Destinados
11 A descoberta estarrecedora
Notas iniciais

Thunder não se afastou do meu toque quando afaguei seu focinho. Ao invés disso ele pressionou a fronte em minha palma, inspirando instintivamente meu cheiro.
Era incrível como um animal tão majestoso, tão imponente, se rendía ao meu comando, ainda que eu não estivesse manipulando seus instintos. Evidente que o fato de meu único cavalo ter sido o único animal que permitiu aproximação suficiente para adestra-lo me provia vantagem, mas ainda assim, eu nunca deixaría de me sentir maravilhado com a aceitação dele. Eu, um vampiro, o mais perfeito predador do mundo, devería exacerbar o instinto autoprotetor do animal... Mas ele nunca sequer hesitou com minha aproximação.
Deslizei meus dedos por sua pelagem absurdamente macia, e a cor profundamente castanha me trouxe lembranças dolorosas...
Os olhos de Bella... Seus cabelos roçando sua cintura...
Nada do que eu fazía me afastava das lembranças, da saudade, da vontade de voltar... Mas eu estava indo bem. Estava mais forte, menos vulnerável, menos frágil do que quando eu e Alice chegamos em Margaridas, meu rancho no Texas.
Fazíam seis semanas... Um período quase prolongado para a percepção humana, mas parecíam apenas dias pra mim. Eu me perguntava se Bella estaría sentindo minha falta, ou se estaría feliz e ocupada demais com Edward para sequer notar minha ausência.
Num gesto fluído eu montei meu cavalo, e ele, muito mais instintivo que qualquer outro que eu já tenha encontrado, galopou imediatamente para fora do pequeno estábulo.
Thunder manteve seu ritmo, lento e constante, enquanto eu me ocupava de observar a paisagem morna e extremamente colorida de minha propriedade. O vento soprava indócil me trazendo todo tipo de aroma, provocando sensações diversas, mas nunca me distraindo. Em certa altura eu fechei os olhos, concentrado em mim mesmo e nos meus sentimentos por Bella, apenas para visualizar as emoções que, somente quando eu estava sozinho, eu permitía que se expandissem de dentro de mim.
Os arcos tremularam em seu giro quando eu senti o desejo de alcançar Bella pulsar. E, para minha completa perplexidade, eles se esticaram, se afastando de mim para além da distância que eu já os tinha visto atingir.
Uma dúvida agitou minha mente, e eu especulei se o fato de poder reconhecer as emoções de Bella há grandes distâncias se desse, justamente, devido às grandes extensões que os arcos de meus sentimentos alcançavam...
Deixei que minha saudade fluísse com mais força, e aprofundei minha concentração na vontade de saber como ela estava. Como eu suspeitava, os arcos se expandiram ainda mais, até que eu não pudesse mais enxergar sua forma com clareza.
Então eu senti.
Forte e potente, uma saudade inexplicável me alcançou. Eu arfei, surpreso, satisfeito e confuso ao mesmo tempo.
Sim, eu podía senti-la mesmo daqui... Mesmo há mais de três mil quilômetros de distância de onde Bella estava agora, apenas me concentrando na necessidade de ter notícias dela.
Um sopro morno alcançou meus ouvidos, e o vento inesperado trouxe uma voz inconfundível.
Jasper...
Apenas um sussurro, mas a impressão de que ela estava ao meu lado me atormentou prontamente.
Eu estava enlouquecendo?
Abri meus olhos para a paisagem rica. Thunder parou embaixo de mim e eu sabía que tinha projetado minha surpresa involuntariamente, e que isso o tinha assustado. Desmontei e me sentei na grama alta, sentindo uma angústía estranha. Respirei fundo, me concentrei novamente, e fiz mais uma tentativa.
Dessa vez os arcos se movimentaram numa fuidez repentina, e logo eu experimentava a saudade novamente... Com ela se misturava uma melancolía contida, e eu podia reconhecer a essência dos sentimentos de Bella sem dúvida alguma.
– Bella... – suspirei sem abrir os olhos, desejando ardentemente que o tom suave dela me alcançasse outra vez.
E para meu completo espanto, foi exatamente o que aconteceu.
Como da primeira vez, o som se apresentou em uma brisa...
Eu podería considerar aquilo como uma alucinação, uma fabricação de minha mente desesperada em manter qualquer conexão com Bella, na tentativa ensandecida de segurar a esperança de que ela estava sofrendo com nosso afastamento.
Tentei me convencer que era só uma lembrança, uma reprodução de meu cérebro acentuado por minha própria saudade. Afinal, apesar de minha audição super sensível devido à minha natureza, eu nunca fui capaz de ouvir a voz de alguém que está em outro estado...
Mas o que eu realmente sabía? Antes de Bella meu poder nunca foi tão extenso, eu nunca consegui identificar os sentimentos de outro ser há tão longas distâncias... Na verdade eu continuava não possuíndo essa habilidade a não ser com ela...
Alice, com quem eu tinha compartilhado pouco mais de meio século de um relacionamento muito cúmplice, a quem conhecía muito bem, cheiro, essência e emoções, estava há apenas três quilômetros de mim, dentro do rancho, e eu não podía experimentar seus sentimentos, enquanto com Bella eu havía sido capaz de reconhecer, sem esforço, até mesmo suas mudanças de humor mais sutis, estando triplamente mais distante.
O que tudo aquilo significava?
Essa dúvida corroía minha mente de maneira indócil, tornando ainda mais difícil a aceitação do fim de uma história que nem tinha começado...
Eu sentía como se Bella e eu tivéssemos uma conexão sublime, maior que tudo que existía nesse mundo mítico onde monstros como eu e anjos como ela coexistíam... Eu não conseguía reprimir a sensação de que ela tinha sido feita pra mim, que ela era a razão de eu ainda existir, ainda estar vivo sobre mais de cento e sessenta anos e duas vidas, caminhando sobre a terra com um coração estagnado no peito...
Mas como isso podía ser se ela pertencía a Edward?
Eu não podería estar mais confuso se fosse humano...
Abri os olhos dispersando os pensamentos. Quanto mais eu considerava, mais atordoado eu ficava, e mais tempo eu precisaría para me recuperar e retornar. E eu não suportaría muito mais tempo longe dela...
Me levantei e caminhei de volta devagar, guiando Thunder pela rédea, me prendendo ao som da terra úmida coachando embaixo de minhas botas, no calor do sol em minha nuca, no vento suave que soprava meu cabelo.
Entrei na casa já ao anoitecer, encontrando Alice empoleirada no sofá, os olhos vazíos e fixos num ponto além do que eu podería enxergar.
Me sentei ao seu lado, não querendo interromper seu processo, e esperei. Quando ela voltou a si, seu olhar ansioso buscou meu rosto, e logo seus braços me rodeavam fortemente.
Sua tristeza e compaixão estavam em todo lugar, me esmagando. Eu elevei minhas defesas e me protegí, sabendo que um novo rumo estava traçado na relação de Edward e Bella, e que me afetaría diretamente.
Antes que eu pudesse perguntar, Alice se afastou de mim, segurando meu rosto em suas mãos.
– Eu sinto muito, Jazz... – Ela soluçou. E eu tenho certeza de que se nós pudéssemos verter lágrimas, ela estaría aos prantos.
– O que você viu, Allie? – praticamente exigi, com meu tom e meu olhar – Bella está bem, não está?
Se ela estivesse viva tudo mais sería suportável.
– Eu vi o... – ela respirou desnecessáriamente, e eu sabía que era apenas um ato reflexo para se acalmar – O casamento...
Meu coração supérfluo se contorceu, mas isso não era nada mais além do que eu já esperava.
– Eu sabía que isso acontecería, Allie... Eu sabía que Edward a pediría em casamento assim que acreditasse que o momento havía chegado... – murmurei, agonizando por dentro, retendo minhas próprias emoções para que ela não fosse nocauteada com uma projeção acidental de minha parte.
Alice negou com a cabeça.
– Isso não é tudo... Eu ví a transformação de Bella, logo em seguida... E como você ficou assim que ela se tornou uma de nós... Você estava destruído! Como se... Como se a vida tivesse te deixado... Como se sua alma tivesse sido sugada de você...
– Alice... Eu já não tenho vida ou alma há mais de cento e sessenta an...
Ela me interrompeu.
– Você não entende! – ela falou desesperada – Enquanto ela estava passando pela transformação, você sofreu junto com ela, mesmo estando longe, como se estivesse em transição também... E depois... Você mudou, alguma coisa em você se partiu irreversivelmente... Você se tornou... Você se voltou pra seus instintos mais primitivos... Se tornou... Mau...
Eu me empertiguei.
– Como assim, Allie? – indaguei, sentindo que sua resposta não sería nada agradável.
– Eu ví você voltando para Maria... Seus olhos... – A voz dela morreu, enquanto eu compreendia as implicações de sua visão.
– Alice... – arfei – O que tudo isso significa? Que quando Edward reclamar Bella como sua companheira eu vou desistir de tudo que demorei mais de cinquenta anos para alcançar? Sabe que eu não faría isso, ainda que...
– Não depende de você... – ela murmurou.
Eu me remexi no sofá e a encarei com inquietude.
– Eu não entendo...
– Jasper, eu não leio mentes como Edward, nem absorvo e manipulo sentimentos como você, mas... Eu sei, eu sinto, por tudo que ví, por tudo que presenciei em minha premonições... A ligação que você tem com Bella não é mera paixão... Existe algo... Algo maior, algo que eu não entendo... E o fato dela ser transformada por outro que não você... Isso vai te afetar de uma forma que eu nem mesmo compreendo... Você vai ser sugado por uma obscuridade sem igual... Nada, nem mesmo sua força de vontade vai impedir essa transformação...
Eu não sabía o que dizer, estava perplexo e confuso, mergulhado numa tensão que praticamente me retinha no estado petrificado em que me encontrava.
Eu jogaría fora tudo que conquistei para retornar ao meu monstro interior? Aquele que fui por tantos anos no meu começo dessa vida? Sería mesmo possível que a perda de Bella me afetasse e destruísse tão completamente assim?
Eu não podía acreditar nisso...
Sim, era óbvio que perder Bella definitivamente me alteraría para o resto de minha existência, mas eu não quería ser um mostro novamente, um assassino... Eu quería estar bem, para cumprir minha promessa e estar presente na existência de Bella, mesmo que ela não fosse minha... Isso já sería suficiente para me manter continuando, seguindo, e eu sabía que ela quería isso também...
– Quando? – as palavras escorregaram por minha garganta num sussurro incrédulo.
– Logo... – ela disse com pesar – Alguns meses...
Me levantei de súbito.
– Precisamos voltar.
Alice segurou meu pulso.
– Não. Não agora. Não enquanto eu não souber quais decisões desecandearam e desecandearão esse futuro pra você. Eu preciso de um tempo... Preciso analisar as possibilidades.
– Alice, eu preciso conversar com ela... – falei sentindo a urgência me engasgar – Talvez se... Talvez se eu explicar a ela tudo que... Que sinto... A maneira como sinto... Se eu pedir que reconsidere...
– Jasper, eu não tería tido uma visão tão sólida se a decisão dela não tivesse sido tomada... – ela hesitou, concentrada em meu olhar – Você sabe que... Se eu ví o casamento significa que... Não foi a simples decisão de Edward em pedi-la... Ela já aceitou.
A realização recaiu sobre mim.
Sim. Era óbvio. Eu sabía disso, mas a esperança traiçoeira havía me cegado de tantas formas distintas...
O choque que percorreu meu corpo de pedra podería ter matado imediatamente um homem comum, humano. Em mim o efeito foi doloroso a ponto de me dobrar sobre meus joelhos, e me fazer arfar em busca do ar que eu não precisava realmente.
Alice se agachou em minha frente, soluços secos partindo suas palavras quando ela tentou me confortar.
– Você precisa ser forte... – murmurou em meu ombro, tentando embalar meu corpo rígido em seus braços delicados – Se existir um outro jeito você precisa estar são... – seu tom era quase implorativo – Por favor Jazz... Por favor, não fica assim...
Eu não disse palavra. Não havía nada a ser dito, ainda que eu estivesse com minha capacidade de falar intacta, o que não era o caso. Apenas me deixei consumir pela dor, não me importando realmente se estava projetando, se minhas emoções estavam em todo lugar como eu acreditava que estavam...
Ela tinha aceitado... Ela tinha dito sim a Edward...
Estúpidamente eu acreditei que a distância e o tempo de afastamento fosse surtir algum efeito, e ela fosse enxergar o que eu enxergava, que de alguma maneira transcendental nós estávamos conectados, que o que existía entre nós tinha uma razão de ser muito potente...
Mas eu estava enganado... Redonda e completamente enganado.
Não faço nenhuma ideia de quanto tempo eu passei nesse estado entorpecido, ou o que Alice fez enquanto isso. Quando voltei a mim o dia seguinte já ía alto lá fora, e eu, pela primeira vez em toda a minha existência, estava com a mente completamente vazía, o peito absolutamente oco.
Me levantei com uma lentidão incomum a mim, e caminhei com o olhar desfocado até o porão do rancho sem saber bem o que estava fazendo. Podía sentir Alice em meu encalço, mas ela se manteve em silêncio, e eu nem percebía suas emoções.
Eu estava anestesiado.
Meus pés me guiaram até o grande e velho baú no fundo do cômodo, onde Alice havía guardado todos os pertences de minha família, objetos que estavam pela casa quando a comprei. Não entendí bem o porquê da necessidade esmagadora e repentina que me tomou de fuça-los. Sempre evitei mexer em todas aquelas lembranças de uma vida que eu não recordava, que não me pertencia mais, talvez por receio do que a saudade podería desencadear em mim. Mas atendi ao meu instinto, atordoado demais para me questionar sobre minha próprias atitudes.
Alice se sentou no chão comigo, me fazendo uma companhia muda enquanto eu descobria cada carta, cada album de fotos, cada pequeno adereço que costumava decorar a casa antes de minha chegada.
Seu ofego chamou minimamente minha atenção, e eu olhei para a lata esverdeada no colo dela com indiferença.
Na tampa de bordas enferrujadas estava gravado meu nome completo, Jasper Collin Whitlock, em letras cursivas.
Alice me entregou a lata com o olhar vago, e eu sabía que ela estava tendo uma nova visão, mas não me ative a isso. Meus dedos deslizaram pela gravação, e logo abriram a tampa.
Cartas e mais cartas, envelhecidas e amareladas pelo tempo, preenchiam o interior do pequeno conteiner. E, apesar de minha escrita não ser mais tão imperfeita há mais de um século, eu fui capaz de reconhecer minha própria caligrafía.
Passei os olhos rapidamente pelas primeiras. Eram textos sobre a guerra, declarações de saudades aos meus pais e irmãos, relatos sobre minha curta história como soldado. Aquilo claramente me pertencia na época em que eu era major, e aqueles papéis eram toda a minha lembrança do final de minha vida humana. Provavelmente fora entregue aos meus pais uma vez que fui considerado desaparecido...
Deixei o objeto de lado, retornando às fotos de meus irmãos mais novos, de quem tinha vagas recordações... Jackson e Martha. As imagens me contavam um pouco de como fora a vida deles quando já eram adultos, as famílias que criaram para si, a união da qual eu nunca fiz parte...
Enquanto eu mergulhava em memórias que não me pertencíam, Alice leu cada palavra que eu havía escrito, o que com nossa habilidade não demorou mais que alguns poucos minutos.
De repente ela congelou ao meu lado, a mão firme em meu antebraço.
– Jasper... – ela arfou, olhando para uma pequena foto da qual eu só tinha uma visão parcial.
Me voltei para ela com a mesma apatia de antes, meu olhar indagativo. Seus olhos estavam arregalados, e suas emoções finalmente me alcançaram demonstrando que ela estava espantada e atordoada com o que vía.
Eu segurei a imagem com os dedos rígidos, curioso com o que havía causado tamanha surpresa em minha ex-mulher.
Se eu tinha alguma dúvida quanto à minha ligação com Bella ser algo além do sobrenatural, esta dúvida estava sanada naquele instante.
Da fotografia desgastada, num tom de sépia desbotado e fosco que denunciava sua antiguidade, uma garota de pouco mais de dezesseis ou dezessete anos sorria. Um sorriso que era capaz de destruir ou fazer bater novamente meu coração.
Era Bella.
Com roupas de um século e meio atrás, usando os cabelos num coque comum àquela época, numa pose formal típica de um tempo onde fotos eram uma novidade cara, um quase “evento” em datas especiais.
Olhei as costas da imagem. 13 de setembro de 1862.
Eu já fazía parte do exército confederado. Eu já havía me tornado o mais jovem Major do Texas. Eu havía sido transformado alguns meses depois... Mas o que me assustou foi o fato de que a foto havía sido tirada na mesma exata data e mês do aniversário de Bella.
– Onde encontrou isso, Alice? – minha voz estava rouca, e minha mente dava voltas.
Ela me estendeu um envelope frágil endereçado a mim. Eu o virei para confirmar o remetente. Isabell Georgia Oconnell Bartley.
Eu podería estar trêmulo se fosse humano. Meu coração estaría pulsando alto em minhas têmporas se eu ainda fosse vivo. Minha boca estaría seca se eu ainda produzisse fluídos normais. E a confusão pela qual eu passava tería me enlouquecido se meu cérebro não fosse capaz de processar informações tão absurdamente adversas em um único segundo.
Com uma vagarosidade exagerada eu retirei a carta de dentro do envelope, sob o olhar atento e ansioso de Alice. A abri como se dela fosse sair uma bomba prestes a explodir.
28 de Janeiro de 1863
Meu querido Collin,
As tardes não são as mesmas sem nossos passeios.
Eu permaneço neste constante estado de espera por notícias suas, sempre apreensiva quando soldados surgem na comunidade trazendo bandeiras nas mãos encardidas, portando as más notícias que nenhuma família gostaria de ouvir.
Sua mãe tem estado taciturna, e Martha não sorri mais como é comum a uma criança de oito anos. Tenho me mantido ao lado delas, presente sempre que não preciso auxiliar minha mãe na mercearia, mas nada consola a senhora Bertha. Sua mãe sofre muito com sua ausência.
Jakson parece sempre ansioso demais, mas tem se mantido ao lado de seu pai na lida diária. O senhor Monroe não fala muito, e passa cada vez mais tempo trabalhando, sempre acompanhado de seu irmão. Eu vejo nos olhos de seu pai a dor da saudade e da preocupação, e cada vez que ele me olha nos olhos e sorri, eu entendo que sou algum tipo de esperança por seu retorno, mas isso nunca é o suficiente para que ele volte a ser alegre como era.
Toda sua família sofre por sua decisão, mas eu sei que você foi em busca de sua realização, em busca de seu ideal, e compreendo sua atitude.
Mas não posso fingir que não sinto sua falta.
Olho para seu anel todas as manhãs quando acordo, e todas as noites antes de dormir, recordando suas palavras doces quando me propôs casamento.
Leio e releio as duas cartas que recebi desde que você se foi, sonhando em ouvir novamente sua voz repetindo cada palavra amorosa que me escreveu, ansiando por seus braços ao redor de mim.
Sei que terei de esperar ainda um pouco por seu retorno, para realizar nosso sonho, mas continuo preparando o enxoval na esperança de que o tempo passe mais rápido, e eu logo me torne a senhora Collin Whitlock como sempre desejei.
Não esqueça que meu coração está com você. Cuide bem dele, e se mantenha vivo, por mim. Eu estarei sempre esperando, contando os pôr-de-sol e amanhecer até que você esteja novamente ao meu lado, até que eu possa olhar em seus olhos verdes mais uma vez, tocar seu rosto, enquanto repito minha promessa eterna.
Eu te amarei para sempre. Através do tempo, da vida e da morte, eu serei eternamente sua.
Isa
Meus olhos estavam secos. Minha garganta travada.
Eu não tinha qualquer recordação daquela moça, mas eu sentía em meu âmago que eu havía amado incondicionalmente aquela garota inocente, que escrevera a carta que eu segurava como se minha vida dependesse disto.
Observei a foto novamente, apenas para que a perplexidade me inundasse outra vez.
Então a mítica realidade desse mundo não se resumia à existência de monstros e anjos, vida e sobrevida, mortalidade e imortalidade... Existía algo ainda maior e mais sobrenatural, infinitamente mais complexo que seres de pedra, devoradores de sangue como eu... Existía alma e reencarnação delas... E ao que parecía, Isabell, Isa, havía cumprido sua promessa ao retornar da morte em um novo corpo humano, atravessando o tempo para me reencontrar.
– Ela... – murmurei totalmente atordoado – Ela voltou por mim...
Eu encarei Alice para ter certeza de que ela entendía minha conclusão absurda. Ela me olhava como se tivesse descoberto uma nova dimensão.
Eu organizei meus pensamentos.
Tinha trapaceado a morte. Não intencionalmente, mas tinha. E por tanto eu não tinha direito às recordações que elucidaríam o mistério de minha conexão com Bella. Então, de alguma maneira, eu tinha sido levado até ali para redescobrir a parte mais importante de minha história. A parte em que eu entendía como e porque Isabella não era uma humana comum, e meu sentimento por ela não era banal.
Aquela carta... aquela foto...
Pistas sobre o real significado daquilo tudo...
A força de minha epifania me fez arquejar e sentir um alívio para o qual, eu confesso, não estava preparado.
Bella não pertencía a Edward, como eu havia tentado me convencer para forçar a aceitação que nunca vinha.
Bella pertencía a mim.
Nossa ligação havía ultrapassado barreiras de tempo e espaço, e outras fronteiras que eu nem mesmo conseguía começar a compreender...
Tudo estava muito claro. Ela era meu destino, minha razão, meu sentido... Eu existía por ela. Nós dois éramos destinados um ao outro e minha transformação havía alterado isso mas, a força maior que regía o universo, seja ela o quê e qual fosse, ainda convergía para realizar seu plano inicial...
Eu não ficaría mais indiferente e apático em toda aquela situação. E eu lutaría por Bella. Eu batalharía por seu amor. Minha existência dependia disto. Eu não tinha mais dúvidas.
Ao meu lado Alice ofegou outra vez.
– O futuro está mudando... – ela murmurou distante.
Ela não precisava ter dito aquilo. Eu faría com que o futuro mudasse, nem que fosse com minhas próprias mãos.
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