Destinazione
10 Infortúnios
Notas iniciais

Ezio abriu os olhos, mas não conseguiu se mover imediatamente, sentia uma dor terrível no local onde a flecha o atingira, a simples tarefa de respirar era difícil, depois de um tempo totalmente imóvel, tentando entender onde estava e o que estava acontecendo, se lembrou do ataque à Monteriggioni, de Cesare e de seu tio. Tentou se levantar, mas a dor que seus movimentos causaram o fez soltar um grito agonizante que chamou a atenção de um dos homens que estava perto.
– Calma amigo, não pode se mover ou vai acabar com outra hemorragia. – falou o homem que obrigou Ezio a se deitar novamente.
O Assassino estava completamente desnorteado, não reconhecia aquele lugar e nem mesmo as pessoas, embora não conseguisse distingui-las muito bem por conta da visão ainda turva.
– Onde estou? – perguntou.
– Em Monteriggioni signore. – o homem respondeu, deixando Ezio sozinho para ir ajudar com os outros feridos.
Ezio não tinha reconhecido a sala de jantar do castelo, estava parcialmente destruída e sem todos os móveis que costumavam preencher o amplo salão, agora tomado pelos feridos da batalha. Ficar deitado ali o irritava, queria saber o que havia acontecido e principalmente queria saber de sua família, mas ninguém ao seu redor parecia ter consciência o suficiente para lhe dar qualquer informação. Passaram-se horas de agonia até que ele viu o rosto familiar de Claudia. A irmã se aproximou dele, feliz por vê-lo bem dadas as circunstâncias, ela se sentou na cama improvisada e sorriu aliviada.
– Claudia, diga-me o que houve. Vocês estão bem? Onde está mamãe e as pessoas que tiraram da cidade? Por que ainda estamos aqui? Achei que Cesare destruiria a cidade. – ele estava sedento por notícias.
– Se acalme Ezio. Estão todos bem, estão seguros em Forlì, Caterina ofereceu abrigo a todos que quisessem e precisassem. Pelo que me disseram as tropas de Caterina coseguiram uma maré de sorte e expulsaram os Bórgia. – a irmã falava com calma enquanto acariciava os cabelos de Ezio, buscando transmitir tal estado de espírito para ele, mas aquilo não parecia funcionar.
– Preciso encontrá-lo Claudia... Preciso pegar o que ele roubou e vingar a morte de Mário. – as palavras de Ezio fizeram Claudia baixar a cabeça, ela havia passado longos anos na presença do tio e sua morte não seria sentida apenas pelos Auditore, mas por todos os sobreviventes de Monteriggioni. Durante os próximos dias, o mundo pareceria menos feliz.
A recuperação de Ezio foi lenta e com o passar dos dias ele insistia em caminhar pelos corredores e ajudar outras pessoas, mesmo tendo sido proibido para seu próprio bem. Claudia passava a maior parte dos dias em Monteriggioni, cuidando do irmão e ajudando as pessoas na lenta reconstrução da cidade. Após o que deveria ter sido um mês de total repouso para Ezio, ele finalmente voltou a participar das atividades que antes realizava “clandestinamente”, quando Claudia não estava por perto. Ele finalmente pode voltar a correr pela manhã, como costumava fazer todos os dias e manter suas habilidades em plena forma. Apesar de ter em mente todo o plano que traçou juntamente com Maquiavel e querer arrancar a cabeça de Cesare o mais rapidamente possível, Ezio sabia que não poderia deixar a cidade agora, era um momento delicado em que as pessoas precisavam de qualquer apoio que pudessem ter ou até mesmo de um ombro amigo para chorar e o Assassino sabia que essa era uma tarefa que tinha que realizar no lugar de seu tio. Apesar de quase não ter forças para continuar com sua própria vida e com o turbilhão de sentimentos que o atingiam toda vez que se via sozinho, ele sabia que tinha que engolir qualquer pensamento ruim que lhe ocorria e seguir em frente, por suas irmã e mãe e em memória de seu tio e de Maya.
Maya... Ezio não conseguia afastá-la se sua mente como havia feito todos esses anos, toda noite ele sentia que se aproximava de um enorme e perigoso precipício ao pensar nela, mas de certa forma aquilo o reconfortava, de tudo o que acontecera durante tantos anos de sua vida, a que ele mais se culpava era por tê-la deixado partir. Sentia sua falta de uma maneira que não podia explicar nem mesmo para Claudia, sua fiel confidente.
– Ezio? – ele ouviu a voz familiar de Maquiavel depois de batidas na porta de seu quarto. Só então notou que havia passado mais uma noite em claro, observando a janela do quarto que se tornara sua fuga para os pensamentos. – Mais uma noite em claro... – não era uma pergunta, o estado péssimo de Ezio podia ser notado, embora todos fossem totalmente discretos quanto a isso.
– Estarei pronto em alguns minutos. – ele ignorou qualquer sinal de preocupação vindo de Maquiavel, nas últimas semanas Ezio havia se fechado completamente para o mundo exterior e apesar de ser totalmente complacente com os assuntos de Monteriggioni, se mostrava um tanto catatônico quando longe dos olhares curiosos dos cidadãos.
Maquiavel era muitas vezes duro com Ezio, exigindo demais ou chamando sua atenção, mas o amava assim como Mário o amara em vida, via diante de si não apenas um colega de credo, mas alguém da própria família. Importava-se com o Assassino e seu atual estado de espírito o preocupava, assim como a todos. Agora líder dos Assassinos italianos, Maquiavel tinha a missão de liderar o ataque aos Bórgia e acabar com aquilo de uma vez por todas. Ele tomou a liberdade de adentrar a penumbra do quarto e se sentar na cama ainda arrumada, não sabia por onde começar, mas era certo que a situação não podia continuar como estava.
– Sei o que vai dizer e sei que não quero ouvir, Maquiavel. Estou melhor do que imagina e meu estado atual não vai interferir na missão, não tem que se preocupar. – Ezio foi rápido ao perceber que seria uma longa e dolorosa conversa para a qual não estava preparado.
Maquiavel suspirou, levantando-se. – Certo filho, mas espero que saiba que há muitas pessoas que te amam e que desejam o seu bem, não deixe sua vida acabar por um acontecimento...
“Um acontecimento.” Pensou, respirando fundo e colocando na bolsa algumas roupas limpas que havia separado no dia anterior. Sabia de sua dor melhor do que ninguém, mas não estava disposto a argumentar sobre ela, costumava deixar de lado determinados assuntos e foi o que fez com a conversa de Maquiavel. Logo ele estava sozinho no quarto novamente. Respirou fundo, procurando afastar os pensamentos da noite, colocando sua máscara de frieza e bravura, pegou a bolsa e prendeu os cabelos com a usual fita vermelha, descendo as escadas para seu último café da manhã em Monteriggioni.
Antes de o sol nascer os dois Assassinos tomaram a estrada para Roma, deveriam chegar à cidade pela tarde e então colocariam o plano em prática na manhã do dia seguinte, contando com a ajuda dos Assassinos já familiarizados com a capital.
Cerca de um mês de viagem havia trazido Anne de volta para a Itália e com ela havia vindo todo o peso que sua mente carregava. Não se arrependia de ter deixado os Assassinos anos atrás, mas sim de jamais ter voltado, de não ter cumprido a promessa que fez a Ezio. Sabia que se a Irmandade havia sido extinta, ela seria apenas mais um corpo na pilha de mortos, mas ao menos estaria ao lado de quem amava. Relutava em se culpar totalmente, afinal havia salvo muitas vidas durante os anos na Escócia, manteve o credo dos Assassinos vivo e ajudou pessoas que sequer tinham como se alimentar no inverno. Ao mesmo tempo não podia evitar pensar no motivo pelo qual deixara Ezio, queria que ele a esquecesse e construísse uma família, se apaixonasse e aproveitasse a longa vida que ainda teria pela frente, mas aquilo jamais se concretizaria, pois o destino o reservara um fim precoce e não teria feito diferença uma família ou não, pois não existia final feliz.
Sentada à mesa de um bar fedorento e sujo aos arredores da estrada para Roma, Anne ouvia atentamente a conversa sobre a missa pública que aconteceria no domingo.
– Sabe como é... – dizia o padre completamente bêbado situado numa roda de homens na mesma situação – O papa gosta de grandes aparições. Antes de tudo vai ter um desfile, eles gostam de mostrar que estão no poder.
Anne mantinha os cabelos escondidos e o rosto coberto pelo capuz da veste negra. Fazia questão de deixar as armas a mostra, evitando qualquer aproximação indesejada, o que sempre acontecia assim que os homens reparavam que se tratava de uma mulher. Ouviu os detalhes do discurso exibicionista do padre enquanto dava migalhas de pão para Eri que estava confortavelmente apoiado na cadeira a frente, exposto como um aviso “não se aproxime”.
Ela tinha exatamente um dia para chegar ao Vaticano, não podia perder a chance de degolar o papa e seu cão Cesare em público. Levantou-se, dando o braço para que Eri tivesse apoio e saiu do bar, tomando a estrada para Roma puxando o cavalo exausto do dia de viagem.
Na manhã de domingo os Assassinos se posicionavam para dar início ao que seria uma missão histórica. Com o nascer do sol os soldados tomavam seus lugares estratégicos de onde protegeriam todos os presentes no desfile de páscoa. Os telhados eram muito bem protegidos, mas havia poucos soldados no chão, provavelmente para evitar que os presentes se sentissem intimidados. Um grande erro da parte da segurança.
Com o início da chegada dos clérigos e freiras, os Assassinos tomaram o lugar dos soldados nos telhados, garantindo que nenhum corpo fosse descoberto, escondendo-os em carroças que haviam sido colocadas em posição dias antes. Os Assassinos que faziam parte daquela missão eram muitos, tudo havia sido planejado milimetricamente para que a opressão dos Templários acabasse de uma vez por todas. Logo a praça estava lotada de pessoas ansiosas pela passagem da carruagem papal.
O foco era a passagem da carruagem pelo Panteão, ali não havia mais a presença de civis e o risco de algo dar extremamente errado era muito menor. Ezio aguardava nas sombras, não estava tenso, sua expressão era de pura frieza, o rosto estava coberto pelo capuz branco, carregava consigo a rapieira leve e precisa com a qual costumava lutar e em seus pulsos carregava as lâminas ocultas.
Lá estava seu alvo, a carruagem dourada que carregava Rodrigo e Cesare Bórgia. A mesma visão que lhe deu o sinal, também alarmou Anne, posicionada fora de visão no topo do telhado curvo do Panteão, pronta para matar os dois soldados que seguiam na frente a cavalo e em seguida os ocupantes da carruagem.
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