Destinados à Payre
6 Provas! Malditas provas!
Choi estava muito curioso. Embora Alexis mantivesse a mesma cara fechada de sempre, nas últimas duas semanas havia algo estranho naquela expressão. Ele parecia irritado. E seus olhos, normalmente muito focados, agora passeavam ao redor sempre que ele andava pelos corredores da escola. Ansiosos. Como se procurasse alguém. Interessante.
Caminhando ao lado de Alexis em direção a próxima aula, a terceira daquela manhã, Choi disse casualmente:
—- Ouvi dizer que nossa nova colega, aquela-que-não-deve-ser-nomeada, não precisa frequentar as aulas desde que faça as provas e vá MUITO bem nelas. Estou bastante curioso para ver como ela vai se sair — Choi tagarelava como se nem tivesse sentido a temperatura cair uns dez graus com seu comentário. — A Alpha não é como a maioria das escolas, é difícil até manter a média! Não que eu tenha alguma dificuldade, mas a maioria de nossos pobres colegas… Aiai é de dar pena! A semana de provas começa hoje, imagino que finalmente poderei matar minha curiosidade em conhecer a você-sabe-quem… — Choi deu de cara com a porta, foi tão repentino que não conseguiu evitar o choque do nariz com a madeira.
—- Porr… — O rapaz interrompeu a imprecação ao abrir a porta e ver a expressão de Alexis, que sem dúvida havia fechado ela de propósito na sua cara. Mais uma prova de que ele estava agindo fora do seu normal. O Príncipe naquele momento estava imóvel, olhando fixamente para algo no fundo da sala. Ou melhor, alguém.
A sala em formato stadium permitia uma fácil visão dos alunos distribuídos nas diversas mesas. Logo, Choi não demorou em perceber que Alexis olhava para alguém sentado na última fileira, isolado dos demais colegas que também observavam discretamente a figura de uma garota. Não dava para ver o rosto, pois um boné azul puxado para frente impedia uma visão mais clara, além disso, a pessoa mantinha a cabeça baixa enquanto escrevia algo em um caderno muito grosso e surrado. Mesmo assim, todos ali sabiam quem era. Angel, depois de duas semanas, finalmente comparecia a uma aula.
Choi observou Alexis se sentar nas primeiras fileiras ao lado da janela pela qual, todos sabiam, passaria a maior parte do tempo olhando. Choi geralmente sentava em um lugar próximo, mas dessa vez resolveu ousar. Ele não seria “amigo” do príncipe Alexis se não fosse meio louco afinal.
Abrindo um enorme sorriso foi até o fundo da sala e se sentou a uma mesa de distância de Angel. Até ele tinha seus limites de loucura. Sabia do que a garota era capaz e não queria lamber o chão como Ren havia feito.
—- Você é Angel, certo? — Sem resposta. — Eu sou Choi Hee Baek, pode me chamar de Choi.
Naturalmente ele nem se deu ao trabalho de estender a mão. Apenas ampliou seu sorriso simpático. Ele era conhecido por se dar bem com todos e estar sempre a par de tudo o que acontecia pelo colégio, pois os colegas confiavam nele e lhe contavam todas as fofocas que rolavam. Choi tinha a seu favor o fato de nunca espalhar as coisas que sabia quando isso era solicitado. Era um cavalheiro e bom amigo para as garotas. Um companheiro divertido e disposto para os garotos. Ainda assim ninguém entendia como Alexis, tão diferente dele, o deixava ficar a sua volta.
Angel parecia ser imune ao seu famoso charme, pois a única reação da garota foi fechar com força o caderno em que escrevia. Choi notou que parecia um diário e na capa, em alfabeto coreano, estava escrito a palavra “amigo”.
― Chin-gu — ele murmurou quase para si, mas a ela o ouviu e o encarou.
Choi ficou sem fala.
Ela era um sonho. A garota era a personificação dos personagens fantásticos sobre os quais ele tanto gostava de ler. Era uma ninfa. Talvez uma fada. Ou, dane-se a redundância, um anjo.
Os olhos incrivelmente violetas o encaravam através dos longos cílios negros. Ele notou que alguns fios prateados caiam do boné e tocavam a bochecha rosada. A pele pálida e impecável parecia porcelana e quase tão surreal como a própria garota.
Ela suspirou e voltou a baixar a cabeça.
Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, o professor chamou a atenção de todos para iniciar a entrega das provas. Choi balançou a cabeça como se estivesse saindo de um transe e nesse momento seus olhos cruzaram com os de Alexis.
O Príncipe não estava, como de costume, olhando distraidamente pela janela. Alexis estava olhando para o fundo da sala, diretamente para ele. Seus frios olhos azuis deixaram transparecer algo que chocou Choi e que o fez instintivamente procurar um lugar mais afastado de Angel para sentar.
Os olhos de Alexis diziam, sem deixar nenhuma dúvida: “Afaste-se”.
***
Angel notou o desprazer do professor ao lhe entregar o teste. Sabia que despertava esse sentimento nos docentes em geral.
Desde as suas primeiras expulsões ela havia deixado bem claro sua inconformidade em ter que estudar. Quer dizer, se ia morrer logo qual era o propósito disso? Mas para o avô era tudo uma questão de aparências. De mostrar para o mundo que seus netos, todos eles, estudavam nas melhores escolas.
Ela havia implorado por tutores em casa. Ele a queria longe. Ela havia pedido para morar em outro lugar, longe da família Lancaster. Como ele justificaria que a neta órfã não morava com a família?
Aparências. Status. Angel odiava aquilo tudo.
Para evitar que a neta arruinasse ainda mais o nome da família e fosse expulsa de outras tantas escolas por não comparecer as aulas, George concordou em convencer a direção das escolas em que ela estudou a aceitar que a garota não frequentasse as aulas desde que mantivesse as notas mais altas da turma. E ela, para desgosto dos professores e diretores, mantinha. Até aprontar algo para ser expulsa novamente.
A Alpha, segundo Watson, lhe informou, exigiu mais. Ela teria que ser uma das primeiras alunas da escola inteira. Angel sorriu levemente por baixo do seu boné. Ótimo, gostava de um desafio.
Na verdade, enquanto vagava sem rumo pelo pátio da escola nas madrugadas, ou quando estava em seu lugar favorito durante o dia, o telhado, ela gostava de estudar. Recebia da escola a lista de temas trabalhados nas aulas e a partir disso montava seu próprio plano de estudos. Chegava a ser divertido fazer os exercícios e aprender tanta coisa nova. Novidades sempre a atraíam. Por isso ser autodidata era muito fácil para ela.
Um tempo depois, antes de qualquer outro aluno, Angel terminou de responder todas as questões. Jogou a mochila nas costas por uma das alças e desceu as escadas no centro da sala sem olhar para os lados. Por isso não percebeu que todos haviam parado de fazer a prova para vê-la atravessar a sala. Alguns surpresos. Será que ela já tinha terminado tudo? Outros zombavam. Provavelmente ela tinha chutado tudo ou desenhado algo idiota na folha, parecia algo que alguém como ela faria.
Quando largou a prova na mesa do professor, outra foi depositada ao mesmo tempo, sob a sua. Por reflexo, ao sentir o cheiro, Angel ergueu a cabeça. Maldição era ele!
Alexis e Angel ficaram se encarando.
Ele baixou o olhar para a folha que ela entregava e uma sobrancelha negra se ergueu lentamente.
—- Acho que não é ético olhar a prova de um colega. Mesmo depois de entregue. Ou existe uma exceção para o Príncipe-Presidente?
Foi audível o espanto dos demais alunos diante do tom claramente ofensivo de Angel.
Alexis manteve a expressão de indiferença de sempre, mas suas palavras não foram tão contidas:
—- Desculpe. Não consegui conter minha surpresa ao reparar que existe um cérebro sob tantas palavras de baixo calão, capuzes e bonés.
Angel, ao contrário da sala que ficou completamente em silêncio, incluindo ai o professor, disparou furiosa:
—- Essa sua arrogância vem junto com o pacote do negócio de ser um Príncipe Árabe? — Esticando-se ao máximo nos seus 1,55m de altura ela se aproximou mais dele, falando com malícia: – Ou essa é a estratégia que costuma usar para chamar a atenção da garota que esta a fim de dar uns amassos?
Alexis não esboçou qualquer expressão. Reagiu passando por ela e a puxando consigo pelo braço para fora da sala.
—- O que pensa que está fazendo?! Me solte, seu imbecil!
Ele se voltou para a garota, e colocando o rosto na altura do dela, disse em tom baixo e firme:
—- Ou me acompanha de forma civilizada ou eu vou carregá-la pra fora. Garanto que não gostará da experiência.
A resposta de Angel foi libertar o braço com um puxão.
—- Quero ver tentar, bonitão.
Ela não acreditou nem por um segundo que ele fosse capaz de cumprir a ameaça. Não um Príncipe arrogante como ele. Não na frente de todos aqueles colegas que assistiam a tudo embasbacados. Mas Alexis já havia dito antes, ela poderia levá-lo a loucura. E ele não estava brincando.
Mais rápido e mais firme do que ela poderia imaginar Alexis a pegou pela cintura e a jogou sobre os ombros. Angel sentiu o ar escapar dos pulmões com o impacto do seu corpo contra os músculos masculinos. De cabeça para baixo, muito bem presa pelas pernas, só lhe restava bater nas costas largas com os punhos e gritar. E ela gritou a plenos pulmões.
Alexis, aquele desprezível, aquele príncipe filho da puta, apenas lhe deu um tapa no traseiro!
***
{Payre}
Do ponto alto em que estava Khor, o atual Rei Deiroon, observou com aparente tranquilidade a vastidão de areia avermelhada que se encontrava com o horizonte, cujo azul intenso rivalizava com o do Mar do Sul. Seus olhos dourados como os raios que solares que se mesclavam às areias, exibiam um brilho inconfundivelmente sombrio. Um de seus melhores espiões tinha sido descoberto e morto e o outro retornou com informações inquietantes sobre o reino de Sylesth.
Maldito Rei Alicano que tinha conseguido frustrar os seus planos ao morrer. Estava decididamente cansado daqueles seres que se prendiam desesperadamente a uma existência tão débil, sempre buscando aliados com uma utópica esperança de paz. Quando seu pai estava vivo já havia previsto que a aliança Nerini-Alicanos traria muitas frustações aos Deiroons. Ele não tinha ideia do tamanho dessa frustação.
Khor franziu os lábios enquanto o vento quente do deserto lançava seus longos cabelos para longe do rosto tenso de exasperação. Ali estava ele, Khor, aquele que tinha nascido para ser o mais poderoso de Payre, aquele que era a verdadeira reencarnação de um Deus, ridiculamente parado de braços cruzados, observando um monte de areia, pois depois de mais de três séculos ainda não tinha conquistado todo o poder que almejava.
Graças aos Serines tinha ficado preso por quase duzentos anos, todo aquele tempo desperdiçado em um buraco escuro do qual nem sequer tinha consciência de estar. Isso mostrava de que aqueles malditos mensageiros de Erow não eram somente portadores das palavras divinas, como alegavam, provando que seu pai estava novamente certo sobre suas suposições. O antigo Rei Deiroon sempre desconfiou que aqueles seres alados, que não se misturavam aos demais, totalmente intocáveis e que habitavam terras áridas, quase inacessíveis, eram talvez os mais poderosos de Payre. Quem quisesse conquistar aquele mundo precisaria antes de qualquer coisa eliminá-los.
E Khor havia começado isso por Raine. Ele provou que era possível matá-los. Ele mostrou que ele poderia matá-los, apesar de quem, ou do que, ele era.
Ironicamente, exterminar os demais Serines havia sido desnecessário, pois quando retornou de seu exílio, Khor descobriu que eles estavam todos mortos. E ninguém sabia como aquilo tinha acontecido. O Rei Elros sacrificou-se ao prendê-lo, mas o que tinha acontecido a Rainha Arw e aos demais seres de sua raça? Há mais de duzentos anos nenhum deles havia sido visto. As poucas naves que conseguiram se aproximar do palácio do reino de Oyst, onde eles viviam, não detectaram nenhum tipo de vida. Estava tudo absolutamente deserto. Apenas os Dragões Ebóreos viviam na região.
Khor suspeitava fortemente daquela situação. Mas, por mais que tivesse passado anos investigando, nunca descobriu uma pista sequer do que tinha acontecido com eles. E as desconfianças apenas aumentaram com a inatividade dos Reis de Sylesth. Mesmo ele tendo invadido as fronteiras de Nagtar e Cylles, poucos soldados Alicanos e Nerinis tinham se juntado a defesa de seus reinos aliados. Algo definidamente estava acontecendo. E ele já tinha planos para descobrir o quê.
Sentia-se como uma peça em um jogo, e não iria admitir mais isso. Ele não era uma mera peça, ele era o jogador.
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