Destinados à Payre

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Notas iniciais
Oi, dessa vez aqui estou eu, pontual como um relógio inglês! ehueheeuehh Então vamos a mais da tensa reunião que está dando nos nervos da galera "Humana". Espero que gostem, boa leitura!!!

Sempre que ela pensava sobre estar naquele mundo, naquela situação, procurava imaginar que era outra pessoa. Não a Mona, filha de um político influente, ou a filha de uma artista de sangue azul. Nem a garota que queria o amor de seu pai, que buscava impressionar um rapaz, mas que ansiava por outro. Ou a irmã odiada, a aluna simpática e bonita. Não, em Payre ela era apenas uma mulher, pois havia se tornado uma de forma mais rápida e traumática do que a própria natureza por si só costumava fazer. Uma mulher com o objetivo de cumprir uma missão para poder voltar a ser a garota que era, só que renovada, profundamente mudada. Ou assim esperava que fosse.

Ainda que tentasse Mona não era capaz de esquecer a dor e o desespero que sentiu ao acordar ali. Lembrava cada segundo da agonia de estar presa no que poderia ser um aquário, das informações que passavam rapidamente em sua mente, a sensação de irrealidade. Tudo não passava de um sonho, não, de um pesadelo, era só no que conseguia pensar, mas quando pulou da janela e sentiu seu corpo cair vertiginosamente, sem que fosse capaz de acordar, o pânico a tomou. Já estava acordada e prestes a morrer. Mas quando sua queda foi interrompida, não foi a morte que encontrou, e sim um homem, um Alicano, ela sabia, em uma pequena nave. Não lembrava exatamente como aconteceu, foi tudo muito rápido, mas recordava dele saltando em sua direção, pegando-a no ar e, então, caindo juntos em cima da nave, enquanto ele a protegia entre os braços.

Mona olhou na direção do homem que salvou sua vida, Esan. Mesmo daquela vez ele não disse nada, ela gritou, chorou e tentou feri-lo, pois estava em choque. Ele apenas a manteve presa ao seu lado em completo silêncio. Agora ela sabia que era para protegê-la, enquanto a nave os levava de volta para a janela da qual ela havia se jogado. Mona desviou o olhar dele para a janela ampla logo atrás da Rainha, observando o brilho do cristal que cobria toda a extensão dela. Sabia que todas as janelas haviam sido bloqueadas da mesma forma depois do seu incidente. Não queriam correr o risco de uma nova situação como aquela, embora Ren pensasse de forma diferente. Para seu tolo irmão, eles estavam apenas os confinado ali dentro, o cristal era o equivalente as paredes de uma prisão. Mona sabia poderia estar correndo o risco de ser tão idiota quanto ele por pensar naquilo como uma proteção, mas fazia parte da mulher que tinha se tornado, que confiar naqueles seres era a única forma de voltar para casa. A garota que ainda sussurrava em seu interior lhe dizia que simplesmente não havia escolha.

Voltou a pousar seus olhos sobre a figura dourada chamada Khor, que todos encaravam já há alguns minutos, mas logo baixou os olhos para o tampo da mesa. Não conseguia olhá-lo, fazer isso tirava a suas esperanças, lhe provocava um pavor tão grande e esmagador que seu estômago embrulhava. Não poderia perder a coragem que havia adquirido, então não olharia para aquele homem até que fosse o momento certo. Até que chegasse a hora de matá-lo.

O reflexo de Choi sobre a mesa de vidro lhe chamou a atenção e, sem poder se conter, o fitou de esguelha. Ele estava totalmente focado em Khor, por isso resolveu aproveitar para analisar seu rosto de uma forma que há muito tempo não podia. Ele a evitava, parecia ainda desprezá-la como nos últimos minutos deles na Terra. Talvez mais. E isso doía tanto, quase tão profundamente quanto estar em um mundo estranho e perigoso, pois não ter ele ao seu lado, lhe provocando e tentando tocá-la a cada oportunidade, lhe trazia o mesmo tipo de sentimento de abandono e irrealidade.

Choi não usava mais os óculos, não precisava mais dele, já que sua visão havia se tornado inumana, e isso deixava sua franja, que ele mantinha sempre longa, ainda mais caída sobre seu olho direito. Seus cabelos, aliás estavam um pouco mais longos, quase tocavam nos ombros na parte de trás. As mechas azuis das pontas não estavam mais lá e ela sentia por isso, pois esse pequeno detalhe parecia afastá-lo ainda mais do Choi que gostava dela. Era possível perceber certas mudanças sutis em sua face, ele estava ainda mais bonito, seus traços definidos e maduros. Assim como ela havia se tornado uma mulher, ele havia se tornado um homem. Um estranho para Mona.

Tristeza a tomou quando se lembrou da primeira vez em que o viu em Payre. Foi informada sobre as pessoas que também estavam ali e logo quis vê-lo. A levaram ao quarto de Choi, ele estava sentado na cama, pensativo e preocupado, olhando para sua mão. Quando ergueu a cabeça e a viu, Mona vislumbrou o brilho de lágrimas em seus adoráveis olhos castanhos, ele se ergueu e correu até ela, esmagando-a em seus braços. Mona estava tão feliz que por um instante esqueceu tudo que estava acontecendo com eles. Ele estava vivo e estava bem, e isso era incrivelmente maravilhoso.

Quando se afastaram, Choi, passando a mão sobre o seu rosto, disse:

— Seu irmão também está aqui, além de uma garota que eu não conheço e do Alexis e da Angel. Já os viu?

Foi então que Mona apagou toda a luz que havia nos olhos dele, com suas palavras impensadas:

— Não estou interessada neles agora, só quero saber como nós vamos voltar para casa. Acredita em toda essa história sobre deuses e profecias?

Ela viu o calor nos olhos de Choi esfriar, as mãos em sua face caírem ao lado do corpo do rapaz que a fitou sério, qualquer traço de alegria havia sumido.

— Vejo que fui ingênuo ao imaginar que depois de tudo que passou, poderia ter se tornado menos egoísta e fria. Isso só prova que a Monalisa em meu coração, na verdade, jamais existiu. – Viu a dor e a raiva nos olhos dele, lhe causando frio intenso, quase tanto quanto suas palavras. – Como pode não se preocupar com os outros? Com seu próprio irmão?!

— Não é que não esteja, apenas...

— Apenas está mais preocupada consigo mesma. Como sempre.

Então ele a deixou.

Mona chorou, os Curadores vieram para evitar uma nova crise, e ela deixou que a fizessem dormir. Precisava daquela fuga, do esquecimento bem-vindo do sono. Assim não sofreria tanto com os gritos em sua cabeça, sua própria voz a xingando e agredindo por não ter sido capaz de dizer a ele que não era a garota egoísta e fria que ele havia a acusado de ser. Como poderia ser essa pessoa quando tudo que sempre tinha feito em sua vida, havia sido por amor a outra pessoa? Seu pai. Ele sim tinha sido egoísta e frio ao direcionar seu amor a um único filho, ignorando-a e a rejeitando sempre.

Assim, o que mais a angústiava era a questão: teria sido tarde demais a descoberta feita ao despertar em Payre? Pois quando soube o quão longe de casa estava, não foi no pai que pensou, não foi o desespero por não vê-lo que a fez jogar-se de uma janela. Foi Choi. Somente ele. Isso que a tornava uma pessoa egoísta?

— Mona?

A garota piscou ao ouvir seu nome no doce idioma Nerini. Era a voz da Rainha, mas, ainda assim, Mona não se virou na direção da soberana, pois seus olhosestavam presos nos castanhos de Choi, que a observava com certa preocupação do outro lado da mesa. Quando a frieza voltou a cobri-los, ela desviou sua atenção para as próprias mãos no colo, assim evitaria a dor e também que os outros percebessem a vermelhidão provocada pelas lágrimas contidas.

— Está bem Mona? – a Rainha insistiu.

Sem erguer a cabeça, ela respondeu:

— Sim, estou.

Após respirar fundo algumas vezes, sentindo que retomava o controle, ergueu o rosto e encarou a Rainha Syka.

—Desculpe Majestade, acho que ver Khor me deixou um pouco perturbada. – O que não era totalmente mentira.

A Rainha lhe sorriu de forma gentil, seus olhos exibindo um brilho de compreensão.

— Ele perturba até os mais fortes guerreiros, minha querida – dizendo isso, ela pousou a mão no braço da imagem projetada do Rei Deiroon e ela desapareceu, se desfazendo no ar.

Mona reparou que todos se remexeram inquietos em seus lugares, como se finalmente pudessem relaxar e respirar normalmente. Aquele homem, Khor, não era apenas perturbador. Ele era aterrorizante.

— Khor é visto como um Deus para seu povo e para seus aliados – Syka continuou. – E ele está formando um exército muito poderoso. Sabemos que ele se alimenta das pessoas e isso o deixa cada vez mais forte, além disso, dá seu próprio sangue para os guerreiros Deiroons, assim eles também são capazes de absorver a essência daqueles que devoram, ainda que não na mesma proporção que o próprio Khor. Há mais de vinte anos, quando foi derrotado na Segunda Grande Batalha, com o sacrifício de Melkor, ele perdeu incontáveis membros de seus exércitos e dos seus aliados. Desde de então vem recuperando-se e se fortalecendo.

— Por que não aproveitaram esse momento de vulnerabilidade de Khor para atacá-lo?

Mona e boa parte da mesa repararam na carranca do Rei Erak diante da pergunta de Alexis. Tinha ouvido falar que eles mantinham certas desavenças e também que eram irmãos. Ela até conseguia ver aquilo como algo possível, os dois tinham certa semelhança, não física, mas na postura, talvez por serem príncipes, ainda que de dois mundos distintos.

— Nós também estávamos frágeis – a Rainha respondeu. — Sylesth tinha perdido seu Rei, os Eiffs e Oberohs não confiavam na estabilidade de suas alianças com os Alicanos e Nerinis. A única ligação que tínhamos naquele momento era o luto pelo Rei e por todos os aliados que tinham morrido na guerra. Tínhamos vencido, mas estávamos tão derrotados quando Khor, talvez mais, afinal ele perdeu suas tropas, facilmente substituiveis do ponto de vista dele, mas nós perdemos nosso líder.

Como Alexis apenas limitou-se a fitar a Rainha com sua indiferença contumeira, sem esboçar qualquer outra reação, ela retomou de onde tinha parado:

— Sabemos que não temos chances de vitória através das batalhas, temos homens muito poderosos, mas mesmo eles não são páreo para seres que se alimentam da carne e do sangue de seus inimigos e que ficam cada dia mais cruéis e mais fortes. Somente seguindo a Profecia seremos capazes de libertar Payre de tanta maldade e morte. Por isso vocês estão aqui.

A Rainha pousou seus olhos cinzentos em cada Humano e, por fim, em Alexis. Mantendo sua atenção no rapaz que todos diziam ser o filho dela, o que Mona não conseguia entender como, Syka disse:

—Você tem um papel ainda mais importante e de maior responsabilidade, Alexis. Seu nascimento foi cuidadosamente planejado para que viesse a ser o Predestinado do Deus Erow, aquele que guiará os Escolhidos da Deusa Ashy para a vitória contra a tirania de Khor, a personificação da maldição de Deow.

Mona observou que mesmo com todos voltados para ele, Alexis continuou a não reagir. A não ser por seus olhos, que ficaram ainda mais frios. Mesmo assim, a Rainha não deixou de esboçar seu sorriso gentil.

— Sei que não será capaz de entender o significado disso tão cedo, ou aceitar, mas espero que possa fazê-lo enquanto percorrer o caminho que levará ao seu destino. Ao destino de todos nós.

Após essas palavras, a Rainha virou-se para um dos Oberohs que tinham entrado na sala com o grupo, mas que não eraum dosGuardiões. Ele imediatamente se ergueu e ficou ao lado dela. O homem era muito jovem, assim como todos os payreanos que tinha visto até então, embora esse tivesse cabelos curtos em tom cinzento. Seus olhos, assim como os de Noor, era formado todo por uma única cor esverdeada, sem esclera, o que tornava difícil determinar para onde ele olhava.

— Esse é Jaffar, o líder do Conselho dos Profetas. Ele tem dedicado toda sua vida a estudar os Deuses e a Profecia. Todo seu conhecimento irá nos guiar em nossa missão.

Após um leve maneio de cabeça da Rainha, Jaffar assumiu a palavra.

— Durante mais de quatrocentos anos venho estudando e aprendendo sobre os Deuses...

O quê?!

— Um momento Jaffar, por favor – a Rainha solicitou.

Mona estava perplexa. O cara, aquele homem que não parecia ter mais do que trinta anos, se tanto, tinha mais de quatrocentos anos?

— Desculpem, percebo que estão assustados com a nova informação. – Com seu jeito doce a Rainha, explicou: — Claro que notaram a nossa tecnologia, sabemos que ela não é tão avançada na Terra, mas têm noção da relação entre a expectativa de vida e evolução da ciência, mas além disso, todos nós de Payre temos os dons dos Deuses em nossas essências, que nos fazem viver muito além do que um Humano é capaz, e mais do que isso, de forma saudável. Eu, por exemplo, tenho quinhentos e dois anos.

Mona respirou fundo. Uma, duas vezes. Ok, certo. Era apenas mais uma particularidade daquele mundo tão difícil de digerir. Bem, pelo menos agora fazia mais sentido o fato de Erak e Alexis serem filhos da Rainha, ainda que ela parecesse tão jovem. O que levava a outras questões. Não existiam pessoas velhas em Payre? Como eles morriam? Não existia nenhum tipo de doença? Qual era a expectativa de vida deles? E mais, segundo a história que tinham implantado na mente deles, Alexis tinha nascido durante a Primeira Grande Batalha, como o período não tinha sido algo muito preciso nessas explicações, não tinha se dado conta disso antes, mas agora se perguntava, há quanto tempo tinha sido isso?

— Majestade, quando aconteceu a Primeira Grande Batalha?

Mona sentiu um leve sobressalto com a questão feita por Angel, pois era exatamente o que gostaria de saber. Pelo visto a loirinha estava preocupada em quão idoso era na verdade o namorado, e Alexis obviamente não iria perguntar.

A Rainha, sempre muito atenta, entendeu a atenção da garota, por isso respondeu à Angel, com os olhos voltados para o Príncipe.

— Há mais de trezentos anos.

— Está dizendo que se passaram todos esses anos desde que Alexis foi enviado para a Terra? Como isso é possível? – Angel refletia a perplexidade da própria Mona e dos demais Humanos.

— Quando eu o coloquei na nave, a Rainha Arw me disse que a viajem poderia durar séculos, mas que o poder dos Serines contido naquela máquina tornaria o tempo ali dentro imutável e faria com que seu corpo todo se juntasse a sua essência, para ser transferido a um corpo humano, e que o destino se encarregaria de escolher seu caminho naquele planeta – como Alexis a ignorava ostensivamente, Syka voltou sua atenção para Angel. – Não temos como saber qual a idade de Alexis. Se contarmos seu nascimento em Payre, então ele teria exatamente trezentos e vinte e cinco anos. Mas como ele não se desenvolveu por três séculos e ainda renasceu na Terra, biologicamente ele tem apenas vinte e um anos, como todos vocês. Sei que têm inúmeras outras dúvidas sobre nosso tempo de vida, mas deixaremos para depois, por agora nos deteremos no que Jaffar tem a nos dizer.

Após uma pausa, a Rainha estendeu a mão para que Jaffar prosseguisse.

— Bem, como eu dizia, venho estudando a história dos Três Deuses e a Profecia, além dos próprios Serines e seu misterioso desaparecimento. Mas nosso maior esforço nos últimos séculos, desde o surgimento de Khor, tem sido descobrir quem é ele e como derrotá-lo. Quando os Serines compartilharam com a Rainha Syka e o Rei Melkor a Profecia da Deusa Ashy, buscamos de inúmeras formas compreender mais profundamente o significado de suas palavras.

O Oberoh tocou a mesa, e dela foi se erguendo, em toda sua extensão, um grande mapa, com montanhas, palácios, castelos, florestas, tudo em miniatura e parecendo completamente sólido. Por curiosidade, Mona tocou no mar, próximo de onde estava. Sentiu a agua fria e com surpresa viu que as pontas de seus dedos ficaram molhados.

— Este é o nosso planeta, Payre. Como vocês podem notar, existem divisões territoriais muito claras entre cada reino. Segundo nossas pesquisas, quando Erow reviveu a todos as raças viviam juntas, dividindo o mesmo território, mas então começaram as disputas de poder, lideradas pelos Deiroons. Logo grupos foram se formando e se afastando uns dos outros, acomodando-se em locais mais adequados à própria sobrevivência e impedindo a aproximação dos outros, chegando a divisão existente até hoje, exceto pelos Alicanos e Nerinis que passaram a compartilhar seus reinos, mas mesmo em Sylesth é raro que outra raça viva, como os Oberohs ou os Eiffs. Cada reino, podemos até dizer, cada raça, possui um Rei ou uma Rainha, que são os mais poderosos dentre eles. Eles devem proteger seu povo e garantir a sobrevivência da raça. E eles são, de certa forma, a chave da Profecia. – Jaffar lançou uma olhada para Erak e o Rei balançou a cabeça de forma positiva. – Segundo dizem as palavras da Profecia, o Predestinado e os Escolhidos precisam compartilhar o sangue dos mais fortes. Os mais fortes são os Reis.

— Está dizendo que devemos fazer como os Deiroons e matar os Reis para comê-los? – Lali parecia tão chocada que mesmo sendo tão quieta, não se conteve.

— Não, isso não será necessário – Jaffar logo tentou acalmá-la.

— Que pena.

Mona, assim como o restante da sala, olharam perplexos para Angel que havia soltado o comentário inadequado. Ora, não era tão surpreendente vindo da psicopata assassina que tinha matado quase que a própria mãe.

—Ei, estou apenas brincando! Minha nossa, sou quase uma vegetariana.

A garota ergueu as mãos em sinal de calma, mas Mona viu o brilho desafiador dos olhos violetas na direção do Rei Erak. Pelo visto Angel estava tomando as dores pelas rixas entre o namorado e o soberano do reino, típico da garota encrenqueira. Mas o que mais surpreendeu Mona foi o leve sorriso que surgiu nos lábios de Erak, contudo ele logo desapareceu e o Rei voltou sua atenção para Jaffar, como se nada de estranho tivesse se passado ali. Assim, todos trataram de fazer o mesmo.

— Precisamos apenas de um pouco de sangue. – Jaffar hesitou. – Bem, como não sabemos de que forma isso irá funcionar na prática, teremos que fazer alguns testes para descobrir de que maneira esse sangue deverá ser coletado e absorvido por vocês. Imaginamos que seja da maneira feita por Khor, mas tentaremos primeiro de um jeito mais… Civilizado.

Nesse momento Erak se ergueu e foi até Alexis. Ele ficou encarando o Príncipe, que permaneceu sentado e com o olhar fixo a sua frente, até que Jaffar aproximou-se com uma taça de cristal. Sem emitir qualquer som, Erak ergueu a mão e uma longa garra surgiu nela. Mesmo sentado, diante do homem enorme e ameaçador com sua garra letal, Alexis não moveu um músculo sequer, nem mesmo sua respiração se alterou. Não se deu ao mínimo trabalho de olhar da direção do Rei, que parecia realmente furioso naquele momento. Mona agora via como tinha subestimado a frieza do Príncipe.

Com uma única investida, Erak cravou as garras no próprio braço um pouco acima do pulso. O sangue começou a jorrar e logo Jaffar colocou a taça para coletar o líquido vermelho e espesso. Quando ela estava quase até a borda, foi retirada. O Curador, o mesmo que tinha atendido Ren, logo se aproximou para tratar o ferimento. O Rei o afastou com um gesto, pegou a taça do Oberoh e a estendeu para Alexis.

— Beba.

Alexis continuou a olhar para frente, ignorando a ordem.

Mona tinha certeza que a situação não ia acabar bem, Alexis não parecia nem um pouco disposto a colaborar e o Rei mostrava-se ansioso por uma oportunidade de bater no Príncipe. O que ela entendia perfeitamente.

— Alexis, sei que estamos pedindo muito – a Rainha logo interveio e foi notável o alivio de muitos ali presentes. – É tão estranho para nós quanto para vocês esse gesto repugnante, talvez até mais para nós, pois os payreanos há milhares de anos, desde que deixamos de ser seres primitivos, não nos alimentamos de nada além de água. Não precisamos comer outros seres para sobreviver.

— Ainda assim, está disposta a fazer com que o “seu filho”, faça esse gesto “repugnante”, simplesmente para verificação de uma teoria que apenas tem como base, a forma de agir de seus próprios inimigos?

O frio contido nas palavras de Alexis gelou até os ossos de Mona, mas pareceu incendiar os olhos do Rei Erak.

— Sei que os Humanos são criaturas frágeis e delicadas, mas alguém que deveria ser o filho de meu pai, me surpreende cada vez mais – após dizer isso, Erak virou a taça e bebeu até a última gota do próprio sangue.

***

Alexis se virou a tempo de ver o Rei beber o liquido vermelho e viscoso. Quando terminou, Erak o encarou novamente. Havia desprezo e rancor em seus olhos cinzentos. Alexis entendia o desprezo, mas o rancor era algo que não compreendia. E, honestamente, não o interessava.

Frustrado, viu o tal Jaffar trazer uma nova taça vazia. Sabia que Erak a encheria novamente e lançaria a ele como uma espécie de desafio. Se não bebesse, provaria que era apenas um Humano com estômago fraco, além de outros tantos defeitos creditados a sua raça.

Enquanto observava a taça ser enchida, Alexis refletia se valia a pena aceitar o desafio. Na verdade não se importava nenhum pouco com a situação aborrecidamente dramática criada pelo Rei, o principal ponto ali é que esse parecia ser apenas um ridículo empecilho para algo muito maior que ainda estava por vir, como seria derrotar o tal Khor. Alexis havia ficado bastante impressionado com a pessoa que deveriam matar, que todos diziam ser o destino dele matar.

Sentiu a pequena mão de Angel sobre a sua perna. Quase sorriu imaginando o ponto de curiosidade em que ela deveria estar sobre o que ele faria a seguir. Resolveu tortura-la um pouco, por isso não fez qualquer gesto que indicasse sua decisão. Um pouco antes da taça ser novamente estendida a ele, sentiu um beliscão na sua coxa. A pestinha.

Alexis sorriu internamente.

Com agilidade, se levantou, ficando de frente para o Rei. Com os olhos fixos nos do seu “querido irmão”, ignorou a taça e estendeu a mão, na direção do braço que ainda sangrava. Erak o fitou surpreso. Ótimo.

Vendo que o Rei tinha ficado sem reação, ele ergueu a sobrancelha, ainda com a mão estendida. O Rei estreitou os olhos e estendeu o braço cortado para Alexis. Assim que tocou o pulso do Rei, Alexis cravou seus dentes no ferimento e sugou o sangue. Era muito mais enjoativo e desagradável do que ele imaginava, mas ouvir o burburinho das pessoas assustadas a sua volta lhe deu incentivo para continuar. Após alguns instantes, soltou o braço ferido e olhou diretamente para a Rainha.

— Se é para fazer algo por seus Deuses caprichosos, então prefiro fazer de forma realmente digna deles. Não é assim que Khor homenageia o dele?

Ele viu o choque nos olhos de Syka.

— A Profecia falava disso? – Erak questionou Jaffar e a mãe, completamente enfurecido. – Que o Predestinado iria zombar e blasfemar sobre o Deus que o criou? É nesse Humano que temos que acreditar e depositar nossas esperanças?

— N-não.. — Jaffar parecia levemente cinzento e não havia qualquer traço do brilho característico dos Oberohs.

— Poupe seu folego, Erak – Alexis quase pode sentir a ira dele sobre si. – Todos nós, mesmo Ren, apesar de suas ideias idiotas de fuga, estamos cientes de que só quandoforcumprido o que nos propuseram, poderemos estar livres. Querem que sejamos os salvadores do seu mundo? Certo, nós seremos. Ou morreremos tentando, não porque acreditamos em seus Deuses e em suas histórias místicas, mas sim por que não temos escolha. Pois não estamos presos em uma gaiola da qual nos livraremos apenas achando um jeito de abrir a grade. Nós estamos presos em outro mundo, do qual só sairemos quando os carcereiros acharem que fizemos a nossa parte do trato.

Trato? – Erak praticamente gritou.

— Sim, um trato – Alexis voltou sua atenção para a Rainha Syka. – Lutaremos essa guerra por vocês, mas em troca quero que prometam que, quando tudo terminar, nos enviarão de volta para a Terra. – Seus olhos azuis foram incisivos. – Todos nós.

Ele não arriscaria a possibilidade de que mandassem Angel para a Terra e ele permanecesse ali, por ser originalmente um payreano. Não permitiria que o separassem dela, de forma alguma.

Erak riu, de forma zombeteira, chamando a atenção dele.

— E o que o faz pensar que deixaremos que voltem para seu planeta?

— Se não cumprirem a promessa – Alexis ergueu as duas mãos. – Eu matarei todos vocês.

Garras afiadas surgiram, seus olhos ficaram brilhantes e tão rápido como a própria luz, apareceu atrás da Rainha, seus dentes cravados no braço dela. Ninguém foi capaz de impedi-lo.

Notas finais
Alexis não é surpreendente? O que acharam? Rolou um pouco de sentimento com a Mona (não de raiva, ok? kkkkk)? A reunião acaba no próximo capítulo. De um jeito ou de outro ~suspense~ Comentem, deixem a impressão sobre a história até aqui, pois estou com uma baita curiosidade sobre a opinião da galera "fantasma" kkkkk Obrigada pelos lindos comentários recebidos no capítulo anterior s2 Até o próximo! o/