Destinados à Payre

42 Ações e reações


Notas iniciais
Olha só eu aqui depois de taaaaanto tempo!! Bem, sem enrolação!! Boa leitura ^.^

Quando os olhos violetas se abriram, ele soube que enfrentaria problemas, mas, inabalável, continuou com os procedimentos. Os ferimentos já haviam parado de sangrar, contudo ainda não estavam totalmente curados. Apenas alguns minutos mais e poderia dar por encerrado seu trabalho ali. O que era bastante promissor, já que seu objetivo era permanecer o mais afastado daquela garota que lhe fosse possível.

Tocando na tela virtual sobre a cama, iniciou o processo de cicatrização. Ela já não deveria estar sentindo qualquer dor àquela altura, embora sua expressão exibisse certa nebulosidade, como se estivesse confusa.

― Onde estou?

A pergunta óbvia.

― Está na Sala de Recuperação – Erak respondeu sem desviar a atenção dos olhos que vasculharam o espaço ao redor.

― Por que a Sala de Recuperação? Não deveríamos estar no Centro de Cura?

Como explicaria que a havia levado àquele lugar para afastá-la das demais pessoas, pois não sabia se o terrível poder que usou contra Noor voltaria a se manifestar? Ali, na sala que já não era usada por mais ninguém desde que a própria Angel havia acordado, teria privacidade para curá-la sem ter que explicar o acontecido. Para os Curadores enviados a Noor tinha dito que ele próprio fizera aquilo com a Guardiã a fim de evitar que ela ferisse Angel no treinamento. Apostava que Noor iria preferir manter essa história a admitir que quase tinha sido morta por uma Humana. Isso lhe daria tempo para analisar melhor a situação, junto com a Rainha.

Naquele momento tentaria obter o máximo de informações possíveis.

― Apenas achei melhor usar essa sala. Os aparelhos são os mesmos. – Erak deu de ombros, dando a impressão de que a escolha do local era irrelevante. – Está se sentindo melhor?

Ela balançou a cabeça afirmativamente. Então o encarou com a testa franzida.

― O que aconteceu? Aquela maldita azulona realmente me quebrou, não foi?

Erak hesitou. Pelo visto seria mais eficiente sondar o que ela se lembrava da luta.

― Sim. Você ficou bastante ferida. Mas acertou Noor, não está satisfeita com isso?

A testa se franziu mais ainda, até que um leve sorriso se formou em seus lábios rosados.

― Ah, é verdade! Atingi o olho dela! – As duas sobrancelhas claras se arquearam. – Imagino que deveria estar horrorizada comigo mesma por ter feito algo assim, mas que se dane, vocês estão sempre nos fatiando, picando, queimando e tudo o mais, e não vejo ninguém se martirizando por isso. – Um suspiro. – E a verdade é que ela já deve estar totalmente recuperada a essa altura. Que droga.

― Você acertou apenas um golpe nela? – Erak procurou expressar um tom irônico, com a intenção de provocar lembranças de outros golpes contra Noor.

Os olhos violetas viraram em sua direção com a fúria que ele já antecipara. Mas o que não havia previsto foi o calor despertado dentro de si com aquela chama. Em sua tola arrogância, tinha suposto que poderia ignorar qualquer resquício do que quer que ela despertasse nele, porém, ali estava a prova de que isso não era verdade.

― Como eu poderia imaginar que ela tinha tanta força? A criatura sempre pareceu apenas um acessório de decoração desse clubinho de guarda-costas! – Antes que ele pudesse dizer algo, Angel completou petulante. – Ok, eu sei que ela não poderia ser uma qualquer já que foi escolhida para essa missão e tal, mas eu até teria alguma chance se não fosse aquela porra de escudo indestrutível! Só perdi porque ela ficou o tempo todo se escondendo atrás dele!

Erak, então, obteve a resposta definitiva aos seus questionamentos: Angel não sabia que havia conseguido destruir o escuto mental de Noor. E, mais do que isso, a havia impedido de criar qualquer outra proteção enquanto atingia a Oberoh com suas adagas quase até a morte. Ao entrar na sala e ver aquela cena, Erak percebeu que não teria tempo a perder, por isso usou o próprio corpo para impedir o ataque da Humana, e ficou surpreso ao notar que as Penas de Dragão eram lançadas com tamanha velocidade e força, que seu corpo não estava conseguindo se regenerar rápido o suficiente para aguentar sem sofrer graves consequências. E as armas que não o atravessavam completamente, ficavam presas a ele, agravando ainda mais a situação.

Quando se aproximou, tentando pará-la, foi bruscamente jogado para longe. Mesmo depois, Erak ainda não sabia como ela tinha feito aquilo. Ele apenas sentiu um impacto, como um soco, em cada membro do seu corpo, que afundou as adagas presas em sua carne. Já estava sangrando tão profusamente quanto Noor e ficando definitivamente preocupado. Ao olhar para Angel, reparou que ela nem sequer olhava na sua direção. Estava ajoelhada no chão com a cabeça presa entre as mãos enquanto gritava desesperadamente em agonia.

Sem alternativa, lançou um de seus raios contra ela. Chocado, viu a descarga circulá-la sem causar qualquer dano. Então a cabeça loira se ergueu e Erak viu que os olhos violetas brilhavam sem a esclera e lágrimas escorriam, mas não deslizavam pela face pálida, elas flutuavam ao redor do rosto. Subitamente o pequeno corpo de Angel tombou para frente. Ele correu até ela descobrindo que estava desacordada.

Não foi Noor e nem mesmo ele, Erak, quem parou Angel. Seja lá o que tinha despertado aquele poder, voltou a adormecer por sua própria conta.

O que teria acontecido se não tivesse sido dessa forma? Quem conseguiria controlá-la?

Ele era um Rei de Payre e não fora capaz de fazer nada.

Quem – ou quê – era aquela Humana?

Erak voltou a si quando Angel sentou-se na cama.

― O que está fazendo?

Ela o encarou e, com inegável expressão de sarcasmo, respondeu:

― Sentando. Em seguida vou me erguer e ir cuidar da minha própria vida, coisa que você poderia fazer também, Majestade.

Antes que pudesse pensar sobre os próprios atos, Erak pegou-a pelos ombros estreitos e deitou-a novamente sobre o leito. Não foi a melhor ideia. Não quando a posição o deixou tão próximo para admirar os delicados traços do rosto feminino, os longos cabelos claros que, soltos, se espalhavam em todas as direções, tão rebeldes e belos quanto a própria garota. Ao evitar a intensidade dos olhos violetas, baixou os seus, e mais uma vez se arrependeu de seu gesto. Pois agora observava algo que procurara evitar todo o tempo em que estivera sozinho com ela naquela sala.

Fosse pelos golpes de Noor, ou efeito posterior, as roupas que Angel vestia estavam rasgadas. Muito rasgadas. O que antes era uma blusa preta longa sem mangas, se tornara uma blusa presa apenas por uma das alças, fazendo com que o tecido ficasse caído revelando boa parte do colo alvo e a curva dos seios pequenos e redondos. Dois rasgos logo abaixo do busto permitiam a visão da barriga reta de pele macia e suave. Era a mesma textura da pele que estava sob suas mãos, sob os dedos que involuntariamente se retorciam em busca de sentir mais daquela maciez. Mais daquela garota.

― O que pensa que está olhando, seu Rei taradão??

Ser chamado daquela forma, enquanto era bombardeado por imagens dela na noite em que passou com uma ilusão, comparando a real com a cópia na qual tão desesperadamente mergulhou, fez com que reagisse com constrangimento pela primeira vez em seus cento e quarenta e seis anos de vida.

Como se de repente a pele tão agradável estivesse soltando descargas elétricas, ele a soltou e deu um passo para trás. Irritado consigo mesmo, rudemente respondeu:

― Eu estava apenas verificando seu estado! – Soltando uma risada de escárnio, comentou: — É realmente tão tola a ponto de achar que seria capaz de despertar interesse em mim? Um Rei Alicano? Vocês Humanos não param de me surpreender com essa cansativa estupidez que parece ser realmente inerente à raça.

― Posso ser estupida, Rei Alicano, mas não sou cega! – Ela voltou a se sentar na cama. – Ah! Olha só onde esses olhinhos reais já foram parar de novo! Seu hipócrita!

Erak nunca soube como era a sensação de desejar bater em si mesmo. A aquele instante. E gostaria de usar muita força no processo.

Ainda procurando sustentar a postura de irritação com as suposições dela, manteve o tom de voz letal:

― Já disse que estou apenas verificando o seu estado, criatura insolente. – Para deixar claro o que dizia, percorreu o corpo feminino com atenção redobrada. Era torturante, mas necessário para manter seu ponto.

Em segundos Angel cruzou os braços sobre o busto, obviamente para proteger-se do olhar dele. Garota idiota, apenas tinha enfatizado o decote e tornado seu trabalho mais penoso.

― Estou absolutamente intrigada com o alcance dos seus talentos, ó poderoso Rei Alicano. – Havia um sorriso zombeteiro nos lábios bem feitos. – Nem mesmo os Curadores, tão versados nas artes de cura, são capazes de diagnosticar os pacientes apenas com o olhar. Mas você consegue. Incrível!

Erak suspirou, passando a mão pelos cabelos, bagunçando os longos fios castanhos que tinham escapado da trança e caiam desalinhados sobre a face. Por Erow! Como era possível alguém tão seguro e hábil quanto ele ter se tornado aquele ser patético?

Quando voltou a encará-la, já com novos argumentos na ponta da língua, parou. Angel estava com a cabeça ligeiramente inclinada para a direita, fitando-o com uma curiosidade admirada.

― O que foi? – Impossível controlar o tom defensivo em sua pergunta.

― Nunca tinha encontrado nenhuma semelhança entre vocês. Embora tenham alguns traços de personalidade meio parecidos, devo frisar que os mais desagradáveis, mas fora isso, nada. – A surpresa pontuava cada palavra dela. – Mas esse gesto é absolutamente o mesmo. Até a forma como dobra o dedo minguinho e alça os fios com o indicador.

Não precisava que ela dissesse com quem estava o comparando. A sensação incomoda que o tomou ao perceber que o simples ato de pensar nele havia modificado toda a expressão de Angel não foi surpreendente. Desde que admitira para si mesmo... não, mesmo antes, o brilho que a envolvia cada vez que estava próxima de Alexis era como uma brasa dentro dele, que se acendia, machucando-o, e então voltava a virar apenas cinzas, graças ao seus esforços para tratar com indiferença aquela dor. Nunca permitindo que a brasa se transformasse em chamas. Sabia que se isso acontecesse poderia devorá-lo por inteiro, e aqueles que dependiam dele.

E Erak nunca trairia a promessa de seus pais dessa forma. Um dia Payre viveria em paz. Ele garantiria isso. Mesmo que para ele nunca houvesse essa paz.

Mas a dor, ele descobrira, era algo egoísta, que não admitia viver só. Assim, foi com crueldade calculada que comentou:

― Bem, qual é a surpresa? Desde que acordaram aqui estão cientes da nossa relação, bastante indesejada, por sinal. E embora eu odeie admitir, ele é um payreano também. E acredite em minhas palavras, não existe forma de, ao término disso, Alexis conseguir viver entre os Humanos, por mais que ele lhe prometa o contrário. Ele será poderoso demais para isso. Consegue imaginar alguém com as capacidades que ele já tem, convivendo entre os seus? Agora imagine três...espere, talvez dez vezes mais forte do que isso?

― Ora, se for o melhor para ele, então permaneceremos em Payre.

Não havia qualquer hesitação nela, o que o deixou com mais vontade de quebrar aquela segurança.

― A simples ideia de que existe uma possibilidade de ficarem juntos é risível.

― Por que diz isso? Está entre seus incontáveis dons a previsão do futuro?

Ignorando a ironia, Erak respondeu:

― Se nós vencermos, Alexis provavelmente se tornará o ser mais poderoso dessa terra. Acha que ele ficará ao lado de uma Humana? Por mais forte que se torne, ainda é uma frágil criatura que veio de outro mundo. Você não pertence a Payre.

Angel deu um pequeno salto e se colocou bem a sua frente. Com a cabeça erguida e olhos faiscantes, vociferou:

― Eu pertenço ao lugar que quiser. Eu já morri na Terra, portanto posso muito bem viver aqui. Ao lado de Alexis. – Com um sorriso debochado, finalizou: — Mesmo tendo que suportar um cunhado tão pé no saco, com todo respeito, Majestade.

A ideia de passar anos ao lado deles, vendo-os desfrutar do amor que sentiam um pelo outro, quem sabe acompanhar o nascimento dos filhos, pequenas criaturinhas tão corajosas quanto a mãe, com aqueles brilhantes olhos violetas em feições que lembravam Alexis, pareceu romper algo dentro dele. Erak sentiu aquela brasa arder.

Angel nem mesmo o via como algo além do Rei de Sylesth, um questionável irmão do homem que ela amava. Nem sequer sabia que durante três anos ele acompanhara sua recuperação. Não tinha ideia de que ele se desesperara em silêncio pela garota que parecia estar cada vez mais perto da morte. E que nunca odiara tão profundamente alguém quanto odiou o irmão ao vê-la abrir os olhos para ele. Como se apenas Alexis fosse capaz de mantê-la viva.

Sem poder controlar sua fúria, aproximou-se dela e disparou entre dentes:

― Jamais volte a me chamar assim. Eu não sou seu cunhado. Se conseguir concretizar esse sonho ridículo, garanto que não viveremos como uma feliz família, então não ouse me relacionar a vocês, Humana. Estou farto de suportar suas grosserias!

Se por um segundo imaginou que Angel se intimidaria com seu discurso, não poderia estar mais enganado. Ela também se aproximou, o que a fez ter que erguer ainda mais a cabeça, mas isso não pareceu perturbá-la, pois aos berros, revidou:

― Como se eu não estivesse farta dessa sua arrogância real! Eu odeio você tanto quanto nos detesta! Acha que tenho vontade de pensar em passar o resto da minha vida suportando esse olhar de desprezo apenas porque sou humana?! Ficarei muito feliz em nunca mais aguentar esse ar superior que apenas me enoja, seja vivendo aqui ou na Terra, seu grande imbecil!

Erak sabia que não deveria reagir as palavras da garota. Apenas seria mais uma coisa para lhe causar arrependimentos, contudo, naquele instante, não pensou sobre isso. Com uma violência equivalente a sua loucura, colou sua boca a dela.

Foi além de qualquer sonho.

Foi mais cruel que qualquer realidade.

Tocar em um desejo que jamais se concretizaria, descobriu que poderia ser uma mistura de doce e amargo tão intensa quanto viciante.

Percebeu as pequenas mãos a empurrá-lo, mas o que o afastou dela foi o grito de sua mãe, quase ao mesmo tempo em que sentiu a lâmina da Morte Cinzenta em seu pescoço. Sobre a cicatriz que a mesma espada já havia feito antes.

O brilho ameaçador nos olhos azuis de seu oponente não deixavam dúvidas sobre suas intenções. Apesar da situação, Erak manteve-se totalmente imóvel, ainda assim, um suave filete de sangue deslizou pela pele alva do monarca.

Ouviu os passos da Rainha se aproximando muito lentamente. Angel, parada a sua frente, parecia quase não respirar, os olhos em movimentos frenéticos entre os dois. Ela abriu a boca para dizer algo, mas Syka foi mais rápida.

― Alexis, não faça nada impensado, por favor.

Ignorando o pedido, com voz fria Alexis lembrou a Erak:

― Eu o avisei antes. Não aceitaria que a usasse em seus joguinhos novamente.

Se estivesse em uma situação melhor, Erak teria rido disso. Não era irônico que o Príncipe pensasse que o que fizera tinha sido apenas para provocá-lo? E se lhe contasse a verdade? Que a beijara porque tinha ficado frustrado com tamanho desprezo demonstrado por Angel, quando ele guardava tanto dentro de si por ela.

Provavelmente seria morto.

― Alexis. – Angel saiu de seu estado de torpor. – Abaixe esse negócio. A ofendida aqui fui eu. Não ouse me fazer passar por uma ridícula donzela violada que não é capaz de se defender!

Alexis não mexeu um centímetro sequer da espada. Com o mesmo tom que havia usado com Erak, perguntou à garota, de forma zombeteira:

― Me desculpe, mas não é o que está parecendo.

Ela ficou com a boca levemente aberta, uma expressão de surpresa estampada em seu rosto. O silencio perdurou por alguns segundos. Então veio a explosão.

― Mas que merda é essa?! Esse Rei idiota vem e me beija do nada, ai um Príncipe mais imbecil ainda me acusa de não ser capaz de cuidar de mim mesma por isso?! – Angel se aproximou deles e, erguendo a mão, deu um soco no peito do namorado. – Eu só não quero que você arranque a porra da cabeça de uma das únicas pessoas que pode nos tirar desse inferno de lugar! – Ela se afastou. – Quer saber? Vai para o inferno! – Os olhos brilhantes voltaram-se para Erak. – Vocês dois!

A garota já tinha dado dois passos para longe, quando parou. Virou-se lentamente para o Rei. Erak, no fundo, sabia que receberia alguma punição dela. Mas não foi menos doloroso quando uma adaga acertou-o exatamente no ponto entre as pernas. O corte em seu pescoço tornou-se maior quando, involuntariamente, encolheu-se em função da dor excruciante. Mal percebeu que havia soltado um gemido abafado. Nem foi capaz de ver que Alexis, por precaução, preparou-se para se defender. A mulher era maluca! E rápida como um raio!

Maldita Humana!

***

― Que droga, Angel! Espere!

Angel ignorou Alexis e continuou a caminhar com passos rápidos pelo corredor. Não fazia ideia de para onde estava indo, e nem ligava. Seu objetivo era apenas ficar o mais longe possível daqueles irmãos machistas e arrogantes!

Quando a mão masculina segurou seu braço, ela o puxou com força. Como não foi possível se libertar dessa forma, ela girou o corpo rapidamente e ergueu o punho com velocidade na direção no maxilar bem definido daquele rosto bonito e idiota, mas Alexis foi mais rápido. Sua mão livre segurou o pulso delicado e ele a prendeu numa espécie de abraço, do qual ela não conseguiu se soltar.

Lembranças da primeira vez em que se encontraram tomaram a sua mente. O que só a deixou mais furiosa. Depois de tanto tempo, mesmo cheia de raiva, ainda se sentia cativa do Príncipe. E não apenas porque ele a prendia contra si.

― Vamos conversar, pequena teimosa!

― Eu sou teimosa? Eu? Não você, o namorado enciumadinho que veio todo revoltado me acusando de não ser capaz de me defender, porque acha que deixei outro me beijar?!

― Ah é! Como se você não ficasse me encarando cheia de desconfianças cada vez que a Noor está por perto! Quem é ciumenta, hein?

Angel mais tarde pensou que lembrar de certas coisas ajudava em determinados momentos da vida. Afinal, de que outra forma conseguiria pensar em algo tão baixo quanto morder com toda a sua força o braço que a prendia? Viva os velhos tempos!

Sentindo o leve gosto de sangue na boca, colocou um pouco de espaço entre eles, enquanto Alexis a fitava atônito.

― Você me mordeu... de novo!

― Sim! Pois não acredito que se atreve a comparar essa situação com a sua e aquela Vaca Azul de Porcelana!! A vagabunda alien está sempre te engolindo com os olhos! Faz questão de tocá-lo sempre que pode! E hoje finalmente mostrou as garras quando me desafiou em uma luta! – Ela sorriu com fúria. – E quer saber? Adorei de todo coração ter acertado aquele olho guloso dela com uma das minha adagas!

Angel ficou esperando alguma reação de Alexis. Os olhos azuis estavam fixos nela, mas fora a irritação óbvia, não sabia o que ele estava pensando. Maldito controle!

Quando ele falou, sua voz estava mais alta do que o normal. Cara, Alexis parecia realmente puto com ela.

― Então você pode ter ataques de ciúmes; lutar contra um dos Guardiões porque foram lançados olhares indiscretos, por parte dela, devo frisar. Furar um olho, ir parar numa Câmara de cura por ter levado uma surra. Mas eu tenho que me controlar?! E se fosse você? E se tivesse ido às pressas atrás de mim, porque ouviu que estava muito machucado depois de lutar contra uma pessoa que sabe que eu odeio, e ao chegar lá, desse de cara com a porra de uma cena de beijo em que o seu namorado não parecia ter pressa alguma em terminar!!

Angel ficou paralisada. Alexis se aproximou e segurou-a pelo queixo. Ela sabia que não precisava ter medo dele. O Príncipe, por mais furioso que estivesse, jamais a machucaria. Mesmo na época em que não existia uma relação muito clara entre eles, Alexis apenas se defendia de seus golpes, sem nunca revidar. Contudo, seu coração disparou ao sentir aquele poder que emanava dele. E o brilho frio dos olhos azul-turquesa, mais claros do que o normal.

― Não se atreva você a comparar as situações. Eu nunca deixaria qualquer mulher se aproximar de mim, porque eu não quero, e também porque isso iria feri-la. Eu estou furioso com Erak por ter feito isso, com você por ter sido incapaz de impedi-lo, por mais irracional que isso seja. – As palavras passaram a ser proferidas mais suavemente. — E estou ferido por tê-la visto nos braços de outro homem. É uma dor profunda, irracional e cruel, que eu prometo que nunca sentirá, porque a amo demais para submetê-la a isso, Ange. Jamais se esqueça disso.- Ainda com os olhos flamejantes, Alexis terminou: — Mas não espere que eu não sinta. Que não reaja! Você, mais do que ninguém, sabe que não sou um bloco de gelo. Eu fui tomado pela raiva, pelo ciúme e pela cegueira que esse sentimento provoca. Mas jamais pelo sentimento de traição.

Ela tocou o rosto dele.

― Eu fico furiosa também por sentir essas coisas, esse ciúme estúpido e sem sentido. Eu confio em você. Sempre. – Angel suspirou, ficando na ponta dos pés, e puxando o rosto de Alexis para si. – Me perdoe por não ter sido capaz de me defender. Prometo que será a última vez.

Assim dizendo, beijou seu príncipe ferido.

E, mesmo contra sua vontade, acabou por comparar com o beijo de Erak.

O contato com o Rei havia sido quente, uma mescla de desespero e choque. E a única reação do seu corpo foi de repúdio. Cada célula havia buscado se afastar daquele calor estranho e invasivo. No fim, percebeu que não era ruim, ao contrário até, mas não era... Alexis.

Já o beijo de Alexis era uma chama que a devorava por inteiro, não dando qualquer chance de escapar ou pensar sequer sobre isso. Seu corpo, que parecia feito de lava, procurava desesperadamente fundir-se a fonte que alimentava aquele ardor, como se um milímetro entre eles pudesse voltar a transformá-lo em uma rocha, fria, dura e sem vida.

Ou apenas em cinzas.

Esqueceu-se totalmente de qualquer coisa, de comparações, de pessoas, ou guerras, quando Alexis a ergueu no ar e a empurrou contra uma porta que se abriu no mesmo instante. Sorte que a sala estava vazia, pois teriam proporcionado um belo espetáculo.

Mais tarde ela lembraria que estava irritada com ele por outro motivo, além da cena com o Rei. Contudo, como ligar para o que quer que seja quando tinha um príncipe com sérias intenções de fazê-la esquecer que existia qualquer outro homem naquele mundo? Ou em qualquer outro.

***

Syka olhou preocupada para o filho. Tinha inúmeras perguntas a lhe fazer, mas sentia que nenhuma seria respondida por ele. Não era o momento, por isso evitou esse assunto em particular, indo diretamente para outro, igualmente espinhoso.

― O que aconteceu com a Noor?

Erak, que estava sentado sobre a cama que antes havia sido ocupada por Angel, ergueu os olhos para a mãe.

― O que foi informada? – ele respondeu com outra pergunta.

― Eu estava saindo de uma reunião com o Rei Tack, quando o Curador Falki me informou que Angel estava muito ferida, assim como Noor. Mas que a Especialista parecia muito mal, e que ela havia sido atingida por você, em uma tentativa de impedi-la de ferir ainda mais Angel. – Syka suspirou. – Alexis estava passando e ouviu tudo.

A Rainha observou os olhos sérios do filho. Além da seriedade, havia algo mais, talvez relacionado ao outro assunto que gostaria de abordar, mas naquele momento precisava agir como a soberana de Sylesth, e não a mãe de Erak.

― Por que precisou ir tão longe para parar Noor? Ela tentou reagir?

Apesar de ser uma Oberoh, Noor jamais tentaria algo contra o Rei Alicano. Desde sua chegada ao Palácio Alirini, Syka soube que poderia confiar nela nesse sentido. E o filho também, uma vez que até mesmo divida seu leito com a Guardiã. A Rainha já ouvira muitos boatos a esse respeito e embora nunca tivesse assumido nada, Erak tampouco havia negado o fato.

― Eu não tentei parar Noor – Erak finalmente respondeu. – Eu estava impedindo Angel de matá-la.

Syka franziu a testa, confusa. Por mais forte que tivesse se tornado, Angel não poderia matar uma Guardiã tão capaz quanto a Especialista do grupo. Só se Noor tivesse permitido, para que Angel acabasse sendo prejudicada de alguma forma. Syka não era cega para a animosidade silenciosa que havia entre as duas.

― Por que Noor não a parou quando a situação se tornou tão perigosa?

Erak a encarou. Uma mistura de preocupação e confusão estava estampada em sua face.

― Porque ela não pôde. Eu mesmo não fui capaz disso.

Syka arregalou os olhos, assustada.

― Está me dizendo que você não conseguiu conter Angel?

― Isso mesmo. Ela parecia fora de qualquer controle. Meus poderes foram tão inúteis contra ela quanto os escudos de Noor. E eu nem mesmo fui capaz de me curar dos ferimentos feitos pelas Penas de Dragão.

Ainda chocada, Syka perguntou baixinho:

― O que a impediu, então?

Erak passou a mão pelos cabelos em sinal de frustação que Syka reconheceu ser um gesto seu também.

― Eu não sei o que aconteceu. Quando entrei naquela sala, Angel já estava massacrando Noor, não existe outro termo para descrever o que vi. Mas ela também não parecia bem, gritava coisas desconexas enquanto seus golpes eram lançados para todos os lados. Tudo que pude fazer foi servir de escudo para Noor, se não fosse assim, ela estaria morta agora.

A Rainha olhou para os lados. Por um momento, temeu que pudessem escutá-los. Ninguém poderia saber sobre tal situação. Seria perigoso para Angel, para os Humanos e para a missão. Como manteriam a fé das pessoas no que precisava ser feito se uma das supostas Escolhidas da Deusa Ashy tivesse quase assassinado um de seus aliados?

― O que aconteceu depois?

― Eu percebi que se continuasse a receber seus golpes, poderia terminar como a Noor, por isso tentei desviar e lancei meus raios contra ela. – Erak arregalou os olhos cinzentos, como se a lembrança do que aconteceu ainda o deixasse impressionado. – E eles nem mesmo tocaram nela!

― De que forma você e Noor escaparam, então?

― A própria Angel se conteve. De repente ela parou de gritar e todo seu poder desapareceu. Foi quando ficou inconsciente. Eu chamei os Curadores e inventei que tinha sido minha culpa o estado da Noor, então trouxe a Angel para essa sala, a fim de que ninguém pudesse fazer perguntas. A própria Angel não lembra o que aconteceu, acredita que Noor a derrotou.

A pequena mulher de cabelos lilases começou a andar nervosamente pela sala.

― O que isso pode significar? Desde o inicio essa Humana foi um enigma para nós. A última a chegar. A última a acordar. A única que voltou a adormecer por efeito de uma crise inexplicável até hoje. Contudo, a mais poderosa entre os Humanos, se não contarmos o Alexis. E ainda tivemos o episódio do sangue do Deiroon morto por ela. Outro fato sem explicação. Agora esse súbito poder?

Syka parou na frente de Erak, com seriedade declarou algo vinha a atormentando há algum tempo:

― Eu acho que ela não é uma Escolhida.

Já previra o choque que suas palavras provocariam em Erak, por isso deu um passo para trás quando ele se ergueu em um movimento repentino.

― Como assim? De onde tirou isso?

― Apenas sinto isso. Na primeira vez em que nossos olhos se encontraram, eu soube que ela era diferente dos outros. Ela era como Alexis.

Erak abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu dela.

A Rainha completou:

― Angel é de Payre. E talvez não seja nossa aliada.



Notas finais
E ai, o que acharam? Alguém shippando Erak e Angel?? kkkkkkkkk E a reação do Alexis, hein? O cara não é tão controlado.... E quanto ao final, alguma sugestão sobre a história da Angel, ou será que a Rainha está apenas enganada? Hummmm..... Bem, gostaria de agradecer os comentários recebidos, em especial a Laryssa Ferreira, que além de sempre comentar, deixou uma recomendação que derreteu meu coração!!! AMEI, sua linda!!! MUITO OBRIGADA!!! Oitava recomendação gente!! ~chora emocionada~ Vou ali secar as lágrimas, beijos e até o próximo!! (Quando? Hãããmmm....)