio de muitas cidades que haviam sido tomadas, bem como grande parte da Espanha e toda a França, mas sabíamos que o Rei Luís só serviria aos Bórgia enquanto pudesse tirar proveito disto, quando Cesare não lhe fosse mais útil ele desfaria a aliança e nós esperávamos que isso acontecesse logo. Claro que o sentido de “esperávamos” não é literal, afinal se há uma coisa que Assassinos não costumam fazer, é esperar.
Apesar de saber que Pietro conhecia Roma como a palma de sua mão e que não teria a menor dificuldade em escapar caso algo desse errado, exatamente como todos os outros envolvidos no plano, não podia depender de nenhum deles para salvar minha pele e eu era como um forasteiro naquela terra de espanhóis. Sendo assim, passei o resto da semana estudando os mapas e memorizando rotas alternativas embora a cidade estivesse um tanto diferente de como era nos mapas de alguns nos atrás, não se podia guiar por pontos de referência, pois os prédios estavam em ruínas e as estátuas haviam sido derretidas pelo povo. Não foi fácil, mas no início da semana de Páscoa eu sabia todas as rotas de fuga e conseguia chegar à sede sem ajuda.
Posso dizer que aquela semana foi a mais produtiva que tive desde o ataque a Monteriggioni, manter a mente ocupada era o melhor que eu podia fazer por mim mesmo, mas não pude evitar que os pensamentos tomassem conta na semana seguinte. Nada realmente ocupava minha mente e era algo que eu passei a considerar perigoso, porque dava lugar aos pensamentos sobre ela... Logo me vi novamente na perigosa beira do penhasco para o qual era tragado sempre que dava espaço para minha mente flutuar. “Como aconteceu?” “Será que ela sofreu?” “Não teria sido assassinada. Ela jamais teria deixado que a tocassem.”. Cada pensamento era um passo para mais perto da queda, algo que eu não podia me dar ao luxo, ainda havia muito que fazer, muito que viver. Apesar de tudo eu tinha uma obrigação a cumprir, uma promessa que eu iria manter a qualquer custo. Talvez Maya me veja de onde quer que esteja e compreenda porque não posso me juntar a ela ainda. Porque eu tenho que continuar defendendo minha família, minha mãe e Claudia ainda precisam de mim, assim como a Irmandade.
Lembrava-me disto com os olhos fechados, ignorando todo o resto, um último momento de paz, um suspiro antes da batalha. E então me concentrei no objetivo principal, aqueles eram os passos que poderiam decidir o futuro de milhares de vidas e eu não me daria ao luxo de pensar na minha própria agora.
A carruagem papal se aproximava, podia ouvir os gritos da multidão. Aquele era o sinal. Avancei para a luz, caminhando com firmeza na direção das freiras vestidas em seus trajes cerimoniais, o próprio mar vermelho se estendendo a minha frente, mesmo depois de tantos anos passados as pessoas não haviam se esquecido da lenda de Firenze; a lenda do Assassino, tão pouco haviam se esquecido de minhas vestes características, branca e vermelha, apesar de não conhecerem meu rosto, se lembravam de meu nome e sabiam do era capaz, sendo assim não foi necessário que eu sequer tocasse nas freiras para que saíssem do meu caminho, elas temiam o que aconteceria se não saíssem, embora eu jamais machucasse um inocente. Como prevíamos, havia guardas dos Bórgia no solo, mas eu tinha cobertura dos telhados, com a mera aproximação da dupla duas flechas foram disparadas e logo eles não eram mais um problema. O grito de algumas das freias alertou os guardas que estavam na frente das fileiras e conforme elas abriam caminho para que eu passasse, também davam passagem para os soldados, sabia que agora não contava mais com o apoio dos Assassinos nos telhados, assim que eliminaram a primeira ameaça revelaram sua posição e agora lidavam com soldados. Enquanto os dois com quem eu lidaria primeiro sacavam suas espadas, pude ver a movimentação dos outros que teria de derrubar depois, eram mais dois portando alabardas e dez em volta da carruagem, que ainda não haviam notado a confusão, estando dois deles montados em cavalos grandes e fortes. Pietro estava posicionado nos telhados com um grupo de arqueiros e uma ótima visão do campo para onde eu estava me dirigindo, só precisaria me livrar dos quatro guardas e então dos dois à cavalo, conseguiria cobertura para os outros. Movimentando as mãos tão rápido quanto pensei no plano, trespassei a armadura fina dos dois primeiros, puxei as lâminas dos braceletes e mirei no peitoral dos alarbadeiros que avançavam em fúria para vingar os colegas, as lanças eram perigosas, mas uma de minhas atividades favoritas era atirar facas, estavam mortos antes mesmo de caírem ao chão. O tempo corria contra mim, já não tinha mais as lâminas ocultas e agora tinha a atenção dos dez soldados que cercavam a carruagem, mas ainda não era tempo de sacar a espada, eram muitos e suas lanças me atravessariam antes que eu pudesse me movimentar.
A porta da carruagem se abriu, lá estava ele... Cesare Bórgia. Daria tudo para ter a pistola do códex que foi destruída no ataque a Monteriggioni, seria uma ótima hora para fazê-lo provar do próprio veneno.
– É muita coragem sua me peitar sozinho, – ele falou com a voz alta, claramente em exibição, ainda não havia percebido que eu não estava só – mas também muito idiota Assassino.
Aquilo me chamou a atenção, o ódio com o qual ele cuspiu “Assassino” me fez saber que eu teria prazer em varrer a escória Bórgia da face da Terra, não me preocupava com os oito homens que me cercavam apontando suas lanças para mim, meus olhos estavam fixos nos de Cesare, ele sim merecia atenção, era uma víbora traiçoeira. Onde estava meu reforço? Pietro deveria ter se livrado de meu cerco, qualquer movimento que eu fizesse agora acabaria morto antes do próximo suspiro e Cesare não esperaria para ser morto, ele sabia a que vim. Mas algo nos chamou a atenção, um som incomum para eles, mas que eu conhecia muito bem. Olhei para o alto a tempo de ver Eri sobrevoar nossas cabeças com um pio ameaçador, mas que me deu a vantagem da distração, Pietro havia acabado de se posicionar e com ele mais quatro homens, mas eu ainda podia ser morto pelos três remanescentes no círculo ou por aqueles à cavalo, mesmo assim dei o sinal, pronto para sacar a espada, mas não foi preciso, os oito homens caíram mortos ao meu redor. Três daquelas flechas não haviam sido disparadas do mesmo lado do grupo de Pietro, vieram de cima do Panteão. Não me lembro de um dia meu coração bater tão forte a ponto de fazer doer meu peito, mas era o que acontecia agora, podia reconhecer aqueles cabelos mesmo com o sol atrapalhando minha visão. Estava louco.
“Se concentre na missão” disse para mim mesmo, me obrigando a voltar o olhar para Cesare que ordenava o ataque à seus dois cavaleiros. “FOCO!” Saquei a espada, cortando as pernas do cavalo que já estava quase me atingindo, fazendo o soldado ser esmagado assim que o animal caiu, como num golpe de sorte e um tanto de habilidade, saltei a tempo de cortar a garganta do soldado que galopava confiante de que me derrubaria. Meu coração martelava o peito, a respiração exigia mais ar do que eu podia inspirar, mas agora tinha meu reforço terrestre contando com Bruno e os outros Assassinos muito mais altos e fortes do que eu e com certeza nada emocionalmente abalados.
“Você não está abalado, foi apenas uma miragem. Se recomponha, a Irmandade não vai perdoar outro erro de sua parte.”
Não. Não foi uma miragem, Maya estava viva e estava em Roma, ela estava bem a minha frente apontando uma flecha para a cabeça desprotegida de Cesare Borgia.
– Você me queria Bórgia? Estou aqui. – a voz dela estava completamente tomada por um ódio que eu jamais a vi demonstrar, tive medo de Maya naquele momento, ela tinha a expressão de quem faria qualquer coisa – A Escócia manda lembranças. – não tive tempo de sequer pensar no que fazer, ela disparou a flecha, cravando-a no crânio de Cesare. Morto antes de cair ao chão. Não tínhamos mais plateia, as pessoas corriam em desespero tentando sair do lugar e atrasando os soldados que deveriam chegar até nós. A carruagem papal saiu em disparada pela rua numa velocidade impossível de acompanhar.
Metade do plano tinha falhado, Cesare estava morto, Rodrigo fugiu, Maya estava viva e agora todos íamos morrer porque o número de soldados que avançava era quase o mesmo que tentou tomar Monteriggioni. Uma vez ouvi os dizeres de um amigo “apenas um tolo coloca a vida em risco pela honra”, levei em consideração essas palavras, seguindo os outros Assassinos que sabiam que uma batalha agora seria perdida. Perdi Maya de vista por um momento enquanto escalávamos até os telhados onde sabíamos que os soldados eram incapazes de nos alcançar. Um longo caminho foi percorrido pelos telhados e durante o percurso os Assassinos haviam se espalhado, seguindo caminhos distintos, me vi com um grupo seleto de cinco de meus irmãos; Bruno e mais dois de meus acompanhantes corpulentos, com força suficiente para partir um búfalo ao meio e outros dois cujos nomes não me recordo.
Então não era mesmo uma miragem... Ela estava viva e bem diante de meus olhos, mas seu olhar ainda carregava a fúria com a qual matou Cesare, a fúria que agora me tomava. Todos aqueles anos, tudo o que passei por achar que estava morta... Não. Ela não faria isso, não deixaria que eu sofresse novamente a dor da perda sabendo de tudo o que já me acontecera. Só podia estar louco é claro, ela ainda tinha a aparência da menina que partiu com seus 23 anos, se eu estivesse em perfeito estado deveria estar vendo uma mulher no auge de seus 34.
– Ezio... – seus olhos pareciam refletir dor, o mesmo olhar do dia em que ela partiu para o lado oposto da estrada. Era Maya.
– COMO SE ATREVEU?!
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