Destinados
18 O poderoso sinal
Notas iniciais

– Humm... – Bella expirou alto, os olhos estreitados.
Eu olhei na direção em que ela fitava com tanto afinco, me deparando com duas mulheres, relativamente bonitas, encarando a nós dois.
Estávamos na Space Needle, nossa sexta parada em Seattle, observando a vista da torre. Nossas mãos estavam entrelaçadas, e nossos corpos estavam o mais próximos que a cortesia permitia num local público, mas Bella ainda se sentia insegura.
– Se o ciúme que está sentindo é motivado pela insistente apreciação daquelas mulheres, – eu murmurei em seu ouvido – saiba que elas não estão, nem um pouco, interessadas em mim...
Minha garota me olhou com os olhos maiores, e sua incerteza vibrou forte até mim.
Eu assenti antes de esclarecer.
– Sim, elas estão admirando você... – falei com um sorriso irônico no rosto.
Bella suspirou e rodeou meu pescoço com seus braços delicados.
– Pode até ser que elas estejam olhando pra mim... – sussurrou em meu rosto, e seu hálito doce pinicou minha pele – Mas todas as outras mulheres, aqui, no museu, no restaurante, e em todos os outros lugares em que estivemos, estavam e estão interessadas demais num certo loiro alto, que, por acaso, está me acompanhando.
Eu ri baixo e deixei um selinho em seus lábios antes de olhar pra ela com intensidade.
– Uma pena que todas elas estejam desperdiçando tempo observando alguém que mal percebe os outros ao próprio redor... Afinal, esse loiro alto aqui tem dona, e os olhos dele não enxergam muito bem além dos limites do rosto perfeito da namorada...
Ela sorriu, convencimento e certo orgulho pulsando em seu cerne, e então estávamos nos beijando.
O dia vinha sendo mais do que agradável. Nosso primeiro encontro de verdade tinha superado suas expectativas, ainda que nem tivesse alcançado, sequer, a metade...
Nós já tínhamos visitado o Pacific Science Center e o planetário, onde eu tive o privilégio de ver Bella encantada como uma criança, os olhos brilhando de entusiasmo e satisfação como nunca tinha visto antes... Fomos à Chinatown, que tinha sido, definitivamente, o lugar onde mais nos divertimos, trocando beijos e carinhos ao ar livre, despreocupados da multidão barulhenta de nativos e turistas que nos rodiava, rindo alto de nada em especial, gastando tempo juntos apenas... Passamos na livraria melhor abastada da cidade, e nos perdemos juntos em meio aos tantos títulos que queríamos ler ou já tínhamos lido, trocando experiências e comentando nossas impressões, e Bella me presenteou com uma coleção sobre a guerra civil, me fazendo prometer que leria para ela e atestaria a veracidade dos fatos ali narrados... Eu ri de sua graciosidade e me senti ainda mais apaixonado, se isso era mesmo possível... Depois paramos num dos restaurantes do Pike Place Market para minha garota almoçar, e vivenciamos mais um momento singelo e cúmplice, antes de nos dirigirmos à torre mais famosa de Seattle.
O simples fato de poder andar de mãos dadas em público com Bella já fazia toda a diferença... Senti-la orgulhosa de sustentar nosso novo status, fazendo questão de demonstrar nossa proximidade e ligação nos menores gestos, aquecia meu coração morto, me fazia sentir como um adolescente realizando o primeiro amor, descobrindo o primeiro romance, vivenciando a primeira grande experiência de sua vida... E eu não poderia estar mais feliz...
– Eu acho que já vi o suficiente de Seattle por um dia... – ela balbuciou em meus lábios, prendendo o inferior deles entre os seus – Quando vamos ficar sozinhos?
Eu respirei fundo ao sentir a projeção do desejo dela. Bella podia tornar as coisas muito difíceis pra mim quando queria, e eu sempre tinha um certo trabalho em manter as coisas leves...
– Ainda temos mais um passeio programado, senhorita Swan... – disse no meu tom mais ameno – Por que estamos tão ansiosos hoje, hã?
– Não é todo dia que eu tenho meu namorado disponível em tempo integral, longe de tudo e de todos... – ela provocou – Preciso aproveitar.
Eu a segurei pela cintura, fazendo-a se afastar um pouco, e abaixei meu rosto para que nosso olhos estivessem na mesma altura.
– Ainda são duas da tarde... – informei num sorriso – Temos mais de seis horas para aproveitarmos nosso momento privado...
– Seis horas passam voando quando estou ao seu lado, Major... – sussurrou me puxando pela gola da camisa, enquanto eu tentava reprimir a excitação imediata – Eu quero ficar sozinha com você... – ela falou ainda mais baixo, em meus lábios, antes de tomar minha boca com uma destreza surpreendente.
Sua língua me fez ver estrelas antes que eu pudesse recuperar um terço de minha racionalidade e recordasse que estávamos em meio a outras pessoas, e nossa atitude tão... Apaixonada, não era assim tão educada de se expor.
– Estaremos sozinhos em breve... – prometi assim que me afastei com relutância – Eu aluguei uma lancha para navegarmos pelo lago Union até o pôr-do-sol... Seremos só nós dois...
Ela suspirou e me olhou com incredulidade.
– Só nós dois? E o piloto?
– Às suas ordens, senhorita. – falei formalmente, fazendo uma continência.
– Você sabe pilotar uma lancha? – Bella me perguntou verdadeiramente surpresa.
– Eu sei fazer muitas coisas, senhorita Swan... – afirmei com certa audácia – Espero poder surpreendê-la com todas elas...
Bella riu baixo e negou antes de bater fracamente em meu ombro. Depois tomou minha mão com ternura e me olhou com amor.
– Então me surpreenda, Major Whitlock. – disse com uma sobrancelha erguida em desafio.
Eu suspirei e sorri pra ela meu melhor sorriso matreiro. E logo estávamos nos encaminhando com pressa para o carro, e nos dirigindo para a Waterfront em seguida.
Quando estacionei o carro próximo ao cais da Elliot Bay, Bella suspirou e me olhou com admiração, e eu me senti um tanto presunçoso por ela estar tão deslumbrada comigo.
Suas sobrancelhas se uniram, e seu semblante doce se metamorfoseou numa careta.
– Não fique tão convencido... – ela murmurou antes de sair do carro e fechar a porta com mais força que o realmente necessário – Eu sei que pode fazer milhares de coisas incríveis, mas não é educado se sentir tão cheio de si.
Eu ri baixo de sua irritação adorável, e apoiei meu rosto em meus braços, cruzados no teto do carro, assim que fechei minha porta. A olhei com remorso.
– Desculpe. – pedi – Eu passei muito tempo sendo desmerecido e julgado por todos ao meu redor... Acho que me deixei levar pela sensação de ser admirado. Não quis te aborrecer.
Imediatamente Bella foi tomada por culpa e vergonha, e sua expressão foi de nervosa a compassiva num mero segundo. Ela se aproximou de mim mais rápido do que eu poderia julgar que ela fosse capaz, e segurou meu rosto em suas mãos pequenas, exalando amor pra mim.
– Sinto muito, Jazz... – murmurou – É que, eu acho que estou mal acostumada com o... – ela pausou, e eu retesei, sabendo como a frase terminava – Edward... – sussurrou, sentindo meu desagrado com a menção – Você não é arrogante como ele... – ela negou – Desculpe. – me beijou suavemente nos lábios – Pode se sentir convencido o quanto quiser... Você é maravilhoso, e deveria saber disso...
Seus olhos queimaram os meus, e sua sinceridade foi aninhada em meu peito sem que eu precisasse fazer qualquer esforço.
– Eu não consigo entender como você é capaz de me fazer te amar um pouco mais a cada segundo que passa... – deixei as palavras fluírem sem realmente me dar conta.
Bella sorriu e me beijou mais uma vez, mais seriamente, mais profundamente.
Eu me encostei no carro e a puxei ainda mais pra mim, apertando seu corpo contra o meu com cuidado, expirando em reação à carga intensa de emoção que corria em minhas veias secas e se adicionava à de Bella.
Quando ela deixou mais um gemido baixo escapar, o brilho dos arcos de nossos sentimentos se intensificaram de tal forma, que poderia ter me cegado, não fosse eu o que era.
A movimentação incomum continuava a acontecer, e eu me vi tão confuso quanto sempre com a tentativa incansável deles em se fundir, se chocando repetidamente, como em busca de uma brecha para se assimilarem.
Eu prendi o lábio inferior dela entre os meus e mordi com cuidado. Bella suspirou e abriu os olhos lindos pra mim, fitando os meus com veemência.
Seu amor me atingiu e me envolveu, e eu sorri pra ela.
– Eu também te amo, garota...
– Eu adoro que você me chame assim, Major...
Eu deixei um selinho demorado em seus lábios.
– E eu adoro que me chame de Major, mas você sabe disso... – ri de leve – Provocadora...
Bella se afastou rindo e piscou pra mim.
– Só um pouquinho...
Eu neguei e tomei a mão dela na minha, e nos guiei até a lancha que havia alugado.
Embarcamos depois que eu acertei os últimos detalhes com o responsável da doca, garanti que Bella estivesse acomodada seguramente no interior da lancha, e dei a partida, pilotando sem pressa até o centro do lago Union, onde eu desliguei o motor e liberei a âncora.
Bella olhou pelo vidro da janela e se levantou com o ar encantado. Eu peguei sua mão e a direcionei para a parte de fora, a abraçando por trás em frente às grades de proteção.
– É tão bonito e calmo aqui... – ela murmurou, deixando que seu corpo relaxasse contra o meu – É perigoso mergulhar nessas águas?
Eu suspirei, compreendendo sua intenção com a pergunta.
– Não se eu mergulhar com você... – afirmei com certa relutância – Mas a água deve estar fria...
Bella se moveu em meus braços e me olhou com desconfiança.
– Porque está receoso, Jasper? – indagou com suavidade – Não vá me dizer que está preocupado comigo. Eu sei nadar muito bem e, como você mesmo disse, com você ao meu lado não tem qualquer perigo.
Expirei e a soltei, me apoiando na estrutura, um tanto constrangido com meus motivos.
– Eu não... – suspirei – Eu não me sinto confortável em... – hesitei.
– Em... – ela incitou quando demorei um pouco mais pra completar.
A olhei com determinação e respirei fundo antes de explicar.
– Bella, eu já te contei sobre minha vida antes dos Cullen. – falei com o tom forçadamente firme – Você sabe tudo por que passei quando vivi nos campos de Maria... Eu... Te falei sobre...
– As marcas... – ela completou, se recordando de nossas conversas, depois suspirou, e um senso de compaixão vibrou forte até mim – Você tem vergonha delas? Sabe que eu não me importo... – ela deu de ombros.
– Não tenho vergonha. – afirmei seguro – Só não quero assustar você.
– Porque eu ficaria assustada com cicatrizes, Jasper? – ela questionou com uma quase impaciência – Eu também tenho várias...
– Nenhuma cicatriz que você possa ter é tão terrível quanto as deformações em meu corpo, Bella... – minha voz soou dura e rancorosa.
Ela se aproximou de mim e pousou as mãos em meus ombros.
– Eu não vou me assustar com marcas, principalmente sabendo a origem delas. – garantiu – Mas se você não se sente bem em expô-las pra mim, podemos mergulhar de roupa. – ela sorriu, e foi impossível não sorrir de volta. – Foi uma boa ideia trazer uma mochila com algumas coisas, afinal...
Eu arfei uma risada e neguei, admirado com seu desprendimento.
– Tem certeza que quer mergulhar? – perguntei com carinho. Ela assentiu – Ok, vamos mergulhar.
Bella entrou na parte coberta da lancha para se preparar, enquanto eu tirava as botas e a calça, mantendo a box e a camisa.
Eu sabia que em algum momento de meu relacionamento com Bella eu teria de vencer minhas reservas quanto a expor meu corpo, mas isso teria de ser processual, como fora um dia com Alice. Meu torso, assim como meu dorso e meus braços, era totalmente marcado pelas milhares de mordidas de vampiros com que lutei em meu tenebroso passado, e me faziam sentir ainda mais monstruoso do que quando pensava em todas as barbaridades que cometi. Elas eram a prova da quantidade de vidas que tirei, do quanto eu podia ser atroz. E eu tinha muito medo de como Bella reagiria ao enxergar essa verdade.
A onda de embaraçamento explodiu em mim tão potente que me fez arfar. Eu me virei em direção à sua origem, e arfei outra vez, ao me deparar com Bella vestindo apenas uma camisa minha, as pernas completamente à mostra.
– Eu não trouxe short... – ela deu de ombros – E não acho que será muito confortável mergulhar de calça. – ela segurou a barra da camiseta e corou – As suas são mais compridas que as minhas...
Eu sorri, tentando não pensar muito no fato de que ela estava apenas de roupa íntima por baixo da blusa de algodão. Me aproximei.
– Você está linda como sempre... – circulei sua cintura, e registrei a intensidade da excitação dela, que se somou à minha – Não me solte de maneira alguma, ok?
Ela assentiu, e eu a encaixei em meus braços, suas pernas circulando meu quadril, antes de pular na água.
Flutuamos em silêncio por alguns minutos, a cabeça de Bella apoiada em meu ombro, de forma que eu não podia ver seu rosto.
– Não está tão fria assim... – ela comentou antes de afastar um pouco o corpo do meu e me olhar.
– Pra mim está suficientemente quente... – murmurei, entorpecido pelo calor que emanava da pele dela e penetrava na minha.
– Eu te amo, Jasper... – ela balbuciou antes de se inclinar pra mim e tomar minha boca.
Eu respondi como podia, projetando meu sentimento pra ela, não querendo interromper o beijo para verbalizar o que sentia.
Nos beijamos por um momento longo, depois nos abraçamos e eu nos movi pela água, apreciando a maneira como a luz refratava na superfície do lago e iluminava os olhos castanhos de Bella, deixando-os ainda mais incríveis. Ela me olhava com encantamento e paixão, e eu me deixei envolver nas emoções que trocávamos, até que ela começou a estremecer levemente.
– Hora de subir e se aquecer... – determinei.
Ela se apertou contra mim e assentiu em meu ombro, e eu me apressei a voltar para a embarcação e envolvê-la num toalha.
– Eu vou te deixar sozinha pra que possa trocar de roupa. – falei com tranquilidade, antes de me voltar para a curta escada que dava para o lado externo da lancha.
Bella segurou meu pulso.
– Você precisa trocar de roupa também. – ela disse com a voz fraca, o olhar cheio de expectativa.
Era impossível não entender as verdadeiras intenções dela, assim como ela perceber a ansiedade desmedida que me tomou em consequência, já que tínhamos essa comunicação direta entre nossas emoções.
– Bella... – expirei, nervoso.
Ela se aproximou de mim, deixando a toalha no sofá atrás dela.
– Eu só quero... – ela sussurrou, e seu desejo explodiu em mim me deixando atordoado.
Eu puxei seu corpo pro meu num impulso, e nossas bocas se encaixaram sem que precisássemos comanda-las a isso realmente.
O beijo foi intenso e profundo como nunca antes, e provocou sensações poderosas em mim... Eu podia ouvir o coração de Bella bombardear seu peito num ritmo errático e alucinado, enquanto minhas emoções transbordavam incontroláveis... Meu anseio somado ao dela criou uma vibração densa de lascívia, e eu me senti como se estivesse drogado, entorpecido, fora de mim...
Me sentei no sofá trazendo ela comigo, e Bella encaixou as pernas nos lados do meu quadril, prendendo os dedos em meu cabelo molhado com força e me puxando pra ela, tentando ficar ainda mais próxima. Eu não estava, nem de longe, raciocinando mais... O calor era de enlouquecer e viciar, e estava guiando meus gestos em favor de minha vontade...
Segurei Bella pela cintura e pela nuca, cedendo cada vez mais à paixão que ardia em minha pele, tentando não me esquecer de ser o mais cuidadoso possível.
Há certa altura Bella se afastou, e eu teria tido ali um segundo ou dois para recuperar a razão mas, seu olhar era tão incisivo sobre mim, evidenciava o quanto ela me queria com tamanha clareza, que me impediu de tomar qualquer atitude para impedi-la de fazer o que fez a seguir... Ela tirou a blusa, ficando apenas de lingerie em minha frente, e eu prendi o ar em meus pulmões, tentando controlar a ansia de ceder totalmente ao instinto que pulsava dentro de mim e exigia que eu a clamasse como minha de uma vez por todas.
Sua boca cobriu a minha novamente, ainda mais voraz que antes, e eu correspondi com a mesma intensidade, mergulhado numa névoa de desejo tão espessa que era impossível pensar... Minhas mãos apertaram a cintura dela com um pouco de força demais, arrancando um gemido uníssono de nós dois.
Me atentei para as emoções dela com cuidado, para ter certeza de que estava tudo bem, e novamente tive uma oportunidade de reaver minha lucidez, mas fui nocauteado por outra onda avassaladora de desejo...
Arquejei alto, completamente dominado.
Bella, notando meu descontrole, e se aproveitando dele, se afastou mais uma vez e começou a puxar minha blusa. Eu teria hesitado, não estivesse tão terminantemente envolvido na aura de excitação para me preocupar realmente com minhas reservas àquela altura, então acabei cedendo e permitindo que ela me despisse.
Suas mãos pequenas vagaram por minha pele, deslizando por meus ombros, meu peito e meu abdomen, enquanto o beijo era retomado com a mesma intensidade de antes. Eu sentia esses choques e estremecimentos se alastrarem por mim, diferentes de tudo que eu já havia experienciado antes com outras mulheres, e me vi insano, arfando tão alto quanto Bella, absolutamente perdido nela e nas sensações que ela estava me proporcionando.
Nos virei rapidamente sobre o sofá, deitando Bella e a cobrindo com meu corpo. Suas pernas circularam minha cintura, enquanto eu sustentava meu peso em meus cotovelos para não esmaga-la.
– Jasper... – ela murmurou em meus lábios, um pedido implícito no som de sua voz e na emoção que ela me projetava.
Eu apertei minhas pálpebras com força, atordoado com tantas emoções me afogando, e então pecebi os arcos...
Eles estavam tão unidos quanto meu corpo com o de Bella, se tocando em toda sua extensão, girando juntos numa velocidade inacreditável e brilhando intensamente...
Eu comecei a deduzir a razão para o comportamento atípico deles, e estava mais do que pronto para testar a teoria que surgiu em minha mente...
O som da aproximação de outra embarcação se fez ouvir, e, por algum milagre, me tragou do que estava acontecendo por um momento fugaz.
Fiz um esforço tremendo para me prender ao fio tênue de consciência, e sufoquei, por alguns segundos, o impulso titânico de continuar.
– Bella... – eu suspirei em sua boca – Não deveríamos...
Ela expirou entre os arquejos e me olhou com a feição entorpecida.
– Estamos indo rápido demais... – ela murmurou, compreendendo minha hesitação – Eu sei, eu... – ela respirou fundo enquanto eu me forçava a sentar e dar espaço a ela – Não sei o que me deu...
Eu ri baixo, finalmente começando a reinar sobre minhas emoções, e segurei seu rosto quando ela sentou.
– Nos deu... – murmurei – Bola de neve... Eu sinto, você absorve, você sente, eu absorvo, tudo se soma dentro de nós... – suspirei – Essa coisa de podermos sentir o que o outro sente potencializa nossas emoções, e nós perdemos a noção e a cabeça... – expirei – Precisamos aprender a controlar essa troca...
Ela sorriu, corada e constrangida.
– Sempre tão cavalheiro... – disse num tom amoroso – Se você não me parasse eu não tenho certeza se conseguiria...
– Eu ainda não sei como fui capaz... – confessei – Se não tivesse ouvido a outra lancha passando, acho que não teria me distraído por tempo suficiente para retomar consciência...
– Outra lancha? – ela indagou aérea – Que outra lancha?
Eu a beijei rapidamente e sorri.
– Deixa pra lá...
Me inclinei para o chão e peguei as camisas, entregando primeiro a ela, que vestiu com calma, me observando.
Quando fiz menção de colocar a minha, ela segurou meus pulsos.
Eu a olhei com receio súbito, mas deixei que tirasse a blusa de minhas mãos e se sentasse em meu colo outra vez, o olhar preso em minha pele.
– Você é lindo, Jazz... – balbuciou – Nem mesmo essas marcas são capazes de macular a beleza de seu corpo... – segurou meu rosto – Ou de sua alma.
Me senti vulnerável, indefeso e exposto. Aos pés dela. E amado como nunca tinha me sentido antes...
Bella desenhou cada uma de minhas cicatrizes com a ponta dos dedos, e eu registrei com contentamento que tudo que ela sentia estava muito longe de ser repulsa, horror ou nojo, como eu acreditei que seria sua reação normal. Eu esperei que satisfizesse seu impulso em reconhecer cada centímetro marcado de minha pele, e então ela parou na meia-lua mais proeminente em meu pescoço.
– Essa aqui é diferente das outras... – murmurou – Mais alta e brilhante... Mais perceptível.
– É a marca de minha criadora... – disse sem conseguir conter a raiva que aquilo me provocava.
– Maria... – Bella balbuciou, e seu tom denunciou o repúdio que ela sentia – Essa aqui – ela tocou em meu ombro – tem o mesmo formato e textura.
– Porque foi ela que fez também. – minha voz soou dura.
Bella me fitou com confusão no olhar.
– Foi realmente necessário te machucar duas vezes, ou ela fez isso apenas porque é cruel e sádica? – perguntou pulsando indignação.
Eu respirei fundo para explicar aquilo. Bella gostaria ainda menos da verdade.
– Lembra do que eu te contei sobre eu ser o brinquedo dela? – Bella assentiu, saturada de aversão – Essa marca tinha o objetivo de garantir exclusividade, afastando as outras... – relutei – Fêmeas. – Bella engasgou, entendendo – É um ato comum entre vampiros, marcar o companheiro.– Não que eu fosse realmente isso, completei em pensamento.
Fazendo uma força tremenda para conter o desagrado e o ciúme, ela me olhou fundo nos olhos.
– Alice também fez uma, então? – indagou baixo e cautelosamente.
– Sim... – confirmei, medo de magoa-la se elevando em meu cerne – Bella, eu não sabia que um dia...
– Eu sei... – ela me interrompeu com brandura – Qual delas?
Eu peguei sua mão com suavidade e pousei a ponta de seu dedo sobre a marca no alto de meu peito esquerdo.
Bella suspirou e foi tomada por insegurança e tristeza sem tamanho.
– Nenhuma dessas marcas é mais profunda ou significativa do que a que você fez dentro de mim, Bella. – afirmei com intensidade – Você marcou minha alma apenas com seu sorriso e seu olhar... Nada é mais poderoso que isso, nenhuma cicatriz...
Ela me olhou, e seus olhos estavam rasos de lágrimas.
– Um dia eu te marcarei como meu. – prometeu – E será a última cicatriz que você terá em sua existência, a que atestará que você me pertence, e a mais ninguém...
Eu assenti, emocionado demais com sua determinação e seu amor para falar o que quer que fosse.
Nós nos abraçamos, e assim ficamos por vários minutos, até que ela se afastou de mim mais uma vez.
– Vamos perder o pôr-do-sol... – sorriu.
– Não vamos não. – sorri de volta.
No limite de velocidade mais alto que eu era capaz de alcançar, carreguei Bella e nos guiei até a proa da lancha, ainda há tempo de observarmos o grande círculo laranja se esconder parcialmente no horizonte do lago.
Ficamos calados observando o espetáculo da natureza, abraçados, projetando amor um para o outro. Quando os últimos raios tocaram as águas, Bella se virou pra mim.
– Obrigada por esse dia lindo... – disse antes de deixar um selinho em meus lábios – Eu nunca vou esquecer tudo que vivemos hoje...
A apertei contra mim um pouco mais, antes de afasta-la.
– Com fome? – ela assentiu – Vou te levar para jantar antes de voltarmos pra Forks. Acho que você deveria realmente trocar de roupa agora... Sozinha.
Ela riu, e então seus olhos se fixaram em meu pescoço.
Bella segurou a corrente que ali pendia, com certa cautela, a expressão intrigada.
– Não tinha reparado nela mais cedo... Você sempre usou? – indagou com o tom suave.
Eu olhei para a medalha em sua mão e assenti.
– Acordei com ela no pescoço depois da transformação... – falei com naturalidade – Nunca a tirei.
– Ela é especial? – sua voz não era sugestiva, apenas curiosa, assim como seus sentimentos.
Dei de ombros.
– De certa forma. Não tenho certeza do que ela representava antes, quando eu era humano. Não me lembro se foi minha mãe que me deu ou se eu mesmo a comprei... Mas eu estava com ela quando fui transformado, e, por isso, ela sempre me fez sentir um pouco conectado com minha humanidade, como um símbolo, uma representação de que, um dia, eu tive uma vida humana, uma história... Ainda que eu não me lembre dela.
– Sabe que santo é esse na medalha?
– Não. Nunca dei muita atenção a isso, pra falar a verdade.
Bella me fitou com o olhar profundo, e de repente ela parecia outra pessoa, muito mais velha e sábia do que realmente era. Todo meu corpo tensionou com a mudança sutil em seu semblante, e eu não soube identificar exatamente o porquê.
– É São Jorge, protetor dos soldados. Ele foi um grande guerreiro...
– Como sabe disso? – balbuciei um tanto perplexo.
– Minha vó era devota dele... – ela pausou, voltando os olhos para a medalha novamente, que virou em seus dedos – Tem uma inscrição aqui. JSOB. Sabe o que significa?
Eu olhei a inscrição que ela analisava e neguei.
– Pode ser uma pista da origem dela. Você deveria pesquisar... – e como num passe de mágica, toda a seriedade se foi, e ela era minha Bella outra vez, sorrindo e leve em sua sugestão provocativa.
– Não, Bella. – eu sorri de volta – Não vamos mergulhar em mais uma pesquisa sobre minhas origens, como você teimou em fazer para descobrir minha data de nascimento...
– Deu certo, não deu? Ao menos você sabe quando é realmente seu aniversário...
– E você realmente acredita que eu me entusiasmo em comemorar mais um ano dos meus cento e sessenta? – ela riu alto e me abraçou – Não. Eu prefiro continuar fingindo que tenho só vinte e três... Assim não me sinto um criminoso por estar te namorando.
Ela riu ainda mais alto e eu a acompanhei, enquanto nos encaminhávamos para dentro da lancha, para nos prepararmos para voltar.
*
*
*
Depois de passar horas contando a Charlie sobre todos os lugares que visitamos, enquanto eu esperava por ela em seu quarto, ansioso para me despedir, Bella finalmente tomou banho, vibrando expectativa suficiente para eu sentir a milhas e milhas de distância. Entrou no quarto determinada, e me proporcionou o segundo momento mais envolvente de nosso dia...
Fora com grande relutância que eu a tirei de cima de mim, devagar, controlando, com todas as minhas forças, a vontade de permanecer colado a ela, e disse que iria voltar para a mansão, para que ela conseguisse dormir.
Bella prometeu que se comportaria, e até se aninhou sob as cobertas, mas a proximidade de seu corpo e o desejo potente que ela não parava de projetar, estavam me deixando maluco, e eu afirmei que partiria.
– Não vai... Fica... – ela pediu sonolenta, e eu, como sempre, cedi à sua vontade.
Pedindo desse jeito, com o tom amoroso, e fazendo uma expressão carente, ela sabia bem que me manipularia, e eu aceitei minha derrota com satisfação, a abraçando quando ela pousou a cabeça sobre meu peito, bocejando.
Não demorou mais que dois minutos para que toda a agitação do dia tivesse efeito, e logo eu tinha minha garota adormecida em meus braços.
Revivi cada minuto daquele sábado maravilhoso durante a madrugada, e acho que Bella também, em seus sonhos, pois passou a noite inteira emanado contentamento e amor, até mesmo um certo saudosismo, enquanto ressonava contra mim.
Fechei meus olhos quando os primeiros sinais do amanhecer se fizeram presentes, apenas para aproveitar melhor os últimos momentos de minha noite com Bella. E senti como se meu coração pudesse voltar a bater quando ouvi seu murmúrio.
– Collin... – ela balbuciou, e eu abri os olhos chocado.
Me apoiei em um de meus cotovelos, com cuidado para não desperta-la, e a olhei com espanto.
– Collin... – ela repetiu, e eu tinha certeza que meus olhos saltariam de sua órbitas.
Como ela sabia aquele nome? Ela não tinha como saber a não ser...
– Jasper...? – sua voz me alcançou mais clara dessa vez, e eu vi o momento em que seus olhos focalizaram meu rosto – Jazz, eu tive um sonho... – ela suspirou...
Eu estava muito mais do que tenso, mas tentei me manter impassível para que ela não se alarmasse.
– Você... Você estava sob uma árvore... – ela continuou, ainda um tanto grogue – Com roupas de uma outra época... Um lugar quente e colorido... E seus olhos... – ela suspirou outra vez e segurou meu rosto, e eu fui tomado pela intensidade de seu amor – Seus olhos eram tão verdes e sua pele era linda... Bronzeada... Ainda era você só que... Você era... – ela bocejou e sorriu – Humano...
Eu sorri, contendo a perplexidade que ainda me assaltava por ela ter murmurado meu nome do meio, o qual eu mal me lembrava até minha última visita ao rancho.
– Engraçado... – ela riu de leve, ainda me fitando com uma ternura desmedida – Eu te chamava por outro nome...
O ar ficou preso em meus pulmões, e subitamente eu estava me debatendo se aquilo não era um sinal, algum aviso de uma força do universo, do destino, de que o momento em que eu deveria contar a Bella sobre Isabell tinha chegado.
Respirei fundo, decidido a me certificar se ela recordava bem do sonho, ou melhor dizendo, talvez, da lembrança...
– Como era esse outro nome...? – indaguei baixo, forçando o nervosismo para longe de mim, me controlando com dificuldade.
Ela estreitou o olhar, como que fazendo força para reaver a memória.
– Collin... – murmurou, e seus olhos brilharam ao mesmo tempo em que um contentamento extremo se expandia nela – Eu te chamava de Collin. É um nome... – ela sorriu – Tão doce e sutil... Infantil mesmo. Não combina muito com você, não sei de onde eu tirei isso... – riu de leve mais uma vez.
E então eu tive a certeza, e resolvi, ali naquele exato instante, que sim. O momento tinha mesmo chegado.
Segurei seu rosto entre minhas mãos com carinho, e projetei o máximo de ternura que sentia por ela.
– Bella... – suspirei – Eu sei de onde você tirou isso e posso te explicar, mas você vai precisar me prometer que não vai ficar assustada...
Ela me encarou com surpresa e confusão, e se sentou devagar na cama.
– Porque eu me assustaria com a origem de um nome? – seu tom era intrigado, e suas emoções começaram a vibrar por todo o quarto, ansiedade e nervosismo.
– Promete? – insisti.
Ela me olhou por um minuto inteiro, deliberando.
– Prometo tentar... Você já tá me assustando com toda essa atitude defensiva, na verdade.
Respirei fundo novamente, apertando os olhos e os abrindo em seguida, determinado.
– Meu nome completo... – engoli com dificuldade – Quando eu era humano... Era Jasper Collin Whitlock. – pausei, e Bella arfou em choque, seus olhos arregalados de repente – Collin é meu nome do meio, Bella.
Ela me olhou intensamente, e eu sabia que estava me pedindo, silenciosa e desesperadamente, por uma explicação. E eu estava mais que disposto a dar a ela, e a mim mesmo, a oportunidade de tentar compreender melhor nossa incrível ligação.
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