Destinados à Payre
45 Encontro com um monstro
Notas iniciais
― Estou confusa.
― Confusa?! Percebeu nossa situação? Estamos prestes a ser levadas ao cara que nem mesmo os seres mais poderosos desse mundo conseguiram matar, e que possivelmente nos devorará, afinal, é isso o que ele e os de sua espécie fazem, e você está confusa? Que tal apavorada? Aterrorizada? — Mona sabia que estava tagarelando, mas o medo que sentia estava causando tal efeito incontrolável sobre ela.
― Certo. Certo, também estou me sentindo um bezerro sendo levado para o matadouro, mas ainda assim não consigo deixar de questionar: – Angel deu uma olhadela no Deiroon que antes havia se sido a Princesa Oberoh – Esse Deiroon se transformou na Princesa, o que já é bastante questionável, já que não é um dos talentos de sua raça, ou a Princesa é uma traidora que se fez passar por um Deiroon por um motivo que nem consigo imaginar qual...?
Mona olhou rapidamente para o foco da atenção de Angel antes de ser cercada pelo grupo de captores. Não foi capaz de contribuir com algo que ajudasse no esclarecimento das dúvidas da parceira de rapto, pois logo foi conduzida, através de olhares e gestos carregados de ameaças, por uma porta que se abriu. Todos saíram da sala que até então havia sido o cativeiro dela e de Angel, e, após poucos minutos andando por um curto corredor, chegaram ao local em que teriam o indesejável encontro com Khor. Era, sem dúvida, a sala de comando de uma nave, com uma enorme esfera de brilho esverdeado no centro da mesa de controles. No local, havia pelo menos três Deiroons e dois Meiruus. Apenas um Meiruu estava controlando a nave; o resto do grupo encarava as recém chegadas com ferocidade, porém, sem conseguir esconder certa… curiosidade. Bem, pelo visto Mona era a única que não estava nem um pouco preocupada com os mistérios que envolviam a presença delas ali e, sim, o que isso poderia significar para a sobrevivência de ambas.
Pelo que havia aprendido, existia apenas duas formas de sair das naves de Payre: com a permissão do Capitão – ele é que realizava o procedimento capaz de transportar os passageiros para dentro ou para fora da nave; ou, ainda, tocando na esfera que era a fonte de energia daquele tipo de transporte. Assim, como não poderia contar com a possibilidade do Meiruu que estava no comando enviá-las para fora, só poderiam escapar se conseguissem chegar até a mesa de controles que, infelizmente, estava do outro lado da sala, logo depois de uma barreira muito sólida formada por Deiroons.
― É, não vai ser fácil sair dessa.
Mona ouviu as palavras de Angel e apenas balançou a cabeça em concordância.
As duas foram levadas até o centro da sala, cada uma por dois Deiroons. Bem, se havia algo positivo em estar ali é que ficaram alguns metros mais perto do objetivo delas, entretanto, quando o Deiroon que havia se transformado na Princesa falou em um tom solene, elas esqueceram qualquer resquício de um possível otimismo.
― O Rei Khor.
Assim que as palavras foram ditas, todos se abaixaram até o chão, mesmo o Meiruu que estava no papel de Capitão da nave, e colaram suas testas ao solo, ficando com os braços esticados a frente, com as mãos abertas e as palmas viradas para cima. Devia ser bastante desconfortável, divagou Mona.
Subitamente, bem em frente a elas, um holograma surgiu. Ali estava Khor.
Mona havia ficado paralisada da primeira vez que o vira, também na forma virtual, mas naquele momento o sentimento foi ainda mais esmagador. A aura de crueldade misturada a tanta beleza era tão aterrorizante e magnética que, mesmo com seus membros rígidos de pavor, cada pequeno pedaço que a formava gritava para que fosse o mais longe possível dele. Contudo, não era capaz de se mexer, nem mesmo de desviar os olhos daquela figura impressionante. Seus instintos pareciam colidir dentro de si. Sobreviver. Encantar-se. Seria assim que a presa de um felino belo e letal se sentia diante de seu predador? Quase fascinada por sua condição de criatura frágil, como se a morte iminente através do mais forte fosse mais um prazer do que uma terrível fatalidade.
― Duas. Perfeito.
Apenas simples palavras, mas soaram como o rugido de um leão, estando ela no papel da indefesa caça capturada entre seus dentes afiados e mortais. Sua voz mal havia passado de um murmuro, porém, percorreu-a de alto abaixo, arrepiando seus cabelos da nuca e toda a sua pele sensível, deixando seus dedos das mãos e dos pés ligeiramente dormentes. O mais chocante, o mais assustador, foi a estranha mistura de medo profundo e palpável a um sentimento de… excitação. Mona sentiu-se tremer. Aquele era, sem sombra de dúvida, um predador – o maior de todos – em qualquer sentido que tal termo pudesse ser usado.
Deus do céu, e ele nem estava realmente ali com elas.
Quando Khor deu um passo à frente, Mona sentiu seus olhos perderem o foco por alguns segundos, podia jurar que o sangue havia parado de correr por suas veias. Nunca havia sido o tipo de garota que desmaiava, não sem um propósito por trás, pelo menos. Entretanto, jamais havia sentido tanto pavor em sua vida. Nem quando o irmão quase morreu ao cair do telhado quando ainda eram crianças, ou quando descobriu que o pai jamais a amaria, apenas por ser uma garota. Nem mesmo quando chegou a Payre e pensou que estivesse sozinha. Sem o Choi. Ou quando viu o ódio nos olhos dele ao encontrá-lo. Nada era comparado ao que a percorria por inteiro com a proximidade que sentia entre Khor e ela. Em seu intimo sabia, seja qual o tempo de vida que ainda teria, jamais esqueceria aqueles sentimentos.
Não sabia até quando suportaria aquela tensão. Estava em um desespero silencioso, até que seus dedos gelados foram tocados por mãos pequenas e também frias. Angel tinha se aproximado dela, quase colando seus corpos, braço a braço, então fechou sua mão sobre a de Mona em um gesto que não eliminou de todo as reações que seu corpo estava passando, mas a confortou profundamente.
― Vocês parecem mais frágeis do que eu imaginava. – Havia um toque de curiosidade em seus olhos… e fome. – Mas também mais belas.
Para desespero de Mona, ele tocou as pontas dos seus cabelos. Ela sabia que não tinha sido de verdade, que ele não estava fisicamente ali; mas seu coração falhou uma batida, e a única coisa que a manteve sã e em pé foi a mão que apertava firmemente a sua, quase a ponto de machucar. Porém, aquela dor a ajudou a sentir que não estava só e que o toque entre elas era real e não o toque daquele… monstro.
― Sinto o cheiro do seu medo, Humana. – O sorriso de Khor refletia sua crueldade. Foi como testemunhar o próprio Lúcifer rindo dos prazeres que seu status de decaído lhe proporcionavam. – Guardarei esse cheiro comigo até poder senti-lo entre as minhas mãos… e em todo o meu corpo, criatura apetitosa.
Com alívio viu os olhos dele se desviarem dos seus e, mesmo a contra gosto, mesmo indo contra tudo que a nova Mona construíra ao chegar em Payre, agradeceu por Khor ter voltado a sua atenção para Angel. Sentiu-se suja e mesquinha por isso, mas foi um sentimento tão instintivo quanto o conter de sua própria respiração quando as palavras ameaçadoras dele penetraram o seu cérebro e cada fibra de seu ser.
Com o canto dos olhos viu Khor também tocar os cabelos de Angel; observou a loira prender a respiração da mesma forma que ela havia feito antes, por isso, buscando desesperadamente por uma coragem que a ajudasse a se mexer, apertou a mão da garota na sua. Uma retribuição. Uma desculpa pelo egoísmo anterior.
Estranhamente, Khor estreitou seus olhos amendoados, os longos cílios negros encobrindo totalmente a expressão dos mesmos. Ele se inclinou, aproximando o rosto do de Angel. Suas narinas tremeram em uma longa e profunda inspiração. Por fim, ele encarou a pequena garota, ainda mais delicada diante de sua figura imponente, com olhos firmes dourados nos trêmulos violeta.
― Também sinto cheiro de medo. – As palavras de Khor saíram sussurradas. Em seguida, ele baixou ainda mais o tom, impedindo que Mona ouvisse a que ele disse à Angel, o que a surpreendeu. Como ele conseguiu aquilo? Seus sentidos tão bem desenvolvidos não foram capazes de captar qualquer coisa, ainda que estivesse quase colada a eles. Mas seja lá o que foi, pareceu chocar Angel a ponto de fazer com que ela erguesse o queixo, ignorando o pavor, e fitasse Khor com o mesmo interesse que ele havia lhe dedicado.
Os olhos cor de ouro passaram, vorazes, por cada pedaço de Angel. Ele parecia procurar por algo, da mesma forma que ela. Contudo, suas feições deixaram evidente que nada encontrou, a frustração estava estampada em seus traços.
— O que é você?
Após fazer a estranha pergunta, Khor se endireitou subitamente, virando-se para os Deiroons, que já tinham se erguido, mas mantinham as cabeças baixas.
― Mudem a rota, os aguardarei na fronteira de Narty, em Haas.
Após dizer essas palavras, Khor lançou um último olhar da direção delas, detendo-se brevemente em Angel antes de sumir por completo.
Mesmo longe daquela presença perturbadora, as reações suscitadas por ele ainda permaneciam nela, por isso, Mona mal notou a aproximação de dois Deiroons, um de cada lado, até que um deles ordenou:
― Andem!
Estavam conduzindo as duas de volta pelo caminho que levava a prisão onde acordaram antes, quando um grito os deteve.
― Espere!
Chocada, Mona olhou para Angel que tinha se recusado a dar um passo de onde estava. Um medo frio a tomou. Será que aquela maluca ia fazer uma de suas loucuras? Na situação em que estavam a morte seria o resultado mais lógico para qualquer atitude impensada.
― Ande! – repetiu indiferente o Deiroon.
Então Mona notou algo. Ele estava visivelmente impaciente, mas nem sequer fez menção de tocar na garota. Aliás, pensando bem, quando caminharam pelos corredores eles mantiveram uma certa distância delas, como se evitassem qualquer forma de contato com as prisioneiras.
Ah, eles não podiam tocar nelas. Provavelmente porque Khor as considerava extremamente valiosas. Até quando foi raptada no palácio, sua última lembrança consistia em uma espécie de véu negro e não em alguém a agarrando. Mesmo naquele momento eles evitaram o toque direto; foi coberta para que isso não acontecesse. E, claro, deviam imaginar que eram frágeis, como o próprio Khor apontou, já que não apresentavam presas, garras ou algo do tipo, e suas essências eram bastante fracas se comparadas às deles, por isso não chegavam a se preocupar com alguma reação problemática por parte das duas.
Angel tinha se dado conta de todas essas coisas também? O que ela planejava?
Ainda que não soubesse o que a outra pretendia, Mona ficou atenta ao desenrolar do que acontecia. Já que estavam apenas as duas ali, o apoio para uma possível fuga era preocupantemente escasso.
― Não podemos! – Angel continuou teimosamente parada, encarando um de seus raptores. – Vocês sabem, não somos daqui, somos da Terra.
O Deiroon não falou nada, apenas permaneceu de cara fechada observando sua estranha prisioneira. Aproveitando seu silêncio e aparente interesse, Angel seguiu em frente:
― Vocês comem carne e bebem sangue, e os outros Payreanos bebem apenas água para sobreviver, certo? Bem, nós Humanos precisamos de plantas. Nos alimentamos delas várias vezes ao dia, caso contrário, adoecemos e morremos. Instantaneamente. – Mona reparou que todos na sala trocaram olhares nervosos, decididamente estavam perdidos. Diante disso, Angel não perdeu tempo. – Quantas horas já fazem que nos tiraram do palácio? E, você sabe – ela se dirigiu ao Deiroon que se transformava na Princesa Oberoh –, desde que chegamos ao Reino de Nagtar, tomamos apenas uns goles do sangue do Rei e fomos dormir. Estamos sem comer por muito tempo! Veja, já estou sangrando de fome! Logo não suportaremos sequer respirar direito.
Tão curiosa quanto todos na sala, Mona procurou ver o que tinha nas mãos que a garota estendeu em um ato dramático, após as ultimas palavras que saíram exageradamente trêmulas para seus ouvidos acostumados a ouvir uma Angel sempre tão durona.
Os dedos pálidos estavam com fissuras, longos arranhões que desciam do meio das mãos em direção as pontas. Angel tinha usado suas adagas para fazer aquilo? Era a única explicação. Mas, de qualquer modo, serviu ao seu propósito, já que, além da dúvida nos olhos dos Deiroons, Mona pôde perceber boa dose de fome. Tinha que parabenizar Angel, ela tinha conseguido prendê-los duplamente em seu plano. Pelo receio de que algo acontecesse a elas e pelo desejo por um sangue tão exótico quanto o delas.
― Sabe algo sobre isso? Quanto tempo os Humanos podem ficar sem se alimentar? – um dos dois Meiruus presentes, o que ocupava a função de Capitão, perguntou ao Deiroon/Princesa Oberoh.
― Desconheço esses dados. Nosso contato não passou qualquer informação do tipo. Quanto tempo temos até o Ducado de Haas?
O Capitão olhou para a tela em sua frente.
― Pouco mais de duas horas. Ainda temos todo o Mar da Morte para atravessar.
Enquanto eles discutiam sobre o que fazer, Mona sentiu a mão de Angel próxima da sua, mas dessa vez não foi para lhe dar algum tipo de conforto, e sim para passar algo a ela. Discretamente aproximou a mão contra o corpo e olhou o que tinha. Parecia um brinco, uma simples e pequena esfera preta.
― O que é isso? — sussurrou para a garota, em inglês.
― Um localizador.
Antes que pudesse perguntar por que aquilo tinha sido entregue a ela, Angel começou a convulsionar. Parecendo tonta e desesperada, como se não pudesse respirar, a loira se jogou contra os Deiroons, uma das mãos estendidas em socorro. Eles rapidamente se afastaram dela, sem reparar que, ao se moverem daquela forma, o caminho até a esfera havia ficado livre, restando somente o Capitão ao lado do brilho esverdeado, só que ele estava ocupado com os comandos da nave.
― Corra! – gritou Angel ainda em inglês, de modo que só Mona entendeu o recado.
E ela correu.
Um Meiruu tentou bloquear seu caminho, mas Mona rapidamente conjurou seu arco mirando nele que, pego de surpresa, foi um alvo fácil para uma de suas flechas flamejantes. Enquanto o inimigo tentava se livrar das chamas, ela passou por ele. Quase chegando até a esfera, o único caminho de saída delas, Mona olhou para trás, procurando por Angel.
― Se joga logo nessa porra, droga!
Confusa, Mona fez exatamente isso: deu um salto em direção a luz verde. Só quando foi envolvida por aquela luminescência quase cegante, lembrou de apertar o dispositivo que protegeria seu rosto do frio congelante do lado de fora. Nem quis pensar na queda; não fazia ideia de qual seria o efeito de sair da nave em pleno voo.
Quando a luz verde se tornou branca, percebeu que era o reflexo da neve muito clara, isso significava que tinha conseguido sair da nave. Ainda que estivesse caindo em queda livre pelo céu, não pôde deixar de sorrir feliz por ter conseguido escapar. Porém, seu sorriso logo se desfez, pois ao olhar ao redor, não encontrou Angel. Ela não deveria estar ao seu lado? Tinha certeza que ela estava bem atrás!
Sentindo o chão se aproximar, antes de seu corpo se chocar contra o solo e deixá-la desacordada, Mona olhou para a mão firmemente fechada entorno do dispositivo entregue por Angel. Seu último pensamento cheio de remorso e culpa foi o de que Angel sabia que seria impossível as duas escaparem. Ela havia protegido Mona.
Então, Mona gritou.
Não de dor, não porque os ossos do seu corpo se estraçalharam contra o gelo frio e duro como rocha que cobria aquele reino.
Não.
Seu grito foi de desespero.
Porque Angel enfrentaria sozinha o que a aguardava. E ela não estaria lá para segurar suas mãos.
***
Choi não tirava os olhos do ponto no painel de comando que indicava onde Mona e Angel estavam. Sabia que seguiam o mais rápido possível, mas a consciência de que a outra nave era tão potente quanto a deles e que alcançá-la seria um feito quase impossível, o fazia se sentir um inútil completo. E compreendia que não era o único a carregar aquele sentimento. Observou Alexis parado, assim como ele, em pé diante das janelas sobre o mesmo painel. O Príncipe não havia falado uma palavra sequer desde que embarcaram. Limitou-se a mostrar para Zafy, a Capitã naquela missão de resgate, o rastreador que tinha com a localização de Angel. O equipamento era apenas uma pequena esfera preta que ele mantinha presa no lado interno da gola do seu traje.
Assim que Zafy colocou a esfera dentro do circulo de luz azul na mesa do centro de comando, um mapa tridimensional surgiu e foi dada a ordem para que o destino da nave fosse a indicação daquele mapa.
Ninguém questionou como Alexis tinha aquele rastreador. Quem ousaria, em tal situação? Mas foi fácil notar a surpresa do Rei, de Esan e de Zafy diante de um recurso que nenhum deles havia imaginado ser possível um dos Humanos possuir, mesmo que se tratasse do Predestinado. Assim, as perguntas eram evidentes: quem havia dado para ele? Com qual propósito ele tinha consigo algo assim? Bem, Choi não precisava pensar muito sobre a última questão, pois era óbvio que Alexis não confiava nem um pouco nas pessoas daquele lugar, ainda que houvesse a estranha ligação familiar com a realeza local. O que não queria dizer muito também, isso Choi entendia perfeitamente. Quer dizer, na Terra, Alexis não era exatamente próximo do pai, mesmo tendo passado com ele sua vida toda, o que dirá de pessoas que tinha acabado de conhecer? Sem mencionar o pequeno detalhe de serem, literalmente, de outro planeta. Eles iam precisar de muita terapia familiar para superar essa distância e criar o mínimo de confiança saudável entre mãe e irmãos. O que não era exatamente a prioridade quando o mundo estava sendo ameaçado pelo supervilão Khor.
― O sinal parou. – Zafy franziu o cenho. – Não está mais se movendo.
Choi e Alexis quase colaram nela ao mesmo tempo.
― Quanto tempo até alcançá-lo? – Alexis questionou prontamente.
― Sessenta e cinco minutos.
― Por que eles parariam tão próximos da fronteira de Nagtar? – Choi perguntou a si mesmo.
― Elas podem ter escapado – Alexis respondeu sem tirar os olhos do mapa. – Ou chegaram ao destino.
― Se, de fato, esse era o destino deles, precisamos escanear a área primeiro antes de nos aproximarmos mais. – Esan também se acercou de Zafy para analisar as informações da localização. – Certamente terão uma quantidade significativa de soldados, sejam eles Meiruus, Deiroons, Darkanos ou… Oberohs.
Esan citou a última raça encarando o Duque de Horn, que havia seguido com eles depois de muita insistência. Como confiar em um Oberoh depois do misterioso desaparecimento de Mona e Angel dentro do próprio palácio deles? Sem falar que a Princesa do seu reino também havia sumido sem qualquer pista.
O Duque não respondeu à acusação velada. Ele se sentia responsável, de certa forma, pelo que havia acontecido, já que era sua responsabilidade a segurança dos visitantes durante a estadia deles em Nagtar. Mesmo a longa disputa entre Oberohs e Alicanos foi ignorada por ele, que limitou-se a consentir com a cabeça. Nem parecia o mesmo orgulhoso braço direito do Rei Tack.
― Sim, essa área sofre constantes ataques dos piratas Meiruus, então poderá apresentar ainda mais riscos do que o normal.
Zafy logo acionou comandos e passou a fazer uma varredura completa a longas distâncias de onde estavam. Nada foi detectado; nenhuma frota terrestre ou aérea. Choi ficou aliviado por isso. Mona e Angel poderiam ter uma chance, afinal.
Mona.
Fechou as mãos com força quando o nome dela, seu rosto, seu perfume, sua voz, toda ela, tomou sua mente. Tinha evitado aquele tipo de situação, pois sabia que caso se deixasse dominar pelo desespero, como antes, seria apenas um peso para a equipe. Ele estava ali para ajudar e não para por tudo a perder. Não era um todo-poderoso fodão como Alexis, que se descontrolara e acabara conseguindo, com isso, mudar os planos iniciais, permitindo que fossem atrás das garotas desaparecidas. E não apenas isso, ainda havia conseguido arrebanhar para sua missão Erak, que era nada menos do que um Rei; Esan, o Guardião mais bam-bam-bam de todos; o Duque de Horn, que mais parecia uma versão alienígena do Capitão América com seu jeito de “militar certinho”; Zafy, a melhor Curadora dos reinos e ele, Choi, um mero Humano com aspiração a herói.
O rapaz passou a mão na nuca, desanimado. Sabia que só estava ali por sua ligação com a Mona. Quando estavam indo para a nave, Esan o barrou na hora, mandou que voltasse com os outros Humanos para Sylesth. Choi se sentiu uma criança levando bronca e sendo isolada em seu quarto. Em qualquer outra situação teria acatado; quer dizer, era Esan lhe dando uma bronca, seu Mestre, o cara que tinha um punho muito potente, ele bem o sabia; mas, naquele instante, Choi só pôde pensar em Mona. Ele seria levado para um lugar seguro enquanto ela… Nem sabia como continuar o pensamento. Não tinham informações sobre nada! Absolutamente nada! Então não havia a menor chance de obedecer, por isso, insistiu e deixou claro que não mudaria de ideia. Se fosse preciso, iria por conta própria. Esan hesitou. Depois do “caso Ren” e do misterioso desaparecimento de duas Escolhidas, quem sabia o que mais de desastroso poderia acontecer? Choi estava aproveitando-se dessa inquestionável falha em protegê-los para conseguir o que queria.
Nesse momento, os olhos de Alexis e Choi se encontraram e, embora não fosse capaz de detectar nada mais nos azuis do outro, viu um rápido brilho de compreensão passar por eles. Claro que o Príncipe entendia sua preocupação, afinal, não estava se arriscando para resgatar Angel pessoalmente? Choi não era ingênuo de imaginar que Alexis estivesse minimamente preocupado com Mona, estando Angel em perigo, e isso não o chateava, já que havia toda uma história bem complicada entre os três. Ainda assim, acreditava que ninguém no grupo desistiria enquanto ambas não estivessem a salvo. Só que não bastava. Ele precisava estar lá. Seus olhos castanhos normalmente risonhos exibiam toda a angústia que ele julgava ter sido capaz de ocultar. Assim, Alexis, para assombro de Choi, interveio:
― Chega dessa discussão inútil. Quanto mais aliados, maiores serão nossas chances. – Ele lançou um olhar carregado de frieza para Esan. – E não é como se pessoas tão preparadas quanto vocês tivessem servido de algo até agora.
Alexis era um arrogante bem irritante, contudo, em momentos como aquele, tal característica era muito bem vinda. Já que ninguém retrucou, apenas continuaram o caminho até a nave, incluindo Choi.
Dessa forma, o mínimo que poderia fazer para não dar razão a Esan era manter o controle e não dar chilique. O que foi difícil quando Zafy comentou, após mais uma verificada no local:
― Isso está muito estranho. O sinal continua exatamente no mesmo lugar, mas não há qualquer sinal de inimigos.
Será que seria um otimismo idiota pensar que aquela era uma informação positiva? Choi chegou à conclusão de que sim. Os piores cenários começaram a passar pela cabeça dele, então, para não deixar que notassem, se afastou e sentou-se em uma das poltronas da sala.
Respirou fundo e fixou o olhar na paisagem fora da nave, que não passava de um desolador branco sem fim. Em meio às dúvidas de sua mente, passagens do último encontro entre ele e Mona foram se infiltrando sorrateiramente sob suas defesas. As memórias já não pareciam tão fáceis de conter. Havia chegado ao seu limite. Viu que todos tinham se reunido em torno de Zafy, concentrados em entender o que acontecia. Suas vozes, no entanto, mal chegavam a ele, sobrepujadas pelas últimas palavras de Mona:
“Eu sou incansável quando desejo algo”.
E ela o desejava. Se ainda tinha alguma dúvida sobre isso, o beijo que seguiu a declaração apagou qualquer uma delas. Foi um beijo doce, apaixonado e repleto de promessas.
E de dúvidas.
“Você me aceita?” Ela não havia perguntado, mas a questão estava lá, nos lábios que tocaram os seus.
Mas ele não respondeu. Choi deixou passar o momento, mergulhado nas próprias dúvidas e medos. Achou que ela poderia esperar por uma resposta sua. Que havia tempo.
Rá! Tempo!
Quando estavam em meio a uma guerra em um mundo estranho? Quando nem sabiam se voltariam para casa? Tempo? Que filho da puta mais imbecil por ter sequer imaginado tal coisa! Sentia-se tão tolo, tão cego. Ainda que parecessem seguros na “bolha” criada pelos Reis de Sylesth para eles, todos estavam no limite o tempo todo. Já devia saber disso depois do episódio com Ren, mas, não. Preferiu se acovardar atrás de uma fantasia de normalidade, como se ainda estivessem na Alpha e houvesse a possibilidade de encontrar Mona tranquilamente pelos corredores da escola quando se sentisse preparado para isso.
E agora?
Seria capaz de ver Mona de novo?
E se o sinal parado significasse...
Tentando desesperadamente se controlar, baixou a cabeça e a segurou com firmeza entre as mãos. Estava surtando! E não podia!
Quase não notou a mão sobre seu ombro esquerdo, apenas a firmeza do aperto foi capaz de trazê-lo de volta a realidade. Uma bizarra realidade, aliás, já que quem estava ao seu lado, ainda com uma mão sobre ele, era Alexis.
― Acredita tão pouco na capacidade de sobrevivência delas? Desculpe pela honestidade, mas eu estaria mais propenso em imaginar um fim trágico se fosse você no lugar delas. Por favor, aquelas duas estão longe de serem delicadas donzelas, já você... – Alexis lançou sobre sua figura seu conhecido olhar de superioridade real. – Estou pensando se há algo como sais por aqui para usar quando resolver apagar de vez nessa cadeira, mademoiselle Hee.
Choi encontrou voz para retrucar:
― Não pretendo causar tamanho transtorno, Alteza, qualquer coisa apenas jogue esse meu corpo imprestável num cantinho qualquer, onde ninguém tenha que tropeçar nele.
― Isso não será difícil.
Sim, claro, que clichê ser zoado por um cara com quase um metro e noventa de altura por seus míseros um e setenta e poucos.
Isso o fez lembrar-se de Angel. A nanica que havia transformado aquele gigante inacessível em alguém capaz de, do seu jeito, tentar confortar outra pessoa quando ele próprio devia estar um caos por dentro.
― Pensando bem, não vou desmaiar. A Angel não me deixa esquecer por um segundo sequer daquela maldita galinha que, deixe-me lembrá-lo, não é bem uma galinha, e nem das pedras, que eram pedaços de concreto! Se eu der uma “descansada” por aqui vou ser chamado de Princesa Disney para o resto da vida. Então melhor evitar isso; meu ego não suporta mais apelidos pejorativos daquela miniatura insensível, obrigada.
Ele notou um leve sorriso despontar dos lábios do Príncipe.
― Sábia decisão.
Antes que Alexis se afastasse, Choi se ergueu e lhe deu alguns tapinhas no ombro.
― Obrigada, cara. De verdade. Por antes e agora.
Alexis parou. Virou-se para ele, e com uma expressão que Choi nunca tinha visto em seu rosto, disse:
― Obrigada também, Choi. Por tudo.
Ok. Ooook.
O que Angel tinha feito com aquele homem?! Caramba, ainda bem que tinha tomado a firme decisão de não desfalecer, pois a situação foi tão chocante que quase sucumbiu a uma inconsciência nada masculina. Alexis certamente notou sua incredulidade, mas nada comentou apenas seguiu na direção do grupo que ainda discutia sobre a inusitada situação do localizador.
Tentando se refazer da surpresa, Choi o seguiu, bem a tempo de ouvir de Zafy:
― A nave captou imagens do sinal.
Quando uma tela surgiu sobre o painel, todos ficaram mudos.
Choi sentiu seu coração disparar. Falhar. A dormência de seus membros mostrou que não estava preparado para lidar com aquilo.
A imagem exibia uma Mona que lembrava uma delicada boneca de porcelana sobre a neve.
Quebrada.
Não.
Destruída.
***
Geralmente ela gostava do calor. Era reconfortante, agradável. Acolhedor. Como os braços de Alexis. Mas aquela sensação não era assim. Era como receber o beijo da morte.
Sempre associou a morte com o frio, só que seus instintos lhe disseram que não, que a morte poderia ser quente.
Como um deslizar suave em sua face.
Quando seus olhos se abriram, Angel entendeu o porquê.
O hálito morno de Khor soprava os cabelos em torno de sua orelha enquanto pairava sobre ela. Um animal faminto cheirando a comida.
Ele estava tão perturbadoramente próximo, que Angel foi capaz de identificar pequenos pontos vermelhos nas íris douradas dos olhos dele.
E o reflexo de seu medo.
O rosto pálido e assustado. Uma estranha que não conseguia associar a si mesma.
O calor se tornou nauseante quando Khor falou, seu hálito passando a queimar a pele delicada do pescoço da garota:
― Agora, garotinha Humana, me explique por que sinto o meu cheiro em você.
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