Destinados

16 O sutil avanço


Notas iniciais
E Destinados colocou mesmo Recomeçar no chinelo, rsrsrsrsrs... Com 14 recomendações (Obrigada lima73 e Manu Almeida, suas lindas!) e mais de 200 pessoas acompanhando (e tem muita gente comentando, muito obrigada pela consideração, eu leio todos, viu?!), essa é minha fic de maior apelo, a mais querida dos meus leitores... Obrigada gente! Vocês me inspiram cada vez mais dessa forma! E eu só queria dizer que, devo fazer algumas considerações sobre os próximos capítulos lá em baixo, preparar vocês para o que está por vir... Então boa leitura e, até daqui a pouco!

Desliguei o carro e suspirei.

Não era como se fosse uma tarefa complicada, ou mesmo arriscada, conversar com Charlie sobre o que tínhamos resolvido. Mas eu estava nervoso da mesma forma. Como um adolescente em seu primeiro pedido de namoro, em seu primeiro encontro com seu possível sogro.

Ri baixo de minha estupidez. Eu tinha plena noção do quanto o pai de Bella me tinha em suas boas graças, confiava em mim em certo nível, e me achava a melhor opção pra sua filha. Mas isso não amenizava em nada a ansiedade e o desconforto que me assaltavam naquele exato instante.

– O que é engraçado? – Bella perguntou ao meu lado.

Eu olhei pra ela, sentindo meu próprio contentamento transbordando por tê-la pra mim.

– Só estava pensando no quanto é ridículo eu estar nervoso... – murmurei.

Obviamente ela sabia como eu me sentia, mas as razões por trás da emoção ainda eram um mistério pra ela.

– E por que você está nervoso, Jasper?

Eu suspirei.

– Porque vou pedir permissão a seu pai pra namorar você... E eu nunca fiz isso antes... – “Não que eu me lembre”, completei em pensamento, considerando que com Isabell eu provavelmente teria feito.

Bella riu contidamente, e segurou minha mão com força.

– Ele te adora... Se meu pai não fosse tão reservado eu apostaria que compraria fogos de artifício pra soltar em comemoração, assim que você deixasse a casa... – ela riu baixinho com o pensamento.

Eu sorri, aninhando a sensação gelada em meu estômago com satisfação. Eu não poderia estar mais feliz em estar nervoso... Eu estava prestes a oficializar meu relacionamento com Bella, mesmo que apenas verbalmente.

– Se eu estou assim agora, imagina como vou ficar quando for pedir sua mão...

Bella arfou.

Ela já sabia que eu pretendia ir até o fim, eu tinha deixado isso muito óbvio... E até esperava que ela ficasse um pouco nervosa por eu estar mencionando isso tão abertamente pela primeira vez, mas... Eu nunca cogitaria que ela fosse sentir medo quando eu tocasse no assunto.

Minha reação foi imediata. E eu não tinha como conter, muito menos esconder.

Arquejei baixo e vinquei a testa, antes de desviar meu olhar do rosto assustado de Bella e engolir a decepção.

– Você está tirando conclusões precipitadas de novo... – ela resmungou – Porque não confia no que eu sinto?

Eu não tive coragem de encara-la, então mantive meu olhar no pára-brisa quando falei, forçando o tom a se manter o mais linear possível.

– Eu acho que não é positivo uma garota sentir medo quando o namorado deixa claro que pretende casar com ela... – minha voz era estável, mas eu sabia que minha tristeza estava lá, exposta, em cada letra – Quando Edward fez o pedido, você se sentiu assim também?

Senti as mãos de Bella em meu rosto, e seu esforço para vira-lo para ela, mas eu não queria que ela enxergasse a dor em meus olhos, já era bem complicado saber que ela podia senti-la sem restrições, então me mantive firme.

Ela não se deixou abater, e logo estava em meu colo, espremida entre o volante e meu corpo, o rosto quase furioso a centímetros do meu, as mãos empunhando a gola de meu casaco.

– Você não entende... – seu tom era duro – Não, eu não senti medo quando Edward me pediu em casamento. Por um motivo bem simples... – eu foquei minha atenção nos olhos e nas emoções dela – Edward é tão inexperiente quanto eu, e, pra falar bem a verdade, eu já não sentia mais insegurança em relação à ele. Não por minha autoestima estar firme, mas... Por simplesmente não me importar tanto assim se eu atenderia ou não às expectativas dele. – Ela suspirou, e sua irritação quase a fazia brilhar de tanta energia que estava despendendo – Eu tenho medo de não ser suficiente pra você... – ela sussurrou em meu rosto, como se fosse um segredo terrível – Tenho medo de não estar à sua altura, você... Você foi casado com a Alice! – ela arfou o nome – E tem mais experiência do que eu jamais vou ter, será que você não consegue enxergar que isso me deixa... Aterrorizada?

Eu olhei fundo nos olhos dela e compreendi as razões. Sim, fazia sentido. Eu entendia sua insegurança, e sabia que não precisava estar magoado com sua reação, mas não era algo que eu podia evitar. A conexão com Bella me deixava emocional e vulnerável demais, chegava a ser irritante o quanto eu estava frágil.

Respirei fundo e segurei o rosto dela em minhas mãos.

– Bella, eu posso ter sido casado com a Alice, mas eu nunca senti por ela nem um milésimo do que sinto por você... – falei com segurança – Sim, ela é uma pessoa incrível e eu fui muito feliz ao lado dela, nunca vou dizer o contrário, e eu a amei sim, fui apaixonado por ela, mas... – fechei meus olhos sentindo a emoção me cobrir – Você me faz sentir completo... Só de estar no mesmo ambiente que você... Você não precisa de muito mais que direcionar um olhar ou um sorriso pra mim, pra me satisfazer...

Ela estalou os lábios em incredulidade.

– Jasper, por favor... – o tom repreensivo – Eu sei que você me ama, e até sei o quanto, mas sei também o quanto você me deseja de... Outra forma... – ela corou e eu não tive como conter meu constrangimento pela constatação – Eu não sou mais uma criança, e eu entendo bem que você tem... Anseios... Como qualquer homem... – ela deu de ombros ainda mais vermelha e eu queria rir, pela graciosidade de seu embaraçamento, mas me contive para não magoa-la – E eu não... – ela engasgou – Eu nunca... Eu não...

Resolvi interrompe-la, para que ela não se sentisse ainda mais envergonhada.

– Eu sei... – murmurei.

Eu havia entendido o que ela queria dizer, e essa informação eu já tinha. De fato o alívio me tomou, ainda que eu nunca tivesse cogitado a possibilidade de Bella não ser mais virgem. Não que fosse fazer diferença se ela não fosse, mas... Saber que eu seria, possivelmente, o primeiro homem a tocar nela, me rendia um certo júbilo.

Ela me encarou com um misto de constrangimento e choque.

– Eu deduzi, na verdade... – me apressei a justificar minha afirmação – Olha, Bella, isso não tem importância... Eu amo você, inocência, inexperiência e tudo mais... Ter você comigo me basta, não importa se vou ter de esperar pra que tenhamos um envolvimento físico. Tudo que eu preciso pra me sentir feliz é você. Só você. Sua presença, seu amor. Óbvio que eu te desejo, e não é somente porque sou homem. – neguei com a cabeça – Mas eu nunca vou pressionar você, eu nunca vou querer fazer algo que você não queira.

– Eu sei disso, Jazz, mas... – ela olhou para meu queixo, não conseguindo sustentar meu olhar – O que eu quero dizer é que... Talvez eu não... Consiga fazer você... Talvez eu não... Seja... – Ela fechou os olhos expirando e negando com a cabeça.

– Bella, eu tenho certeza de que, quando acontecer, você vai ser completamente capaz de me deixar muito além de satisfeito... – assegurei ela, compreendendo bem seu receio – Porque não vamos compartilhar apenas emoções superficiais... Existe algo muito mais profundo entre nós dois e só isso já é significativo o suficiente pra transformar qualquer experiência que compartilhamos em algo incrível... – eu aproximei meu rosto do dela – Eu posso afirmar isso com toda segurança, porquê... – deixei um selinho em seus lábios e ela começou a arfar baixo – Beijar você já é indescritível... – outro selinho – Nossos beijos são completamente diferentes de todos que eu já provei... E me satisfazem muito... – mais um – Eu nunca os trocaria por outros... Nunca...

Ela ofereceu sutilmente seu lábio inferior pra mim, e eu o capturei entre os meus enquanto fechávamos nossos olhos.

Segurei sua cabeça pela nuca, inclinando seu rosto para que nossas bocas se encaixassem melhor, e deslizei a língua devagar até encontrar a dela. Os formigamentos tomaram conta de minha pele pétrea, como que para comprovar minhas afirmações, e Bella já estava arquejando antes mesmo que o beijo se aprofundasse naturalmente.

Suas mãos estavam trêmulas em meus cabelos, mas ela os puxava com força, me fazendo entender que ela me queria ainda mais perto.

O calor dentro da cabine da pick-up era quase sufocante, mas eu não poderia estar me sentindo mais satisfeito.

Nossos lábios se buscavam lentamente, a língua dela acariciando e se enroscando na minha, numa provocação insana...

Eu estava totalmente ciente da excitação se elevando nela, como eu sabia que ela estava registrando a minha, não somente por minhas emoções, mas pelos sinais em meu corpo, que eu não poderia disfarçar já que ela estava sentada em meu colo... Mas não havia pressa... Não havia desespero, não havia malícia... Apenas essa troca sutil, quase doce, esse intricamento entre as sensações que incitávamos um no outro, que já era o bastante... Ao menos por enquanto.

Não consegui me concentrar nas elipses ou em seus movimentos intrigantes. A energia que ligava nós dois naquele momento era tão potente que me cerceava de certa forma, e tudo que eu podia absorver era Bella, seu sentimento, seu calor, seu perfume...

Eu mordi, repetidamente e com cuidado, o lábio superior de Bella, deixando que a ponta de minha língua trouxesse a carne macia para minha boca, e suguei suavemente.

O gemido baixo e contido dela foi recompensado por um grunhido espontâneo de minha parte, e então Bella encaixou nossas bocas com uma quase fúria, explorando o interior da minha com ansiedade. Meus pensamentos ameaçaram se tornar incoerentes, e eu entendi que era hora de parar.

Permiti que minha língua afagasse a de Bella uma última vez, deslizando-a em seus lábios antes de prende-los entre os meus por um instante. Afastei o rosto dela com lentidão, fitando o abrir de seus olhos preciosos, sendo envolvido pelo amor tão verdadeiro que ela emitia pra mim.

– Entende agora do que eu estou falando? – perguntei arfando.

Ela apenas assentiu, tentando regular sua respiração.

Sua mão correu até a minha, que ainda segurava sua nuca, e ela a puxou devagar, até que estivesse na altura de seu coração.

– Eu sei que pode ouvi-lo... – ela arquejou – E sentir o que ele diz pra você... Mas quero que sinta... – e pressionou minha mão para que o contato fosse maior – Como ele quer sair de meu peito pra bater aqui... – ela pousou a mão livre no lugar onde meu coração, há muito tempo, havia batido pela última vez – Por você... Pra você...

Eu sorri, não poderia ter feito outra coisa... Eu me sentia extasiado cada vez que ela se declarava pra mim.

– Eu te amo, Bella... – disse com intensidade, num sussurro.

– Eu também amo você, Jasper... – ela devolveu com as sobrancelhas unidas – Mais do que consideraria que fosse capaz...

E eu entendi perfeitamente ao que ela se referia...

Ficamos quase um minuto inteiro em silêncio, nos olhando, perdidos no que estávamos sentindo, e eu queria nunca ter de quebrar aquele momento tão perfeito. Mas o som da viatura de Charlie se aproximando da casa me despertou, e eu suspirei.

– Charlie está virando a esquina... – comuniquei sem quebrar a conexão, e Bella suspirou também.

Ela voltou ao próprio assento e passou as mãos pelo cabelo antes de respirar fundo. Eu expirei, novamente nervoso, e sai do carro, me dirigindo à porta dela.

Quando Bella desceu seu pai já estacionava ao lado da pick-up, um sorriso largo no rosto, satisfação pungente vibrando dele pra mim.

– Jasper, filho! – ele falou alto, fechando a porta da viatura – É bom ver você novamente!

Eu me sentiria sempre maravilhado com a afeição fácil de Charlie em relação à mim, eu não tinha certeza do que havia feito para merecê-la, mas era muito grato por ela.

– Charlie. – repliquei com um sorriso inevitável nos lábios – É bom estar aqui outra vez.

– Veio só trazer a Bella, ou tem um tempinho para jogar conversa fora com o velho aqui?

Nós três rimos, e eu me sentia tão confortável...

– Na verdade eu vim te ver, Charlie. – ele arqueou as sobrancelhas emanando curiosidade – Preciso conversar com você. É importante.

Os olhos dele focaram muito rapidamente a mão de Bella na minha, e o sorriso que esticava suas bochechas se alargou ainda mais, evidenciando as rugas nos cantos de seus olhos, o deixando com o ar ainda mais paterno.

–Hummm... Vamos entrar então... – Falou com contentamento evidente, já caminhando para dentro da casa.

Bella sorriu e piscou pra mim enquanto o seguíamos, e eu sabia que internamente ela pensava “eu te disse...” com uma ponta de arrogância. Eu ri baixo.

– Bells, porque não pega uma cerveja pro seu velho pai enquanto eu e o Jasper aqui temos uma conversa de homem pra homem? – Charlie foi falando enquanto se direcionava à sala, eu em seu encalço.

– Claro, pai... – ela murmurou com um tom divertido, se afastando.

Nós nos sentamos no sofá, lado a lado, e eu comecei a retorcer minhas mãos num gesto humano demais pra um vampiro.

– Não precisa ficar nervoso, filho... – Charlie disse numa risada contida – Eu já sei sobre o que é a conversa, mas sei também que precisa falar, e eu confesso que gostaria de ouvir...

Eu ri um riso mais que nervoso, apesar de baixo, e meu olhar oscilou entre minhas mãos e a expressão amena dele.

– Eu... – tentei – Eu e a Bella... – suspirei. Porque diabos eu estava tão tenso? – Nós nos acertamos... – dei de ombros, ainda sem olhar para meu, então, sogro – Ela já conversou com Edward e eles terminaram... E eu a pedi em namoro e... – o olhei com hesitação – Sei que parece rápido demais, sei que, talvez, nós tenhamos atropelado um pouco as coisas, mas... Eu amo sua filha, Charlie, amo demais, e ela... – expirei – Ela finalmente enxergou que sente o mesmo por mim e nós... Nós não queríamos... Esperar e...

Ele me olhava com o ar divertido, o sorriso colado em seus lábios, os olhos demonstrando sua satisfação.

Respirei fundo me sentindo desajeitado e idiota.

– Eu queria saber se você concorda com isso, se nos dá sua permissão... Se me dá permissão pra namorar sua filha, eu juro que tenho as melhores intenções, não quero apenas um relacionamento banal, eu... – não pude conter o jorro de palavras causado pelo súbito e incoerente receio de que ele negasse – Eu tenho planos, não pra agora, claro, mas... Eu tenho e... E... Eu prometo que vou seguir todas as suas regras e... Vou respeitar a Bella, e suas determinações, de horário, de dias... Eu... Eu...

Charlie segurou meu antebraço, o que me fez cortar o fluxo descontrolado de afirmações, por medo de que ele notasse a textura e temperatura anormal de minha pele.

– Nossa, filho, você está gelado! – ele murmurou surpreso, e eu retesei – Não precisa ficar tão nervoso, veja... – ele me olhou com calma, e eu aceitei que ele concluiu equivocadamente, para minha sorte, que aquilo era apenas uma reação à tensão – Eu já sabia que você tinha intenções, eu falei isso pra você ontem, lembra? – eu assenti – E sei que você ama minha filha, isto está óbvio pra mim desde que te vi aqui a primeira vez. É realmente um pouco rápido demais, mas... Eu não poderia tentar afastar vocês dois quando me agrado tanto disso... E vocês são jovens, eu entendo essa ansiedade em realizar logo o que sentem, eu também fui jovem um dia... – ele riu, e eu o acompanhei com certa estranheza – É claro que lhe dou minha permissão, apesar de que eu tenho certeza de que, se eu não desse, ainda assim vocês estariam juntos. – ele piscou – Estou muito feliz, filho. De verdade.

Eu expirei e sorri um sorriso incerto, e Charlie apertou os olhos antes de rir alto com minha expressão.

– Desse jeito você vai ter um ataque cardíaco quando vier pedi-la em casamento... – ele murmurou num tom brincalhão.

Eu apenas assenti, rindo baixo. Se aquilo fosse realmente possível, se eu fosse humano, era mesmo bem capaz... Sorte minha que eu era imortal...

*

O dia seguinte amanheceu promissor.

O primeiro dia do final de semana começou com o céu limpo e o sol brilhando timidamente, tornando a aura sempre melancólica de Forks um pouco mais alegre.

Bella estava de folga, e nós tínhamos planejado passar o dia juntos em Seattle, fazer coisas comuns a casais de namorados, que era o que éramos agora.

O pensamento me fez sorrir enquanto eu calçava minhas botas, uma ansiedade desmedida pulsando em mim quando recordei o beijo que eu e Bella trocamos na noite anterior ao nos despedirmos.

– Você poderia ter a gentileza de conter suas lembranças? – a voz de Edward me alcançou, baixa, mas hostil, vinda do andar de baixo.

Eu expirei em desagrado. Irritado pela interrupção e por sua leve agressividade. Contive as palavras de repreensão que subiram por minha garganta, eu entendia a dor que ele estava sentindo, eu podia experimentar o teor de suas emoções mesmo sem tentar, e sabia o quanto ele estava ferido. Não era necessário espezinha-lo.

– Me desculpe. – murmurei tentando deixar a irritação à margem – Foi sem querer...

Ele estalou os lábios e bateu a porta de seu quarto com mais força do que o necessário, como se isso fosse impedi-lo de ouvir o que ia em minha mente.

Eu até estava me esforçando pra não deixa-lo acessar minha cabeça, mas a felicidade que me dominava estava me distraindo e me deixando até um pouco entorpecido, como se eu estivesse um tanto bêbado com a intensidade da sensação.

Constatar isso me fez rir, e em consequência Edward grunhiu alto no cômodo dele.

Era melhor eu me apressar...

Desci num segundo, encontrando Alice lendo uma revista de moda na sala, tranquila. Ela me olhou quando eu hesitei próximo da porta, fitando-a com certo remorso.

– Seu dia vai ser muito especial... – ela sorriu – E eu vou adorar o presente...

Num átimo estava na frente dela, a erguendo do sofá e a abraçando com carinho.

– Obrigado, Allie... – sussurrei em seu pescoço esguio – Eu não tenho certeza se teria conseguido sem sua ajuda...

Ela se afastou e me olhou contente. Suas emoções eram brandas e me certificaram de que ela realmente estava bem.

– Eu só quero que vocês dois sejam felizes... – ela murmurou, e meu coração morto se contorceu em culpa – Eu amo vocês.

Eu podia identificar a natureza pura do que ela sentia, mas também reconhecia a nuance de paixão que permeava o que era direcionado a mim, e isso me fazia triste inevitavelmente. Eu teria dito algo em referência, mas Alice, talvez prevendo minha atitude, ou simplesmente me conhecendo o suficiente para imaginar o que eu faria, se afastou com graça de meus braços e segurou meu ombro.

– Vá buscar Bella. – demandou com doçura, empurrando meu ombro – E não se atreva a se preocupar comigo.

Eu assenti, tentando espelhar seu sorriso, mas não tive sucesso.

Alice se sentou no sofá novamente, me ignorando com um ar determinado, e retomou a leitura. Eu corri até meu carro e segui para a casa de Bella, forçando a mágoa a retroceder.

Quando cheguei tive uma surpresa muito mais que desagradável...

Eu não precisava conhecer aquele Rabbit vermelho para entender que haviam dois lobos dentro da casa. O odor era potente e irritava meu olfato de uma maneira veemente, me dando a certeza de que logo eu estaria na frente de alguns Quileutes.

Sai do carro contendo a fúria instintiva, incitada pela inimizade tão arraigada. Respirei fundo, me arrependendo em seguida quando o cheiro ardeu em minhas narinas, e caminhei devagar até a porta.

Eu podia ouvir Charlie conversando animadamente com um deles, uma voz de trovão argumentando sobre o baseball que passava na TV. O outro falava com Bella, a voz de mesma natureza da primeira, um pouco mais jovem, me levando a deduzir que era Jacob Black, amigo dela, quem fazia companhia a ela na cozinha.

“Diferente como?” Ele perguntou quando subi o primeiro degrau da varanda.

“Diferente, Jake... Eu vou te apresentar ele, não se preocupe. Mas não seja rude. Jasper não é como Edward...”

O lobo bufou alto, e eu soube que havia identificado meu cheiro quando resmungou por baixo de sua respiração.

“Mais cedo do que eu esperava, sangue-suga...”

Eu sabia que Bella não teria ouvido, e que ele havia proferido a frase intencionalmente para que eu escutasse. Nada mais educado que responder.

– Cedo demais, vira-lata... – murmurei antes de bater suavemente na porta.

Bella deveria estar distraída para não ter sentido antes minha presença, como era comum. Mas sua expiração aliviada e o contentamento que se projetou até mim me confirmaram que ela estava tão ansiosa quanto eu por nosso encontro.

Ouvi sua corrida desajeitada até a porta, me provocando um sorriso, e suspirei aliviado assim que seu rosto delicado demonstrou a mesma emoção ao me ver em sua frente.

– Oi... – ela balbuciou antes de envolver meu pescoço com seus braços mornos.

– Oi... – eu devolvi me inclinando para ela e selando nossos lábios num beijo suave e breve – Senti sua falta...

Ela sorriu mais pronunciadamente, e escondeu o rosto em meu ombro antes de murmurar.

– Eu também senti a sua...

– Jasper? – a voz de Charlie trovejou da sala – Entra filho! Quero apresentar você ao Billy!

Eu e Bella trocamos um olhar cúmplice, e eu percebi que ela estava hesitante. Caminhamos de mãos dadas até o cômodo, e eu me concentrei no homem de porte truculento que me olhava avaliativamente sentado a uma cadeira de rodas, notando por minha visão periférica o olhar fuzilante do rapaz que se encostou no arco de acesso ao corredor. O lobo jovem vibrava mais ciúme e inveja do que Edward quando compreendeu o que havia entre eu e Bella, e então a suspeita, que nasceu em mim quando ela comentou sobre a antipatia dele por meu irmão, estava confirmada. Ele era apaixonado por minha garota.

E quem não é? Me perguntei ironicamente.

Charlie veio para o meu lado e deu um tapinha em minhas costas.

– Esse é o Billy Black, ele é meu melhor amigo, é como família. – falou com o tom animado – Billy esse é o namorado da Bella, Jasper.

– Outro Cullen? – o quileute falou com desdém, e Charlie retesou ao meu lado.

– Billy... – repreendeu. Constrangimento crepitando dele.

– É sim, outro Cullen. – Bella respondeu num tom seco, e eu a encarei com surpresa – Ele é irmão do meu ex-namorado, ex-noivo, inclusive. Meu Ex-cunhado. E eu agradeço a sutileza, Billy.

O índio teve a graça de parecer envergonhado, mas eu reconhecia seu desprezo silencioso, não só em seu olhar, mas em suas emoções.

– Me perdoe, rapaz. – Pediu sem qualquer sinceridade – Não quis ser rude, só estou... Surpreso.

– Como todos estamos. – o rapaz se pronunciou ao meu lado e eu finalmente me dei o trabalho de encara-lo.

– Esse é o Jacob. – Bella murmurou pra mim, e o tal Jacob caminhou em minha direção com a mão estendida.

Obviamente eu estranhei sua reação cordial, mas não iria declina-la. Nós trocamos um aperto de mão brusco e firme demais, e eu sorri enviesado pra ele, por sua tentativa inútil de me intimidar.

– É um prazer conhecer o tão comentado Jasper... – Jacob praticamente sibilou com ironia contida, e a tensão compartilhada por Charlie e Bella estava quase me fazendo arquejar.

– O prazer é todo meu em conhecer o amiguinho de infância da Bella. – devolvi com o tom suave, e os olhos dele estreitaram, sua hostilidade transbordando pela expressão imediatamente dura.

– Bom, não vamos segurar os pombinhos... – Charlie interveio, provavelmente notando o quanto o clima tinha pesado – Não tinham um passeio programado? – ele perguntou a mim, se colocando entre eu e o índio mais jovem.

– Sim, tem razão pai. – Bella pressionou os dedos em minha mão – Estamos atrasados, Jazz...

Eu olhei pra ela e a ternura que ela direcionava pra mim me cobriu, afastando instantaneamente o antagonismo que queria me engolir.

– Vamos. – eu murmurei com o olhar perdido no dela – Eu a trarei antes das onze, Charlie. – falei me virando pra ele.

– Não se preocupe com isso, filho. – ele disse num sorriso – Confio em você.

Um dos lobos na sala pigarreou, mas eu não me importei em identificar quem. Eu e Bella saímos sem voltar nossos olhares a eles, e logo estávamos no meu Vanquish, em direção à Seattle.

– Me desculpe por aquilo... – ela falou quietamente muitos minutos de silêncio depois – O Billy tem uma aversão inexplicável à sua família... E o Jake... Bem... Ele sempre foi rude com o Edward, então, eu não esperava que fosse diferente com você.

– Ele é apaixonado por você. – comentei sem me afetar.

Bella suspirou e eu percebi a sensação de desconforto que a constatação incitou nela.

– Eu sei... – murmurou incomodada – Mas eu já deixei claro que somos só amigos tantas vezes... Não entendo porque ele não consegue simplesmente aceitar isso...

Eu virei meu rosto pra ela rapidamente, para que ela reconhecesse meu olhar de obviedade antes de ouvir o que eu tinha pra dizer.

– Bella, você é nada superável... – minha voz beirou o riso – Quando você penetra na pele de alguém... – dei de ombros – É terminante. Definitivo. Edward e eu somos exemplos indiscutíveis disso.

Senti sua vergonha antes mesmo do calor de sua pele corando me alcançar.

– Isso é bobagem... – ela resmungou.

– Bobagem ou não, é a mais pura verdade e você tem de aprender a lidar com isso... – o sorriso se espalhou em meu rosto, e meu ânimo finalmente estabilizou – Você é uma pequena feiticeira... – sussurrei em tom de brincadeira.

Talvez para dissipar o constrangimento, ela acabou por se deixar distrair.

– Eu enfeiticei você...? – seu tom foi divertido, mas ainda hesitante.

– E não? – questionei numa risada alta – A diferença entre eu e os outros “candidatos” – eu enfatizei a palavra e ela sorriu – É que eu te enfeiticei de volta...

Direcionei um olhar sugestivo a ela, arqueando minhas sobrancelhas. Ela riu, e o clima se tornou leve como eu queria.

– É verdade... – ela murmurou, e então sua mão estava em minha perna, e ela pressionou um pouco antes de completar a frase com o tom deliberadamente sensual – Major...

Eu arfei uma risada, nem tentando suprimir a reação, espantado com sua ousadia e confiança em ocasiões como aquela. Bella gostava de se sentir no controle, ao menos quando esse controle era sobre mim, e isso me surpreendia tanto quanto me agradava.

– Você é uma monstrinha, sabia? – brinquei.

Ela deve ter entendido que o reconhecimento que projetei era em relação ao poder que ela tinha sobre mim, porque ela estava se sentindo quase arrogante de repente.

– O todo poderoso Jasper, manipulador de emoções, senhor da guerra, estaria admitindo que eu o subjugo? – ela indagou jocosamente.

Eu assenti, incapaz de contradizer a verdade mais que evidente, enquanto expirava.

– Eu já te disse isso... – murmurei sorrindo, olhando pra ela com um pouco mais de intensidade – Você me tem em suas pequeninas mãos. – seu olhar se tornou sério e profundo, e ela vibrou um senso de comprometimento fortíssimo, como no dia anterior quando disse aquilo pela primeira vez – Cuidado pra não me esmagar entre seus dedos... Só você tem tal poder.

Nós mantivemos os olhares conectados, apesar de eu estar ainda muito atento à estrada.

– Eu nunca mais vou te ferir, Jasper... – ela reafirmou no mesmo tom de promessa e eu senti meu peito aquecido, me senti seguro... Muito seguro.

– Eu sei disso... – afirmei tranquilo.

– Olhe pra estrada. – ela mandou sem alterar o tom ou a expressão graves – Sei que tem reflexos perfeitos mas eu ainda me sinto um pouco tensa quando faz isso.

Eu fiz como ela exigiu, sorrindo.

– Eu te amo, garota... – deixei escapar num riso breve, enquanto negava com a cabeça.

Eu era um verdadeiro submisso com ela... Atendia de boa vontade todos os seus desejos e demandas, sem nem pensar duas vezes...

Jasper Whitlock, o mais jovem major do Texas em vida, um vampiro temido mesmo depois de décadas longe das guerras do sul, curvado sob o poder de uma garota humana, capaz de dar a própria existência pela dela com um sorriso no rosto...

Eu estava manso!

O pensamento me fez rir outra vez, e eu imaginei o que Peter estaria dizendo se me visse naquele instante... Com toda certeza meu melhor amigo, que eu não via há tanto tempo, estaria caçoando de mim, se divertindo às minhas custas.

Pude identificar a confusão de Bella à minha atitude, mas não expliquei. Eu já estava à mercê dela demais... Um pouco de reserva não me faria mal.

Bom, não era como se eu estivesse reclamando. Feliz era um eufemismo para meu atual estado. E nosso dia estava apenas começando...

Notas finais
Bom, os próximos, digamos três caps serão assim, doces, calmos, retratando a felicidade de nosso casal enquanto eles aprofundam a conexão e amadurecem o relacionamento... mas não se acomodem nem se acostumem... Logo logo o céu ficará escuro com nuvens de tempestade, e muitos problemas surgirão. Aproveitem a mansidão e o romance... Eles estão com os dias contados... Beijos e até a próxima!