Destinados...?
16 Extra - O Som Do Vento E Do Fogo
Notas iniciais
Myung-Hee olhava seu quarto recém-arrumado, orgulhosa de sua organização. Sentou na cama do pequeno ambiente e se atirou. Demorara um bom tempo para deixar o local da forma que queria.
Seu quarto possuía uma cama, escrivaninha, roupeiro e pilhas de livros, que agora estavam devidamente organizados na minúscula estante nova. Sorriu, feliz. Ela nunca fora muito boa nisso. Bum que o diga. Ele vivia reclamando de sua desorganização.
Mirou os desenhos pendurados em um quadro da parede. Agora conseguia ver todos. Uma pontada se fez presente em seu peito.
“Não... Não posso desanimar.” – levantou, andou calmamente até os papéis. Todos devidamente presos por ímãs, não queria amassá-los. Eram muito importantes.
Voltou para a cama trazendo junto um deles. Olhava a folha dando um pequeno sorriso para o cachorro que lembrava uma girafa. Estava se formando para dar uma vida melhor para ela.
“Eu vou te buscar e nós vamos morar juntas.” – o sorriso da garota aumentou.
De repente seu celular tocou, interrompendo o momento. Olhou e percebeu se tratar de uma mensagem.
Pontas Azuis – A cor mais quente
Você está livre amanhã?
“Yangmi...” – olhou o relógio, era tarde. A morena não costumava enviar mensagens nesse horário...
“E em um domingo...” – refletiu, respondendo.
Depois das 18h... Por quê?
Myung-Hee trabalhava na cafeteria do irmão de seu padrasto. Atendia mesas e recebia um bom salário. Ficaria ali até o final do ano, seu próximo emprego já estava garantido em uma escola da região. Só precisava do diploma – já fizera todos os testes e pré-requisitos necessários.
Pontas Azuis – A cor mais quente
Hm, abriu um McDonald’s novo, perto da universidade.
Myung-Hee sabia do que ela estava falando, o lugar era enorme e parecia excelente, contudo...
Ah! Sei qual é ^-^! Mas, não tenho grana =/ Não vou poder ir...
“Infelizmente...” – pensou a ômega, amava os hambúrgueres do McDonald’s.
Pontas Azuis – A cor mais quente
Eu pago ^__^! Sem problemas!
“Como é?” – sentou na cama. Bom, Yangmi era uma alpha e tinha algum poder aquisitivo, pelo que sabia.
“Se for assim...” – riu ao responder.
Falou as palavras mágicas kkkk Quem mais vai?
Das últimas vezes que saíram normalmente alguém estava junto. Na verdade, tinha de admitir que a manada de Sangwoo era muito divertida. Apesar de um pouco estranha também – olhou de canto para algumas sacolas que recebera de Jihoon como presente.
“Não que eu vá reclamar.” – refletiu.
Pontas Azuis – A cor mais quente
Mais ninguém, pensei em só nós duas...
O coração da baixinha deu um salto com a frase. Riu de nervoso.
“Ela tá falando sério?”.
Falando assim, parece um encontro =P
“Não me dá falsas esperanças...”.
Que estava afim de Yangmi, meio que deixara óbvio nas últimas vezes que se encontraram. Principalmente no dia da festa. Contudo, a morena não era muito clara no que sentia, às vezes agia como se gostasse das investidas, às vezes recuava como se a tivesse assustando. Sinceramente, não entendia. Então, estava nervosa.
Pontas Azuis – A cor mais quente
Não falei que não era ^__^
Myung-Hee fitou o celular por longos minutos. Estômago embrulhado, coração disparado, ficou levemente trêmula. Não acreditava. Era sério? O que deveria responder?
“Ahhh, eu não sei o que dizer... AHHHH”. – sua mente bugou por alguns instantes. Começou a escrever...
Ok.
“Muito simples, ahhh... Hã...”. – apagou.
Certo, nos vemos lá então.
“Que isso? Não!” – apagou.
Combinado, é o McDonald’s perto da universidade, né?
“AH! Ela já disse que era lá, não viaja” – apagou.
Nos encontramos lá? Ou você vai até a cafeteria?
“Não! Ela disse o local e perguntou que horas eu saía, deve ser para encontrá-la lá...”. – apagou.
Ok, nos vemos lá então ^-^!
“Perfeito! Não... Pera, eu já não tinha escrito isso antes? AH! Vai assim!”.
Recebeu a resposta logo em seguida.
Pontas Azuis – A cor mais quente
Combinado, nos vemos lá ^__^! Boa noite ^^
Ficou corada. Escrevendo rapidamente.
Boa noite, Yangmi!
Estava realmente feliz. Levantou-se, primeiro colocou o desenho de volta no painel com cuidado, depois abriu o roupeiro, começando a tirar todas as suas roupas. Precisava escolher uma decente. Olhou para todos seus vestidos, calças, blusas... Parecia não ter nada!
Foi até as sacolas que Jihoon lhe dera, tinha três vestidos-casaco, realmente muito bonitos. Um era preto, com botões prateados, o outro azul marinho e o terceiro bege. Olhou para o preto e experimentou.
Ele fechava formando um pequeno v, que salientava um pouco seus seios fartos. Colocou uma coleira negra que combinava e sua bota longa. Mirou-se no espelho. Virou de costas, ainda olhando o reflexo.
“Perfeito.” – pensou com um sorriso.
Podia não ser a garota mais linda do planeta, afinal, suas formas um pouco ‘recheadas’ não agradavam a todos, mas, como sua mãe dizia. Quem curte osso é cachorro, ela tinha carne para apertar. O que era engraçado vindo de sua mãe, já que a própria era bem magra.
“O problema real é minha altura...” – refletiu a baixinha.
Qualquer quilo a mais era extremamente visível ao se ser baixa. Um terror. Retirou a roupa. Começou a escolher a roupa íntima, não que fosse fazer alguma coisa.
Depois de tudo decidido, percebeu que bagunçara todo o quarto novamente. Riu. É, ela nunca conseguia manter tudo organizado. Jogou as roupas que sobrara para dentro do roupeiro, outra hora arrumava novamente, e se deitou, relendo as mensagens com um sorriso.
Myung-Hee acreditava em casais destinados, ou, almas gêmeas, como alguns chamavam. Isso acontecia por seu pai ter vivido algo assim, não com sua mãe, mas com seu padrasto. Seus pais eram ômegas, e tinham uma vida muito feliz. Eles se amavam. Contudo, um dia, seu pai conheceu um homem que simplesmente, não saía de sua cabeça. Ele realmente tentou evitar, entretanto não conseguiu. No fim, pediu o divórcio e investiu naquele que lhe causara um impacto tão forte.
Quando era criança, obviamente, Myung-Hee odiou. Mas, com o passar dos anos, vendo a felicidade de seu pai, não conseguiu deixar de pensar que também desejava algo assim...
“E a mamãe não ficou pra trás.” – refletiu a garota, olhando uma das diversas fotografias que possuía em cima de sua escrivaninha.
Em uma das fotos, sua mãe, uma mulher linda, sorridente, que segurava com uma das mãos um chapéu que parecia que voaria a qualquer instante, estava sendo abraçada por um rapaz, obviamente mais jovem, mas que sorria tanto quanto a mesma. Era o retrato da felicidade.
Myung-Hee sorriu. Será que finalmente encontrara a sua destinada? Nunca sentira as sensações que presenciava próxima de Yangmi.
“Lembro do Bum falando... Às vezes parecia um pouco de exagero quando ele dizia que não conseguia se controlar... Eu pensava que era como quando eu não consigo me controlar, mas não... Não é isso... É diferente... É como se eu não quisesse me controlar...”.
A ômega sempre sentiu ‘essa sensação’ dentro de si. O chamado ‘ômega interior’. Isso era algo, que normalmente, ficava adormecido nos ômegas até o dia do cio. E quando despertava... Nossa...
Quando seu ômega interior era forçado a sair, sem ser no cio natural, era horrível. Como se enfiassem a mão na sua alma e a arrancassem de seu corpo por alguns instantes, não saberia explicar. Perder o controle de si e de suas ações, ser usada, sentir que nada daquilo era sua vontade. Não havia nada mais nojento e horrível. A sensação de imundice que se alastrava por seu corpo depois que o ato terminava, era pavoroso.
Passara por aquilo muitas vezes, mais do que um ser humano deveria suportar. Recordava-se de cada uma delas, de cada homem e mulher que a forçaram, de cada segundo passado, de cada toque nojento. Lembrava-se de seus próprios gemidos, impostos pelo momento, dos deboches posteriores.
Quando foi diagnosticada com a chamada, síndrome do descontrole ou síndrome do ômega frágil — fator físico que levava ao adiantamento do cio, independente da vontade do ômega, com apenas os feromônios de qualquer alpha. Seus pais foram alertados de que, muito provavelmente, não sobreviveria. Não se eles não encontrassem um alpha – imediatamente – para mordê-la.
A não sobrevivência, não era ligada a danos físicos provocados pela síndrome, e sim, aos danos psicológicos. Noventa por cento dos ômegas com a síndrome cometiam suicídio de dois a quatro anos depois da descoberta da mesma. Não suportavam os estupros constantes.
O normal de um ômega era ter seu primeiro cio entre os doze e treze anos, Myung-Hee o teve com dezesseis, atrasado, e um dos principais sintomas da síndrome. Foi diagnosticada pouco tempo depois. Tinha vinte e dois atualmente, sobrevivia há seis anos com aquela condição. Não queria um alpha apenas para curá-la e não pensava em se matar. Isso não significava que estava menos ferida, ou que se acostumara com o que acontecia. Apenas, não queria morrer. Achava que sua vida valia mais do que isso. Ela definitivamente era uma exceção, não a regra.
Contudo, o sentimento de agora, era totalmente diferente. O que Yangmi provocava era distinto de outros alphas. Os feromônios da garota não a estavam forçando, ela não queria tirar seu controle. Sabia disso, talvez Bum não notasse, entretanto Myung-Hee tinha total certeza das diferenças. Agora era como se seu ômega interior quisesse desesperadamente sair. Também lhe despertava a sensação de ‘perda de controle’, mas...
“Não estão forçando isso, parece natural ter de despertá-lo... Como se, eu precisasse ter especificamente aquela alpha, como se ela tivesse nascido pra mim.”.
Talvez fosse um pensamento romântico, mas, bom, ela sempre fora uma romântica de carteirinha, então, estava tudo bem. Precisava dormir... Contudo seu nervosismo não permitia. Pensou em falar com Bum, mas...
“Ele anda tão deprimido...” – suspirou.
“Quando o Sangwoo vai aparecer? Eu tenho certeza que os dois devem ficar juntos, mas, ai... Por que ele rejeitou o vínculo? Não entendo...” – ela refletia sobre os problemas do amigo.
Rejeitar o vínculo era algo cruel de se fazer. Contudo, Bum não era o primeiro caso que conhecia... Claro, não contara isso ao garoto, mas, já conhecera outros ômegas ‘rejeitados’, e era doloroso apenas vê-los, e definitivamente, seu pequeno Bebê Maçã não merecia isso.
“É melhor o Sangwoo mudar de ideia, ou dou um jeito de acabar com ele.” – refletiu seriamente.
Bocejou e foi vencida pelo cansaço. Dormiu pesado.
Segunda acordou cedo, tomou um banho, escovou os dentes, colocou um vestido simples e um casaco, junto com uma meia-calça da cor de sua pele e sua bota longa preta. O vestido-casaco que escolhera levou dentro da mochila, junto com sua maquiagem. Trocar-se-ia no serviço, assim que acabasse o expediente.
Encontrou Bum na entrada do dormitório, e como em todos os dias desde que deixara Sangwoo, ele parecia cabisbaixo.
— Você estudou para a prova de hoje? – perguntou o garoto ao vê-la.
— Quê? Qual prova? – a garota não tinha ideia do que ele estava falando. Eles tinham prova? Hoje? Ah! Estava ferrada!
—... No segundo período, lembra? O professor avisou semana passada...
Bum era muito certinho para essas coisas, provavelmente, ela esquecera. Como sempre. Começaram a conversar sobre a matéria, e quanto mais falavam, mais ela tinha certeza que se daria muito, muito mal naquilo.
“Nem pensar, preciso do meu diploma, ou perco meu futuro emprego!”.
Passou o primeiro período praticamente estudando para a prova do segundo, depois copiava, fotografava ou xerocava as anotações de Bum.
“Ele é muito melhor que eu anotando, de qualquer forma.”.
Correu para conversar com o professor antes da prova, pediu alguns esclarecimentos, e no fim, tinha certeza que se dera razoavelmente bem.
“Por um instante... Por um instante pensei que ia ser pior...” – respirou aliviada a garota.
Almoçou com Bum, acabou falando um bom tempo sobre a prova. Pensou em citar que teria um encontro com Yangmi, contudo, falar da garota apenas lembraria o pequeno sobre Sangwoo. Não queria machucá-lo. Inventou assuntos aleatórios, mas, apesar do garoto sempre ser um excelente ouvinte, era óbvio de que não estava bem. No fim se despediram e ela suspirou por não ter conseguido animá-lo.
“Não tem como... Evitando Sangwoo, a manada, saindo com aquele idiota...” – refletiu a baixinha que observava Bum entrar no carro de Yoonjae.
Myung-Hee podia ter dito para ele falar com o ex, na festa, mas não gostava dessa nada sutil aproximação do rapaz. Na realidade, não gostava de Yoonjae.
A questão era que ele tinha tido a oportunidade de ficar com Bum e jogara fora. Quando conheceu o Bebê Maçã, no primeiro ano, ele se culpava por não ter conseguido transar com o ex.
“O que é ridículo, ninguém deveria se sentir culpado por isso! Nenhum namorado deveria provocar essa sensação...”.
Definitivamente, não queria seu Bumzinho com ele, contudo, o garoto disse que se conheciam desde crianças e que eles foram amigos.
“Às vezes penso que você é muito ingênuo Bebê, e confia demais nas pessoas...”.
Sua aversão pelo rapaz era maior do que por Sangwoo.
Sim, sentia certa aversão por Sangwoo. Quando o conheceu, o achou legal, mas, atualmente, ele a irritava. Bum era um amor de pessoa e merecia todo o carinho do mundo, e o alpha apenas o magoava. Tudo bem que a mordida fora acidental, contudo...
“Aff.”.
Entretanto, Yoonjae superava isso... Aquele papinho de que o amava e nunca o havia esquecido. Myung-Hee não acreditava, nem um pouco.
“Se ele o amava tanto assim, por que não entrou na mesma universidade que Bum? Quer dizer, o Bebê Maçã sempre quis fazer Educação Infantil Especializada, e há apenas UMA universidade do país que proporciona esse curso. Voltou da Inglaterra para fazer faculdade e escolhe uma diferente do suposto amor de sua vida? Ah, tá. Muito inteligente.”.
Respirou fundo. Não podia interferir diretamente nas decisões do amigo, mas, que dava vontade de chegar em Yoonjae e exigir uma lista de explicações, que começavam com “Por que não entrou na mesma universidade?” e acabavam com “A piranha nem estava no cio, por que transou com ela?”, dava.
Bum não aprovaria Myung-Hee chamar a garota de “piranha”. Contudo, se ela sabia que o Yoonjae namorava – conforme o Bebê Maçã, toda a escola sabia do namoro, aliás, zoavam muito o alpha por causa disso, e mesmo assim, abriu as pernas, a garota seria o quê? Santa? Claro que não. Piranha vagabunda é a definição. E ele que aceitou é um cretino, cachorro, sem vergonha.
Myung-Hee não tinha dó. Odiava traíra, odiava piranha, fatos de sua vida.
Olhou o relógio e correu para a parada de ônibus, não podia se atrasar.
A cafeteria em que trabalhava era um charme. Sua fachada não era muito visível, mas quem entrava, dificilmente não voltava. Uma parcela considerável dos clientes se conhecia, o que acabava por criar um clima familiar no local, que não era nem muito grande, nem muito pequeno. Possuía um palco de karaokê, para no máximo duas pessoas dispostas a passar vexame e servia todo o tipo de doces e salgados.
Os cafés eram conhecidos por possuírem qualquer desenho que o cliente desejasse. Myung-Hee adorava o de gatinho.
Quando seu expediente terminou, depois de uma tarde tranquila, foi para o banheiro, onde trocou de roupa, ao sair, seu tio – dono do local, assoviou nada discretamente.
— Tá linda! – elogiou.
— Obrigada. – respondeu um pouco tímida: — Hm, não tá exagerado? – ela deu uma volta: — Só estou indo no Mc, não quero parecer desesperada.
Ele riu: — Não, não está não.
— Nem a maquiagem? – apontou para o rosto, preocupada.
— Não, Myung-Hee! Você tá linda. Calma. – ele ainda ria do nervosismo da garota.
Park Yejun era um homem alto, magro, razoavelmente bonito e simpático. Gostava da sobrinha como uma filha e queria muito que ela permanecesse no emprego, contudo, como já dissera a garota, não tinha como competir com o futuro salário dela. Era o irmão mais velho, de cinco. Quatro nasceram betas, incluindo ele, apenas um, o mais jovem, chocou a todos nascendo alpha.
Surpreendeu-se quando seu caçula se apaixonou perdidamente por um ômega que encontrou no metrô. Na verdade, até hoje não entendia realmente o que acontecera, mas achava incrível eles estarem juntos. De ‘brinde’ o ômega trouxera essa menina. Achava-a um doce e sinceramente, gostaria de protegê-la o máximo que pudesse, mesmo sabendo que isso não era possível.
Myung-Hee saiu do serviço tranquila. Percebeu alguns olhares em sua direção, mas sabia que isso era por causa da coleira. Desconfortável, entretanto, acostumada. Lidava todos os dias com isso, era praticamente brindada.
Sentiu suas mãos suarem, estava realmente nervosa.
“Drogaaa...” – pensava um pouco desconcertada.
Foi andando pelas ruas mais movimentadas, uma forma de tentar se manter segura. Sempre evitando becos ou lugares um pouco mais escuros. Detestava andar sozinha.
Finalmente chegou a frente do McDonald’s recém-inaugurado e respirou fundo, entrando em seguida. Olhou para os lados e viu Yangmi, contudo, ela não estava sozinha. Myung-Hee estranhou, começando a andar na direção deles.
Yangmi estava ao lado do loiro da manada. O rapaz que lhe salvara quando foi atacada.
“Como é mesmo o nome dele?” – refletia Myung-Hee.
“Chunpo? Chunko? Chun.... Chung... Chung-Ho! Isso! É Chung-Ho!”– lembrou a baixinha, sentindo seu sangue gelar em seguida.
Chung-Ho era o rapaz que Yangmi mencionara que estava interessado nela, não? O que ele estava fazendo ali? Por que ele estava ali? A mão da ômega tremeu levemente.
“Me diz que você não fez o que acho que você fez.”. – o olhar das duas se cruzou.
Yangmi abriu levemente a boca, parecia um pouco deslumbrada, mas, logo desviou o olhar e falou com o rapaz ao seu lado, levantando em seguida.
“Você não ousaria...” – pensou a baixinha.
Contudo a morena com pontas azuis não só ousou, ela fez. Yangmi saiu do local, usando outra porta e não cruzando com Myung-Hee.
Não estava acreditando. Ficou em choque por alguns instantes. Olhou para o loiro que parecia tão em choque quanto ela e notou que ele provavelmente não sabia.
Sentia-se essencialmente traída. Além da raiva e ódio que começou há brotar poucos segundos depois. Respirou fundo, dessa vez para acalmar a irritação e não o nervosismo, e andou até a mesa, sentando-se na cadeira em frente do rapaz.
— A pessoa que me prometeu hambúrguer grátis foi embora, o que devo fazer? Estou com fome. – brincou, tentando se distrair de tudo aquilo.
Estava com raiva de Yangmi, entretanto também estava com medo de Chung-Ho. Ele lhe salvara, fato. Mas era um alpha. Não gostava de ficar sozinha com alphas que não conhecia tão bem... Contudo, ele sempre era gentil – quando saiu com a manada de Sangwoo anteriormente, ele lhe pagara a refeição.
O rapaz sorriu: — Eu pago.
E pelo visto, faria novamente. Estavam em um lugar público... Podia ir embora se realmente quisesse...
Mas decidiu ficar. Não se arrumara e ficara linda a toa! E realmente estava com fome. Ia aproveitar a noite... Olhou para os lados, dando uma verificada na quantidade real de pessoas. É... Provavelmente estava tudo bem ficar e conversar um pouco.
Fizeram o pedido e comeram juntos. Em pouco tempo o medo que sentira do rapaz foi se esvaindo e logo ela estava rindo e conversando. Chung-Ho era divertido e falava muita bobagem. Myung-Hee descobrira várias coisas interessantes sobre ele, a primeira, é que diferente dos outros membros da manada, ele tinha uma moto. Gostava de bandas de rock, sendo a sua favorita o Queen.
— Eu amo Bohemian Rhapsody. – dizia empolgado.
— Mesmo? Por quê?
— A música é simplesmente perfeita. E toda a história que ela conta, um assassino que foi condenado a morte e confessa seus pecados a mãe, querendo que ela siga em frente depois dele partir... Muito bom! – riu, animado.
A garota tinha de admitir que estava a se divertir. Ouviu muito sobre ele, mas também falou muito de si, o loiro soava realmente interessado. Depois que terminaram de comer, ele ofereceu carona até os dormitórios e Myung-Hee aceitou.
Subiu na garupa da moto, colocando o capacete que o rapaz lhe ofereceu e abraçou sua cintura, ele era mais forte do que pensara. Corou com o pensamento. Quando chegaram, desceu, tirou o capacete e passou a mão no cabelo, sabia que o mesmo estava uma zona agora.
“Quem mandou ir de cabelo solto?” – refletiu, fitando o loiro em seguida, ele sorria.
Entregou o capacete. O que deveria fazer? Estava refletindo sobre essa questão, quando sentiu sua mão ser levemente puxada.
Chung-Ho se aproximara, se quisesse afastá-lo, bastava ir para trás, contudo, por que faria isso? O que exatamente tinha a perder? Mas e se desse esperança ao rapaz, e no fundo, não quisesse? Isso não seria ruim?
“Faria igual ao que Yangmi fez comigo.” – deu um passo para trás.
— Desculpe... – murmurou.
Ele a soltou com um suspiro resignado: — Tudo bem.
Myung-Hee fitou o semblante triste do loiro e decidiu lhe dar um beijo no rosto, mas, quando se aproximou, ele virou, lhe roubando um selinho.
— Ei! – ela riu.
— Quê? – ele deu ombros: — Não sinta pena de mim, eu sempre vou me aproveitar. – o sorriso safado do rapaz, quase a fez mudar de ideia sobre lhe dar falsas esperanças e se arrepender depois.
— Tchau... – se despediu, ainda sorrindo e sacudindo a cabeça negativamente, fingindo indignação.
Subiu as escadas que davam ao seu quarto e entrou no pequeno ambiente. Suspirou. Pegou seu celular e fitou, havia uma mensagem. Era de Bum.
Bebê Maçã
Myung-Hee, não vou para o dormitório hoje, pois voltei para casa. Nos vemos amanhã.
“Voltou para ‘casa’ e não, ‘casa do Sangwoo’? O que aconteceu?” – se remoeu de curiosidade.
A garota sentou na cama, começando há realmente digerir aquele dia. Chung-Ho foi legal, de verdade. Mas, estava indignada. Abriu os contatos de seu celular e mudou o apelido de Yangmi.
Ela se tornou ‘Pontas Azuis – A cor mais fria’.
“Fria como a sua alma, filha da mãe!” – refletiu, sentindo seus olhos marejarem.
Ficou olhando o display da tela do celular. Muitos sentimentos lhe rondando.
Raiva, ódio, tristeza, mágoa... Não conseguiria definir em uma coisa só.
As lágrimas começaram a cair, molhando o celular. As secou com as mãos.
“Não vou chorar... Não vou chorar...!” – pensava bravamente.
Um soluço engasgado escapou.
“Droga!” – secou mais forte as lágrimas, como se isso fosse fazê-las parar.
Mais um soluço.
“Destinada... Que idiota. Sou muito burra.”.
O choro veio sem dó, fazendo-a tremer em soluços desolados. Ficou assim até dormir sob a cama, mergulhando em um sonho profundo e triste.
Na terça acordou toda descabelada e borrada, se sentiu mal por ter dormido com o vestido-casaco novo e notou que sua meia calça rasgou durante a noite. Sem contar a dor de cabeça pelo choro compulsivo.
“Ótimo.” – pensou, levantando.
Tirou a maquiagem e foi tomar um banho, voltou e escolheu colocar seu vestido-casaco bege com meia calça preta e botas curtas no tom da roupa. De vestimenta, estava linda, de rosto, parecia uma morta-viva. Suspirou, colocando um pouquinho de maquiagem para não ficar tão ruim.
Talvez conversar com Bum a animasse, saiu, caminhando até o estacionamento da universidade, onde o garoto normalmente descia ao ir com Sangwoo. Acabou encontrando Yangmi no local. A alpha correu em sua direção.
— Hã... Oi. – Yangmi começou sem graça: — Sobre ontem...
— Não quero conversar. – perfeito, ainda conseguia fazer sua voz ‘gélida-cruel-não-quero-papo’, que puxou de sua mãe. Um grande corte em apenas uma frase. Sempre funcionava.
Yangmi pareceu em choque com o tom.
Myung-Hee se afastou, indo para um canto.
As duas permaneceram absolutamente caladas enquanto esperavam, algum tempo passou até o carro de Sangwoo aparecer.
Yangmi saiu assim que eles desceram, foi diretamente conversar com eles. Parecia animada.
“Ótimo.”. – pensou, suspirando.
Fez bem em se afastar. Ouviu um gritinho característico de comemoração da morena e ergueu a sobrancelha.
“Eles devem ter voltado.”.
Quando percebeu que eles começavam a se despedir, se aproximou, surpreendendo Bum que acabara de ser beijado por Sangwoo e estava muito vermelho.
“Pelo visto, tudo ocorreu muito bem.” – pensou a garota.
— O que foi isso? – perguntou curiosa, fitando os dois alphas se afastarem.
— Estamos namorando... – murmurou o rapaz sem graça.
— Sério? Parabéns! – ela sorriu: — Estou feliz por você!
Myung-Hee realmente estava feliz. Finalmente! Sangwoo não era o melhor alpha do planeta, mas, Bum o amava demais, e ninguém merecia isso mais do que o pequeno.
A garota começou a andar em direção ao prédio em que teriam aulas, sendo acompanhada pelo moreno. Seus passos eram apressados, pois já estavam quase atrasados.
— Hm... Não consegui deixar de notar... Você tá evitando a Yangmi? – Bum perguntou sem jeito.
— Com certeza. – respondeu sem pestanejar a baixinha. Isso pareceu surpreender o moreno.
Acabaram por se separar. Não tinham aulas juntos na terça, único dia em que isso acontecia.
A professora de hoje era uma simpatia. Acabou se animando um pouco mais. Contudo, durante a aula, recebeu uma mensagem.
Tinha vontade de bloquear o número sem ler. Mas decidiu não fazê-lo. Abriu.
Pontas Azuis – A cor mais fria
Eu sinto muito...
“Só isso?” – pensou, começando a escrever, sem ponderar.
Quer saber? O seu apelido. Eu omiti uma parte.
Ele era “Pontas Azuis – A cor mais quente”, mas não se preocupa, já mudei para “Pontas Azuis – A cor mais fria”.
Pontas Azuis – A cor mais fria
Myung-Hee, eu realmente sinto muito, mas eu não consegui ficar depois que ele apareceu.
“Ela não havia combinado com ele? Ah! Qual a diferença? O que ela fez... Não se faz.”. – tomou uma decisão, continuando a escrever.
Não conseguiu ficar?
Mas me deixar sozinha você conseguiu.
Pontas Azuis – A cor mais fria
O Chung-Ho nunca te machucaria...
“E eu ia saber disso? Ela...” – começou a escrever tão rápido que, se não estivesse tão nervosa, ficaria extremamente surpresa.
Você ao menos tem ideia do que é ser uma ômega com síndrome do descontrole?
Não, né? Pois saiba que NÃO GOSTO de ficar a sós com alphas!
Por que você acha que sempre levava um amigo quando encontrava com a manada?
Ou quando escolhemos onde comer, depois do ataque, eu só aceitei ir depois de saber o lugar, lembra?
Só fui porque conhecia e sabia que lá era sempre lotado.
Você o conhecia, não eu. Fiquei com medo!
Não acredito que fez isso comigo!
Pontas Azuis – A cor mais fria
Eu realmente não sabia!
Me desculpe!
Parou por um instante.
“Não faz diferença...” – pensou, escrevendo o que queria.
E sabia que eu gosto de você!
Pontas Azuis – A cor mais fria
O quê?
“Não se faz de sonsa! Só faltou um cartaz!”.
Se não correspondia, era só dizer!
Não precisava se dar ao trabalho de tentar arranjar alguém pra mim!
Nós podíamos tentar ser amigas, eu tentaria te esquecer, e deu.
Pontas Azuis – A cor mais fria
Espera! O quê?
Eu não estava tentando arranjar alguém pra você!
Myung-Hee já não estava se dando ao trabalho de ler. Só continuava escrevendo.
Mas e agora?
Não quero ser sua amiga.
Não quero mais nada vindo de você.
Sabe, o Chung-Ho é muito legal! O que você fez, não foi justo nem comigo, nem com ele.
Você é uma completa idiota Yangmi, e nem tenta me ligar mais, pois depois dessa mensagem, seu número tá bloqueado.
E se me ver, erra o caminho.
Mudou a tela, indo até as configurações e bloqueando a garota. Não queria mais saber dela.
Assim que as aulas acabaram, recebeu uma mensagem de Bum.
Bebê Maçã
Vou almoçar no restaurante mais próximo do seu prédio, nos vemos lá?
Escreveu rapidamente.
Ok. Nos vemos lá ^-^b
Não demorou muito para chegar. A fila estava longa, contudo andava rápido, não demorariam a entrar. Bum apareceu pouco tempo depois.
— O que aconteceu entre você e a Yangmi? – perguntou curioso.
Myung-Hee hesitou enquanto entravam no restaurante: -... Ela... Disse uma coisa e fez outra...
— Como assim? – questionou o rapaz enquanto pegava uma das bandejas para se servir.
“Ele não tem ideia...” – ia começar a falar quando viu a manada de Sangwoo se aproximar.
Yangmi a fitou. Pareceu vir em sua direção, mas Chung-Ho chegou primeiro, o que deixou a baixinha feliz. Não queria falar com a garota.
— Admito que atravessei metade do campus só pra te ver. – disse o rapaz.
— Vai começar a dar em cima de mim agora? – respondeu a garota, sorrindo.
— Já não estou fazendo isso desde sempre? – o loiro fingiu estar em choque.
— Não! Sério? Não tinha percebido! – ela correspondeu o choque: — Você disfarça muito bem!
— Eu? Disfarçando? Devo sair da biotecnologia e me tornar ator?
— Nem. Você disfarça, não engana. – complementou a garota.
— Então admite que tinha notado. – ele sorriu vitorioso.
Myung-Hee riu. Encontrando os olhos de Bum em seguida.
“O que você está fazendo?” – conseguia distinguir aquele olhar do moreno, questionador.
Não tinha uma resposta.
“Não sei.” – correspondeu o olhar silenciosamente.
“Por quê?” – ele a estava pressionando.
“Não faço ideia.” – encerrou o diálogo visual, desviando o olhar.
E não fazia ideia mesmo. Entendia que Chung-Ho estava flertando, ele tinha razão, era bem óbvio. Sabia que não o correspondia dessa forma, gostava de Yangmi, contudo, a garota fora uma babaca sem coração. Estava muito chateada, e nunca fora boa em desculpar. Sua mãe a chamava de ‘Rainha do Drama’ por uma razão. Pensava seriamente em dar uma chance ao rapaz. Ele não a fazia se sentir como Yangmi, mas era legal.
“Talvez eu deva valorizar mais quem gosta de mim, do que ficar indo atrás de quem não tá nem aí.” – pensou servindo-se e indo sentar.
O rapaz sentou ao seu lado. Continuou conversando, dessa vez dando um pouco menos de abertura. Iria com calma, nunca teve pressa para relacionamentos. Até porque, a maioria deles, servia apenas para magoá-la.
“Principalmente depois que conto sobre ela...”. — refletiu.
Quando já terminavam, Chung-Ho lhe entregou um suco.
— Laranja é o seu favorito, não? – disse o loiro.
Jurava que já tinha lhe dito que era tangerina, contudo, talvez a memória dele fosse tão boa quanto a sua. Sorriu. Ia responder, mas ouviu uma voz familiar a sua frente.
— Na verdade é tangerina. – Yangmi o corrigira.
Myung-Hee inicialmente ficou chocada, por vários motivos. O primeiro, ela lembrava. O segundo, ela o corrigiu, O terceiro, ela parecia estar com ciúmes. Depois, ficou zangada. Como assim? Não foi ela quem ‘juntou’ os dois? Agora, vem com essa?
— Pelo menos ele pensou em mim e comprou um suco. – respondeu friamente a baixinha.
“Por que, até agora, você não pensou.”.
— Obrigada, Chung-Ho. – respondeu virando-se para o rapaz, pegando o suco e levantando. Não tinha paciência para isso: — Eu tenho que ir. – saiu.
Andava apressada. Estava indignada.
“Que garota mais confusa! Tendo crise de ciúmes agora? Que vá a merda!” – foi segurada pelo braço e virada, Yangmi a fitava intensamente.
— Myung-Hee... Eu li as suas mensagens, a gente pode conversar?
Fitou os olhos da morena, ela parecia um pouco nervosa, mas, não iria ceder.
“Não vou ser otária duas vezes.”.
— Não. – disse friamente.
— Myung-Hee... Eu sei que o que fiz foi errado, é só que – foi interrompida.
— Errado? – a voz da baixinha conseguia ser muito mais congelante do que imaginava: — Errado é ignorar um senhor no ônibus, fingindo que tá dormindo, para não levantar e dar o lugar. Isso é errado. Você foi cruel. Não fala comigo, não quero falar com você.
— Você nem vai me deixar explicar e vai cortar relações? É isso? – Yangmi estava um pouco alterada, talvez, desesperada.
— É exatamente isso, captou a mensagem com perfeição. Não tem porque eu ouvir suas explicações. Não sou obrigada. – estourou a baixinha.
— Quê? Sério? – a morena de cabelos com pontas azuis parecia chocada.
— Muito sério.
— O que tá acontecendo aqui? – Chung-Ho chegou à seguida: — Alguém pode me explicar?
— Eu estava interessada na Yangmi, mas ela me deu um fora. Basicamente. Agora, tá se fazendo de besta. – respondeu Myung-Hee.
— Você o quê? – ele olhou para Yangmi: — E você?
— Eu... Você gosta dela, eu não queria...! – a morena de cabelos com pontas azuis ficou ainda mais nervosa, parecia tentar encontrar palavras.
Chung-Ho se calou, pensativo. Suspirou. Pegou o rosto de Yangmi com ambas as mãos e fixou o olhar nela.
— Não faz isso! – pediu a morena, tentando desvencilhar e soltando a baixinha.
Myung-Hee já ouvira falar sobre o que Chung-Ho estava fazendo.
“Ele está a desafiando, não?” – a baixinha se chocou.
— Se você age dessa forma, que escolha tenho? – respondeu o rapaz.
— Mas eu não quero isso! E você sabe que sou mais forte! – Yangmi manteve o olhar.
— Mais forte? Você desistiu sem nem tentar! Se é mais forte, prova! – ele disse furioso.
Yangmi fitou de canto Myung-Hee por segundos, e então voltou a encarar Chung-Ho, tirando as mãos do rapaz de seu rosto. O olhar da garota ficou sério e intenso. Iria lutar.
A baixinha observou os dois. Eles se encaravam. Estavam a um passo de começar uma disputa, teoricamente, por sua causa.
“Que ótimo.”.
Fechou o punho de raiva.
“Idiotas.”.
— JÁ CHEGA! – gritou Myung-Hee.
Os dois olharam para ela.
— Tão disputando o que exatamente? – ela disse enfurecida: — Minha mão de donzela em perigo? Vão à merda! Os dois! Alguém PENSOU em me perguntar? – Myung-Hee fitou o rapaz: — Sabe, eu considerei em te dar uma chance depois da merda que a Yangmi fez, mas agora? – ela voltou a olhar os dois ao mesmo tempo: — Percebi que idiotice é o lema da manada! Se quiserem lutar, vão em frente! Mas NÃO OUSEM me usar como desculpa! – se virou e saiu tempestuosa.
— Uou. – exclamou o rapaz.
— Sabia que ela ia ficar furiosa... – murmurou Yangmi.
— Você sabia? – ele olhou surpreso para a morena: — Normalmente ômegas gostam de ser disputados, não?
— Myung-Hee não é muito convencional... – ela passou a mão no cabelo, nervosa, vendo a pequena, já distante, subir para o ônibus que a levaria para o serviço.
—... Por que você não me contou que gostava dela? – Chung-Ho falou sério.
— Por que você sentiu uma conexão com ela. Não? – ela virou-se para o loiro: — Eu sabia que iria querer lutar por ela, não gosto disso. Se perdesse poderia querer sair da manada... – se abraçou: — Não quero que saia.
— Mas... – ele continuou, incentivando a morena.
— Ela não sai da minha cabeça. – confessou, colocando uma mão na nuca: — Nunca achei que estava disposta a lutar por alguém. Não contra alguém da minha manada. Não sou assim...
— Eu sei. Por isso desafiei. – disse simplesmente o garoto.
— Achou que eu ia desistir? – a morena fitou o loiro.
— Se desistisse, não estava tão interessada. – deu de ombros: — Você tem razão. Eu senti uma conexão com ela. Sabe, é muito ruim se descontrolar... Ela se descontrola por causa dos alphas, e eu, por causa dos ômegas. Achei que a gente poderia se entender. Sem contar que ela é linda. Mas, eu estou disposto a desistir.
— O quê? – exclamou a morena.
— O que prova que você gosta dela mais do que eu. Um pouco frustrante não lutar. – ele riu: — Mas não quero apanhar! – o rapaz deu uma batida no ombro da garota: — Admito que estou chateado por você não ter esclarecido desde o início, mas, isso é muito a sua cara. Sempre disposta a se sacrificar pela gente.
— Fala como se eu fosse uma mártir... – ela sorriu, sem graça.
— Você age como uma, mas sabe, você é minha irmã. Eu te amo. Não faria isso por mais ninguém. – ele falou sério, fitando os olhos da morena e a deixando sem graça: — Então, não faz mais isso. — sorriu: — Pelo menos eu a beijei, de leve, mas beijei. — riu.
— Quê? – a garota o fitou.
— Quem mandou vacilar? – riu mais: — Ah! Quero alguns dos seus quadros, são muito bons, assim, quando ficar famosa, vou poder enriquecer. – gargalhou, começando a andar.
— Deixa ver se entendi, você beijou a garota que gosto, e ainda quer quadros?
— Estou te dando uma oportunidade única de ficar com ela! Poderia continuar insistindo, você sabe o quanto sou charmoso! – ele ria.
Os dois avistaram Taehyun e Yura. O ruivo pagava uma quantia de dinheiro à garota loira.
— Eu disse. – informou séria Yura.
— Droga, Chung-Ho! Esperava mais de você! – falou o ruivo.
— Vocês apostaram? Não! Sério? – Chung-Ho correu para os dois: — Ei! Yura, dá uma parte da grana!
Yangmi olhou para trás. Poderia ter se acertado com Chung-Ho, mas, isso não mudava sua situação com Myung-Hee. Havia magoado a garota, mais do que imaginava a princípio. Quando leu as mensagens dela, ficou em choque várias vezes. Não sabia que ela sentiria medo do rapaz, considerou que como ele era um alpha conhecido...
“Fui estúpida.” – pensou.
E então a garota revelou que gostava dela. Notara as investidas, contudo, tudo também poderia ser considerado uma brincadeira entre amigas. Ok. Ela ter pedido para ajudá-la a retirar a coleira foi bastante, ousado... Mas, ainda assim... Não era algo tão claro assim...
“Ou eu não sou tão perceptiva assim...” – refletiu.
Nunca fora boa nisso. Todas às vezes que se envolveu com alguém, essa pessoa teve de ser muito direta. No sentido de dizer, claramente, que queria ficar com ela. Respirou fundo.
Myung-Hee chegou ao serviço, colocou o uniforme e começou a atender as mesas. Estava um pouco distraída. Pensava sobre o que acontecera.
“Ela estava disposta a lutar...” – refletia.
Sabia que Yangmi era, essencialmente, pacífica. Como a própria manada.
“Mas ainda estou chateada...” – suspirou.
Não sabia se deveria ouvir ou não a garota.
“A manada dela é tão importante, que ela não pensou nos meus sentimentos.” – essa era a sensação que tinha.
“Droga.” – mordeu a ponta da unha.
Teve a mão delicadamente tirada da boca pelo tio.
— Seu pai me mataria se soubesse que deixei você voltar a velhos hábitos. – ele riu.
Ela sorriu. Quando era mais jovem, devido as estresse, vivia roendo as unhas. Conseguira parar com isso.
— Tem razão. – ela colocou a mão na cintura. De repente, viu um novo grupo entrando na cafeteria.
Era a manada de Sangwoo. Chocou-se. Yangmi, Taehyun e Yura estavam ali.
“O que eles estão fazendo aqui?”.
— Myung-Hee, atende eles? – questionou o tio.
— Hm... – ela ficou um pouco nervosa, o homem percebeu.
— Ok. Deixa que eu atendo. Limpa as mesas do outro lado.
Ela confirmou com a cabeça e saiu.
— Por que vocês vieram? – questionou Yangmi para os outros, enquanto se sentavam.
— Você fez aquele olhar. – respondeu Taehyun, pegando o cardápio.
— É. O olhar “Yangmi”. – Yura riu, já fazendo o pedido para o tio de Myung-Hee que se aproximara: — Um café preto, com um pedaço de torta de amora.
— Que olhar? – questionou a morena, virando-se para o atendente: — Quero chocolate quente e torta de morango. – disse sem ver o cardápio.
— Ah! Você sabe... – começou Taehyun respondendo Yangmi, mas se interrompendo, virando para o homem e fazendo o pedido: — Um chá verde e... Hm, pode ser cheesecake de morango.
— Você pensou em alguma coisa. – completou Yura.
Yangmi colocou ambas as mãos no rosto: — Eu tive, realmente, uma ideia. – corou: — Mas, não queria vocês presentes...! – murmurou, nervosa.
— Se deu mal. – riu Taehyun.
Yura olhou o ambiente, logo sorrindo: — Acho que captei sua ideia. – ela se voltou para a morena.
Myung-Hee limpava as mesas, quando ouviu a música do karaokê começar a tocar, fitou o pequeno palco, para ver quem iria passar vergonha. Abriu levemente a boca. Yangmi estava no palco, com Yura.
— Hã... Bom... – começou a morena com o microfone, fazendo todos se virarem para ela: — Dedico essa música a atendente mais baixa do local.
Myung-Hee corou violentamente, porque, absolutamente todos se viraram para ela. Incluindo seu tio. Não acreditava que ela realmente faria isso, mas a música estava tocando e Yangmi não dava sinal de que desistiria.
— I know you can hear me... – começou a morena. (Eu sei que você pode me ouvir).
— I want say... There's always two sides for every story — ela continuou, fitando-a. (Eu quero dizer… Que há sempre dois lados para toda história).
“Você mudou a letra…” – sacudiu negativamente a cabeça.
— Here's mine... I found out…I cannot live without you – a morena respirou, enquanto Yura fazia a back vocal. (Este é o meu… Descobri… Que não posso viver sem você).
— Loving you was easy. – Yangmi não desviava os olhos de Myung-Hee. (Amar você foi fácil).
“E você ainda canta bem...” – pensou a pequena, corando ainda mais.
— And being true was hard. (E ser verdadeira difícil).
“Não deveria ser…”. — pensou a baixinha.
— One, two, many lies and you were gone. I didn't wanna face up to the things I've done. (Uma, duas, muitas mentiras, e você se foi. Não queria enfrentar o que fiz.).
“Você não deveria ter saído…”. — ainda estava chateada.
— I thought I'd be alright but I was wrong. (Pensei que ficaria bem, mas estava errada.).
“Cantar para alguém romântico é sacanagem, praticamente, golpe baixo…”. — suspirou a pequena.
— I miss you, oh, I miss you… I'm gonna need you more and more each day. (Sinto sua falta, oh, sinto sua falta… Precisarei de você mais e mais a cada dia).
Myung-Hee não podia negar que estava tocada. A morena cantava muito bem e não desviava os olhos dela...
“Droga Yangmi...”.
— I miss you, more than words can say… More than words can ever say. (Sinto sua falta, mais do que palavras podem dizer... Mais do que palavras jamais poderão dizer.).
“Você foi uma idiota.”.
— Saying that I'm sorry isn't good enough. (Dizer que sinto muito não é o suficiente.).
“Não é mesmo.” – a baixinha fez um beicinho que acabou fazendo a morena sorrir do palco.
— I need to show you just how much I've changed. 'Cause, girl, if you could see what I'm going through… You wouldn't be afraid to try again… (Preciso mostrar-lhe o quanto mudei. Porque, garota, se você pudesse ver o que estou passando... Você não teria medo de tentar novamente...).
Myung-Hee cruzou os braços, pensativa.
“Ainda está cantando uma das minhas músicas favoritas...” – respirou fundo.
— I miss you, oh, I miss you… I'm gonna need you more and more each day.
“Você realmente presta atenção em tudo que falo, não é?”. – ela observava a morena, que apesar de obviamente sem graça, continuava cantando.
— I miss you, more than words can say… More than words can ever say.
“Ela realmente está fazendo isso…” – olhou ao redor, todos prestavam atenção.
Aquilo deveria ser complicado para uma alpha orgulhosa como ela, se desafinasse uma nota, provavelmente não se perdoaria. Sem contar que, Myung-Hee sabia, a morena odiava cantar... Descruzou os braços.
“Você tá falando sério agora...?” – pensou.
Yangmi começou a descer do palco: — I miss you...
— I miss you… — cantou Yura do palco.
— I miss you. — a morena se aproximou da baixinha: — I'm gonna need you… — ela segurou as mãos da pequena: — I miss you, more than words can say…
Myung-Hee não se afastou e Yangmi sorriu, continuando a cantar.
— I miss you, oh, I miss you… I'm gonna need you more and more each day.
— More each day — cantou Yura.
— I miss you, more than words can say…
— More than words can say. — completou Yura.
— More than words can ever say. — Yangmi se aproximou mais, encostando sua testa na da baixinha e baixando o microfone: — Eu sinto muito...
Myung-Hee fitou os olhos negros: — Que seja a última vez que você faz isso comigo. – respondeu.
O sorriso da morena aumentou: — Você realmente acha que eu vou te deixar sozinha depois de hoje? – ela colocou a mão na cintura da pequena, puxando-a para mais perto e não deixando mais espaço entre elas.
Myung-Hee sorriu e Yangmi encostou seus lábios nos dela, sentindo o doce sabor da ômega. Começou a movimentá-los lentamente enquanto a sentia pôr os braços ao redor de seu pescoço. Aprofundou um pouco mais o beijo, nunca se sentira dessa forma. O mundo inteiro parecia não ter mais importância, apenas a pequena em seus braços.
Ouviram os aplausos e gritinhos dos clientes, acabando por se afastaram, se lembrando de que ainda estavam na cafeteria. Olharam surpresas uma pra outra, pelo visto, ambas haviam se perdido um pouco no beijo, riram em seguida.
Com autorização do tio, ambas sentaram em uma mesa mais afastada.
Yura e Taehyun ocuparam o karaokê começando a cantar You're The One That I Want. Na verdade, era um show a parte, onde Yura imitava com perfeição a Olivia Newton-John, e o Taehyun, John Travolta. Faziam a coreografia com tanta perfeição, que se houvesse um remake de Grease, poderiam ser escalados.
— Então, você pode me explicar o que aconteceu? – Myung-Hee fitou Yangmi, tentando não prestar atenção no karaokê.
— Ok. – a morena pareceu um pouco nervosa: — Eu marquei um encontro com você, porque queria ter um encontro com você. Quando eu cheguei lá, o Chung-Ho apareceu. Foi coincidência, mas, não consegui ficar... – ela respirou fundo: — Não me dou bem com a minha família... Minha manada é tudo pra mim, e o Chung-Ho, apesar de não estar a muito tempo, é importante... Como um irmão... Eu, não consegui ter um encontro com a garota que ele gostava.
Myung-Hee suspirou: — Você nem parou para pensar nos meus sentimentos...
— Eu sei! Eu sei disso... – ela segurou a mão da baixinha: — Não pensei que você ficaria com medo do Chung-Ho... Também não sabia que você gostava de mim.
— Sério? – a garota ficou chocada.
— Sério. Sou lenta mesmo. – confirmou sem graça a morena.
—... Está bem. – sorriu a baixinha: — Acho que a gente pode ter um encontro agora, não?
— Na verdade... – a morena apertou um pouco a mão da pequena: — Eu pensei se você... Gostaria de namorar comigo... – perguntou um pouco corada.
“Namorar?” – Myung-Hee sorriu, mas logo voltou a ficar séria. Um pouco nervosa, tirou a mão.
— Eu... Não sei... – disse com sinceridade: — Há coisas sobre mim que você ainda não sabe... Não sei se é bom já começar a namorar antes de você me conhecer melhor...
Yangmi ficou preocupada. Não era como se nunca tivessem saído antes, quer dizer, nunca saíram sozinhas, mas...
— Você tem alguma doença incurável? – perguntou incerta.
— Não... – respondeu sem graça a pequena.
— É casada? – continuou o interrogatório.
— Não... – a baixinha pôs uma mecha do cabelo para trás da orelha.
—... Trafica? Faz algo ilegal?
— Não! Que isso, Yangmi! – cruzou os braços, um pouco indignada.
— Então, não sei! Caramba! Por que você não quer? Você gosta de mim, eu gosto de você, não entendi. De verdade.
Myung-Hee ficou calada por alguns instantes. Deveria contar? Assim? Bom... O impacto sempre é menor quando conta no início...
— Eu tenho uma filha.
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