Destinados
17 EXTRA I - Medalha
Notas iniciais
Maio de 1862
Ele estava lá, sentado em baixo do pinheiro com as pernas cruzadas e o corpo inclinado para frente, arrancando, distraído, a grama ao redor de seus pés, como em todos os finais de tarde. Um de seus cachos largos caía por sobre sua têmpora esquerda, capturando a luz forte do sol que se infiltrava por um ou outro arbusto, intensificando o brilho dourado do cabelo de anjo dele.
Eu suspirei, sentindo meu coração acelerar.
Nos conhecíamos a vida toda, mas há apenas sete meses tínhamos realmente nos descoberto... E pensar que passamos grande parte de nossa infância e adolescência nos estranhando...
Agora eu mal podia esperar por aquela hora do dia, quando nós nos sentávamos juntos em baixo daquela árvore para aquietar nossa ansiedade...
Collin sacudiu a mecha de seu rosto num movimento charmoso que me fez suspirar mais uma vez, e então percebeu minha aproximação lenta. Seus olhos tão verdes focalizaram meu rosto com intensidade, e eu o notei suspirar também, antes que seus lábios se esticassem num sorriso perfeito.
Meus pés agiram por conta própria, acelerando meus passos, enquanto meu primo, melhor amigo, e namorado, se levantava e abria os braços pra mim.
Nossas risadas se misturaram quando eu me encaixei em seu corpo forte, e minha respiração se tornou mais rápida assim que ele me circulou com seus braços. Movi minha cabeça e elevei meu queixo, para poder olhar no rosto perfeito do homem de minha vida.
– Você demorou hoje, Isa... – ele murmurou com o olhar fixado em meus lábios – Eu já estava pensando em ir te buscar na mercearia.
Eu contive um arquejo.
– Sabe que não pode fazer isso, Collin. Se meu pai descobrir sobre nós dois...
– O que acha que ele vai fazer? Me matar? – ele debochou com seu sorriso enviesado – Nossas mães já sabem, e elas aprovam. Duvido que permitam que o tio Damian interfira.
– Você sabe como meu pai é ciumento comigo... – justifiquei – Eu sou a única filha, e ainda não fiz dezessete. Além disso, o Stephan tem essa rivalidade idiota com você, e o papai o idolatra. Meu irmão vai colocar lenha na fogueira e meu pai vai me queimar viva... Depois de te matar com a espingarda da bisa Johana...
– Isa, porque você é tão dramática? – Collin perguntou num tom de riso – Nós somos parentes...
– Distantes. – eu enfatizei – Sua bisavó era irmã da minha. Sua mãe e meu pai são primos de segundo grau...
– Fomos criados acreditando que fazemos parte da mesma família... Mamãe tem o tio Damian como um irmão, e ele a trata como tal. Tenho certeza de que vai ser favorável a nosso namoro... – ele afirmou com seu otimismo característico – E se não for... – deu de ombros – Não importa. Eu e você vamos ficar juntos, Isa. Nós fomos destinados um ao outro antes de nascermos, você não percebe isso?
Seu olhar tinha esse brilho apaixonado que sempre fazia meus joelhos amolecerem, e tudo que fui capaz de fazer em reação à sua declaração intensa foi assentir fracamente.
– Você foi feita pra mim, Isa... – ele balbuciou inclinando o rosto perfeito em direção ao meu – Eu amo você...
– Eu também amo você, Collin... – disse num suspiro.
E então ele roçou meus lábios com os dele, muito suavemente, assim que eu fechei meus olhos.
Minhas mãos se embrenharam pelos cachos macios de seus cabelos, e ele me apertou contra o próprio corpo com certa força, fazendo com que um gemido constrangedor escapasse por minha garganta.
Eu me sentia tonta e desorientada. Era assim que eu sempre me sentia quando Collin me beijava daquele jeito... Seus lábios eram delicados nos meus, sua língua arriscava um pouco, ainda que contidamente, mas seu corpo provocava em mim sensações angustiantes, quase desesperadoras, e meu coração ficava a beira de um ataque com todo o calor que me consumia.
Mas eu estava tranquila... Meu namorado não ultrapassaria limites, ao menos não os que eu não quisesse ou permitisse que ele ultrapassasse... Collin podia ser um tanto bruto, rude mesmo, mas comigo se mostrava sempre gentil, cuidadoso, respeitoso... Tanto que até dois meses atrás ele ainda me pedia permissão para me beijar... Foi somente quando afirmei a ele que não era necessário agir tão defensivamente, que ele passou a ser um pouco mais impulsivo quanto ao nosso contato.
O beijo foi quebrado com cuidado por ele, que encostou a testa na minha.
– Como eu posso estar com tanta saudade assim? – ele sussurrou, parecendo estar falando consigo mesmo – Nós nos vimos hoje de manhã...
Segurei seu rosto em minha mãos e ele fitou meus olhos com ternura.
– Eu também sinto sua falta o tempo todo, Collin...
Ele sorriu e me abraçou, suspirando em meu cabelo antes de nos afastar e me puxar para sentar com ele em baixo da árvore. Se encostou no tronco e me puxou para frente de seu corpo, me encaixando entre suas pernas e me aninhando em seu peito, dentro do círculo de seus braços.
Ficamos em silêncio por alguns minutos, sentindo a satisfação por nossa proximidade, pelo momento que era só nosso, no lugar que abrigava nosso amor desde que o descobrimos...
– A equipe de alistamento está para chegar essa semana na vila... – ele falou num tom que eu percebi ser forçadamente indiferente.
Respirei fundo e me virei em seus braços, o olhando com cautela.
– Você vai mesmo se juntar ao exército confederado? – indaguei sem conseguir esconder meu desagrado.
– Eu sempre quis isso, Isa... Você sabe.
– Mas nós dois... – suspirei – Collin, se você for para a guerra, nós dois...
– Shhhh. – ele me interrompeu, pousando dois dedos sobre meus lábios – Se eu for para a guerra eu vou lutar e ajudar nosso estado a vencer. E quando eu voltar, terei privilégios que apenas militares tem, e vou poder te dar uma vida confortável, e segura...
– Eu gosto da minha vida. – retruquei – Tenho tudo que preciso, não quero arriscar perder você por uma possibilidade de me tornar uma madame...
Ele riu alto e se moveu, para se posicionar ao lado do meu corpo, possibilitando que nos olhássemos de frente.
– Você nunca seria uma madame, Isabell Bartley... Você não é fútil nem superficial como as mulheres da cidade. Mas eu quero te dar o mundo, o que de melhor ele pode oferecer, e para isso eu preciso sair daqui. Nunca vou fazer dinheiro plantando e colhendo algodão...
– Porque você faz tão pouco caso de sua herança? Seu pai ficaria decepcionado se te ouvisse falar essas coisas...
– Eu já conversei com ele, Isa, e ele concordou. – eu o olhei com espanto – Meu pai quer uma vida melhor pra mim e meus irmãos, e ele sabe que nunca vamos progredir presos na fazenda. Além do mais... Não estou fazendo isso apenas pelo dinheiro.
– Pela glória então... – murmurei com desdém.
– Porque eu sinto que existe algo me chamando para a guerra. – ele afirmou com certeza – Algo dentro de mim me diz que foi pra isso que nasci, pra lutar, e vencer. Eu sei que serei um bom soldado, e sinto que vou fazer diferença de alguma forma...
– Nós podemos não ter um futuro se você for... – eu balbuciei e abaixei a cabeça, tentando evitar que as lágrimas que me encheram os olhos transbordassem.
Senti a mão pesada de Collin em meu queixo, e não resisti ao movimento que ele fez, puxando meu rosto de volta para o seu com lentidão.
– Eu não vou morrer, Isa. – prometeu – Eu vou voltar pra você.
– Você não tem como garantir isso, Collin.
Ele suspirou alto.
– Eu não sei como te explicar isso... – ele murmurou – Esse é meu destino, eu sinto isso, mas você também é... E é assim que sei, tenho certeza, não importa se irei para uma guerra, eu vou voltar pra você, e nós dois vamos ficar juntos. Você acredita em mim?
Eu o olhei por um longo momento... Seus olhos verde-esmeraldas, seu rosto de traços angulosos, sua pele macia e quase dourada, bronzeada pela constante exposição ao sol durante a lida, seus cachos loiros que quebravam o ar bruto de suas feições, o fazendo parecer um anjo... Um anjo vingador, justiceiro, zangado, mas ainda um anjo...
Seu olhar era tão puro e cristalino naquele instante, e apesar da expressão dura, que lhe era bastante comum, eu conseguia enxergar a ternura, a suavidade de seu amor por mim, a certeza inquestionável que ele guardava de suas convicções...
– Acredito... – cedi ao meu coração.
Seus lábios então estavam nos meus mais uma vez, e suas mãos afagavam o comprimento de meus cabelos com calma e carinho.
Quando o beijo foi interrompido, e eu apoiei minha cabeça no peito dele, lembrei de algo que estava sempre comigo, e que, dada a situação, eu gostaria que ele tivesse.
Me afastei um pouco, já abrindo o fecho da correntinha atrás de meu pescoço. A olhei em minha palma antes de voltar meus olhos para Collin, que me observava atento.
– Essa medalha foi presente de minha bisa, antes dela morrer... – comentei – Eu me lembro muito mal do dia em que ela me deu, acho que eu tinha só quatro anos, mas nunca vou esquecer o que ela disse... – suspirei – “São Jorge matou um dragão... Ele foi o maior guerreiro de todos os tempos...” – repeti as palavras de bisa Johana – Quero que fique com ela. São Jorge vai proteger você.
Collin me olhou entre surpreso e satisfeito, e me pareceu emocionado com meu gesto. Não disse palavra. Apenas inclinou a cabeça para frente, me indicando que eu poderia fechar a corrente em seu pescoço, e eu assim o fiz.
– Obrigado, Isa... – ele murmurou olhando para a medalha, depois pra mim – Eu nunca vou tira-la.
– Só... Me prometa que voltará pra mim, Collin... – eu sussurrei, finalmente permitindo que as lágrimas transbordassem.
– Eu ainda nem me alistei... – ele disse num sorriso, colhendo as lágrimas com a ponta dos dedos.
– Mas vai... Eu sei que vai...
Seus braços me rodearam e me puxaram para ele com força.
– Eu vou... – afirmou em meu ombro – Mas eu voltarei pra você, Isabell Georgia Oconnell Bartley. Isso é uma promessa.
– E eu vou esperar por você... – balbuciei com a voz embargada – Eu te amo tanto...
Ele pressionou a testa em meu ombro um pouco mais, e seus braços em torno de mim pareciam de aço.
– Eu te amo mais que tudo... – sua voz saiu abafada – Mais que tudo em minha vida...
– Jasper! – uma voz familiar soou ao longe – Jasper!
Me levantei de imediato, alarmada, pronta para me esconder, mas Collin segurou meu pulso, rindo.
– É só o Jakson... – ele se levantou e circulou minha cintura – Ele sabe...
– Você contou ao seu irmão sobre nós? – perguntei incrédula.
– Jasper! Papai está te procurando! – Jakson continuou, e já era possível visualizar sua silhueta entre as árvores mais distantes.
– Meu irmão sabe de meus sentimentos desde antes de eu me declarar pra você. Não se preocupe, ele não vai falar nada.
Eu assenti e tentei me desvencilhar dele, mas Collin me pressionou contra o corpo e me beijou outra vez, fazendo minhas forças esvaírem.
– Amanhã assim que o sol nascer... – ele determinou, como todos os dias, assim que libertou meus lábios.
– Assim que o sol nascer... – eu confirmei, e segurei seu rosto em minhas mãos uma última vez – Eu te amo, Jasper Collin Whitlock.
– Jasper, vamos! Onde você está? O papai está furioso com seu sumiço! – a voz do irmão dele era mais próxima agora, e o fez olhar pra trás.
– Vá. – demandou, me soltando, assim que seus olhos retornaram ao meu rosto – Não se atrase amanhã, Isa... Sabe que fico impaciente...
Eu ri, já me movendo para trás.
– Eu te amo... – ele disse, antes que eu lhe desse as costas – Pra sempre.
Eu assenti e me virei de frente para meu caminho, aninhando em meu coração, a certeza de que Collin era meu, e nada mudaria isso... Nada.
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