Destinados à Payre
7 Quando fogo e gelo se encontram...
Enquanto era carregada, ainda pendurada, através dos corredores (vazios, ainda bem, pois os alunos estavam em provas), Angel continuou a se debater furiosamente. Quando percebeu que entravam em um sala de aula vazia ela não pensou duas vezes. Contorceu a parte superior do corpo até conseguir alcançar o pescoço do rapaz e o acertou na lateral com um golpe de mão aberta. O Príncipe fez menção de largá-la, mas antes que ele conseguisse, a garota soltou as pernas dos braços masculinos que as prendiam, levantou para o alto e com as mãos segurando a cabeça de Alexis, o impulsionou de costas para o chão. Contudo, ele era realmente ágil. O rapaz girou o corpo, segurou os braços dela e a puxou para baixo. Como ele era mais forte, Angel acabou presa num abraço de ferro, com os pés balançando no alto e o rosto a centímetros do dele.
Droga, seu coração estava acelerado pelos movimentos bruscos e não por estar tão perto de Alexis, a ponto de ver o circulo azul cobalto que contornava as íris turquesa dos olhos dele. Claro que também não tinha nenhuma relação com a sensação dos seios esmagados contra o peito masculino, que subia e descia num ritmo tão rápido quanto o seu. E quando seus olhos desceram para a boca de Alexis, percebendo a minúscula covinha que ele tinha nos lábios inferiores e o quanto aquilo era sexy, foi apenas uma reação natural já que seus olhos estavam muito perto daquele local. Sem falar que o fato dos seus dedos dos pés formigarem, assim como as mãos, era pela falta de circulação por estar presa de forma tão apertada e não porque sentia a respiração morna em seu rosto e percebia cada centímetro dos músculos do corpo bem formado de Alexis contra o seu. Ou o cheiro de sol tocando profundamente seu corpo.
–- Isso responde a pergunta feita anteriormente?
Angel, se não estivesse tão bem presa, teria dado um pulo. Estava tão concentrada em Alexis, pensando em uma forma de escapar, claro, que as palavras dele, mesmo ditas com uma voz macia e baixa, a assustaram.
Que pergunta ela tinha feito mesmo? Esclarecendo que seu cérebro só estava confuso pela falta de oxigênio provocada... Ah deixa pra lá.
Então ela lembrou. E não soube o que dizer.
Ele literalmente estava dando um “amasso” nela. Ou seja, sim, ele tinha implicado com ela, com a coisa toda da prova, para chamar sua atenção. Não era algo que se esperaria de um Príncipe arrogante e famoso por sua indiferença.
Angel estava confusa. Como era possível discutir com uma pessoa que era tão honesta com suas palavras e sentimentos?
Alexis tinha um jeito frio e uma personalidade “robótica”, no mínimo, mas não usava meias palavras, era muito direto. Algumas pessoas poderiam dizer que ele escondia seus sentimentos. Elas estavam erradas. O Príncipe não escondia nada, apenas não sentia mesmo.
E ali estava ele, mais uma vez, deixando bem claro que estava interessado nela. Que havia sentido algo por ela.
Quando Angel viu os olhos azuis fitarem seus lábios com intensidade, a garota pensou duas coisas. Será que ele havia percebido também quando ela o observou daquela maneira? E o mais importante, o que ela ia fazer naquela situação? Como deveria reagir?
–- Me solte.
Ela precisava de espaço. Não podia se deixar levar pela situação, afinal ele ainda era o mesmo cara que a queria bem longe dele. Como todos os outros. E sendo honesta, era meio assustador pensar o que poderia acontecer se passasse a se importar com para onde a levariam os sentimentos estranhos que ele despertava nela.
–- Não vou soltar. Creio que é uma boa oportunidade para testar o quanto você me afeta, o quanto eu devo me preocupar.
Aquela arrogância, mas principalmente aquela indiferença impregnada nas palavras que poderiam fazer derreter qualquer outra garota a enfureceu. Ela era apenas um incomodo, algo que deveria ser mandado para longe, então ele queria apenas fazer um teste, não seria considerado um beijo ou um abraço, mas um maldito teste, que serviria para mostrar o quão longe ela deveria ser mantida dele.
Angel não quis pensar na dor que a ideia lhe causava, não valia a pena. Ela não precisava daquilo. Ela precisava da raiva, da força que tinha conquistado para lidar com aquele mundo imundo e cheio de pessoas egoístas. Alexis podia até sentir algo por ela, mas não gostava disso e nem queria, o que era o mesmo que não sentir nada. E ela já estava cansada de não ser nada para alguém.
Como os braços estavam presos, Angel usou as pernas. Ela puxou ambas para cima, passando pela cintura de Alexis, os fazendo ficar em uma situação ainda mais intima do que já estavam. Mas aquilo já não a afetava como antes. Cheia de fúria, aproveitou a distração que seu movimento fez para dar uma cabeçada no queixo do rapaz. Ela própria sentiu a dor do impacto mas seu objetivo foi alcançado, ele afrouxou os braços que a seguravam. Ela se libertou, deu um salto mortal para trás e com o movimento tentou acertá-lo no peito, mas Alexis se recuperou o suficiente para bloquear o golpe. Angel caiu em pé a alguns passos do rapaz.
Eles ficaram se encarando. Alexis esfregava o queixo lentamente com uma expressão dura no rosto. Angel respirava rápido, com chamas violetas nos lindos olhos. Então, ela disparou na direção dele como um raio, socando e chutando. Ainda que impressionado com a agilidade da garota, Alexis conseguia bloqueá-la. Angel não tinha altura nem para alcançar o queixo do seu adversário, mas sua velocidade e os saltos incrivelmente altos a faziam superar facilmente essa desvantagem. Alexis, em alguns golpes, tinha até mesmo que inclinar o corpo para se defender dos seus chutes aéreos, o que queria dizer muito para alguém com quase 1,90 de altura.
Ela usava as cadeiras, as mesas e até mesmo as paredes como apoio para saltar sobre o Príncipe que, com certa dificuldade, a bloqueava e empurrava para longe. Angel mal tocava o solo e longo se lançava contra ele novamente. Em determinado momento pulou sobre uma cadeira ao mesmo tempo em que pegou outra e arremessou contra Alexis. Sabia que ele conseguiria desviar e ele o fez, ela percebeu o lado para o qual o rapaz iria saltar pelo movimento dos pés, então foi na mesma direção tentando acertá-lo com uma voadeira lateral, mas Alexis inclinou o corpo para trás e segurou os pés da garota girando-a no ar. Angel caiu no chão com as mãos espalmadas em uma posição de flexão, conseguindo assim impedir que o corpo tocasse o solo, mas um de seus pés ainda estava preso. Usando o impulso que o movimento da queda proporcionou, com o pé que estava livre apoiado no chão, puxou outra cadeira e a jogou contra o Príncipe. Alexis precisou largá-la para se proteger. Aproveitando-se disso ela se libertou e jogou-se no chão, deslizando por baixo dele, dando uma rasteira certeira nas longas pernas do oponente.
Mas novamente ele a surpreendeu. Alexis não se desviou da última cadeira arremessada por ela como havia feito com a anterior, ele a segurou e usando o móvel como apoio evitou a própria queda. Em um movimento tão habilidoso que fez Angel parar para observar atônita, o Príncipe, como se estivesse em câmera lenta, caiu elegantemente sentado sobre a cadeira. Com um sorriso divertido, ele lhe lançou uma piscadela.
Com a raiva renovada, Angel saltou para frente, Alexis saiu da cadeira no mesmo momento e a usou como escudo, mas ela a arrancou dele sem qualquer esforço aparente e com a mesma força surpreendente lançou a bela mobília pela da sala. Dessa vez foi Alexis quem assistiu admirado a pilha de destroços que se formou quando o assento acertou a parede do outro lado de onde eles estavam. E a sala não era nada pequena.
–- Eu não vou ser um brinquedo seu. – Com a respiração pesada ela conseguiu dizer entre dentes, antes de se afastar.
Angel o analisou. Alexis era realmente habilidoso e só estava se defendendo, em nenhum momento tentou qualquer golpe ofensivo. Ainda que fosse um sujeito grande era muito ágil e sua força continha todos os golpes dela. Mas assim como Angel, também mostrava sinais de cansaço, a respiração estava acelerada e pequenas gotas de suor corriam da testa morena pela lateral do rosto, sumindo no colarinho da elegante camisa azul que ele vestia e que graças ao suor colava-se aos músculos rígidos dos braços, peito e barriga. Angel tinha que admitir que era uma visão e tanto, que poderia distrair alguém menos determinada. A garota sorriu internamente diante da ideia que lhe ocorreu. Não tinha muito tempo, sentia que seu coração estava acelerado além do recomendável, tinha que acabar logo com isso ou acabaria desmaiando na frente dele. De novo. Precisava de uma distração.
O motivo de se cobrir como fazia vinha do fato de não gostar de chamar a atenção sobre si e porque não ligava a mínima para a própria aparência. Não era idiota, sabia que era bonita, aliás, mais do que meramente bonita. Estava acostumada com as pessoas ao verem o seu rosto, literalmente, perderem a fala. Aquele tipo de reação a enervava. Quando era criança sua beleza angelical fazia com que as outras meninas a invejassem e atraia a atenção dos adultos e dos meninos. Mas, diante da perspectiva de uma existência curta e preenchida por ódio e desprezo das pessoas que deveriam amá-la, ela não era uma menina normal e nem sociável. Era irritadiça, não queria ninguém por perto (mais pessoas para odiá-la?) e, com o passar do tempo, se tornou cada vez mais reclusa e violenta. As outras crianças incomodadas com seu jeito batiam nela com frequência e por ser muito pequena Angel vivia apanhando.
Tudo mudou quando Hye Kyo, cansada de ver sua menininha toda machucada e percebendo que nada mais poderia fazer, conseguiu um professor de artes marciais particular, que passou a treinar Angel onde quer que ela fosse estudar. Isso sem o conhecimento do avô da garota. Então George descobriu e acabou com os treinos, mas já tinham se passado cinco anos desde o início das aulas. Nesse ponto Angel já era uma excelente lutadora e sem o mestre ela continuou seus estudos por conta própria. E se tornou assustadoramente habilidosa.
Angel evitava se expor, usava seus golpes para manter seu mundo só para si, não permitindo que ninguém se aproximasse. E nunca alguém realmente tentou de qualquer forma. Analisando as atitudes de Alexis percebia que ele não queria fazer parte da sua vida, mas queria, assim como seu avô, determinar seu papel na vida dele, independentemente do que ela pensasse a respeito. Ela não permitiria aquilo. Nem George era capaz de controlá-la totalmente como gostaria, por mais que tentasse. Ela ia cair fora da vida daquele príncipe arrogante naquele exato momento e então poderia seguir em frente. Mais uma escola para conhecer. Mais pessoas para manter longe.
Pensando assim, Angel abriu o zíper do moletom que usava e o tirou. Como, mesmo quando estava quente como naquele dia, usava roupas largas e de mangas longas, por baixo sempre vestia algo mais leve. Naquele momento era uma blusa regata lilás, curta o suficiente para expor a pele clara da cintura fina. O decote oval deixava os seios fartos, bem como partes da renda do sutiã preto, à mostra. Quando ela virou o corpo para o lado a fim de jogar a peça de roupa que havia tirado por cima da mochila que estava no chão, partes de uma tatuagem nas costas ficaram visíveis, na cintura e em um dos ombros.
Ao voltar a encarar Alexis percebeu que seu objetivo havia sido atingido com êxito. Distração. Os olhos turquesa estavam devorando cada parte exposta do seu corpo, sem nenhuma sutileza. Angel não ficou incomodada com a fome daquele olhar, mas sim com a sua própria reação. Era prazer o que circulava por suas veias e fazia seu sangue aquecer. Prazer por saber ser o alvo daquela luxúria indisfarçada. Já havia sido observada daquela forma em um ou outro momento por algum descuido, mas o que fizera seu sangue ferver daquelas outras vezes fora a raiva. Naquele momento, sob o olhar de Alexis, o sentimento era diferente, era algo que não sabia descrever, mas que precisava controlar antes que a dominasse por completo.
–- Então eu estava certo. Não se trata somente de um rostinho bonito – ironizou Alexis com um tom divertido, mas levemente mais grave do que o normal . – Vejo que resolveu usar novas armas na nossa disputa. – Ele percorreu a adversária dos pés a cabeça. – E pode acreditar que está funcionando. Então, se me permite, exibirei as minhas armas também.
Sem esperar por resposta, Alexis começou a desabotoar a camisa. Ela viu que havia uma regata branca por baixo, completamente ensopada e transparente. Cada músculo bem definido do peito largo estava visível, assim como a musculatura firme da barriga. Os braços longos e fortes eram uma obra a parte. Lindos e morenos. Toda a pele tinha um tom dourado típico dos povos do Oriente Médio, o que o tornava exótico e selvagem, da mesma forma que os cabelos negros revoltos e caídos sobre a testa. Os olhos brilhavam como duas turquesas sob os cílios negros. Angel só percebeu que estava completamente absorta pela imagem, se questionando se ele iria ou não tirar a regata, quando o rapaz disse zombeteiro:
–- Podemos voltar com essa coisa de você querer me bater, pois não quer ser o meu brinquedo...? — Ele arqueou uma sobrancelha interrogativamente. — Mas se quiser ficar admirando o material por mais um tempo fique à vontade. Quer que eu me vire para que tenha uma visão completa?
Angel ficou completamente mortificada ao sentir o rosto todo ficar quente. Tinha ruborizado pela primeira vez na vida! Com raiva dele e de si mesma disparou irônica:
–- Desculpe minha surpresa. Mas entenda, não é todo dia que uma garota tem a oportunidade de admirar o corpo de um príncipe árabe todo cheio de pompa e tal. Estou realmente admirada, pois não é que vale a conferida? E já que ofereceu, poderia dar uma voltinha? Estou curiosa para saber se a parte de trás é tão interessante quanto a da frente. Embora não pareça, sou o tipo de garota que tem uma queda por bumbuns masculinos bonitos.
Ela cruzou os braços e inclinou levemente a cabeça para o lado aguardando.
Alexis soltou uma gargalhada.
Angel o amaldiçoou mentalmente, normalmente o infeliz já era uma pintura, rindo e com todo aquele corpo a mostra era de fazer o cérebro de uma garota virar uma massa gelatinosa totalmente imprestável.
–- Mon Anje, você é surpreendente! – Alexis sorriu de forma terna, deixando Angel muito surpresa. Ele era quente como o sol e aquela ternura a fazia se sentir... querida.
Alexis foi se aproximando lentamente.
–- Quando tivermos outra oportunidade atenderei com muito prazer o pedido, mas nesse momento tenho receio pela minha integridade física. Não é uma boa ideia ficar de costas para você. Não sou idiota de subestimá-la a esse ponto.
–- Fico feliz com o reconhecimento, mas devo corrigi-lo quanto ao “outra oportunidade”. – Alexis agora estava apenas a um passo dela, por isso, para sua eterna amargura, precisou erguer, e muito, a cabeça para continuar a encará-lo. – Assim que eu acertar você irei até a direção e humildemente assumirei meu erro. Direi que bati no príncipe e que por isso mereço ser chutada dessa escola imediatamente. Fim da história. Adieu mon ami! – Ela sorriu feliz com seu plano. — Viu, não é um ótimo plano e com um maravilhoso bônus extra? Sabe, acertar essa cara linda.
Angel viu a expressão de Alexis mudar. Ele ficou sério enquanto a analisava pensativamente. Em tom baixo, quase em num sussurro, ele questionou:
–- E se eu quiser que você fique?
–- Eu não vou ficar.
–- Você não vai conseguir a prova de que precisa. Não vou deixar que me acerte. E admita que não é tão fácil quanto imaginava.
–- Você não é o único alvo que me garantiria uma passagem para fora daqui. Temos vários colegas menos preparados do que você, mas tão valiosos para seus pais quanto um príncipe.
–- Vai descobrir que se quiser bater até mesmo no presidente do Conselho e eu disser que foi um engano, então todos dirão que foi apenas um engano.
Angel arregalou os olhos diante das implicações daquelas palavras.
–- Está me dizendo que vai me manter nessa escola, mesmo que eu não queira?
–- Sim. – A frieza havia retornado em sua força total.
–- Primeiro queria que eu sumisse da sua frente, agora quer me manter presa aqui? Que espécie de egocêntrico lunático é você? Quem pensa que é para decidir a minha vida dessa forma?!! – agora Angel gritava furiosa.
Alexis, ainda mantendo uma postura alerta, disse calmamente:
–- Você precisa estudar e a Alpha é a melhor escola do mundo. Não precisa ir atrás do nono colégio para acrescentar ao seu currículo.
–- Você andou me investigando??
–- Não foi difícil descobrir isso. É quase de conhecimento público. – Ele deu de ombros — Então, ficando aqui, além estar na melhor escola teria toda a privacidade que precisa. Não pode negar que conseguiu passar duas semanas sem ser perturbada por ninguém. Nem mesmo pelos vigias ou pela equipe da disciplina, pois se lesse o regulamento da escola saberia que não pode frequentar a área externa às duas da manhã ou as quatro como tem feito tão frequentemente.
–- Você...? Como ousa! Como...!
–- Escute! – Alexis a surpreendeu ao quase gritar. Ela não o tinha visto usar aquele tom antes, se não fosse tão absurdo diria que ele parecia um tanto descontrolado. – Eu não fiquei vigiando os seus passos ou a seguindo para saber o que fazia. Apenas percebi que você gostaria de circular pela escola em horários que a fizesse evitar encontrar outros alunos. Então solicitei que a deixassem frequentar livremente os espaços da escola que de outra forma estariam impedidos. Como os telhados.
Angel estava completamente desnorteada. Não sabia o que a perturbava mais. Ter alguém tão ciente do que ela fazia, dos seus horários e lugares que frequentava ou estar à mercê de um garoto de dezessete anos com tanto poder nas mãos. E aparentemente, tão interessado nela. Como isso era possível?
É verdade que Angel achou estranho a liberdade que tinha na Alpha, nos outros lugares em que estudou precisava ficar fugindo constantemente dos seguranças e professores. Mas como tudo ali era tão diferente das outras escolas, não se ateve muito aquela questão. Mas agora a realidade estava diante de si. Alexis havia sido o responsável por ela não ter tido nenhum contratempo com ninguém da numerosa equipe de funcionários da Alpha. Ela tinha sido tão ingênua!
–- Como eu dizia – Alexis continuou diante do mudo espanto da garota –, aqui terá toda a privacidade que tanto valoriza. E pelo que soube das outras escolas, não terá dificuldade alguma em cumprir a meta estabelecida para não precisar frequentar as aulas. Certamente conseguirá ficar entre os primeiros.
–- Pensei que tivesse dito que eu era apenas uma burra com um vocabulário impróprio. Ah, e um rostinho bonito.
–- Acho que já concordamos quanto as minhas motivações para dizer o que disse. Embora você realmente tenha um problema de vocabulário. – Ele arqueou uma sobrancelha desafiando-a a contradizê-lo. Ela não o fez. – E corrigindo: eu disse que não tinha só um rostinho bonito. O conjunto todo é bem interessante. – Alexis sorriu.
Angel franziu a testa, aquela situação era muito surreal. Já havia ficado bastante surpresa com a franca declaração dele de que estava interessado nela. Não chegou a ser um choque quando foi deixado claro a vontade de vê-la longe. Na verdade isso era algo com o qual já estava acostumada, desde a mais tenra infância. Mas aquela reviravolta a assustava. Alguém a queria por perto a ponto de ameaçar prendê-la contra sua vontade. E não prendê-la em um sanatório ou um internato para afastá-la, como já havia feito seu avô. Não, Alexis queria que ela ficasse presa a ele. Mas por quê?
–- O que houve? O que o fez mudar de ideia? Há duas semanas ficaria muito satisfeito em me ver pelas costas e agora vem com essa campanha do “não vá embora”?
Alexis, pela primeira vez pareceu hesitar, então declarou no seu costumeiro tom baixo e contido:
–- Se eu não superar isso, essas emoções todas, não vejo como serei o rei que pretendo. Não posso apenas afastar os problemas e esperar que eles passem. Devo superá-los. – Seus frios olhos azuis encararam os dela. – De alguma maneira, devo aprender a superar você.
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