Notas iniciais
Obrigada à Skrymer pela recomendação fofa... Querida, você captou a essência do meu objetivo! Você é uma linda! Obrigada também à minha queridíssima amiga "Luce" pelo banner incrível ;) Agora vamos ao cap que ele está fervendo!!!!

As pontas dos meus dedos afundaram no tecido fino da camisa, forçando a pele logo abaixo dela que, por muito pouco, não cedeu sob a força de meu aperto.

Minha garganta estava travada, como todo o restante de meu corpo tenso, contraído. Minha mandíbula estava trancada, minha respiração em suspenso, meus olhos fechados... As pálpebras estavam tão intensamente cerradas que tudo era escuridão em torno de mim. Eu não conseguia enxergar arcos ou cores, ou energia, nada... Nada me alcançava a não ser o som, as vibrações, as batidas do coração dela...

Minha mão direita sobre o centro de meu peito afundou um pouco mais, e eu pude finalmente sentir as mossas que os dedos deixavam em meu tórax.

Aquela batidas, que eram apenas o eco do coração dela, que batia no lugar do meu congelado, representavam a única certeza que eu tinha naquele momento.

Ao menos ela ainda estava viva...

A dor se misturou ao medo... O medo dela... O meu... A angústia que ela estava sentindo por perceber o quanto eu estava assustado... Minha ansiedade em entender que ela estava aterrorizada... A agonia que ambos sentíamos por estarmos separados.

Meu corpo se dobrou sobre ele mesmo, meus joelhos cedendo ao chão sem que eu pudesse evitar.

Como eu permiti que isso acontecesse? Como eu não percebi o que estava tão óbvio?

A mão de Edward cobriu um de meus ombros, suas emoções, tão profundas quanto as minhas, me engolfando num oceano de desespero.

– Você ainda...? – ele deixou a pergunta incompleta, com medo do que poderia ouvir.

– S-sim... – balbuciei sem forças – A-ainda posso... Senti-la...

– Ela ainda está viva, – Alice, prostrada ao meu lado, expirou em alívio.

Eles se sentiram menos tensos, acreditando que ainda tínhamos tempo. Mas eu não conseguia compartilhar da emoção, não quando eu detectava o quanto Bella estava apreensiva e nervosa, e não quando eu não fazia a menor ideia de como encontra-la, ainda que pudesse senti-la, ainda que nossa conexão estivesse intacta.

Como eu vim parar aqui? Me perguntei internamente, remoendo cada segundo que havia passado em busca de alguma pista.

Eu nunca deveria tê-la deixado...

***

Assim que voltamos de Vancouver, depois de viver os momentos mais espetaculares de minha existência, eu e Bella relutantemente nos separamos. Não foi uma despedida fácil, já que a perspectiva de nos encontrarmos novamente não era nada agradável, mas nos resignamos e fizemos o que tínhamos de fazer. Ela esperaria por minha volta enquanto seguia com sua rotina. Eu partiria em busca de Victória com Edward, Emmet e Alice. Simples e definido. Nada demais, nenhuma surpresa. Então, depois de um beijo um tanto quanto desesperado em sua varanda, e promessas de notícias por telefone, eu deixei minha garota para trás e segui para a mansão, determinado a seguir o mais rápido com aquilo o quanto fosse possível.

Era uma boa coisa que podíamos nos sentir e comunicar mesmo separados. Nossa comunicação aperfeiçoada nos permitia uma ligação direta com o que estava acontecendo conosco o tempo todo, e isso nos tranquilizava de certa forma, apenas não tão suficiente como quando estávamos juntos, mas era o que tínhamos no momento.

Enquanto acelerava o carro e já virava a curva da estrada de terra que daria na propriedade, sorri assimilando o que Bella me dizia através de nossa conexão. Suspirei refletindo a saudade, minha mão direita pousando sobre o centro de meu peito onde eu podia sentir as batidas do coração dela, o amor transbordando de mim facilmente.

Um minuto depois parei em minha vaga dentro da garagem e expirei, elevando um pouco minhas proteções. Eu quase não queria sair do carro e entrar na casa, porque eu sabia bem, pelo que já absorvia desde que havia entrado no campo de alcance dele, que eu teria alguns momentos difíceis pela frente, e que nada tinham haver com nossa partida atrás de Victória.

Antes mesmo que eu pudesse sair do carro Edward já estava em minha frente. Seus olhos, injetados e duros, acusativos, praticamente perfuravam os meus com a intensidade com que ele me encarava, e eu não precisava ler mentes como ele para saber porque ele emitia tanta raiva naquele momento.

Eu abri a boca para falar que ele não tinha o direito, ao mesmo tempo em que ele fez o mesmo para dizer algo. Mas não aconteceu porque, em um quarto de segundo, como se fosse um raio relampejando instantâneo do céu ao chão, Emmet estava entre nós, de costas pra mim, de frente pra ele.

– Você não pode, Edward... – Emm racionalizou com um tom de voz extremamente suave – Não lhe diz mais respeito.

– Ele não tinha o direito. – a voz de Edward me alcançou, seca, engasgada, ainda que ele mal tenha produzido som com as palavras – Ele não podia...

A raiva que ele sentia deu lugar a uma dor excruciante, que me atingiu em ondas avassaladoras e quase me contagiou. Imediatamente eu percebi a preocupação crepitando em torno de mim, e sabia que Bella havia detectado as emoções que eu captava. Tranquilizei a mim mesmo, certo de que ela assimilaria o que eu queria dizer, e me concentrei em Edward.

– Ele podia e pode, Edward. – Emmet falou com o tom mais firme – Eles se pertencem e você sabe disso. Não há nada que possa fazer a não ser aceitar. Provocar uma briga não vai mudar a realidade.

Contendo a surpresa pela atitude esclarecida de Emmet, eu dei um passo para rodeá-lo e olhar diretamente para Edward.

Eu havia previsto que ele já teria retornado do Alaska quando eu voltasse, e sabia bem que assim que pusesse meu pés na casa ele saberia o que havia acontecido entre mim e Bella, não tinha me iludido. Por mais que eu protegesse meus pensamentos e evitasse relembrar, não havia como esconder aquilo dele por muito tempo. Sabia também que isso causaria alguma tensão entre nós, agravando um pouco mais o desconforto que havia se instalado em nosso relacionamento. Não achei que fosse ser diferente então eu estava preparado para enfrentar suas reações.

– Está tudo bem, Emm. – falei com calma, pousando uma mão no ombro do grandão sem desviar do olhar perfurante de Edward – Deixa a gente conversar.

Pela minha visão periférica eu notei ele assentir, também sem desviar os olhos do rosto de Edward, que continuava a me encarar. E então ele não estava mais ali.

– Porque? – Edward indagou assim que estávamos sozinhos, sua voz traindo seu desespero apesar do tom duro.

– Porque nos amamos, Edward. – expirei a resposta com tom de obviedade – Porque pertencemos um ao outro, porque somos um só.

Num flash as mãos dele estavam em minha garganta, e meu corpo estava contra uma das paredes no fundo da garagem. Ele estava cego pela cólera, eu podia quase toca-la enquanto irradiava dele até mim, mas não me permiti envolver ou reagir. Eu poderia facilmente me desvencilhar dele, Edward não era páreo nem para minha força, muito menos para minhas estratégias, mas ainda assim, permaneci impassivo.

– Eu vou te matar. – ele ameaçou num sibilo, mas o aperto de suas mãos em meu pescoço era contido.

– Não, não vai. – afirmei com tranquilidade, sem fazer qualquer movimento para afasta-lo de mim – Você a ama o suficiente para saber o quanto isso a feriria. E eu sei bem que a última coisa que você quer é magoar Bella. – a menção do nome dela provocou uma leve rachadura na raiva, e suas mãos afrouxaram um pouco – Eu entendo o que você está sentindo, Edward, e acredite que não estou fazendo o que quer que seja para ferir você intencionalmente, – expirei e ele se afastou um pouco, os olhos retomando um pouco de foco – mas você vai ter de entender, e aceitar, de uma vez por todas, que é assim que vai ser pro resto de nossa existência. Ela é minha. Como eu sou dela. – finalizei brandamente.

As mãos dele então estavam nos próprios cabelos, puxando com força como se fossem arrancar as mechas. Edward expirou curtamente e se virou de costas pra mim, o corpo trêmulo com a carga de desalento que ele começou a vibrar.

Eu poderia me sentir ultrajado, ofendido, afinal ele realmente não tinha direito algum de questionar o que acontecia comigo e minha namorada. Poderia ter sido cruel e esfregado na cara dele a realidade de nossos sentimentos, de nossa relação, exibir a ele tudo que havia acontecido para provar que ele não podia exigir satisfações como estava fazendo, mas... Mesmo com tudo que havia acontecido entre eu e ele quando ainda estávamos disputando o amor de Bella, mesmo com o incômodo que eu sentia ao me perceber questionado em minhas ações em torno da mulher que era minha e não mais dele, ele ainda era como um irmão pra mim, e eu não podia simplesmente ignorar o quanto ele estava sofrendo, principalmente quando eu era parcialmente responsável por isso.

– Você tomou ela de mim... – a voz dele era trêmula, como se ele estivesse chorando – praticamente arrancou ela dos meus braços e tomou o coração dela... – a agonia se elevava progressivamente, e eu me protegi mais fortemente para não ser atingido – E agora... Agora...

Soluços secos irromperam pela garganta dele e estremeceram todo seu corpo.

Eu respirei fundo, me colocando no lugar dele e compreendendo perfeitamente o inferno em que ele se encontrava naquele instante. Não havia nada que eu pudesse dizer ou fazer para que ele não sofresse o tanto quanto estava, mas eu ainda podia oferecer o que um irmão ofereceria a outro percebendo sua dor.

Minhas mãos tocaram os ombros dele, apesar de eu esperar que ele fosse se afastar. Mas não aconteceu.

Eu sinto muito. Disse em pensamento, acreditando que verbalizar as palavras não as fariam mais sinceras. Sinto muito por você estar ferido assim, mas você sabe que eu não a roubei de você, ela...

– Eu sei... – ele balbuciou entre resfôlegos – Vocês se... E-eu... Eu não...

E num milésimo de segundo ele desapareceu, correndo para dentro da mata.

Eu expirei pesadamente me sentindo um tanto derrotado, culpado até, e fechei meu olhos.

– Ele vai superar... No momento certo tudo vai fazer sentido pra ele. – a voz de sinos dela me alcançou, e sua presença, como sempre, preencheu o ambiente ao nosso redor.

Encarei Alice na porta que dava para a casa com um sorriso fraco nos lábios. Ela era mais alguém a quem eu estava ferindo.

– Você está diferente. – ela disse já em minha frente, um sorriso cálido colorindo sua face perfeita – Existe cor em seu rosto, em seus olhos. – ela determinou enquanto a ponta dos dedos afagava o que ela mencionava – Você parece quase humano.

Eu arfei um riso curto, cético.

– Como você está, Allie? – me arrisquei a perguntar.

Ela deu de ombros, afastando a mão pequena de minha face.

– Me sinto ótima. Porque a pergunta? – indagou num tom leve e desinteressado.

– Sei que você viu quando tomei minha decisão. – murmurei cautelosamente.

Os olhos dela traíram a dor que controlava tão bem, mas apenas por um milésimo de segundo, que foi o tempo que ela levou para se recompor.

– Nada que eu não estivesse preparada para experienciar. – sua voz era segura, plácida.

Abaixei minha cabeça, negando enquanto expirava.

– Jasper, quando você vai entender? – as mãos dela seguravam meu queixo, me forçando a olha-la. Eu neguei mais uma vez – Arg! Você é tão teimoso! E cego! – Resmungou se afastando de mim – Sim, ainda dói. Mas eu sei o que vocês são um para o outro. E sei o que meu futuro guarda pra mim. – Seus olhos perderam o foco por um instante fugaz e eu estreitei os meus em surpresa – Estou superando, porque você não acredita nisso?

Nos encaramos por um momento, medindo um ao outro. Então ela sorriu, sua irritação dando lugar à ternura fácil que nos ligava, e eu não pude conter o mesmo gesto em reflexo.

– Ok. Me desculpe. – pedi ainda sorrindo.

– Desculpado. – ela concedeu – Tenho novidades. – informou subitamente animada – Vamos entrar? Você vai gostar muito de ouvir o que tenho pra dizer. Mas antes precisamos preparas as coisas. Partimos em meia hora.

Eu assenti e a segui de perto enquanto nos movíamos fluida e rapidamente para dentro da casa.

– Só por curiosidade... – indaguei assim que subimos os dois lances de escada até o segundo andar – O que o futuro guarda pra você?

Eu não pude ver se ela sorriu pois estava de costas pra mim, mas tive certeza de que seu olhar estava iluminado com qualquer que fosse a perspectiva. Sua emoções vibraram intensas, ansiedade e entusiasmo a contagiando por meros segundos, antes que ela se controlasse e retraísse os sentimentos, sabendo muito bem que eu os identificaria.

– Você será o primeiro a perceber quando começar a acontecer... – ela sussurrou num tom sonhador.

Eu aceitei sua resposta sucinta, não era de meu feitio me intrometer. Se ela quisesse me contar me contaria, então respeitei sua opção em ser discreta.

Dois minutos depois estávamos descendo para a sala com nossas mochilas nas costas, a de Edward na mão de Alice. Carlisle e Esme estavam nos aguardando com olhares ansiosos no centro da sala, Rosalie sentada em uma das poltronas com a expressão um tanto tensa.

– Como está Bella? – Carlisle me perguntou com sincero interesse.

Parei em sua frente, procurando não pensar muito. Já podia sentir Edward se aproximando.

– Bem. – resumi – Precisamos conversar quando eu voltar.

Ele assentiu, percebendo minha seriedade.

– Ficaremos de olho nela e em Charlie enquanto vocês estiverem fora. – Esme garantiu – Estou pensando em convidá-los para um jantar.

Foi minha vez de assentir, pouco antes de me virar para as portas de correr e ver o Emmet entrando com a feição transtornada, Edward logo atrás dele.

– Tem certeza de que minha presença não é necessária baixinha? – Emm perguntou olhando para Alice ao meu lado, uma sobrancelha arqueada.

Eu olhei pra Alice um tanto surpreso, mas imediatamente me recordei dela ter dito que tinha novidades. Deveria se tratar disso.

– Não só disso. – Edward murmurou sem me encarar – Jasper está se perguntando sobre o quê mudou. – Respondeu a pergunta silenciosa de Alice.

A atenção de todos se voltou a ela. Ela olhou primeiro para o Emmet.

– Tenho certeza, Emm. A última visão foi bem clara. Eu, Edward e Jasper na mata dos arredores de Seattle. – falou com o tom ameno, e por minha visão periférica vi Rosalie relaxar antes de sentir a mudança em suas emoções.

– Jasper ainda não sabe sobre Laurent. – Esme murmurou, me fazendo recordar que, com a fuga intempestiva de Edward da garagem momentos antes, eu não havia tido tempo de questionar sobre a viagem que ele havia feito alguns dias antes de eu partir com Bella para Vancouver.

Encarei Carlisle em expectativa quando o percebi se antecipar.

– Segundo Irina ele havia partido numa expedição de caça com dois conhecidos de longa data, prometendo retornar em um mês, talvez dois. – seu tom era linear, mas eu notei a sugestão de ironia que o permeava.

Olhei para Edward expressando meu questionamento sem verbaliza-lo.

– Não consegui detectar muita coisa nas lembranças dela. – ele respondeu claramente insatisfeito, ainda sem me olhar – Ela está envolvida demais por ele, mesmo que Laurent estivesse fingindo, mentindo ou escondendo algo, ela não perceberia. – ele deu de ombros – Mas podemos considerar o fato dele convenientemente viajar, justo nesse momento, como algo suspeito.

– Allie? – indaguei a ela.

– Tudo que consegui ver em relação a ele foram momentos numa floresta para o oeste do Alaska. Pelo menos até então o que Irina disse parece ser verdade.

– Isso está estranho... – sibilei.

– Bom, não temos tempo de nos preocupar com isso agora. Eu me manterei atenta às decisões dele de qualquer jeito. – Ela tentou me tranquilizar afastando a tensão visível de seu semblante – Mas o melhor eu ainda não te falei. – seu tom imediatamente animado – Você pode ligar pra Bella e tranquiliza-la. Não vamos demorar mais que dois dias em nossa expedição à Seattle. Essa parte da visão não foi muito precisa, e alternou um pouco entre várias possibilidades, mas estaremos atravessando o lago no meio da tarde, depois de amanhã.

Alívio me envolveu com a previsão de retorno. Não ficaria mais tanto tempo longe de Bella.

– Darei a notícia a ela assim que chegarmos lá. – Senti o sorriso se formar em meu rosto – Prometi que ligaria.

Em meu campo de visão percebi a troca silenciosa entre Emmet e Edward. Eles trocaram um olhar duro, mas cúmplice, e então o grandão arqueou ambas as sobrancelhas num questionamento claro, mesmo para quem não ouvia o que ele perguntava em sua mente, ao que Edward assentiu discreta e curtamente depois de um suspiro.

Os olhos dele então voltaram pra mim, apreensão me alcançando.

– Hora de partir! – Allie informou depois de bater as palmas das mãos uma vez, a voz de sino ecoando ao nosso redor e tragando nossa atenção de volta pra ela.

Expirei pesadamente, me desligando do olhar atormentado de Edward, fitei Carlisle com a reverência de sempre antes que ele pousasse uma das mãos em meu ombro e assentisse, projetando confiança pra mim, e então sai da casa como um raio, sem olhar pra trás, certo de que logo estaria acompanhado.

Corremos direto, sem pausa, sem palavras, até alcançarmos o lago. O tempo todo eu evitei me comunicar ou mesmo pensar muito em Bella, para não piorar ainda mais a tensão entre eu e Edward. Ela estava dormindo de qualquer forma, eu podia perceber, sem qualquer esforço, o torpor no qual ela estava mergulhada. Era como se uma parte de mim estivesse dormindo enquanto a outra estava em alerta. O que não deixava de ser verdadeiro, já que minha garota era uma extensão de mim, como eu era dela.

Paramos na margem para nos prepararmos para nadar. Nós três tiramos os sapatos e casacos, Edward e eu também as camisas, colocando tudo dentro das mochilas impermeáveis que Alice providenciou e as posicionando de volta nas costas.

Antes de mergulhar e apenas por puro reflexo, num gesto que estava rapidamente se tornando hábito, minha mão direita cobriu o centro de meu peito, a fascinação por poder sentir as vibrações do coração dela no meu me preenchendo e pacificando.

– Você pode sentir o coração dela...? – a voz dele me alcançou espantada e eu voltei meu olhar para o rosto dele.

Edward estava bem ao meu lado, os olhos bem maiores que o normal, sua surpresa, dúvida e certa inveja descritas tão claramente ali quanto nas ondas que ele projetava. Alice, do lado oposto ao meu, não estava nem um pouco chocada, apenas esperava que eu esclarecesse algo de que ela, obviamente, já tinha conhecimento.

Suspirei alto, controlando a irritação por ser questionado outra vez.

– Sim. Posso sentir o coração dela como se batesse no lugar do meu, – respondi contendo o tom – assim como já sentia suas emoções.

Os olhos dele expressaram mais do que choque quando leu e compreendeu o que via em minha mente.

– É diferente agora... – ele balbuciou ainda incrédulo – Você sente ela...

– Como se estivesse dentro de mim. – completei sua frase, um tanto impaciente – Edward, não temos tempo pra isso agora.

Ele abaixou a cabeça e apertou as pálpebras, forçando suas emoções, todas elas, a retraírem.

– Vamos garotos. – Allie reforçou com seu tom leve – Vamos dar um mergulho.

Não esperando pela ação deles, me virei para as águas escuras e me apressei em sua direção, imergindo fundo sem pensar, deixando que meus instintos tomassem conta.

A cada braçada larga no fundo do lago, algo dentro de mim crescia, como uma noção estranha, uma familiaridade desconfortável, algo que não soube bem explicar pra mim mesmo, mas que se avolumou quanto mais próximo da outra margem nós ficávamos, e se acentuou no momento em que emergi e reconheci o aroma.

– Victória. – murmurei já escaneando os arredores.

Ao meu lado percebi Edward assentir, também detectando o cheiro da vampira ruiva.

– Temos de ser cautelosos. – Alice sibilou – Ainda temos de considerar a possibilidade que o Emmet levantou. Podemos estar sendo atraídos para uma armadilha.

Eu assenti sem desviar meu foco das docas, já captando dois outros odores diferentes.

– Claro que ela não estaria sozinha. – foi Edward quem verbalizou minha conclusão, claramente concordando com ela – Não reconheço nenhum dos dois. – Completou voltando o olhar pra mim.

– Nem eu. – disse num tom insatisfeito – Precisamos nos apressar, esse rastro que eles deixaram não é tão recente.

Calçamos sapatos, vestimos blusas e corremos, eu na frente deles já maquinando algumas possibilidades. Fizemos uma varredura pelos arredores das docas, analisando cada canto deserto e esquecido, avaliando cada cheiro e marca, memorizando toda a movimentação de Victória e seus dois comparsas anônimos.

Em determinado momento o cheiro se tornou agudo, e nós três trocamos um olhar de entendimento. Seguimos a rota traçada pelo perfume instigante dela, nos deparando com um galpão abandonado no canto mais distante do cais, as paredes de madeira praticamente se desmanchando sob as grossas camadas de salitre que cobriam tábuas e telhado.

Paramos bruscamente nas portas, tensionando ao reconhecermos o odor que emanava de trás delas.

Edward me encarou expressando o mesmo questionamento que eu me fazia. Deveríamos entrar? Alice fechou os olhos no que eu sabia ser uma tentativa de assegurar nossa melhor opção. Seus ombros caíram e ela passou a vibrar confusão e insatisfação.

– Ela não consegue ver. – Edward respondeu a pergunta que ainda se formava em minha cabeça.

Assumindo minha brusca decisão eu chutei a grossa corrente que unia as maçanetas, arrebentando o cadeado com facilidade e me dirigindo para dentro do galpão. Eles me acompanharam em silêncio como imaginei que fariam, nada surpresos com o que encontramos.

– Meu Deus... – Alice murmurou atrás de mim, horrorizada.

– São muitos recém-criados. – Edward verbalizou a conclusão óbvia – Do contrário não...

– Teriam tantos corpos. – completei com os olhos pregados na imagem terrível e tão familiar à minha frente.

Uma pilha imensa de cadáveres ocupava o centro do espaço, o cheiro de morte e sangue seco, passado, denso no ar, nos provocando náuseas.

– Jasper, eu não consigo ver qualquer coisa além do que já vi ou nosso futuro imediato. – Allie comentou com uma ponta de desespero na voz – Mas isso é familiar pra você... Consegue...?

– Em torno de trinta, talvez trinta e cinco. – esclareci rapidamente, comparando e arredondando o montante que me lembrava ser necessário para aplacar momentaneamente a sede de vampiros novos – Mas isso há dois dias. Esses corpos estão aqui por pouco mais de quarenta e oito horas.

Edward concordou com minha consideração.

– Quarenta e nove horas, trinta e dois minutos. – especificou com sua percepção apurada – Você percebeu que o aroma de Victória dissipou nas portas? – indagou a mim, mas seu tom era afirmativo.

– O que é muito estranho... – conjecturei depois de assentir – Ela parou na entrada, não entrou, nem rodeou o galpão.

– Ela não pode simplesmente ter se desmaterializado. – Alice resmungou.

– Ela deve ter dado um jeito de mascarar o próprio cheiro, ao menos aqui dentro. – Edward presumiu.

– E porque ela faria isso, – comecei a perguntar a eles com uma sobrancelha arqueada – se não soubesse que alguém viria até aqui para investigar?

A concordância deles era óbvia, e então nós tínhamos certeza de que toda a tramoia de Victória não se limitava a rondar Forks em busca de uma brecha para capturar Bella. Tinha algo mais por trás disso...

Sem que eu precisasse revelar o próximo passo lógico, Edward e Alice me seguiam para fora do galpão e se apressaram em direções diferentes, farejando, assim como eu, em busca de mais alguma pista.

Por vinte e dois minutos nós procuramos, nos embrenhando na mata espessa atrás do mínimo sinal que fosse da passagem de algum vampiro. E quando finalmente eu me deparei com um rastro quase dissipado de Victória, o jorro da emoção de Edward me tragou como se ele tivesse berrado em minha direção, atraindo minha atenção pra ele bruscamente.

– É o cheiro de Laurent! – determinou com ansiedade desmedida – E é bem recente, menos de quarenta minutos. – informou do extremo oposto de onde eu estava.

Alice e eu o seguimos assim que ele passou a correr, perseguindo a essência conhecida, satisfação se derramando dele e de Alice, provavelmente por termos encontrado finalmente uma pista, que ainda por cima confirmava uma de nossas suspeitas.

Traçamos o caminho desenhado pelo odor de Laurent por horas, quilômetros, usando os limites de nossas forças e velocidades na tentativa de alcançar, ao menos, uma nova pista. Mas nada mais encontramos além de uma trilha que parecia não ter fim, que nos colocava cada vez mais e mais distantes, não só de Seattle, mas de Forks também.

Comecei a considerar que aquele era um caminho deliberadamente traçado, uma distração para acobertar alguma coisa, e foi então que tudo aconteceu.

Com uma diferença de meros segundos, Alice estacou de forma brusca e ofegou alto, Edward imitando suas ações em seguida, enquanto uma onda de pânico aguda, desmedida, me atingia em cheio, causando um impacto tão intenso em meu corpo que não tive tempo de evitar a queda.

– Bella... – Edward e Alice sussurraram em uníssono, o tom apavorado acentuando ainda mais o medo que me envolvia.

Eu me coloquei de joelhos e levantei devagar, me sentindo tonto e perdido, desesperado, compreendendo o que estava acontecendo.

– Alice... – minha voz saiu estrangulada – Me diga o que vê. – exigi.

Foi Edward quem conseguiu falar, reinando bravamente sobre o próprio pavor.

– Ela foi levada. – sua voz, assim como suas palavras, era urgente – Ela foi agarrada por trás e levada pouco depois de se levantar. Foi uma decisão imediata, Alice viu praticamente enquanto acontecia.

Eu estava arquejando, minha respiração, que era mais um reflexo que uma necessidade real, entrando no ritmo errático das batidas que reverberavam em meu peito, me fazendo sentir algo que eu não sentia há muito, muito tempo.

Mas a dor física em meu tórax não me surpreendeu tanto. Não quando eu sabia que cada pequena coisa que minha garota experienciava eu assim também fazia.

– Quem? Victória? – indaguei me sentindo progressivamente tonto, meus olhos focados nos de Edward.

– Não deu pra ver... – ele respondeu atordoado – Por algum motivo o rosto estava desfocado.

– Alice! – chamei por ela, notando o quanto ela ainda estava presa na visão.

– Ela ainda está vivenciando a mesma cena... – Edward murmurou enquanto dava suporte com seus braços em torno da figura frágil dela – Está buscando por alguma pista.

Minha mão direita espalmou meu peito, permitindo que eu me agarrasse àquele que era meu único motivo de esperança.

Minha mente dava voltas e mais voltas, questionamentos inundando minha mente enquanto eu me execrava por minha estupidez.

Eu era mestre em estratégias. Como não havia percebido uma tão simplista? Como eu havia me deixado enganar?

Respondi à pergunta incompleta de Edward sem realmente prestar atenção nele, e ouvi o alívio no tom de Alice em reação, mas não conseguia compartilhar do que eles sentiam. Bella estava viva, mas meu instinto de sobrevivência estava em alerta máximo, espelhando o que ela vibrava.

Revirei minha mente em busca do que fosse mais lógico a se fazer em seguida, mas me sentia tão vulnerável, tão abalado que mal tinha forças para me levantar novamente. Tão mergulhado em meu desespero eu estava que não assimilei a aproximação, ou mesmo sua presença contundente em minha frente, até que sua voz carregada e familiar alcançasse meus ouvidos.

– Não imaginei que nosso reencontro fosse se dar assim. – o sotaque forte dele envolveu cada letra de cada palavra, quase me proporcionando algum alívio. Quase.

Fazendo um esforço descomunal, elevei meu rosto até que nossos olhares se encontrassem e eu pudesse ver a malícia de sempre em suas íris carmim.

Ele sorriu torto pra mim, estendendo uma de suas mãos enormes para me ajudar a levantar. Sem hesitar a tomei na minha, e meu melhor amigo me puxou de encontro a si mesmo, me fechando num abraço de aço que eu correspondi mais que prontamente.

– Peter... – expirei.

– Ao seu lado sempre que precisar, Major. – ele falou com reverência na voz – Eu cumpro minhas promessas.

Nos afastamos e encaramos um ao outro.

Alguém havia raptado minha Bella, e eu me sentia muito mais que atordoado. Mais o senso de segurança e confiança que Peter emanava, tão característico a ele, me fez ter a certeza de que a situação não seria essa por muito tempo.

Com meu melhor amigo e antigo braço direito ao meu lado, mais do que nunca, eu me sentia pronto. Era hora de desencarcerar o senhor da guerra das profundezas de meu cerne, era hora de entrar em ação.

Major Whitlock estava extremamente faminto por uma batalha, e rugiu em satisfação quando o deixei dominar cada célula adormecida de meu corpo.

Cabeças, e membros, logo iriam rolar e arder numa grande fogueira que eu mesmo prepararia. Com minhas próprias mãos.

Notas finais
Vou tentar postar o próximo logo. Teremos extras do passado em breve também! Beijos