Sangwoo estava sentado no imenso sofá branco da sala de Jieun, com uma taça de vinho e um pedaço de torta de amora. Pensava, seriamente, em como chegara naquela situação, enquanto a garota mudava de canal na televisão de 82''.

Todas às vezes que fora à casa de Jieun, acabou na cama da mesma. Não que não quisesse isso na época em que ocorria – na realidade, a quem queria enganar? Ia lá para este objetivo mesmo... Mas... Não era assim, desta vez...

Colocou a taça de vinho e o prato com a torta em cima da mesa de centro e se acomodou melhor no sofá, jogando a cabeça para trás.

Só não queria ir para casa.

Normalmente, nesses casos, iria para a casa de Yangmi, mas... Não queria ouvir sermão por não querer ir para casa. Estava cansado e irritado, e por incrível que pareça, quando não queria pensar em porra nenhuma, Jieun era a melhor escolha.

Fitou a garota que parecia irritada com a televisão. De repente, o rosto dela se iluminou e ela o mirou decidida.

— Já que está aqui, você vai cantar comigo. – levantou animada, indo até um armário de madeira polida que ficava em um canto da sala muito bem decorada, retirando dali tudo o que precisaria.

— Você só pode tá brincando... – retrucou Sangwoo, nem um pouco feliz com a ideia.

— Não tô não! – ela sorriu, trazendo os microfones e entregando um ao alpha.

— Jieun, eu não sei cantar... – disse com cara de quem não queria fazer aquilo.

— Ok, então a gente pode começar a conversar, começando com o porquê de você estar aqui...

Sangwoo pegou o microfone: — Qual música?

A garota riu: — Aqui. – ela começou a selecionar uma música de uma lista exposta na tela da televisão.

— Hm... Por que você não chama a Young para cantar com você...? – questionou esperançoso. Talvez pudesse só ficar em um canto, ouvindo as duas cantando... Elas não eram tão ruins nisso, diferente de Dongyu...

— Ela está numa festa. – respondeu, escolhendo a música Sometimes, do Crush.

— Espera, uma festa? É quarta-feira!

Jieun revirou os olhos: — Estamos de férias, lembra? Eu só não fui porque comecei a trabalhar...

— Eh? Você trabalhando? – Sangwoo fez uma cara de falsa surpresa.

Jieun ligou a música como vingança: — Vamos lá. – ela sorriu malignamente: — Oneulbameun yunanhi chuwo... – ergueu um dos braços dançando: — Gamanhi bam haneureul tto dasi bogo isseo... – botou a mão no peito, numa óbvia falsa emoção: — Beolsseo 1nyeoni jina YEAH!

Como o alpha não se movia, a garota fez uma cara feia, ameaçando desligar a música, o que geraria um papo desagradável sobre suas razões.

Sem ânimo nenhum, Sangwoo levantou: — Alyeonhage dagawa chueog... Neol jibe delyeoda jwossdeon... Geu gieogdeuri da... Neomu sojunghae...

Ele fitou a jovem em uma óbvia cara de ‘satisfeita?’, ela o ignorou, cantando junto: — Eonjenga neol nae yeope dugo geuttaen geuraesseossji...

O alpha suspirou: — Ramyeo chueogdeureul nanul georago... Saenggaghaesseossji...

Jieun ergueu novamente o braço, dançando: — Neon nawa gateulkka doenoeeobojiman... Gami...

O loiro se questionava mentalmente como se metera naquela fria, enquanto acompanhava a próxima frase com a garota: — Ojil ana... Geunyang gakkeum...

Jieun se empolgou, subindo no sofá: — Geuriul ppuninde... Neowa ibeul majchugo neol gamssa anassdeon...

Sangwoo riu: — Aju gakkeum bogopeul ppuninde... Oneureun wae ireohge nunmuri naneunji...

Contudo, os dois pararam de rir e cantar quando ouviram a porta da entrada bater com força.

Jihoon os fitava seriamente, com os braços cruzados: — Não.Acredito.Nisso.

Jieun abriu levemente a boca. O amigo sabia o código de sua casa, pois ia para lá com frequência além de já tê-la levado muitas vezes, quando estava bêbada.

A instrumental da música continuava tocando ao fundo.

O baixinho olhou a amiga: — Sério, Ji? – depois se virou para o alpha: — Você sabe que tá todo mundo atrás de você? Aliás... – ele pegou o celular no bolso da calça.

Sangwoo ergueu a sobrancelha: — Quê? – o loiro olhou para Jieun: — Atrás de mim?

— Achei que você soubesse e não quisesse ser incomodado. – a garota se justificou.

O alpha lembrou que desligou o celular. Realmente não queria ser incomodado, mas, não pensou que estariam atrás dele... Será que Bum se preocupara a esse ponto? De pedir ajuda para encontra-lo? Não esperava por isso.

— Bom, faço questão de ser o único corno dessa manada, exijo exclusividade. – disse ironicamente Jihoon: — Então, explica para ele, o que diabos você tá fazendo na casa da sua ex. – o líder alpha ergueu uma sobrancelha: — Nem adianta fazer essa cara de desentendido, você só não assumiu o óbvio. Ela é sim sua ex! Quero ver a explicação do senhor alpha, para estar aqui, durante a noite e com a droga do celular desligado! – mostrou o próprio telefone, onde Sangwoo pode ler ‘Bum’ na tela como número sendo chamado: — Vamos, explica pra quem realmente interessa! Porque, se você vai transar com ela, pelo menos, não deixa o coitado preocupado feito um imbecil em casa!

— Você não fez isso! – o loiro largou o microfone no sofá e pegou o celular da mão de Jihoon. Seu coração disparado, não havia feito nada de errado, cacete! Por que sempre se metiam daquela forma na sua vida?

— Jihoon! – Jieun olhou o amigo enquanto o mesmo pegava a taça de vinho de Sangwoo e tomava em um gole. Desceu do sofá e colocou ambos os microfones na mesa de centro.

— Que Jieun? – esbravejou o pequeno: — Sinceramente, esperava mais de você! “Também não o vi”. Aham. Certinho. – ele encheu a taça novamente.

— Não é o que você tá pensando! E mesmo se fosse, não é da sua conta! – bufou.

— Ah, me desculpe se eu tenho alguma consideração pelo namorado dele! Você acha que o que estava fazendo era legal, Ji? – o rapaz voltou a beber, sua cabeça podia ser definida como uma verdadeira zona. Não conseguia acreditar que podia acontecer tanta merda em um só dia, provavelmente, gastara toda a sua sorte no serviço.

— Eu não estava fazendo nada! – exclamou a jovem, ficando realmente indignada.

— Ah! Tá bom! Vai negar que você só queria uma oportunidade para abrir as pernas pra ele? – Jihoon fitou a amiga, irritado: — Vim até aqui, achando que teria algum apoio, e descubro que uma das minhas melhores amigas, é exatamente igual àquele filho da puta. – ele bebeu toda a taça novamente.

— Bum? – Sangwoo tentou ouvir o ômega do outro lado da linha, contudo, com a discussão de Jieun e Jihoon, não ouvia nada. Saiu do ambiente, indo até o jardim com piscina da garota: — Bum? – repetiu.

Houve um grande silêncio, mas, conseguia ouvir a respiração do garoto.

— Bum? – tentou novamente.

— Você tá na casa... Da Jieun? – questionou incerto o rapaz do outro lado da linha.

Sangwoo suspirou: — Sim. – disse passando a mão no cabelo.

— Ah... – a voz do ômega pareceu mais baixa.

Novo silêncio. O alpha não tinha ideia do que dizer. Talvez, que não fizera nada demais? Mas, por que tinha de se justificar? Realmente não fizera nada...

— Por que a Jieun? – questionou baixinho o moreno.

O alpha respirou fundo: — Qual o problema de ser ela? Eu só vim conversar...

“Ele realmente não confia em mim.” – pensou, voltando a se irritar.

— Qual o problema? – Bum se calou por um instante: — Nenhum. – disse secamente: — Da próxima vez que nós brigarmos, irei até a casa de Yoonjae a noite, com o celular desligado, conversar com ele.

Sangwoo abriu levemente a boca: — Não é a mesma coisa! – falou transtornado.

— Ah, não? Qual a diferença? – questionou decidido o moreno.

— Ele está interessado em você, e já deixou isso bem óbvio! – esbravejou.

— E ela não está interessada em você? – respondeu exasperado o ômega.

O loiro se calou. Bum não estava exatamente errado... Mas... Segurou com mais força o celular, tentando se controlar. Jieun ainda gostava dele? Talvez. Já não tinha mais certeza desde que se envolvera com o moreno... Quer dizer, não prestara tanta atenção nisso...

— Ela nunca disse que iria ‘me roubar’ de você! – exclamou indignado.

Bum ficou um momento calado: — Não... Ela apenas fez você dormir com outro ômega na minha frente, para ‘provar’ que mandava em quem transava com você!

Sangwoo respirou fundo: — Ela estava me testando àquela noite, vendo se eu continuava o mesmo... – disse seriamente.

— E você continua?

O alpha se calou.

— Nós... Não estávamos namorando...

— Você não respondeu...

— Depois que te pedi em namoro, eu avisei a manada que pararia de dormir com outros, ok?

— E o que te faz pensar que ela entendeu isso? – a voz de Bum transpareceu certa insegurança.

Sangwoo suspirou: — Eu sou o líder, tecnicamente, nenhum deles pode me obrigar a nada. Ela não tem esse tipo de poder sobre mim...

“Só você tem...” – pensou o loiro, olhando as estrelas no céu escuro.

— Eu sei... – sussurrou o moreno.

— Sinceramente, Bum, você está me parecendo apenas querendo justificar o seu ciúme. Não sabia que era tão ciumento...

— Eu sou. – respondeu sem rodeios: — Em parte... – completou inseguro.

Sangwoo se calou. Nunca pensara em Bum como alguém ciumento, na verdade, sua frase fora mais uma provocação, não achava que o ômega concordaria com a afirmativa...

— Toda a vez que acontece algo, você vai embora... Conversa com qualquer um, menos comigo... O que eu faço pra ser sua primeira opção? O que devo fazer pra você ficar, se acalmar, e conversar comigo? Nunca sei... E sim, tenho ciúmes da Jieun... Vejo a forma como ela te olha, apesar de você ignorar, ou... Eu pensava que ignorava... Agora que você foi atrás dela... Eu meio que... Perdi um pouco a confiança... – o rapaz falava baixo, parecia triste.

O alpha sentiu seu coração se agoniar, ficou em silêncio, não esperava por isso... Engoliu a seco.

— Não fiz nada. – disse com sinceridade apesar do nervosismo ter feito a frase soar mais tensa do que gostaria.

Bum não respondeu.

Sangwoo suspirou: — É sério... Eu só – ele hesitou: — Cantei uma música... – murmurou, puto por ter confessado algo tão vergonhoso.

— Você... O quê? – a voz de Bum soava entre surpresa e incrédula.

— Cantei com ela uma música... Ah, vai, não me faz repetir isso... – sacudiu a cabeça, tentando não se lembrar do momento anterior.

Bum riu. O que fez o coração de Sangwoo se tranquilizar de uma forma que até ele não saberia explicar.

— Acredita em mim...? – questionou receoso.

— É absurdo demais para você estar inventando e... Tinha uma música instrumental tocando, quando o Jihoon ligou... – murmurou o pequeno: — E... – Bum hesitou.

— Sim?

— Eu confio em você.

Aquela frase fez o loiro fitar o chão. Bum lhe dizia aquilo, contudo, suas ações não condiziam com o que falava... Mas, mesmo assim, ainda sentia sua falta... Quis evitar voltar o dia inteiro, entretanto, era só ouvi-lo que a vontade de vê-lo, estar ao seu lado... Retornava como se nada tivesse acontecido.

— Vem pra casa... Vamos conversar Sangwoo... – murmurou o pequeno com a voz levemente trêmula, parecendo não estar tão confiante, todavia, ainda assim, dando o seu melhor.

Como aquele garoto conseguia fazer seu mundo virar de cabeça pra baixo e ao mesmo tempo, ser o eixo para que ele voltasse ao normal? Não tinha ideia... Só sabia que enquanto uma parte de si permanecia com raiva e receosa, outra parte maior estava com saudade e ansiosa.

Fechou os olhos.

— Já estou indo. – deu uma pequena pausa: — Só vou me despedir dos dois.

— Tá... – o pequeno soava mais tranquilo: — Estarei te esperando.

“Esperando...” – o loiro abriu os olhos, observando a lua brilhante.

O pequeno sempre o esperava. Normalmente aflito se não lhe avisava o que estava ocorrendo e o motivo de seu atraso... Será que ele ficara naquele estado a tarde inteira? Por isso pedira ajuda para encontra-lo?

Entendia suas razões... Desde que a mãe saíra e não voltara, o medo dele de perder alguém da mesma forma brutal, era forte...

Suspirou.

Sua mente o fez lembrar aquele detalhe apenas naquele momento. Não fora sua intenção preocupa-lo ou afligi-lo, só queria um tempo para pensar. Contudo, percebeu que fora mais cruel com o moreno, do que desejara ser...

“E tem o estado dele... Isso não é bom para a saúde...”.

— Bum... Desde que sai, você comeu algo? Bebeu? – perguntou um tanto preocupado.

— Hã... – o pequeno vacilou, não respondendo imediatamente.

Sangwoo suspirou. Não precisava da resposta, já sabia... Fora sua culpa o ômega se sentir daquela forma... Deveria, ao menos, ter avisado que estava bem... Havia sido irresponsável e um tanto infantil. Tinha essa tendência quando se irritava, por mais que tentasse se controlar...

“Nem passou na minha cabeça naquela hora...”.

Respirou fundo.

— Desculpe não ter avisado que estava bem e ter desligado o celular... Come alguma coisa enquanto me espera, não vou demorar.

Bum ficou completamente pasmo do outro lado da linha, não esperava que o alpha se desculpasse por aquilo, ou se preocupasse, sorriu ao responder: — Está tudo bem... Eu vou... Até.

— Até...

Novo silêncio... Apesar de terem se despedido, nenhum dos dois, de fato, desligava o celular.

O loiro não tinha ideia do motivo de se sentir estranho com a situação, por que não desligava logo? Queria dizer mais alguma coisa? Não... O que precisavam conversar era melhor pessoalmente... Então, por quê?

— Hm... Sangwoo... – começou o moreno.

O rapaz saiu do transe: — Sim?

O ômega hesitou novamente: -... Nada. – disse por fim: — Hm, tchau. – e desligou.

O alpha segurou o celular contra a orelha durante uns segundos a mais...

~*~*~*~*~*~

Jieun viu Sangwoo ir para o jardim e olhou Jihoon que bebia sua terceira, ou quarta, taça de vinho.

— O que deu em você? – questionou irritada.

— Ah, me desculpe senhorita se estraguei o seu encontro. – ele percebeu que acabara o vinho e foi para a cozinha, onde tinha uma mini adega, pegando outra garrafa.

— Quer parar de beber? – ela foi tirar a garrafa do rapaz, mas, ele não deixou.

— Não! Não quero! Todo mundo é a porra de uma decepção! – ele afastou a garota: — Você! O Sangwoo! O meu irmão! A droga do meu ex-namorado! Todos são uma grande decepção! — abriu a garrafa, se servindo de outra taça.

— Eu não fiz nada! – Jieun praticamente gritou a frase.

— Mas queria! – Jihoon fitou os olhos da amiga: — Você. Queria. – disse sério: — Se ele te desse UMA brecha, você pulava em cima! Qual era o plano? Beber, contar piadas e então, transar?

— Não! – a garota disse mais baixo, já não tão confiante.

— Sério? Por que eu fiquei a droga desse mês INTEIRO te consolando! “Jihoon, ele nunca assumiu nada comigo, mas, ele parecia interessado... Agora esse ômega surge do nada e ele, além de tê-lo marcado, também o pediu em namoro!” – imitou a garota.

Jieun abriu a boca para responder, mas, se calou.

— Sabe o que é pior? – continuou o baixinho: — Ele não precisou fazer nada! Absolutamente nada, para você correr de volta como um cachorrinho! – Jihoon colocou a mão na cintura, indignado: — Qual o seu problema? Você é tão orgulhosa para certas coisas e se rebaixou dessa maneira!

— Jihoon, eu realmente não fiz nada... – a garota olhava para o chão.

O rapaz ficou calado: — Eu sei disso. Mas, você ia, não ia?

Jieun mordeu o lábio inferior com força, segurando as lágrimas: — Eu... – ela soluçou, não aguentando mais: — Gosto dele... – as palavras saíram dolorosamente, enquanto o corpo da garota estremecia.

Jihoon suspirou profundamente, largou a taça sobre a bancada da cozinha, quando percebeu que Sangwoo os observava, há quanto tempo o alpha estava ali, ele não tinha ideia.

— O que você quer? – disse friamente mirando o líder.

A garota notou a situação e logo passou a mão no rosto, se controlando.

Sangwoo fitou o rapaz e então Jieun: — Quero falar com ela a sós.

O baixinho pegou a taça de vinho. Seu líder podia ser um completo idiota em alguns momentos, mas, não era ruim... Se fosse, não estaria em sua manada há muito tempo.

— Só não faz mais merda. – ele pegou a garrafa e saiu, indo para a sala, onde se jogou no sofá.

— Jieun... – começou Sangwoo.

— Só um minuto. – a garota foi até a pia, sem se virar, abriu a torneira e lavou o rosto. Pegou alguns guardanapos e o secou rudemente, se virando em seguida para jogar os papéis no lixo: — O que você quer falar comigo a sós?

O alpha observou Jieun, que cruzara os braços diante do corpo, após fechar melhor o robe. Seus olhos estavam vermelhos e ela observava os próprios pés.

Nunca tivera nada com ela... Ou pelo menos, nada dito, nada oficializado.

— Jihoon estava errado, você nunca foi minha namorada. – ele disse sério.

Jieun apertou mais forte os braços: — Eu sei, eu nunca disse que-

— Mas você foi minha companheira. – era uma mentira dizer que eles nunca tiveram nada. Sabia disso... Nesse ponto Jihoon tinha razão, ele apenas nunca admitira que ocorrera algo entre eles. Contudo a verdade era que sim, eles tiveram alguma coisa.

Era com ela que ele dormia, era ela quem decidia quais ômegas ele deveria ‘se pôr a prova’ nas festas, era ela que levava como companhia aos bailes da universidade... Ela não era sua namorada, mas, eles agiam como um casal.

Jieun se chocou, virando o rosto para o rapaz que a fitava seriamente. Seus olhos se encheram de lágrimas novamente.

— Me desculpe nunca ter terminado... Apropriadamente.

A garota descruzou os braços indo na direção do alpha, começando a soca-lo no peito. Sangwoo não se afastou, apenas recebeu os socos parado e sem revidar: — Seu IDIOTA! – ela bateu com toda a força que possuía: — Por que você veio aqui? Você me odeia?!

— Me desculpe... – murmurou.

— Minha marca está quase desaparecendo... – ela soluçou: — Você quer que eu saia? É isso...? – fungou.

— Não... Eu, não quero que você saia da manada Jieun, e não te odeio... É só que... Você respeita o meu tempo...

Jieun parou de soca-lo e o fitou: — Como assim? – disse passando a mão no rosto.

— Você não me força a falar sobre o que não quero... Acata as minhas decisões... Quando eu quero um tempo dos meus problemas, acabo recorrendo a você...

Ela fez um beicinho de revolta: — Esqueceu completamente que eu gostava de você, né?

Ele ficou em silêncio.

— Sangwoo, passou só um mês e pouco, eu preciso de mais tempo que isso... – ela voltou a limpar as lágrimas.

— Por isso me desculpei... Além disso... Eu não encerrei, não é?

Foi a vez de Jieun ficar em silêncio.

— Houve uma época que eu realmente gostei de você. – o rapaz passou a mão no cabelo: — Mas, agora... É impossível... Não vai acontecer de novo. Nem entre nós, nem com ninguém mais. Quando mandei a mensagem avisando que estava namorando o Bum e que meu tempo de solteiro havia acabado, não me referia apenas aos ômegas com os quais dormia, e sim a todos.

— Você está completamente apaixonado por ele, não? – ela fitou o alpha.

— Um pouco além... – confessou o loiro.

A boca de Jieun abriu levemente ao compreender o que Sangwoo queria dizer. Voltou a cruzar os braços e soltou um riso curto e baixo: — Se é assim, você deveria ter ido para casa, idiota. – disse séria.

— Eu sei. – ele esticou a mão: — Só que eu precisava pensar... Não que tenha uma resposta agora... – murmurou a última sentença.

Ela olhou para a mão do loiro e piscou: — O que foi?

— Seu braço.

—... Agora?

— Você quer um tempo, vou te dar um tempo. Mas, não vou deixar você sair. – ele mexeu os dedos, sinalizando que queria o braço.

Jieun hesitou um pouco, contudo, logo colocou sua mão sobre a mão do alpha.

Sangwoo levou o pulso da garota até a boca, onde mordeu, reforçando o vínculo de manada que possuíam.

— Ai! Isso dói! – protestou, enquanto o alpha se afastava: — Não me lembrava de doer tanto... – sussurrou, levando o pulso até o peito.

— Normalmente eu te distraia com outra coisa. – o loiro deu de ombros.

A garota corou violentamente: — Idiota! – disse voltando a socar o rapaz no braço: — Ai! – reclamou por ser usado a mão recém mordida como arma.

O alpha a observou por alguns instantes: — Eu deveria ter feito isso antes, não?

Jieun ficou calada por alguns instantes, entretanto logo voltou a se arrumar, passando a mão no robe e colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha: — Deveria. – respondeu séria, olhando o loiro: — Mas, eu vou ficar bem. Melhor ir logo.

— Certo. – ele colocou a mão no bolso: — Tchau, Jieun. – caminhou até a sala, deparando-se com um Jihoon que cantava What’s Up da banda 4 Non Blondes: — Hã... – andou até o baixinho, entregando o celular.

Jihoon o viu, pegou o aparelho e pausou a música: — Já posso ir ver ela agora?

— Você tá estranho, aconteceu alguma coisa?

— Longa história e você têm que ir. – ele bebeu mais do vinho: — Ou vai ficar e veio me mandar embora?

— Não. Estou indo...

— Você tem sorte de ele te perdoar, me pergunto até onde vai a paciência dele.

— Não tem o que ser perdoado, Jihoon. – o alpha o fitou sério.

— Mesmo? – Jihoon questionou provocativamente: — Vinho... Música... Risadas... Eu já conheço essa história tão bem, que chego a enjoar. Você pode até agir de forma inocente, como se não quisesse nada, só que, no fundo, sabe aonde isso ia parar. Claro que quer acreditar que não faria nada... Mas, tem certeza? Absoluta? Porque você é campeão de fazer bobagem nessas situações... – ele bebeu mais do vinho: — E estar bêbado sempre foi uma ótima desculpa.

— Acho que você bebeu demais. – Sangwoo se virou, ficando de costas para o baixinho e saindo da casa. Não ia trair Bum, não foi para casa de Jieun com esse objetivo e não faria isso...

“Me pergunto até onde vai a paciência dele.”.

Não fizera nada, mas, tinha de admitir que não soava como se tivesse as melhores das intenções ao ir ali... Olhou o relógio, talvez demorara um pouco mais do que imaginara. Andou até o carro e entrou. Iria para casa.

Jihoon foi até a cozinha, fitando a amiga que mirava o pulso: — Ele já foi... Pode voltar a chorar.

— Hm. – ela sacudiu a cabeça negativamente: — Não estou com vontade de chorar, na realidade, me sinto melhor... – olhou o amigo: — Só que, sério, o que deu em você?

— Ah... – o rapaz olhou o teto: — Preciso de sorvete. – voltou a fita-la: — Me diz que tem sorvete.

— É inverno Jihoon...

— E daí? – resmungou o pequeno: — Sorvete não tem estação não...

Ela piscou algumas vezes: — O que houve com você? – o rapaz suspirou e Jieun continuou: — Bom, não tem sorvete, mas, tem torta...

— Serve. – ele pegou o doce inteiro, duas colheres e foi andando até a sala: — Vem logo, a gente tem muito que conversar e eu também tenho que te contar várias coisas... Garanto que nem vai acreditar no que me aconteceu... E a próxima música vai ser I will survive, porque a gente merece...

Jieun fitou o amigo e então olhou pela janela, vendo o carro de Sangwoo partir. Fora uma noite estranha. Esperava que algo tivesse ocorrido? Sim. Contudo, ele ter admitido que tiveram algo e ter terminado devidamente, valeu muito mais... Ainda gostava dele, provavelmente, estava apaixonada... Entretanto, sentia que agora que o livro fora fechado, podia superar aquela história.

Nunca saber como classificar o que passaram juntos, nunca saber se significara algo em algum momento, nunca saber se ainda haveria ou não possibilidades, era muito, muito pior. Caminhou tranquila até a sala: — O que você quis dizer com querer ser o único corno da manada? – questionou, sentando ao lado do amigo.

~*~*~*~*~

Sangwoo dirigiu com calma. Apesar de querer chegar logo em casa, não sabia direito o que falar com Bum, ou como as coisas se desenvolveriam, e por mais que ensaiasse tudo em sua mente, tinha certeza de que ocorreria de forma diferente.

Queria ser sincero com o ômega, mas, por onde começaria? Por ter se sentido um idiota? Pelo fato de que, agora que ele decidira ter um filho seu, teria de se submeter ao dobro de exames normais feitos em um gestante?

Estacionou o carro sem saber as respostas. Ligou o celular antes de entrar, havia uma centena de mensagens de Yangmi – a maioria delas lhe xingando de forma bastante ofensiva – e algumas de Bum.

Ia colocar a mão na maçaneta, quando a porta abriu.

Os olhos de Sangwoo e Bum se encontraram. Eles ainda estavam brigados, o que gerava uma sensação estranha e incômoda... Mas...

Os sentimentos que nutriam, permaneciam ali. Mesmo com as barreiras reerguidas, conseguiam saber. O que levava a outra sensação estranha...

Queriam se aproximar mais...

Apesar da briga, queriam se beijar, queriam se tocar... Queriam um ao outro...

Sangwoo desviou o olhar para parar a onda de desejo que o atingira.

— Nós precisamos-

— Conversar... – completou o moreno, baixando o olhar e dando espaço para o alpha passar.

Entraram e Bum fechou a porta atrás de si.

Sangwoo largou o celular na mesa da sala e sentou no sofá, o ômega foi para o seu lado. Havia uma tensão no ar, ambos sabiam que tinham de falar, mas, permaneciam calados... Até que o moreno levantou, indo a cozinha, pegando uma sacola e um copo com água.

Voltou a se sentar ao lado de Sangwoo.

— Eu não sei se você vai acreditar em mim. – começou o ômega, retirando duas caixas de medicamentos, os mesmos que o alpha prescrevera para ele naquele dia: — Mas, não olhei os efeitos colaterais deles na internet, e como você pode ver, eles estão fechados. – Bum abriu ambas as caixas, pegando uma cápsula de cada.

Sangwoo piscou algumas vezes, fechou os olhos, baixando as barreiras que criara. Sentia insegurança, medo, receio, vindos do garoto, mas, ligados a sua ansiedade de provar que confiava nele, e não a alguma mentira que pudesse estar contando...

Concluíra que Bum falava a verdade, não vira na internet, não sabia os efeitos daqueles medicamentos. O alpha abriu os olhos, fitando o moreno: — Você sabe que os prescrevi com raiva, não? – perguntou um tanto chocado, não acreditando no que o garoto fazia.

— Sei. – ele colocou ambas as cápsulas na boca e bebeu a água, sem hesitar: — Mas, eu confio em você.

O loiro fitou, incrédulo, o menor: — E se eu tivesse prescrito algo ruim?

— Você não faria isso. – Bum deu um pequeno sorriso: — Não foi falta de confiança... – o garoto entrelaçou os dedos, fitando o pé.

— Então, foi o quê? – perguntou pegando as caixas que estavam entre eles.

Bum podia confiar nele a esse ponto, mas, queria ter certeza que não fizera nenhuma besteira porque estava irritado... Claro, era quase cem por cento garantido que prescrevera os medicamentos indicados a gestantes, contudo, admitia que se não fosse, o induziria ao vômito.

“São os certos...” – Sangwoo pensou mais aliviado depois de ler os rótulos.

O ômega havia refletido muitas vezes sobre aquela conversa, contudo, estando ali... Sua mão suava, seu coração acelerava, seu estômago parecia embrulhar. Estava nervoso. Muito nervoso. Bebeu o resto da água.

Voltou a encarar o alpha: — Fiquei com medo. – o loiro o fitou, ia falar, mas, Bum continuou: — Não do que você fosse fazer contra mim, não de você me deixar sozinho criando uma criança... Não disso... Mas, de estar esperando um bebê. Eu já sabia que você não queria... – o pequeno fitou as próprias mãos: — E... Não me cuidei... Fiquei com medo do que fosse pensar de mim, do que ia acontecer se fosse realidade, então tentei me convencer de que não tinha nada... Que a injeção que tomei evitou esse cenário...

— Nós podíamos ter passado por isso juntos... – murmurou o alpha.

— Do que ia adiantar fazer você se angustiar, esperando o resultado comigo? — respirou profundamente: — Descobri hoje Sangwoo, e a primeira coisa que ia fazer, era te contar, mas, não queria que fosse por telefone. Esperei você me buscar, ia falar no carro, só que era nosso aniversário... — ele suspirou: — Nem acredito que esqueci nosso aniversário...

Sangwoo cruzou os braços, refletindo. Muitas coisas passavam por sua cabeça, principalmente porque a sinceridade do moreno fluía por seu corpo. Bum não queria incomodá-lo, por isso, não contou, contudo, estavam juntos. A sensação do loiro era que o ômega não sabia que não precisava enfrentar tudo sozinho.

Suspirou e coçou a cabeça: — Você... – mirou os orbes negros a sua frente: — Sabe que no momento que assumi esse namoro, significa que estou ao seu lado, não? Não apenas para transar, mas, para os problemas e dificuldades também, não sabe?

Bum corou violentamente.

— O que quero dizer é que você não conseguiu me tranquilizar fazendo isso... Realmente pensou que eu não notaria nada? Você estava estranho... Se sua intenção era não me preocupar, o resultado foi bem ruim.

— Eu sinto muito... — o ômega baixou o olhar.

Sangwoo se calou, fitou a televisão, então voltou a olhar o moreno: — Eu também sinto.

Bum se voltou para o rapaz.

— Perdi a cabeça quando percebi... – o alpha se atirou no sofá: — Não vou interferir na sua decisão de ter o bebê, mas, vou te falar as minhas razões de não querer. Ok? – fitou o ômega que concordou com a cabeça: — Só, antes de começar, preciso me concentrar para te bloquear de novo... – murmurou.

— Por quê? Você não parece estar com tanta... Raiva... Que nem antes... – o pequeno olhou os pés. O alpha estava lhe passando... Segurança... Um pouco de rejeição em relação aquele assunto? Sim. Contudo, nada descontrolado como antes... Não a ponto de não querer senti-lo.

Sangwoo tocou na mão de Bum o fazendo olhá-lo: — Mas eu vou ficar. Não é culpa sua, é minha.

O ômega cedeu, concordando novamente com a cabeça.

O alpha se concentrou. Na verdade, não gostava de pôr aquelas barreiras... Não depois de entender o quão profunda se tornava a ligação entre eles sem elas. Entretanto, teria de pensar em seu pai, em ter um filho, em coisas que fariam mal a Bum... E agora que o moreno era um gestante, precisava ser cuidadoso.

Suspirou ao terminar, abrindo os olhos. Por onde começar? Talvez, pela pior parte...

— Bum, você sabe que gerar uma criança alpha, é muito complicado, não? – ele fitou o moreno.

— Hm, sim. Mas, não para ômegas, não é? – o ômega ficou um pouco confuso, até lembrar sobre a ‘genética ruim’ que Myung-Hee lhe contara. Conforme a amiga, Sangwoo falara para a manada que não queria ter filhos porque tinha ‘a genética ruim’.

“Achei que era uma metáfora em relação ao pai... Por ele ter sido abusivo... Mas, será que é outra coisa?”.

— Sim... Para ômegas é mais fácil... Contudo, essa dificuldade de gestação se deve a grande porcentagem gama* que se encontra nos alphas. O que diferencia os nossos feromônios é também o que dificulta a nossa gestação. – ele suspirou: — A quantidade de genética gama em um alpha é muito variável, quanto mais, mais agressividade, mais forte... Mas também, mais difícil de seus descendentes sobreviverem a uma gestação.

Bum segurou a respiração, finalmente estava entendendo onde Sangwoo queria chegar.

— Você quer dizer que eu...

Sangwoo passou uma das mãos no cabelo: — Uma das razões de eu não querer ter um filho, ou melhor, de eu não querer engravidar ninguém, é que tenho uma porcentagem gama absurdamente alta... Se o bebê for alpha, a chance de você perdê-lo, são grandes. Mesmo você sendo um ômega.

O moreno tocou automaticamente na barriga, como se para tentar proteger.

— Mas, não é apenas isso... – Sangwoo suspirou: — Se você conseguir gera-lo e tê-lo, e ele for um alpha, entrará em mais brigas que o normal, dará o triplo de dor de cabeça... Já se for um ômega... – o loiro hesitou.

— Se for um ômega? – Bum incentivou Sangwoo a continuar.

— A probabilidade de nascer com a síndrome do descontrole, é absurdamente alta.

O pequeno ficou chocado. Espera, seu filho poderia ter o mesmo problema de Myung-Hee? Sofrer as mesmas coisas que ela sofria? Isso... Baixou o olhar.

— E eu não sei como agir nessa situação. – confessou o alpha, fazendo o ômega voltar a fita-lo: — Meu pai me controlou aplicando a técnica usada pela máfia para ensinar suas crianças a criar barreiras. Você entende que esse é o único método e exemplo que tenho? Não é fácil encontrar pessoas com a mesma quantidade gama que eu... Acredite, eu tentei. – o rapaz desviou o olhar: — E síndrome do descontrole? Sinceramente... Sua amiga é uma exceção, ômegas que nascem com isso normalmente não vivem até os vinte... Cometem suicídio antes... E falando a verdade, tem como culpa-los?

Bum permaneceu calado, refletia sobre aquelas palavras...

— Por causa disso, você terá de fazer mais exames que o normal... Se prepara, pois vai viver indo ao hospital. – o alpha passou a mão no cabelo.

— Quê? Como assim...?

— Bom, você terá de verificar cada etapa, mais de uma vez, se a gente puder diminuir as chances da criança nascer com qualquer um dos problemas, o melhor é fazê-lo.

— Isso... Vai ser caro, não?

— A gente pode falar com a Young, pedir para que o tratamento ocorra no hospital da família dela... Provavelmente será bastante caro... – ele afirmou, confirmando os receios do ômega: — Mas, é o melhor que podemos fazer. – disse cruzando os braços: — Tem mais uma coisa... – Sangwoo olhou vagamente o horizonte, sem focar em nada específico.

— O quê?

—... Eu vou ser um péssimo pai. – disse simplesmente.

Bum piscou diversas vezes: — Por que você acha isso? – falou um tanto surpreso.

— Nunca tive um exemplo de bom pai, sinto que se for um alpha, vou acabar fazendo a mesma coisa que aquele homem fez comigo... Um trauma, ou viver sem conseguir controlar sua raiva? Não sei qual seria a melhor opção... Além disso... – ele jogou a cabeça para trás: — Tem a tradição amaldiçoada da família.

O ômega estava perdido, ‘tradição amaldiçoada’?

Sangwoo hesitou, suspirou, entretanto, continuou: — Eu matei meu pai Bum. Assim como ele matou o pai dele... Mas, eu soube que meu avô matou meu tio, então, a tradição é, basicamente, matar ou morrer, quando se tratam de alphas. – ele deu de ombros para o final. Não levava isso a sério, obviamente. Não acreditava em superstições estúpidas como aquela... Ou em uma maldição de família... Contudo... Se seu filho envelhecesse, ficasse agressivo e o atacasse? O que faria? Não tinha uma resposta pronta.

— Pensei que tinha sido legítima defesa... – Bum comentou.

Sangwoo piscou, fitando o ômega: — Como sabe disso? – o pequeno corou: — Ah! Você pesquisou a minha vida? – questionou fingindo choque.

O ômega corou violentamente, o que falaria agora? Que entrara com um fake no grupo que adorava ele e ficou sabendo? Isso era loucura...

— Hã... – ele desviou o olhar: — Bom, isso não importa, não é? – corou ainda mais: — A questão é, não foi legítima defesa?

Sangwoo piscou e então riu, não sabia o que o ômega fizera para descobrir aquilo, mas, pelo visto, era algo que o deixava muito sem graça: — Tecnicamente sim. – foi parando de rir aos poucos, voltando a ficar sério: — Mas, não é como se eu não quisesse mata-lo...

— Você o atacou?

— Sim. – respondeu o alpha. Engraçado como a vida era irônica... Ele colocara a barreira para evitar que Bum sentisse seu rancor e raiva daquelas lembranças, mas, daria um braço para saber como o ômega se sentia a respeito daquilo...

O moreno refletiu. Sangwoo matara o pai? Simplesmente assim? Entendia os anos de abuso e o ódio que isso poderia gerar... Contudo, não imaginava que o alpha seria capaz de matar por pura raiva... Lembrava-se bem da história que lera, na época não colocara muita fé nela, afinal, era a internet, mas, o loiro acabou lhe confirmando a primeira parte, o suicídio da mãe... O que o fez pensar que a segunda parte também poderia ser real, no caso, ter esfaqueado o pai por legítima defesa, entretanto, ele estava lhe dizendo que atacara o pai...

“Com uma faca...?” – isso fazia ainda menos sentido. Sangwoo era um lutador. Ele não atacaria com uma faca...

— Você o atacou com uma faca? – perguntou Bum.

— Hm, não. – o alpha o fitou: — Nós nos socamos, eu bati a cabeça dele contra o chão, ele levantou, pegou uma faca, me atacou e eu virei à faca contra ele. – resumiu: — Mas... – o loiro suspirou: — Eu não a larguei até ele morrer. – disse fitando o chão: — E não me arrependo disso.

— Mas, você levantou... – murmurou Bum, fitando o alpha.

— O quê? – Sangwoo piscou, encarando o ômega.

— Você bateu a cabeça dele no chão. Provavelmente era mais forte e ele estava atordoado... Você poderia tê-lo matado ali, mas, levantou. Senão, ele não teria como ter ido pegar a faca...

Sangwoo ficou completamente calado. Certo. Ele levantara. Só que isso não mudava o último fato, mudava? Poderia ter saído de cima do pai naquela hora, mas, ainda pressionara a faca até o filho da puta morrer. Qual era o problema daquele ômega?

— Hm, eu acho... Que você não é obrigado a se arrepender. – o pequeno respondeu com simplicidade, o que fez o alpha abrir levemente a boca: — Quer dizer, você saiu de cima, encerrou a luta, mas, ele quis continuar e, mais do que isso... Queria te matar. Por que você precisaria se arrepender de matar, em legítima defesa, por mais que negue, alguém que queria a sua morte? Só por que tinham um laço sanguíneo?

Bum tinha aquele pensamento muito claro em sua mente, Sangwoo não deveria se forçar a se arrepender, até porque, sentimentos não se controlam dessa forma. Contudo, a forma como o alpha negava estar arrependido, o fazia pensar que no fundo, ele sentia exatamente o oposto. Mas, mesmo que não sentisse, não o culpava por isso...

Ele não era um assassino... Provavelmente, se culpava pela morte do pai e se culpar não significa se arrepender, contudo, admitir sentir culpa, o faria ter de lidar com ela... E o ômega conhecia o alpha suficientemente bem para saber que sua primeira defesa, era a negação. Se negasse a culpa, evitaria o sentimento.

“Talvez ele esteja negando a tanto tempo, que realmente acredite que não sente nada...”.

Houve silêncio após isso...

Sangwoo nunca ouvira aquilo antes, o que o fez se surpreender com o ômega. Não que saísse contando por aí que matara o pai, mas... Todos que sabiam, ou ele teve de mentir, dizendo que se arrependia, ou, insistiam para ele se arrepender. Nunca chegaram nele e disseram ‘está tudo bem não lamentar a morte dele...’.

— Eu não acredito que você será um pai ruim... – o ômega comentou, quebrando o silêncio.

— Você ouviu tudo que falei até agora? – resmungou o alpha.

— Aham.

— Eu sou egoísta, provavelmente vou passar mais tempo no trabalho que em casa... – disse sério.

— Bom, acredito que a gente possa arranjar um horário na sua agenda... Eu o levo até você...

—... Sou um péssimo exemplo, fumo, bebo...

— Ninguém é perfeito...

— Não tenho paciência com crianças...

— É só me avisar quando estiver perdendo ela, eu sou um poço de paciência...

—... Quer parar de me responder? – Sangwoo fitou o ômega.

O garoto sorriu: — Não.

— É arriscado pra você. Entendeu isso, né?

— Sim... Mas, quem foi que disse que estaria comigo nos problemas e dificuldades?

Sangwoo bufou: — Ok. Mereci essa. – ele sorriu.

— Você... Ainda odeia a ideia? – perguntou com receio.

—... Não tem como eu aceitar isso de uma hora pra outra. – o alpha observou o ômega: — Ainda tenho que absorver certas coisas, acho que a ficha não caiu totalmente... Por isso, não vou descer as barreiras. – disse realmente sério: — Mas... Se for para ter um filho, prefiro que seja com você.

Bum corou e sorriu. Contudo, ficou enjoado... Muito enjoado...

— Droga... – murmurou, correndo para o banheiro.

— Tem isso também... – Sangwoo suspirou, antes de levantar e ir ajudar o ômega: — Precisa de alguma coisa?

— Um estômago novo... – murmurou o pequeno diante do vaso sanitário, voltando a vomitar em seguida.

— Vou preparar um chá... – o alpha era péssimo na cozinha, mas isso sabia fazer.

Notas finais
A música cantada pela Jieun e o Sangwoo se chama 'Sometimes' (do Crush), é a mesma que eles cantam na comic.