Destinados
19 EXTRA II - Pedido
Notas iniciais
A barra do meu vestido roçava na grama seca, fazendo um som alto e irritante.
Empunhei uma boa quantidade do tecido e puxei, dando mais liberdade aos meus pés, que pareciam revestidos de chumbo com as botas baixas. Estava tentando me apressar, mas a quem eu estava enganando? Eu nunca conseguiria ser mais rápida que Collin.
– Isa, por favor, para! – ele suplicou atrás de mim, e eu podia identificar o som das botas dele esmagando a terra enquanto ele corria – Não faz assim, vamos conversar!
Eu parei e fechei os olhos com força, respirando fundo.
– Conversar o quê, Jasper? – indaguei com a voz dura e rude, me virando pra ele, que já estava praticamente em minha frente.
Collin estacou de forma brusca, como se atingido por uma pancada, e seus olhos quase saltaram das órbitas, de tanto que ele os arregalou.
– Você nunca me chamou assim... – ele murmurou, claramente magoado.
– Eu nunca senti raiva de você antes. – devolvi com impaciência.
Ele respirou fundo, passando as mãos pelos cachos nervosamente. Depois se aproximou dois passos de mim, o olhar hesitante, e pareceu ponderar por um breve momento antes de se pronunciar.
– Isa, eu não sabia que seria tão rápido assim... – seu tom era inseguro – Eu pensei que teríamos mais tempo...
– Teríamos todo o tempo do mundo se você não tivesse se alistado. – minhas palavras soaram mais que amargas. Elas eram rancorosas.
Collin arriscou se aproximar ainda mais, e eu percebi a tremulação em sua mão quando ele a levantou para tocar meu rosto.
O calor de sua palma, quando encostou em minha face, me causou um estremecimento, que era mais que usual. E eu não consegui evitar enternecer minhas emoções... Ele não fazia ideia do poder que tinha sobre mim.
– Eu sei que está com medo... – ele sussurrou, os olhos trancados nos meus – Eu também estou... Mas eu já te falei isso umas mil vezes, Isa... Eu quero fazer isso, eu quero lutar nessa guerra.
– Essa droga de guerra é mais importante que eu! – alteei minha voz e me virei num giro, deixando a mão dele no ar, lhe dando as costas – Você prefere arriscar sua vida, se dispor a nunca mais me ver, a ficar aqui comigo!
Suas mãos então estavam em meus braços, e num movimento repentino eu estava novamente de frente pra ele.
Collin nunca era rude comigo. Nunca. Eu nunca o havia visto me olhar com raiva ou impaciência. Não era o caso naquele momento, mas eu estava surpresa por sentir a carga de nervosismo que ele estava emanando, apesar de seu semblante estar absolutamente composto. Eu podia notar a aspereza de suas palmas forçarem minha pele com um pouco mais de força que o comum. Ele não estava me machucando, mas aquela reação era completamente nova pra mim.
– Você realmente acredita em suas palavras, Isabell? – seu tom era magoado, ofendido e muito duro – Você pensa mesmo que existe algo mais importante em minha vida que você?
Eu não encontrei minha voz para responder, visto que o olhar dele era grave, questionador e intenso sobre mim, me deixou paralisada.
Collin arquejou, me soltando de repente. Sua expressão mudando de quase aborrecida pra culpada num piscar de olhos.
– Me perdoe... – ele parecia implorar – Me perdoe, Isa, eu não queria ser tão grosseiro...
Eu consegui sair do choque e reencontrei minha voz.
– Você não me machucou. – assegurei com certa frieza – Mas, o que você quer que eu pense? Se não há nada mais importante que eu em sua vida, porque está me abandonando?
Ele enfiou uma das mãos na nuca, a outra pousando na cintura, e desviou o olhar para o chão.
– Eu não estou te abandonando. – sua voz era desesperada.
– Está sim. – insisti – E pra quê? Pra ter alguns privilégios quando... Se voltar? Para ter o respeito da vila? Pra ouvir te chamarem de senhor ou capitão?
– Pra poder casar com você! – ele esbravejou num rompante, me interrompendo. Seus braços descendo até os lados de seu corpo num movimento irritado, seus olhos se voltando pra mim com uma quase aflição.
Meu corpo inteiro estremeceu com o som de sua voz alterada. Eu nunca o tinha ouvido berrar daquela maneira. Mas, mais do que isso, eu estava congelada na surpresa de sua justificativa.
– Eu estou fazendo isso pra poder casar com você... – ele repetiu num balbucio, a feição se distorcendo no que me pareceu dor – Você não entende? Eu te amo, Isa. Quero passar o resto de minha vida com você, E... Eu não tenho nada pra oferecer a você, agora... Nem terei se permanecer aqui... Eu quero te dar uma vida confortável... – ele expirou, o rosto se voltando para o chão outra vez – Não tenho como fazer isso sendo um mero agricultor...
Meu coração parecia estar se rachando em dois...
Collin estava colocando a vida em jogo apenas para me proporcionar conforto, bem-estar... Por me amar tanto a ponto de não se satisfazer em me dar uma vida simples...
Me aproximei dele e segurei seu rosto para que ele me olhasse.
– Collin... – suspirei – Será que você não entende? Eu não preciso de uma vida luxuosa pra ser feliz... Só preciso de você ao meu lado... E se você for pra essa guerra...
Os olhos dele ficaram ainda mais verdes com o brilho intenso que assumiram...
Collin me abraçou subitamente, e afundou o rosto em meus cabelos, me apertando forte contra seu corpo.
– Por favor, Isa... – murmurou em meu ombro – Eu preciso de seu apoio, de sua confiança. Acredite em mim quando digo que sei o que estou fazendo... Que estou agindo como acho que é melhor pro futuro que quero construir com você... – ele se afastou minimamente – E quando afirmo que vou voltar.
Eu escondi meu rosto em seu ombro e pressionei meus braços em volta dele com mais força.
Eu sentia tanto medo...
Um medo devorador que me garantia que eu o perderia se deixasse ele ir... Que, possivelmente, aquele era um de nossos últimos momentos se eu cedesse e apoiasse sua decisão...
Expirei e me afastei com relutância.
– Você me garantiu que teríamos, no mínimo, três meses antes que você tivesse de partir. – argumentei, meu peito oprimido – E agora você vem me falar que terá de ir embora em dois dias, Collin...
– Eu sei... – ele se apressou a dizer – Eu não imaginava que teria de me apresentar tão rápido...
– Faz apenas uma semana que você se alistou... Quatro dias que decidimos informar a nossas famílias sobre nós dois... Nós nem falamos com nossos pais ainda... – suspirei – Você me prometeu que tornaria nosso namoro oficial.
– E meu planos não mudaram em relação a isso. – ele se adiantou com firmeza – Na verdade... – ele se distanciou um pouco de mim, me fitando com o que me pareceu diversão – Apenas me obrigou a antecipar algumas providências.
Collin ficou calado por um momento, parecendo ponderar mais uma vez. Seus olhos vagaram pelo ambiente ao nosso redor por alguns instantes, enquanto eu me forçava a esperar, contendo a curiosidade.
– Eu tinha planejado fazer isso de outra maneira... – ele resmungou – Embaixo de nosso pinheiro, ao pôr-do-sol, depois de conversar com tio Damian... Não depois de você me deixar falando sozinho antes mesmo que eu tivesse chance de me explicar, nem depois de termos nosso primeiro desentendimento... – me olhou, e seus olhos pareciam jóias, o sorriso mais sincero que já tinha visto até ali – Mas não temos muito mais tempo... E eu não vou conseguir esperar...
Ele se reaproximou, segurou meus braços com suavidade, pela altura dos cotovelos, e inclinou um pouco o rosto na direção do meu.
– Isa... – ele expirou, parecendo mais nervoso do que nunca antes. – Nós nos conhecemos desde que você nasceu... – ele riu um pouco – Eu acho que me apaixonei quando tia Suzanah te colocou em meu colo a primeira vez, para falar bem a verdade... – eu arfei um risinho – Eu tinha só seis anos, e você era só uma bebêzinha recém-nascida, mas, mesmo não entendendo o mundo com clareza, eu soube dentro de mim... Você era... Importante... – ele pausou rapidamente – Eu fui a primeira pessoa pra quem você abriu os olhos, a tia mesmo afirmou isso, e isso só reforça minha ideia de que, nossa ligação é muito maior do que somos capazes de explicar, ou entender... E você sabe bem o que essas íris castanhas fazem comigo, não é...? – ele arqueou uma sobrancelha, e eu assenti, ainda sorrindo – Foi assim desde o começo... Minha inocência, minha falta de entendimento quanto ao que nasceu em mim a primeira vez que nossos olhos se encontraram, me fez ser idiota com você por bastante tempo, eu sei. Mas, de qualquer sorte, eu era um adolescente um tanto revoltado, que não gostava muito de enfrentar a verdade, e você era só uma criança, não era como se eu pudesse fazer alguma coisa... – rimos juntos – À medida que você foi se tornando essa garota incrível... E linda... – ele ressaltou a palavra – Eu comecei a enxergar... – ele suspirou – Pra ser honesto, hoje eu sei que, mesmo antes de entender o que sentia por você, eu te via como alguém que deveria ser protegida, coberta de atenção e carinhos, de cuidados, de mimos... – eu ri mais um pouco, extremamente nervosa com todo aquele discurso sobre mim, sobre nós, e ele riu também, outra vez, brevemente – Até tomar coragem para me declarar a você eu... Eu sonhei com seu sorriso... Com esse olhar terno que você me direciona agora... Com seus beijos... – eu corei – Eu sonhei em ter de volta o amor que devotava e devoto a você... – eu suspirei, e Collin respirou fundo – Você é a garota mais suave e doce que já conheci na vida, Isa... Eu te amo tanto... – eu arfei com sua intensidade, e ele sorriu um sorriso incerto – Tanto que dói às vezes... Eu sinto sua falta do momento em que acordo até te ver... E assim que nos despedimos, até nos vermos de novo... Eu me sinto incompleto quando você está longe... Por que você é minha vida, Isa... – ele pausou, e seu olhar, se era mesmo possível, se tornou ainda mais intenso no meu.
Collin remexeu em seu bolso com o olhos brilhando. Retirou um pacotinho amassado dele, sacudiu a cabeça numa negação breve e respirou fundo, alinhando os ombros.
Minha respiração ficou suspensa, involuntariamente, quando ele se ajoelhou aos meus pés. Meu coração acelerou, e minha boca estava repentinamente seca.
Ele rasgou o pacotinho com pressa, e estendeu a mão trêmula pra mim, sem abri-la.
– Isabell Georgia Oconnell Bartley... – sua voz era formal, e eu prendi a respiração tentando conter a vontade súbita de chorar – Eu sei que sou o homem mais cheio de falhas dessa vila, e tenho, por enquanto, muito pouco, ou quase nada para oferecer a você... A não ser meu amor, que eu posso garantir, é maior que qualquer coisa... Ninguém no mundo seria capaz de amar você, nem um terço, do quanto eu amo... – eu arquejei – Então... Diga que me aceita, meu amor... – ele pediu, e pela primeira vez eu o vi com lágrimas nos olhos – Me aceite. Você é tudo que quero... Seja minha esposa, Isabell. Case comigo.
Involuntariamente uma de minhas mãos cobriu meus lábios, e minha visão ficou embaçada pelo acúmulo de lágrimas.
Collin abriu a mão devagar, e eu esfreguei os olhos com pressa para enxergar o que ele me oferecia.
– Ele é muito simples... – seu tom era um tanto constrangido – Eu não tive tempo pra juntar a quantia que precisava pra comprar o que eu acho que você merecia, mas – eu neguei brevemente – é só até eu voltar. Quando eu retornar terei dinheiro, e vou substitui-lo antes de nos casarmos por um com brilhantes de verdade.
Eu fitei a meia aliança fina, que parecia ser feita de latão e vidro, no centro da palma de sua mão. Voltei meus olhos para o rosto dele, que estava levemente corado, e depois fixei em seu olhar suplicante.
Estendi lentamente minha mão esquerda, tremendo tanto que parecia que estava com frio.
Os olhos de Collin aumentaram, e ele expirou pesadamente antes de sorrir.
– Eu te aceito... – murmurei com a voz falha – Eu me caso com você.
Ele colocou o anel em meu dedo anular, beijou minha mão, se levantou e me abraçou.
– Eu te amo, Isabell... – sussurrou – Eu te amo...
Me afastou com cuidado, me segurou pela nuca e inclinou minha cabeça pra trás. Seus lábios se encaixaram nos meus com perfeição, e ele me beijou com uma intensidade nova e instigante, que amoleceu todo meu corpo.
Me senti flutuar... Meu coração estava quase para rasgar meu peito e correr para Collin, tão forte e rápido batia... Minha pele estava em chamas, o calor agonizante, que sempre me tomava quando estava nos braços dele, se alastrando com mais força do que de costume...
– Eu vou te esperar... – balbuciei em seus lábios quando ele me permitiu algum espaço para recuperar o fôlego – Eu vou esperar pelo tempo que for preciso... – segurei seu rosto em minhas mãos, e ele me olhou atento – Mas me prometa que não vai morrer, Collin... Prometa que vamos ficar juntos, não importa quanto tempo isso demore...
Ele espelhou meu gesto, e colou nossas testas antes de expirar.
– Eu não vou morrer, eu vou voltar e nós vamos nos casar... – o tom categórico, sério – Nada vai me deter, nada. Eu te pertenço... E se tiver de driblar a própria morte para cumprir nosso destino, que é ficarmos juntos, então eu o farei... Eu juro.
Senti as lágrimas transbordarem de meus olhos enquanto eu assentia, aninhando sua promessa em meu coração, com toda a confiança que tinha nele.
Collin deslizou os dedos em minha face, colhendo a umidade com carinho, e me beijou a testa, os olhos, e a ponta do nariz antes de tomar meus lábios com paixão mais uma vez.
E enquanto eu me entregava ao ato, tentei, com determinação ferrenha, não me deixar tragar pelo medo, que me rondava vicioso nas bordas escuras de minha mente.
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