Yangmi suspirou, fitando a todos os membros da manada... Aquilo... Havia sido um caos. Cho-Hee dormia plena em seus braços como se nada ocorrera. Crianças eram incríveis.

Observou Myung-Hee voltar, trazendo consigo Chansoo e Min-Cheng, ambos já recuperados do início de cio. Trocaram olhares nervosos.

Yura não conseguia fitar o ômega. Estava envergonhada de sua atitude: — Vou para casa, tenho que trocar de roupa. – disse a loira, levantando e saindo.

Taehyun a observou, suspirou, levantou e caminhou até o pequeno: — Você está bem?

Chansoo observava a alpha ir embora, um pouco chateado: — Sim...

— Ela está com vergonha. – o ruivo sorriu confiante, fazendo cafuné no baixinho: — Mas, vai ficar bem. Logo ela volta, não se preocupe.

O albino corou. Não quisera passar aquela impressão... Quer dizer, ela era a namorada de Taehyun, não deveria dar a entender que a queria por perto, não era certo... Contudo, não precisou dizer mais nada, pois o ruivo o abraçara.

— Estou feliz que esteja bem.

Aqueles sentimentos... Eram estranhos. Sentia-se tão confortável nos braços dele. Correspondeu o abraço, deixando-se ser protegido por alguns instantes. Toda aquela confusão, o aterrorizara demais.

Seung se aproximou da namorada, retirando o casaco e pondo sobre ela: — Desculpe. Você está bem?

Min-Cheng o fitou, então baixou o olhar: — Foi... Assustador... – os olhos da pequena lacrimejaram: — Mas, estou bem... – ela passou a mão sobre o braço dolorido da injeção.

O rapaz não sabia o que dizer... Lembrava-se apenas de fleches, contudo, ficara espantado ao perceber toda a destruição que causaram no hospital, incluindo a porta de ferro da sala onde a garota estava escondida. Queria dizer a ela que aquilo não voltaria a acontecer, mas, nem tinha ideia de como ocorrera para começar.

— Seung... – Min-Cheng o chamou, retirando-o de seus pensamentos: — E você?

O moreno piscou e sorriu. Min-Cheng era uma graça. Mesmo depois de tudo que passou, ainda se preocupava com ele... Abraçou a namorada: — Estou bem. Vou te levar para casa, ok?

A pequena corou de leve: — Ok...

Chung-Ho observava os casaizinhos, e suspirava. Pelo menos eles tinham uma desculpa plausível. Feromônios dos parceiros sempre tiravam um alpha do controle... Odiava sua condição babaca. Foi só sentir o cheiro dos feromônios, que já parecia um animal. O pior é que estava tão esgotado da porcaria do estado que Sangwoo o enfiara, seja lá qual estado fosse aquele, que não conseguiu nem lutar ou resistir a merda do cheiro dos ômegas. Encostou a cabeça contra a parede, de olhos fechados.

Odiava ser daquele jeito. Definitivamente, era o mais fraco daquela manada, e isso era frustrante. Não queria ser assim.

Sentiu cutucarem seu peito, abrindo os olhos e fitando o rapaz diante de si.

— Café? – questionou Jihoon, oferecendo um copo.

Ótimo. Agora ele estava falando com ele... Desde o Natal, Jihoon o evitara de todas as formas possíveis. Desviou o olhar. Merda. Voltou a fitar de canto o baixinho, que já começava a recuar a oferta. Bom... Ele o ajudara, não o deixando ir fazer besteira com os ômegas.

Pegou o café.

Jihoon fitou o rapaz atirado no banco. Ficara preocupado com ele... Nunca o vira descontrolado antes... Além disso, de todos da manada, ele parecia em pior estado – atrás apenas de Sangwoo. Seus olhos apresentavam olheiras e estava visivelmente esgotado.

Iria se arrepender? Provavelmente. Mas... Esticou a mão, tocando nos fios platinados próximos a orelha dele: — Você clareou ainda mais o cabelo... – disse, tentando disfarçar o carinho que fazia...

Chung-Ho o fitou, ainda bebendo o café e apenas voltou a fechar os olhos: — Estou pensando em mudar de cor...

— Eh? Para qual? – Jihoon questionou surpreso, percebendo que ele não se afastara.

— Sei lá... – ele bebeu mais um gole: — Sugestões?

Jihoon sorriu: — Hm... – o pequeno começou a refletir, quando viu Sangwoo se aproximar, tocando no braço do outro alpha e o fazendo ver a cena também.

O líder estava um caco. Era muito notável. Andava segurando a mão de uma menininha que o fitava muito preocupada, mas, ele não parecia notar.

— Sangwoo! – Yangmi fora até o alpha: — Nossa, você precisa ir para casa.

Dongyu que ficara quieto em um canto, com Jieun e Young, aproximou-se: — Ei... – ele se abaixou, fitando a criança: — De onde você veio?

A menina se escondeu atrás do loiro. Sangwoo notou o ato: — Esta é Yejin... – fez carinho na cabeça da pequenina: — Yejin, esses são os membros da minha manada, Yangmi e Dongyu.

Yejin os observou com curiosidade.

Dongyu sorriu para ela e levantou: — Quer carona para casa, Sangwoo?

— Não. Eu vou ficar. – disse convicto.

— Não vai não. – e a voz que o alpha ouviu não era de nenhum membro de sua manada, virou-se para trás, deparando-se com os avós de Bum.

Quem falara fora a senhora. Ela lhe observava tranquila.

Seu estômago embrulhou de maneira desconfortável. Prometera a eles que cuidaria de seu neto... Baixou o olhar. Frustração. Dor.

— Você vai para a sua casa. – disse o senhor decidido: — Depois você volta.

Sangwoo não aceitava aquilo, mesmo sem o vínculo, não queria ficar longe de Bum: — Mas...

— Sem "mas" rapaz! – a senhora parecia sutilmente brava: — Você está exausto, sujo, cansado. Precisa descansar ou só vai piorar a situação. Até o sangue de meu neto ainda está em suas roupas!

O alpha não havia reparado em nenhuma daquelas coisas. Contudo, sim... Estava sujo de sangue, pó... Olhou para as mãos feridas...

Só que...

Não queria sair dali...

Mesmo que não pudesse vê-lo...

— Olá pequena. – a senhora sorriu para Yejin: — Então, você é a Yejin!

A menininha olhou para Sangwoo, totalmente surpresa.

— Sim. Ele e meu neto falaram de você. — a senhora esticou a mão e então fitou o alpha.

Sangwoo olhou para a menina e concordou, incentivando-a a dar a mão a senhora.

— Ele está sujo, né?

Yejin concordou veementemente com a cabeça, já segurando a mão da senhora.

— Bom, o que ele deve fazer?

— Banho! – disse com confiança a pequenina.

— Viu? Até uma criança sabe. – a senhora observou o rapaz.

Sangwoo suspirou. Ok. Iria para casa.

— Nós iremos olhar ele até você voltar, está bem? – o senhor o fitou sério.

— Certo... – ainda se sentia constrangido... E seu peito pesava em uma aflição silenciosa. Virou-se para Dongyu: — Aceito a carona.

~*~*~*~*~*~

Bum abriu lentamente os olhos, sua cabeça doía profundamente, mas, mais do que isso... Seu corpo parecia imobilizado. Percebeu vagamente que estava com algo sobre a boca, ar entrava por ali e o ajudava a respirar melhor.

Notou haver pessoas no local... Elas pareciam discutir... Contudo... Estava atordoado demais para escutá-las... Voltou a fechar os olhos.

Lembrava-se de Sangwoo lhe chamando... Havia algo errado... Não conseguia senti-lo... Não era como quando tinha as barreiras, era diferente...

Mais...

Vazio.

— Preciso... Interrogar... Acordar... – a voz irritante de uma mulher desconhecida entrou por seus ouvidos que pareciam estar voltando às atividades normais.

— Senhora, se acalme... – a voz gentil de um homem, também desconhecido.

— Por favor, senhora. Eu entendo que o Conselho Ômega precisa de explicações... Mas, Bum acabou de sofrer um acidente... Você não pode... – a voz aflita de sua avó.

"Acidente...?" – pensou vagamente o moreno.

Ah... Sim... Sofrera um acidente...

Tentou lembrar melhor, mas, não conseguiu... Apenas a voz de Sangwoo...

"Não desmaia! Fica comigo...!".

E algo mais...

Intenso...

Que ele sabia que vinha do alpha. Algo que o fez ter a sensação de ser alguém totalmente indispensável...

Alguém necessário...

"Eu... Senti que ele não viveria sem mim...".

Mas... Aquilo... Era impossível não?

— Aquele alpha assinou os papéis! Eu tenho certeza que o vínculo foi quebrado durante esse acidente! Ou ele não teria destruído metade da entrada desse hospital! Os instintos não mentem! Ele irá para cadeia por isso! – a voz irritante da mulher parecia mais alta.

Bum ficou atordoado, que alpha? Que papéis? Do que estavam falando?

— Os dois iam morrer se ele não assinasse! Qual é o seu problema? Como pode não entender? – sua avó chorava, tinha certeza disso, a voz embargada e aflita dela revelava isso.

Os dois iam morrer? Que dois? Referiam-se a ele? A ele e mais quem?

— Ele matou o seu bisneto e você o defende? Céus! Qual é o seu problema!

"Bisneto...?" – Bum respirou mais profundamente, algo que não foi percebido pelas pessoas do quarto.

Seu cérebro parecia tentar fazer a associação, mas, não conseguia... Ele não estava entendendo o que acontecia...

— Não fale assim com a minha esposa! – a voz profunda de seu avô parecia irritada, algo muito raro vindo dele: — A criança não tinha chance de sobrevivência! Não seja tola e não ouse usar esse tom acusador com a minha esposa! – esbravejou o beta: — Se nós pudéssemos, teríamos assinado os papéis e não teríamos feito Sangwoo passar por isso! Você acha que perder um filho é fácil? Qual é o seu problema!

Perder... Um filho?

Bum abriu os olhos.

Espera.

O que houve com seu bebê?

O garoto se agitou...

— O meu problema, senhor, é que ele não tinha esse direito! – ela retrucou irritada.

O som do aparelho cardíaco apitou, fazendo o médico presente no quarto – que estava entre os betas e a ômega, uma mulher baixa, idosa e de cabelos crespos — percebesse a agitação de Bum.

— Droga. – disse o alpha, saindo de perto das pessoas, receoso de que acabassem brigando ali, e indo até o pequeno, que o fitava aflito. Correspondeu o olhar, tentando tranquiliza-lo: — Por favor, se acalme. – ele apertou o botão de emergência, chamando uma enfermeira para auxilia-lo.

Bum tentava tirar a máscara de oxigênio. Queria entender o que estava acontecendo! Não queria se acalmar!

— Você é maluca! – gritou o beta, colérico, aquela mulher o tirara tanto do sério, que ele não notara Bum acordando.

— Amor! – sua esposa tentou acalmá-lo, percebendo que o neto despertara.

— Isso é desacato! – gritou a mulher ômega: — Saia já desse quarto!

A avó de Bum olhou para a mulher, chocada: — Pare com isso! Meu neto acordou! Pelos céus!

— Saiam os dois! Ou eu mando prendê-los! – ameaçou.

— Ora, sua...! – o homem deu um passo adiante, como àquela mulher ousava se intrometer daquela forma em suas vidas? Só um completo imbecil não notaria o estado que Sangwoo ficara após assinar aqueles malditos papéis! Que tipo de acéfala era ela?

— Amor!!! — a senhora abraçara o marido, impedindo-o de prosseguir: — Vamos sair. – disse resignada.

Não queria deixar Bum sozinho com aquela... Aquela... Não tinha nome para aquela mulher, mas, seu neto estava agitado e não queria piorar seu estado. Brigar no quarto em que ele repousava...! Depois de tudo que ele passara! Estava devastada. Ainda teria que deixa-lo passar por um interrogatório... Oh céus... Lágrimas caíam por sua face enquanto fitava o marido, convencendo-o com o olhar que era o melhor a fazer. Aquela mulher não sairia sem o que queria... E eles eram impotentes diante da 'autoridade governamental' dela.

O senhor fitou a esposa, suspirou e a abraçou.

— Se você, de alguma forma, machucar meu neto... Não pouparei esforços para que seja você a presa. – e se retirou com a mulher que amava e o coração pesado. Seu neto não merecia passar por isso... Nem Sangwoo.

Desde que aquela mulher aparecera, Iseul era seu nome, se recordava bem, as coisas se encontravam ainda mais complicadas. Por alguma razão que ele não compreendia, ela parecia decidida a deixar Sangwoo de fora da vida de Bum. O acusara de ser o provável mandante de todos os ataques que o pequeno sofrera.

Suspirou. Aquilo lhe enraivecia. Sim. Sabia dos ataques. Bum e Sangwoo contaram a ele e a sua esposa... Em nenhum momento esconderam que o mandante era o primo de um dos membros da manada do rapaz. Aliás, o alpha lhe explicou todas as razões daquela rixa e lhe garantiu que ele já não seria um problema, já que o tornou um fahise.

Sempre fora contra alphas tornando outros fahises, um tipo de punição extrema, no seu ponto de vista, mas, depois do ataque ao seu neto, ficou feliz por isso ocorrer.

Iseul revirou os olhos após a saída dos betas. Estava convencida de que Sangwoo tinha envolvimento direto a todos os atentados. Principalmente agora, que ele assinara os papéis. Alphas eram a escória, por ela, o rapaz deveria ser detido imediatamente e colocado na prisão mais distante e suja, para ficar com os seus, lutando feito o animal que era.

"Betas, sempre capachos de alphas." – pensou irritada, só então percebendo que o médico parecia prestes a sedar Bum que estava muito agitado na cama, já sem a máscara de oxigênio.

— O que está fazendo? – ela interrompeu o ato. Isso seria complicado. Esse médico também estava do lado daquele maldito alpha, tinha de ficar atenta.

"Vou ter de mandar transferir esse ômega para um hospital sem influência desse rapaz." – refletiu, lembrando que sobravam poucas escolhas, já que o hospital universitário era onde ele trabalhava e o outro da cidade pertencia à família de um dos membros da manada dele... Talvez o da cidade vizinha, só precisava confirmar uma coisa, e arranjaria tudo. Bastava aquele vínculo estar rompido, como desconfiava, que aquele desgraçado não sairia impune.

O médico ficou estupefato, junto com a enfermeira – uma pequena ômega de cabelos curtinhos cor-de-rosa, que olhava indignada para a mulher: — Você não está notando a agitação dele? – o homem esbravejou, perdendo um pouco a compostura.

Iseul bufou e foi até o moreno que tremia na cama. Sacrifícios eram necessários pelo bem dele.

— Não interfiram. – disse em tom autoritário, mirando o ômega que era solto pelo médico.

— Meu bebê...! – Bum falou com o máximo de voz que conseguia, não ligava para o fato de sua garganta estar doendo, de seu corpo latejar devido à agitação, não importava nada. Queria saber o que aconteceu: — Por favor... – disse já começando a chorar.

"Ah... Claro..." – a mulher refletiu. Obviamente ele não sabia, acabara de acordar. Ergueu uma sobrancelha, talvez pudesse usar aquilo como uma vantagem, era um risco, mas, valeria a pena, se pudesse prender o alpha.

— Ele está morto. – disse simplesmente. Sabendo o impacto daquelas palavras frias em um ômega.

A pequena enfermeira ômega colocou ambas as mãos sobre a boca, em um grito mudo.

Bonhwa era um médico cirurgião, especializado em ômegas. Quando Bum chegou, foi imediatamente chamado, ao perceber que se tratava do parceiro de um de seus melhores alunos, deu sua palavra de que cuidaria dele. Mesmo isso sendo errado. Não se faz esse tipo de coisa, pois em uma cirurgia, por mais que às vezes se dê o melhor, é impossível salvar a todos. Contudo, com muito esforço, conseguiu contornar a situação grave em que o moreno se encontrava... Infelizmente, não conseguiu o mesmo com o feto.

Esperava contar a notícia pessoalmente ao rapaz, com muito cuidado, considerando todos os seus anos de experiência e todo o treinamento que recebera. Ômegas são mais sensíveis em relação à própria gestação... Obviamente, há aqueles que não se apegam... Mas, como se tratava de um acidente, com certeza, não era essa a situação.

Bohwa sentiu pela primeira vez em sua vida, vontade de quebrar seu juramento de sempre proteger a vida, e matar a mulher diante de si. Por que ela fez algo assim? Olhou imediatamente para o rapaz, e o pior cenário possível, ocorrera.

Bum gritava e se agitava de forma alarmante, o garoto se estressara de tal forma, que Iseul se assustara. Sem delicadeza, o homem afastou a mulher para longe do ômega.

— Saia daqui. Imediatamente. Ou chamarei a segurança. – disse sério, segurando o rapaz que se debatia em prantos.

— Como é que é?

— Eu não sei como uma representante do Conselho Ômega, sendo uma ômega, teve coragem de fazer algo assim, mas, saia daqui. – ele fitou a mulher de forma congelante: — Ou eu mesmo a tirarei e não farei isso de forma a manter o meu emprego. – o tom de voz do médico fora ameaçador.

Iseul abriu levemente a boca, como aquele alpha ousava trata-la daquela maneira? Ela ia xingá-lo, quando sentiu alguém a puxar por trás. Um dos seguranças começava a leva-la.

— O quê? – ela olhou para o segurança, e então para a porta.

Parada próxima à porta, a pequena ômega de cabelos curtos cor-de-rosa a fitava com desprezo, obviamente, fora ela quem chamara o segurança.

— Você não sabe o que fez! – disse para a enfermeira enquanto era arrastada para fora.

— Não. É você quem não sabe. – respondeu a pequena, correndo para o paciente e fitando o médico preocupada.

Bohwa sedou Bum com a ajuda da enfermeira, o deitou, voltou a colocar a máscara de oxigênio, e só observou quando o mesmo, silenciosamente e meio grogue, piscou, deixando mais algumas lágrimas caírem. Suspirou.

— Verifique se todos os pontos permanecem fechados e o deixe descansar. Sem visitas e sem deixa-lo sozinho. Façam turnos, mas, ele está proibido de ficar só, entendeu?

— Sim. – ela murmurou, começando a verificação.

O médico saiu indo encontrar o senhor que prometera não deixar aquela mulher impune, caso ela machucasse seu neto.

Bum sentia seu corpo inteiro ceder, mas, em sua mente, isso não acontecia... Como ecos de sua dor, a voz daquela mulher mergulhava...

Seu bebê...

Estava morto.

Queria Sangwoo a seu lado...

Mas, não o sentia...

Apenas um grande e intenso vazio.

Estava sozinho. Não havia nada... Não restara nada...

A dor parecia perfurar a sua alma. Era inútil. Completamente inútil. Para tudo.

Lembranças vagas de quando era criança, criaram vida naquele sonho provocado...

Sua mãe... A única pessoa que conhecia e amava naquela época... Deitada, numa maca fria...

"Ele é apenas uma criança, não deveria vê-la...".

"Faz anos que não a vejo... Só ele terá certeza que é ela.".

Seu rosto redondo e bonito estava desfigurado por marcas que não entendia como foram parar ali... Seu pescoço, praticamente destroçado a dentadas... Contudo, seus olhos permaneciam fechados... E mesmo naquele estado, desejava tão fortemente que ela estivesse apenas dormindo... Não aguentaria perde-la...

Mas...

Foi inútil, assim como não era forte o suficiente para protegê-la, seu desejo não era poderoso o suficiente para trazê-la de volta a vida...

Apenas pode observá-la ser enterrada enquanto pessoas que nunca vira mais de uma vez em sua vida choravam pela perda...

Levado para um lugar estranho. Desconhecidos diziam que iriam cuidar dele, protegê-lo.

Seus avós paternos...

Sua avó era doce, ela lhe contava histórias sobre animais que já existiram, falava sobre seu pai, mesmo que não perguntasse, mas, nunca conseguia lhe olhar nos olhos. Desviava-os, como se sentisse vergonha de algo...

Aos poucos, ela definhou.

Era sua culpa? Ele a fazia mal? Não sabia.

Contudo, devagar, ela parecia menor, mais velha, mais quieta, mais recluza em seu próprio mundo.

E novamente... Olhos que nunca mais se abririam...

Doeu. Gostava dela... Entretanto, não foi como sua mãe. Aprendeu que as dores da perda podiam ser diferentes.

Entretanto, sentiu-se culpado e inútil, novamente. Nada pôde fazer além de olhá-la partir.

Seu avô sempre fora gentil, mas, nunca se aproximara demais... Contudo, parecia uma maldição, e novamente, aos poucos, ele definhou.

Ao vê-lo deitado, na cerimônia de sepultamento, Bum não sabia o que sentir. Um sentimento crescente de que não servia para nada, se apossava dele.

Ah... Eu quero parar aqui... Essa dor... Só vai piorar... Eu não quero lembrar... Eu não quero passar por isso de novo...

Mas, a mente de Bum não seguia seus comandos, e era como entrar em um barco sem volta. Um único caminho que sempre lhe levava ao mesmo local... O lugar que conheceu o inferno tantas vezes que não queria mais sentir.

Por favor... Eu não quero...

Só que não adiantava, a lembrança estava ali, como uma ferida aberta jamais cicatrizada, e ele estava sozinho, não havia ninguém para protegê-lo, nunca houve...

Olhou em volta, como se todo o cenário se formasse em detalhes...

Nada era esquecido.

Nem as cores dos cadernos sobre a escrivaninha.

Nem a mancha do teto que ficou olhando.

Nem a dor de seu corpo.

Nem o cheiro nojento de seu tio.

Nada... Era como se tivesse acontecido no dia anterior...

Tudo estava ali. Apenas guardado nas profundezas, onde queria que ficasse, mas, não conseguia.

Sentiu-se enfraquecer com a lembrança...

Nas primeiras vezes, implorava para ele parar, ele lhe socava e prendia para que não se movesse.

...

Era sempre tão inútil. Não adiantava se debater. Não adiantava implorar. Nada. Nada...

Por isso, um dia... Desistiu.

E isso era o que mais doía, em algum momento, parou de tentar, apenas não queria que ele lhe machucasse mais, seu corpo estava tão dolorido, só queria que terminasse.

Depois que desistiu uma vez, já não resistia nas vezes seguintes. Já não gritava. Já não pedia que parasse. Era como se parte de si tivesse morrido. Perdera uma parte de si mesmo. E essa dor... Era insuportável.

Contudo, outra parte ainda tentava sobreviver àquele inferno...

Começou a sair com Yoonjae, e viu suas esperanças renascerem... Não se sentia mais só, e queria tanto que desse certo! Mesmo que fosse limitado em alguns momentos...

Mas eu não consegui...

Outro cenário que lembrava com perfeição...

As folhas de outono voavam, atrás da escola, Yoonjae o fitava com raiva e desdenho.

Acabara de descobrir que ele o traíra com uma colega de classe. Sinceramente, estava imensamente triste, mas, não queria perder o alpha... Ele era o único a seu lado... Então, só queria perdoa-lo... Contudo, ao questioná-lo, só recebeu todo o desprezo que o rapaz sentia ao estar com ele...

"Queria que eu fizesse o quê? Você não consegue dormir comigo! Diz que é porque não quer piorar a situação, mas, às vezes penso que você não quer sair da casa do seu tio! E se é assim, eu não quero mais nada com você. Não aguento mais essa situação, pra mim chega. Eu não preciso de você e você, pelo visto, tem exatamente o que quer.".

Como conseguia lembrar tão perfeitamente daquelas palavras?

Por que tentara?

Naquele dia, perdera a esperança...

Fora inútil. Era inútil. Não servia para nada. Não servia nem...

A dor em seu peito aumentou.

Sangwoo...

Procurou por ele, mas, o alpha não estava lá... Estava sozinho... Não queria estar sozinho... Não aguentava mais...

Uma lembrança mais antiga, dele chegando em casa, triste, enquanto era recebido pela mãe.

"O que houve?" – perguntou ela gentilmente.

"Disseram que um ômega não tem nada de especial, não serve pra nada e só dá trabalho.".

"Ora, mas, isso não é verdade, tem algo que um ômega faz como ninguém. Totalmente insuperável." – ela sorriu.

"O quê?" – perguntou curioso.

"Tem bebês." – o sorriso dela aumentou.

"Ninguém supera um ômega nesse quesito, nosso corpo foi criado, literalmente, para isso." – ela riu.

E algo na parte mais profunda da alma de Bum, quebrou.

~*~*~*~*~*~

Sangwoo observava o teto de seu quarto. Dormira por uma hora. No máximo. Fora forçado a ir para lá descansar, mas, tudo que conseguira fazer, fora tomar um banho e se atirar na cama, nem preparar algo para comer fora capaz.

Sentia-se esgotado, entretanto, não adiantava, não era o suficiente para fazê-lo descansar.

Levantou, saindo do quarto e indo preparar algo, não porque estava com fome, mas, porque sabia que tinha de comer algo para sobreviver. Não fazia a menor ideia de há quanto tempo não comia.

Contudo, ao sair do quarto, acabou observando a escada...

Fazia um tempo que não ia para o segundo andar... Na real, estava evitando subir, pois sabia que Bum preparava o quarto do bebê... Como fora idiota. Baixou o olhar.

Não podia ficar ali. Não com ele no hospital. Pegou seu casaco e colocou. Dongyu deixara claro que se precisasse, podia chama-lo para leva-lo de volta. Não era de pedir favores, mas, seu carro ficara na universidade, e mesmo se estivesse ali, o mais provável era causar um acidente dirigindo...

Acidente...

Seu estômago embrulhou.

Mandou uma mensagem para o amigo e esperou. Até montara um sanduíche, entretanto, não o comeu. Guardou na geladeira quando ouviu a campainha.

Voltou para o hospital em completo silêncio. Não havia nada que pudesse fazer lá... Estava proibido de ver Bum... Só que... Queria estar lá.

Quando chegou, assustou-se com a cena. A avó do moreno estava em prantos, enquanto o marido tentava acalma-la e falava algo com o médico. Correu, desesperado, até os três.

— O que aconteceu? – questionou aflito.

Os três o fitaram.

O senhor foi o primeiro a se pronunciar: — A desgraçada do conselho ômega queria interrogar o Bum e... Nós não conseguimos evitar... – ele sacudia a cabeça: — Ela o fez entrar em choque.

Sangwoo olhou o médico.

— Ele está estável, mas, tive de induzi-lo ao sono... E ainda não sei as consequências psicológicas do que ocorreu, contudo, assim que ele acordar será feita uma avaliação cuidadosa, antes de permitir que qualquer um do Conselho Ômega se aproxime...

O alpha fitou o quarto onde o ômega estava. Iria vê-lo. Foda-se a restrição. Caminhou em direção ao local.

Seungbae, que o loiro não notara que estava ali, parara na sua frente: — Não vou deixar você passar, além de ser uma atitude inútil, ainda seria preso. – disse sério.

— Foda-se. Saia da minha frente. Ele precisa de mim e eu vou estar lá.

— Ele nem está acordado! Ele precisa descansar e você também!

— Sai.Da.Minha.Frente. – o alpha liberou seus feromônios. Ou Seungbae saia, ou ele o tirava a força.

— Não. – respondeu o docente, nem um pouco intimidado com a atitude do garoto.

"Pivete..." – suspirou, resignado.

— Dentro do hospital não. Ou você acabará expulso de vez, já foi um parto evitar que isso acontecesse depois do que vocês causaram... – ele fez um sinal com a cabeça apontando para o lado de fora: — Mas, não estou recusando o desafio.

Sangwoo fitou a porta, depois seus olhos se direcionaram ao alpha. O professor tinha razão. Não podia lutar no hospital. Poderiam prejudicar sua manada e já os havia prejudicado demais.

— Se eu te derrotar...?

— Pode fazer o que quiser, até, arruinar a sua futura carreira, entrando nesse quarto.

O loiro ficou um momento em silêncio. Caminhou para o lado de fora do hospital. Não ligava para sua carreira, queria ver Bum, abraça-lo, dizer que sentia muito, que não sabia como, mas, que faria de tudo para que as coisas ficassem bem. Respirou fundo.

Seungbae o seguiu e o dirigiu até uma área mais isolada, apenas enfermeiras passavam por ali, contudo, estavam com muita pressa para prestar atenção nos dois. Avisou a um segurança próximo, se alguém questionasse, era para dizer que lutavam para desestressar, nada tão incomum entre alphas.

Sangwoo voltou a fitar o docente, liberando seus feromônios, estava radicalmente sério.

Seungbae suspirou. Não queria fazer isso, o rapaz se encontrava visivelmente cansado e passara por muito nas últimas horas. Entretanto, não queria que ele arruinasse seu futuro, sem que valesse a pena. Bum dormia no momento. Nem se falar conseguiriam. E não adiantava tentar argumentar, ele não o ouviria.

— Está bem. – o moreno liberou os feromônios e Sangwoo se surpreendeu.

O professor era forte. Muito forte. Mais forte do que os alphas que costumava enfrentar nos ringues. Em qualquer outro momento, talvez refletisse melhor sobre suas condições e ideias, mas, naquele instante, estava pouco se fodendo para o quão forte Seungbae era... Iria derrota-lo e ver Bum. Era seu único objetivo.

Correu na direção do moreno com o punho erguido, contudo, teve a mão parada por Seungbae que recuou alguns passos e se sentiu meio zonzo. A força que usara para desferir aquele golpe parecia ter tomado tudo que ainda tinha, mas, não desistiu, ergueu o outro punho, precisava derrota-lo...

Seungbae segurou o outro punho, impressionado. Sangwoo estava à beira de um colapso físico e mesmo assim, ainda era forte pra cacete. Sem hesitar, dobrou a perna, dando uma joelhada certeira no estômago do loiro e o fazendo cair a seus pés. Finalizou com um golpe logo abaixo do pescoço, que fez o alpha perder a consciência.

— Desculpe. – murmurou o docente, ofegante: — Mas, ainda não estou desistindo. De nenhum de vocês.

~*~*~*~*~*~

Bum acordou, virando o rosto para o lado e vendo Myung-Hee... Ela conversava com uma garota, conhecia a mesma, mas, era estranho ver a amiga ao lado dela.

Depois, fitou ao redor... Estava com uma máscara de oxigênio, aparelho cardíaco, soro. Seu corpo doía muito... Sofrera algum acidente? Sua mente se encontrava bastante confusa.

— Ah! Você acordou! – a menina sorriu.

— Vou avisar a todos! – a outra garota disse com um sorriso, saindo do quarto.

O ômega conseguiu ergueu o braço, recebendo auxilio de uma enfermeira também presente, juntos, retiraram a máscara que o incomodava.

Respirou fundo.

Sua garganta latejava.

—Sede... – murmurou.

A enfermeira sorriu e virou-se para Myung-Hee: — Pode ficar com ele até eu retornar?

— Claro! – a baixinha concordou.

— Qualquer coisa, é só apertar o botão de emergência. – ela saiu para atender o pedido.

Bum ficou calado por alguns instantes, puxando a amiga para mais perto: — Myung-Hee... – falou baixinho.

— Sim?

— Por que Kaa Yangmi estava aqui? – questionou, verdadeiramente confuso.

Myung-Hee piscou: — Hã... Porque ela estava preocupada com você... Toda a manada está... – ela o fitou sem entender.

— Manada da Kaa Yangmi? Por que estariam preocupados comigo? – o garoto deu uma leve tossida, sua garganta realmente doía: — Eu nunca nem falei com eles...