Destinados à Payre

43 Arrependimentos


Notas iniciais
Olá povo!!!!!! Sim, estou sumida já faz um tempo, para ser mais precisa, há dois meses e cinco dias xD Mas como coloquei laááá nas notas, estou com a casa em reforma... sem computador, sem internet, apenas cercada de barulho e muita poeira!! Y_Y Dessa forma não fui capaz de postar por algum tempo e nem de responder os incríveis comentários que deixaram na fic e pela qual sou extremamente grata!! MUITO MESMO!! Então, obrigada aqueles que não desistirem de mim e desculpem pelo sumiço!! Estou respondendo os comentários, não pensem que vou deixá-los ainda mais tempo sem retorno, apenas são mais do que eu esperava, o que é emocionante, claro!, só que como não sou de economizar nas palavras (acho que já notaram isso eheehh), vou levar um tempinho para acabar, mas sem dúvida alguma receberão minhas respostas ao longo dos próximos dias! Aliás, gostaria de aproveitar para agradecer a Letícia Pevensie pela recomendação diva que abalou meu coração!!! Menina, eu estava em público quando li e passei muita vergonha pelo sorriso completamente lunático e idiota que abri com cada palavra!! AMEI!!! Obrigada pela paciência de todos e boa leitura!

Ren esticou as longas pernas a fim de se acomodar melhor para curtir o clima “agradável” da nave. Estavam indo para Nagtar com um transporte um pouco maior do que o último, provavelmente porque tinham alguns passageiros a mais nessa viagem. O engraçado era que, apesar de estarem com mais pessoas, o silêncio era mais acentuado em relação à primeira partida deles do palácio Alirini. E ele tinha alguns palpites sobre o porquê disso.

Seu olhar passou da expressão de pedra de Alexis para a cara igualmente fechada do Rei. Isso mesmo. Para surpresa geral, Erak estava os acompanhando até o reino dos Oberohs, o que tornava tudo ainda mais suspeito. Afinal, não era nenhum segredo que os Oberohs não eram exatamente fãs dos Alicanos; então, o que tinha motivado aquela súbita presença real? Primeiramente, fora deixado bem claro que não era aconselhável os Reis deixarem seus palácios, tinha a coisa toda do Khor se aproveitar para tomar o território e tal; mas dessa vez disseram que não haveria problema, já que a Rainha Syka, por ser mais poderosa do que qualquer um dos Reis aliados, seria plenamente capaz de defender Sylesth por algum tempo sozinha.

O motivo divulgado para o risco potencial que estavam correndo foi o de que, com o ocorrido em Cylles – sendo mais especifico, a sua fuga com a nave e posterior captura pelos Darkanos –, poderia ter levantado suspeitas a respeito da missão relacionada à Profecia, e poderiam ser seguidos pelos espiões de Khor, como Kaill, que ainda não sabiam por onde andava. Parece que o tal pirata era especialista em aparecer e desaparecer dos lugares e jamais havia sido capturado. Por causa disso, a Rainha Syka estava receosa, pois, ainda que os Guardiões fossem extremamente fortes, talvez não fosse o bastante para garantir a segurança dos seis humanos em uma terra perigosamente próxima a dos Deiroons e Meiruus, como era o destino deles naquela viagem.

O rapaz voltou a analisar os irmãos enfezadinhos. Algo tinha acontecido entre eles, não havia dúvidas. Toda aquela balela sobre segurança até podia ser verdade, mas não era só isso. Não havia sido sequer mencionado a possibilidade do Erak acompanhá-los naquela missão, aí, do nada, o cara já estava pronto para embarcar na nave. E deu para notar a surpresa dos próprios Guardiões com a mudança de planos. Esan chegou a manifestar sua contrariedade com a decisão tomada pelos Reis, mas não houve abertura para questionamentos. Ren suspeitava que algo havia se passado entre Alexis e Erak porque, pelo que soube, Angel tinha sido levada ferida para ser curada pelo Rei em pessoa depois de tomar uma coça da Noor. Talvez Alexis tenha ficado nervosinho porque mais uma vez aquela hamster albina virou carne moída e partiu para cima do Erak, o que explicaria a segunda cicatriz acinzentada que Ren tinha notado no pescoço do Rei, e que ele tentava esconder com uma gola alta, mas ineficiente diante do tamanho do corte.

Levando em conta todos os fatores, possivelmente Erak estava indo para ajudar a protegê-los, mas também para mantê-los na linha. Garantir que a missão fosse cumprida tal como deveria ser. Ren sorriu internamente com um pensamento muito divertido: o que Alexis faria quando descobrisse o que ele sabia? Que os Reis de Sylesth não tinham a menor ideia de onde ficava a Terra e, portanto, não seriam capazes de mandá-los para casa, mesmo se tivessem a sorte de sobreviver? Será que se daria ao trabalho de cumprir a tal Profecia ou usaria suas novas habilidades para dar um jeito de escaparem dali?

Como o Príncipe não era exatamente o sujeito mais previsível do mundo, Ren preferiu manter para si tal descoberta. Sabia que Alexis não hesitaria em deixá-lo para trás caso desse um jeito de sair daquela loucura toda por sua própria conta, e Ren não era idiota a ponto de achar que seria capaz de voltar para a Terra sozinho. Não, as ilusões tinham acabado naquela nave destruída em Cylles. Então preferira esperar até um momento mais oportuno para contar esse pequeno segredinho dos Reis.

Suspirando, cruzou as pernas na altura da canela e apoiou a cabeça no encosto. Ao incliná-la para o lado, deparou-se com um par de exóticos olhos rosados fixos nele. Sério, se iam lhe dar uma babá, não poderia ser uma gostosa como a Noor? Com desgosto deslizou o olhar sobre o corpo alto e magro da Eiff que prontamente ficou tensa. Mais ainda do que o normal. A garota além de ser uma amargurada, era incrivelmente chata e exibia um corpo mais reto do que uma tábua. Ren tinha o palpite de que ela nem sequer possuía um par de seios, logo a parte que ele mais admirava nas mulheres. Seus olhos negros e ousados caíram para aquela parte especifica e sua boca se retorceu em decepção. Era quase um crime que ela tivesse uma voz tão maravilhosamente feminina.

Isso o lembrou de quando viu Angel pela primeira vez. Inferno, ele certamente carregava algum carma com vozes belas em mulheres irritantes que queriam vê-lo morto.

Incomodado com tal pensamento e desconfortável com aquela roupa apertada que vestia, fez menção de retirar as luvas.

― Fique com elas. Chegamos em Nagtar.

Ao ouvir Vishal, quase cedeu a tentação de continuar o que estava fazendo, pelo simples prazer de irritá-la, mas quando ergueu a cabeça, apenas para encará-la com zombaria, seus olhos pousaram sobre o cenário fora da nave.

Nada de flocos caindo e sol refletindo na neve fofa, como imaginara que seria Nagtar. Não. Enquanto a nave se aproximava de uma gigantesca construção de gelo, era possível vislumbrar milhares de outras estruturas semelhantes, mas em tamanho menor. Sem pequenos iglus por ali, os Oberohs habitavam o que parecia à primeira vista uma estranha floresta de árvores feitas de gelo cujos galhos formavam passarelas nas mais diversas alturas e formas. E o sol que refletia lançava raios multicoloridos quase cegantes, mesmo diante da proteção oferecida pela nave em que estavam. A forma do castelo era quase indistinguível pela incrível luz que emanava.

Bem, finalmente tinha entendido a necessidade da roupa especial que os orientaram a vestir. Seu traje consistia em calças que aderiam ao corpo quase como uma segunda pele, assim como a blusa. Embora o tecido fosse fino, possuía uma tecnologia que o protegeria do rigoroso frio existente em Nagtar. Suas botas de cano baixo tinham uma sola especial que não o deixaria cair de bunda no gelo ao primeiro passo no chão escorregadio que tomava boa parte do reino. Antes de saírem da nave, ao pousarem, todos os humanos, os Eiffs e os Alicanos tocaram em um ponto no lóbulo de suas orelhas. Isso fez com que se formasse uma película transparente no formato de suas cabeças, cobrindo-as por completo. Além não deixá-los congelar quase instantaneamente, como aconteceria se estivessem sem ela, não permitiria que os reflexos coloridos da luz refletida sobre o gelo queimassem as suas retinas.

Payre não era mesmo um lugar adorável e aconchegante?

Quando a luz azul o cobriu e o levou para fora na nave, Ren não estranhou o vazio que os aguardava. Mais uma vez não havia nenhuma comitiva esperando ansiosa pelos humanos salvadores daquele planeta miserável. Se ia morrer naquele lugar, não custava nada receber um pouco de reconhecimento por isso, certo? Mas até nisso eles eram sacaneados.

― Já conhecem o procedimento. – Noor passou a frente do grupo, indo para uma das passarelas que saíam da plataforma na qual a nave havia pousado. – Só poderão tirar as mascaras quando eu avisar; irei monitorar a temperatura para vocês. Qualquer um que quiser bancar o corajoso terá seu corpo todo congelado em segundos, isso inclui órgãos e ossos. E bastará apenas uma mísera abertura nessas roupas que estão vestindo para virarem uma linda peça de decoração para o palácio.

Além de gostosa, Noor era maligna. Cara, por que a Vishal não podia ser um pouquinho como a Oberoh? Arqueando as sobrancelhas loiras, Ren observou as belas pernas da Guardiã sob duas fendas no vestido longo, que terminavam quase na cintura fina, evidenciando os quadris largos em seu balançar sensual. Só então ele notou que ela estava descalça. Putaquepariu, aquela mulher poderia ser mais sexy?

― Cuidado para não tropeçar na própria língua, irmãozinho.

Ren não desviou o olhar dos quadris voluptuosos da Guardiã ao responder a zombaria de Mona.

― Minha língua não pode cair graças a essa providencial proteção. – Deu uma leve batida com o dedo na película sobre a sua cabeça. — E se pudesse, antes colaria no chão. – Ele revirou os olhos. – O que fez na escola todos esses anos? Apenas ficou caçando um marido rico?

― Não um marido. Mas o marido.

Ele riu.

― Que mau gosto, irmãzinha. Fique feliz por ele ter escapado das suas armadilhas, ou você poderia estar transando com um alienígena agora. – Ele fez um gesto com a cabeça apontando Alexis em clara referencia a sua condição de payreano.

― Engraçado, você parece bem animado com a ideia de... conhecer melhor nossos anfitriões.

― O que posso dizer? Sou um sujeito aventureiro.

― E com muita sorte por ainda estar vivo.

Ren virou a cabeça para encarar Mona. Não havia acusação ou recriminação por tê-la abandonado. Ainda que os olhos dourados exibissem uma enorme seriedade.

Como naquela vez no hospital, quando ele abriu os olhos e viu o pai. E gritou. E gritou.

Até que Mona, a pequena e delicada Mona, apareceu. Ela empurrou o pai para fora do quarto. Com seus olhos dourados e sérios. Sem hesitar. Sem se importar em aumentar ainda mais o desgosto do pai com relação a ela.

Mona afastou o monstro dele. Ela o protegeu.

E o que ele fez? Aliou-se ao monstro. Porque era um covarde egoísta.

E como covarde que era, fingiu que a protegia com isso.

― Bem, você conhece o ditado: “vaso ruim não quebra fácil”.

― Nesse caso, seremos os “Irmãos Imortais”.

― Credo! O ar, ou a água desse planeta não está lhe fazendo bem. Você assumindo nosso parentesco em voz alta me deixa um pouco chocado.

Mona voltou a olhar para frente enquanto caminhavam pelo chão liso que mais parecia um espelho de gelo. Ren até tentou dar uma espiada sob Noor, mas as malditas luzes impediam qualquer vislumbre que saciaria sua curiosidade quanto a cor dos...

― Foi você quem me afastou primeiro, Ren.

As palavras da irmã chamaram sua atenção para ela novamente. Sim, ele havia iniciado a separação. Podia ser um cafajeste de marca maior, capaz de abandonar a única parente em um mundo estranho para salvar a própria pele e de se aliar a um monstro para se beneficiar; mas não era capaz de olhar com indiferença para ela enquanto fazia isso. Era um covarde até nesse ponto.

Rindo de si mesmo, Ren retrucou:

― Corta essa, Monalisa! Eu apenas fui estudar na Alpha, e depois você começou com as suas crises de inveja da atenção que eu recebia do velho Harry. – Era hora de esclarecer as coisas, pois não era tolo. Reparara nas atitudes da irmã nos últimos tempos. Lembrava muito a pequena menina forte e determinada, sem máscaras, sem medo. Mas tinha que fazê-la entender que isso não tinha nada a ver com ele, antes que a garota resolvesse ter como próxima missão salvar a sua alma, que sinceramente até duvidava existir. E Ren sabia mais do que qualquer pessoa o quanto ela era obstinada quando se propunha algo; embora no caso dele apenas fosse ser apenas uma enorme decepção. Como fora com o pai deles. – Preste atenção em minhas palavras, Monalisa. Eu sei que com a eminência da nossa morte você está fazendo uma espécie de retrospectiva e de revisão de valores, e essas babaquices todas, mas nada mudou em mim. Absolutamente nada. Eu ainda sou o mesmo cara que só quer voltar para casa para curtir pelo resto da vida festas com muita bebida e belas mulheres. Não estou interessado em salvar mundos, ser um escolhido de um Deus, ou em reatar relações com irmanzinhas que estão passando por crises de consciência, ok?

Continuando a olhar para frente, Mona respondeu:

― Ok. – E apressou o passo, cruzando a porta longa e estreita que levava para dentro do palácio.

Ren, apenas por um segundo, se perguntou se chegaria o dia em que se arrependeria da decisão que tomou naquele momento.

Lembrou-se daquele dia. Do primeiro dia que voltou para casa depois de sair do hospital.

― Eu sei o que você viu, Ren. As câmeras mostraram onde estava quando caiu do telhado.

O medo o emudeceu. Apenas continuou a encarar o pai, paralisado em frente a sua mesa no escritório imponente. Tal como o homem em pé a sua frente.

Se ele estava assustado, como aquela menina tinha se sentido? O pensamento incontrolável e angustiante passou por sua mente.

― O que pretende fazer?

Não havia qualquer alteração naquela voz calma e agrádavel. Talvez depois do que vira, Ren esperara que o homem a sua frente exibisse algo diferente, algo que revelasse a sua verdadeira natureza, como naquelas histórias que a mãe contava para ele e a irmã, em que o vilão mostrava suas presas e garras quando era descoberto pelo mocinho. Mas não era assim na vida real, Ren descobriu isso ao fitar o pai. Ele ainda era o mesmo. A mesma expressão gentil e simpática que conquistava seu eleitorado. A mesma voz que cativava a todos durante seus discursos sobre honra, moral e ética. Aos dez anos, Ren percebeu que as pessoas podiam ser tão belas e perfeitas por fora quanto eram podres e feias por dentro. E que monstros não tinham garras nem presas. O que não os deixavam menos aterrorizantes. Na verdade, era o oposto disso, porque você sabe que existe o perigo, mas é incapaz de determinar qual a sua forma e se é possível se defender. Você se sente vulnerável e com medo. Muito medo.

― Não precisa ter medo de mim, meu filho. – Ele tentou se aproximar, mas Ren deu um passo para trás. Harrison apenas sorriu, compreensivo. – Vejo que está nervoso demais para pensar, então vou ajudá-lo a decidir.

Ele se afastou e sentou-se calmamente em uma poltrona mais afastada, ainda dentro do campo de visão do garoto estático que parecia enraizado bem no centro da sala.

― Se você contar para qualquer pessoa o que viu, sua mãe, sua irmã ou mesmo para seu diário, eu mandarei Mona e Nayara para um lugar distante em que não terão contato com qualquer outra pessoa nesse mundo, incluindo um certo garotinho curioso. E você? – Os olhos dourados, ao contrário dos calorosos da irmã, eram frios. Assustadores. – Bem, você vai ser apenas uma criança com uma mente frágil que se tornou insano ao cair do telhado. Sabe, ficou tendo visões estranhas a ponto de não distinguir o real da fantasia. Pobrezinho. Acabará internado em algum lugar do qual jamais voltará a sair. – Como se contasse uma história da qual nem sequer fazia parte, Harrison continuou a divagar, parecendo até mesmo divertido com isso. – Já eu, voltarei a me casar e terei novos filhos. Quem sabe dois meninos dessa vez?

― E-e se e-eu não contar?

Aquela voz frágil e suplicante nem parecia a sua, mas a dor em sua garganta causada pelo esforço de fazer com que as palavras saíssem lhe dizia que sim.

― Ora, meu querido! O que poderia mudar nesse caso? Continuaremos sendo a sua família feliz. Essa não lhe parece sem dúvida a melhor escolha?

Não houve uma escolha, nem uma decisão a ser tomada. Então não houve qualquer arrependimento.

E, mais tarde, quando as escolhas poderiam ter sido feitas... Também nunca houve arrependimentos.

***

Choi olhou para o Rei Oberoh com curiosidade. Não sabia bem o que esperar do sujeito, mas ficou bastante impressionado com a figura alta e esbelta, de pele azulada e com aspecto de vidro, semelhante a de Noor; e, assim como a Guardiã, mesmo sendo o Rei, estava descalço. Suas pernas longas e esguias estavam nuas sob uma espécie de manto preso na cintura que ia até a altura do joelho. Na parte de cima, vários cristais brancos e dourados formavam um tipo de malha que o cobria desde o pescoço até os punhos e as mãos, apenas os dedos estavam descobertos.

Poderia apostar que apesar da aparência jovem, devia ser outro payreano com centenas de anos. Embora seus cabelos brancos acinzentados pudessem ajudar a definir isso, sabia que em Payre eles não eram resultado da idade avançada, provavelmente ele tinha nascido com eles daquela cor; mas curtiu o estilo curto e arrepiado do Rei, lembrava o personagem de um jogo de RPG particularmente foda que jogava na Terra.

Não curtiu foi quando, logo após as apresentações, começou uma nova rodada de sangue direto da veia. Saco, já tinha tomado uma boa quantidade de sangue alheio, mas jamais se acostumaria com o aspecto viscoso que lhe causava terríveis náuseas ao tentar engolir. E que provocava irritantes sorrisinhos em Angel. Que culpa ele tinha por ter um estômago... delicado? Garota insensível.

Quando chegou a sua vez, conteve uma expressão de nojo. Tudo pela diplomacia. Afinal, não queria dar a ideia de que estava com repulsa de beber o sangue real dado de bom grado a eles, embora fosse precisamente esse o caso de Choi. Era dureza se adaptar a um mundo em que não ofereciam sequer um grande e gorduroso hambúrguer, mas que não se cansavam de fazê-los engolir líquidos suspeitos — como água e sangue para torná-los fortes. E pensar que quando era criança achava o Popeye um imbecil por comer algo nojento como espinafre para derrotar o Brutus. Se soubesse pelo que passaria, teria ficado é com invejo do marujo queixudo.

Como das outras vezes, assim que começou a reparar em diferentes sensações ao tomá-lo, parou de beber e procurou um apoio. Logo sentiu alguém segurá-lo firme pelo braço. Que coisa triste saber logo de cara que era Esan, afinal, a que ponto de decadência um cara podia estar quando se tornava capaz de reconhecer tão claramente o toque de outro homem? Definitivamente esse lance de Mestre e Aluno não era tão maravilhoso quanto imaginara a principio.

Em seguida passou a ser quase carregado para algum lugar desconhecido. De acordo com os planos, ficariam em repouso por um tempo antes de seguir viagem, pois seria mais aconselhável ficarem algumas horas no palácio Gahlan até estarem recuperados do que retornarem para Alirini, já que se fossem abordados no caminho de volta para Sylesth poderia ser perigoso com tantos Humanos quase desacordados.

Quando sentiu sob si algo macio e confortável – esperava com todas as forças que ainda lhe restavam que fosse apenas uma inocente cama -, nem pensou duas vezes, se aconchegou melhor e abraçou a escuridão com entusiasmo.

Ao abrir os olhos mais tarde, Choi reparou primeiro no branco imaculado do quarto ― tudo era impecavelmente branco; as paredes, o teto, o chão e a cama em formado de meia lua em que estava. Ao coçar os olhos, reparou que estava sem as luvas. Aproveitando-se disso, abaixou-se e tocou o piso liso e constatou assombrado o quanto era frio; mas por algum motivo, não era desconfortável. Chegava a ser até agradável. Ainda mais curioso, tirou as botas e descalço passou a andar pelo quarto. Além de não deslizar como receara, ao tocar a pele nua no chão seus sentidos pareceram ficar em estranha sintonia com o lugar que o cercava. Mesmo com olhos fechados, não batia em nada. E da mesma forma sentiu quando alguém se aproximou da porta e entrou. Estranho como não foi o novo “poder” que o fez reconhecer quem era.

Apenas era seu dom inútil de perceber a presença de Monalisa em qualquer lugar que estivesse.

― O que está fazendo aqui?

Não pôde controlar o tom defensivo em sua voz. Desde a última conversa que tiveram tinha evitado pensar sobre aquilo. Sobre eles. Sobre ele mesmo.

Mona entrou no quarto, seu olhar dourado pousado sobre os pés descalços de Choi.

― O que está fazendo? Isso não é perigoso?

― Como pode notar eu não virei um picolé coreano. Então, voltando a questão inicial: por que está aqui?

Ela ergueu os olhos até os dele, sem disfarçar que levou mais tempo que o necessário para percorrer o caminho dos seus pés até seu rosto. Por algum motivo, o gesto o deixou desconfortável — se fosse uma donzela certamente coraria, mas como não era o caso, limitou-se a desviar o olhar para um ponto qualquer sobre a cabeça da garota, resmungando consigo mesmo sobre sua súbita timidez.

― Acordei e percebi que estava sozinha em um quarto, quando sai notei que o corredor estava vazio, então abri a primeira porta ao lado da minha. E era essa – ela respondeu simplesmente, dando de ombros.

Choi foi até a cama e se sentou para voltar a calçar as botas. Era estranho estarem sozinhos e aparentemente sem ninguém por perto. Havia imaginado que devido os últimos acontecimentos procurariam mantê-los sob estreita vigilância e bem juntinhos uns dos outros. Melhor verificar o que estava acontecendo.

― Na verdade – ao ouvir Mona, Choi ergueu a cabeça -, foi bom encontrá-lo sozinho. – Ela se aproximou, uma expressão triste surgiu rapidamente sobre a face feminina. – Antes que entenda errado, deixe-me esclarecer que não disse isso por estar despreocupada quanto a segurança dos outros. Disse isso apenas porque busco uma resposta sua.

― Resposta?

― Isso, uma resposta.

― E seria pedir muito que me esclarecesse a qual questão?

Após parar a uma distância muito próxima de onde ele estava, Mona declarou:

― Se você é capaz de aceitar a mim, como sou de fato, e esquecer a mágoa que tem por uma garota que sequer existiu realmente.

Choi observou-a chocado. Ok, estava mais do que chocado. Jamais poderia se imaginar encurralado daquela forma pela garota que havia perseguido por tantos anos. Que grande ironia.

― Eu sei que provavelmente empurrou nossa conversa para o fundo da sua mente. – Os olhos do garoto se arregalaram diante das palavras certeiras dela. – Não de propósito, mas é a sua maneira de lidar com as coisas difíceis, para que assim possa continuar a ser quem é.

― Agora sou um covarde que não enfrenta os próprios problemas? Uau! Se foi essa a estratégia que usou com Alexis, não me admira a falta de resultados mesmo depois de tanto empenho da sua parte! – Assim que as palavras saíram da sua boca, Choi se arrependeu, mas já era tarde demais.

Mona baixou a cabeça por alguns segundos, e quando ergueu novamente, seus olhos não exibiam o brilho de lágrimas ou de raiva como esperava. Havia um lampejo de divertimento.

― É interessante estar do outro lado dessa nossa estranha relação. Eu tentando fisgá-lo e você se afastando fazendo uso de todas as armas que pode. Principalmente de palavras cortantes e ofensivas.

― Está tão maluca que acha que as minhas críticas às suas atitudes são apenas artimanhas para não cair suplicando pelo seu amor? – Cara, aquela garota certamente tinha um problema de ego.

― Claro. – Mona sorriu. – Foi o que eu fiz com você no passado.

Ela estava mais uma vez admitindo que nunca tinha sido indiferente a ele.

Apenas não tinha sido sua prioridade aceitá-lo, Choi lembrou-se com amargura.

― Mona. – Fez questão de usar o diminutivo, para lembrá-la da situação atual entre eles. – Como um idiota, fui atrás de uma garota que fingia ser uma moça delicada e gentil, mas que no fundo era apaixonada e temperamental. Sim, ela não era honesta com as pessoas sobre si mesma, mas ela também não era cruel. Não ao ponto que você demonstrou ser realmente.

Logo irritação cobriu a face delicada. Bem, aquele aspecto não mudou — Monalisa continuava sendo uma tremenda pavio curto. Se já não estivesse sentado, teria caído para trás diante dos berros da garota.

― Quando eu fui cruel? Quando?! Eu passei três anos perseguindo o Alexis! Alguma vez o chantageei, humilhei a ele ou a mim mesma nesse tempo? Não! Eu apenas me esforcei de forma incessante para estar a altura dele, para ser reconhecida por ele! E com que propósito? Para conquistar o afeto do meu pai! – Com olhos brilhantes, deixando ainda mais claro que sua paciência tinha se esgotado, Mona continuou a bombardeá-lo. – Então num belo dia chegou uma aluna nova na Alpha. Ela conquistou sem qualquer esforço o cara que eu perseguia há tanto tempo, com tanto empenho. Se eu fiquei com vontade de quebrar cada ossinho daquela criatura pequeninha e magrela? Claro que sim! – Mona apontou o dedo para Choi, a unha afiada perigosamente próxima do seu olho esquerdo. – Mas, me diga, bondoso e gentil Choi, alguma vez sentiu vontade de bater em algum dos sujeitos que via ao meu lado pela escola? – Vendo que ele continuava calado, ela vociferou: — Vamos, responda!

― S-sim. – Por que mentir? Era verdade. Não tinha sonhado em como seria prazeroso bater no próprio Leonard quando soube que ele iria com ela ao Baile?

― Isso não o torna cruel também? Egoísta e um vilão sem coração?

― É diferente, eu só pensei em fazer essas coisas...

― E eu as fiz por acaso? – A verdade em cada palavra proferida por ela era desconcertante. – Alguma vez bati ou fiz mal a qualquer garota ou garoto que interferiu nos meus planos? Quanto ao baile, já esclarecemos que meu irmão foi um idiota e a minha única participação foi não contar a ninguém que, escute essa, meu querido irmão poderia fazer alguma coisa estranha com a Angel, mas eu não sabia o que era e nem como. Sem falar que, sendo honesta, eu queria era mesmo que a garota se desse mal. E eu também já deixei claro que poderia fazer pior do que ele. Ouviu bem? Poderia. Mas eu fiz? Não! Até pode ter sido por falta de oportunidade, mas eu não quero saber do que eu não fiz que me garante tamanha aversão da sua parte. Eu quero saber, Choi, o que eu fiz para ser tratada com esse desprezo?

― Você disse que nunca machucou ninguém no processo de conquistar o seu objetivo. E quanto a mim? – Por que após fazer essa pergunta, sentiu-se tão ridículo, até mesmo infantil? Uma sensação estranha o tomou.

A expressão de Mona se suavizou ao responder:

― Me perdoe, Choi. Mas pode realmente me culpar pelos sentimentos que você nutria por mim? Se for assim, você foi tão cruel quanto eu. Quantas garotas o perseguiam por tratá-las tão bem, por sorrir tão gentilmente, por ter sempre uma piada pronta e palavras de consolo na hora certa? – Mona colocou uma mão de cada lado da face do garoto, erguendo-a para ela. – A sua máscara produziu tantos danos quanto a minha. Você pode ser responsabilizado por esses corações partidos, como responsabiliza a mim por sua dor?

Choi Hee, seja bonzinho e se comporte. Talvez sua mãe mude de ideia.”

Mais uma vez aquelas lembranças malditas. Ok, Monalisa tinha uma certa razão. Ele estava sendo um hipócrita e meio bebê chorão ao censurá-la por algo que apenas ele próprio era responsável. Os sentimentos por ela.

Por que a acusava sem clemência, de forma quase implacável?

Por que a afastava tanto de si quando já notara tantas verdades em suas palavras?

Será que seu único propósito tinha sido simplesmente ser o “menino bonzinho”?

Sua mãe nunca mudou de ideia. Isso o teria afetado de alguma forma?

Ao sentir o calor das mãos macias sobre seu rosto, ergueu os olhos castanhos até encontrar os dourados gentis.

Por quê?

Confuso, tentou afastá-la, pois precisava pensar sobre as coisas não resolvidas consigo mesmo. Bem, ele a tinha cortejado, mais ou menos, por alguns anos. Mona podia esperar um pouco mais também.

Contudo, Monalisa manteve as mãos firmes sobre a sua face, inclinada para frente, com o rosto ainda mais próximo do dele, disse delicadamente:

― Não vou mais forçá-lo, pois sei que precisa de tempo para refletir primeiro. Mas antes de ir, quero lembrá-lo de algo muito importante sobre mim: eu sou incansável quando desejo algo.

E sem hesitar, Mona colou a boca sobre a dele. A princípio suavemente, quase como se esperasse ser afastada, porém, assim que percebeu ser correspondida lançou-se sobre ele com vontade.

Como Choi havia sonhado com aquele momento!

Era indescritível a sensação do contato quente e macio. Seu sabor era único, como sempre suspeitara. Passando as mãos pelos cabelos sedosos, aprofundou ainda mais o toque de suas bocas, sua língua buscando novos recantos e delícias que atiçavam seus sentidos. Cada carícia trocada por suas bocas refletia em cada célula de seu corpo, que correspondia com entusiasmo e ardor.

Nunca imaginou que seria tão bem vinda a capacidade que eles haviam adquirido de ficar horas sem precisar respirar!

Quando ela se afastou, Choi foi tomado por um vazio súbito e desconhecido, como se ele fosse uma peça que sempre foi útil sozinha, mas ao encontrar o encaixe perfeito descobriu que poderia ser mais do que útil. Poderia ser valiosa.

No instante em que viu Monalisa dar às costas para sair pensou em chamá-la de volta. Chegou a abrir a boca, porém desistiu, pois não sentiu que era o momento certo. Então a deixou ir.

Mais tarde, quando se lembrou disso, o arrependimento o tomou. Se não tivesse sido covarde, poderia tê-la salvado. Se tivesse deixado seus temores de lado, Monalisa ainda estaria ao seu lado.

Jamais havia se arrependido tanto de uma escolha tomada.

***

Angel despertou sem razão aparente e, ao virar o rosto, estranhou o fato de a Princesa Oberoh estar observando-a calmamente ao lado da cama.

― O que foi? Já vamos ir? – questionou, já se sentando na cama e olhando para os lados, enquanto afastava os cabelos dos olhos. Estranhamente não estava certa quanto ao tempo que tinha dormido. Não parecia ter sido o suficiente.

Ao olhar para os lados, reparou que Alexis não estava ali. Então se lembrou que, ao contrário deles, ele não era mais afetado pelo poder do sangue que bebiam. Apenas mais um dos motivos para deixá-lo acima dos reles Humanos. Angel conteve um resmungo diante de tal pensamento.

Ainda assim, estranhou a ausência do namorado sempre tão zeloso.

― Onde está o Alexis?

― Está em uma reunião com meu pai.

Ah, verdade! O Rei Oberoh havia insistido em conversar com o Predestinado sobre a Profecia. Como os Oberohs eram a raça que mais sabia a respeito desse assunto, Alexis tinha achado que valeria a pena trocar algumas informações com o Rei. Contudo, só tinha concordado quando a própria Princesa, filha do Rei Oberoh, se dispôs a ficar ao lado de Angel durante seu sono de recuperação, pois, segundo ela, o pai tinha grande interesse em ter esse contato com a figura sobre a qual tanto havia ouvido falar.

Angel tentou se erguer, mas o corpo não a obedeceu, por isso caiu pesadamente pra trás na cama. Quando tentou erguer seus braços, não conseguiu. O pânico a tomou, lembranças de quando Leonard a drogou surgiram em sua mente. Era o mesmo mal estar, a mesma impotência e sensação de irrealidade.

Por mais que lutasse a escuridão venceu. Ao contrário do que costumava fazer na Terra quando isso acontecia, rezou para que ela não fosse a eterna.

Não podia morrer.

Não era mais esse o seu desejo!

Notas finais
Então, o que acharam do capítulo? Arrependimentos são uma m***, né? A gente fica doido quando não tem como mudar as coisas, mas faz parte.... E o que acharam da atitude da Mona? Finalmente essa autora aqui resolveu dar uma esquentada na relação desses dois brigões eheueheueh só que vocês sabem como sou malvada.... ~sai cantarolando~ Espero que tenham curtido, ainda mais depois de tanto tempo sem atualização, mas garanto que não vou desistir e nem demorar mais dois meses para postar o próximo! Juro juradinho!! kkkkk Beijos e até!! ~Corre para continuar a responder os reviews mais amores do mundo!!!~