Destinados...?

3 Sem Compreensão


Bum acordou na enfermaria. Seu corpo estava muito dolorido. Sentia-se cansado e a última coisa que lembrava era a enfermeira lhe fazendo beber um monte de comprimidos.

— Seu parceiro acaba de sair com o professor Yang Seungbae. – falou a moça, que pelo crachá que portava chamava-se Koong Nari: — Como está se sentindo, senhor Yoon?

"Parceiro...?" pensou vagamente o moreno enquanto tentava sentar.

— Cansado... – murmurou notando o real estado em que se encontrava.

Sentia mais dor do que imaginava e estava completamente sujo — apesar do cobertor evitar que outras pessoas notassem. Seu rosto foi ficando vermelho. Aquilo realmente acontecera... Fora mordido? – colocou a mão no pescoço, sentindo uma fisgada incômoda. Sim, com certeza havia uma mordida... – a vermelhidão chegou às orelhas.

"Não... Não posso pensar nisso... Estou sujo e...".

— Creio que deseja tomar um banho. – sorriu compreensiva a enfermeira ao vê-lo tão enfaticamente vermelho: — Você pode ligar para alguém, pedir uma muda de roupa.

Bum concordou ainda meio atordoado. Lembrou-se de que sua mochila ficara na classe, junto com seu celular.

— Você poderia me emprestar um telefone?

— Claro. – disse Nari, pegando o telefone sem fio da enfermaria e entregando ao garoto: — Ah sim, uma garota passou aqui, queria falar com você, mas... Eu não pude deixá-la entrar, tive que resolver algumas coisas. Creio que se chamava Lee Myung-Hee e disse estar com a sua mochila.

Bum agradeceu a informação e ligou para a amiga.

"Resolver algumas coisas...?" pensava, ouvindo a voz familiar do outro lado.

— Oi?

— Myung-Hee, sou eu, Bum... Você poderia trazer as minhas coisas até a enfermaria e... Bom, pegar uma muda de roupa para mim no meu quarto? – ele foi diminuindo o tom, queria abrir uma cratera no meio do local e se esconder dentro.

— Já estou do lado de fora. Quando corri atrás de você, achei que estava bem, pois todos os alphas que pareciam te perseguir, não conseguiram entrar. Até que ouvi o que ocorria aí dentro...

Bum engoliu em seco "Deu para ouvir do lado de fora da enfermaria?".

— Ninguém mais tem a chave, senão a enfermeira. Fiquei meio sem entender, ele conseguiu entrar antes dela fechar a porta? Ou ele já estava aí? De qualquer forma, quando notei o que acontecia e que pelo visto não tinha jeito, passei no seu quarto e peguei algumas roupas, seus produtos de higiene e alguns extras. Me proibiram de entrar, quando finalmente abriram a porta... Você... Não pude ver você então... – ela começou hesitante: — Você foi mordido, né?

—... É... – falou em um sussurro.

— Bom, devo poder te ver agora... – a garota entrou na enfermaria, desligando o celular e indo até Nari que permitiu que ela visse Bum, depois se dirigiu a cama onde ele estava.

— Não acredito! – fitou diretamente o pescoço do rapaz, fazendo-o automaticamente esconder a mordida com a mão: — Foi o Sangwoo, né? Eu o vi saindo daqui... Você não tem ideia da loucura que foi depois que saiu correndo...

Bum pensou em cavar pessoalmente a cratera, nunca se importou com o que as pessoas pensavam dele, mas também nunca quis chamar tanto a atenção.

— Os alphas pareciam enlouquecidos, alguns passaram mal.

"Eu sou uma aberração..." pensava o garoto.

Myung-Hee o observou atentamente: — Precisa de ajuda para ir até o chuveiro, ou consegue sozinho? Aqui – dizia abrindo a mochila de Bum, retirando a toalha e os produtos de higiene.

— Consigo sozinho. Mas antes, você poderia ligar para creche? Obviamente não vou trabalhar hoje... – murmurou o rapaz, puxando melhor a calça por debaixo do cobertor e levantando.

A dor foi torturante, pensou por um instante que iria cair, mas a garota o apoiou enquanto respondia.

— Já liguei. Contei que levará um atestado. Tem certeza que consegue sozinho?

— Obrigado. – respondeu Bum: — Tenho sim, desculpe... – ele se afastou, indo em direção ao banheiro.

Não acreditava que tomaria banho no chuveiro da enfermaria... Todos sabiam o porquê ele existia e consideravam nojento tomar banho ali. Toalete de sêmen era o apelido, mas, no momento agradecia aos céus por aquilo... Seria muito pior ter de voltar ao dormitório daquele jeito.

Bum entrou no banheiro, trancou a porta e ligou o chuveiro. Era um local pequeno e comportava apenas o básico, mas era mais do que o suficiente naquele instante. Fechou os olhos e tentou não pensar.

Não queria que sua mente ficasse lembrando o que havia acontecido, mas, ao sentir o esperma escorrendo por suas pernas, foi impossível não lembrar. Bateu de leve a cabeça na parede.

— Por quê?

Por que as coisas haviam chegado naquele ponto? E agora? O garoto corou violentamente enquanto penetrava um dedo para retirar tudo que Sangwoo deixara para trás...

Terminar o banho fora mais difícil do que pensara, queria ficar o dia inteiro ali... Talvez se colocasse a pressão no máximo morreria afogado, não parecia uma ideia tão ruim. Desligou o chuveiro, se secou, vestiu a muda de roupa e saiu.

A enfermeira o esperava, e ao lado dela Myung-Hee.

— Senhor Yoon Bum, creio que devemos conversar em particular. – começou Nari.

Myung-Hee revirou os olhos e depois fitou Bum.

— Te espero lá fora. Só antes me passa tudo – ela apontou para uma sacola, onde Bum pôs a roupa suja. Depois a amarrou e colocou dentro da mochila junto com os produtos de higiene: — Até logo. – e saiu.

Bum sentou na cadeira que a enfermeira apontava: — Primeiro, peço desculpas. Sei que sua vida não será mais a mesma a partir de hoje, e em parte isso é minha culpa.

O ômega ficou calado, não sabia o que responder nessa situação.

— Também devo deixar algumas coisas claras ao senhor, uma delas é que o senhor está oficialmente registrado com o senhor Oh Sangwoo.

O rapaz já esperava por isso... A enfermeira estava presente quando ambos perderam o controle – ele baixou a cabeça, sem graça, obviamente Sangwoo não poderia fugir então foram encontrados juntos.

— O senhor Oh Sangwoo decidiu que irá assumir plena responsabilidade.

Bum ficou chocado, ele iria assumir plena responsabilidade? Não sabia o que fazer com essa informação.

— Portanto a partir de hoje passará a morar com o senhor Oh Sangwoo, devido às mudanças físicas e biológicas que sofrerá nos próximos dias, o certo é permanecer ao lado dele.

O ômega pensou seriamente no plano de se afogar no chuveiro. Ele ia morar com Sangwoo? Com um alpha que nem o conhecia e que provavelmente o odiava? Sentiu uma pontada dolorosa ao pensar dessa maneira, mas não deixava de ser verdade.

— Eu não posso continuar morando em meu dormitório? – perguntou Bum, não sabia se estava pronto psicologicamente para ser odiado.

— Infelizmente isso tornaria a transição dolorosa demais, a presença dele é que vai o acalmar durante este período. Além dele ter escolhido assumir plena responsabilidade, portanto, vocês não são apenas registrados, são oficialmente um par senhor Yoon. – a enfermeira o fitava, parecia compreensiva e preocupada ao mesmo tempo.

Essa parte era o que Bum considerava mais injusto. Alphas tinham escolha, ômegas não. Ele não podia escolher não acompanhar Sangwoo. Não que não quisesse ficar com ele, mas...

"Não consigo acreditar, por que ele iria querer assumir plena responsabilidade? Não é normal aceitar as coisas dessa forma, ele nem ao menos, me conhece... Foi por causa do meu cheiro? Não, impossível... O cheiro ativa sexualmente, não cria sentimentos...".

Se havia aprendido uma coisa sendo ômega a vida inteira, era que nada nesse mundo é de graça.

"Mas o que ele iria querer de mim...?".

— O professor Yang Seungbae foi o escolhido para observá-los durante algum tempo.

O rapaz entendia isso... Era obrigatório por lei um par recém-registrado possuir o que todos costumavam chamar de guardião. Esses guardiões eram escolhidos dependendo do caso. Como o deles ocorreu na universidade em que frequentam fora um professor.

"Alguém que ambos conhecemos... Como tivemos alguns semestres em comum com o professor Yang, deve ter sido esse o critério...".

— Hã... Senhor Yoon... – continuou a enfermeira pegando uma ficha: — O seu cio deveria ter iniciado amanhã, mas ele não só se adiantou como a mordida o interrompeu. Correto?

— Sim. – talvez esse fosse o motivo, pensava Bum.

"Alphas não dão escolha aos ômegas, pois pensam que também não tiveram e foram obrigados a mordê-los.".

— Pelos registros é a primeira vez que algo assim acontece com o senhor, contudo, teremos de observar seu próximo cio, que deve ocorrer em um mês, para ver se o senhor volta a se regularizar ou se deverá lhe ser dado supressores mais potentes. De toda maneira, marquei uma consulta com a médica da enfermaria central ômega para você. Infelizmente ela não trabalha hoje, mas estará lá segunda. Aqui está seu horário. – lhe entregou um papel.

— E por último – ela se virou, pegando mais alguns papéis e entregando ao rapaz: — Se você sofrer qualquer tipo de violência por parte do senhor Oh, deverá reportar imediatamente a este número, está bem?

Bum piscou muitas vezes antes de pegar os papéis. Sabia que Sangwoo era um alpha, e provavelmente ele o odiava por tê-lo 'obrigado' a mordê-lo, mas... Violento? Corria realmente esse risco? Suspirou profundamente e levantou.

— É isso?

— Sim, era isso. Por favor, não falte a sua consulta senhor Yoon.

O garoto andou até a porta da enfermaria.

— Obrigado por tudo. – disse educadamente.

Enquanto saía olhou de canto para a enfermeira que já voltara a seus afazeres.

"Betas...".

O rapaz sempre teve uma leve sensação que os betas eram aqueles que mantinham tudo em ordem, contudo, eram os que menos entendiam. Lembrou vagamente dos betas em sua sala tapando os narizes enquanto levantava...

"Para chegar ao ponto deles sentirem, devia estar muito forte.".

Do lado de fora, respirou profundamente enquanto era puxado por Myung-Hee. A garota parecia não se conter de ansiedade.

— O que ela queria falar?! Pode desembuchar tudo!

Bum parou refletindo, não tinha ideia por onde começar.

— Ele vai assumir plena responsabilidade.

Myung-Hee ficou calada, e então meio chocada: — Não. Não pode ser. Por quê?

— Eu não sei... – murmurou o ômega.

A garota pareceu mais apreensiva, aquilo não era bom. Não importava o que os outros dissessem. Como ômega que conhecia as periferias e já vira o pior do submundo, sabia exatamente o que realmente significava: — Ele quer te matar.

Bum olhou em completo choque para a garota, de onde ela tirara aquilo?

— Não me olha assim! Não estou brincando! Isso é o que mais acontece. Ele quer assumir plena responsabilidade? Por quê? O que ele ganha com isso? Bum, cuidado, por favor! Alphas só assumem plena responsabilidade em duas ocasiões. Na primeira eles se apaixonaram e planejaram a mordida, na segunda – ela parou realmente preocupada.

Bum a fitou, respeitando sua pausa dramática, e incentivando-a a continuar: — Na segunda...?

— Eles querem matar o ômega para se livrarem de uma vez por todas do vínculo. – era difícil, ela sabia, existiam muitas leis para prevenir isso, e o governo parecia tentar evitar... Mas nada nesse mundo era impossível para quem possuísse dinheiro suficiente.

— Você acha que Sangwoo seria capaz de matar alguém...? — Bum não pensava isso, a última coisa que o alpha parecia ser era violento: — E você não disse que seria "uma sorte" ser parceiro dele?

— Eu falei isso, mas caso vocês se conhecessem, ele sentisse seu cheiro e se apaixonasse!

Bum suspirou 'se apaixonasse', Myung-Hee realmente pensava que Sangwoo poderia se apaixonar por ele?

"Ele pode ter qualquer um, porque se apaixonaria por mim?".

A garota o fitava, séria, continuando a falar: — Não em um ataque reprodutivo, onde o único objetivo é foder até você engravidar e ele te marcar por puro instinto! – parecia irritada: — Eu não sei se ele é violento ou não, mas você deve tomar cuidado! – ela parou, refletindo: — Você irá morar com ele?

— Sim... Aliás, pensei em nos encontrarmos amanhã, para pegar o resto de minhas coisas. – não era como se ele tivesse muita escolha, e mesmo que fosse algo temporário, precisaria delas.

— Certo, certo, combinado. – ela fez um movimento rápido com a mão, como se quisesse voltar logo ao assunto principal: — Bum, se você vai morar com ele, terá de conquistá-lo.

O rapaz piscou muitas vezes.

— Não faz essa cara, é sério. Você terá de usar todo o seu charme, fazer ele te desejar mais do que tudo, é a melhor forma de tentar ficar vivo.

O ômega encarou a garota, ela estava falando sério, ou fazendo uma piada? Pela expressão dela, tinha total certeza que ele era capaz de seduzir Sangwoo...

"Ela enlouqueceu... Sou eu... Como eu poderia seduzir alguém como o Sangwoo...? Aliás, como eu poderia seduzir qualquer um...?".

— Então. Vamos? – disse Sangwoo ao lado do professor Yang Seungbae.

Eles haviam chegado há poucos segundos. Bum desviou imediatamente os olhos. O simples cheiro dele já o entorpecia. Como viveria ao lado dele? Era tortura e teria de passar por isso... O pior era saber que aquela mordida não significava nada.

"Foi tudo instinto..." – o garoto apertou a alça da mochila com mais força.

— Tá. – disse em um sussurro: — Tchau Myung-Hee, te vejo amanhã para pegar o resto de minhas coisas.

Sentia seu coração na mão quando se despediu da garota. Não queria ir, e não conseguia olhar para o alpha, mas notava na pele que ele lhe observava. Não sabia o que fazer. Por que era tão ruim nisso?

— Nesse momento normalmente digo "eu não mordo", mas você é uma prova viva de que estaria mentindo. – Sangwoo disse com um sorriso.

Bum virou-se, surpreso, fitando o alpha e ficando vermelho. Como ele conseguia falar daquele assunto dessa forma?

— Sangwoo, espero que você seja responsável durante o final de semana. – o professor olhava o jovem alpha de forma extremamente sóbria.

O rapaz sentiu o braço do alpha envolta de si: — Não se preocupe professor. Não quero ter filhos tão cedo. – respondeu Sangwoo deixando o ômega ainda mais vermelho, se isso era possível.

— Vamos. – disse o alpha e sem nenhum receio, pegou a mão do ômega e o puxou em direção ao estacionamento. Chegando lá, abriu a porta de seu carro para Bum, que entrou meio inquieto.

O ômega estava concentrado na janela, refletindo sobre o que faria a partir daquele momento. Ouviu Sangwoo entrar, a porta do carro fechar e uma batida violenta no volante. Assustado, virou-se para o alpha, mas esse não parecia se importar com sua presença.

"Não deveria ter vindo... Talvez ele seja violento e realmente queira me matar." o rapaz suspirou.

"Não, não... Ótimo Myung-Hee, agora vou ficar cheio de paranoia..." pensava enquanto o carro começava a mover-se. O silêncio era mortal até o alpha começar a falar.

— O que você acha que vai acontecer agora? – disse sério, olhando apenas para a estrada: — Se você espera um relacionamento, está enganado. Você é meu par, mas nós não somos um casal, entendido? Vou ficar com você até dar um jeito de nos livrarmos desse vínculo.

Bum sentiu um aperto no peito. Já sabia disso... O garoto observou os próprios joelhos e depois o alpha ao seu lado. Sangwoo parecia irritado, mas, mais do que isso, cansado.

"Foi um dia realmente exaustivo...".

No fim de tudo, o que esperava? Que o alpha criasse sentimentos por ele milagrosamente? Sabia que aquela mordida havia sido um erro.

"Não deveria ter me deixado levar, mas ao mesmo tempo, não sei como poderia ter me controlado...".

Entendia a sutil diferença entre ser um par e ser um casal, qualquer ômega registrado com alguém que assumira plena responsabilidade, tinha um par, agora, nem todos eram casados e tinham uma família. Suspirou.

Alguns pares inclusive eram usados apenas como reprodutores – não que alphas e betas não pudessem ter filhos, mas ômegas eram muito mais férteis e alphas normalmente não queriam gestar a criança, portanto muitos ômegas eram úteis a casais alphas.

— Entendi. – disse em um murmuro.

Seguiram o resto do caminho em silêncio, ao chegarem, Bum desceu do carro observando a fachada da casa. Ela era enorme – comparada as outras casas em que já morara.

— A senha é 54288. Não conte a ninguém e não traga ninguém aqui, não gosto do cheiro de outras pessoas em meu território, o seu já vai ser mais do que o suficiente... – Sangwoo começou a falar.

Bum se posicionou logo atrás dele "54288... 54288... Não posso esquecer..." o alpha de repente se virou e colocou o rosto próximo a seu pescoço. "Quê...?" o moreno sentiu um grito silencioso travado em sua garganta "O quê? Ele... Ele está me cheirando...?" o ômega foi ficando mais e mais vermelho.

— Sangwoo...? – disse confuso.

O alpha não deu maiores explicações em relação a sua atitude estranha, apenas se afastou, entrando na casa e começando a falar: — Tem um quarto vazio no andar de cima. Pode ficar com ele. Vou tomar banho primeiro, depois você pode ir. Espero que tenha trazido uma toalha, pelo menos.

— Eu... Eu já tomei banho na universidade. – disse Bum, ainda vermelho: — Então, irei direto para o quarto. Boa noite Sangwoo.

Sangwoo não respondeu, apenas se afastou, entrando no próprio quarto.

"Ele ter tomado banho explica não ter nem rastro do meu cheiro...".

Do que importava ter o seu cheiro naquele ômega ou não? Ele abriu o armário, pegando um conjunto de lençóis, uma fronha e um cobertor. Saiu logo em seguida entregando tudo ao menor e se dirigindo imediatamente ao banheiro, antes de entrar, viu Bum subir as escadas.

Ele andava de forma estranha e demorou alguns segundos para Sangwoo se dar conta do porque disso. Entrou no banheiro e fechou à porta, aquilo o deixara anormalmente sem graça.

Ligou o chuveiro e se pôs embaixo da água. Tentou não pensar em todos os motivos que fizeram Bum andar daquela forma, ou do gemido dele ou de seu cheiro. Por que tudo aquilo parecia enraizado em sua mente? Sempre foi tão fácil esquecer.

Sexo era algo muito simples, e o usava normalmente para conseguir status, dormir com ômegas para mostrar força, dormir com alphas para subjugá-los. Nunca nada disso lhe pareceu complicado.

Sangwoo suspirou profundamente, sinceramente, nem em sua primeira vez com um ômega perdera tanto o controle... Não se lembrava do cheiro dela, mas tinha certeza que estava amarrada – como todas as outras.

Seu pai sempre fazia questão de amarrá-las. 'Amarradas, amordaçadas e vendadas, acabam emitindo menos feromônios. É bom para treinar.' Dizia ele... Velho nojento. O odiava profundamente e se pudesse matá-lo novamente, o faria. Por causa dele sua mãe... – fechou os olhos, não queria pensar nisso, desligou o chuveiro.

O alpha saiu do banheiro já vestido, foi para a varanda, fumou um cigarro e depois caminhou tranquilamente para o quarto. Deitou na cama, colocando os braços sobre os olhos, se virou e olhou o celular ao seu lado, pegando-o.

Mais de trinta mensagens, a maioria de sua manada: — Amanhã vai ser um inferno. – murmurou antes de finalmente adormecer.

Sábado

Bum acordou com fome. Era muito raro sentir tanta fome, será que tinha alguma coisa haver com a tão falada transição?

Desceu as escadas em dúvida se deveria comprar algo para comer, ou preparar, afinal, Sangwoo ainda dormia e não fazia ideia de como o alpha reagiria ao vê-lo mexer em sua cozinha.

Sua barriga roncou e decidiu preparar algo, se Sangwoo reclamasse, comprava os ingredientes novamente.

Começou a cozinhar, fazendo gyeranmalyee, legumes e doenjang-jjigae. Por alguma razão que não conseguia explicar muito bem, acrescentou mais carne na porção de Sangwoo.

De repente sentiu o cheiro do alpha e seu coração disparou. Fechou os olhos, tentando se acalmar e ao mesmo tempo desejando que ele não ficasse furioso.

— Você sabe cozinhar...

Percebeu o odor do alpha cada vez mais próximo, quando pensou em sair de onde estava, travou. O alpha encontrava-se próximo o suficiente para fazer seu perfume envolvê-lo por completo, mas, não tão próximo a ponto de tocá-lo.

— O cheiro está bom... – Sangwoo falou rente ao seu ouvido, fazendo um arrepio percorrer sua espinha. Engoliu em seco.

O alpha se afastou, sentando-se à mesa e esperando. Bum terminou de cozinhar e colocou a mesa, sentando a frente e começando a se servir.

Comiam em silêncio, até o alpha quebrá-lo: — Devo apresentá-lo a minha manada, não há muita escolha em relação a isso.

Bum o fitou.

— Tenho a impressão de já tê-lo visto antes de ontem, por acaso, já nos conhecíamos?

— Estudamos juntos. Semestre passado... Fundamentos do Direito Alpha. – Bum falou baixo, continuando a comer.

— Ah sim, é obrigatório a todos os cursos, junto com Fundamentos do Direito Ômega e Beta. Bom, eles são tão diferentes que até faz sentindo estudá-los separadamente, só não sei se adianta muito. Qual curso frequenta?

Bum piscou: — Educação Infantil Especializada. – desviou o olhar enquanto voltava a comer.

— Isso realmente é bem clássico vindo de um ômega. – Sangwoo voltou-se para a comida: — Acho que é o suficiente para matar a curiosidade deles, caso me perguntem algo antes de apresentá-lo. – o celular do alpha tocou e ele atendeu: — Sim? Ah... Já mandei uma mensagem avisando que iria levá-lo, não precisava ligar. Sim, está combinado, tchau. – ele desligou: — Irritante e barulhenta. – murmurou e olhou o garoto a sua frente.

— Fique pronto às oito. Até lá, não me interessa o que vai fazer. – terminou de comer, levantou e fitou o ômega por um tempo, depois foi até seu quarto e lhe trouxe uma camisa: — Vista isso enquanto estou longe. Assim não sentirá dor. – o alpha então pegou o próprio casaco e saiu.

Bum encarou a camisa por um tempo...

"Ele não se interessa com o que vou fazer o dia inteiro, mas está preocupado que eu sinta dor...?".

Depois levantou, lavou a louça, secou e guardou. Foi ver seu celular e notou mais de trinta mensagens enviadas por Myung-Hee, a última, fazia três minutos.

Lee Myung-Hee

Se você não me responder em cinco minutos, vou pessoalmente à casa de Sangwoo e arrombarei o local!

"Ela está realmente preocupada." – pensava o rapaz enquanto escrevia rapidamente, ser amigo daquela garota lhe ensinou que ela era do tipo que cumpria ameaças.

Estou vivo.

Em poucos segundos ouviu o bip de seu celular, nova mensagem.

Lee Myung-Hee

Finalmente! Sinal de vida! Você vai vir buscar suas coisas?

Quero te ver! Ocorreu tudo bem?

Ele não te machucou, não é?

Bum pensava no que escrever, acabou enviando o que lhe veio primeiro à mente:

Vou. Ok. Sim. Não. Podemos nos encontrar na frente do dormitório.

E acho que estou com um problema...

O celular tocou, a garota estava lhe ligando...

"... Ela sabe que não gosto de falar...".

Mas se não atendesse ela poderia começar uma teoria conspiratória, resolveu atender.

— Problema? Qual? – começou a voz do outro lado da linha.

— Tenho que conhecer a manada dele e não sei o que fazer... – disse sem graça.

— Ah! Eu sei o que você deve fazer!

Bum piscou: — Sim?

— Compras! – o garoto suspirou: — Eu estou falando sério Bum! Você não pode conhecer a manada dele parecendo um saco de batatas! Não dê mais motivos para ele te querer morto!

—... Eu não... – ele começou, mas era melhor não discutir: — Vou me arrumar e ir para o dormitório, se você quiser, pode me encontrar lá... Tchau. – e desligou.

Depois tomou um banho, se vestiu – colocou a camisa de Sangwoo, que conseguiu ficar maior que as suas, pôs roupas para lavar, pegou seu casaco e saiu.

"Um saco de batatas... Bom, hoje estou me sentindo um saco de batatas..." pensava o garoto enquanto andava.

Sentiu o cheiro da camisa, aquilo realmente ajudava. Estava com um leve desconforto, principalmente na região do pescoço, mas não com dor.

"Acho que a transição será tranquila...".

Seu pensamento foi para as roupas, as suas eram tão ruins assim? Isso daria motivo para ele querê-lo morto? Quer dizer, nunca pode comprar nada muito caro, mas... – ele subiu para o ônibus.

Teria que começar a pagar passagem agora, antes podia ir a pé, mas a casa do alpha era mais distante da universidade que seu dormitório... – sentou em um dos bancos.

Talvez devesse realmente comprar algo... "Mas isso vai adiantar alguma coisa? Quero dizer... É uma manada de alphas. Eles em sua maioria só usam roupas de marca...".

Além disso, valia mesmo a pena se arrumar para isso?

"Mesmo que seja para me apresentar a manada de Sangwoo, não é como se significasse alguma coisa, no fim, é pura formalidade.".

Bum suspirou. Não queria admitir, mas no fundo, pensava em fazer isso apenas para evitar que o alpha fosse humilhado de alguma forma por causa dele...

"Ele não se importa, por que tenho que me preocupar com isso...?" – olhou para o chão enquanto descia do ônibus.

Certo. Ia comprar a roupa... Não queria dar mais motivos para ser odiado, mas também não podia criar nenhuma esperança por causa de algo tão insignificante. Frisou a última parte diversas vezes em sua mente.

Myung-Hee o aguardava na frente do dormitório.

—Uou, mais saco de batatas que nunca! – riu a garota assim que se viram.

Primeiro subiram juntos para o quarto de Bum, ele trouxera algumas sacolas para pôr seus pertences. Ela o ajudou com exceção do que pertencia ao ninho, àquilo era muito pessoal para um ômega, tanto que o rapaz colocou em uma sacola a parte. Depois passaram juntos na casa de Sangwoo, contudo, ele não pode deixá-la entrar.

— Ele é territorial. – explicou o ômega a garota.

— Tudo bem, espero aqui fora. – disse Myung-Hee enquanto o rapaz entrava e largava suas sacolas no quarto.

Desceu em seguida e saiu. Olhou Myung-Hee que parecia esperançosa.

— Compras..., não é? – disse timidamente.

— Yeah! Mas primeiro, almoço! – a garota riu.

Acabaram comendo Odeng – era delicioso e valia a pena, mas estava mais para um lanche do que almoço. Depois seguiram para o Centro Comercial, procurando o chamado BBB de Myung-Hee (Bom, Bonito e Barato).

Após alguma pesquisa, entraram em uma das lojas – que tinha diversas peças em promoção. Bum escolheu um suéter com gola alta preto, foi vestir-se em um dos provadores e se achou decente.

"Não ficou ruim..." – saiu para a garota avaliar. Ela sorriu largamente, apontando o polegar para cima e lhe entregou uma calça jeans. O rapaz voltou para o provador, colocando a calça, mas a achou muito justa.

— Myung-Hee... – suspirou, saindo.

— Ficou perfeito! – disse a garota: — Você vai levar?

— A calça ficou justa... – o garoto comentou: — Vou pegar um número maior...

— Não...! – ela baixou os braços, parecendo profundamente decepcionada: — Essa realça seus atributos...!

O ômega a olhou um tanto severo: — Você sabe que não gosto...

— Mas o suéter que escolheu é longo, vai cobrir atrás...

— Myung-Hee...

— Está bem. Espera um pouco. – ela saiu por instantes e então voltou com outra calça: — Aqui. – disse entregando relutantemente.

O ômega entrou novamente no provador, colocou a calça nova... Não estava folgada como gostava de usar, mas também não estava tão justa quanto à outra. Olhou-se no espelho.

—... Está bom... – murmurou.

Saiu e Myung-Hee sorriu ainda mais: — Você está lindo. – disse a garota.

Bum comprou o conjunto.

Os dois foram juntos até a parada de ônibus. Myung-Hee tagarelando sem parar sobre como era importante se apresentar bem a manada de Sangwoo, que ficariam cuidando cada passo que ele dava, afinal, era o ômega do líder. Mas que ele não deveria ficar nervoso – ele não estava... Até ela começar a falar – e que na verdade aquilo era um bom sinal. Ela realmente não esperava que o alpha tomasse aquela atitude.

Enfim, Bum não queria admitir, mas ficou um pouco aliviado quando seu ônibus chegou.

O ômega entrou na casa de Sangwoo, como ainda tinha algum tempo, terminou os afazeres domésticos antes de tomar um banho e se arrumar. Não sabia o que esperar daquela noite, mas tinha esperanças que ocorresse tudo bem.

O alpha apareceu meia hora antes do combinado, entrou e viu o rapaz esperando-o. Surpreso, provocou: — Olha, você consegue se vestir de forma descente.

Envergonhado, o ômega baixou o olhar, aquilo era para ser um elogio? O alpha então foi para o quarto, saindo em seguida com algumas roupas, entrou no banheiro e depois de algum tempo foi vestido até a porta. Estava lindo, com terno bordô, uma camisa preta e cabelos para trás.

— Melhor irmos logo. – Sangwoo disse sério.

Bum respirou profundamente, pegando seu casaco e saindo. Seria uma longa noite.

Observava as ruas enquanto Sangwoo dirigia. Era como mudar de mundo. O bairro do alpha era bom – muito melhor do que aquele em que crescera, mas, o local onde estavam naquele momento, era outro nível.

"Um dos bairros majoritariamente alpha... Sempre os evitei.".

O moreno lembrou vagamente do pequeno período em que morou apenas com a mãe em uma das periferias da cidade, um bairro majoritariamente ômega... A lembrança lhe trazia um leve enjoo. E apesar de tudo, sentia que com certeza ficaria mais confortável se voltasse para lá, do que estando ali.

Sangwoo estacionou na frente de uma das casas. Ela era enorme, possuía três andares, foi construída com uma arquitetura moderna e algumas de suas paredes eram de vidro fumê. Cercada por um muro branco, tinha uma fachada bem cuidada e um portão. Ele desceu e o ômega acompanhou-o.

Andavam em silêncio quando Bum notou um grupo de alphas observando-os do outro lado da rua, pareciam beber em frente à outra daquelas casas imensas, alguns riam. Tinha a sensação de já tê-los visto antes, mas não sabia exatamente onde, o mais alto deles – um moreno de olhos claros – o encarou, fazendo um arrepio aterrorizante passar por seu corpo. O rapaz automaticamente segurou a roupa do alpha, que se virou.

— Algo errado? – perguntou Sangwoo, desinteressado.

O ômega percebeu que estava incomodando e soltou: — Não. Desculpe. – murmurou. Bum não conseguia parar de se sentir em alerta. Era como uma ovelha em meio a matilhas de lobos.

Olhou para o portão, onde uma garota muito bonita os aguardava. Tinha os cabelos escuros, ondulados até um pouco abaixo dos ombros, usava um vestido de lã vermelho e parecia levemente emburrada: — Está atrasado.

— Desculpe Jieun. – sorriu o alpha: — Mas o trânsito estava impossível. Este é Yoon Bum.

A garota fez um bonito beicinho: — Mentiroso. — murmurou, entretanto, sorriu de volta e depois olhou analiticamente para Bum, ficando um pouco mais séria, contudo não removendo totalmente o sorriso: — O seu par? – perguntou despreocupadamente.

— Que outro ômega eu traria? – disse o alpha em tom brincalhão.

— Não, é que... Pensei que ele seria diferente. – ela ficou vermelha enquanto passava a mão no cabelo distraidamente e Bum desviou os olhos.

Não sabia o que a garota queria dizer, mas entendia que o diferente não era nada positivo.

— Bum. – o alpha se virou para o ômega: — Esta é Min Jieun. Ela que organizou sua festa de boas-vindas. E é nossa anfitriã hoje.

O rapaz engoliu em seco "Festa...?". Voltou seu olhar à moça.

— Prazer em conhecê-la. – cumprimentou formalmente.

Min Jieun devolveu o cumprimento e os levou para dentro da casa.

Eles foram até uma sala espaçosa. Os móveis haviam sido cuidadosamente deslocados para permitir que as pessoas dançassem no centro. Havia uma mesa com vários quitutes e bebidas e um DJ tocava música, mas parou imediatamente quando os dois entraram. O pequeno grupo que já se encontrava ali virou em direção a eles e era totalmente alpha.

"Todos da manada de Sangwoo..." pensou o ômega, e o fato de todos ali possuírem o cheiro de seu líder – em maior ou menor quantidade, acabou fazendo Bum diminuir seu alerta. Nenhum deles o feriria, era o que seu instinto dizia.

O alpha começou a apresentá-lo. Havia aqueles que o analisavam de forma um tanto crítica, alguns pareciam não gostar da forma como se vestia outros de sua aparência como um todo. Por fim tinha os que se viam mais curiosos do que outra coisa, como se quisessem adivinhar o que exatamente Sangwoo descobrira para escolher mordê-lo. Contudo em sua maioria não falavam nada além de algum cumprimento formal.

— Creio que o apresentei a todos. – ele fitou o menor: — Pode fazer o que quiser – o alpha sorriu: — Garanto que ninguém irá incomodá-lo. – e saiu, deixando-o sozinho.

O ômega não tinha ideia de como interagir com aquelas pessoas, então, acabou indo para um canto da sala, sentando próximo à janela. Era tudo uma questão de formalidade. Não deveria realmente estar ali, ficaria naquele canto até a festa terminar.

"Festa..." pensou vagamente. "Isso vai ser realmente uma festa alpha...?".

Baixou o olhar e observou o jardim do lado de fora. Era muito bonito e bem cuidado, reparou que havia uma piscina e empregados que pareciam estar arrumando o local – com mais bebidas.

O rapaz se virou, voltando a observar o centro da sala, os alphas pareciam mais animados que nunca. O DJ caprichava na playlist e Sangwoo conversava com alguns rapazes enquanto bebia.

Bum sentiu alguém observá-lo e mirou em direção à pessoa, era Min Jieun. Ela sorriu quando notou que ele correspondia o seu olhar, pegando o celular em seguida. O ômega não entendeu tudo que ela disse, mas tinha certeza que falara algo como "Pode trazê-los agora." estranhamente encarando-o.

Em poucos minutos mais pessoas entraram no local, nenhum alpha novo, mas muitos betas e um total de três ômegas. Alguns dos recém-chegados já foram na direção de alphas específicos, beijando-os.

Sim... Seria uma típica festa alpha, conhecidas por possuírem excelentes bebidas, comidas e orgias. O que esperava da manada de Sangwoo? Famosa por seus membros terem só duas formas de entrada. Sexo ou luta.

Bum observou os ômegas, dois deles estavam com as coleiras típicas de prostituição – sabia disso, pois Myung-Hee sempre destacava como elas eram diferentes das que usava – enquanto o outro, que cheirava particularmente doce, estava sem nada.

Seu coração falhou uma batida. Só conhecia um alpha que conseguiria dormir tranquilamente com um ômega sem coleira.

Min Jieun se aproximou, estava acompanhada de uma garota de cabelos curtos castanhos e saia justa. Se Bum não se enganava, Sangwoo a apresentara como Ah Young. A morena cochichou alguma coisa, que fez sua acompanhante rir e se afastar, deixando-a sozinha com o ômega.

— Deveria beber mais. – falou com um sorriso Min Jieun: — Será uma longa noite e Sangwoo deve ficar ocupado daqui a pouco.

Sabia o que ela queria dizer, não respondeu a provocação, mas isso pareceu não impedir Min Jieun de sentar ao seu lado e servi-lhe um copo de bebida.

— Viu o ômega sem coleira? – ela sorriu ainda mais: — Bonito não? Foi selecionado especialmente para ele. – parecia orgulhosa e Bum a fitou.

"Selecionado...? É ela quem escolhe com quem o Sangwoo dorme? Que nível ela está nessa manada?".

— Sangwoo disse que escolheu te morder. – continuou a alpha dando uma risada discreta, como se não cresse realmente naquilo: — Mas, como pode imaginar, nem todos acreditaram, portanto ele tem que provar, não é? Que continua o mesmo. Se bem que – ela pareceu refletir: — Se ele realmente não quiser fazer nada, ninguém irá obrigá-lo. Afinal, é nosso líder.

"Mas ele irá perder parte do respeito que conquistou...".

Bum fitou a bebida, aquela alpha agia como se ele não soubesse como funcionava tudo aquilo.

"Sei mais do que gostaria.".

Suspirou. Lembrando-se da esposa de seu tio, a maior vítima por ele não ser líder de uma manada e aceitar ser subordinado de qualquer um que lhe desse um pouco de álcool.

Já imaginava que Sangwoo continuaria com sua rotina normalmente, só não pensava que estaria no mesmo lugar que ele quando isso acontecesse. Sentiu uma pontada dolorosa. Não queria estar ali.

O alpha já conversava com o referido ômega que intensificou o aroma. Bum virou o rosto, cheirava a flores primaveris e doces, era agradável e gentil.

"Tão diferente do meu..." – se sentia triste e um tanto frustrado.

A garota continuou: — Ainda lembro-me da última... – disse descontraidamente enquanto observava os dois subirem as escadas. Sangwoo realmente não perdia tempo.

O ômega lembrou-se quem dormira com o alpha antes dele, o que provavelmente ocorreu na última festa que deram. "Myung-Hee..." o rapaz se virou para a alpha, que pareceu satisfeita por Bum finalmente lhe dar atenção e prosseguiu.

— Era baixa, bonitinha e usava coleira – ela deu um risinho: — Tirou, claro, antes de transar com ele, mas continuou sendo uma puta.

O copo nas mãos de Bum quebrou.

A garota se afastou, fingindo-se assustada: — Nossa! Esses copos... São realmente frágeis, não? – sorriu: — Acho que precisa de um curativo. – chamou uma empregada que veio prontamente: — Faça um curativo na mão dele, sim?

— Sim senhora. – a empregada se afastou indo buscar o necessário.

— Espero que se divirta. – disse a alpha ao levantar: — Depois que ela terminar o curativo, por que não vai à piscina? Garanto que vai gostar.

Bum permaneceu em silêncio. Queria responder, falar que para alguém que supostamente apenas pertencia à manada de Sangwoo, parecia mais uma esposa extremamente ciumenta e irritante que destilava veneno devido à infidelidade do marido ao invés de enfrentá-lo. Contudo as palavras estavam presas em sua garganta, entaladas, sufocando-o em agonia.

Fechou os punhos, o que fez os cacos de vidro penetrarem mais profundamente sua pele e o sangue cair no chão. Era um covarde. Por que não disse nada? A empregada se aproximou, pegando suas mãos e começando a tratá-las. As pessoas ao redor observavam-no e riam, murmuravam coisas como 'É ele?', 'Tem certeza?', 'Por quê?' – se sentia humilhado e sozinho.

O ômega observava a empregada enrolando a faixa sobre sua mão.

"Ela falou de Myung-Hee... Ela nem a conhece! Não... Pareceu mais que foi porque eu a conheço... Como ela sabe? Ela queria me provocar, por quê? Será que não tem certeza que Sangwoo me mordeu por impulso? Está com ciúmes de mim? – ele sacudiu a cabeça em negação — Não faz sentido! Talvez quisesse me testar? Ou talvez me colocar 'no meu lugar'... Provavelmente quer ser esposa do Sangwoo... Queria me mostrar que não se importa com quantos ômegas ele dorme? Seria isso?".

Sentiu um arrepio percorrer seu corpo.

"O quê...?" – o vínculo, mesmo ainda em transição, fez com que conseguisse sentir Sangwoo se excitando, mais do que isso... Era como se visse o alpha diante de si, o cheiro, o gosto, conseguiria descrever tudo.

"Não, espera!" – ficou vermelho. Eles estavam se beijando, o alpha ficara ainda mais excitado e o corpo de Bum correspondia, ficando quente.

"Não quero sentir isso! Não quero sentir o que ele faz com outra pessoa!" – levantou-se.

O movimento foi tão repentino que acabou por assustar a empregada, ela ainda não havia terminado, contudo para o rapaz, não importava. Iria embora. Não ficaria ali nem mais um segundo. Andou aos tropeços, esbarrando nas pessoas, algumas reclamavam e o xingavam, mas ele não ouvia, apenas pegou seu casaco e saiu.

"Vou a pé." Pensava tentando evitar as sensações em seu corpo. Respirava com dificuldade, talvez se fosse para longe aquilo passaria...

Caminhou mais rápido. Estava começando a ficar excitado. Entre suas pernas a lubrificação já começava a despontar e tudo que conseguia fazer racionalmente era ter vontade de chorar e continuar andando. De repente, já não era apenas excitação, era dor.

Seu pescoço doía como se enfiassem uma pequena lâmina de lava exatamente onde os dentes de Sangwoo o marcara. A dor era alucinante, mas continuou. Preferia a dor. Seu corpo gritava que não conseguia sentir a proximidade do alpha, contudo Bum não parava. Os olhos vermelhos evidenciando seu esforço, só queria ficar em paz.

Subitamente, todas as sensações se foram. Foi como se um alarme vermelho soasse diretamente em sua alma. Aquilo durou apenas alguns segundos, logo a dor voltou com força total, mas seu corpo lhe havia dado apenas uma certeza — alguém o estava seguindo e não era da manada de Sangwoo.

Mesmo com a dor, o rapaz respirou profundamente. Era um alpha, e estava... "Excitado...? Ele está excitado? Por quê? Eles não deveriam mais sentir, fui marcado..." – já não andava, corria.

O medo começou a consumi-lo. Não entendia mais nada, aquilo não fazia sentido. Seu corpo inteiro doía, o que antes era localizado no pescoço se espalhara como fogo em palha conforme se afastava da casa.

Tinha de voltar para Sangwoo, mas, não conhecia o lugar e aquele alpha estava no único caminho que traçara. Começou a sentir náuseas. O alpha estava direcionando seus feromônios diretamente a ele. Ficou tonto. O nojo juntando-se a dor.

Acabou avistando um parque e correu naquela direção. Sua visão começava nublar-se e seu corpo tremia. Parou por instantes e vomitou.

"Isso é nojento..." – pensou enquanto passava o torso da mão na boca. Voltou a correr e escondeu-se atrás de uma das árvores, caindo sentado. Colocou ambas as mãos sobre a boca, sua respiração estava ofegante e não podia fazer barulho.

"Não estou emitindo feromônios, ele não deve conseguir me encontrar." Pensava assustado.

— Tentando se esconder? – ria o alpha: — Você tem um cheiro interessante. Está fraco, mas consigo senti-lo. Sangwoo te deixou sozinho mesmo ainda estando em transição? Que descuidado.

O odor nauseante parecia aproximar-se cada vez mais e Bum já não sabia o que fazer, não ia conseguir fugir.

"Ele conhece o Sangwoo? E me sente...? Como?" – estava com muita dor, não era possível emitir qualquer coisa... Pelo menos...

"Não por vontade própria, mas eu sempre controlei isso... Só que tá doendo tanto... Perdi o controle?" – olhou para baixo, só então percebendo a ereção. Ainda estava excitado? Lágrimas começaram a cair por seu rosto.

"Não. Não... Não é possível! Perdi o controle – mais lágrimas – Agora entendo como Myung-Hee se sente, ela perde controle toda a vez que se excita, mesmo fora do cio... E agora? O que eu faço? Eu não quero isso! Não quero! Eu fui mordido! Não era para acontecer! Não devia mais atraí-los...! – sufocou um soluço – Merda! É porque ainda estou em transição... Não? Eu não quero isso...!" – o desespero tomou conta e os soluços saiam aos galopes.

Estar em transição era a pior parte, todos diziam, não só pelas dores se o alpha que o marcou estava longe, mas porque ainda liberava alguns feromônios e podia ser marcado novamente.

Um rapaz alto, de cabelos curtos negros e belos olhos azuis surgiu na sua frente. Ele tinha o sorriso mais terrível que Bum já havia visto: — Ora, não chora. – disse se agachando, e oferecendo um lenço, como o ômega não aceitou, ele mesmo o passou sobre o rosto do menor, que fez de tudo para desviar da mão.

— Não vai ser tão bom, como quando você não era marcado, afinal, também não está no cio, não é? Apenas excitado... Mas também não será o fim do mundo. – ele sorriu: — Meu feromônios causaram isso em você?

"Não!" a mente de Bum gritava: — Eu não ficaria excitado por você... – soluçou o moreno.

O alpha riu: — Tanto faz. Mas você conseguiu me deixar excitado, mesmo liberando tão poucos, olha... – ele apontou para seu baixo ventre onde se podia notar o volume.

Bum segurou a respiração e se pôs em posição de defesa, com os braços em frente ao corpo.

— Por quê? – perguntou, entre soluços.

— Hm? Você não sabe? É o ômega de um líder alpha que foi idiota o suficiente para deixá-lo sozinho no período de transição. Sabe o que isso significa? – sorriu ainda mais: — Uma oportunidade perfeita para humilhá-lo.

— O quê? Como? – o ômega tremia, estava com medo, sozinho, com um maluco que o olhava como se fosse a mais deliciosa de todas as presas que já encontrara.

— Vou mordê-lo, é claro.

Bum congelou. Seu coração falhou uma batida e sua boca abriu de leve. Ele ia mordê-lo? Mas isso – a lembrança de sua mãe estendida sobre uma maca no necrotério do hospital, nua e com diversas mordidas, surgiu em sua mente.

— Você vai me matar. – murmurou.

— Não. Não vou não. – respondeu o alpha em tom complacente: — Se eu tivesse trazido minha manada, sim, você morreria. Excesso de informação biológica. Mas, só eu? Não. Você aguenta. Claro, a transição ficará ainda mais dolorosa, mas não será incrível? Você terá dois alphas a sua disposição. – o sorriso dele aumentou: — E o único ômega que aquele imbecil já marcou na vida, vai ser compartilhado. Que humilhante. – riu: — Mas quem mandou ser retardado? Todo alpha sabe que o período de transição é o único em que isso é possível. Agora, por onde começo? O sexo ou a mordida? – ele inclinou levemente a cabeça, parecendo refletir seriamente sobre o assunto.

Bum gritou e se afastou, arrastava-se no chão. A adrenalina sendo a única razão de ainda conseguir se mexer. Sua ânsia de vômito aumentava conforme o alpha se aproximava, mas não havia mais nada em seu estômago, apenas parecia que seu esôfago sairia no lugar.

As lágrimas não paravam "Sangwoo. Por favor... Por favor..." implorava mentalmente pela única pessoa que sabia poder ajudá-lo, mas que não estava ali. Sangwoo não se importava.

Começou a ter a calça puxada sob os risos do alpha: — Você fica bonitinho chorando dessa forma.

— Não... Por favor! – implorava o ômega, tentando evitar que o outro se aproximasse mais.

Sentiu a mão dele em sua ereção e uma onda angustiante atravessou seu corpo, suava frio, tremia e chorava.

"Qualquer um... Por favor...".

O alpha moreno foi puxado de cima do ômega e atirado para o lado. Um garoto gordo, porém forte olhou o menor de canto e depois encarou o rapaz que já se erguia.

— Como você ousa tocar no ômega do Sangwoo? – começou Kim Dongyu, meio sem fôlego, correra até ali.

— Como eu "ouso"? – ele riu: — Não fui o retardado que o deixou sozinho.

Bum se sentou, puxando desesperadamente a calça, quando avistou Min Jieun se aproximando.

— Merda. Merda. Merda. – dizia a garota como um mantra, assim que parou na frente do ômega, a alpha se abaixou e verificou o pescoço do rapaz: — Você não foi mordido, foi? – perguntava um tanto desesperada.

— Não... – murmurou Bum ainda tremendo.

— Taeyang! – ela levantou irritada, olhando para o alpha moreno: — Você quer começar uma guerra? Enlouqueceu de vez? Se você acha que o Sangwoo vai deixar isso barato, está muito enganado!

— Quero vê-lo tentar. – disse o alpha, encarando a garota.

Dongyu então o socou, derrubando-o no chão e fazendo-o virar-se em sua direção: — Sangwoo não vai precisar se meter. Só perdi uma luta na vida, e não foi para um magricela imbecil como você. – ele voltou a atacá-lo, mas o garoto alto era rápido, já levantara e desviava.

— Merda!!! – Min Jieun parecia prestes a ter um ataque de nervos, passava as mãos no cabelo, não sabia se tentava parar a luta ou se ajudava Dongyu. "Sangwoo vai me matar, ele mandou cuidar do ômega enquanto estava ocupado! Que merda! E esse imbecil quase estupra e morde o infeliz! Que droga!".

Foi quando Sangwoo apareceu. Ele parou o punho do gordo enquanto chutava o moreno, que pareceu deixar algo cair no chão.

— Que porra tá acontecendo? – estava um tanto descabelado, sem o paletó e parecia ofegante. Com certeza correra.

— Sangwoo! – disse a garota, com um sorriso aliviado, até lembrar o motivo de estarem ali e olhar para trás.

Bum estava encolhido, chorava descontroladamente sobre os joelhos e tremia. Ela voltou-se para Sangwoo, que encarava o menor e sem nem piscar, pegava Taeyang pelo pescoço e o erguia contra uma das árvores.

— O que você fez? – disse visivelmente irritado: — FALA!

O alpha riu: — Eu só – tossiu um pouco, tentando respirar: — Tomei conta dele enquanto você não estava.

A mão de Sangwoo se fechou mais, Jieun se aproximou segurando o braço do alpha: — Ele não o mordeu! Sangwoo! Se você matá-lo terá problemas!

O rapaz encarou Jieun e ela teve certeza, seu olhar não era apenas fúria. Era ódio. Afastou-se, deixando o alpha fazer o que quisesse. Ele então largou Taeyang, lhe dando um chute no saco e aproximando-se de seu rosto.

— Chega perto de novo dele, e sua prima não vai poder salvar a sua vida miserável. Seu covarde inútil. – disse em um sussurro e então cuspiu atingindo o rosto do rapaz.

Sangwoo passou por Jieun: — Conversamos depois. – sua voz era como uma navalha, não havia usado seu tom alpha, mas a garota baixou a cabeça.

O alpha se agachou: — Dongyu! – o garoto gordo se aproximou: — Aqui. – ele entregou duas chaves, que representavam os dois ômegas prostitutos na casa de Jieun, normalmente o líder escolhia alguém para presentear, naquele dia, era o rapaz.

— Valeu! – respondeu Dongyu com um sorriso.

Sangwoo pegou Bum nos braços e o carregou, saindo do local.

O ômega pareceu sair do choque ainda no carro. Olhou atordoado em volta, passando as mãos no rosto e secando as lágrimas, Sangwoo estava diante da porta do motorista, colocando o paletó.

Estava salvo. A última coisa que lembrava era de alguém da manada do alpha ajudando-o. "Min Jieun..." pensou vagamente. O alpha sentou ao seu lado, cheirava a flores primaveris e doces. Ficou enjoado.

Seguiram o caminho em silêncio. Às vezes o alpha parecia observá-lo, mas Bum não ligava. Só queria tomar um banho, esquecer aquele pesadelo e ir dormir. Chegaram a casa e saíram do carro.

Diante da porta, após o alpha pôr a senha e abri-la para ele, o ômega se aproximou. Já conseguira voltar a controlar seus feromônios.

Sem estar excitado ou no cio, Bum podia escolher excitar ou não um alpha – como todo ômega. Na verdade, até mesmo excitado – em situações normais — Bum conseguia controlar seus feromônios. Era o que o diferenciava de uma parte dos ômegas, que às vezes eram induzidos pelos alphas a se excitarem e então perdiam o controle – como Myung-Hee.

Bum só perdia, realmente, o controle, quando estava pelo segundo dia do cio – que normalmente era o mais forte. Já chegara ao ponto de se controlar no primeiro e terceiro dia – isso era diferente de qualquer ômega que já conhecera. Mas, desde que encontrara Sangwoo tudo parecia estar desmoronando.

Primeiro, sempre que via o rapaz ou sentia seus feromônios típicos de alpha, ficava excitado. Conseguia se controlar, mas ficava excitado.

Depois, acabou tendo seu cio adiantado e perdeu o controle totalmente.

Agora, o Sangwoo estava transando com outro ômega e mesmo assim perdera o controle! Só de senti-lo excitado!

Acabara chamando a atenção de outro alpha, só porque não conseguira se controlar – apesar de uma parte de si pensar seriamente que não adiantaria nada ter se controlado, aquele alpha ainda o teria seguido – um calafrio percorreu sua espinha.

E como se tudo isso não bastasse, estava tendo de ver Sangwoo entrar na casa, onde ele teria de dormir, cheirando a outra pessoa? Estava cansado.

Escolheu lançar os feromônios apenas como um perfume, não queria excitá-lo "Quero só me livrar desse cheiro para dormir em paz.", eles cobriram totalmente Sangwoo, deixando-o confuso.

Bum notou a confusão e então fitou os olhos do alpha: — Você não disse? – perguntou com a voz fraca: — Que detesta outros cheiros dentro dessa casa? Que só o seu e o meu eram o suficiente? – passou reto, indo para o corredor: — Acho que isso também vale para perfume de flores primaveris e doces.

"Ou você gosta tanto assim dos doces que não importa...?" sentia seu peito doer, seguiu direto para o banheiro.

Notas finais
Gyeranmalyee - Rolinho de ovo coreano. Doenjang-jjigae - Cozido de pasta de soja que pode ser adicionado carne, se a pessoa quiser (e é o que o Bum faz na fic). Odeng- É uma massa de peixe que é comida junto com uma espécie de caldo (que pode ser pincelado no peixe ou bebido, depende da preferência).