Destinados à Payre
46 Esperança
Notas iniciais
Alexis nunca foi o tipo de pessoa que se sentia desconfortável em ser desagradável. Para ele, todos, sem exceções eram capazes de lidar com situações difíceis, pois, por mais perfeitas que suas vidas fossem, inevitavelmente aceitariam que o mundo não era um lugar alegre e propenso ao lindo e rebuscado “final feliz”. Ele aprendeu muito cedo sobre essas verdades através das pessoas que deveriam, na teoria dos otimistas, protegê-lo até que estivesse pronto para lidar com as consequências dessa descoberta.
Isso o tornou mais cético, mais insensível e até um pouco cruel. Porém, também fez dele alguém forte e independente. Contudo, em sua confusa existência, algo que nunca fez parte do seu mundo foi o que mais o abalou: o amor.
Quando perdeu a mãe, o sentimento foi mais de abandono. Como ela havia o deixado uma criança, seu filho, sozinho?
Quando percebeu quão doentio era seu pai, o que o dominou foi a repulsa. De si mesmo; por ser parte dele, ainda que não houvesse nada que pudesse fazer sobre aquilo. Por isso, procurou se afastar e descobrir em seu interior quem poderia se tornar e, preferencialmente, o mais distante daquele que era alvo de seu repúdio.
Então, já em Payre, quando se viu diante de uma nova “família” tudo o que pôde sentir foi descrença; seguida de indiferença. Profunda e absoluta. Já havia cogitado a possibilidade de sua aversão ao termo em si ser o motivo real para isso, afinal, a sua experiência nesse quesito havia sido, para se dizer o mínimo, bastante rasa. Rasa e descartável.
No entanto, ao contrário do que a maioria das pessoas imaginavam, ele não era tão egocêntrico a ponto de pensar que era a única pessoa a sofrer as mazelas do mundo. Crianças perdiam os pais o tempo todo, e até, assim como ele, por culpa um do outro. Não fora a única criança a ser tratada com ódio, com indiferença ou como objeto pelos adultos. Mas ao contrário da esmagadora maioria, tinha muita grana para ajudá-lo a superar tais situações. Assim, de certa forma, estava bem melhor que seus desafortunados companheiros de infância infeliz.
Até aí tudo bem, todas essas coisas faziam todo sentido para ele, e Alexis sabia como lidar com elas.
Mas como lidar com a existência de alguém além dele mesmo? Tinha vivido por si, para si e consigo por anos tranquilos e solitários. Alexis não havia aprendido a ter empatia, a pesar as necessidades dos outros. Em seu mundo, que se resumia apenas a ele mesmo, tudo era previsível e controlável.
Contudo, esse mundo mudou. E ele, quase ao mesmo tempo, mudou de mundo. O controle já não fazia mais parte da sua realidade.
Antes de Payre, havia encontrado Angel, que fez uma bagunça em sua vida, na falta de uma expressão que descrevesse com mais precisão a dimensão do que foi lidar com aquilo tudo.
No começo foi divertido, revigorante. Ela despertou a sua curiosidade e o inusitado desejo de espiar o que existia fora dos muros que havia erguido ao seu redor. Ele logo percebeu que talvez fosse interessante remover alguns tijolos, deixar um pouco de luz entrar. Deixar aquela garota entrar. Mas foi pego de surpresa, talvez por sua própria arrogância. Quando, cuidadosamente removeu apenas um tijolo, o menor e menos perigoso, aquele que poderia ser colocado de volta facilmente, o muro todo caiu. Ele sentiu cada uma das sólidas pedras o esmagando, o deixando sem ar, sua única saída foi escapar dos destroços e encarar o que estava por vir. Só que, pela primeira vez, Alexis se deu conta de algo. Os muros o haviam protegido, mas também o haviam impedido de lidar com as emoções mais básicas, como o amor, a dor, a esperança.
Com o tempo, pouco a pouco, foi se acostumando a deixar as sensações o dominarem. Sua experiência com a construção do muro havia permitido que conseguisse manter tudo dentro de si, com maior ou menor facilidade.
E então Angel morreu em seus braços.
Aquela dor, a dor que ainda estava aprendendo a assimilar, foi destrutiva. Quando viu a luz a envolvê-la, tudo que pôde entender foi que era o fim. Angel já não existia mais.
Enquanto a luz tomava conta da sala, a escuridão o rodeava. Seu muro já não era feito de tijolos perfeitamente empilhados. Alexis, com certo alívio, percebeu erguer-se a sua volta algo feito de um metal escuro e frio, sem nenhuma fresta, sem qualquer possibilidade de ser derrubado.
A escuridão foi total, o silêncio absoluto.
Não estava morto como gostaria de estar, mas também não estava vivo.
Então passados alguns anos, aquela que havia sido a responsável pela construção de sua prisão o chamou. E somente ela seria capaz de derrubar aquelas paredes de ferro, e foi o que fez, aliás, com a mesma facilidade que havia destruído seus preciosos tijolos de antes.
Alexis aprendeu algumas lições importantes com aquele episódio. Certas coisas não são possíveis controlar e, quando mesmo assim você tenta, fatalmente será destruído por elas.
A dor era assim.
Ele entendia melhor esse sentimento, era até capaz de compreender um pouco mais os outros. Por exemplo, ao ver Choi ao lado da cápsula em que Mona estava, lembrou de si mesmo acompanhando Angel em suas recuperações. Reconhecia a angústia que tomava a expressão habitualmente despreocupada do rapaz e sabia, sem qualquer dúvida, o quanto Choi detestaria o que ele diria a Zafy. Principalmente porque a lógica tinha a tendência a desaparecer nessas horas.
Pensando bem, talvez ele já não se sentisse assim tão confortável em ser desagradável, o que provava que ainda sofria lentas mudanças continuamente.
― Zafy.
A Eiff que monitorava as informações da cápsula de Mona virou-se para Alexis.
― Sim, Alteza?
― Preciso que consiga algumas informações de Mona.
Como ele já esperava, Choi virou-se na mesma hora em sua direção.
― Você ficou louco?
Alexis ignorou o coreano, continuando a conversa com Zafy.
― Precisamos saber para onde Angel está sendo levada, caso contrário não temos uma ideia sequer de para que lado seguir.
Antes que ela pudesse responder, Choi voltou a se intrometer:
― Alexis, você não é o único que quer ajudar a Angel, mas arriscar a vida de Mona nesse momento é… é… — Choi balançou os braços furioso — Meu Deus, cara! Nem você pode ser tão insensível! Ou cretino!
Alexis olhou para Choi com firmeza:
― Choi, eu só não o coloco para dormir ao lado da Mona porque no seu lugar eu estaria fazendo o mesmo protesto. Mas não abuse da sorte, não é o melhor momento para isso.
Choi pareceu ainda mais irritado com suas palavras. Com passos rápidos se aproximou do Príncipe.
― Então agora resolveu me lembrar que é o poderoso Príncipe Alexis! Já que está tão disposto, vá em frente! Se quer realmente jogar com a vida da garota que eu amo, vai ter que acabar comigo primeiro, seu filho-da-puta arrogante!
Alexis suspirou, enquanto inclinava a cabeça levemente para a direita. Sabia que deveria se conter. Só que algo dentro dele, aquela parte que ele buscava lidar diariamente, emoções, começaram a emergir, ele só pode encontrar uma forma de manter a razão. Deixando um pouco daquilo sair.
Sabia que Choi era forte o bastante para aguentar.
― Eu não estou com tempo nem paciência para lidar com isso. Você está agindo como um tolo, para variar.
Quando os olhos azuis de Alexis brilharam em tom prata, Choi foi imediatamente arremessado contra a parede mais próxima. Ele ficou colado nela, completamente paralisado, apenas seus olhos castanhos e assustados se mexeram de forma frenética na direção da garota machucada que se recuperava.
Alexis aproximou-se dele dizendo:
― Sabe qual a diferença entre nós dois, Choi? Fora a questão óbvia de aparência e nível de poder. E, ah, posição social. Você é um garoto impulsivo que muitas vezes age como um tolo .- Alexis cerrou os olhos enquanto encarava o outro. — Quando encontramos Mona no gelo, ela estava com o rastreador que deixei com Angel, e apenas eu e ela sabíamos da existência do aparelho. Isso significa que eu não precisaria ser muito esperto para entender que aquela idiota deixou com a Mona para que ela fosse localizada, ainda que isso a deixasse completamente abandonada à própria sorte. Ou seja, Angel arriscou a própria vida para que Mona fosse salva. Sabe o que isso significa, Choi? Que eu jamais arriscaria a vida que ainda existe graças ao sacrifício da Angel.
Os olhos de Choi exibiram surpresa.
― Além disso, se tivesse prestado um pouco mais de atenção ao conhecimento que tem acesso, saberia que podemos entrar na mente de Mona sem que isso a prejudique, basta usar os seus sonhos.
Alexis virou às costas para Choi que deslizou para o chão, ainda com expressão perplexa. E uma sombra de vergonha.
Alexis jamais admitiria que essa sombra estava colada a ele mesmo também. Essa era uma consequência frequente ao se perder em emoções, as ações traziam reações tão inesperadas quanto desagradáveis.
― Zafy — Alexis voltou a se dirigir à Guardiã -, pelo que entendi esse procedimento só pode ser realizado por alguns minutos, pois logo a pessoa ficará confusa e não responderá com coerência as questões que forem feitas. Quanto tempo temos exatamente?
― No máximo um minuto, já que as condições dela são bem precárias.
― Certo. Sendo assim precisaremos fazer o mais rápido possível as perguntas cruciais: quem as levou e para onde estão indo.
Zafy balançou a cabeça de forma positiva. Logo uma tela surgiu sobre a cápsula de cristal. Imagens difusas podiam ser vistas, apenas sombras que pareciam se mover lentamente entre uma densa névoa branca.
― Mona, pode me ouvir?
A sombra parou e a névoa foi lentamente se dissipando.
― Quem está com a Angel agora?
A tela ficou completamente escura, então um par de olhos dourados surgiu. Seu brilho maligno e hipnotizante era inconfundível. Khor.
Ainda que algo que beirava o desespero tivesse disparado dentro de si, Alexis procurou manter a calma. Não havia tempo a perder.
― Para onde estão indo?
Uma boca cheia de dentes pontiagudos se formou. Ela se abriu lentamente em um sorriso macabro. Parecia dizer algo, mas não havia som.
Escuridão.
Choi se aproximou de Mona, colocando a mão sobre a cápsula em que ela estava, sussurrando:
― Mona, é o Choi. Por favor, precisamos saber para onde estão levando a Angel. Você precisa nos dizer, é a única forma de salvá-la.
A própria imagem do Choi apareceu na tela. Ele sorria. Mas seu sorriso foi sumindo, assim como a sua imagem. Tudo voltou a ficar escuro.
― Ela está ficando inconsciente novamente — Zafy os alertou.
Alexis deu um passo à frente, mas Choi estendeu o braço o impedindo, sem se virar, sem deixar de observar Mona.
― Monalisa. Eu sei que pode me ouvir, eu prometo que vai descansar e que estarei aqui do seu lado até que esteja pronta para voltar pra mim. Seja forte apenas mais uma vez. Por favor. A Angel precisa de você. Nós precisamos de você.
A tela não mostrou nada além do escuro desalentador, mas a voz da própria Mona se fez ouvir. Não era do seu sonho. Ela falou através da sua mente para todos:
― Fronteira… Narty… Haas....
Em choque os três observaram quando seus olhos abriram por alguns segundos, focados em Choi.
― Choi.
Uma lágrima correu pela face pálida da garota enquanto ela voltava a sua inconsciência. Ao seu descanso prometido.
Choi cumpriu sua promessa. Desde aquele momento não saiu do lado dela.
Ele não a deixou mesmo quando o mundo ao redor deles estava prestes a mudar.
Ele estava ao lado dela quando a Guerra começou.
***
Esan era um guerreiro. Um Protetor. Desde criança foi treinado para servir a família real e ao reino de Sylesth. Ainda que fosse um príncipe, uma vez que seu pai havia sido o irmão mais novo do Rei Melkor, sua posição como Guardião sempre foi seu principal papel. Nunca foi tratado como realeza, nunca se curvaram a ele por ser sobrinho do Rei. Jamais foi chamado de “Alteza”. E ele não se ressentia disso. Quando as pessoas o saudavam, quando o observavam cheios de admiração e respeito, era por ser Esan, o Protetor. Era por ser o líder dos Guardiões.
E como líder, a ele cabia responder pelas esperanças de todos. Esan era mais do que um mero príncipe, um parente dos Reis. Ele era aquele que deveria arriscar a vida pela Profecia. Estava em seu sangue proteger Payre, sabia que seu destino era esse, e ainda que no fundo suas convicções e desejos pessoais ditassem outras escolhas, no fim de tudo, de uma forma ou de outra, sua vida não lhe pertencia.
Sua vida era de Payre.
Do reino de Sylesth.
E acima de tudo, do Rei Erak.
Esan seguiria seu Rei por qualquer caminho. Havia feito uma promessa a si mesmo quando ainda eram crianças. Não permitiria que Erak fechasse os olhos antes dos seus. E essa promessa, tinha plena consciência, um dia o colocaria contra tudo que sua existência representava. Chegado esse dia, Esan não hesitou em empunhar sua espada e apontá-la diretamente para a garganta de Alexis. O Predestinado. O Salvador de Payre.
Sua lâmina fria e implacável estava colada a garganta daquele que deveria proteger acima de tudo.
A firmeza de suas mãos representavam a segurança de suas próprias escolhas.
Assim, sua voz soou determinada, sem qualquer traço de dúvida ou blefe.
― Se respirar mais alto, eu cortarei sua garganta.
― Esan — Erak, a única outra pessoa que estava com eles naquela parte da nave, se manifestou. — Se afaste dele.
Esan não desviou os olhos do Predestinado.
― Desculpe, Majestade, mas não posso. Ele claramente vai matá-lo.
― Seu idiota, e acha que seria capaz de impedi-lo se esse fosse mesmo o desejo do Príncipe Alexis. — Havia mais do que desprezo nas palavras do Rei. Era algo mais profundo. E mais antigo.
Esan sabia que não era páreo para o poder de Alexis, mas como o guerreiro que era, não entrava em uma batalha apenas pela certeza da vitória. Era pela causa.
― Certo. Já deixou claro ao que, ou melhor, a quem serve, Guardião. — Zombaria deslizava por cada palavra dita por Alexis. — O que eu considero uma grande hipocrisia da sua parte.
Esan franziu o cenho sem entender.
― Não estou aqui para dar falsa lição de moral, como parece ser o forte de alguns. Então vamos recapitular nossa atual situação. — Alexis não parecia nenhum pouco interessado na espada próxima o bastante para cortar sua pele. Talvez porque ela se regeneraria praticamente no mesmo instante. — Eu vou atrás da Angel. E vou usar essa nave. Erak pelo visto não concorda. — Seus olhos passaram sobre o braço de Erak. Na verdade sobre onde antes havia um braço. A pouca pele enegrecida que sobrara na altura do ombro mostrava que não seria uma recuperação muito rápida, nem indolor. — Você, Esan, demonstra estar de acordo com ele...
― Você tentou matar o Rei! — vociferou Esan, longe da sua habitual calma.
― Não seja ridículo. Se eu quisesse matar Erak teria arrancado sua cabeça. E ela está ali, inteira. — Alexis voltou sua atenção sobre Esan pela primeira vez. Sem qualquer vestígio de gracejo. — Mas eu lhe garanto, não por muito tempo.
― Não ouse ameaçar a vida do Rei! — Esan era corajoso o suficiente para encarar a pessoa que havia cortado o braço de Erak com a facilidade de quem arranca as patas de um inseto. Mas ele, que nunca havia sido considerado um tolo impulsivo, agiu como um. E sabia disso. Mas que inferno, quem não era, ao ver ameaçada a vida de alguém querido?
Não apenas isso.
Alguém que sempre foi mais, muito mais…
― Eu já dei o único aviso que pretendia. — Alexis deu um passo a frente, a lâmina em seu pescoço foi lançada longe.
Esan olhou para a própria mão vazia, assombrado. Ele nem viu o movimento. Sequer sentiu.
― Ouçam bem, vocês dois. — O Predestinado tinha seu foco sobre Erak. — Angel está sendo levada para Khor. Ela está prestes a entrar sozinha no reino que vocês e seus exércitos não conseguiram vencer em séculos de guerra. Então não existe escolha. Eu vou atrás dela. Não é assim tão difícil de entender.
― Existe uma escolha. — Erak também encarou Alexis altivamente. — Você pode ir sozinho, e morrer antes mesmo de encontrá-la. Caso tenha sorte, poderá morrer com ela pelas mãos de Khor. E levar consigo todas as vidas inocentes de Payre. Ou pode me dar duas horas.
Esan percebeu pelo tom de Erak que o Rei estava agindo mais uma vez em causa própria. Com assombro Esan relembrou dos acontecimentos de minutos antes.
Alexis chegou avisando que iriam para Narty, pois Angel estava sendo levada para lá. Erak pediu explicações sobre a informação, o Predestinado falou sobre a técnica de Zafy para extrair a informação de Mona. O Rei disse que não poderiam arriscar a vida do Predestinado, de dois Guardiões e dois Escolhidos para resgatar a Humana. Alexis ignorou a opinião do Rei, dizendo que deixaria todos ali mesmo, em segurança até que alguém viesse resgatá-los. Havia uma espécie de “bolha-salva-vidas” na nave que daria a eles até semanas de proteção na neve. E ele iria sozinho. Erak então segurou o braço de Alexis, para impedi-lo de chegar nos comandos. Depois disso, tudo aconteceu muito rápido, Esan apenas viu as cinzas no ar, nem chegou a presenciar o golpe. Em uma fração de segundos, Erak estava do outro lado da nave, sem um braço.
Como da outra vez em que perdeu uma mão.
Penitência.
Erak sabia o que deveria fazer. Mas também sabia o que queria fazer.
Salvar Angel não era apenas uma escolha do Predestinado.
― Para que precisa de duas horas? — Alexis perguntou.
Estranhamente, Erak sorriu.
― Para começar uma Guerra.
***
Angel podia dizer com toda a certeza absoluta do mundo que jamais em sua vida a palavra “fresca” teria qualquer associação com a sua pessoa. Ela não era de ter chiliques. De desmaiar. Insetos não tinham qualquer influência sobre seus nervos. Aos sete anos chegou até mesmo a adotar uma barata. Chamava-a carinhosamente de Bia. Ficava observando Bia correr de um lado para outro pelo quarto. Levava comida escondida para ela. Achava o máximo quando ela subitamente mostrava que quase podia voar. Batia palmas de animação, como se seu incentivo pudesse fazer com que Bia voasse mais alto, mais longe. Um dia encontrou Bia esmagada no chão, atrás da porta. Ainda assim não teve nojo, sentiu tristeza, com todo cuidado juntou cada pedacinho da amiga e enterrou no jardim, ao lado de um ralo, para que assim, quem sabe a família dela pudesse visitá-la. Como a própria Angel gostaria de fazer com a sua.
Então, ela não era fresca. Mas diante da sensação do calor daquela boca de hálito quente e cheiro estranhamente adocicado, estranhamente familiar, Angel sentiu o estômago revirar. Tentou se mexer para aliviar o desconforto, mas percebeu que estava presa. Pés e mãos juntos como se estivessem colados um ao outro, por nada além de magia.
― Quem é você, Humana. Responda.
Khor já tinha feito aquela pergunta antes, e pela expressão de seu rosto belo e assustador, não estava acostumado a repetir as próprias palavras.
― A-Angel… — Ela odiou a própria voz. O medo que havia nela. Como se não fosse sua. Mas era. Inclusive o medo.
Os olhos dourados brilharam tão claros que ela sentiu seus próprios olhos arderem e ainda assim não conseguiu desviar o rosto.
― Não, criatura estúpida. O que é você. Como a chamam pouco importa.
Angel agitou-se, novamente nauseada. Aquele brilho parecia estar dentro de sua cabeça, vasculhando, destruindo tudo pela frente, como se, ao não encontrar o que procurava, lhe desse o direito de considerar o resto apenas lixo.
― Como consegue evitar que eu acesse todas as informaçõe da sua mente? — Khor a segurou pelos ombros e tal qual um animal farejador, respirou fundo próximo aos seus cabelos, em sua têmpora. ― Meu cheiro está até mesmo na sua mente, é assim que me evita?
Angel não sabia do que ele estava falando. Mas era capaz de sentir o cheiro. Jasmim. Era assim que Alexis identificava o odor dela? Ela também exalava aquele aroma tentadoramente doce e exótico? Espere. Não era apenas Jasmim, havia algo que ia além da planta terraquea. Algo que nem mesmo com os conhecimentos de Payre passados a eles ela era capaz de identificar.
Mas era familiar.
Lembrava algo suave, macio…
Seus pensamentos foram cortados ao sentir a língua de Khor passar pelo seu rosto. Seus estômago mais uma vez reagiu, com mais força, com mais violência. Os olhos violetas encheram-se de lágrimas.
Em uma velocidade que não assimilou, Khor segurou seu queixo. Mais do que curiosidade ou a irritação de antes, havia desespero em cada traço do rosto do Rei Deiroon. Aquilo foi o mais assustador de tudo, pois de alguma forma, ele parecia mais humano e menos Deus.
― Você tem o gosto dela! Como uma Humana pode ter o gosto dela!
Afastando-se de Angel, Khor ordenou:
― Tragam a Princesa Oberoh.
Quase imediatamente uma porta foi aberta e uma mulher foi jogada aos pés de Khor. Angel olhou sem reação para a garota completamente nua, de pele macilenta e pálida, ao lado do Deiroon que antes havia pensado ser a Princesa.
Não. A Princesa era prisioneira do Rei de Narty. Como aquilo havia acontecido sem que ninguém fosse informado? Como o Rei Oberoh não tinha passado tal situação para o Rei Erak e a Rainha Syka?
Sem qualquer cuidado, Khor se aproximou da prisioneira visivelmente debilitada e a ergueu por um único braço. Apenas um leve gemido escapou dos lábios da garota. Ela devia estar há muito tempo sob aquelas condições, tanto que nem conseguiu erguer a cabeça, por isso a única coisa que Angel pôde ver foi seu corpo magro e a cabeça com tufos de cabelos brancos, como se o que já havia sido em outra época uma bela cabeleira prateada, tivesse sido arrancada fio a fio.
― Chamem o Rei Oberoh.
Ao puxar mais a mulher, praticamente a mantendo pendurada pelo braço com apenas uma mão, indiferente a nudez dela ou as suas fracas tentativas de reação, Khor expôs melhor seu rosto.
Um rosto branco, feito de cera e dor.
Um rosto sem olhos, apenas com dois buracos pretos. Queimados.
Angel não conseguia desviar a atenção daquela imagem.
Sabia que não estavam na Terra, mas se naquele mundo acreditavam em Deuses como em seu planeta, então Khor era o Diabo.
Ela nunca havia sido religiosa, para Angel todas as crenças eram baseadas em mitologias que não passavam de meios para explicar algo quando a Ciência ainda não tinha recursos para justificar. Angel não acreditava em Deus, ou Deuses. Mas passou a acreditar na existência de Demônios, pois estava diante de um. E não havia maneira de ser descrente quando a maior prova daquela existência maligna conseguia sorrir, de forma quase gentil, enquanto uma pessoa morria agonizando em suas mãos.
― Excelente que conseguiu algum tempo para podermos fazer esse lindo encontro de família, Majestade.
Angel foi despertada de seus pensamentos tortuosos pela voz de Khor. Ao seguir o olhar do Rei Deiroon, encontrou uma projeção do Rei Tack. Mesmo com seus característicos olhos totalmente brancos, Angel pode detectar o horror em ver a filha naquele estado.
― Eu o chamei, meu caro amigo, para, além de poder conferir como tratamos bem nossos convidados, queria entender como alguém tão meticuloso pôde esquecer de me informar sobre os Humanos que estão em Payre sob a proteção dos Alicanos e Nerinis. — Sorrindo diante do choque estampado no rosto do outro, Khor segurou firmemente o rosto da Princesa e delicadamente depositou um beijo bem próximo as cavidades onde antes havia o segundo par de olhos mais poderosos de Payre. — Cuidado com o que vai dizer. Percebe que me aborrece descobrir que não é um pai tão zeloso quanto eu imaginava?
― Eu não sabia de nada, os Reis de Sylesth não confiaram as informações sobre os Humanos, nem mesmo para seus aliados. — O Rei Tack defendeu-se.
― Mentira. — Khor, com uma gentileza estudada, apoiou o corpo da Princesa no seu, de modo a ficar de frente para o próprio pai. Vulnerável. Humilhada. — No entanto, para que não espalhe calúnias sobre mim por toda Payre, já que sei como é um velhinho fofoqueiro, lhe darei mais uma chance, afinal, sou bastante emotivo no que diz respeito a família. Diria até que é meu único ponto fraco. — Suas mãos deslizam suavemente pelos seios da prisioneira em seus braços, percorrendo sua barriga até chegar em seu ventre. Sua pele dourada em contraste com a palidez cadavérica da Princesa. — Quem é essa garota que ganhei de presente de Sua Majestade?
Confuso o Rei Tack seguiu a direção que Khor apontou com a cabeça.
Ele viu Angel e ela percebeu o choque no semblante que lembrava ser tão desprovido de qualquer emoção. O que a deixou ainda mais confusa. Ele não era um traidor? Como não sabia que ela havia sido levada por Khor? Que espécie de arranjo era aquele entre os dois?
― É uma das pessoas que Sylesth enviou para Nagtar.
― É mesmo? — Khor continuou o caminho de suas mãos pelo corpo de sua vítima, seguindo languidamente até o sexo dela. — E o que é ela? E o que ela foi fazer em Nagtar?
Tack, mesmo tentando manter sua compostura, hesitou por um segundo. E foi o bastante para Khor.
Ele cravou seus dentes como um animal faminto no ombro da Princesa fazendo jorrar seu sangue, e parecendo se deliciar ainda mais com isso.
Se sentindo covarde, mas incapaz de evitar, Angel desviou seus olhos daquele pesadelo. Deixou de lado a cena da garota sendo morta, para enfrentar o terror nos olhos do pai da Princesa. O Rei Oberoh encarava Angel. E ele parecia muito mais um homem determinado do que um pai horrorizado. Confusa com tudo que acontecia naquele lugar maldito, ela levou alguns segundos para perceber que ele tentava lhe dizer algo. Angustiada, Angel se esforçou para ouvir, desejou ardentemente decifrar o que parecia ser tão urgente. Subitamente, ela se encolheu, pois um grito ecoou por sua mente. Então ela ouviu nitidamente:
“Não deixe ele beber o sangue dela!”
Como Angel poderia impedir isso?
Estava presa. Cercada por um Meiruu e dois Deiroons. Sem falar que era Khor quem estava com a Princesa. Khor. Como deteria ele?
“Me deixe entrar!”
Angel não entendeu as palavras do Rei, mas sua mente, de alguma forma, sim. Quando sentiu algo frio, mas agradável, como o gelo do qual era feito o castelo de Nagtar, despontar do topo de sua cabeça, e se espalhar por seu corpo, como um véu muito delicado, percebeu que o Rei Oberoh estava usando seu poder através dela.
Mal notou quando seu corpo se libertou, era como se os movimentos fossem seus, mas ao mesmo tempo, não. Quando sentiu o leve peso das suas espadas nas mãos, seu cérebro pareceu processar aquilo como sendo uma vontade dela, mas Angel conseguia mesmo em meio a sua confusão separar o que de fato era ela e o que era ele, o Rei que a estava utilizando como meio de salvar a filha.
Angel, contudo, estava errada.
O objetivo não era salvar.
Era matar.
A compreensão veio tarde, apenas quando o sangue da Princesa Oberoh esguichou por suas mãos. Por todo seu corpo trêmulo.
Quando seu rosto recebeu aquele líquido viscoso e frio, Angel entendeu tudo.
O Rei Tack a libertou, fez com que sacasse as próprias espadas, a moveu em uma velocidade que a desnorteou, erguendo-a em um salto sobre Khor e a sua vítima, e com as Penas de Dragão erguidas, em um único e preciso golpe a fez cortar de cima a baixo a Princesa Oberoh. Angel nem viu quando Khor se afastou do corpo que caia em pedaços pelo chão.
Pernas, braços, cabeça, tronco…
Uma boneca desmontada.
Não. Era uma pessoa. Tinha sido uma pessoa. Uma vida que ela tirou.
De novo.
Em estado de choque, Angel jogou-se no chão, sem se dar conta que o Rei Oberoh a tinha deixado para assistir sozinha aquela cena macabra da qual havia feito parte.
Sozinha com Khor.
***
Alexis ouvia Zafy, o Duque de Horn, Esan e Erak discutindo sobre os preparativos para invadir Narty.
Apesar de preocupados, os Reis de Cylles e Nagtar já haviam movimentado seu exércitos para a batalha. Além da lealdade dos reinos, havia o consenso geral de que aquele conflito era inevitável. Desde a Segunda Grande Batalha, toda Payre se preparava para a Terceira. Eles não temiam a guerra, e o fato de terem o Predestinado ao lado deles, filho do Rei Melkor, o maior herói que Payre já viu, servia como estímulo e esperança. A vitória era uma possibilidade. Porém, a derrota seria inevitável conforme o poder de Khor aumentasse, portanto, o tempo era um fator de vantagem aos Deiroons.
Alexis ouvia tudo aquilo do grupo e de seus contatos feitos com urgência para Duques, Reis, Conselheiros. Algumas discussões aconteciam, divergências de estratégias, de opiniões, mas sempre o mesmo ponto em comum: o Predestinado era a maior arma dos Aliados. Não somente por sua força, mas pelo que ele representava. Esperança.
Esperança.
Alexis estava fazendo aquilo tudo por Angel. Não era por nada tão altruísta quanto salvar um reino, ou mais de um. Desde que chegou em Payre foi bombardeado por essa responsabilidade que não tinha o menor interesse em assumir para si. Ainda assim, todos o tratavam com deferência, respeito. Foi muito fácil conseguir os brincos que deu a Angel, já que ninguém parecia disposto a negar nada a ele.
Esperança.
Ele não seria capaz de dar o que eles queriam.
Contudo, ali, sozinho, cercado por aquela discussão sobre as vidas que seriam inevitavelmente perdidas, sem saber o que viria, sem controle sobre nada...
Com medo...
Muito, muito medo. Por Angel.
Percebeu como a esperança era poderosa.
Era apenas ela que o mantinha são, que o mantinha firme na espera por mais uma hora.
Também compreendeu algo mais. Esperança não era algo que ele pudesse controlar a quem dar.
Era a fé em algo que a criava.
Como a que ele tinha em Angel, em sua força, naquilo que ela representava.
Alexis olhou para a tela que mostrava as milhares de naves indo para Nagtar, para ali se juntarem às outras centenas de naves dos Oberohs.
Esperança.
Todos movidos por ela.
E ele desejou naquele momento que fosse capaz de dar isso a eles.
E a si mesmo.
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