Destinados à Payre
40 Mentiras e traições
Notas iniciais
Os olhos dourados admiraram a água cristalina tornar-se rubra graças ao sangue que antes cobria boa parte do seu corpo. O Sentinela havia resistido mais do que imaginara a princípio. O que só tornara seu sabor mais agradável.
O lago dentro da gigantesca sala de banho em que estava era privativo e muito agradável. Khor não gostava da praticidade de entrar em uma máquina para ter a sujeira removida dele. Achava bem mais atraente o contato com o líquido frio contra sua pele normalmente muito quente. Tornava-se ainda mais divertido quando tinha companhia, mas naquele momento queria ficar sozinho. Precisava pensar sobre os estranhos acontecimentos passados.
Ficara sabendo que uma nave suspeita estava circulando entre os reinos de Sylesth e Cylles. E o mais curioso é que essa mesma nave havia se deslocado com destino a Narty, o reino dos Deiroons, mas graças a incompetência dos Darkanos, tinha sido derrubada em meio aos conflitos promovidos pelo Duque de Heil. E por mais que tivesse tentado, não conseguiu nenhuma informação sobre o que estava acontecendo. Quem — ou o que — estava lá dentro?
Por que tinha se deslocando para seu reino logo após lhe enviar a mensagem: “Segue uma pequena amostra do que posso fazer”?
Para tornar tudo ainda mais suspeito, a nave estava completamente desarmada, já que foi ridiculamente fácil invadir seus sistemas. Ao fazerem isso, descobriram que possuía apenas um único passageiro e ele não era de forma alguma um ser poderoso o suficiente para causar qualquer alarde com sua repentina chegada.
E, como se isso não bastasse para causar estranheza, seja lá o que estava sendo encaminhado para ele, não era de Payre. Os vários Deiroons que investigavam a situação foram unanimes em afirmar isso.
Eram muitas as inconsistências daquela situação, no entanto uma coisa foi deixada propositadamente clara: a pessoa que enviou a nave. A voz que emitiu a mensagem era inconfundível.
E era a mesma voz que soou a sua frente, seguida pela imagem holográfica de um homem.
― Imagino que tenha despertado a sua curiosidade, Majestade.
Khor sorriu levemente. Havia permitido aquela intromissão, contudo ficou decididamente admirado com os talentos do outro. Tinha deixado sua equipe de comunicação de sobreaviso para permitir o contato daquele que se mostrava cada vez mais notável aos seus olhos, mas ele tinha ido além das permissões dadas. O responsável por todo aquele mistério estava usando um comunicador pessoal do próprio Khor e ao qual raríssimas pessoas possuíam acesso, e nem mesmo tinha dado tempo para seus soldados o avisarem disso. Se é que eles haviam notado. Ele era decididamente alguém capaz de roubar uma nave bem debaixo do nariz dos Reis Eiffs.
― Mas até que ponto? – Com a cabeça recostada em uma pedra e braços apoiados nas rochas sob a água, Khor manteve sua postura relaxada. – Como deve saber, houve alguns problemas com a chegada da sua “amostra”. Meio decepcionante para alguém que pretendia me impressionar, não?
― Realmente. Não contava com tamanha estupidez dos seus aliados.
Khor arqueou uma sobrancelha diante da ousadia. Já havia reparado naquela coragem no primeiro contato que tiveram. Tinha considerado a atitude meramente frívola, contudo, diante de novas perspectivas, passou a vê-la de outra forma. A coragem era uma ótima aliada. Homens poderosos e inteligentes morriam tão rapidamente quanto os mais fracos e tolos, graças a ela. O Rei Serine e o Rei Alicano eram excelentes exemplos disso.
Assim como os pais daquele pequeno corajoso.
― Tem razão. Eles são um tanto obtusos às vezes. Mas entenda, eu tenho esse destino lamentável, estou sempre cercado por pessoas tolas, traidoras e – seu sorriso foi ferino – cheias de uma estupida autoconfiança. Acham que podem trair seu reino, seus aliados, sem serem descobertas. No fim, acabam mortas por seus próprios Reis, fracos e indignos.
Khor notou o brilho frio nos olhos do outro. A mensagem havia sido passada com sucesso.
― Então sua Majestade realmente necessita de meus serviços.
O Rei Deiroon gostou ainda mais do sujeito. Ele era divertido. Seria uma pena quando tivesse que matá-lo.
― E o que pode me oferecer? Eu sei o que não pode. A cabeça de Erak e de Syka. Ah, e nem mesmo uma nave vazia.
― Ela não estava vazia. Havia um Humano dentro.
Khor se afastou um pouco da borda e seus olhos se estreitaram.
― Um Humano? Em Payre?
― Sim. E não existe apenas um. São seis.
Ele não conseguia entender aquilo. A Lenda dos Três Deuses possuia diversas versões, onde em cada um delas papéis e situações se invertiam, porém, o único ponto em comum entre todas era a existência de uma raça que já não vivia mais em Payre. Há mais de duzentos mil anos, quando a Deusa Ashy deixou aquele planeta, abandonando e traindo seus irmãos, levou consigo apenas aqueles seres. Os Humanos.
― Sei que não faz sentido, já que nunca foi comprovada a existência de um planeta chamado Terra. Acredito que vocês também buscaram pistas deles pelo universo.
Sim, tinham procurado. Khor queria a comprovação do máximo possível de informações sobre as histórias contadas pelos Serines. A existência de uma raça que tinha sido levada para viver em um planeta só para si e que contava com quatro Humanos portadores da essência da própria Deusa Ashy era sem dúvida digna de investigação. Mas, depois de tanto tempo sem qualquer indicação de vida além da existente em Payre, Khor supôs que eles eram apenas mais uma das muitas mentiras contadas pelos Serines.
― Vamos imaginar que esteja falando a verdade. O que eles estão fazendo aqui?
― Simples. Vieram para matá-lo.
E a conversa ficava cada vez mais intrigante.
― Que honra. – saindo lentamente da água, exibindo com naturalidade seu corpo longo e dourado, Khor questionou, enquanto uma leve brisa o rodeava, fruto do poder invocado para secá-lo: – Essa sua história é bem divertida, mas, entenda que, depois de ter sido preso por duzentos anos, e ter visto meu exército ser explodido por um inconveniente rei, me tornei um tanto cético. Assim, espera mesmo que eu acredite em tudo isso que tão prestativamente está me contando? Não seria de todo estranho imaginar que é apenas uma ridícula e infantil vingança, afinal, seus pais não terminaram muito bem quando se aliaram a mim.
― Aliar-se a você não foi a causa da morte deles. Servir a um Rei tolo os levou a isso. – a expressão grave não se alterou em nada – Além disso, não sou eles. A única coisa que temos em comum é a inconformidade com a situação do nosso povo.
Khor achou muito reveladora aquela atitude. Significava que ele poderia ser mais útil como possível aliado do que seus ingênuos progenitores haviam sido há alguns anos.
― Ótimo. Mas, como já lhe disse em outro momento, meu tempo é precioso. Tenho uma guerra para vencer. Então, que provas é capaz de me dar sobre tudo o que está me revelando?
― Eu posso lhe enviar um Humano.
Khor, enquanto cobria-se apenas com um leve tecido branco, amarrando-o em sua cintura, soltou uma gargalhada.
― Como fez da última vez?
Quase riu novamente diante do olhar ofendido do homem. Afinal ele não era tão impassível quanto procurava fazê-lo pensar. Havia um forte temperamento sob aquele controle frio. Khor não estava acostumado com os outros interagindo daquela forma com ele. Geralmente as pessoas ficavam trêmulas e tensas em sua presença, mesmo aquelas que se deslumbravam com a sua aparência dourada. Possivelmente porque ele costumava devorar incontáveis seres diariamente, especialmente quem o irritava. Ou quem o atraía demais. Enfim. Então havia cogitado ser um senso de coragem quase autodestrutiva o que levava aquele traidor, filho de pais traidores, a encará-lo com tamanha bravura. Mas depois daquela conversa tinha mudado de ideia. Não era a ignorância ou a audácia que o movia. Era o orgulho.
Estava irremediavelmente interessado naquele sujeito. Por isso, deixou-o continuar a falar.
― Admito que fui precipitado em minhas ações anteriores, agarrei a oportunidade assim que ela surgiu sem contar com as possíveis variáveis. Agora será diferente, já que os meus planos dessa vez foram cuidadosamente traçados. Não haverá erro.
O Rei Deiroon admirou aquela luz no olhar sério do seu interlocutor. Lá estava o orgulho brilhando intensamente. Era uma questão muito importante para ele mostrar que podia cumprir com sua palavra. Provar que era capaz. Aproveitando-se disso, resolveu ir além:
― Se está tão confiante, me mande dois Humanos.
Ele viu a hesitação surgir, mas logo foi descartada pelas palavras seguintes:
― Certo. Dois Humanos. – o rosto do holograma se abriu em um inesperado meio sorriso. – Mas precisarei que me consiga algo, então.
Uma curiosidade o tomou, tão estranha a ele quanto a falta de sua usual impaciência:
― E o que seria esse algo?
― O seu espião, conhecido atualmente como Princesa Tarany.
Nunca Khor havia ficado tão impressionado como naquele momento. O sujeito não era movido apenas a orgulho. Além de muito inteligente, era claramente bem informado. De que forma ele havia conseguido tal informação? Só havia duas maneiras, e em qualquer uma delas ele teria que ser uma pessoa com acesso a fontes extremamente perigosas. Uma era estando no alto escalão do seu exército, algo impossível. Outra, estando no alto escalão do exército inimigo. O que era surpreendente, afinal, como seus Reis haviam permitido isso depois de terem matado os pais daquele individuo por traição? Que Realeza mais idiota. Chegava a ser humilhante estar em guerra há tanto tempo contra governantes com aquele nível de inteligência.
Apesar da situação insólita, aquele poderia ser o aliado mais útil que Khor que já conseguira em sua longa jornada ao poder. Assim, antes de dar às costas a imagem projetada pelo comunicador, aquiesceu:
― Ele será informado sobre nosso contato e estará a sua disposição. Imagino que saiba onde encontrá-lo.
***
Ele ficou assistindo o Rei Deiroon afastar-se. Quando o assustador homem estava longe, encerrou a comunicação e respirou fundo, observando com desgosto suas mãos esbranquiçadas, tamanha força impusera para mantê-las firmes durante aquele contato.
Mesmo ciente de que Khor não poderia atingi-lo de maneira real através do comunicador, não foi possível controlar sua tensão ante o poder absoluto e esmagador, impressionante mesmo em uma situação como aquela, quando nem sequer estavam realmente no mesmo lugar.
Ainda assim, tinha conseguido passar a segurança necessária para atrair a atenção dele e convencê-lo do quão útil poderia ser naquela guerra sem fim. Sabia que era um risco, quanto mais exibisse a importância do papel que desempenhava do outro lado, mais Khor veria a necessidade de eliminá-lo na primeira oportunidade. Ele estava preparado para isso. Não seria tolo como seus pais, ou como seu tio. Não deixaria que sua raça servisse a outras, ficando a mercê dos caprichos dos mais fortes.
Sua missão envolvia inúmeros riscos, mas o maior deles era jamais permitir que Khor, ou qualquer outro Rei, soubesse das suas verdadeiras intenções com aquela aliança, isso seria o fim do seu povo e do mundo que descobriu existir fora das lendas. A Terra.
***
Estava quente. Não quente como naqueles dias em que a temperatura se tornava sufocante e tudo que mais se desejava era um ar condicionado ou uma piscina e uma bebida bem gelada. Não, era mais como ser queimado vivo. Sentir tanta dor que já não era possível controlar os movimentos do próprio corpo, uma vez que ele buscava de forma automática livrar-se daquele sofrimento, desvencilhar-se da pele que ardia, arrancando-a com as próprias mãos em pura agonia.
Era um calor que não se limitava ao externo, pois todos os órgãos pareciam prestes a explodir, afinal, não era possível resistirem àquelas chamas que invadiam e devoravam impiedosamente, deixando-o desejando que a morte o salvasse daquele pesadelo vermelho. A morte tinha a cor vermelha e cheirava a carne queimada. A sua própria carne queimada.
Ren abriu os olhos, despertando de mais um sonho. Estava vivo, mas ainda sentia o cheiro pungente em suas narinas. Uma lágrima correu por seus olhos e os fechou com força, limpando-a com violência. Estava vivo, mas ainda se encontrava naquele pesadelo, não o das chamas, e sim aquele em que tinha acordado fora da Terra e não poderia voltar para casa.
Agora compreendia que não era um sonho, uma ilusão ou uma mentira. Já sabia disso antes, essa havia sido a motivação que o fez fugir tão desesperadamente, mas nunca teria imaginado que estava preso não apenas em um palácio, ou por seres alienígenas. Estava preso em Payre.
Sentindo ainda uma forte opressão em seu peito, relembrou seu desespero durante a fuga. Depois de algum tempo de viagem, estranhou o fato da nave não dar qualquer indicação de ir para o espaço. Com o conhecimento de pilotagem que haviam inserido em sua cabeça, mexeu nos comandos e tentou descobrir para onde estava indo. Não conseguiu resposta para essa pergunta, mas soube que não era para a Terra. O sistema sequer a reconhecia como um planeta existente, para a AI-6, Terra era apenas uma palavra chave que a ligava e iniciava um comando previamente estabelecido. Por isso, quando solicitou que fosse levado pra lá, a nave iniciou seu trajeto, mas não para o lugar que queria. Tinha sido ludibriado por alguém que tinha previsto as suas intenções.
Desesperadamente examinou as informações sobre os planetas existentes próximos de Payre, todos eram completamente estranhos a ele. Quando procurou mais a fundo, encontrou inúmeras pesquisas sobre a Terra, mas todas inconclusivas. Cada vez mais surpreso descobriu que os payreanos não tinham ideia de onde ficava a Terra, chegaram a considerá-la por muitos anos como mero fruto da imaginação dos Serines. Algumas raças ainda pensavam dessa maneira.
Chocado, Ren percebeu que tinham mentido quando prometeram que voltariam para casa quando, e se, vencessem aquela guerra. Afinal, nem mesmo conheciam uma forma de fazer isso.
Eles não sabiam como levá-los de volta.
O que poderia fazer? Fugir novamente já não era uma opção. Seria inútil. Teria que, assim como os outros, aceitar lutar aquela guerra por uma falsa liberdade? Mas adiantaria, já que tinha a prova de que os Reis não poderiam cumprir a promessa feita a eles?
Que outras alternativas tinha? Fugir. Morrer. Ficar. Morrer.
Abrindo os olhos novamente, Ren notou que estava na Cápsula de Cura. Ela se encontrava fechada, mantendo-o como em um esquife de cristal. Nas primeiras vezes em que tinha estado naquela situação, uma claustrofobia desconhecida o tinha assaltado de maneira perturbadora, mas passado tanto tempo, tendo sido curado um número absurdo de vezes, já não se afligia mais. E naquele momento em particular, chegava a ser reconfortante o silêncio e o isolamento proporcionado pelo equipamento.
Precisava daquele tempo para pensar, para ponderar o que fazer com as informações que tinha, e também, para tirar de sua cabeça o momento em havia sido queimado vivo. Pela segunda vez.
Quando a nave em que estava caiu, Ren não soube como reagir, apenas se jogou sobre uma poltrona e aguardou pela morte certa. Porém, para sua surpresa, uma proteção envolveu o lugar em que sentava e enquanto assistia a queda, os danos causados pelo impacto, percebeu que nada o afetava. Mas tudo mudou quando uma das paredes praticamente explodiu, lançando-o longe. Só então perdeu a consciência.
Ao acordar, estava cercado por um grupo de Darkanos e sua primeira reação foi atacar. Eles tinham como principal arma o fogo, por isso fez uso do elemento água, que foi bastante eficiente para sua defesa, porém não servia como ataque, já que eles conseguiam evitar seus golpes se teleportando com uma velocidade impossível de acompanhar. Em dado momento, porém, notando que eles não chegavam a investir força máxima, provavelmente por não compreenderem o que ele era, e querendo capturá-lo vivo, Ren pegou-os de surpresa ao ser mais rápido do que esperavam e conseguiu atingir em cheio um deles. Tinha aprendido com Zaffar, após a vergonhosa derrota para a princesa indiana, a controlar a temperatura da água e também seu estado físico, por isso, tendo sido fortalecido pelo sangue dos Reis de Cylles um pouco antes, foi capaz de congelar dois Darkanos. Um se libertou com a ajuda do companheiro, mas o outro, após receber um potente chute de Ren, transformou-se instantaneamente em pedaços minusculos de gelo.
A partir desse instante, as coisas se complicaram. Ren se tornou uma ameaça real, portanto, não mais pouparam esforços contra ele. Mal conseguiu fazer algo além de proteger-se do fogo lançado de todas as direções e de forma incessante. Quando sentiu que já não havia mais energia, e que seria seu fim, as chamas passaram a devorá-lo. Como da vez em que lutara contra Lali, porém era ainda pior, pois apesar de o golpe ser dado por ela, o fogo tinha sido produzido por ele, então seu corpo, de alguma maneira, conseguiu evitar danos mais graves. Mas contra os Deiroons não foi assim.
Apertou as mãos que passaram a tremer diante das memórias guardadas em sua mente, e em cada célula do seu corpo recém curado. Jamais seria capaz de esquecer-se da experiência que passou naquela nave. Esboçando um leve sorriso cheio de amargura, Ren lembrou a si mesmo o quanto era excepcional em lidar com lembranças difíceis. Tinha certeza de que iria superar aquilo e, quem sabe, até viesse a usar em seu favor. Como fizera com o episódio do pai.
― Vejo que está acordado.
Ren virou a cabeça. O curador Falki estava ao seu lado.
― Vou tirá-lo da Cápsula, já que está totalmente recuperado. Mas precisaremos fazer alguns testes ainda. – continuou o Eiff diante do silêncio dele.
Quando o lado superior abriu-se e Ren, com certo cuidado, sentou-se, percebeu que além do Curador Falki, outro Eiff estava na sala. Era a Sentinela que havia ludibriado em Cylles para conseguir fugir.
Ela estava absolutamente imóvel a uns dois metros de onde ele se encontrava, sua postura rígida se mostrava também nos olhos em tom rosado. Ali havia tanta dureza que Ren imaginou o quanto ela devia estar puta com ele. Bem, paciência, a soldadinho teria que entrar na fila das pessoas que desgostavam dele, e já ia logo avisando que era uma fila bem longa.
Enquanto o Curador o monitorava, o rapaz resolveu puxar conversa com a alienígena mal humorada.
― Ei, minha linda, o que está fazendo em Sylesth?
Como estava sendo cuidado pelo chefe dos Curadores do palácio Alirini, Ren logo supôs que não estavam mais em Cylles. Então, o que aquela mulher estava fazendo ali?
A Sentinela não desviou o olhar da janela que estivera fitando de forma quase obsessiva, provavelmente para deixar claro que o estava ignorando. Mas, sendo Falki totalmente desligado como no que se referia as questões de clima entre as pessoas, fossem esses tensos ou festivos, respondeu por ela:
― Foi indicado pelos Reis Eiffs, como desculpa pelos grandes problemas que tiveram em Cylles, que Vishal participasse da missão. Ela será sua... protetora.
Ren arqueou a sobrancelha, voltando a encarar a tal Vishal. Vendo pela primeira vez uma reação no rosto duro, um leve franzir dos lábios em claro desgosto, Ren soltou uma gargalhada. Após conseguir controlar o riso, a provocou:
― Então, como punição por não ter feito um bom trabalhado como guarda, vai ser minha vigia pessoal?
Mais uma reação da Eiff. Seus olhos brilharam e chispas de raiva soltaram deles, porém, ainda assim, ela manteve sua postura militar: pernas levemente afastadas, braços para trás do corpo e rosto virado para o outro lado. Aquele jeito tão intocável lhe acendia ainda mais a vontade de importuná-la. Uma pena que o outro Eiff resolveu intervir:
― Está entendendo errado, Ren. Vishal foi escolhida para protegê-lo exatamente por ter sido capaz de resgatá-lo dos Darkanos. Dos três Sentinelas que foram mandados para a missão, apenas ela retornou.
― E dos mais de cem soldados Eiffs.
A voz que se manifestou lhe soou familiar. Tinha sido uma surpresa para Ren notar que uma mulher tão masculinizada possuía aquele tom rouco, inegavelmente sensual. Uma sensação estranha passou por ele ao escutá-la, mas não apenas por sua voz, nem mesmo pela frieza contida nela. Foi a compreensão de que ela não tinha dito aquilo para se gabar do quanto era fodona, mas sim, para esfregar em sua cara quantos havia morrido para salvá-lo.
Irritado com a franca acusação que havia nas palavras da Sentinela, respondeu no mesmo tom:
― Eu pedi para ser salvo? Fui eu quem fez isso? Ou foram os Reis de vocês, por julgarem que minha vida vale mais do que a dos seus soldados? – ele riu cheio de sarcasmo. – Não venha me acusar de ser culpado pela morte de quem quer que seja. Culpe seus Reis, seus Deuses, essa Profecia que tão cegamente seguem. Eu sou apenas uma peça nessa história, tanto ou mais do que vocês.
O silêncio predominou após a manifestação de Ren. O Curador Falki apenas murmurou algo antes de se retirar, não parecendo exatamente afetado pela explosão do Humano, afinal, ele já estava acostumado com seu temperamento. Já Vishal soltou um “covarde” entre dentes antes de deixá-lo sozinho.
***
Angel olhou com desconfiança para a Rainha Syka.
― Se é tão simples, por que não faz primeiro? Sei que é a Rainha toda poderosa e blábláblá, mas sério, eu fico meio desconfiada da existência de tanto poder, quando tudo que a vi fazer até hoje foi redecorar uma sala depois que ela foi destruída.
― Também não conseguiu me acertar com nenhuma de suas adagas em nosso treinamento, está lembrada? – havia um claro divertimento no tom de Syka.
A pupila fez um gesto de pouco caso com a mão.
― Ok. Você é bem rápida. Mas e quanto aos tais poderes que tem? O controle dos elementos, por exemplo.
― Ah. Isso?
Syka não se moveu, não ergueu sequer um dedo, mas enormes chamas a cobriram como se fosse um tornado, do chão em direção ao teto, cada vez mais rápido, até que no topo se juntaram no que parecia uma enorme bola, a princípio do que pareceu ser lava, mas logo transformou-se em pedra. Então metal. Por fim, gelo! Ela explodiu tão subitamente que Angel ergueu o braço para se proteger dos detritos, mas quando algo frio e suave tocou seu braço, percebeu que delicados flocos de neve caiam sobre ela. Ao olhar a sua volta, reparou que a sala toda estava coberta pela mesma brilhante neve.
Em meio aquele cenário lindo, a Rainha Nerini erguia suas mãos e como uma fada do gelo, criava formas diversas no ar.
Certo. A coisa toda era muito bacana, só que, qual seria o uso daquilo na prática em uma batalha?
― Muito interessante. Mas, vem cá, Rainha Elsa, onde estão os golpes? Devo jogar neve nos meus inimigos e aguardar que até eles morram de frio? Ou peguem um resfriado?
Syka não respondeu, apenas sorriu de leve. Mesmo depois de um mês treinando com ela, e sendo torturada constantemente por aquelas expressões angelicais, Angel não tinha desenvolvido imunidade suficiente contra aquele açúcar todo. Por isso, não conteve uma careta, que se transformou em espanto logo em seguida.
Uma das formas que a Rainha estava esculpindo, se transformou em uma ave de pelo menos uns três metros de altura. E ela mal tinha concluído sua obra, a ave já voava velozmente na direção de Angel. Soltando fogo pela boca!
Uma ave de gelo que cuspia fogo!
― Está na hora de aprender a controlar alguns elementos, minha querida pupila.
Flexionando os dedos e se preparando para saltar, Angel pensou que finalmente teria um pouco de diversão com sua Mestra. E, para sua maior alegria, sem a intervenção de Alexis, pois assim como os outros, ele também estava treinando com seu Mestre. Um Erak que parecia ainda mais mal humorado do que o normal. Era gratificante imaginá-lo penando com seu adorável irmãozinho.
***
Um dia depois dos exaustivos — e gratificantes — momentos com a Rainha Nerini, Angel estava na sala de simulação praticando o que havia aprendido. Sem dúvida alguma, arremessar facas que podiam se tornar verdadeiras granadas de fogo ou de gelo era muito legal. Por que ela não tinha lhe passado antes aquile conhecimento? Agora não precisava mais invejar a galera que ficava lançando fogo e etcetera para todos os lados.
― Parece meio entediante essa sua brincadeira de criança. Que tal torná-la um pouco mais... atraente?
Surpresa, Angel virou-se para Noor. A Vaquinha Azul de Porcelana a observava da entrada da sala, cheia de superioridade.
― E como seria isso?
A Oberoh caminhou, ou melhor, desfilou lentamente em sua direção. Angel até deu uma distraída olhada para os lados. Para quem aquela criatura achava que estava se exibindo?
― Eu posso desafiá-la para uma luta. – então, surgiu uma expressão de preocupação tão falsa que se estivessem na Terra viria com um selo made in china. – É claro que talvez não esteja preparada para me enfrentar, não queremos mais um Humano no Centro de Cura. Mal Ren saiu de lá, Mona já ocupou seu lugar. – uma daquelas mãos delicadas se ergueu e bagunçou sensualmente parte dos cachos perfeitos e azulados, enquanto balançava a cabeça, a imagem da inconformidade. – Como vocês Humanos podem ser tão frágeis?
Por curiosidade, Angel perguntou:
― O que aconteceu com a Mona?
Noor soltou uma risadinha que rivalizou com o sorriso gentil de Syka em nível de irritância.
― Estávamos treinado, mas ela não foi muito feliz ao me enfrentar. A pobrezinha insistiu que se sentia preparada para isso. Uma pena que não foi bem assim.
Ah. Ali estava uma provocação nada velada.
― Que ótimo para nós duas que eu não sou a Mona, não é mesmo? Podemos começar agora ou tem que, sei lá, vestir uma roupa? Desculpe, trocar de roupa. Eu me confundo às vezes com esse monte de idiomas novos na minha cabeça.
Noor ergueu um lado dos lábios carnudos, avaliando-a de cima a baixo. Não como uma rival em uma luta, mas sim como uma rival mulher. Angel não ficou animada com o brilho divertido que tomou aqueles olhos de vidro. Por que o gênero feminino, em Payre ou na Terra, tinha aquele péssimo hábito de desdenhar seus dotes físicos? Poxa vida, ela era mignon. Algumas pessoas achavam isso fofo, porra! Pelo visto Noor não era uma dessas pessoas.
― É compreensível. Deve ser difícil lidar com um homem como o Príncipe com esse corpo de menina. – mais uma risadinha. – Cá entre nós, mulheres. Somos tão inseguras que adoramos criticar as outras quando nos sentimos ameaçadas, não é mesmo? Acho que é tão natural que isso acontece em qualquer mundo.
Fumegando de raiva, Angel fez surgir uma adaga em cada mão.
― Tem razão. Outra coisa que acontece em qualquer mundo são as vadias que ficam dando em cima dos homens das outras, não acha? Nesse ponto eu gosto mais de Payre. Na Terra, se eu furasse os olhos de uma dessas invejosas, isso seria chamado de “crime”. Aqui? Aqui se chama “treino”.
Assim dizendo, ela foi pra cima de Noor.
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