Destinados...?

15 Calcanhar De Aquiles


Notas iniciais
Capítulo simultâneo com o 14.

Sangwoo fitava Bum se afastando, o moreno caminhava tranquilamente em direção à creche. Suspirou. Desde quando se tornara tão transparente?

“Merda. Só faltava uma placa dizendo que eu estava com ciúmes...”.

Coçou a cabeça, um pouco desconcertado. Não estava acostumado a isso. Suas emoções tão claras e a flor da pele, ou melhor, não estava acostumado àquelas emoções. Já gostara de outras pessoas, fato. Mas, não daquela forma.

Começou a dirigir para a universidade refletindo sobre aquilo. Bum estava, relativamente, há pouco tempo em sua vida, e mesmo assim... Era diferente do que sentira anteriormente. Não que nunca gostara de ninguém, se fosse sincero consigo mesmo, já se apaixonara por diversas pessoas durante sua vida. O problema é que nunca quis criar laços com elas. Até mesmo Jieun o havia encantado de alguma forma, quando a conheceu. Mas, quanto mais a garota se aproximava, mais se afastava. E isso era automático.

Um hábito. Para muitos um mau hábito, contudo para ele, apenas um hábito. Algo comum de seu dia-a-dia. Não queria algo profundo, e conseguia se controlar bem. Não importava se a pessoa era bonita, inteligente, interessante ou quente na cama. Preferia ficar sozinho. Queria continuar assim.

Bum quebrou isso, se tornou, literalmente, seu calcanhar de Aquiles. Isso era novo. Alguém que queria agradar e não deixar se afastar, e definitivamente, não queria perder. Não tinha a menor ideia de como o garoto fizera isso...

“É frustrante não entender.”.

Ele realmente não era tão diferente de todas as pessoas que conhecera durante sua vida. Na verdade, era bastante comum. Mas...

“Acho que é o maldito “mas”...” – pensou seriamente.

O sorriso do moreno, não o tímido, mas o de real felicidade, que raramente dava. A forma como sempre estava disposto a cuidar das coisas, inclusive em momentos ruins – como quando lhe deixou café-da-manhã, mesmo estando magoado. O fato de corar por absolutamente qualquer coisa – o que tornava divertido provocá-lo. Sua fragilidade diária e obscenidade na cama. Essas pequenas coisas que o compunham, fascinavam o loiro de forma inexplicável.

“Ainda não acredito que usei minha força nele...” – um leve sorriso brotou nos lábios do alpha ao lembrar que o moreno realmente amara aquilo.

Lembrava-se claramente de quando fora transar pela primeira vez, sem ser com uma das prostitutas ômegas de seu pai, e fizera o que estava acostumado. Fora com força sem nenhuma preparação. A garota começou a chorar, o empurrou e lhe chamou de “sádico sem coração”. Sinceramente, não fazia ideia de que poderia doer daquela maneira. Achou que era normal, foi um choque descobrir que não o era.

Depois daquilo, começou a ganhar prática, a ir com calma, mas, francamente, nunca teve coragem de fazer com força novamente. Nunca achou que encontraria alguém que gostasse, verdadeiramente, daquele jeito.

Estacionou o carro, olhou o relógio, como pensara, não estava atrasado. Foi até a sala de aula, sentando ao lado de Seung e começando a tirar dois trabalhos da mochila.

— Hoje tem prova. – disse o rapaz de óculos, fitando tranquilamente Sangwoo.

— Eu sei. E um seminário mais tarde, não é? – respondeu o loiro.

— É. E ainda temos que ficar na biblioteca para acabar a nossa apresentação de sexta. – o moreno respondeu com tranquilidade, fazendo o alpha parar seu movimento.

“Merda.” – pensou o loiro, que havia esquecido completamente daquele “detalhe”. Odiava final de semestre. Pegou o celular e digitou rapidamente.

Não vou ter como buscar o Bum hoje, preciso de ajuda.

Dongyu

Hm, hoje não posso.

Jieun

Eu também não posso... Mas a Young não tem nada, não é?

Young

Eh? Por que ele não volta de ônibus pra casa?

Sangwoo refletiu, novamente, por que diabos ela estava em sua manada? Lembrou vagamente que precisava da família dela, mas, sinceramente, o pai dela já gostava tanto dele, que não duvidava que se chegasse nele e dissesse “Eu desisti, sinto muito. Sua filha é impossível.”. Ele acabasse compreendendo. Afinal, ele próprio já havia desistido em uma época, como lhe confessou. Respirou profundamente e respondeu.

Porque eu não quero. Você vai ir hoje. É uma ordem.

Young

... Nossa. Educação mandou lembranças. Ok.

Mas agora a gente vai ter que fazer isso sempre?

Sangwoo queria jogar o celular na cabeça dela. Ela tinha ideia que ele era à porra do líder? Mas que merda.

Se eu quiser, sim.

Young

Mas então não é melhor que ele aprenda a dirigir?

Sangwoo refletiu um pouco antes de responder, não havia realmente necessidade de Bum aprender a dirigir, mas se ele quisesse também não se oporia. Escreveu rapidamente.

Se ele quiser aprender... Mas, não é realmente necessário, posso cuidar disso.

Dongyu

Essa semana é pesada para você, né? Posso buscá-lo amanhã se necessário.

Suspirou. Pelo menos ele tinha membros como Dongyu.

Obrigado, amanhã conto com você.

Percebeu então uma mensagem no individual de Young “O que ela quer agora?”.

Young

Sang, agora falando sério, por que você está tão preocupado com ele?

A transição já terminou.

Já era. Ele é seu, ninguém vai atacá-lo porque seria perda de tempo.

Você pode localizá-lo agora.

Sangwoo respirou profunda e calmamente, será que deveria desenhar para ela? Não era óbvio? Começou há responder um pouco sem paciência.

Primeiro: Conseguir localizá-lo não significa que posso me tele transportar para onde ele esteja se algo acontecer.

Parou um pouco antes de continuar. Provavelmente suas próximas palavras seriam motivos de deboche da garota pelo resto da eternidade, mas, também serviam de alerta. Não queria ter de brigar com ela por causa daquele cara. Yoonjae e ela podiam ser amigos, mas ele era o líder dela, e era melhor Young saber que não aceitaria qualquer gracinha.

Segundo: Não quero que o seu amigo se meta.

E pelo que soube, ele adora dar carona, então resolvi arrancar o mal pela raiz.

Young

Amigo?

Sangwoo bufou, talvez desse crédito demais a inteligência dela.

Yoonjae.

Young

Ah!

AHHHH Você tá com ciúmes kkkkkkkkkkk

Sangwoo fitou o celular por alguns instantes.

“Que estou com ciúmes é um tanto óbvio, nem vou disfarçar aqui. Foda-se.” – escreveu rapidamente a resposta.

Você mesma disse, ele é meu, sem compartilhamentos.

Saiu das mensagens de Young e entrou no perfil pessoal de Bum. Como explicaria isso. Começou a digitar...

Não vai dar para ir hoje porque tenho que fazer um trabalho e

Parou. Apagou tudo. Voltou a escrever.

Hoje tenho um trabalho

Apagou. O trabalho não ia ser só hoje.

“É só a porra de uma mensagem, qual o meu problema?” – olhou puto para o celular. O professor já estava entrando na sala de aula.

“Que merda...” – pensou um pouco mais, era só explicar a situação e deu. Não era tão complicado.

Não poderei te buscar hoje. Me desculpe.

“Arg, odeio me desculpar... Mas a culpa é minha, fui eu que disse que iria e dei toda a ideia... Tá, isso não é o suficiente...”.

Estamos no final do semestre e estou cheio de trabalhos, apresentações e provas, me esqueci de que essa semana combinei ficar depois do horário na biblioteca.

Certo. Era somente isso... Não... Não era, esqueceu-se de avisar que iriam buscá-lo.

“E se ele lê isso e decidi pedir carona pra alguém? Nem pensar.”.

Mas minha manada irá buscá-lo, ok? Hoje vai ser a Young.

Refletiu que seria um saco para o rapaz conviver aquele período de tempo com a garota.

“... Merda, minha primeira promessa como namorado dele, e já quebro. Uau, comecei bem.” – olhou um instante para cima.

“Ele ainda vai ter que ficar com a Young durante esse tempo...”. Voltou a encarar o celular e escreveu.

Sei que ela é meio... Enfim, se quiser te dou um presente como recompensa.

Olhou a mensagem. Escreveu tudo que precisava... Mas... Digitou uma última frase antes de enviar.

Realmente sinto muito.

Desligou o celular e se preparou para a prova. A fez de forma tranquila. Apresentou o seminário a tarde, percebendo que entendia mais do assunto do que imaginava. Ao sair da sala de aula, recebeu uma mensagem.

Bum

Tudo bem... Obrigado por avisar.

Um presente? Pode ser algo de comer?

Sangwoo riu. Sério que ele queria algo de comer? Escreveu rapidamente enquanto sacudia negativamente a cabeça.

Claro. O que quiser...

“O que ele vai pedir?”. – aguardou a resposta, um tanto curioso.

Normalmente quando ele falava que a pessoa podia pedir um presente, sempre inventavam alguma coisa que ele se arrependia. Uma vez estava saindo com uma garota, e ela lhe pediu que dissesse que gostava dela, como presente de aniversário. Acabou fazendo-a chorar ao dizer “Ok. Eu gosto de você. Uma pena que tive de dizer isso por que é seu aniversário. Aliás, um pedido extremamente patético.”.

O celular tocou, olhou a mensagem.

Bum

Na lanchonete que a Yangmi me levou, vendiam Kyungdan.

Não comprei no dia, mas fiquei com vontade...

“Kyungdan...?” – pensou o loiro. Sério que Bum lhe pedira algo tão simples e fácil de conseguir, já que ainda estava na universidade? Riu.

Arg, doce... Ok. Pode deixar, compro uma caixa deles para você.

Suspirou e olhou para o céu. O ideal era comprar agora, eles não estragariam e provavelmente, quando saísse da biblioteca, a lanchonete já estaria fechada. Começou a andar em direção ao local, evitando a chuva que iniciara ao ir pelas partes cobertas. Ouviu o celular. Abriu-o e fitou a mensagem.

Bum

Você realmente não gosta de doces, né?

Escreveu rapidamente a resposta, nunca gostara, realmente. Nem todos os doces de sua mãe lhe agradavam.

Não. A única exceção recente foi o bolo que fez... Estava muito bom.

“E estava mesmo.” – refletiu.

Claro, algo de sua memória o fazia pensar se achara bom porque era efetivamente bom, ou porque lhe lembrava do garoto, e como estava com saudades, se tornara bom...

“Não... O chantilly era bom mesmo.” – riu com a lembrança. Tomando certo cuidado com ela, afinal, seria ridículo acabar com uma ereção na universidade.

Comprou os doces, que deixou em uma sacola, depois foi para a biblioteca onde estudou e planejou o próximo trabalho ao lado de Seung e do grupo que o compunham. Após algum tempo fazendo isso, sentiu seu celular vibrar.

Young

Sang, olha, não que eu seja fofoqueira nem nada.

“Sei...” – pensou o alpha, começando a leitura.

Young

Mas fiquei preocupada com o garoto.

Ele tinha mais de, sei lá, umas seiscentas mensagens de você com outras pessoas ou algo assim, pelo menos foi o que vi...

O celular dele não parava, tipo, direto. Meio creepy, sabe?

Só achei que deveria saber.

Sangwoo leu, e releu a mensagem.

“Como é?”.

Ele está recebendo mensagens onde eu estou com outras pessoas? Quem faria isso?

Young

Sei lá. Seu fã clube?

Bufou, irritado. Ela não conseguia levar nenhuma pergunta a sério?

E eu lá tenho fã clube Young?

Young

É claro que tem! Só você não nota!

Sério, às vezes você é muito tapado.

Mas, é... Acho melhor cuidar disso, ok?

Não que eu ache que elas irão muito além de enviar fotos pra ele, mas, né?

Sangwoo sorriu.

Preocupada?

Young

Talvez. Ele não parece tão ruim.

Com aquela declaração, Sangwoo concluiu que Bum deveria possuir algum dom especial. Toda vez que encontrava alguém de sua manada, essa pessoa se encantava com ele. Já esperava isso de Yangmi, mas, não de Young. A caçula teimosa sempre fora fechada para outras pessoas. Não se preocupava com os outros, precisava sentir alguma empatia para isso, o que não era fácil de causar nela. Nisso, eram parecidos.

Continuou os estudos concentrado. Queria voltar logo para casa.

Após uma revisão de um trecho, particularmente complicado da apresentação, encerraram por aquele dia. A chuva já havia parado ao sair da biblioteca, foi para o carro e dirigiu diretamente para casa.

Entrou e avistou Bum. Ele estava em sua camisola de estrelas. Tinha vontade de agarrá-lo novamente.

— Trouxe Kyungdan como pediu. – disse ainda fitando o pequeno.

— Obrigado! – respondeu animado Bum: — Fiz o jantar.

— Hm. – se aproximou, puxando o moreno para seus braços: — Acho que quero jantar outra coisa... – sussurrou no ouvido do pequeno enquanto se deixava levar pelo delicioso perfume de seu pescoço. Começou a beijar o local, enquanto o ouvia gemer.

— Achei que estava cansado... – murmurou Bum.

Continuou beijando, não podia negar, realmente estava cansado. Suspirou e se afastou um pouco.

— Estou. – resmungou sem ânimo. Desceu a mão das costas do menor e apertou sua bunda, fitando seus olhos o beijou.

Estava com saudades. Queria tê-lo. Agora. Foda-se o cansaço.

Bum correspondia seu beijo enquanto colocava os braços ao redor de seu pescoço, e tudo que conseguia lembrar, é que apesar de querer continuar e prolongar aquele momento pela noite inteira, ainda tinha de estudar para uma prova que teria do dia seguinte. Odiava fim de semestre. Afastou-se por um momento, encostando sua testa na do pequeno em seguida.

— Ainda tenho que estudar... – confessou.

— Melhor comer o jantar que preparei antes. – retrucou corado o moreno.

— Eu sei. Mas estou dividido. – sorriu malicioso.

“Comer você na cama e dormir, ou comer sua comida e estudar... Normalmente seria óbvio... Mas a prova de amanhã é tão...”.

— Não se divida. Se tem que estudar, então estude. – disse o ômega lhe dando um beijo rápido nos lábios: — Prometo não fugir.

Sangwoo suspirou profundamente, aquilo era horrível. Trocar uma noite de prazer, por livros era o cúmulo da chatice. Mas não via escolha.

— Ok. – resmungou indo para a mesa e sentando. O jantar parecia delicioso, como sempre.

Observou o moreno por alguns instantes. Ele também estava no final do semestre, e mesmo estudando e trabalhando, ainda chegara a casa e preparara o jantar.

“Estou reclamando a toa...” – pensou.

— Se você não vier logo, eu vou comer tudo. – ameaçou o alpha.

— Ei! – ele correu até a mesa, sentando-se e jantando ao seu lado.

O observou durante o jantar, o moreno não dava sintomas de estar preocupado, ou chateado com alguma coisa. Talvez as mensagens não o afetaram. Não sabia se ficava triste ou feliz com isso.

O clima estava confortável. O ajudou secando a louça e guardando depois que terminaram a refeição e o ômega decidiu limpar tudo. Deu um último beijo em Bum antes de subir ao escritório e estudar a noite inteira.

Desceu já de madrugada, abrindo a porta de seu quarto e visualizando o pequeno encolhido em seu colchão enquanto abraçava seu travesseiro. O deixou dormindo, entrou no quarto, pegou uma troca de roupa, foi para o banheiro, onde tomou um banho rápido, vestiu-se e deitou ao lado do rapaz, abraçando-o por trás.

Sentiu-se tranquilo e feliz, mesmo sabendo que dormiria menos de três horas naquele dia.

Quarta pela manhã, Bum lhe acordou as pressas. Colocara o despertador na soneca tantas vezes que quase se atrasaram. Se o moreno não estivesse ali, provavelmente teria perdido a prova – o que o ferraria bonito.

Almoçou apenas com o pequeno, e dessa vez, decidiu que iria conversar. Gostava do silêncio confortável que ficava ao estar somente ao lado do rapaz, mas no refeitório lotado da universidade, não era a mesma coisa de quando estavam em casa. Surpreendeu-se ao ouvir a voz do ômega, lhe deu a sensação dele ter pensado a mesma coisa.

— A manada não virá hoje? – perguntou calmamente o jovem enquanto comia o primeiro montinho de comida, dos três que formavam sua refeição preparada por Sangwoo.

— Não... – o loiro o mirou: — A maioria está ocupada com o final do semestre, e suas aulas não são por aqui, pelo menos, não hoje... – refletiu. Queria falar mais, talvez contar um pouco mais sobre eles? Ele acharia isso interessante? Quer dizer... Não sabia se Bum estava interessado em sua manada.

— O que eles cursam? – perguntou genuinamente curioso o pequeno.

Sangwoo sorriu. Ele queria saber... E isso o deixava... Estranho. Tomou um gole da bebida.

— Eu e Seung cursamos Medicina – começou, não entendendo porque estava um pouco sem graça: — Yangmi faz Artes, Dongyu faz Engenharia, Jieun Direito, Jihoon Administração, Chung-Ho é... Hm... Biotecnologia, Yura e Taehyun fazem Relações Internacionais e a Young, se não me engano, faz Design.

Bum parecia refletir um pouco sobre as informações.

— Combina com eles... – disse enfim, sorrindo: — Mas, a Young e a Jieun são muito amigas, né? Pensei que estudavam juntas, ou algo assim...

Sangwoo sacudiu a cabeça negativamente: — Nem. Elas se conhecem desde crianças, é mais por isso... A Jieun decidiu seguir o “ramo da família”, enquanto a Young deu a mínima pra família...

Bum riu: — É... Parece ela... – comentou, voltando a refletir: — Como vocês se conheceram...? Quer dizer... Os cursos são tão diferentes entre si...

Sangwoo pensou um pouco, Bum era um ômega, naturalmente não deveria entender.

“Quer dizer, alguma coisa, ele deve saber, afinal, estuda Educação Infantil Especializada...”.

— Hm... Bom, acho que você sabe que alphas costumam se juntar quando em um local “hostil” ou novo, principalmente os que estão sozinhos... Então, quando eu era criança e entrei no jardim, a primeira coisa que fiz foi encontrar outros alphas e lutar com eles. Quando venci, me tornei o líder e nessa época, conheci a Yangmi. Ela fez parte da minha primeira manada... – Sangwoo desviou o olhar um pouco, não gostava de falar deles. Sabia que manadas infantis não duravam, um fato. Mesmo assim... Ainda era um ponto sensível de sua vida. Conversava tranquilamente sobre isso apenas com Yangmi, afinal, ela fizera parte.

— Incrível! – a voz de Bum fez seus olhos voltarem-se novamente para ele. O rapaz parecia fascinado: — Você tem alguém da sua primeira manada, isso é muito raro!

—... – Sangwoo ficou surpreso pela reação, tossiu, voltando ao assunto original: — A Yura e o Taehyun conheci durante o ensino médio. Fizeram parte da minha segunda formação. – refletiu um pouco.

— Houve mais pessoas nessa segunda formação? – perguntou Bum, já comendo o segundo montinho de comida.

— Hm. Sim, mas dessa vez, eu escolhi não renovar o vínculo. – disse simplesmente.

Bum ficou em silêncio e então o fitou pensativo: — Com a primeira... Eles debandaram?

“Merda. Falei demais.”.

Há duas formas de se desfazer o vínculo de um membro de manada. A primeira, e mais utilizada, é o líder não renovar esse vínculo. Normalmente isso é uma decisão do líder ou pedido do subordinado. A segunda é o subordinado se esconder, se afastar, e não renovar o vínculo. Ele rejeita seu líder. Essa forma, normalmente, é chamada de “debandar da manada”.

Sentiu-se constrangido. Não queria falar sobre isso. Bum pareceu entender, porque logo perguntou outra coisa.

— E os outros? – o moreno observou-o, meio incerto se deveria perguntar ou não.

—... – Sangwoo ficou um pouco em silêncio. Admirava o fato do ômega ser sensível as suas sutilezas. Nem todos teriam desconversado só porque demorara um pouco para responder, pelo contrário, normalmente as pessoas forçavam: — Quando entrei na universidade, conheci o Seung, entramos em um acordo e ele entrou. Jieun me procurou um tempo depois, acho que pelo segundo semestre. Quando ela entrou a Young veio em seguida, acho que não queria se separar dela.

Bum sorriu de leve, pareceu contente em o alpha continuar a conversa. O moreno começou a comer o terceiro montinho, observando o loiro e esperando que o mesmo continuasse.

— Daí veio o Dongyu, ele conhecia as duas, e meio que não aceitava que elas estivessem na minha manada. Ele me desafiou e perdeu.

—É? Por que ele não aceitava? – perguntou confuso o ômega.

Sangwoo engasgou com a comida. Como iria explicar isso?

— Hm... Meu método de entrada não é realmente muito convencional.

Os olhos de Bum expressaram surpresa, e o moreno os desviou em seguida, bebendo suco. Ficou óbvio que ele já os conhecia.

— Enfim... – continuou o loiro: — Sexo ou luta. Todos sabem. – o rapaz falou simplesmente: — Dongyu achava que isso as deixaria, hm, com “má fama”. Eles se conheciam da adolescência. Ele queria que elas participassem da manada de Namjoon, como ele na época, mas... A Jieun não aceitava. Não me pergunta, eu não sei por quê. – Sangwoo deu de ombros, comendo mais um pouco.

Bum voltou a fitá-lo, parecia que faria uma pergunta, mas se calou. Sangwoo decidiu continuar contando.

— Pelo terceiro semestre a Yangmi me apresentou o Jihoon e por último entrou o Chung-Ho, acho que ele foi pelo quinto semestre... Se não me engano, foi quando se espalhou que eu- -

Calou-se, realmente ia falar que foi quando ficou com fama de dormir com qualquer ômega? Sério? Ia falar isso para o Bum? Seu namorado ômega que o fizera perder o controle? Aham. Ter conversas com o rapaz sobre sua manada, talvez não fosse tão fácil quanto inicialmente pensara. Coçou a cabeça, sem saber como continuar daquele ponto.

Bum riu baixinho: — Foi na época em que você ficou conhecido entre os ômegas. – ele corou um pouco ao falar, parecia estar se divertindo com a situação.

— Ah, fiquei, é? – perguntou zoando: — E o que eles diziam a meu respeito?

Bum se calou, e voltou a olhar seu prato, disfarçando, mas ainda sorrindo, Sangwoo acompanhou o sorriso.

Terminaram a refeição e Sangwoo pagou a conta. Fez questão. Depois caminharam até o estacionamento. O ômega parecia refletir sobre algo.

“Ele quer me perguntar alguma coisa, mas tá hesitando...” – pensou o loiro ao vê-lo entrar no carro.

— Se quer saber algo, é só perguntar. – disse calmamente, enquanto começava a dirigir.

— Hm... Não é nada. – murmurou o moreno.

“Devo ativar minha bola de cristal? Ele está incomodado com alguma coisa... Pensa Sangwoo...” – refletiu.

“Quando ele começou ficar estranho? Acho que quando falei da maneira que se entra na minha manada... Será que é isso? Como eu vou saber? Ah, que saco!”.

— Não sei se é isso, mas foi o Taehyun, o Seung, a Jieun, a Young e o Jihoon que entraram transando comigo. – aquilo normalmente não era tão constrangedor de falar.

“Normalmente levo isso mais tranquilamente, que porra, estou me sentindo estranho falando sobre esse assunto com ele, que merda, não sou assim.”.

Bum baixou o olhar, parecia surpreso, mas não de todo chocado. Fitou o loiro de canto, percebendo o clima um pouco estranho.

— Digamos que você é mais amor que guerra. – disse o moreno, brincando com a situação.

Sangwoo, que não esperava aquela resposta, caiu na gargalhada.

— É... Acho que dá para pensar dessa forma... – ele olhou para o pequeno, que ria baixinho: — Chegamos. – disse ao estacionar o carro na frente da creche: — Hã. Hoje, também não vou poder te buscar.

O moreno parou de rir aos poucos e fitou o loiro: — Já imaginava... Está tudo bem.

— O Dongyu vai vir. – ele ergueu a mão, passando os dedos pelos fios negros do rapaz.

Bum ficou com o rosto suavemente rubro enquanto sentia o carinho.

Sangwoo deslizou a mão pelos cabelos, descendo para nuca do pequeno, arrepiando-o. Sorriu, fitando os olhos negros e o puxou para perto. Começou lambendo o lábio inferior do moreno, fazendo-o abrir a boca para sua língua. Beijaram-se lenta, mas intensamente. Sem perceber, o alpha colocou a outra mão na cintura delgada do ômega, puxando-o ainda mais.

Sentiu as mãos pequenas tocarem seu peito e um gemido contido sair dos lábios de Bum.

— Sangwoo... – murmurou.

“Merda...” – pensou o loiro, interrompendo o beijo lentamente, começando então a beijar o canto da boca, próximo ao maxilar, descendo pelo pescoço...

Bum estremeceu e Sangwoo sentiu seu cabelo ser puxado enquanto chupava a pele alva do pescoço ômega. O alpha se afastou apenas o suficiente para ver as orbes negras, fitando predatoriamente o pequeno a sua frente. O moreno engoliu a seco, respirando devagar. O carro parecia mais quente do que realmente estava.

O toque do celular do ômega o tirou do transe que os olhos de Sangwoo colocaram-no, e ele atendeu a chamada. O alpha observou calado, se afastando.

— Sim? – perguntou o pequeno.

— Você sabe que está na frente da creche, e que todas nós, estamos tendo uma visão privilegiada do que está acontecendo ai dentro, né? – Bum reconheceu a voz de sua supervisora e virou de costas, vendo pela janela que ela lhe dava um tchauzinho básico ao lado de duas outras monitoras que pareciam rir. Por sorte, não havia crianças ali naquele momento, ou a mensagem dela seria sua demissão.

O ômega corou violentamente, sentando corretamente no banco – afinal, estava quase em cima do alpha: — Eu... Já estou indo. – murmurou ao celular, desligando-o em seguida: — Tenho que ir. – disse fitando de canto o alpha.

— Certo. – respondeu Sangwoo, fitando-o também.

A tensão, apesar de menor, continuava um tanto presente. O ômega se aproximou rapidamente, dando apenas um selinho nos lábios do alpha, antes de sair definitivamente do carro. Sangwoo suspirou profundamente.

“Ele vai acabar comigo.”.

A tarde transcorria com calma, o loiro teve aulas e foi para a biblioteca. Contudo, sua primeira irritação foi perceber que Pae Eunji, um colega folgado, faltara a mais uma reunião. Estava cansado daquilo. Ele era o típico beta que achava que por estar fazendo trabalho com dois alphas, sua nota estava garantida. Odiava o tipinho.

Todavia, como toda a desgraça é pouca, o computador de Lee Nayeon, uma beta esforçada, de cabelos loiros e sorriso levemente torto, colega de classe que estava fazendo o trabalho com eles, literalmente, queimou. E todo o material pronto – incluindo relatórios detalhados do que precisavam, foi perdido.

Sem solução, precisaram começar do zero. Mandou uma mensagem para Bum avisando que não chegaria a casa cedo e explicando a situação. Depois da biblioteca fechar, foram para a casa de Seung, que era a mais próxima.

Seung tinha três irmãos. Dois mais jovens e um mais velho. Seu pai, alpha, abandonou todos eles e sua mãe, beta, entrou em depressão profunda. Seu irmão mais velho sustentava a casa trabalhando em uma pequena empresa, enquanto ele, com o pouco tempo livre, cuidava dos irmãos mais jovens.

Ao chegarem a casa, pequena, comparada as mansões típicas de alphas, contudo confortável e de certa forma, acolhedora. Tiveram de esperar o rapaz preparar o jantar dos irmãos e colocá-los para dormir, antes de continuarem. Aguardaram na sala, que era aberta para a cozinha.

Sangwoo já estivera ali antes. Olhou de canto para um dos quartos com a porta fechada. Sabia que a mãe de Seung estava lá. Mas, provavelmente, não a veriam. Ela nunca saía do local.

Conforme a noite ia adentrando, tinham certeza que não chegariam nem perto de onde estavam, afinal, apesar de estarem se reunindo a noite a apenas uma semana, estavam a fazer este trabalho desde que o professor pedira. O que fazia, aproximadamente, um mês. E, apesar de terem salvado uma ou outra coisa em outros lugares, o bruto estava na porra do computador.

Voltou para casa completamente esgotado, jogou seu material no sofá da sala, comeu a janta que Bum deixara, e foi direto dormir. Reparando que o pequeno usava uma de suas camisas velhas. Tinha que passar no dormitório do rapaz e recuperar seus pijamas.

Acordou quatro horas depois por causa do despertador.

Estava cansado e sem muito humor. Levantou, tomou um banho e acabou ficando calado durante o café da manhã, não queria descontar no moreno. Arrependeu-se depois, pois, devido ao dia fatídico anterior, não pode almoçar ou levar Bum ao trabalho.

Sua quinta foi um inferno. A única coisa que a salvou, foi o fato de que a prova do dia estar, ridiculamente, fácil. Nem Seung acreditou naquilo. O professor deve ter tido piedade da alma deles, porque, não fazia sentido.

Estudaram até de madrugada novamente, sendo que Sangwoo se aborreceu com Pae Eunji que, além de chegar atrasado, ainda saiu mais cedo com uma desculpa extremamente esfarrapada.

Kae Jae-Hwa, uma linda morena beta que também estava fazendo o trabalho, contudo que não servia para absolutamente nada, conseguia piorar a situação e começava a leva-lo ao limite de sua paciência. A garota não parava de dar em cima. Não queria ser grosseiro e falara cinco vezes que estava namorando, mas, a morena se fazia de estúpida com perfeição.

Quem acabou perdendo a cabeça foi Lee Nayeon, que após mais uma tentativa infrutífera da morena de trocar o assunto, disse friamente.

— Não interessa o quanto você quer dar para a porra do Sangwoo, Jae-Hwa, ele não quer. Ele tá namorando! Por que não deixa o cara em paz e foca na porcaria do trabalho? Não tá notando que a gente tá ferrado aqui?

Ofendida, a morena retrucou: — Se você não tivesse queimado o computador, isso não estaria acontecendo!

A loira quase teve um acesso de raiva e as duas começaram a brigar. Sangwoo e Seung tiveram de apartar tudo, mas o clima ficara muito ruim. Depois disso, fizeram o possível para deixar o trabalho razoavelmente pronto para o dia seguinte.

Quando voltou para casa e viu seu jantar pronto. Suspirou. Jantou e desejou agradecer, mas Bum já estava dormindo.

“Só falta amanhã... Na próxima semana, são os resultados...”. – pensou fitando o garoto agarrado a seu travesseiro. Sorriu. Não importava quantos travesseiros estivessem na cama, o moreno pegava todos. Deitou devagar ao lado do pequeno, reparando que ele usava sua camisa novamente, se não estivesse exausto, a teria arrancado do corpo menor, mas como estava, apenas o abraçou e adormeceu profundamente.

Três horas depois, o despertador, e a música que começou a odiar com mais força do que tudo em sua vida, começou a tocar. Desligou. Precisava chegar cedo à universidade.

— Bum... – tocou de leve no ômega.

O moreno resmungou baixinho, se encolhendo. Sangwoo sorriu.

— Bum... É sério, a gente precisa ir um pouco mais cedo, não quero te deixar pra trás.

O ômega abriu os olhos e bocejou: — Hm...? Ok... – murmurou, começando a se espreguiçar.

Sangwoo levantou, indo tomar um banho rápido, se vestiu e ambos saíram em seguida, não tomaram café em casa. O alpha preferiu comprar algo no caminho para eles. Ao chegarem à universidade, se despediu de Bum com um selinho e saiu correndo. Encontrou seu grupo finalizando o trabalho as pressas.

A apresentação fora um desastre. Apesar dele, Seung e Lee Nayeon entenderem do que falavam Kae Jae-Hwa e Pae Eunji estavam completamente perdidos. O visual do trabalho também não fora o melhor. Sangwoo ficara extremamente nervoso depois daquilo. Uma nota baixa, em qualquer matéria, e perdia a bolsa.

Quando o período terminou e foi encontrar Bum, estava muito estressado. Entretanto, todo dia ruim, sempre, sem exceção, tem como piorar.

Yoonjae estava conversando com o pequeno. O alpha sorria e inclinava o corpo na direção do ômega, estava obviamente flertando. Isso não teria o atingido tanto, se não sentisse o vínculo com o garoto. E o vínculo, nesse momento, o estava irritando profundamente.

O moreno estava feliz, um pouco nostálgico e, quando já estava próximo, o infeliz do ex o viu se aproximando e sussurrou algo no ouvido de Bum, que após um momento, o fez corar violentamente e ele ficou...

Sangwoo não acreditou no que sentiu...

Ele ficou um tanto excitado, com seja lá o que aquele imbecil, infeliz, desgraçado, cria do inferno, disse a ele.

Alcançou o garoto e o puxou para seus braços. O ômega se virou, fitando-o confuso.

Estava puto.

Furioso.

— Eu não espero ter de desenhar para você, seria ridículo ter que ser mais claro do que agora. Ele é meu namorado, e não quero você por perto. Teve sua chance, perdeu. – sua voz saiu cortante como navalhas afiadas, se virou de costas, não esperando uma resposta daquele miserável que já se preparava para falar, e puxou o moreno para o estacionamento. Sabia que estava puxando o menor com mais força do que deveria. Mas, não conseguia parar.

O estacionamento se encontrava vazio naquele momento. Apenas o vento gelado lhes fazia companhia.

Sua mente tentava entender, verdadeiramente, o que acabara de acontecer. Mas, não conseguia, sua fúria era maior.

— Você estava excitado? – virou para o pequeno. Sua voz saindo alta e obviamente furiosa.

Bum corou violentamente: — O quê? – o tom do moreno fora praticamente um sussurro.

— Agora ficou surdo? Eu perguntei se ele te deixou excitado!

O ômega baixou o olhar, como se pensasse no que dizer, seu rosto estava corado e ele parecia um pouco perdido.

— PUTA QUE PARIU! – gritou o alpha, assustando Bum.

Não acreditava nisso. Era sério? Nem mentir aquele maldito conseguia. Que bosta. Afastou-se, virando de costas e indo embora.

— Sangwoo! Espera! – o pequeno segurou sua mão, mas a tirou brutalmente.

— Ele já está aqui, não é? – sua voz era congelante: — Pede pra ele te levar. E mais, não faz porra nenhuma pra mim hoje, eu não vou voltar, vou passar a noite em outro lugar. – sua última frase saiu entre os dentes. Foi embora ignorando qualquer chamado posterior.

Não almoçou. Não estava com vontade. Estava enojado, na verdade. Pensou em ligar para alguém, mas desistiu. Nunca passara por isso. Caminhou até o outro lado do campus, onde se enfurnou em uma das salas vazias, sentando em um canto.

Sentia-se frustrado, irritado, odiava aquilo. Estava apaixonado por aquele garoto, que no fundo, não tinha muita noção de como era.

“Na verdade, tirando o que foi passado pelo vínculo, nem o que ele sente, eu sei direito.”.

Seu celular tocou, era Yangmi. Pensou em atender, até lembrar que ela era a maior defensora do relacionamento deles. Ignorou. Não queria conselhos. Olhou pela janela.

Seu celular tocou novamente. Era uma mensagem de Bum. Não abriu. Não queria saber.

“Que se foda.”.

Provavelmente perdera a bolsa, o que já era ruim, ainda teve de senti-lo excitado? Sem estar por perto? Ver, literalmente, outro cara excitá-lo? Tirou o maço de cigarros do bolso da calça, pegou um, acendeu e começou a fumar.

Não tinha paciência e nem saco pra isso.

Sua tarde de sexta conseguiu ser pior que toda a sua quinta. Inacreditável. Quando terminou a última aula, ouviu alguns betas que planejavam ir a uma boate próxima. Um deles o viu e convidou, refletiu por meio segundo antes de concordar.

*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*

Seung se chocou. Primeiro porque Sangwoo não costumava sair com betas e ir a boates. Segundo, porque o rapaz teve oportunidade à semana inteira de dormir com a beta mais gostosa do curso, diga-se, Kae Jae-Hwa, que só faltou agarra-lo a força em algum momento, e recusou.

Não era de reparar, mas percebeu que seu líder estava estranho desde o almoço, achou a princípio que era por causa da apresentação da manhã, contudo, pelo visto, estava errado. O loiro já saía quando decidiu que iria também.

Mandou uma mensagem para seu irmão mais velho. Não costumava se envolver nessas coisas, detestava complicações em sua vida, mas...

“Ele está muito estranho... O sorriso tá mais forçado que o normal.”. – tentou se conectar ao líder, apenas como teste. Sentiu um calafrio.

“Mais fechado que o habitual... Nenhuma abertura. O que aconteceu?”. – se perguntou, seguindo-o.

— Você vai ir comigo? – Sangwoo lhe questionou, calmamente.

— Sim. – respondeu.

Ao entrarem no carro, o alpha líder parou de sorrir, ficando sério durante todo o percurso. Seung pensou em questioná-lo sobre o que estava acontecendo, entretanto, apesar do silêncio, não via abertura. Sangwoo não era assim e sabia disso. Nunca pensou que isso aconteceria, mas estava preocupado. Pegou o celular.

— Se pensar em chamar a Yangmi, eu o deixo aqui. – a voz fria do alpha o atingiu.

Sorriu. Ele lhe pegara em flagrante.

— Que tal me contar o que aconteceu?

— Estou indo me divertir, é só isso. – respondeu simplesmente o alpha.

—... – Seung ficou calado por alguns instantes, suspirou em seguida: — Odeio complicações em relacionamentos. Não sei o que aconteceu, mas não importa. Você não irá resolver em uma boate.

— Desde quando você dá conselhos? – Sangwoo falou com certo sarcasmo.

— Preferiria vende-los, porque são úteis e é uma pena desperdiça-los em pessoas que não prestam atenção. – se era uma competição de ironia, não ficaria para trás, sabia ser tão venenoso quanto qualquer um.

— Eu não os pedi. – cortou o loiro.

— Não preciso da sua permissão para falar. – respondeu o moreno de olhos castanhos.

— Até você quer me irritar hoje, Seung? – Sangwoo sacudiu a cabeça negativamente, incomodado.

—... Quem mais te irritou hoje? Seu namorado?

—... Não acredito que caí num dos teus joguinhos de palavras. – bufou o alpha: — É. Ele me irritou.

— E você, infantilmente, vai para uma boate? Pensei que tinha um líder mais maduro, que decepção.

—... Você realmente quer me tirar do sério, não é? – Sangwoo virou o rosto para Seung.

— É o último dia de provas. Você tá irritado naturalmente. Tem certeza que não exagerou? Se você tem certeza absoluta que ir numa boate beta vai te fazer ficar bem e contente depois de hoje, vou com você. Agora, se não tem certeza, me larga em casa e vai para sua. – sua voz soara mais calma que o normal. Realmente deveria vender seus conselhos.

*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*~*

Sangwoo respirou fundo. Exagerando. É... Provavelmente. Mas, não tinha certeza se ligava para o fato de estar exagerando, não sumia de sua mente a sensação do garoto excitado por causa daquele desgraçado. Contudo, Seung tinha razão, ir para a boate não ia adiantar nada. Ficaria bêbado e continuaria irritado. Sabia que não se excitaria e nem iria querer ficar com ninguém. Ou seja, tudo apenas pioraria. Pegou um atalho. Levaria o rapaz para casa.

— Pelo caminho... Mudou de ideia?

—... Irei para casa. – disse simplesmente.

Não sabia o que faria quando chegasse. Deixou Seung em casa e voltou a dirigir pensativo.

Muitas coisas o estavam irritando... A principal delas era o fato de não ter certeza.

Não tinha certeza se Bum realmente havia esquecido o ex, quer dizer, o vínculo fora claro naquele dia da festa, mas eles se reaproximaram depois disso, e hoje, definitivamente, não fora esquecimento o que sentira vindo do rapaz.

Fez um chiado, um tanto enfurecido.

Também não tinha certeza dos sentimentos do moreno, ele nunca dissera nada sobre isso...

Estava tão irritado com essas incertezas que durante o dia, quando alguém da manada tentava se conectar a ele, simplesmente ignorava. Não tinha saco para nada e não queria sua mente vasculhada. Até seu celular deixara desligado...

Claro, com Bum fora diferente, o moreno não precisava realmente se esforçar, a conexão estava ali... Percebeu apenas o jovem tentando aprofundá-la, algo que não fazia desde a noite da festa, o que acabou o afastando mais... Fizera de tudo para não senti-lo o dia todo. Estacionou o carro. Respirou fundo.

Decidiu baixar um pouco suas barreiras antes de entrar na casa... Bum estava... Triste, ansioso, receoso e com um pouco de medo.

Saiu do automóvel, trancando-o. Depois andou até a casa. Tocou na maçaneta da porta. Parou.

Sentou na entrada, tirando o maço do bolso e reparando que fumara já quase todo ele em um dia, o que não era muito comum. Pegou o último e acendeu. Fitou o céu estrelado e deu um sorriso irônico, fechando os olhos e soltando a fumaça.

Terminou o cigarro, jogando o filtro no vaso de flores. Levantou. Virou-se e abriu a porta.

Bum estava encolhido no sofá, fitou-o imediatamente assim que entrou. A ansiedade dele era tanta que o vínculo lhe gritava o quanto estava nervoso.

Respirou fundo e caminhou até o sofá, sentando ao lado do garoto.

— Que merda aconteceu lá? – perguntou. Nessa altura, só queria entender.

—... – o pequeno corou e baixou o olhar.

— Bum. Sério. Não tá ajudando você corar enquanto pergunto por que diabos você estava excitado com outro cara. Se você quer me tirar do sério, continua fazendo isso, porque não tá dando, eu estou—foi interrompido.

— Eu não fiquei excitado por causa dele!

Olhou o pequeno: — Eu vi Bum. E senti.

— Se tivesse sentido de verdade, entenderia. – o garoto corou, se alterando um pouco.

— Vai culpar o vínculo?

— Mas...! Se o vínculo estivesse aberto, você saberia por quê!

— Então a culpa é minha? – começou a ficar puto.

— Sim! – disse sem pensar o moreno.

— Quê? – ficou ainda mais indignado o loiro.

— Quer dizer, não! – sacudiu a cabeça negativamente o pequeno, colocando a mão na cabeça.

Sangwoo não tinha muita paciência e a pouca que filtrara para aquele momento, Bum estava tirando: — Você... – começou, irritado: — Da última vez que você não quis tocar na porra de um assunto, eu deixei quieto. Meio que porque era pesado, meio porque eu concluí sozinho. Mas dessa vez, você realmente quer que eu conclua sozinho tudo? Porque, olha, a minha conclusão não está sendo das melhores.

Bum se calou. Primeiro o alpha sentia vergonha, ansiedade, um pouco de medo vindo do vínculo, mas agora, se havia uma definição para o que lhe era transmitido, seria 'confusão'.

“Mas que merda...?”.

O pequeno baixou o olhar e então se abraçou. Parecia tentar se proteger de alguma coisa. Ficou em silêncio por alguns minutos e Sangwoo não sabia o que fazer, porque apesar de estar sem paciência, à confusão da criatura era tanta, que o estava confundindo junto.

—... O que você concluiu? – perguntou num murmúrio baixo o moreno.

—... – só então percebeu que falara demais. Suspirou. Provavelmente não deveria ter tocado naquele assunto... Passou a mão pelo cabelo, agora era ele que não sabia como dizer o que concluíra do relacionamento do garoto com o tio.

“Como se não bastasse, pioro tudo.”. – refletiu por um instante.

O silêncio entre os dois se tornava cada vez mais palpável.

—... Seu tio é possessivo a seu respeito. Só há uma razão para que isso aconteça. – falou Sangwoo, já não aguentando mais.

Bum olhava os próprios pés, apertou um dos braços com a mão, nervosamente: -... Por quê? Por que me pediu em namoro?

— Quê? – foi a vez de Sangwoo ficar confuso: — Do que você tá falando agora?

—... Eu... O vínculo me passa certas coisas, mas... Às vezes não tenho certeza se vem realmente de você, ou se estou concluindo sozinho e...

O alpha pareceu entender aonde o pequeno queria chegar. Enfureceu-se ainda mais. Bum não estava indo por um bom caminho.

— Acha que pedi você em namoro por pena? É isso? Era o que faltava. – disse enfadado: — Se eu não gostasse de você, não teria dito nada.

Bum ergueu o olhar, fitando diretamente o alpha: — É a primeira vez que você fala isso...

— Bom, você nunca falou. – respondeu rispidamente.

O ômega corou, estava tão acostumado a ter certeza de seus sentimentos, que nunca os expunha. Sangwoo tinha razão, descruzou os braços e respirou fundo: — Eu gosto de você. – e corando violentamente continuou: — O que aconteceu foi que... – ficou nervoso, mas não parou: — O Yoonjae começou a falar do passado...

— Que gracinha de ex. – resmungou o alpha. Ficara estranhamente mais tranquilo depois da declaração inicial do ômega. Talvez estivesse mais inseguro do que pensava.

— Não era nada demais, a princípio. – murmurou o rapaz: — Filmes que a gente viu, e coisas do gênero...

— E então você lembrou os bons tempos e ficou excitado? – era inevitável sua ironia.

— Não! – Bum parecia um pouco chateado com a provocação, mas estava decidido: — Ele estava falando de outras coisas, e daí do nada ele... Ele... Perguntou se eu lembrava o gosto dele... – o ômega parecia não saber onde se enfiar.

Sangwoo pensou seriamente em sair e deixar Bum com suas lembranças. Talvez, não devesse ter perguntado.

— Só que... Minha cabeça em relação a esse assunto é um pouco estranha... Eu meio que me lembrava de engasgar com ele, mas o gosto não, só que lembrar isso, me fez lembrar quando eu fiz em você e daí eu comecei a ficar excitado... – ele colocou a mão no rosto, escondendo-o: — Eu não queria contar isso... – a última frase saíra tão baixa que o alpha mal ouvira.

Sangwoo não esperava por essa, seu vínculo transmitia sinceridade, vergonha, constrangimento...

“Não acredito nisso...”.

Deveria trancá-lo em um porão. Só pode. Quem, em sã consciência, realmente tenta lembrar-se de algo assim quando alguém pergunta? Até onde ia a ingenuidade, praticamente burrice, dele? Estava pasmo. Jogou a cabeça para trás: — Sua mente age de forma estranha... – murmurou mais tranquilo. Apesar do leve ciúme em saber que o pequeno já fizera boquete no Yoonjae.

“Bom, eles namoraram... Seria ingenuidade achar que não fizeram nada...”.

—... Falta uma semana. – sussurrou o pequeno: — Então ela fica ainda mais estranha...

Sangwoo piscou, virando o rosto para o pequeno: — Uma semana?

— Para o meu cio. – Bum fitou os dedos das mãos, entrelaçando-os. Mordeu o lábio inferior: — Eu achei que tinha te perdido... – virou o rosto para Sangwoo: — Eu não quero te perder. – estava com o semblante triste, provavelmente chorara.

O alpha suspirou. Definitivamente exagerara, ficou por alguns instantes em silêncio. Quem ficara com mais medo de perder quem? Era uma questão que sabia a resposta.

—... – tocou nos fios negros. Estava cansado, praticamente exausto, não dormia direito há dias e sentia fome, seu estômago protestou amigavelmente naquele instante.

— Preparei o jantar. – murmurou o pequeno, sentindo o toque do alpha e sorrindo levemente.

—... Isso é a sua cara. – correspondeu o sorriso. Aproximando-se do rapaz e fitando seus olhos: — Eu gosto de você Bum. Também não quero te perder. – em toda a sua vida, nunca fora tão sincero: — Sinto muito por hoje, muita coisa aconteceu. – suspirou.

Bum estava corado: — Eu também gosto de você. Sinto muito não ter sido claro antes. – baixou o olhar.

— Está tudo bem. Não dei a oportunidade. – começou a fazer cafuné no menor: — Mas sua mente realmente é estranha... – concluiu refletindo.

— Eu sei... – murmurou o ômega, animando-se: — Por que você não me conta o que houve enquanto jantamos? – se aproximou um pouco mais, depositando um beijo nos lábios do loiro: — Senti sua falta. – sussurrou, encostando a cabeça no peito do maior.

Sangwoo respirou profundamente, abraçando Bum. Tinha muita sorte por ter uma manada boa... Se Seung não estivesse por perto, provavelmente teria feito bobagem. Fechou os olhos. Só então lembrando o que o garoto falara há poucos minutos.

— Espera, seu cio é semana que vem? – disse um tanto assustado, fitando o moreno em seu peito. O mesmo sorriu e assentiu com a cabeça.

“Merda.”.