Bum fitava Sangwoo dormir, quando sentiu um ‘estalo’ em sua mente. Era estranho e ele nunca verdadeiramente se acostumava, mas, seu coração sempre se alegrava, pois aquilo marcava o fim de seu cio.

Olhou para as mãos e tentou tirar as garras, elas não saíram e nem sairiam. Definitivamente, acabara. Suspirou.

O cio era como um fogaréu com chamas intensas, que subiam e desciam conforme se passava os dias, mas, que com o tempo ia diminuindo, diminuindo... Até o estalo final. Restando apenas cinzas.

E isso era um pouco literal, pois assim como a madeira que aumenta as chamas, o corpo de Bum era consumido por esse ciclo sem perceber, e os efeitos colaterais do fogo, não eram sentidos. Mas, quando as chamas apagavam...

Bum tentou mover o braço e gemeu. Dor. Cansaço. Esgotamento. Esse era o seu estado atual. Não era culpa de Sangwoo, ele lhe ajudou, na verdade – estaria muito pior se não fora satisfeito.

Na verdade, o ômega até estava considerando tudo suportável... Seu ombro e pescoço doíam um pouco acima da média, deveria ser o arranhão e a mordida do primeiro dia, depois vinham suas costas, que nossa, ele tinha de lembrar-se de não fazer mais contra paredes... Então, sua cintura, mais especificamente, bom... Por último, suas pernas...

“Não vou conseguir levantar facilmente...” – refletiu o moreno olhando o teto. Virou-se, devagar, para o lado, encarando o loiro que dormia profundamente e seus livros. Sorriu.

Normalmente se incomodaria com o acréscimo de coisas a seu ninho... Mas... Nem se importou...

Observou o celular do loiro, e lembrou-se do próprio. Esquecera-se de avisar Myung-Hee que entrara no cio... – havia prometido a ela que avisaria, antes de discutirem...

“Acho que posso dizer que ocorreu tudo bem, ela deve estar preocupada...” – sorriu consigo, e levantou, lentamente colocou apenas uma cueca, saindo do quarto e indo até o sofá, onde deixara sua mochila.

Pegou o celular e como esperado, deparou-se com um monte de mensagens:

Lee Myung-Hee

Já começou o seu cio?

Ei... Por que não responde? Não me diz que começou e você não me avisou ç.ç.

Ahhh, tô preocupada, manda um ‘tô legal’, pelo menos ç.ç!!!

AHHH! A Yangmi ficou esquisita, eu tô indo pra aí!

Por sorte, tô quase na esquina da sua casa!

Acho que a Yangmi não quer admitir, mas, ficou preocupada também...

Eu vi o Sangwoo entrando ♥, acho que tá tudo bem ♥

Bum sorriu lendo a mensagem. Sua amiga era meio louca... O que ela pretendia fazer, caso o Sangwoo não tivesse entrado? Invadir? Obrigá-lo? Bom, não importava... Mas, era engraçado pensar nisso... Continuou lendo.

Lee Myung-Hee

Bum, não sei quando você vai ler isso, mas, quando terminar o seu cio, caso não tenha tomado o supressor inicial, porque achou que ia passar o cio sozinho, antes de surtar, me liga!

Entendeu? Me liga!

Bum parou de sorrir. O supressor inicial...

“Não...” – o moreno sentia seu coração acelerar, ao mesmo tempo em que seu rosto ficava pálido e um suor frio descia por sua testa.

“Não... Não! NÃO!” – ele tirou tudo da mochila, já sabia a resposta, mas ainda assim, queria ver a evidência de sua burrice. Suas mãos tremiam e lágrimas se formavam em seus olhos.

— Não... – murmurou baixo ao ver, intactos, os dois compridos que deveria usar para aquele cio.

O primeiro deveria ser ingerido antes do cio iniciar, e o segundo, depois que ele terminara.

Funcionavam muito bem... Se bebidos corretamente.

Funcionavam ainda melhor em ômegas como Bum, que ingeriam os comprimidos regulares corretamente.

Nunca contou a Sangwoo, porque não queria pressioná-lo, mas, a chance de um ômega engravidar, tomando todos os comprimidos regulares – diários, mais os dois compridos feitos para o cio, era próxima de zero.

Ou seja...

Um ômega regular como ele, que tomava tudo corretamente, podia não engravidar em um cio. Claro, nunca era bom ‘revelar’ isso, porque, tomar somente os dois comprimidos feitos para o cio, colocavam as chances próximas a vinte por cento – e se falhasse um dia dos supressores regulares, continuava valendo apenas os vinte por cento.

Contudo, se não tomasse os dois comprimidos supressores criados especialmente para o cio.

Era como se não tivesse tomado nada.

Releu a mensagem de Myung-Hee...

Pegou o celular, os comprimidos, sua força inexistente e foi direto para o banheiro.

Estava a um segundo de surtar.

Seus dedos tremiam enquanto discava o número da amiga e trancava a porta ao mesmo tempo.

— Alô? Bum? – falou com uma voz animada a ômega do outro lado da linha.

— Myung-Hee! – ele caminhou até o vaso sanitário, sentando: — Myung-Hee!! – o ômega não sabia por onde começar... Pelo esquecimento? Pelo fato de que tudo que aconteceu até agora poder desmoronar diante de seus olhos por que foi burro? Por onde começar a explicar...: — Myung-Hee...

— Caramba! Você falou o meu nome três vezes! – a garota disse um pouco aflita: — Calma, respira...

Bum tentou respirar com calma, mas, não estava funcionando. Fechou os olhos com força, segurando o choro, pois, se começasse a derramar lágrimas, iria haver soluços, se houvesse soluços, a baixinha não entenderia mais nada do que queria falar...

— Eu não tomei... – as palavras saíram com dificuldade.

—... Você pensou que ele não iria, né?

Bum confirmou com a cabeça, como se fosse possível a garota visualizar o que ele fazia do outro lado do telefone. De qualquer forma, ele não estava com cabeça para pensamentos lógicos no momento.

— Eu... Eu... – as lágrimas começaram a cair: — Eu... Queria que ele viesse... Eu... Tinha esperanças, mas... Mas... Me esqueci... Myung-Hee... Eu me esqueci... – as lágrimas não paravam, os soluços já começaram a acompanhar.

— Bum... – a voz da garota soava preocupada.

O ômega observou a caixa de comprimidos... E se tomasse todos de uma vez só? Adiantaria? Tinha de tentar alguma coisa...

Finalmente conseguira se conectar com Sangwoo... Finalmente as coisas estavam dando certo... Não podia engravidar, não agora...

— Eu vou beber tudo. – disse ao celular, já começando a abrir a caixa.

— Não! NÃO! – Myung-Hee gritou e Bum parou o que estava fazendo: — Não vai adiantar! Tá me ouvindo? Bum! Não.Vai.Adiantar! – ela falou seriamente: — Beber tudo só vai te causar dor e não vai evitar isso... Olha, não faz nada! Não bebe nem o segundo! Tô indo aí, eu tenho um substituto melhor... Tá me ouvindo? Bum? BUM?!

O garoto engoliu o choro: — Tô ouvindo...

— Não bebe nada! Devo chegar aí rápido... Me espera, ok? – ela tentou soar tranquila.

—... Ok... – o pequeno respondeu num murmúrio, ouvindo os bips característicos do encerramento da ligação.

Mas, não tirou o celular do lado da orelha, apenas se encolheu, chorando copiosamente.

Amava Sangwoo há anos.

Por um acaso do destino, foi mordido por ele... E sinceramente, pensou que o alpha o odiaria por isso, pois não resistiu naquele dia da enfermaria... Não se controlou... Pelo contrário, quando percebeu que tinha uma chance, uma pequena chance, se agarrou a ela com força. Deixou os instintos guia-lo...

Queria ser mordido, mesmo contra a vontade do alpha... Queria criar um vínculo com ele, mesmo que nunca fosse plenamente aceito, queria tanto aquilo, que doía...

Contudo, ele não o odiou. Ele deixou claro que nunca fora sua intenção mordê-lo, entretanto, não o odiou — o corpo do pequeno tremia com os soluços.

“Daí ele rejeitou o vínculo...” – pensou o moreno, desligando o celular e olhando para o papel da tela de proteção. Uma foto dos dois no parque de diversões.

“E eu fiquei triste...” – se questionava com que direito pudera ficar triste, se desde o início o alpha não quisera aquilo... Mas na época, se sentiu tão rejeitado... Tão sozinho... Sacudiu a cabeça com as lembranças... No fim...

Sangwoo aceitou.

“Agora estou eu de novo... Impondo uma situação que ele já disse que não quer, em mais de uma ocasião... Por que? Por que não pensei nisso? Como pude esquecer? Eu nunca esqueço... Eu nunca esqueci... Será...” – um aperto no peito de Bum o fez estremecer.

Será... Que seus instintos o tinham controlado? Como na enfermaria? Será que... Sem querer...

O instinto maior de um ômega, no cio, era constituir uma família... E, céus, só ele sabia o quanto desejava ter uma família com Sangwoo.

Quantos cios desejou o alpha ao seu lado e delirava em esperar um filho dele...

Olhou para o teto do banheiro. Era um idiota. Podia perder a pessoa que amava por causa de um descuido... Como lidaria com isso?

Observou os comprimidos secando as lágrimas com as mãos. Myung-Hee pediu para espera-la... O que ela podia ter? Bom... A garota já passara por muitos problemas, e com certeza, já tivera que enfrentar cios sem as pílulas... Encolheu-se, respirando fundo. Esperaria a amiga.

~*~*~*~*~*~*~

Sangwoo abriu os olhos ouvindo a campainha.

“Mas que inferno...”.

Pensou, sonolento, levantando, colocando uma bermuda qualquer que estava no caminho da zona que se tornara seu corredor — devido aos móveis do quarto — e uma camisa.

Sua cabeça doía muito, e sentia que Bum não estava bem. Olhou para um lado e depois para o outro, não vendo o pequeno.

Fitou a porta do banheiro, ele estava ali, sabia disso...

— Bum? – questionou na porta: — Você está bem...?

— Estou. – respondeu uma voz fraca de dentro do local: — Pode atender? É a Myung-Hee... Ela vai me ajudar com o pós-cio... – um murmúrio.

— Eu não posso-

— Não! – disse sério o moreno, sem abrir a porta: — É... Coisa de ômega...

—... Ok. – sacudiu a cabeça, andando até a porta.

“Coisa de ômega... O que pode ser? Como médico quase formado, não faço ideia de porra nenhuma que pode ser definida como ‘coisa de ômega’... Algum efeito colateral do cio...? Quer dizer, não que cio seja a minha especialidade, quero trabalhar com cérebros e não úteros... Mas ele parece nervoso...”.

Abriu a porta sem nenhuma vontade e deu de cara com Myung-Hee.

—... Oi... – cumprimentou sem entender merda nenhuma do que estava acontecendo.

— Oi, Sangwoo! – disse animadamente Myung-Hee, que entrou, passando por ele, desviou de algo no chão: — Tudo bem com você? Sim? Que bom! — e foi para o banheiro, batendo na porta.

— Tudo... – o alpha estava confuso.

A porta do banheiro abriu, permitindo a entrada da baixinha.

— Aff – suspirou o loiro, coçando a cabeça e decidindo comer alguma coisa: — Ômegas... – murmurou levemente irritado.

~*~*~*~*~*~*~

Bum observava Myung-Hee mexer na bolsa, nervoso...

— Eu falei que era ‘coisa de ômega’... Você acha que ele vai desconfiar? – perguntou aflito.

— Hm... Imaginei que você não tinha contado, ele parece calmo demais... Mas – ela colocou mais fundo a mão dentro da bolsa, fazendo o ômega questionar se havia algum portal dimensional naquele objeto, porque ela já tinha retirado diversas coisas e ainda parecia não encontrar o que procurava: — Acho melhor você contar. Quanto mais você enrolar nisso, pior vai ficar.

O ômega passou a mão no rosto: — Eu sei... Eu sei... É só que... Pode não ser nada... Quer dizer, não é cem por cento de certeza...

— Ele gozou dentro enquanto você estava no cio, sem você ter tomado a pílula... – Myung-Hee olhou para o amigo com uma óbvia cara de ‘enfrente a realidade’: — É mais provável você já estar com algo aí dentro. – ela disse séria: — Mas, se ainda não foi fecundado, sabe como é, essas criaturas vivem três longos dias enquanto ‘correm’ para o objetivo, é mais eficiente você usar isso. – ela tirou uma caixinha de dentro da bolsa: — Com isso, a chance de uma não fecundação póstuma é muito maior. – ela abriu, revelando uma seringa e um vidrinho com um líquido branco.

— Injeção...? Achei que a venda fosse proibida...

— Eu tenho problemas, lembra? – ela suspirou: — Mas, antes de você tomar, me confirma... Você não ingeriu a segunda pílula, né? Senão, já era. O efeito colateral da injeção sozinha, já é muito forte, com a pílula, eu teria de te levar ao hospital...

— Não, não tomei nada... Como você pediu... – Bum olhava entre ansioso e receoso para a injeção.

— Com medo? – perguntou a garota percebendo o estado de espírito do rapaz.

— É mais eficiente? – questionou já sabendo a resposta, apenas queria um empurrãozinho a mais.

— Sim... Se você ainda não foi fecundado, não vai ser mais. É o que dão... – ela parou por um instante, respirando fundo: — Em caso de estupro.

—... – Bum concordou com a cabeça, não queria ter feito a baixinha entrar naquele assunto desagradável: — Desculpe...

— Não precisa se desculpar. Mas, precisa me ouvir. – ela tocou o queixo do ômega, fazendo-o fita-la em seus olhos: — Os efeitos colaterais, presta atenção... – Bum a olhou sério: — Você vai ficar com náusea e tontura, mas, deve passar em até meia hora... Isso nem é tão estressante, o problema tá nas dores abdominais. Eu já estou acostumada, então, atualmente, não me parece tão doloroso... Contudo, é sua primeira vez com injeção, certo? – o rapaz concordou: — Ok. Isso vai doer. – ela o observou, decidida: — Muito. Tem certeza? Ainda pode só tomar a pílula.

— Se isso é mais eficiente, eu quero tentar.

Myung-Hee concordou, pegando a caixa, abrindo, colocando o líquido do frasco na seringa, posicionando o braço de Bum e injetando.

O ômega a princípio não sentiu nada.

— Você realmente, estava prestes a surtar, né? – a baixinha riu: — Nem colocou uma roupa. – ela apontou para o rapaz que só então, pareceu perceber que estava apenas de cueca.

— Ah! – ele se encolheu, ficando violentamente corado.

— Que fofo, Bum! – ela riu mais: — Bobo, não se estressa com isso... Mas, vou pegar roupas para você, já volto. – a baixinha saiu rapidamente do banheiro.

O ômega suspirou, e então tocou a região da barriga.

“É mais provável você já estar com algo aí dentro.” – as palavras de Myung-Hee ecoaram pela mente do rapaz.

“Algo...” – sabia a forma como a baixinha se referia a um início de gestação, era normal para ela, um hábito, para não criar laços afetivos.

“Faz sentido no caso dela...” – refletiu.

Bum não tinha nada contra abortos e sabia que a pequena já fizera alguns. Ele considerava essa uma escolha individual da pessoa envolvida... Sabia que havia muitos protestos contra, mas, sempre se questionava quem eram essas pessoas que se sentiam no direito de julgar essa decisão. Quando alguém faz um aborto, tem uma razão... Quem, sem estar vivendo aquela vida, pode dizer que essa razão é ‘fútil, errada, sem noção’, entre outros? Não é você ali...

Bom... Agora era ele ‘ali’.

Respirou fundo, começando a sentir o enjoo que a pequena lhe avisara ser um dos efeitos colaterais.

Se ‘algo’ estivesse dentro de si? Faria isso?

“Uma decisão individual...” – fechou os olhos, sentindo a tontura.

Lembrou-se de diversas conversas que tivera com a amiga, em todas elas, sempre dera apoio a decisão dela, mas, deixara claro que ‘independente de qualquer coisa’, manteria a criança. Na época, se referia a caso fosse estuprado...

“Agora não tenho certeza do que fazer, caso esteja esperando uma criança do homem que amo...” – uma lágrima caiu por sua face, enquanto saía de cima do vaso, subia a tampa e vomitava dentro do local. Sentiu sua pressão despencar...

Estava muito tonto.

“Droga... Isso é ruim...” – refletiu, começando a sentir dor.

A porta abriu, Sangwoo entrou para ajudar, mas, Myung-Hee passou em sua frente, se posicionando entre os dois.

— Ele não está bem! Eu estou sentindo! – disse irritado o alpha, sentindo-se impotente.

— Eu sei, eu sei! – respondeu rapidamente a baixinha, tentando colocar ele pra fora do banheiro: — Mas, ele tá bem sim! É um pós cio, isso é... – ela gesticulou nervosamente: — Normal. – disse enfim, empurrando o máximo que conseguia.

— Normal? Normal? – o loiro começava a se irritar: — Ele está pálido, vomitando, com dores e – se concentrou, visualizando o pequeno: — Acredito que também sente tontura...! Ele não está bem, e isso não é normal! Tô me formando em medicina, cacete, não existe pós cio com esses sintomas!

— Tá se formando como omegalogista? – perguntou séria a pequena, com uma das mãos na cintura.

— Quê? Não! – respondeu atordoado o rapaz.

— Então, você não sabe de nada, Oh Sangwoo! – ela falou em tom solene e deu um último empurrão: — Espera aí! – fechou a porta, deixando o loiro do lado de fora e foi correndo ajudar o amigo.

Bum tentou ignorar a dor exorbitante que passeava por seu ventre. Aquilo não era um supressor, era uma tortura...

— Isso dói muito... — murmurou encolhido, tentando se mover o mínimo possível, pois seu corpo ainda não se recuperara.

— Certo! – a pequena enrolou uma das toalhas que trouxera junto com as roupas e ligou o chuveiro, molhando com água quente: — Aqui, coloca isso e se encolhe!

O moreno colocou a toalha na barriga e fez como a amiga falou, ficando em posição fetal. Sentiu um leve alívio, suspirando. Ao mesmo tempo, Myung-Hee pegou um pano de sua bolsa, molhou e começou a passar no rosto do pequeno.

— Vai ficar tudo bem... – disse a baixinha, consolando o moreno e colocando a cabeça dele no seu colo: — Vai passar...

— Myu... – ele murmurou: — E... Se for tarde...?

—... – a garota refletiu sobre a questão: — Você terá de fazer uma escolha... Mas, não vamos pensar nisso, sim?

— Ele vai me odiar... – o pequeno voltou a se encolher devido a dor, tanto física, quanto mental.

—... Ele não vai... – respondeu Myung-Hee, tentando passar confiança, contudo, sabendo que Sangwoo era sempre uma caixinha de surpresas, não tinha ideia de como ele reagiria com a possibilidade: — De qualquer forma, você não tem como esconder dele até saber...

— Como assim? – perguntou confuso o ômega.

— Você só vai poder fazer o exame de sangue daqui a dez dias... Para se ter certeza, mas, eu recomendo você esperar a sua menstruação... Como você é regular, ela deve vir quando? Daqui uns treze, quatorze dias?

— Não dá para esperar tudo isso! – o pequeno exclamou, logo soltando um gemido baixo de dor: -... Eu vou morrer de ansiedade... E... Não vou conseguir evitar que ele saiba...

— Eu já disse, você não tem de evitar que ele saiba... – ela alisava o cabelo do rapaz e passava o pano sobre seu rosto: — Você tem de contar da possibilidade, vai facilitar muito a sua vida...

Bum ficou morbidamente em silêncio e a baixinha suspirou.

—... Quando meu pai quer fazer uma surpresa para o meu padrasto... – ela começou, sentindo o moreno virar o rosto e prestar atenção em cada palavra que dizia: — Ele costuma fazer duas coisas, a primeira, é nunca, em hipótese nenhuma, pensar na surpresa perto do meu padrasto, sempre tentar desviar os pensamentos para outra coisa, a segunda é, caso o meu padrasto pergunte indiretamente algo, que o faria pensar na surpresa, ele desvia o assunto.

— Isso parece bastante complicado... – refletiu o pequeno. Sabia que Myung-Hee falava do pai e do padrasto porque eles eram o único casal que conhecia que compartilhavam um vínculo alpha-ômega.

— A primeira pergunta que o Sangwoo vai fazer quando você sair daqui, provavelmente vai ser ‘o que aconteceu?’, se você mentir, como eu fiz, ele vai saber. – ela parou pensativa: — Se bem que você disse que o vínculo de vocês tem barreiras, né?

— As barreiras caíram durante o cio... – falou baixinho o pequeno.

— Então, você se fodeu bonito. – ela suspirou.

— Myung-Hee!

— Quê? – ela olhou surpresa para o ômega: — Bum, quando ele perguntar o que aconteceu, como você pretende responder, sem mentir?

O ômega sempre foi ruim em mentir, contudo, quando morava com o tio e não podia revelar a verdade – principalmente na época que namorava Yoonjae, criou uma ‘defesa’ para não acabar apanhando. Omitir. E era bom nisso.

— Vou dizer que passei mal, que às vezes é doloroso, mas, que está tudo bem.

Myung-Hee ficou alguns instantes em silêncio: -... Ele vai achar que você está falando do pós cio.

— Eu não especifiquei que era sobre o cio... – murmurou o pequeno.

— Caramba, às vezes, você me choca. – ela riu.

— Não sei se isso é bom ou ruim...

Ficaram daquela forma até Bum se recuperar completamente, após isso, o pequeno escovou os dentes, se vestiu e saiu.

Omitiu de Sangwoo suas preocupações com a possível gravidez, sabia que estava fazendo errado, mas, não queria começar a surtar antes de ter certeza.

“De dez a treze dias... Eu consigo...” – refletiu o pequeno.

Os próximos dias foram sufocantes, como não conseguia parar de pensar na possibilidade, tinha de evitar ficar próximo de Sangwoo para o alpha não perceber... Contudo, já não tinha aulas pela manhã, e seu contrato no trabalho só mudaria para turno integral no próximo ano...

Ou seja, ficou inventando um monte de desculpas para sair de manhã, a maioria delas envolvendo Myung-Hee e a pequena Cho-Hee. Era o apartamento que a amiga queria comprar, a creche que a Cho-Hee iria frequentar, as roupas novas da pequena... Nada era mentira, realmente ia fazer tudo que dizia, mas, também não precisa estar presente em absolutamente tudo...

Como se isso não bastasse, se sentia cansado – todo o santo dia, sempre com sono e sem conseguir levantar, realmente, cedo – e a maldita dor de cabeça, persistente, que não o deixava ter uma noite mais... Intensa... Com o alpha.

— Não aguento mais... – ele se atirou na cama da baixinha.

— Eu falei para você contar. – Myung-Hee tentava fazer uma trança em uma agitada Cho-Hee: — Se você não parar, vai ficar torto. – alertou a mãe.

A pequena parou de se mover para os lados, mas, continuou batendo o pezinho no chão.

— Sei que você disse isso, mas... Não consigo lidar... – respondeu Bum.

— Bom, não desceu, desceu? – a baixinha pegou um elástico para cabelo rosa com uma borboleta, e amarrou a ponta da trança da pequena.

— Não... Tá atrasada... Três dias... – respondeu Bum, receoso e sentindo-se levemente enjoado.

— Ficou lindo, olha. – Myung-Hee foi com a filha para frente do espelho. A pequena abriu um sorriso enorme e concordou.

— Ficou!!! Como eu queria!!! – disse empolgada Cho-Hee.

— Por que não busca o desenho que fez para o Bum e mostra a ele? Hm? – perguntou a ômega amistosamente.

— Tá! – respondeu, já saindo correndo, a pequenina.

Myung-Hee respirou fundo: — Enjoado? – perguntou olhando o amigo.

Bum apenas concordou com a cabeça: — Pode ser estresse...

— Ah, claro... Assim como as dores de cabeça, o cansaço... Pode ser estresse, óbvio, mas, pode ser outra coisa também. – ela cruzou os braços, fitando-o seriamente: — Não desceu e você começou a enrolar? Quem tinha dito que morreria de ansiedade? – a morena parecia levemente brava.

—... Eu sei... Mas... Estou com medo... – o ômega olhou a amiga nos olhos.

— Cuida da Cho-Hee, eu vou comprar os testes. – a baixinha levantou, pegando a bolsa preta que combinava com tudo, inclusive com seu casaco chamativo, mas quente, que usaria para ir até a farmácia da esquina.

— Testes? Plural? – perguntou confuso o moreno.

— Sim, só para garantir. Não se esquece de ficar de olho nela... É tudo, literalmente, novidade, então ela tá super agitada, ok?

— Ok... – concordou o ômega.

— Amorzinho, a mamãe tá saindo rapidinho, obedece o dindo Bum, tá?

Cho-Hee já entrava no quarto com o desenho, quando ouviu a mãe: — Tá bom! Não se preocupa! – ela disse sorrindo, evidenciando a falta de alguns dentes e nascimento de outros.

— Owww, você é tão fofa bebê!!! – Myung-Hee teve um ‘pequeno ataque de mãe coruja’, se abaixando e beijando a filha em vários pontos daquele rostinho redondo. A menina dava risada com a atitude da mãe.

Depois de uns minutinhos de corujisse, a baixinha soltou a filha, saindo para comprar os testes enquanto a pequena corria com o desenho para Bum.

“Dindo...”.

Bum não entendia muito bem como funcionava o cristianismo, mas, conforme Myung-Hee, se algo acontecesse a ela e seus parentes, ele seria o responsável pela pequena. Era uma grande responsabilidade.

Na realidade, Myung-Hee não ia batizar a filha... Ela não tinha uma religião definida, contudo, como seu padrasto era católico, ele insistiu. Mesmo assim, a pequena Cho-Hee foi batizada apenas aos dois anos – quando o padre da igreja local concordou que a baixinha não precisava ser convertida para isso ocorrer, algo que levou algum tempo do padrasto de Myung-Hee.

“Ele disse que só queria que a pequena pudesse estar ‘livre do pecado original’, como dizia sua religião... Uma vontade espiritual...”.

Mas o ômega sempre refletia, o que uma criança poderia ter de pecado? Contudo, como sempre pensava no fim, ‘cada religião com suas crenças’. Ele não entendia a religião católica, entretanto, achava fofo o fato da pequena sempre agradecer antes das refeições.

— Olha! Olha!!! Bumi!!! – ela pedia, empolgada, para o rapaz enquanto segurava o papel com o desenho.

O ômega observou, reparando que estava devidamente proporcional – ele e Yangmi, reconhecida pela ponta azul no cabelo, eram maiores que Myung-Hee e Cho-Hee – que era a menorzinha. As árvores ao redor eram muito maiores que todos eles, o sol era uma bola amarela brilhante no céu azul.

O desenho deixava visível que a pequena já tinha uma noção de proporção que poderia não ser considerado comum em sua idade, mas era normal em alphas como ela. Também reparou que ela escrevera o próprio nome, o da mãe e o dele, corretamente...

“Ela só não deve saber escrever ‘Yangmi’ ainda...” – refletiu o garoto.

— Esse é você! – ela apontou: — Essa é a mamãe, essa sou eu, essa é a namorada da mamãe! A gente tá no parque! – ela apontou para as árvores desenhadas: — Comendo! – evidenciou os quadrinhos com vários risquinhos, que Bum concluiu que deveria ser o lanche que eles levaram. No geral, a pequena parecia muito feliz em mostrar sua obra e explica-la.

— Você gosta da namorada da mamãe? – o ômega perguntou por uma questão de curiosidade. Crianças alphas não costumam ser sociáveis com desconhecidos, principalmente alphas mais velhos. Se Cho-Hee gostasse de Yangmi, era um grande avanço no relacionamento delas. Queria saber como a alpha estava indo em seu caminho de conquistar a confiança da pequena.

— Sim! – respondeu animada: — Ela disse que nós somos parecidas!

— Você se acha parecida com ela?

A menor ficou pensativa: — Hm, sim! – concordou com a cabeça.

Bum sorriu.

— Gosto do cheiro dela! – a pequena já deixava o desenho em um canto e procurava outra coisa para brincar. Onde estava seu carrinho super sônico mesmo? Hm... Provavelmente do lado da Lyulyu, sua boneca...

Bum se surpreendeu – muito – com a resposta. A última coisa que crianças alphas gostavam, era o cheiro de outros alphas, a não ser que fossem pertencente a manada de seus pais – o que lhe dava um senso de segurança, tirando isso, elas rejeitam a presença... Chegando ao ponto de brigar, caso o outro alpha, em questão, também fosse uma criança...

“Incrível...” – refletiu o ômega.

“Yangmi deve ter se esforçado muito para chegar nesse ponto com a Cho... Sem morder a Myung-Hee...” – pensou impressionado o ômega.

Cho-Hee brincava que a boneca voava em seu carro super sônico, quando o ômega pensou, seriamente, como seria uma criança dele e de Sangwoo...

Quieta?

Ela seria um ômega? Alpha? Beta? Seria uma garotinha como Cho-Hee ou um menino? Ou talvez, um que não se identificasse com isso? Preferisse o termo ‘deltano’?

Sorriu.

A criança... Gostaria de brinquedos como bonecas, caminhões, ou, preferiria jogos? Como legos e quebra-cabeças... Tinha vários na casa de Sangwoo, ele fora uma criança mais lógica do que emotiva...

Sangwoo ensinaria sobre as estrelas?

Não... Alphas raramente tem paciência para ensinar...

“Talvez eu devesse aprender... Assim, eles teriam algo em comum...”.

— Bumi? – perguntou a pequena, fitando a cara abobada de Bum.

— Ah! Desculpe... – o ômega sacudiu a cabeça, voltando à realidade: — Quer que o dindo brinque junto?

— Não sei... Você tá muito distraído, e se machucar a Lyulyu? – questionou decidida a menina.

— Prometo não machucar ela. – respondeu sorrindo o ômega.

— Hm... Tá... Mas, olha lá, hm? – ela entregou a boneca cuidadosamente ao moreno, e foi pegar o Sr. Panda, seu ursinho de pelúcia, para brincar junto.

Brincou com Cho-Hee até Myung-Hee voltar, e enquanto a morena foi preparar um lanchinho, ele foi para o banheiro fazer os testes.

Olhou para os três testes sobre a bancada do banheiro...

“Ok...” – verificou o relógio.

“É só olhar o resultado...”.

A imagem de Sangwoo sendo claro sobre não querer filhos... A conversa que tiveram sobre o pai dele... A imagem mental que ele lhe passara... Tudo voltou...

“Não consigo.”. – se apoiou na bancada, uma das mãos indo automaticamente para o ventre.

Seria ruim... Querer...? Ter esperança que desse tudo certo? Fechou os olhos, confuso e ouviu baterem na porta.

— Bum, você tá demorando uma vida aí dentro... – Myung-Hee falou esperando do lado de fora.

O ômega abriu a porta, convidando a morena para entrar.

— E então? – perguntou a garota.

— Não... Não consigo olhar... – confessou.

— Ah! Que bobagem, me deixa ver! – ela pegou um, olhando séria para o ômega.

Bum ficou tenso.

— Negativo. – disse simplesmente a ômega.

— Quê...? – o pequeno soou mais chateado do que aliviado, surpreendendo até a si por isso.

— Acho que era estresse mesmo... – continuou a garota.

— Ah... Certo... – murmurou o rapaz, tocando de leve no ventre.

— Decepcionado?

— Hm... Acho... Que sim... – confessou: — Quer dizer... Eu sei que não era a hora certa e provavelmente o Sangwoo não aceitaria... Mas... Eu queria... – murmurou.

— Ótimo, porque eu menti. – ela mostrou o resultado, que estava como positivo.

— QUÊ? – ele olhou e depois pegou os outros dois da bancada, absolutamente todos como positivo: — Você é louca...

— Eu sei... – ela deu de ombros: — Contudo, você estava em dúvida... Talvez, até pensando em aborto... E eu te conheço. Eu sei o que você realmente quer... E sei o quanto esse bebê é importante para você, então, só queria deixar tudo muito claro.

“Bebê...” – Myung-Hee se referira ao ‘algo’ dentro dele como ‘bebê’...

Sim...

Ela o conhecia bem. Nunca foi ‘algo’ para ele.

— Céus! E se eu tivesse reagido diferente? Sei lá, aliviado...

— Bom, daí eu te dava um chá que tomo nesse tipo de situação sem você saber, e jogava os resultados fora sem você notar...

— QUÊ?

— Brincadeira! Bobo, eu nunca faria isso! – ela gargalhava: — Nossa conversa só seria um pouco diferente...

—... – Bum voltou a olhar o resultado.

—... Feliz...? – questionou a pequena.

—... Sei que é errado... – ele olhou a amiga: — Mas, sim... – os olhos do ômega marejaram enquanto ele sorria: — Muito!

Ela acompanhou o sorriso do amigo: — Parabéns pela gestação!

— Obrigado! – ele riu.