Destinados...?
25 Confiança
Sangwoo observava, completamente calado, o chocolate quente que Yangmi pedira para ele, já que não falara nada quando o garçom perguntara o que desejava.
A tonalidade da bebida era de um marrom escuro, provavelmente, mais chocolate do que costumavam pôr...
“Odeio doces.” – pensou simplesmente.
Queria conseguir prestar atenção no que sua manada falava. Não estavam todos presentes, Seung tinha ido a um encontro e Dongyu fora até a casa dos pais, ajudar com os irmãos, enquanto os dois viajavam. Contudo, o resto do pessoal estava ali e a mente dele, dispersa em algum ponto daquele chocolate. Olhou pela janela, nevava.
Algo normal naquela época do ano.
Suspirou.
Não conseguia entender o que ocorria com Bum.
Tinha algo errado, ele sabia disso, só não conseguia identificar o que era. Começou depois do cio...
Ele não quis ajuda para desmontar o ninho – o que foi um pouco frustrante, e parecia nervoso – o que foi estranho.
Ele não falava muito mais que monossílabos, e, apesar de ambos terem tempo pelas manhãs, ele preferia fazer outras coisas...
Inicialmente, pensou que tinha feito algo errado, durante o cio, chegou a questionar o moreno. Mas, o garoto ficou em choque e deu bastante ênfase de que não fizera nada de errado... E até corou dizendo que fora o melhor cio de sua vida...
“Toda essa merda, não faz sentido.” – refletiu, bufando de leve.
Algo lhe incomodava desde o final do cio. A visita de Myung-Hee.
Fora algo estranho, peculiar... A garota fora lá ‘ajudar com as coisas de ômega’, e depois disso, tudo ficou ainda mais bizarro...
“Coisas de ômega...” – ele mexeu a colher na bebida.
“Aqueles sintomas... Eu já li sobre isso... Mas, não é algo natural.” – o rapaz levantou, tomando um gole da bebida.
— Horrível. – disse, colocando o resto do chocolate na xícara de Yangmi e pegando o casaco.
— Valeu. É meu favorito... – retrucou Yangmi, não dando à mínima.
— Ei! Aonde você vai? – perguntou Jihoon, fitando o alpha líder.
— Na biblioteca, por quê?
— Você não confirmou se vai ou não, e é óbvio que eu quero que você confirme. – disse muito sério o rapaz.
— Provavelmente, ele não estava nem ouvindo. – falou Young bebericando o café.
— O Sangwoo tá meio aéreo, melhor perguntar depois... – Chung-Ho pegou um dos biscoitos que estavam no centro da mesa e comeu: — Pior que ele, só o Taehyun... – ele apontou a cabeça para um quieto ruivo que olhava pela janela.
Jieun suspirou: — Festa de Natal, na mansão do Jihoon. – ela disse olhando Sangwoo: — Você e Bum, irão ou não?
— Hm... Claro. – respondeu o loiro, terminando de pôr o casaco.
— É na mansão de Osaka. – completou a garota.
—... – Sangwoo suspirou, olhando então para Jihoon que já estava animado com a confirmação. Ótimo. Teria de comprar passagens para o Japão, apenas, para passar o Natal e mais o quê? Um ou dois dias? Perfeito desperdício de dinheiro, mas, já estava acostumado com as excentricidades do ‘mundo alpha’: — Ok. – disse apenas.
Para isso que lutava, não? Para cobrir esse tipo de despesa extravagante...
Começou a sair, quando viu Yura levantar.
— Vou com você. – disse a loira, pegando o próprio casaco.
Sangwoo olhou para Taehyun percebendo que o ruivo fitara a loira, mas depois, voltara a olhar pela janela.
“Ele não vai levantar e vir também...?”.
— Vamos? – perguntou a garota já na porta da pequena cafeteria.
— Certo. – Sangwoo saiu, estranhando o fato de que após um passo para fora do estabelecimento, Yura ficou cabisbaixa.
— Você está bem...? – perguntou preocupado. Se tinha alguém que não se abatia facilmente, era a alpha.
Ela fitou Sangwoo surpresa com a pergunta, então olhou para um lado, daí para o outro, depois para os próprios pés.
Ela estava, estranhamente, frágil.
— O que aconteceu? – perguntou o alpha, colocando as mãos nos bolsos e olhando em direção de onde ficava a biblioteca.
Sua ideia inicial era ir até lá, pegar alguns livros específicos sobre a saúde ômega. No entanto, Bum não estava com nada grave – pelo menos, nada aparente – então, podia fazer isso outra hora e prestar um pouco de atenção em sua amiga, que parecia nada bem.
O silêncio de Yura o fez ter certeza. Não iria para a biblioteca naquele momento.
— Vem comigo. – ele segurou a mão da garota e a levou para o shopping. Sabia que ela gostava de ir para lá quando chateada.
Andaram por algumas lojas, até entrarem em uma... Nenhum dos dois falara nada no caminho, apesar de algumas pessoas os fitarem com admiração – provavelmente devido à beleza que o suposto casal tinha.
Yura foi até um dos expositores, observando tudo. Suspirou.
— Você é engraçado... Era o último lugar que pensei que me levaria... Quer dizer... Odeia lojas, compras... – ela tocava em um vestido turquesa.
— Não gosto, mas, você gosta.
Ela sorriu triste.
— Ele... Ficou zangado comigo... – ela mexeu no vestido, medindo-o.
—... Por quê?
— Porque ele me contou que tem um ômega... Que ele não consegue tirar o cheiro da cabeça...
“Droga.” – Sangwoo se calou, aquilo era um pouco mais delicado do que pensara.
— E você? – perguntou sério.
— Disse que se ele não esquece o cheiro dele, poderia ser o destinado dele...
“Foi o que pensei.”.
Sangwoo sempre considerou esse papo de ‘destinado’, muito romântico e pouco prático. Em resumo, uma grande bobagem. Contudo, não podia negar que desde que conheceu Bum... Seus conceitos deram algumas voltas...
O problema era: Taehyun sempre pensou como ele, já Yura sempre acreditou em ‘pares destinados’, normalmente, formados por alphas e ômegas.
Uma das razões – não ditas – para as recusas dela. Ela acreditava, piamente, que alphas com alphas, nunca davam certo. E, sinceramente, Sangwoo não tinha nenhum exemplo para se opor a opinião da garota.
Nenhum casal alpha-alpha que conhecia, incluindo os pais de alguns de seus amigos, aparentavam estar realmente felizes com o casamento. A maioria parecia permanecer naquela situação por imposição da sociedade, e não por que queriam.
O único casal que ele citaria como exemplo de que ela estava errada, era exatamente ela e Taehyun, mas, como os dois cabeças duras nunca se assumiam como um casal ficava complicado argumentar.
—... E ele? – perguntou meio que já sabendo que o garoto provavelmente ficara puto.
— Perguntou se eu estava bancando a tonta... Daí eu fiquei brava... Foi ele que disse que não esquecia o cheiro dele... – ela apertou o vestido.
—... Yura. – a garota se virou fitando-o: — Você vai aceitar, tranquilamente, que ele fique com esse ômega?
Ela se manteve calada, foi a vez de Sangwoo suspirar.
— Vocês dois... Sempre me dando trabalho. – pegou o celular, surpreendeu-se ao notar que data era... E por lembrar o que significava. Sorriu.
“Primeiro... Vamos resolver esses dois.” — digitou rapidamente.
Já chega Taehyun.
Não sei se o papo sobre o ômega é real ou não, se não for, eu mato você.
Se for, conversa direito com ela. Para de ser criança.
P.S.: Se você foi para a biblioteca atrás de nós, a gente tá no shopping.
— O que você está fazendo? – a loira perguntou se aproximando.
— Dizendo pra ele onde a gente tá. – o celular vibrou e ele olhou.
Taehyun
Eu não sei o que dizer, ela parece não ligar pra isso...
— Por que você fez isso? Não sei se quero falar com ele agora... – ela soltou o vestido e foi para os casacos.
— É melhor vocês conversarem logo... — o alpha suspirou, sacudindo a cabeça negativamente e escrevendo.
Você está errado. Ela liga, e no fundo, você sabe disso.
Conversa com ela.
Recebeu uma resposta em seguida.
Taehyun
Já estou indo pra aí. Droga... Eu tinha caminhado até a biblioteca.
Me sinto sempre correndo atrás dela.
Sangwoo riu e Yura o fitou.
— Que foi? – perguntou a loira confusa: — Ainda falando com ele?
— Hã. Mais ou menos... – respondeu o alpha enquanto digitava.
Se tá cansado, desiste.
O alpha mal piscou e já recebeu a resposta.
Taehyun
Nunca.
Sangwoo colocou o celular no bolso sorrindo.
— Me ajuda em uma coisa? – perguntou pegando a garota pela mão.
— No que...?
— Hoje eu e o Bum fazemos um mês de namoro e eu pensei em dar um presente. Me ajuda a escolher? – ele apontou para as jaquetas.
Yura sorriu: — Claro. – ela começou a vasculhar com suas mãos ágeis procurando algo bonito, agradável e quente.
Sangwoo sabia que a amiga adorava fazer esse tipo de coisa... Também percebeu que ela não pediu para ele mandar Taehyun não ir, mesmo dizendo que ‘não queria falar com ele’.
— Que tal esse? – ela tirou uma jaqueta muito bonita dos cabides e mostrou a Sangwoo.
— Hm... – o alpha achou lindo, mas... Não parecia combinar com Bum...
— Captei pelo olhar. – ela colocou em um canto.
Logo aquele canto era uma pilha...
— Sangwoo, assim não dá, você não parece gostar de nada... – ela colocou outra jaqueta na pilha.
— É que você pegou os mais chamativos... – ele levantou, indo para perto dos cabides.
— Ah, nem todos... E eles iam ficar lindos no Bum... – a garota observou o grande monte de jaquetas.
“Mas ele não ia usar...” – pensou o rapaz, olhando o que ficara nos cabides.
“Nada muito justo...” – empurrou um que serviria exatamente no pequeno.
“Nem de cores chamativas...” – colocou para o outro lado um laranja berrante, que, sinceramente, não saberia quem teria coragem de usar.
“Nem feminino demais...”.
Viu então uma jaqueta preta, com botões prateados, era bonita, elegante e preenchia todos os requisitos em sua mente.
— Algo assim... – pegou e mostrou a Yura.
— Ah! – a garota fitou surpresa: — Não era exatamente o que eu tinha em mente, mas, se você acha que ele vai gostar de algo mais assim... Não leva essa! – ela tirou a jaqueta da mão de Sangwoo: — Essa não é de uma marca muito boa, e o tecido não é resistente... Leva essa aqui. – ela mostrou uma jaqueta preta, elegante, com bolsos e capuz. Era linda.
“Perfeita.”.
— Certo. Vou levar essa. – ele pegou a peça, analisando os detalhes. Só no fim reparou no preço. Caro. Obviamente – fora escolhido por Yura, e ela nunca escolhia coisas baratas – mas, não se importou, era para Bum, valia a pena.
Levou a jaqueta até o caixa, onde pediu para embrulharem para presente, como não havia levado dinheiro, pagou com o cartão.
Saiu com Yura da loja – após ela comprar dois vestidos que lhe interessaram. Estranhou o fato de Taehyun não ter aparecido.
— Que tal irmos para a praça de alimentação? – perguntou o rapaz.
— Claro. – respondeu a loira com um sorriso doce.
Caminhavam tranquilamente quando o ruivo surgiu diante deles. O rapaz se encontrava calmo, apesar de estar um pouco desconcertado.
— Você veio... – murmurou Yura fitando Taehyun.
—... É... – ele passou a mão nos cabelos: — A gente... Pode conversar?
—... – ela suspirou: — Ok. – virou-se para Sangwoo: — Você vem?
— Para segurar vela? Não. Obrigado. Melhor eu ir logo para o hospital... – ele se despediu dos dois: — Qualquer coisa é só chamar. Até. – disse o alpha se retirando.
Sangwoo observou os dois caminharem para a praça de alimentação, esperava, de verdade, que aquela história sobre o ômega fosse uma invenção do ruivo. Talvez, uma forma de fazer a loira admitir que gostava dele? Não sabia. Só queria que eles ficassem juntos de uma vez por todas.
“São mais enrolados que eu...” – refletiu, pegando a chave do carro e só então lembrando que fora a pé até a cafeteria, o que significava que seu automóvel estava lindamente estacionado na universidade.
— Merda... Tô atrasado! – correu para o hospital.
~*~*~*~*~
Yura observava Taehyun na sua frente, e pela primeira vez na vida, não estava à vontade.
“Sendo que ele foi a primeira pessoa para quem contei que não me identificava com meu sexo...”.
“Aquela vez eu estava nervosa... Mas hoje...”.
A garota olhou o cardápio...
As palavras de Sangwoo ecoando por sua mente...
“Você vai aceitar, tranquilamente, que ele fique com esse ômega?”.
Aceitar... Não tinha nada para ‘aceitar’...
Se Taehyun quisesse ficar com o ômega, ela não tinha nada a ver com isso, certo?
...
...
Respirou fundo, baixando o cardápio e encarando o rapaz a sua frente.
“Droga, quando tudo se tornou tão complicado?”.
— Se você não consegue tirar o cheiro dele da cabeça, significa que o dele é melhor que o meu?
A boca de Taehyun abriu levemente.
— Ah, vamos, você vive repetindo que nunca sentiu um cheiro melhor que o meu, e agora que faço uma pergunta direta, você fica sem palavras?
O rapaz tossiu, tentando esconder a surpresa: — É só que...
— É só que...?
— Você não costuma ser tão direta... – a garota ergueu uma sobrancelha, séria, fazendo o ruivo engasgar: — Quer dizer, você é direta, você é muito direta... Normalmente, mas, quando se trata desses assuntos, você costuma desviar...
— Como você tá fazendo agora, não me respondendo? – questionou começando a bater o indicador na mesa.
— Eu não quis desviar... AH! – ele sacudiu a cabeça: — Ok. Já que seremos cem por cento honestos aqui, eu preciso beber. – ergueu o braço, fazendo um dos garçons se aproximar.
Pediu um soju e aguardou. Assim que a bebida chegou, tomou um copo de uma vez, depois respirou fundo.
— Melhor? – perguntou a garota, tentando não rir do fato de que Taehyun parecia uma bagunça na sua frente.
O garoto sempre fora ‘atirado’, por assim dizer, nunca levou nada a sério e sempre fez piadas de duplo, triplo, quádruplo sentido... Entretanto... Ele nunca lhe pareceu uma bagunça.
— Sim... – respondeu um tanto melancólico: — Sobre a honestidade... – Taehyun coçou a cabeça.
— Muito difícil? – sorriu Yura.
— Engraçadinha. – retrucou o ruivo: — É só que... Não sei muito bem como explicar. – ele respirou fundo: — Eu gosto de você e sei que sou correspondido. – a loira ergueu ambas as sobrancelhas em surpresa: — Ah, nem vem negar, honestidade, lembra?
— Verdade. – ela baixou a guarda.
— Certo. E eu já estou acostumado com o nosso relacionamento ‘perto o suficiente para sabermos o que sentimos, mas não tão perto para irmos para a cama’.
— Definição sua? – a garota ‘roubou’ o copo de soju, percebendo que aquela seria uma conversa realmente franca.
— Errei em algo? – questionou fitando-a sério.
— Não... – confessou, servindo o copo com a bebida.
— Continuando... Sou louco por você e isso não mudou nem por um segundo.
— Mas...? – ela bebeu.
— Eu estava brisando na esteira da academia, de boas, pensando na vida... – o rapaz suspirou: — Quando começou essa confusão do lado de fora, fui ver e tinha uma alpha indignada, quase batendo nesse ômega...
— Hm... E então? – perguntou, bebendo mais um pouco.
— Então que eu a parei. Pensei que poderia fazê-los conversar civilizadamente, ou pelo menos, evitar que ela batesse nele, mas, quando olhei pra ele... Ele estava tão... Sei lá... – o ruivo sacudiu a cabeça negativamente.
Yura bebeu mais um pouco da bebida. Estava genuinamente curiosa. O que era um sentimento estranho, mas, no momento que Taehyun fora sincero ao dizer que era louco por ela... Ela ficara... Tranquila.
O que lhe incomodara, originalmente, quando ele lhe falara sobre o ômega, foi que lhe pareceu que algo mudaria entre eles e isso a deixou... Insegura.
Não gostava de se sentir assim.
“Bom, as coisas irão mudar, agora que foi dito que gostamos um do outro, não que não soubéssemos, contudo, nunca havíamos falado...” – pensou a loira, bebericando novamente a bebida.
— Daí ela gritou comigo, mandando eu não me meter, que a culpa era do ‘ômega inútil’ que ela tinha como namorado... Que ‘nem sabia fazer uma refeição direito’ e eu... Eu... – ele corou levemente, o que espantou Yura: — Eu rosnei pra ela.
A garota cuspiu a bebida: — Você o quê? – perguntou pegando um guardanapo.
— Eu rosnei pra ela... – repetiu sem graça.
Yura tentou controlar, mas, não conseguiu. Riu.
— Sério isso? – disse entre risos.
— Hahaha isso, ri de mim, valeu, super... – ele esbravejou, fingindo uma falsa indignação: — Que amiga incrível você é...
— Obrigada. – agradeceu em tom solene: — Fiquei aqui imaginando você rosnando... – ela fez uma cara pensativa: — Que gatinho apavorante você deve ter parecido... – voltou a rir.
— Ahhh, só porque eu não consigo te derrotar, não significa que perco todas as lutas contra alphas, ok? – ele disse levemente bravo.
— Ah! Ok. Você a derrotou e bancou o príncipe encantado? – Yura colocou os cotovelos em cima da mesa, então juntou as mãos, apoiando seu rosto sobre elas enquanto fitava debochadamente o ruivo: — Foi isso?
—... Não... – confessou em um murmúrio o ruivo.
— Ela te derrotou, né? – a loira sorriu vitoriosa.
—... Eu não gosto de brigas, você sabe disso...
— Derrotou?
—... Sim... – ele se encolheu na cadeira: — Aff... Quer dizer, mais ou menos, ela torceu o meu braço e o garoto interferiu...
Yura voltou a rir: — Vamos ver, você foi salvo pelo garoto que tentou salvar?
Taehyun pegou o copo de soju de volta, bebendo um grande gole enquanto concordava com a cabeça.
— Quando ele fez isso, estava nervoso e soltando feromônios... Quando senti... Sei lá... Fiquei com vontade de pegar a mão dele e sair correndo, já que, obviamente, eu não ia conseguir derrotar aquela alpha... – o ruivo suspirou: — Isso é tão estúpido, nem o conheço, contudo, sinto que deveria ter fugido com ele dali... Em um dia ele se tornou meu segundo cheiro favorito na Terra e eu queria protege-lo... Aff... – o rapaz tomou mais um gole da bebida: — Mas, provavelmente, nem vou encontra-lo mais...
— Hm... É... Seria complicado...
Yura não sabia muito bem o que pensar, ficara... Triste. Não por ele querer fugir com o garoto – o que provava que o mesmo o afetara mais do que Taehyun parecia disposto a admitir – mas, por ele não poder reencontrá-lo.
“Será que tem alguma coisa errada comigo...?” – refletiu a loira.
Sabia que amava Taehyun, e não era apenas como um amigo. Sentia, sim, desejos sexuais por ele... Nunca aceitara transar com ele por medo. Sua conclusão era bem simples, no momento que transassem, as coisas mudariam, fato.
E seu melhor amigo era o tipo de cara que gostava de experimentar, de flertar, de ser livre...
Sabia que ele a amava, mas, estava disposta a correr o risco de ser magoada e então perdê-lo?
Afinal, ele também amava uma aventura, se ele chegasse um dia a traí-la com eles namorando... Nunca o perdoaria.
Odiava traição. Odiava mentira.
Então, se algo desse errado... Eles nunca mais teriam um ao outro.
E ela não conseguia imaginar sua vida sem ele...
— Você vai aceitar o meu pedido de namoro agora? Ou vai usar isso como desculpa para recusar, de novo? – perguntou o rapaz, fitando-a sério.
Yura engasgou.
O que faria? Se ele encontrasse esse ômega novamente e não conseguisse resistir? Mas... Se recusasse agora... – observou a profundeza do olhar do rapaz a sua frente.
Se dissesse não, o magoaria de uma forma como nunca magoara... E... Queria aceitar...
— Eu, preciso só de mais uma bebida! – a loira ergueu a mão, chamando um garçom.
— Quem tá desviando e enrolando quem agora, senhorita Yura. – ele riu.
A garota corou de leve, só precisava de um pouco mais de coragem, não era pedir muito.
Ia argumentar até que percebeu que o ruivo ficara pálido observando o garçom.
Taehyun se virou em sua direção, e ela soube pelo seu olhar de urgência, sobre o que se tratava.
Seus olhos voltaram-se imediatamente e diretamente para o garçom.
Ele era um rapaz franzino, pálido como porcelana, seus olhos iam do violeta ao vermelho e seus cabelos eram brancos. A criatura mais linda que ela já vira na vida.
“Um albino...” – pensou completamente fascinada.
“Ah...!” – ela sorriu ao sentir o perfume que o pequeno exalava.
“Que cheiro bom!”.
~*~*~*~*~
Sangwoo chegou atrasado ao hospital – teve de colocar o presente de Bum no carro, o que piorara ainda mais a logística – recebendo um sermão de seu supervisor.
De repente, se sentiu feliz...
“Que bizarro...” – percebeu em seguida que se tratava de Bum.
O garoto parecia estar muito feliz e satisfeito. Isso era bom... Nos últimos dias sentia mais preocupação do que qualquer outra coisa vindo dele, apesar de não conseguir identificar o motivo.
Começou a atender, mas, estava tudo bastante calmo – como sempre — e não tinha muito que fazer... Até a senhora Noh entrar naquela parte do hospital.
— Você. Chegou atrasado, não? – perguntou a velha, encarando Sangwoo.
— Sim... – respondeu o alpha sem entender.
— Ótimo, vem comigo. – ela se virou, começando a andar rumo à saída.
Sangwoo ficou inicialmente em choque, contudo, achou melhor obedecer, seguindo a senhora.
— Achei que você não trabalhasse no hospital... – comentou o rapaz que só vira a senhora Noh na enfermaria alpha.
— Não trabalho. Normalmente. – resmungou a senhora, irritada: — Mas, estamos sem aula, o que significa que a enfermaria tá fechada. E diferente dos meus colegas, eu não acho apropriado ir para a minha mansão, em férias, no meio de uma epidemia de gripe. – ela fitou o garoto: — Você só tá aqui porque é bolsista e é forçado a trabalhar durante as férias, contudo, como é um alpha, eles só te deixam na ‘zona alpha’. Muito confortável para você, pouco prático para mim. – a velha continuava caminhando, já do lado de fora do prédio.
Sangwoo abriu levemente a boca. Primeiro, não sabia de ‘epidemia de gripe’ nenhuma. Segundo, que ele soubesse, não havia uma ‘zona alpha’ no hospital... Afinal, isso era ilegal, não se podia praticar esse tipo de discriminação desde que a lei...
Sua mente se calou no momento que a velha senhora alpha abriu a porta do prédio antigo do hospital. Nunca fora para aquele lado, disseram que era desnecessário e que aquela área seria desativada em breve... Que havia poucos atendimentos...
Estava lotado.
Completamente lotado.
Pessoas tossindo, vomitando, crianças chorando... Todos pareciam pobres, as crianças não aparentavam estarem apenas doentes, pareciam... Desnutridas...
Quando? Como? De onde vieram todas aquelas pessoas?
— Bem vindo a ‘zona ômega’. – disse a senhora, caminhando entre os pacientes. Quando uma das enfermeiras veio correndo em sua direção, ela fez sinal para a moça esperar um pouco: — Já vejo. Me dá cinco minutos.
Noh entrou em uma das salas e pegou alguns papéis, entregando todos a Sangwoo.
— Você irá atender estes. – ela estava prestes a sair, quando o jovem a parou.
— Atender? Sozinho? – perguntou perplexo.
— Você está vendo mais alguém aqui, moleque?
— Mas, eu não posso! Não sou formado! Não posso nem prescrever nada!
— Ah, sim! Prescreva só o que pode ser pego gratuitamente na farmácia do hospital. Tinha me esquecido de avisar... – refletiu a senhora muito séria.
— Só o que tem na farmácia do hospital...? Mas... Não tem quase nada lá...
— Pois é, boa sorte. – ela ia sair, quando foi segurada de novo.
— Não é essa a questão! Eu não posso prescrever nada! Não tenho credencial pra isso!
— Ah, certo! – ela apontou para uma das pilhas que entregara.
Sangwoo percebeu que eram diversas receitas e atestados em branco, já devidamente carimbados e assinados por ela.
—...!!! Isso é ilegal! – exclamou exasperado o alpha.
— Lutas clandestinas também, eu tô ligando? Não! Você tem excelentes notas, não errou uma prescrição até hoje, todo o médico que te supervisiona só fala elogios. Então, é o seguinte, ou você me ajuda a cuidar destas pessoas, ou eu te faço perder a bolsa. Escolhe.
— Você não pode tá falando sério...
— Pareço ser do tipo que brinca com essas coisas, pirralho?
— Não...
— Sua resposta?
Sangwoo respirou fundo: — Ok.
— Ótimo. E é melhor não fazer merda, que não quero nenhum processo nas minhas costas, agora, vai trabalhar que tenho de atender também.
O alpha ficou olhando para a pilha de papéis...
Ótimo, estava oficialmente ferrado.
Foi para a sala, ficando surpreso com as diferenças gritantes entre ela e a sala que costumava atender. Para começar, não tinha nem balança...
Sempre soube que havia discrepâncias no atendimento aos ômegas, contudo, leis recentes deveriam ter diminuído isso... Muitas delas especificavam que essas diferenças deveriam ocorrer apenas quando envolvesse o cio. Tirando isso, todos os ômegas deveriam ser tratados igualmente aos betas e alphas.
Já percebera que, pelo visto, havia um longo caminho entre as leis e a realidade...
— Ok... – começou a observar cada uma das fichas, sentando, até ouvir baterem na porta.
— Pode entrar. – disse sério.
Uma garota pequena colocou algumas coisas sobre a mesa. Luvas, álcool em gel, máscara...
— Não foi anunciado, mas, a Doutora Noh está afirmando se tratar de um surto de gripe... Então, estamos distribuindo para todos os médicos... – a garota falava baixinho.
— Certo. – Sangwoo observou aquilo: — Hm... Isso... Já deveria ter aqui, normalmente, não? – questionou incerto.
— Hm... Não nessa área do hospital... – murmurou sem graça a garota.
—... Entendi. – levantou: — Eu volto em uns dois minutos. Não deixa ninguém entrar, ok? – e saiu correndo, surpreendendo a garota.
Se ia fazer aquilo, ia fazer direito.
Foi até a sala que costumava atender, na ‘zona alpha’, e foi pegando tudo que – possivelmente – precisaria.
A balança infantil – afinal, pelo que viu nas fichas, a maioria dos pacientes eram crianças, o medidor de pressão, a tabela nutricional... Olhou para um pacote de balas que eram distribuídos aos pequenos que costumavam consultar ali... E pegou também, saindo em seguida.
De certa forma, ficara um pouco puto consigo. Como nunca notara o número ínfimo de ômegas que já havia atendido?
No caminho encontrou Seung e fez o rapaz acompanha-lo enquanto contava sua descoberta.
— Quantos anos a gente tá aqui e eu nunca notei que separavam dessa forma?
— Sangwoo, eu acho isso meio loucura, não existe isso de ‘zona ômega’ nos dias de hoje...
Sangwoo fez sinal para Seung abrir a porta do prédio – já que era impossível para ele, devido a tudo que carregava.
Seung abriu e seu rosto empalideceu. De alguma forma, suas crenças foram abaladas ao ver todas aquelas pessoas amontoadas e esperando atendimento.
— O que você dizia? – perguntou ironicamente Sangwoo.
— Reforços? – perguntou Noh, muito interessada e com um leve sorriso ao reparar tudo que o alpha carregava.
— Com certeza. – Sangwoo passou por todo mundo, indo em direção à sala e deixando Seung ser – sutilmente – ameaçado pela senhora.
Não que fosse necessário. Sabia que Seung ajudaria... Ele não estava naquele ramo por dinheiro.
“Diferente de mim...” – refletiu o alpha, ajeitando tudo rapidamente, e finalmente pegando a primeira ficha.
— Kim Eun-Young! – chamou.
Sua tarde foi agitada como há muito tempo não era. Atendeu diversas pessoas, pesou crianças, receitou medicamentos – tendo de fazer malabarismos farmacêuticos para se adequar ao que tinha na farmácia de graça. Fez tudo que podia e estava dentro de seu alcance para ajudar.
Quando chegou à última ficha, era um misto de satisfação e exaustão.
— Lee Yejin... – chamou, vendo uma mulher magra com uma criança no colo se erguer e vir em sua direção.
Ao entrarem na sala, Sangwoo notou que havia algo muito errado. A menina no colo da mulher suava e parecia febril, não seria nada novo naquela tarde lotada de crianças doentes, senão fosse o fato dela também estar liberando feromônios... Mas, não feromônios que pediam proteção, como normalmente as crianças ômegas faziam, e sim feromônios que chamavam por um parceiro...
Isso era estranho.
Era uma criança pequena, seis anos, no máximo... Não deveria... Não seria possível...
“A não ser que...”.
— Senhora Lee, posso examinar sua filha? – perguntou, apontando para a cama.
— Claro... – respondeu a mulher, colocando a menina no local indicado.
Sangwoo se aproximou... O cheiro ainda era fraco...
Passou uma espátula para coleta e análise rápida, em pouco tempo, o aparelho mostrou o índice em sua base. O número indicava uma quantia alta de feromônios para uma criança. Esperou cinco minutos e então fez o teste novamente.
A quantidade de feromônios detectada aumentara... E muito.
“Respiração ofegante, temperatura levemente alta... Merda... Isso é um cio provocado, como vou perguntar a mãe sem assustá-la...?”.
— Senhora Lee... Há algum alpha próximo a sua filha?
— Quê? – a mulher fitou a filha e então Sangwoo: -... Só o meu marido, o pai da Yejin...
“Ótimo... Você se casou com um pedófilo.” – pensou o alpha, tentando não falar o que estava em sua mente.
— Ela... Não está com gripe? – perguntou um tanto ingenuamente a mulher.
— Não. – respondeu o loiro: — Sua filha está em um cio induzido.
—... Isso não é possível...
“É possível se a estimularem fisicamente...” – refletiu o alpha.
— Senhora Lee, eu serei obrigado a interna-la. Para que ela possa ser devidamente tratada.
—... – a mulher olhou a filha, parecia um pouco aflita: — Certo... – respondeu baixinho.
Sangwoo foi até a porta, chamando uma das enfermeiras: — Não a deixe ir embora, está bem? A criança não pode sair daqui... – sussurrou discretamente.
—... Entendi. – respondeu a enfermeira fitando a mulher que conversava com a menina deitada sobre a cama.
O alpha saiu da sala, procurando a senhora Noh. A encontrou terminando um exame em uma senhora idosa e cadeirante.
— Fique bem, não se esqueça de comer de tudo um pouco. Nada de evitar os legumes, hein? – dizia Noh para a cadeirante: — E tome seus remédios nos horários que indiquei, sim?
— Eu odeio legumes Noh, você sabe disso... E, aff, são remédios demais, ninguém merece beber tudo aquilo... Mas, tá, vou fazer como mandou. Obrigada. – a senhora sorriu em agradecimento e foi embora.
— Preciso internar uma criança. – disse Sangwoo sem rodeios ao se aproximar.
—... Pneumonia? – questionou Noh, esperançosa.
— Não.
— Por favor, não me diz que é um cio, odeio a palavra ‘cio’ junto com a palavra ‘criança’...
—... Sinto muito. – respondeu o alpha, surpreso por ela ter acertado tão precisamente.
— Ah, céus... Certo. Pega a criança e me encontra na saída. – ela foi buscar o próprio casaco.
O alpha estranhou o fato de ter de encontra-la na saída, mas, foi buscar a menina. Ao chegar, deparou-se com a pequena abraçada em um ursinho, encolhida na cama. A enfermeira a observava da porta, não deixando ninguém se aproximar.
— Onde está a mãe? – questionou, olhando para os lados.
— Ela disse que ia comprar algo para beber e já voltava...
O alpha ergueu uma sobrancelha e sentiu os feromônios de outro ômega no local, observou a menina e percebeu que o cheiro vinha do ursinho.
— Não pode ser... — correu para a saída do hospital, vendo a senhora Noh, mas, não a mãe da menina: — Cacete! – esbravejou.
— Ora, ora, o aluno exemplar falando palavrão... – disse falsamente surpresa a médica.
— A mãe da menina, era uma ômega! – ele disse um tanto aflito: — Pensei que fosse beta... Não senti o cheiro dela! Devia tá camuflado pelo cheiro da menina... Droga, ela perguntou se a filha estava com gripe... Eu pensei que ela não havia notado os sinais...
— Hm. Impossível uma mãe ômega não notar que a filha tá entrando no cio...
— Ela... Fez de propósito? – ele fitou a senhora.
— Bom, ela fez uma escolha. O instinto materno ômega é muito forte, mas, algumas vezes, o vínculo fala mais alto. De qualquer forma, já tínhamos de ligar para o conselho tutelar... – ela virou-se para o loiro: — Vai logo buscar a menina, moleque! Quer que algum alpha se aproveite da sua lerdeza? Anda, anda!
Sangwoo ficou um momento em choque para logo em seguida ir pegar a menina. Não acreditava nisso... Aquela garotinha havia sido abandonada ali...
Noh tinha razão, eles iriam ligar para o conselho tutelar de qualquer forma, contudo, acreditou que a mãe poderia ficar com ela... Não passou pela sua cabeça que a mãe a deixaria ali para ficar com o marido alpha...
Pegou a pequena no colo, cobrindo-a com o próprio casaco. Saíram daquele prédio e foram para o próximo.
Noh conversava com várias pessoas, contudo, parecia a cada segundo mais irritada.
— Tá tudo lotado! – reclamou a senhora, caminhando para o próximo prédio.
— Não tem vaga pra ela? Achei que crianças fosse prioridade...
— E são! Mas, o centro ômega tá lotado, a gente vai ter que leva-la para a pediatria convencional...
— Isso não é proibido...? Nesses casos?
— Bom, a gente vai ter que interromper o cio e sedá-la, é a única solução de qualquer forma, uma criança não pode passar pelo cio...
— Achei que esse procedimento fosse restrito...
— Sim, ele é. Como o valor do sedativo que usaremos é absurdamente caro, nosso governo tenta evitar que se torne uma prática convencional, apesar de ser uma das lutas mais recorrentes dos omeganistas. Principalmente por se tratar de crianças... – ela entrou no maior dos prédios: — Espera aqui.
— Ok.
Sangwoo sentiu a pequena se mexer e se prender mais a seu peito.
— Dói... – murmurou a menina chorosa.
— Calma, vai ficar tudo bem. – era péssimo com crianças, mas, tentou passar tranquilidade a ela.
A senhora Noh não demorou muito a voltar. Foram para o andar da pediatria, onde conseguiram um quarto e, com a habilidade que os anos lhe deram, a médica medicou e sedou a criança.
A menina ficou segurando a mão de Sangwoo até adormecer.
— É estranho pensar que o ‘procedimento padrão’ para esses casos é aplicar apenas a injeção... – disse a senhora, ajeitando os aparelhos.
— Mas, a injeção interrompe o cio, não? – questionou o alpha, soltando lentamente os dedinhos pequenos da menina e lhe dando o ursinho para abraçar. Não era como se nunca tivesse estudado isso, apenas não era exatamente sua especialidade.
— Sim. Só que é muita dor para uma criança aguentar, sem contar toda a náusea e tontura. Esse sedativo, criado especificamente para esses casos infantis – já que não funciona em adultos, também evita que o cio ocorra novamente. Algo que a injeção, sozinha, não consegue. Se a criança ômega passa pelo cio completo, de três dias, ela começa a ter cio todo o mês... O mínimo que nosso governo poderia fazer era criar vergonha na cara e permitir esse tratamento, mas, para eles sempre tudo é muito complicado. Imagina o inferno da criança.
Sangwoo observou a menina adormecida.
— O que o hospital vai fazer, já que o governo não vai pagar por isso? – questionou o alpha.
— Provavelmente descontar do meu salário. Não que eu me importe. – disse com tranquilidade a velha alpha: — Já liguei para o conselho tutelar. – informou.
— Eles vão leva-la?
— Tentarão achar a mãe primeiro... Mas, provavelmente, a levarão. De qualquer forma, ela vai poder passar a noite aqui... – ela fitou o rapaz: — Já não tá na hora da sua saída, moleque?
— Quê? – Sangwoo olhou o relógio. Sim. Estava no horário. Não apenas isso, se não saísse naquele momento, chegaria atrasado para buscar Bum: — Hã, eu vou indo. – disse, se despedindo da médica e dando uma última olhada na pequena adormecida.
Voltou para o prédio antigo, onde pegou todas as coisas que utilizara e levou para a sala que atendia diariamente. Depois percebeu que sobrara diversos atestados e receitas médicas assinados, como não tinha tempo de rasgar tudo, jogou na mochila e foi para o vestiário.
Trocou de roupa, deixando o jaleco no armário e colocou o casaco, notando que ele possuía um pouco do cheiro da criança. Esperava que Bum não se importasse, de qualquer forma, poderia explicar...
Sacudiu a cabeça. Nunca achou que um dia estaria pensando em dar explicações a alguém...
“Isso ainda é estranho...” – refletiu o alpha, indo para o carro.
Antes de dirigir, ligou para o restaurante que percebera que Bum mais gostava e fez um pedido. Combinou com o atendente o horário de entrega para que já estivesse em casa quando ocorresse, após isso, foi buscar o ômega.
No caminho, apesar de tentar, não conseguia tirar a menina da cabeça.
“Ela provavelmente vai para um orfanato...” – refletiu.
Não gostava de orfanatos, havia muitos boatos sobre eles... Claro, provavelmente, a maioria era mentira, mas... Sempre acreditou que era mentira a divisão em hospitais, e hoje acabara de descobrir que era realidade.
Contudo, o que era pior, os boatos para onde ela iria, ou a realidade com o pai pedófilo? Suspirou.
Certo. Tinha que limpar a mente. Não queria levar isso pra casa...
Olhou de canto para o banco traseiro, o presente estava ali...
Será que Bum se lembrara do aniversário deles?
“Provavelmente... Não.” – refletiu.
Não que a memória do garoto fosse ruim, já era mais do que comprovado que era melhor que a do alpha para esse tipo de situação. Contudo... Ele andava tão... Distante.
Não que fosse ficar chateado pelo ômega não lembrar, não era isso... Na realidade, sempre achou uma grande babaquice esse costume que todos os namorados sempre têm – de comemorar os meses de namoro, até completar um ano... Daí só depois começar a comemorar os anos... Era algo tão... Meloso.
Nunca fora chegado em coisas melosas... Na real, tinha sorte, imagina se tivesse pedido Bum em namoro, e o garoto começasse a chama-lo de ‘amorzinho’, ‘docinho’, ‘fofinho’... Terminava o namoro.
Ok. Não terminava o namoro. Mas ficaria sem reação.
Estacionou o carro e o moreno, que aguardara na frente da creche, caminhou calmamente até o veículo, entrando.
Ficou um momento sem saber o que fazer. O vínculo lhe passava felicidade.
Todavia, não qualquer tipo de felicidade... Era algo cristalino, genuíno, e incrivelmente intenso.
Sabia que o garoto estava feliz durante o dia, sentira isso em diversos momentos, mas, nunca pensou que era tanto assim.
“Mas que porra aconteceu...?”.
Também conseguiu identificar algo a mais... Resolução.
Bum estava muito decidido e feliz. E aquilo lhe deixou... Com medo.
Podia parecer bobagem, mas, o garoto estava a dias distante, preocupado, falando monossílabos, evitando contatos íntimos e preferindo sair com sua melhor amiga a ficar com ele...
Daí do nada, ele aparecia decidido e feliz? Extremamente feliz?
Tentou não pensar no pior cenário possível e respirou fundo. Talvez ele tivesse se lembrado do aniversário?
“Alguém ficaria tão feliz por causa de um aniversário de namoro? Não... Acredito que não...? Ou sim? Aff... Não sei.”. – tentaria não pensar sobre isso no momento.
Tirou o cinto de segurança e aproximou-se do menor, fitando seus olhos. Estavam próximos o suficiente para sentirem a respiração um do outro, mas, não tanto a ponto de seus lábios se tocarem.
— Senti sua falta... – murmurou, vendo o rosto do pequeno corar suavemente.
“Ele é tão... Lindo...” – pensou, fitando então os lábios delicados.
— Também... Senti a sua... – respondeu o ômega.
Ansiedade...
Excitação...
Desejo...
Sangwoo adorava quando o vínculo lhe passava essas sensações, significava que sua investida tivera o exato efeito que queria.
Diminuiu a distância entre os dois, fazendo seus lábios tocarem os do ômega. O calor, umidade, textura e gosto que tanto amava... Estavam todos ali.
Começaram a se beijar lentamente, aos poucos o moreno abriu os lábios, um convite para a língua do alpha, que não ousou recuar.
Uma das mãos do loiro tocou gentilmente o rosto do ômega, descendo devagar para a nuca onde a segurou firmemente enquanto aprofundava o beijo.
Bum gemeu e Sangwoo se afastou.
— Tenho um presente pra você. – disse com um sorriso maroto, voltando a sentar corretamente no próprio banco, antes que não conseguisse evitar um show ao vivo para as colegas de Bum.
— Um presente? – questionou surpreso o pequeno.
“Certo. Ele esqueceu.” – confirmou mentalmente o alpha, tentando não se abalar por isso, pegando o presente e entregando ao ômega.
— Parabéns por um mês de namoro? Acho que é isso que se fala? Não tenho ideia.
Pensou que Bum ficaria, talvez, mais feliz? Se isso fosse possível... Contudo, teve um efeito bastante estranho...
Confusão...
Remorso...
Tristeza...
“Quê?” – foi a vez do alpha ficar confuso.
Por que remorso e tristeza?
Tentou sentir melhor essas sensações que vinham do pequeno...
Tristeza... Por não ter lembrado...
Bum ficara triste por não ter se lembrado da data...
Remorso... Por...
“Mas que merda Bum...” – só vinham imagens das crianças da creche.
Que bosta. Tinha alguma coisa a mais, sentia isso... Contudo, o garoto parecia fazer de tudo para evitar que soubesse.
Certo. Também havia coisas que não queria que o garoto soubesse e, portanto evitava que ficassem em sua mente, entretanto, sentir que ele lhe escondia algo era tão desconfortável.
Suspirou.
— Bum, tem alguma coisa que você queira me dizer? – perguntou com sinceridade.
O garoto o fitou, abrindo levemente a boca então fitou o presente, apertando-o: -... Desculpe... Eu, não lembrei... – murmurou sem graça.
—... Só isso? – questionou fitando os olhos do pequeno.
“Eu sei que tem algo a mais... Me fala...” – era o que queria dizer, mas, não queria forçar.
Bum hesitou por um breve segundo antes de responder: — Não. Não é só isso... Eu... – nova hesitação: — Eu ando distante... Me desculpe. – sorriu.
Receio...
Medo...
Sangwoo suspirou. Bum não mentira, contudo, havia algo estranho... Algo além... Mas, sentir medo e receio vindo dele o fez recuar.
“Por que ele está com medo de mim?” – aquilo fora... Doloroso.
— Certo. – disse num murmúrio, dirigindo para casa.
Ficaram em silêncio durante o caminho.
O silêncio deles sempre fora confortável, contudo, não era assim naquele momento. Era... Sufocante.
Sangwoo pensava nos últimos dias... Por que Bum mudara dessa forma?
“Ou talvez... Eu não o conheça bem...”.
Quando conheceu o moreno – ou melhor, quando começou a interagir com ele diariamente, se surpreendeu com o quanto ele era transparente. Mesmo sem o vínculo, não era complicado saber o que passava por sua cabeça... Às vezes, ele era um pouco confuso, mas, no geral, uma das coisas que mais gostava em Bum era o fato de conseguir entende-lo e de sua honestidade.
Agora estava... Diferente.
Sentia-se perdido e sinceramente, não tinha ideia do que fazer.
Achou que seria uma boa ideia comemorar o um mês de namoro, já que aconteceu o milagre de lembrar, contudo, agora já não sabia se fora bom...
“O que eu fiz, para ele ficar com medo de mim?” – baixou o olhar, estacionando o carro.
— Eu até pensei em a gente jantar fora, mas, admito que estou cansado... – disse abrindo a porta e saindo do veículo: — Então, encomendei algo, espero que goste. – falou com sinceridade, trancando o carro e indo abrir a casa.
Entraram e Sangwoo jogou a mochila no sofá.
— Sangwoo... Eu... – o pequeno começou a falar, fazendo o alpha fita-lo, contudo a campainha tocou.
— Acho que a comida chegou. – disse com um sorriso o loiro.
— Já? – exclamou surpreso o pequeno.
— Combinei o horário. – respondeu aumentando o sorriso: — Sou um gênio, não? – disse em tom brincalhão enquanto abria a porta.
Pagou o rapaz da entrega e foi para a mesa com todos os potes. Começou a arrumar tudo com Bum, que ficara particularmente feliz ao notar que se tratava de Nakji Bokkeum.
Sentaram-se a mesa e Sangwoo serviu a cerveja, estranhando o fato de Bum não querer beber nada.
Contudo, ao colocar o primeiro pedaço na boca, percebeu o erro.
Estava apimentado. Apimentado demais para o gosto do pequeno, provavelmente, ele odiaria. Como pudera esquecer-se de pedir sem pimenta? O ômega sempre pedia sem pimenta...
“Deveria ter pedido porções separadas...” – pensou, erguendo o rosto para se desculpar, mas, logo vendo que Bum parecia maravilhado ao comer.
— Você gostou...? – perguntou, estranhando o fato.
— Sim... Tá uma delícia. – disse com sinceridade o menor: — Eu estava morrendo de fome... – murmurou levemente corado enquanto sorria.
Aquilo...
Sangwoo colocou o talher sobre a mesa.
Mudança de paladar... Dor de cabeça... Enjoo... Sintomas...
Sintomas de algo que conhecia muito bem.
Mas, por que ele estava escondendo? Será que não sabia ainda? Não...
“Ele está feliz por causa disso, não?”.
Algo embrulhou no estômago de Sangwoo.
Desde quando Bum desconfiava que engravidara?
Sua mente logo trouxe a resposta: Depois do cio.
Sim. Agora fazia sentido. Myung-Hee...
“...Só que é muita dor para uma criança aguentar, sem contar toda a náusea e tontura...”.
A frase que Noh usara para descrever os efeitos colaterais da injeção que aplicara na menina naquela tarde ecoou por sua mente.
“Exatamente o que Bum sentiu depois do cio...”.
Riu sem achar graça. Claro. Aquela injeção não era vendida em farmácia. Precisava de prescrição médica para obtê-la e a ômega possuía a síndrome do descontrole, uma das poucas razões que gerava essa prescrição médica.
Mas, por que Bum tomaria aquela injeção?
“Ah não ser que, como ele não esperava que eu passasse o cio com ele... Não se cuidou.”.
...
“E a primeira coisa que ele fez, não foi me contar, foi chamar a amiga para tentar esconder isso de mim...”.
Levantou, indo até a mochila. Pegou duas receitas já assinadas por Noh e uma caneta.
Sentou-se à mesa.
— Você ainda está com dor de cabeça e náusea? – perguntou calmamente.
Bum percebeu que algo mudara no ar, tentou sondar o vínculo compartilhado com Sangwoo, mas, por alguma razão... Tudo pareceu um pouco nublado...
— Sim... – respondeu hesitante.
O alpha então prescreveu dois remédios diferentes: — Se não tiver esse, você também pode tomar esse. – entregou as duas receitas.
—... – Bum pegou os papéis.
— Não se esquece de verificar na internet se eu não prescrevi nenhum abortivo. Afinal, tem esse risco, não?
Bum gelou, ficando completamente pálido, olhou para Sangwoo e deparou-se com um olhar congelante.
— Eu... – não sabia o que dizer.
— Afinal, deve ser por isso que você não me contou, não é? Você ficou com medo que eu fosse fazer algo contra. – o alpha meneou sutilmente a cabeça para o lado, como se analisasse os movimentos do ômega.
Bum sentiu que o ar lhe faltava, começou a suar e suas mãos tremeram levemente. Queria dizer que não pensara isso... Mas... Não conseguia. A forma como Sangwoo o observava. Nunca... Ele nunca lhe olhara daquela maneira... Era tão... Frio.
— Como bater em você até abortar? Ou, talvez, obriga-lo a ir até o hospital tirar?
— Não... Eu não...
— Como meu pai fazia com a minha mãe, você podia não saber, mas, pelo o que me conhece, pelo visto, concluiu que eu teria uma atitude igualzinha. – aquilo era doloroso. Era aquilo que Bum pensava dele? Que era algum tipo de monstro sem responsabilidade nenhuma?
— Sangwoo, eu realmente não... – Bum se chocara um pouco. Não sabia que o pai do alpha fizera aquelas coisas... Nunca pensara que o loiro faria aquelas coisas...
— Não? – ele piscou, ironizando: — Então, por que do medo? – ele cruzou os braços: — Achou que eu fosse embora? Te deixaria sozinho com uma criança pra criar?
—... Eu... É só... – Bum baixou o olhar, não conseguia encarar o alpha.
— Ha... – o loiro riu de forma sarcástica: — Eu fui tão idiota.
Bum voltou a fitar o loiro, não sentia apenas raiva, descrença e tristeza vindas do rapaz... Mas também... Solidão...
— Sangwoo eu... – queria explicar tudo, mas, o que diria? Não podia negar que realmente pensara que talvez ele o deixasse...
— Você falou pra eu confiar em você...
O sentimento de tristeza do alpha se intensificou e Bum estremeceu. Não queria ter feito Sangwoo se sentir daquela maneira...
— Mas, pelo visto, é unilateral. – o loiro levantou, pegando o próprio casaco e caminhando em direção à porta: — Você é incapaz de confiar em mim.
— Isso não é verdade...
— Não? Estamos namorando há um mês e metade do tempo você escondeu algo que eu deveria saber, algo do nosso relacionamento... Você fez isso, simplesmente, porque não confia em mim.
— Espera! – Bum levantou: — Você não queria filhos, eu não sabia o que fazer! Eu nem sabia se realmente estava... – exclamou o ômega.
— Ah! Então, você esconde uma coisa dessas de mim, e a culpa é minha? – respondeu indignado o alpha.
— Não! Não foi o que quis dizer... É só que...
— Você não podia ter parado por um segundo e pensado que talvez eu entendesse o fato de você não ter se cuidado? Que talvez, só talvez, eu tenha assumido o risco no momento que decidi não pôr a porcaria de uma camisinha? Por que, sinceramente Bum, no primeiro dia, até vá eu não ter posto por descuido, mas, nos outros dois? Não pus porque não quis! Caralho!
Bum piscou diversas vezes.
— É claro que, como você não disse nada, eu achei que estava tudo bem! Que você tinha se cuidado, que eu não precisava pensar nessa possibilidade! E você me deixou pensar assim! – a raiva do alpha já era evidente. Era um babaca estupido por ter pensado... Por ter confiado... Por ter... Merda.
— Está me dizendo que se eu tivesse contado, você teria aceitado...? – questionou atônito o ômega.
— Eu não sei. Só sei que a gente poderia ter conversado a respeito e decidido juntos o que fazer. Mas... – o alpha sorriu ironicamente: — Você já decidiu, não é? E pela sua felicidade, provavelmente, você irá até o fim com isso.
Um silêncio incômodo voltou a pesar no ar.
Bum sentiu então a intensa rejeição que o alpha tinha a respeito daquele assunto... Era algo profundo e praticamente intragável.
— Você...
— O quê? Pensou que havia algum botão de liga e desliga em mim sobre esse assunto? – o rapaz se aproximou do menor, fazendo o mesmo recuar: — Você tem razão, eu não quero filhos. Nunca quis. Mas, não se preocupe, não sou cruel o suficiente para fazer você sentir o tempo todo o meu sentimento sobre isso... Irei dar um jeito de bloquear novamente. – ele se afastou abrindo a porta da frente: — Não vou prejudicar o seu filho.
Bum engoliu a seco: — Nosso filho... – murmurou.
— Biologicamente sim, por vontade, não. Eu nem tive chance de opinar alguma coisa sobre isso. – e saiu, batendo a porta atrás de si.
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