Destinados
10 O difícil afastamento
Notas iniciais

Os olhos dela queimavam em mim, e eu podía sentir o amor misturado à tristeza, mágoa, mas uma séria resignação.
– Você... Viu... – Deduzi.
Ela acenou com a cabeça, e a mágoa ficou um pouco mais forte.
– Allie, eu... – tentei começar a explicar.
– Você não precisa me dizer nada, Jazz... – ela afirmou docemente – Eu entendi melhor depois de algumas visões. E veja, elas vieram a mim, eu não as procurei, juro. Tentei ao máximo cumprir minha promessa, mas... Por mais que eu tentasse afasta-las, elas continuavam explodindo em minha frente, eu não pude evitar...
– Sinto muito... – Eu não quería feri-la daquela forma, mas era inevitável...
– As primeiras chegaram logo que alcançamos o Alaska... – ela falou melancólica – Então eu entendi porque você estava tão preocupado com a mágoa que Edward causaría a Bella. – ela suspirou – Há quanto tempo isso estava acontecendo?
Não era uma cobrança, nem uma acusação. Ela só estava buscando o entendimento.
Eu expirei sentindo remorso.
Alice era a razão para eu não ser mais o monstro que era quando ela me encontrou, ela me guiou para uma nova vida, sem tanta dor e culpa, sem tanta violência... Eu odiava magoa-la daquele jeito.
Eu ainda a amava, ela sempre sería importante e especial pra mim, mas o que eu sentía por Bella era algo que eu nunca sería capaz de alterar, de deixar pra trás...
– Eu não tenho certeza. – falei numa respiração – Só percebí o que sentía quando a ví indefesa em minha frente, a centímetros de meu ataque, no aniversário... Mas acredito que começou quando...
– A primeira vez que ela veio até a casa... – Alice me interrompeu, suspirando em seguida – Eu tive uma visão obscura naquele dia... Vi você olhando pra ela em um cômodo, parecido com um quarto de hotel... Mas era uma visão incerta e nublada, não mostrava muita coisa, e eu a ignorei, imaginando que aquilo era relacionado a algum futuro distante, quando ela sería parte da família. – ela desviou o olhar – Quando estávamos em Phoenix eu a vi se concretizar em minha frente, e acreditei que era só isso. Depois nada mais veio a mim. Ao menos não que relacionasse você e Bella... Até...
– Quando chegaram em Denali.
– Sim. Assim que entrei em meu quarto minha visão foi toldada, e eu te vi carregando ela para o quarto, quebrada, arrasada... E soube que você a encontraría depois que Edward partisse. A princípio tentei me convencer que era apenas isso, que você seguiría um destino diferente em seguida, mas... Mais tarde no mesmo dia, eu vi você a seguindo, observando de longe, cuidando para que ela estivesse bem...
– Foi uma decisão provisória... Ela precisava de ajuda.
– Eu sei. Mas eu percebí que tinha mais do simples preocupação ou culpa por trás de suas atitudes...
Alice apoiou as costas no tronco da árvore e fitou o céu por entre os galhos e folhas. Eu esperei que ela concluísse.
– Algumas semanas depois eu tive uma visão muito clara... Sólida. Você e ela na campina para onde Edward costumava leva-la... Vocês se olhavam de uma maneira tão... – ela suspirou outra vez, forte – Apaixonada... – a dor saturou cada letra da palavra, e eu abaixei minha cabeça, culpado – Então eu compreendi que você não tinha apenas descoberto que não me amava mais no dia em que me deixou... Você tinha descoberto que amava Bella...
– Alice, eu não deixei de te amar...
– O amor que sente por mim agora é diferente. – Ela voltou seus olhos pra mim, e eu podía perceber a segurança em sua afirmação – O que sente por ela é mais forte do que qualquer outra coisa que já sentiu... Não é?
Eu respirei fundo antes de adimitir.
– Sim. Me perdoe, eu nunca quis magoa-la.
– Passamos mais de cinquenta anos juntos, Jazz... Eu conheço bem você. Sei que não quería magoar a nenhum de nós, nem a mim, nem a Edward...
– Mas estou fazendo isso, mesmo assim.
– Você não tem como evitar. Não dependía de sua vontade.
– Eu posso... – comecei a pedir, sabendo que ela, provavelmente, sabía o que eu quería fazer.
Alice sorriu e abriu os braços, e eu a envolvi com os meus, apertando-a forte contra mim, conforto me alcançando.
– Há alguns dias vi Edward com Bella... Implorando a ela que o aceitasse de volta... – ela murmurou em meu ombro – E alguns dias depois ví você aqui, destruído. E soube que precisava de mim.
– Eu não quero que passe por isso, Alice. Não quero te machucar mais...
Ela se afastou e segurou meu rosto em suas mãos minúsculas.
– Eu te Amo, Jasper Withlock. Independente se você ainda sente por mim a mesma coisa ou não. Eu nunca deixaría que sofresse sozinho, desamparado... Eu sempre vou estar aqui pra você.
Eu a abracei novamente e enterrei meu rosto em seu pescoço esguio.
– Obrigado, Allie... – sussurrei.
Ela assentiu em silêncio.
Ficamos abraçados por um tempo interminável, sua presença, seu amor, seu carinho me fazendo sentir seguro, tranquilo.
– Os outros sabem...? – perguntei depois de um momento.
Alice se afastou para me olhar.
– Carlisle e Esme sim. Eles estavam comigo quando tive a visão da campina, e eu fiquei um pouco... – ela procurou por palavras – Abalada. Eles me sustentaram durante a visão e depois... E eu precisei explicar a eles.
Eu fiz uma careta, imaginando a desaprovação deles. Alice percebeu.
– Eles não te julgam, Jasper, pelo contrário. Quando eu expliquei tudo que vi, antes e naquele momento, eles acharam sua atitude cuidadosa com Bella muito nobre, e compreenderam que seus sentimentos por ela são espontâneos. Você não procurou por isso.
Eu expirei sentindo alívio.
– Eu tive uma visão esta manhã, no caminho pra cá...
Eu a olhei de forma indagativa, e ela me olhou com seriedade.
– Eu vi você indo embora de Forks... E caçando humanos em seu desespero...
Eu arfei. Não tinha considerado sucumbir à minha fraqueza, mas imaginei que, em meio à dor que eu sentía, aquilo era muito provável se eu fugisse para ficar longe de Bella.
– Não se preocupe. Assim que decidi vir pra cá, esse futuro desapareceu. Eu não vou permitir que faça isso.
– Eu não farei. – assegurei.
– Carlisle e Esme querem voltar... – ela disse como se me pedindo permissão – Mas decidiram esperar por notícias minhas, para terem certeza de que era conveniente neste momento.
– Está pedindo minha opinião?
– Sim. – ela deu de ombros.
– Eu não sei. – expirei – Vai ser um show de dor enquanto eu estiver presente por aqui...
– Jasper, eu preciso te falar uma coisa...
Alice tomou minha mão na dela e aprofundou seu olhar no meu. Eu sentí sua apreensão, e entendi que se tratava de algo que eu não apreciaría saber.
Respirei fundo.
– Edward decidiu algo esta manhã... – ela pausou, me avaliando – Algo que me fez ter uma nova visão, uma muito firme e cristalina...
Eu apertei sua mão, e ela retribuiu o gesto, me passando força.
– Bella será uma de nós... – sua voz estava hesitante – Eu a vi com ele... Iguais. Companheiros.
Eu fechei os olhos e deixei que a dor me tomasse. Ela era tão maior que eu, eu não tería forças para combate-la...
Sentí meus joelhos cederem e os braços de Alice à minha volta, protetores, consoladores. Meu peito vibrou forte, sacudindo meu corpo e levando o dela com os movimentos.
– Jasper... – sua voz encheu meus ouvidos, e seu amor acalentou meu coração morto.
Mas nada, absolutamente nada iría me salvar.
Eu não compreendia porque um sentimento tão puro e sublime podería me causar tanto desespero, porque eu sentía aquilo se nunca tería Bella pra mim. Eu me sentía pela metade, partido, desmembrado... Não era justo ter um sentimento tão poderoso quando tudo que eu faría com ele sería mantê-lo em mim, e apenas para me devastar, não fazía sentido...
Era uma maldição. Só podía ser uma maldição.
Talvez fosse o destino, ou Deus, se ele existía, me fazendo pagar por todo o sofrimento que causei a tantos, por todos os assassinatos frios, por todas as vítimas, por cada recém-criado que matei...
A compaixão de Alice me cobriu como um véu, no mesmo exato instante em que a saudade e o remorso de Bella me alcançaram, como se ela estivesse alí também... Eu não suportei.
Me afastei de Alice bruscamente e trovejei pela floresta, sem raciocinar.
Eu podía senti-la atrás de mim, correndo tentando me alcançar, ou talvez estivesse apenas me seguindo, para garantir que não faría nada de que fosse me arrepender depois.
Cada metro de distância que eu colocava a mais entre eu e Bella, suas emoções ficavam mais fracas, menos perceptíveis, e um vazio começou a se colocar no lugar delas.
Um buraco profundo se instalou em meu peito, e parecía, de repente, que eu precisava de oxigênio para continuar vivo, e não tinha o suficiente.
Estava quase no limite de Washington quando o cheiro ardeu em minhas narinas.
Era suave e selvagem ao mesmo tempo, e minha memória brincou comigo. Era um odor familiar, eu o conhecía, mas não conseguía identificar a quem pertencía. Eu estava confuso e envolvido demais em meu próprio tormento, então não revolví muito o assunto em minha mente, mas algo estava errado, com toda certeza.
Coloquei isso de lado e continuei, por horas, com Alice em meu encalço, até que a paisagem se alterou ao meu redor, e eu soube que estávamos quase alcançando o Alaska.
Eu parei, estranhamente me sentindo cansado, e afundei no chão semi-coberto de neve recente.
Quería, mais do que tudo, poder chorar naquele momento. Quería ter como desabafar a dor, coloca-la pra fora, mas não havía escapatória. Eu tería de conviver com aquilo, pela eternidade, ou encontrar um fim para minha existência.
A ideia dançou cruelmente em minha cabeça, como uma tentação, um atalho no caminho...
– Não! – Alice arfou, já com as mãos em meus ombros – Não se atreva a pensar nisso!
Eu enfiei meu rosto nas mãos e suspirei seguidas vezes, tentando encontrar equilíbrio. O vazio ameaçava engolir minha sanidade, e eu compreendí a razão para Alice ter me visto sucumbindo à minha natureza.
– Jasper, eu nunca te vi assim... – ela falou espantada e compassiva – Eu... Eu não sei o que fazer...
– Você não pode fazer nada... – Eu consegui arfar – Eu só preciso ficar longe... Por algum tempo... E sozinho.
– Não. – ela decretou – Eu não vou deixar você sozinho de forma alguma. Nem adianta insistir. Aonde quer que você vá eu irei, e ponto final.
Pelo que eu conhecia dela ela estava falando muito sério, e nada a demovería. Eu suspirei e forcei um sorriso, mas não a convencí. Alice estreitou os olhos e me abraçou, e eu permití que ela me acolhesse em silêncio mais uma vez naquela noite interminável.
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Estávamos caminhando de mãos dadas, em silêncio, em direção à trilha que nos levaría de volta a Forks. Sabíamos que teríamos de começar a correr se quiséssemos chegar antes do dia nascer, mas, não tínhamos pressa.
Alice parou em um dado momento, seus olhos brilhando.
– Você podía ir para seu rancho no Texas! – ela sorriu – Faz tempo que não vai até lá e você ficava sempre tão em paz quando íamos! Te fará bem, o que acha?
Eu sorri fracamente, contagiado por seu brilho, sua energia natural. Alice fazía tudo parecer sempre tão mais bonito do que realmente era...
Considerei a ideia por alguns instantes, percebendo que nunca havía comentado com Bella sobre ter comprado e mantido a casa onde nascí, preservando a única coisa que me ligava físicamente ao humano que um dia fui.
Distância. Era o que eu precisava. Mas Bella havía me pedido para não partir e eu tinha prometido...
– Sería só por um tempo, Jazz – Alice murmurou, talvez entendendo minha hesitação.
– Eu não sei...
– Pense um pouco... – Ela pediu – Esse primeiro momento de reconciliação, as emoções estarão em todo lugar... Vai ser... Um pouco demais...
Eu não precisei me esforçar para imaginar a situação posta em minha frente... Alice tinha razão, e ela nem sabía que eu tinha a capacidade de detectar os sentimentos de Bella há longas distâncias...
Tomei uma respiração profunda e analisei friamente a possibilidade...
– Você viría comigo... – confirmei quietamente.
Alice pareceu surpresa, o que pra mim era novidade. Dificilmente ela era pega de guarda baixa.
– Eu não acho uma boa ideia... – ela hesitou – Bella pode entender errado, e eu não quero magoa-la...
Sempre generosa... sempre pensando mais nos outros do que em si mesma... Esse era um dos motivos pra eu querer tanto bem a Alice.
– Bella fez uma escolha, Allie... Ela não tería direito de me cobrar nada... – assumi – Além disso ela sabe o que sinto, por você e por ela, eu tenho certeza de que ela compreendería... E não é como se fosse acontecer alguma coisa entre nós dois, eu... Só preciso de sua presença. Você sempre me trouxe conforto nas horas mais críticas. — eu parei — E você disse que não me deixaría sozinho "de forma alguma". — completei parafraseando ela.
Ela riu, depois deliberou por um instante, e suas emoções flutuaram até mim. Existía preocupação, hesitação, alguma mágoa... Mas o amor era mais forte, o cuidado era maior, e prevaleceu.
– Eu disse isso mesmo... — murmurou com um sorriso brincando em seus lábios — Como amigos? – ela me olhou.
– Como amigos. – concordei, e em seguida a olhei com adimiração – Você está mesmo bem com isso, não é? Com o fato de nós dois não sermos mais um casal...?
Ela deu de ombros.
– Depois das visões... E de ver como você está... – ela suspirou e apertou minha mão ternamente por um instante – Eu amo você com tudo que tenho, Jazz... E sua felicidade é muito importante pra mim... E Bella... Eu sinto como se fôssemos irmãs de verdade... Eu não podería ter raiva de vocês... Não foi culpa de nenhum dos dois... – ela parou e me encarou de frente, o olhar grave – Ainda sofro com nossa separação, sei que pode sentir isso... Mas eu vou superar sua falta, e sei que posso ser parte de sua vida ainda que não da maneira como eu imaginei que sería. Serei sua amiga, sua melhor amiga... É a parte de mim que você precisa agora. Então é o que eu serei.
Eu envolvi seus ombros estreitos em um abraço e a apertei, projetando gratidão e todo o amor que eu sentía por ela.
– Obrigado por estar aqui, Allie... Não sei onde estaría agora se não fosse por você. Em todos os sentidos.
Ela se colocou na ponta dos pés e beijou minha bochecha, sorrindo.
– Vamos correr? – ela sugeriu – Quero ver a Bella antes de partirmos, e você precisará se despedir.
Eu fiz uma careta, mas consegui afastar momentâneamente a dor. Alice me fazía bem de formas que eu nem entendía.
– Não acho uma boa ideia... Me despedir... – murmurei – Vai ser difícil pra nós dois... Você viu isso?
Ela piscou o olho pra mim com um sorriso provocador nos lábios, o olhar arteiro.
– Eu sei do que precisa. E nada de perguntas sobre visões. Eu estarei fora do ar por esses dias.
E então ela me guiou, e começamos a correr de volta a Forks.
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Chegamos à casa perto do amanhecer, e Edward estava empoleirado em sua janela, o semblante triste, as emoções tumultuadas. Assim que o cheiro de Alice o atingiu ele arregalou os olhos e saltou, pousando no chão sem fazer som, e parou há centímetros dela, surpresa e alegria afastando suas emoções obscuras.
– Alice! – Ele arfou.
– Oi Eddie... – Ela sorriu, verdadeiramente satisfeita ao reencontrar o irmão favorito.
Eles se abraçaram e eu sentí a conexão perfeita, que sempre existiu entre eles, pulsar intensamente. Eles eram como gêmeos, sempre cúmplices, como nem mesmo irmãos de sangue seríam.
– O que faz aqui? – Edward perguntou.
– Eu vim porque... – Alice se interrompeu, voltando o olhar pra mim rapidamente e depois de volta a ele – Soube que tinha voltado. – Falou parte da verdade – Carlisle e Esme ficaram preocupados....
– Darei notícias. – Ele falou um pouco envergonhado – Quanto tempo pretende ficar?
– Não muito, por enquanto... Mas acredito que em breve toda a família estará de volta, então não demorará até estarmos todos juntos.
Edward piscou, levemente confuso ao se dar conta de que minha mão segurava a dela. Logo uma vibração de alívio começou a toma-lo e eu entendi o que ele estava considerando.
Não é o que pensa. Falei em minha cabeça, e ele vincou a testa.
– Como está Bella? – Alice perguntou a ele, desviando seu foco de mim.
– Bem... – ele respondeu, tentando retrair sua insegurança e receio.
Por que ele não estava feliz?
Não era justamente o que devería estar sentindo, já que havía recuperado Bella? Felicidade?
Mas ao invés disso alí estava ele, fazendo muito força pra disfarçar o medo e a melancolía que parecíam estar lhe consumindo.
– Ela virá hoje... – Alice falou e eu me retesei. Porque ela não tinha me avisado? – Chegará em duas horas.
– Sim, ela... Ela quer... – Edward começou a falar, e depois voltou o olhar pra mim.
– Falar com Jasper. – Alice completou, o interrompendo.
Eu a olhei com alarme. Ela tinha visto isso tudo antes de chegarmos, ou apenas agora?
Edward assentiu, incapaz de conter por mais tempo sua fragilidade. Então era por isso que ele estava tão apreensivo? O que isso significava?
Tentei não considerar que Bella havía mudado de ideia. Não precisava criar esperanças infundadas, pra depois ter meu coração destroçado novamente.
– Alice, podemos conversar? – pedi, pressionando sua mão com delicadeza.
Edward olhou para nós dois se sentindo desconfortável.
– Eu vou caçar rapidamente nos arredores... – falou – Volto antes que Bella chegue.
Eu dirigi um olhar tranquilo em direção a ele, e Alice sorriu. Assim que o vimos partir, eu me voltei para a pequena vampira ao meu lado.
– Sim, eu tive uma visão sobre isso. – ela se adiantou à minha pergunta – Não, eu não vou te falar o que ela quer conversar... – suspirou – Isso é entre vocês dois, Jazz... Já basta que eu fico vendo tudo acontecer antes... Não quero me meter no que não preciso. Só vou falar alguma coisa se for caso de vida ou morte, caso contrário, não me pergunte, eu não vou dizer.
Eu suspirei depois do bombardeio de palavras dela. Inseguro e nervoso.
– Não se preocupe... – Alice afirmou com uma mão em meu ombro – Amanhã estaremos no Margaridas, e você estará montando seu cavalo, e sorrindo ao pôr do sol.
Por um segundo eu fui capaz de visualizar a cena... Eu no dorso do Thunder, cavalgando pelo rancho, os últimos raios de sol do dia aquecendo minha pele...
Sorri pra Alice. A perspectiva de alguma paz no meio daquele tumulto de sentimentos me trazendo algum conforto.
– Vamos arrumar suas coisas? – ela sugeriu animada – Eu precisarei fazer compras... – ela bateu as palmas das mãos com entusiasmo – mas isso pode esperar até estarmos no Texas.
Eu ri espontâneamente.
Sim. Sería bom pra mim passar algum tempo longe, na presença da Allie. Isso recarregaría minhas forças.
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Como previsto, em torno das oito da manhã eu ouvi o carro de Bella entrar na propriedade. Percebi a presença de Edward no andar de baixo, e com ele, sua tensão.
Uma onda de hesitação misturada com saudade e incerteza me atingiu com força, e eu entendi que minha concentração para impedir que as emoções de Bella me alcançassem não estava mais funcionando.
Alice segurou minha mão, direcionando um olhar encorajador pra mim, antes de desaparecer pela porta do quarto. Eu a segui com apreensão pela reação de Bella ao vê-la. Não quería nem imaginar o que sentiría ao saber que me afastaría de Forks, e com minha ex-esposa como companhia...
Quando alcancei a sala Edward abria a porta, e eu tive uma visão privilegiada da surpresa com que Bella encarou a melhor amiga.
– Alice... – ela arfou.
A primeira emoção que ela vibrou foi contentamento. Depois uma saudade gigantesca atrelada a um amor puro e profundo.
Ela se atirou nos braços abertos de Alice, sorrindo abertamente enquanto se apertava contra o pequeno corpo de pedra que lhe recebía com enorme satisfação.
Então Bella congelou, caindo em si, culpa e remorso lhe angustiando e descolorindo sua face. Ela se afastou de Alice bruscamente, e olhou dela pra mim, e de volta pra ela, com os olhos maiores e atormentados.
– Ah meu Deus! – Ela sussurrou, colocando a mão sobre a boca – A-Alice eu... Eu não...
– Shhh, Bella. – Alice segurou suas mãos e sorriu – Eu sei... Não estou magoada com você... – assegurou com um olhar terno – Nós podemos conversar depois se você quiser mas, agora eu acredito que você tem algo a fazer, não?
Bella estava mais do que incrédula, mas algo dentro dela fez com que suas emoções mudassem rapidamente. Ela olhou pra mim com cautela, e quando nossos olhares se encontraram, e ela percebeu a dor que dançava dentro de mim, sua testa enrugou, e ela se voltou para Edward, que havía permanecido como eu, observando tudo em silêncio.
– Se importa de nos deixar a sós por um momento? – Bella pediu com delicadeza – Eu preciso de alguma... Privacidade.
Eu achava que a insegurança de Edward já tinha atingido seu limite máximo, mas de alguma forma ele conseguiu fazer com que o sentimento se tornasse ainda mais tangível.
Ainda assim ele assentiu, o olhar amoroso sobre Bella, e olhou para Alice com resignação.
– Me acompanha numa corrida? – ele forçou um sorriso.
Alice sorriu de volta, virou o rosto pra mim e piscou conspiratóriamente, depois se aproximou de Bella, segurando-a pelos ombros.
– Vamos conversar quando eu voltar... – E eu sabía que ela estava falando do retorno de nossa viagem, não do passeio com Edward – Senti saudades...
Bella anuiu com os olhos cheios de lágrimas, um pouco desconfortável, e então estávamos sozinhos.
Eu suspirei, sentindo o pico de tensão entre nós dois.
– Ela te faz bem... – Bella comentou sem me olhar – Pude sentir como estava quase tranquilo há pouco...
Não existía ciúme em suas palavras, ou em suas emoções. Uma certa mágoa talvez, e muita apreensão, mas não ciúme.
– Alice e eu temos uma ligação inexplicável... Ela consegue me confortar quando nem eu mesmo sou capaz... – falei num tom linear, contendo a agonia que me inquietava.
– E parece que eu só te causo dor... – ela comentou entristecida, claramente reconhecendo o que eu tentava, inutilmente, esconder dela.
Eu me aproximei dela num segundo, atormentado por sua melancolia. Segurei seu rosto entre minhas mãos e ela me olhou espantada, provavelmente pela rapidez de minha aproximação.
– Durante quatro meses você me faz o homem mais feliz do mundo, Bella... – murmurei – Apenas com sua presença, apenas me permitindo estar com você, compartilhar de sua vida... Cada momento ao seu lado foi um pedaço de paraíso que eu conhecí... Mas seu coração pertence a Edward,– ela abriu a boca pra falar mais eu a impedi, colocando dois dedos em seus lábios – eu sempre soube disso... Estúpidamente não consegui me impedir e tive esperanças... E vê-las destruidas, confirmar o que eu sempre quis que fosse negado, me causou a dor mais profunda que eu já experimentei em toda a minha existência, uma dor que eu não sei onde começa ou termina, que está me dilacerando por dentro... – suspirei – Eu estou tentando me conformar com isso... Mas não vai ser de um dia pro outro que as coisas vão mudar.
Ela segurou minha mão e deslizou devagar por seus lábios, a afastando.
– Eu sei... – sussurrou – Eu entendo e é justamente por isso que estou aqui. Ontem eu não tive chance de esclarecer meu ponto...
– Eu não permiti. – completei um pouco constrangido com minha atitude quase infantil do dia anterior – me perdoe por ter sido tão... impulsivo.
– Você estava ferido, eu sei bem o quanto... Eu posso te sentir, lembra? – sorriu tristemente – Essa é mais uma coisa sobre a qual quero falar...
– Ok. – expirei – Vamos conversar propriamente dessa vez.
Ela assentiu e eu tomei sua mão e entrelacei nossos dedos num gesto espontâneo. Ela não pareceu se importar, então a encaminhei para o sofá, e me sentei ao seu lado, sem libertar sua mão da minha.
– Edward e eu... – ela pausou, possivelmente ao notar o flash de mágoa que me atravessou – Nós reatamos ontem...
Minha mão imadiatamente soltou a dela, de uma maneira não muita delicada, e eu pude sentir a rejeição crepitar por ela, mas Bella pareceu entender minha reação.
– Eu já esperava por isso. – falei com apatia.
– Jasper eu preciso que entenda porque estou fazendo isso... – ela me pediu, o tom quase desesperado.
– Eu sei porque, Bella. – a cortei com suavidade – Você o ama. É com ele que está seu coração.
– Não... – ela fechou os olhos com impaciência e contrariedade, e eu me senti confuso – Quero dizer, sim eu o amo, mas não é só por isso que aceitei voltar com ele...
– O que está tentando me dizer?
Ela respirou fundo, tentando se acalmar, e depois me fitou com olhos doces e implorativos.
– Eu preciso ter certeza... – sua voz soou agoniada – Eu preciso ir até o fundo disso pra não ter de olhar pra trás depois, me arrepender e magoar você, Edward, e Alice, mais do que já estou fazendo...
Eu espalmei minha mão na frente dela, incerto se estava compreendendo.
– Você voltou com ele – falei devagar – pra colocar em prova, o que sente por mim...? É isso?
Ela tomou uma respiração profunda, e além da angústia e do medo que já a envolviam, constrangimento precipitou-se dela até mim.
– Sei que parece cruel... – ela murmurou olhando as próprias mãos sobre o colo – Que parece que eu estou usando o Edward para testar meus sentimentos, mas não é assim... – ela suspirou – Eu não sei o que acontecería entre eu e ele se nunca tivesse havido a separação... Se eu e você, de alguma forma, nos voltaríamos um pro outro... Então eu preciso ter certeza se não é Edward que está em meu destino... Eu preciso mergulhar no que sinto por ele pra entender... Porque o que sinto por vocês dois é intenso na mesma medida, mas absolutamente diferente entre si, eu não tenho como comparar. Então só terei completa certeza quando chegar à essência disso.
Eu compreendía o que ela explicava, enxergava a lógica de seu pensamento, e concordava com ela. Mas isso não amenizava minha angústia.
– Porque está me falando tudo isso? – indaguei confuso com seu objetivo – Você não precisa de minha aprovação ou permissão, Bella. Você não me deve nada.
– É importante pra mim que você saiba. – ela falou com firmeza e segurança – Eu amo você. De verdade e de uma maneira que eu não consigo mensurar. – ela pausou, tocando minha mão com a sua, hesitando. Eu permiti que ela aninhasse meus dedos nos seus – Não entendo como isso aconteceu, ou como posso sentir tanto, por duas pessoas diferentes... mas é assim que é. E ontem, depois que você me deixou na escola, eu soube que não conseguiría ficar em paz se não te fizesse entender exatamente o que estou fazendo...
Eu não encontrava minha voz pra dizer alguma coisa... Na verdade não sabía exatamente o que dizer, então apenas a olhei, minhas barreiras há muito retraídas, expondo completamente tudo que eu sentía por dentro.
– Eu sentí você ontem... – ela falou com gravidade na voz, e a princípio não me surpreendi – Toda a agonia porque estava passando, e foi uma tortura...
– Eu não tenho como evitar, Bella... me desculpe por isso. Eu não tinha força pra levantar meus muros, mas mesmo que tivesse, sabe que eles não faríam diferença, você consegue me sentir mesmo através deles...
– Não. – Bella negou com a cabeça – Você não entendeu. Não estou falando de quando estávamos juntos em nosso canto... Esse foi mais um motivo pra eu querer te ver com tanta urgência...
– Eu não sei se estou conseguindo te acompanhar... – falei confuso.
Bella suspirou.
– Aconteceu um pouco depois que eu e Edward... – ela se interrompeu, e eu tensionei imaginando o que ela estava evitando comentar – Era tarde... Quase madrugada... Eu não conseguía respirar, parecía que estavam me estrangulando, uma dor tão intensa em meu peito... – ela colocou a mão livre sobre o coração, retorcendo o tecido da blusa em seus dedos – Edward me ajudou, tentou me manter de pé, mas era muito forte, eu nem conseguía pensar... E então eu sabía, de alguma forma, que eram os seus sentimentos que eu estava absorvendo. – eu arfei, chocado – Não me pergunte como mas eu tinha certeza... Eu tenho certeza. Eu estava te sentindo, mesmo você não estando lá.
Eu a fitei perplexo, verdadeiramente surpreso e maravilhado. Pelo que parecía não era só eu que podía senti-la há distância agora. E não havía sido uma distância pequena... Durante a madrugada eu estava bem além dos limites de Washington, correndo pra longe, me afastando do chamado das emoções dela...
O que aquilo significava? Como aquilo estava acontecendo?
– Eu pedi a Edward que voltasse e procurasse por você. Estava muito preocupada com o que você faría, estando naquele estado... – ela continuou – Ele não quería me deixar sozinha, porque eu estava muito abalada, mas eu implorei e ele se foi. Então depois de um tempo a sensação começou a enfraquecer, até não restar mais nada, como se nem tivesse acontecido. E eu podía respirar novamente. Liguei pra Edward ansiosa e ele me disse que você não estava na casa, nem nos arredores. Eu fiquei muito inquieta e quería vir aqui, esperar por você, mas já era tarde e ele me convenceu a esperar até que fosse de manhã. E então... Aqui estou.
Eu a olhava com alarme, ainda processando a informação como se meu cérebro fosse lento como o de um humano. Aquilo era muito mais louco do que o fato de existirem lobisomens e vampiros na mesma pequena cidade de uma península. Muito mais estranho do que um vampiro, ou melhor, dois, serem capazes de dominar seus instintos primais e toda a urgência provocada pelo sangue irresistível de uma garota humana, apenas para protegê-la deles mesmos. Muito mais inacreditável do que o fato dessa mesma garota humana representar o centro do mundo para eles, a ponto de ter ambos a seus pés, dispostos a tudo para tê-la.
Eu sacudi lentamente a cabeça, perdido em minhas próprias considerações sobre como a ligação entre eu e Bella se desenvolveu, e parecía continuar se desenvolvendo, sem nenhuma razão lógica aparente.
– Eu não entendo e sei que você está tão confuso e surpreso quanto eu... – ela disse – Mas você precisava saber.
Eu não sabía o que pensar, aliás estava sem capacidade de tudo no momento... Agir, falar, raciocinar... O mundo de repente parecía esse estranho amontoado de coisas sem sentido e acontecimentos atordoantes que não se encaixavam ou levavam para lugar algum. Eu me sentía dentro de um livro de ficção, ou de contos de fadas... Na verdade terror se aproximava mais da realidade, e cada vez mais eu me perguntava se isso tudo não tinha um significado maior, mais profundo, muito além do que estávamos enxergando...
Suspirei, vendo que não havía muito a se fazer em relação à nossa estranha conexão ou compartilhamento de dom, como parecía mais conveniente definir. Pelo menos não naquele momento. Então me ative a uma questão mais premente, que eu precisava informar a Bella.
– Eu passarei algum tempo longe. – disse de uma vez, e ela arregalou os olhos, pânico fluindo dela direto pra mim.
– V-você está indo... Embora? – seu tom repentinamente era de desespero.
– Não. – assegurei – Eu só preciso de um tempo longe de tudo isso. Pra colocar minha cabeça e meus sentimentos no lugar.
Bella me encarou controlando as lágrimas, engolindo com dificuldade e respirando um pouco mais rápido.
– Mas você vai voltar? – pareceu mais um pedido que uma pergunta.
– Não tenho certeza de quando... – alertei com cuidado – Mas sim. Eu vou voltar.
Bella não sentiu qualquer alívio com minha afirmação, na verdade seu receio se elevou um pouco, e eu compreendi o motivo assim que ela me fez a pergunta.
– Alice... vai com você...? – ela indagou com cautela, e nesse momento eu percebí o ciúme permeando a insegurança.
Eu não tinha porque mentir.
– Vai... – confirmei, e seu olhar se desviou para longe de mim, mágoa tomando seus sentidos – mas não é como você pensa, Bella...
– Eu não tenho direito de te cobrar nada... – ela murmurou com a voz trêmula, sem olhar pra mim – Eu acredito no que me diz, sei que não está mentindo, e não é porque posso sentir suas emoções... Eu confio em você. Mas você não me deve qualquer satisfação.
Eu puxei seu queixo com delicadeza para que ela olhasse pra mim. Seus olhos estavam rasos, prontos para transbordar.
– Eu te amo, Bella... – afirmei enquanto o sentimento latejava dentro de mim, e ela arquejou, sendo atingida pela intensidade inegável – Eu ainda quero te falar tudo sobre isso pra que você possa entender o quanto, mas agora... Agora eu preciso me recolher e lamber minhas feridas... E Alice... Ela sabe exatamente como me acalmar, como me centrar, me dar chão... – expirei – Eu quero estar em sua vida de alguma forma, quero cumprir minha promessa e, preciso recuperar minhas forças pra isso, pra enfrentar a realidade e ser capaz de suporta-la... você entende? – ela assentiu, e a umidade transbordou com o movimento.
Eu colhi as lágrimas com as pontas de meus dedos, e sentí a eletricidade correr por meu corpo com o toque de nossas peles.
Nós nos olhamos, sabendo exatamente o que o outro sentía, e eu sabía que estaríamos nos beijando em segundos se eu não me afastasse.
Libertei seu rosto e me levantei devagar, engolindo em seco, enquanto ela suspirava nervosa.
– Quando você vai? – ela indagou encarando o chão.
– Assim que Alice retornar o que, se eu bem a conheço, não deve demorar muito...
Bella se levantou, se aproximou de mim subitamente determinada, e envolveu meu pescoço com seus braços. Eu a rodiei de forma automática, como se meu corpo obedecesse a um comando invisível.
– Sentirei sua falta, major... – e a palavra dessa vez não tinha qualquer entonação maliciosa ou provocativa, era apenas o apelido que ela usava pra se referir a mim, algo que reafirmava a profunda intimidade que tínhamos.
Eu suspirei e sorri, enterrando meu rosto em seu cabelo.
– Eu também sentirei a sua, garota... – murmurei – cada segundo em que estiver longe...
Eu me afastei um pouco e deixei um beijo singelo em sua testa, no exato momento em que Edward e Alice entraram pela varanda.
Ignorando o tornado de emoções que vinham de meu irmão, eu soltei Bella e olhei pra Alice.
– Está na hora... – ela sorriu.
Eu assenti e me voltei para Bella uma última vez.
– Quando eu voltar, vou te contar tudo... – prometi.
Ela assentiu, então eu senti a mão de Alice na minha, e em mais alguns segundos nós dois estávamos no carro, partindo.
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