Destinados à Payre

41 Laços de amor e de ódio


Notas iniciais
Oiii, olha eu aqui, mais rápido do imaginava!! Boa leitura!

― Quem é Tanu?

Ao ouvir aquele nome que buscava tanto esquecer, Lali sentiu seu coração dar um pulo. Ainda assim, conseguiu controlar-se ao perguntar:

― Onde ouviu isso?

Os olhos arroxeados de Zafy perderam um pouco de sua alegria e tornaram-se mais suaves:

― Você o disse várias vezes enquanto dormia.

Aquilo não era difícil de imaginar. Podia até controlar sua mente quando estava consciente, e mesmo nesse caso não com a eficiência que gostaria, então não era surpreendente que Tanu invadisse os seus sonhos, afinal, ela estava sempre neles, mesmo antes de Payre. Ela sempre havia sido o seu maior e mais querido sonho.

Tinha sido separada dela um pouco antes de entrar na Alpha, mas ainda conseguiam manter algum contato, e sempre aproveitavam para consolar uma a outra lembrando que haveria um tempo próximo em que logo estariam juntas. Para sempre. Por isso a dor de tê-la perdido de forma tão súbita e praticamente irreversível se tornara quase insuportável. E não sentia que estava preparada para lidar com aquele nível de sofrimento ainda. Talvez nunca chegasse esse momento.

Mas antes que pudesse esboçar alguma reação, Zafy comentou:

― Eu sei como é sentir a falta de alguém. – A Eiff sentou-se na areia branca ao seu lado e pegou um punhado dela, deixando-a escorrer lentamente entre seus dedos. – Mas com o tempo consegui... aceitar.

Lali e Zafy tinham passado algumas horas treinando. A garota humana já dominava totalmente o chicote de Dari e até mesmo fora capaz de aprender algumas habilidades relacionadas a cura. Sendo uma Curadora excepcional, Zafy a ensinou como usar o chicote não apenas para ferir, mas também para curar ferimentos leves e reestabelecer sua energia, roubando a do seu adversário.

Como gostava muito daquele cenário de tranquilidade criado pelo simulador – formado pelo mar, uma imensidão de areia brilhante e pela brisa suave –, geralmente era onde as duas passavam as horas de treinamentos. Zafy parecia também apreciar aquele lugar, assim como as conversas que mantinham após os exaustivos treinos. Elas conversavam sobre tudo: os costumes de Payre, os reinos, a guerra. Mas jamais qualquer assunto referente a vida de Lali na Terra foi abordado por qualquer uma delas. Então a garota não sabia exatamente como reagir, por isso apenas permaneceu observando as ondas em tom de azul profundo, enquanto Zafy continuou a falar:

― Há vinte anos perdi meus pais. – Seu tom era baixo, quase um murmúrio. – Eles foram poderosos Sentinelas da Guarda Real de Cylles. Quando o exército de Khor invadiu a terra onde nasci, eles tentaram protegê-la. Os Reis Eiffs e sua Guarda foram para a batalha quando perceberam que não haveria chance de vitória, então tudo o que poderiam fazer era salvar o máximo possível de vidas antes da chegada de Khor. Como deve saber, conseguiram, mas muitos Eiffs morreram. Meu pai e minha mãe, assim como Vishal e a mãe dela, foram os Sentinelas que ficaram para que o restante pudesse escapar. Para que o Rei Melkor pudesse cumprir seu destino.

― Você não participou dessa guerra? – Lali perguntou baixinho.

― Não. Eu estava em Sylesth, me preparando para ser uma Guardiã. Então há anos não ia para casa. Meu irmão também estava aqui, mas quando o Rei Melkor e a Rainha Syka foram para a batalha, ele também foi às escondidas. A diferença é que Zaff sobreviveu, graças aos nossos Reis que o trouxeram pra cá. Ele nunca se perdoou por isso. Desde então se dedicou ao máximo em seu treinamento de Guardião, apesar do seu jeito irresponsável. Acho que quer continuar o trabalho dos nossos pais, proteger Payre da maldade de Khor.

Lali virou-se para a Mestra, analisando-a com simpatia. Tinha gostado dela logo no primeiro contato que tiveram. Seu sorriso caloroso, seus olhos sempre brilhantes e suas palavras animadas lembravam de certa maneira Choi. Era engraçado como Lali, que nunca tivera muita afinidade com pessoas com aquele temperamento extrovertido, em Payre, eram as que mais a atraiam.

Tanu, por exemplo, possuía uma seriedade quase engraçada. Seus olhos negros profundos dificilmente exibiam qualquer outra expressão que não fosse a eterna sobriedade. Exceto quando estavam sozinhas. Então se tornavam suaves e amorosos. E seus lábios distendiam-se em sorrisos lindos, e, talvez porque fossem tão raros, Lali os considerava os mais especiais do mundo.

Seus olhos arderam com a adorável lembrança. Discretamente tentou secar com a mão uma lágrima furtiva que escorreu de um deles.

― Você não precisa se conter, Lali.

― Preciso, sim.

Percebeu a compreensão surgir no rosto da Eiff.

― Acha que voltará a se perder em dor, como quando chegou aqui?

― Sim – não havia porque negar.

Sentiu a mão da Mestra tocar as suas, desfazendo o aperto dolorido que nem sequer tinha notado que fazia.

― Você não vai.

A certeza absoluta contida naquela afirmação fez com que Lali encarasse Zafy, seus olhos se perdendo nos belos e exóticos da outra, que continuou:

― Lali, você se tornou forte. Não apenas fisicamente, mas sua alma e sua mente possuem uma força que sequer compreende que tem. E já existia isso dentro de você, apenas conseguiu desenvolvê-las melhor. Lembrar não vai destrui-la. Esquecer as pessoas que ama e que estão na Terra é que vai, afinal, eles é que são a sua motivação maior, são eles que a tornaram essa guerreira que consegue manter tanta doçura dentro de si. Seu maior poder é o amor que tem pelos outros.

― Sinto que aqui essa é a minha maior fraqueza. – Lali resolveu ser honesta ao transmitir seus pensamentos. – Como sentimentos como esse podem servir de algo em uma guerra como essa em que estamos? Tudo que fazemos é ficar mais forte para poder matar!

― Está errada, Lali. Todos nós ficamos mais fortes para poder salvar.

― À custa do que? De outras vidas! Como isso pode ser salvar? Como isso pode ser certo?

― Não existe certo e errado em uma guerra. Mas existe esperança. Esperança de que, no final, os mais poderosos, aqueles que sobreviverão a tudo isso, sejam aqueles que pensem que sua força é para proteger e não para matar. E nesse caso, eu estou depositando as minhas esperanças em você. Que seu amor nos salve, minha doce Humana.

Sua garganta se fechou e as antes impensáveis lágrimas, correram livremente pelo seu rosto.

― Por isso – Zafy agora sorria ternamente –, continue a pensar neles, a lembrar de quem você é. Mesmo que nunca mais os veja, não esqueça o que aprendeu com sua família. Lembre-se que o amor existe e é lindo, e que ele precisa ser maior que tudo isso. Maior do que a escuridão, e maior do que a dor.

Sem se preocupar mais em se conter, Lali abraçou-se a Zafy, enquanto soluços sacudiam o seu corpo. A Mestra alisou com carinho a cabeça de sua protegida, fazendo-a se sentir pela primeira vez desde que chegara em Payre, em paz.

***

Ele observou-a adormecida. Sabia que ela não tinha consciência da sua presença ali, e apenas por isso estava ao seu lado. Embora soubesse que o mais sensato seria dar logo o fora dali.

Mas algumas dúvidas estavam o atormentando já há alguns dias e não sabia se seus pensamentos eram lógicos ou apenas tomados pela loucura dos sentimentos que sempre nutrira pela garota.

Alguém realmente podia mudar? E tão rapidamente? Será que isso poderia ser possível graças a situação impar a que foram submetidos? Afinal, o comportamento deles ao chegarem naquele mundo mostrou que eram capazes, sim, cometer as coisas mais absurdas. Suicídio. Auto flagelação.

O que não o deixava ter certeza dessa mudança foi a atitude dela quando se encontraram em Payre pela primeira vez. Não saía da cabeça de Choi o desprezo pela vida do irmão e dos outros que Mona expressara de forma tão evidente. Mas isso não poderia também ser efeito do choque?

Sendo honesto, ao saber dos outros, quando perguntou sobre eles, não foi mais intenso o alívio por saber que não estava sozinho naquele mundo do que a preocupação pela segurança deles? De que maneira isso era diferente da reação dela?

Sabia que a razão maior veio junto com eles da Terra. A frieza com que Mona tinha arquitetado ao lado do irmão aquele episódio no Baile. Uma garota que usava algo tão grave e tão triste sobre outra pessoa como meio para realizar uma vingança fútil, não poderia ser a Monalisa que tanto idealizara.

Mas e a garota que assumira responsabilidade sobre isso diante de todos? A mesma que havia enfrentado a própria Mestra quando essa acusou o irmão dela de ser um Humano desprezível e covarde?

Choi estava chegando na sala de simulação com Esan quando ouviu a discussão das duas. Na verdade, até concordava com as palavras da Oberoh, porém sua grande surpresa foi a reação de Mona.

― Sei que nos considera criaturas detestáveis que infelizmente precisa tolerar. Só que eu gostaria de ver se ainda se sentiria tão superior se fosse mandada, sem qualquer aviso, para outro mundo, com o único objetivo de lutar uma guerra que não é sua, para proteger pessoas que você não sente nada além de desprezo, enquanto não sabe o que está acontecendo com as pessoas que realmente ama e que não tem ideia se voltará a ver um dia! – o olhar dourado parecia ouro derretido. – O que você faria? Hein? Eu nem preciso imaginar muito, levando em conta a forma como trata aqueles que vieram aqui para fazer exatamente isso!

Choi estava tão impressionado, que mal percebeu quando Noor desafiou-a a provar que não era a inútil que a acusava ser. Claro que a garota não teve chance, embora tivesse se esforçado muito. Contudo, a Mestra não a estava treinando naquele momento, estava lhe dando uma lição por confrontá-la com verdades inegáveis. Esan também percebeu isso, e foi por esse motivo que interviu na luta. E só por isso Mona não saiu ainda mais ferida.

Voltando a fitar aquela que era uma verdadeira incógnita para ele, percebeu consternado que os olhos dourados o observavam atentamente.

― O que está fazendo aqui?

Pego de surpresa pela pergunta tão direta, tentou enrolar:

― Vim dar uma revisada em, hum, algumas coisas. Achei que tinha, sei lá, quebrado o dedo – ele admirou o próprio polegar, movendo-o com cuidado excessivo, enquanto observava de esguelha a reação da garota.

― Mesmo? Então por que está ao meu lado nesse momento?

Ótima pergunta. Muito boa na verdade.

― Bem, estava passando e vi que tinha alguém ferido, então como sou um sujeito bem curioso me aproximei para dar uma conferida...

― Interessante. Sabe que esteve por uns bons minutos me olhando fixamente, não é?

Ah, saco. Mania idiota de ficar viajando sem nem se dar conta disso. Ok, hora de ser franco também.

― Tudo bem, esqueça esse amontoado de mentiras. – após uma certa hesitação, esclareceu — Eu estava na sala com o Esan quando você e a Noor começaram a discutir. Você já estava quase inconsciente quando ele se meteu na disputa. E eu a trouxe para o Centro de Cura. – Vendo a expressão confusa dela, acrescentou rapidamente — Esan queria falar a sós com a Noor.

― Quanto tempo faz isso?

Cara, ela era a realmente um fenômeno em fazer as perguntas mais certeiras.

― Uma, talvez duas... ou seriam cinco horas? Bem, não estou muito certo, sabe.

Os lindos olhos dourados se alargaram em surpresa.

― E você esteve todo esse tempo aqui?

― Esan ainda não voltou, então, sim.

Mentira. Esan tinha vindo atrás dele após alguns minutos, mas Choi pediu que adiassem o treinamento por algum tempo. Sem questionar seus motivos, o Mestre cedeu. Choi flagrou seu olhar de compreensão, mas não comentou nada, e assim foi deixado a sós com uma Mona adormecida.

A garota fechou os olhos antes de dizer:

― Poderia chamar um Curador? Já me sinto bem, não há necessidade de ficar mais tempo aqui. Pode ir embora, e obrigada por me ajudar.

Choi estava tão chocado com aquela atitude que quase pediu para que Mona dissesse o próprio nome e quantos dedos ele estava mostrando. Será que Noor tinha batido seriamente na cabeça dela? Quando ela voltou a encará-lo, devia estar estampada em seu rosto a descrença, pois imediatamente a expressão da garota se fechou em uma carranca.

― O que foi? Acha que eu não poderia ser educada depois de ter jogado aquelas pedras sobre você?

― Pedras? – Choi soltou um riso sem humor algum. – Eu fui soterrado pelo teto, isso sim!

Mostrando o quanto estava recuperada, Mona se ergueu, ficando sentada sobre a cama.

― Bem, você me lançou um tornado de destroços e eu não estou fazendo drama por isso. – Tocando em uma tela, Mona falou em voz alta – Algum Curador poderia vir até aqui?

A Curadora Farieh está indo. Aguarde um momento, por favor.

Sentindo que estava sendo claramente dispensado, Choi suspirou e virou-se para sair. Porém, próximo a porta parou, e olhando fixo para a saída, lançou a pergunta que tanto o incomodava:

― Por que fez algo tão cruel com a Angel no baile? – Tendo recebido como resposta o silêncio, continuou – Entendo que não sabia o papel do Leonard na história toda, afinal, quanto ele passou as informações de que precisava para sua vingança, deve ter achado que não seria bom para a própria imagem divulgar que era um assassino. Mas como pôde contar essas coisas ao Ren? Como pôde fazer parte de algo tão sórdido?

― Acho que está enganado.

Diante da resposta dada em tom absolutamente calmo, Choi voltou-se para encará-la. A garota inclinou a cabeça levemente para o lado, fitando-o impassível.

― Não foi através de mim que Ren obteve aqueles vídeos ou soube do passado da Angel. Agora, se o Leonard passou para ele, não faço ideia. – Os olhos dourados se tornaram duros. – E para ser honesta, já que como disse anteriormente, esse era o único elogio que se poderia fazer a mim, eu sabia que Ren faria algo no baile, embora não tivesse acesso aos detalhes. O que não quer dizer que se soubesse o teria impedido. Ainda me manteria calada e o apoiaria – ela não vacilou em suas palavras, mesmo diante da expressão cada vez mais angustiada do rapaz. – E por que eu faria isso? Simplesmente porque Angel era um empecilho aos meus planos de ficar com o Alexis para conseguir a atenção do meu pai. Claro, na época eu não tinha ideia da profundidade do que havia entre eles. Caso tivesse notado isso, provavelmente pensaria em formas mais concretas de separá-los. Teria, por exemplo, divulgado para a mídia a história dela.

Choi não foi capaz de desviar seus olhos chocados dos dela. Podia ver no lindo rosto que era tudo a mais pura verdade.

― Então – Mona continuou –, imagino que sou tão desprezível aos seus olhos mesmo não tendo tido o papel que imaginou a principio, pois havia a intenção, apenas faltou a oportunidade.

― Meu Deus, eu fui tão cego.

Havia mais dor do que qualquer outro sentimento nas palavras ditas por Choi.

― Não, você foi hipócrita – a afirmação de Mona o pegou de surpresa. – Sempre deixei claro que minha maior prioridade era conquistar o amor do meu pai, que faria qualquer coisa para conseguir isso. Em algum momento tentou entender o que eu sentia? Limitou-se o tempo todo a me acusar e me provocar com relação as minhas atitudes. Dizia que estava interessado em mim, mas eu era realmente a sua prioridade, Choi?

Ele se sentia cada vez mais confuso. O que ela estava tentando dizer?

― Que conversa é essa agora? Está ridiculamente me acusando de não ter lhe dado a atenção que precisava? – Enquanto falava, o conflito dentro de si foi se transformando em raiva. – Esqueceu o quanto fui rechaçado, humilhado e desprezado por você nesses anos todos?!

― Eu não esqueci. E jamais irei esquecer – ela se mantinha inabalável. – Mas eu sempre mostrei meu lado verdadeiro a você. Nunca tentei enganá-lo. E se nunca correspondi minimamente aos seus sentimentos, foi porque não era a minha intenção me desviar dos meus propósitos. Você não iria me fazer desistir deles – Mona exibiu um sorriso triste. – Você me acusava, tentava me fazer mudar, ridicularizava tanto minhas ações quanto eu fazia com as suas. Ah, mas você era o cara legal, eu era a malvada que enganava a todos. Aceitável, portanto, aos olhos de qualquer um. Confesso que agora percebo que de fato não fui muito feliz em minhas escolhas, mas também sei que meus motivos não foram dignos de tamanho desprezo. Embora isso jamais servirá como justificativa. Eu consigo aceitar isso, consigo reconhecer todas essas verdades, mas você consegue?

Perdido, Choi se aproximou da cama na qual ela permanecia tranquilamente sentada.

― O que quer que eu responda? Aonde quer chegar com essa conversa?

― Eu quero apenas que entenda quem eu fui e quem eu sou agora. Que aceite que não existem verdades absolutas, ou pessoas totalmente boas ou más – os olhos dourados o fitaram com tamanha profundidade que seu coração pareceu agitar-se repentinamente. – E também quero que perceba o quanto foi hipócrita ao me acusar de usar uma máscara – ela se ergueu da cama, ficando em pé, tão próxima dele que Choi pode sentir o calor do corpo feminino e o suave perfume adocicado que se desprendia dos cabelos negros. – Quando estávamos na Alpha, como eu disse antes, você não era a minha prioridade, portanto não me preocupei em analisar e entender aquele que poderia destruir os meus planos e me fazer rever o que era considerado como o mais importante, mas aqui em Payre eu pude fazer isso. Eu me fixei em tudo o que sabia sobre você – Mona ergueu a mão e suavemente tocou-lhe a face. – Choi, eu sei o que existe por trás do seu sorriso alegre. Eu sempre soube, mas não me importava com isso. Agora é só o que importa.

O rapaz ficou paralisado.

Choi Hee, seja bonzinho e se comporte. Talvez sua mãe mude de ideia.”

Aquelas palavras do seu passado vieram tão rápido que, assustado, Choi afastou-se daquela que havia sido a responsável por invocá-las. Há muitos anos não pensava nisso. Nem sequer imaginara que poderiam afetá-lo mais. Tinha superado, tinha considerado que os sentimentos experimentados em sua infância ao ouvi-las foram ampliadas por sua tola mente infantil e pela situação em que estava passando na época. Mas talvez estivesse errado.

― Vejo que já está totalmente recuperada.

A voz com sotaque Eiff interrompeu os pensamentos do rapaz. Sem sequer olhar para Mona, passou pela surpresa Curadora e saiu do Centro de Cura.

Precisava se afastar de Mona. E daquelas lembranças infelizes.

***

Vaca filha da puta...!

Angel mal foi capaz de concluir o pensamento antes de ser novamente atingida por uma espécie de soco invisível que, além de extremamente dolorido, a mandou voando para longe. Apesar do choque violento contra a parede oposta, conseguiu erguer-se rapidamente. Mais por orgulho do que por falta de efeito do golpe recebido. Não ia ficar caída no chão diante daquela vagabunda insuportável.

Olhou para sua oponente. Ela continuava impecável em seu paninho prateado que na Terra chamariam de “roupa de trabalho”. Das profissionais do sexo, claro. Nem mesmo o volumoso cabelo crespo tinha um cacho sequer fora do lugar. Já Angel, bem, fora os cortes, os rasgos e as costas que deveriam estar o orgulho de qualquer Dr. Frankenstein, estava bem. Só doía quando respirava fundo – ou quando andava. Uma droga que para continuar lutando precisaria fazer as duas coisas. E pior, ao mesmo tempo.

Merda! Por que Noor tinha que ser tão forte? E tão desprezível? E tão cheia de malditos truques extremamente poderosos?

Quando tentava arremessar suas adagas, mesmo com o novo toque explosivo, elas eram bloqueadas pela Oberoh com o que parecia ser uma barreira que ela criava com o poder de sua mente. Aliás, naquele tempo de luta já tinha se dado conta de que Noor usava maravilhosamente bem os poderes mentais, característica de sua raça. Como estava feliz em saber disso. Sim, era uma ironia. Estava é bem puta com a descoberta. Já não seria tão simples acertar aquela cara arrogante e pretenciosa como havia ansiado desde que despertara naquele lugar e se deparara com uma piranha alienígena. E não estava se referindo ao peixe.

― Vejo que está ficando um tanto... acabadinha. Ainda quer continuar?

“Eu juro solenemente que enquanto viver jamais voltarei a reclamar do sorrisinho doce da Syka”. Afinal, agora tinha a certeza de que sua vida poderia ter se tornado mil vezes pior. Quer dizer, como poderia não desejar morrer todo dia se tivesse que encarar treinos com uma criatura como aquela?

― Estou apenas me aquecendo.

Uma mentira óbvia, é claro. Angel estava mesmo era tomando uma surra, e o riso da azulona só deixou-a ainda mais irritada com sua lamentável situação.

“Pense, Angel! Vamos lá! O que pode fazer contra alguém que basicamente cria escudos mentais, usa telecinesia e está lutando contra você sem nenhum precisar sair da porra do lugar?!”

Hum. Deitar-se no chão e fingir de morta?

Angel já ia se chutar pela ideia pessimista quando algo lhe ocorreu. Um pouco mais animada ergueu a mão e fez conjurar uma das Penas de Dragão. Com a arma em punho, foi diretamente contra Noor. A menos de um metro dela, colidiu contra a tal barreira invisível. Já esperava por isso. Assim, ergueu a espada com toda a força que foi capaz de reunir e começou a bater contra aquilo. Alguns instantes depois, deliciada com a cena, Noor lançou o escudo contra ela, da mesma forma que já havia feito antes. Angel cravou no chão a outra espada que fez surgir rapidamente, impedindo-se de ser enviada para o outro lado da sala, como das vezes anteriores. O resultado foi ter seu corpo esmagado contra o chão, que se partiu embaixo de si pelo impacto do golpe.

Dessa vez não se ergueu e nem fez força para isso. Como resultado, Noor continuou a pressionar seu poder mental contra ela. Naquele momento Angel soube o que sentia uma barata ao ser esmagada pelo chinelo de um tiozinho gordo e perverso. Mas, para conseguir atingir seu objetivo, concentrou toda seu poder em suportar aquele peso, e não em tentar escapar dali. Nem mesmo o sangue que já escapava de forma preocupante de seus ferimentos antigos e novos demoveu-a dessa ideia.

Quando a pressão começou a diminuir, preparou-se para o que viria. Barulho alto e claro de saltos altos se aproximando. Que tipo de mulher, fora as turbinadas de jogos de videogame para marmanjos pervertidos, usava saltos em uma luta?

Depois de levar tanta porrada, Angel havia notado uma coisa bem interessante a respeito de sua adversária. Ela não era rápida. Então, com uma velocidade espantosa, a garota ergueu-se e, antes que Noor pudesse sequer reagir, puxou uma adaga e acertou um de seus olhos. Cruel? Talvez. Prazeroso? Certamente!

Sabia que aquela arrogância seria usada ao seu favor. Noor estava tão certa que a derrotaria facilmente que jamais conseguiria conter a vontade de se aproximar quando a visse agonizando no chão. E aquilo seria uma vantagem, afinal, tudo que Angel precisava era pegá-la sem seu escudo.

Enquanto a mulher gritava com uma das mãos sobre o olho ferido, que ainda mantinha a adaga cravada e através da qual escorria com abundancia o sangue rubro da Oberoh, Angel encostou-se dolorosamente contra um pilar, admirando seu trabalho.

― É por isso que eu adoro esse lugar. Estou apenas treinando e não furando o olho de uma vadia que me dá vontade de vomitar. E a satisfação que estou sentindo nesse momento é apenas o de uma aluna que cumpriu com seus deveres. Não tem nada a ver com vê-la – uma risadinha –, desculpe, vê-la sofrer desse jeito.

― Sua maldita! Humana maldita! Eu vou matá-la! Vou esmagar essa sua mente fraca e inútil!

Após vociferar as palavras carregadas de ódio, Noor ergueu a cabeça e a encarou. O olho bom estava brilhando em um tom tão luminoso de branco que mais parecia uma lâmpada de três mil watts. Era uma cena bem medonha, considerando o conjunto todo.

Noor manteve a atenção em Angel enquanto seu corpo todo parecia tremer e, logo em seguida, a convulsionar. Após alguns segundos não era apenas o olho que brilhava, as pontas dos dedos das suas mãos, que se mantinham erguidas com a palma direcionada para Angel, passaram a emitir a mesma luz quase cegante.

Incomodada com aquilo, Angel estreitou os olhos e no mesmo instante sentiu uma fisgada em sua cabeça. A fisgada se tornou uma pressão. Surpresa, tateou onde parecia ser o ponto mais afetado. Mal tocou o local sua visão ficou nublada e seu crânio vibrou. Quando agarrou a cabeça com ambas as mãos, gemendo baixinho de dor, vozes sussurram de dentro dela.

Atordoada com aquilo, não foi capaz de se defender quando Noor atacou-a com flechas de energia. Seu ombro foi gravemente ferido, assim como seu braço esquerdo e sua coxa. Mesmo quando o alvo foram seus pés, a única reação que teve foi cair de joelhos enquanto as vozes se tornavam cada vez mais altas em sua mente.

Não deixe!

Não faça isso!”

Ele vai matá-la!”

Não deixe!

Já não eram sussurros, eram gritos e eles se misturaram aos seus próprios.

Tão rápido quanto começaram, elas pararam. Ouviu mais vozes, mas não eram as mesmas, não eram aquelas. Não tinha forças para saber o que acontecia, nem mesmo para manter a consciência.

***

Noor tremia enquanto observava Erak se afastar.

A adaga não estava mais em seu olho, mas ele ainda sangrava profusamente. Contudo, nem aquela dor era tão forte quanto o sacolejar de seu corpo assustado.

Ouviu a aproximação dos Curadores. Quando tentou respirar, sangue jorrou de sua boca e se juntou a poça na qual estava sentada. Seu próprio sangue.

Viu o choque no rosto dos dois Curadores que entraram na sala. Podia imaginar a surpresa deles com a cena da qual ela era a protagonista. Estava sentada apenas porque centenas de adagas a prendiam contra a parede, mas se demorassem mais alguns segundos, nem elas impediriam que deslizasse até o chão, já que aos poucos estavam se desfazendo no ar. Na verdade, gostaria disso, apreciaria poder deitar e fechar os olhos. Mas provavelmente morreria assim. Sangraria até a morte.

Aliás, só estava viva porque Erak entrara na sala. Caso contrário...

Noor agradeceu internamente quando os Curadores a colocaram na capsula, já que finalmente poderia descansar.

E esquecer, pelo menos durante aquele bem vindo sono, os momentos aterrorizantes em que foi atingida por milhares de adagas, que explodiam com uma potência inimaginável, destruindo seus escudos, sua carne e até seus ossos. O que havia restado de si foi pregado na parede como uma boneca de trapos. Praticamente apenas um tronco e uma cabeça quase destruídos. Uma adaga na garganta não a deixava sequer respirar direito, muito menos falar.

E o que rivalizava com a dor provocado por sua quase morte, foi ver Erak, após entrar na sala e segurar uma Angel descontrolada, ferindo-se também no processo, deixando-a sozinha. Largou-a ali. Sozinha. Ele apenas verificou se estava viva, chamou os Curadores e então foi embora. Com ela.

Antes de mergulhar na inconsciência, questionou ao seu Deus:

“Querido Erow, como serei capaz de proteger os Escolhidos quando apenas vejo o sangue deles em minhas mãos?”

Notas finais
Entaããão? O que acharam do momento fofis da Lali com a Zafy? *.* Eita, a relação entre o Choi e a Mona voltou a ficar a tensa... o que será que exite por trás do sorriso alegre do moço, hein? E o mais importante de tudo.... Gostaram da luta entre a Noor e a Angel??? No próximo capítulo: Angel, Erak, Alexis...... Obrigada pelos comentários lindos!!! E caso sintam uma vontade louca e maravilhosa de deixar um review, prometo responder todos com meu entusiasmo de sempre!! eheueheuheueheuh Beeeeijos e até!