Destinados
33 EXTRA V - Libertação
Notas iniciais
10 de Fevereiro de 1863
Uma brisa leve atravessou as árvores e soprou sobre mim, fazendo tremular levemente as mechas pesadas de meus cabelos que cobriam ambos os lados de meu rosto.
Num suspiro pousei o papel em meu colo, deixando a pena ao meu lado na grama, próxima do vidrinho de tinta.
As lágrimas rolavam livremente ao longo de minha face, meus olhos se enchendo e derramando as gotas grossas sem qualquer esforço de minha parte…
Meu peito estava vazio, oco… A dor que eu sentia não habitava mais em mim, ela estava ao meu redor, me envolvendo, me dilacerando, esmagando pouco a pouco, embaçando minha visão, o mundo, a vida que eu não conseguia mais estimar…
— Eu nunca quis que você fosse… — murmurei ao fechar os olhos e enxergar, com clareza, o rosto perfeito que eu tanto amava — Eu queria que você ficasse… Eu temia que você nunca mais voltaria… E você não voltou...
As esmeraldas nos olhos dele se entristeceram com minhas palavras, mas ele nada disse… Ele não poderia…
Ele era apenas uma imagem produzida por minha lembrança… E eu não conseguia mais lembrar a voz dele.
Em um soluço alto o pranto se intensificou. Meus olhos permaneceram fechados ainda que a torrente de lágrima estivesse atravessando minhas pálpebras e cílios sem qualquer problema. A imagem de Collin, a qual eu me agarrava com toda força, começou a esmaecer em minha mente, o desespero, o medo, tomando conta de mim e tornando tudo negro, vazio e solitário…
Eu não iria conseguir…
Apenas um dia e eu estava despedaçada, completamente destruída… Como eu suportaria continuar? Seguir… Viver…
Eu não teria forças… Eu não saberia como.
— Isabell…?
Uma voz doce, branda, baixa e muito, muito familiar, chamou ao meu lado.
Eu abri meu olhos, levantei a cabeça e a virei na direção da voz que lembrava um pouco a dele, do meu amor, apenas soando mais jovem.
O rapaz alto e esguio, de feições tão similares ao seu irmão mais velho, me olhava com uma dor gêmea em seus olhos esverdeados.
Jackson se aproximou dois passos, as mãos torcendo a aba do chapéu de palha enquanto ele baixava o olhar para o chão de terra.
— Posso? — Sem soltar o chapéu e usando seu dedo indicador, ele apontou timidamente para o espaço vazio defronte a mim.
Eu não tinha forças para conter os soluços de meu pranto, minha voz completamente perdida sob minha garganta constricta, então apenas assenti fracamente.
Ele se sentou, as pernas cruzadas na frente do corpo, a coluna arqueada, os cachos loiros, curtos, um pouco mais escuros que os de Collin, caindo sobre sua testa.
— Também sinto muito a falta dele… — ele falou como se confessasse um segredo — Também estou muito triste… Jasper era mais que meu irmão, ele era meu melhor amigo… — sua voz partiu nos lugares errados e embargou pesadamente ao final — E saber que… Nunca mais… Nunca mais verei ele...
E então ele desabou num pranto contido, baixo, mas muito, muito dolorido e que evidenciava o tamanho de seu desamparo.
Vendo o irmão do amor de minha vida, que era minha família também, meu primo, alguém de quem eu tinha que cuidar, sofrendo daquele jeito, me deu força para ignorar momentaneamente a minha própria dor… Collin teria me pedido para consolar aqueles a quem ele amava, teria me pedido para cuidar deles, e Jackson sempre havia sido muito importante para meu noivo… Talvez até mais que sua irmã.
Eu respirei fundo e engoli minhas lágrimas por um instante, estendendo minhas mãos e tocando as de Jackson, as fazendo libertar a palha que ele tão fortemente espremia. Quando suas palmas quentes estavam nas minhas ele abriu seus olhos úmidos e me fitou contidamente.
— Você era tudo para ele. — ele afirmou com o tom trêmulo, falho — A razão de viver de meu irmão era você, mais do que nós, mais do que ele mesmo…
— Ele era a minha razão de viver também…
— Eu sei… Por isso estou aqui. — ele afirmou com a voz firme de repente — Jasper me fez um pedido… Antes de partir. E me fez fazer a ele uma promessa...
Eu me senti tremer, mas contive a ansiedade que me assomou de forma brusca. Jackson respirou fundo, contendo suas lágrimas com óbvia dificuldade, apertou os olhos por um instante e então olhou novamente, e de maneira contundente, para mim.
— No dia em que ele foi para a guerra, algumas horas antes de deixar a casa, ele me chamou em seu quarto. Ele falou como eu iria me tornar o braço direito de nosso pai a partir daquele momento, e de que então seria meu o papel de auxiliá-lo a cuidar da família, de garantir que Martha e mamãe estariam sempre amparadas. Ele também me disse que, sendo eu não só irmão mas o melhor amigo dele, eu tinha um dever de honra para com ele… Que era cuidar de você também. — Ele suspirou e então continuou — Ao final ele disse… “Se algo acontecer comigo, sei que Isabell vai perder a força por um tempo, vai querer desistir, vai se entregar à tristeza…”
Eu abaixei a cabeça e respirei fundo, contendo uma nova onda de lágrimas. Ele me conhecia bem e sabia como eu reagiria à sua perda…
— Ele me pediu… — Meu cunhado continuou, o tom forçadamente firme — Me pediu que estivesse atento. E me fez prometer que eu cuidaria para que você se lembrasse… Se lembrasse de que… Ele queria que você continuasse a viver e tentasse com todas as suas forças ser feliz novamente. Ele disse para eu repetir as palavras dele… — Ele tomou uma respiração intensa — “Não se entregue. Viva. Por mim. Por nós dois.”
Eu não pude mais segurar…
O pranto explodiu novamente, intenso e profuso, enquanto meu corpo se dobrava sobre ele mesmo contra a dor que ameaçava rasgá-lo em pedaços.
Jackson, possivelmente contagiado com minha tristeza que também era a dele, apertou minhas mãos e libertou seu choro, o som baixo de sua angústia se misturando com meus soluços altos e preenchendo o ambiente ao nosso redor…
E por horas ficamos ali, assim… Lamentando nossa perda, em luto pela ausência, que agora seria definitiva, de Collin.
18 de Março de 1863
Faltava pouco…
Meu corpo arrefecia, seguia os passos de meu coração desamparado e, pouco a pouco, se entregava ao desalento.
Pouco mais de um mês da partida de Collin deste mundo… E eu me preparava para segui-lo.
Não fora de caso pensado. Eu até tentei. Tentei continuar, tentei ver as cores, a luz, a beleza da vida… Mas não era possível… Não sem metade de mim.
Meu olhos opacos não enxergavam mais nada… Tudo era um grande borrão, uma mancha desagradável que me impedia de perceber sentido no que quer que fosse.
O vazio em meu peito se apoderou de mim e me consumiu, tomando cada vez mais espaço, me dominando, me apagando, destituindo minha luz, minha força, meu espírito.
Eu só queria que acabasse… Eu só queria que ele viesse logo me buscar, me levar para onde ele estava agora…
— O doutor disse que agora é só uma questão de dias…
Eu ouvi a voz entristecida de minha mãe falar a alguém.
Não abri meus olhos. Cansada demais, sem forças, para tanto. Eu ainda tinha uma pequena reserva de energia, mas a estava guardando para um último ato, que dependeria de mais alguém além de mim.
— Pode entrar, meu filho. Ela está esperando por você desde ontem a tarde. Não se assuste com a magreza de sua prima...
Por conta das palavras de mamãe, e do cheiro característico de flores de algodão que invadiu meu quarto em seguida, eu soube que quem eu precisava havia chegado.
Devagar, lutando contra a resistência de minhas pálpebras pesadas, abri meus olhos em tempo de ver Jackson entrar e sentar ao meu lado.
— Oi, prima. — Ele falou com sua timidez característica. — Estou aqui.
— Obrigada por vir. — murmurei, sabendo que ele me ouvia apesar de minha voz fraca.
Jackson suspirou e abaixou a cabeça por um instante, tristeza clara em seu olhar quando ele me fitou novamente.
— Ele nunca vai me perdoar… Eu falhei, com você e com ele.
Com muito esforço estiquei minha mão e toquei a dele.
— Não havia nada que você pudesse fazer contra isso, Jackson… Nem mesmo eu pude lutar contra isso… É maior que qualquer um de nós, eu não poderia continuar sem ele, sem metade de mim… Não poderia.
Ainda com a feição desapontada e arrependida, meu cunhado assentiu devagar, desviando os olhos dos meus.
— Foi para isso que me chamou aqui? — ele questionou de forma suave, quieta e cuidadosa — Para tentar afastar a culpa que vai me engolir assim que você também se for?
Meu coração se apertou em meu peito… Ele se condenava por não ter conseguido me convencer a lutar, a não desistir…
— Jackson, por favor. Não é culpa sua… Não é culpa de ninguém. Eu estou indo porque preciso dele, preciso estar com ele… Sou ninguém sem ele, preciso estar onde ele está.
Mais uma vez ele assentiu, mas eu sabia que não o tinha convencido.
— Eu chamei-o aqui porque preciso que faça algo por mim.
— Qualquer coisa. — sua voz soou firme e solene.
Eu sorri fracamente.
— Pode pegar um papel, a pena e a tinta que estão sobre a cômoda?
Prontamente ele se levantou e fez como pedi.
— Me ajude a sentar, por favor.
Com cuidado ele se sentou na beira de meu colchão, colocou um braço atrás de minhas costas e me posicionou de tal forma que me corpo se apoiava no dele.
Eu escrevi no papel fino minhas últimas palavras para Collin.
Eu sabia que ele nunca receberia minhas cartas, nunca leria minhas palavras a ele enviadas, e eu confesso que não tinha certeza da razão pela qual eu ainda sentia essa necessidade de colocar em letras os meus pensamentos… Mas assim o fiz.
Quando terminei, minhas mãos estavam trêmulas, e minha cabeça dava voltas.
— Preciso me deitar. — falei com o tom vacilante.
Jackson prontamente me deitou de volta sobre os travesseiros e sentou na cadeira ao lado de minha cama, seus olhos maiores, brilhantes de umidade, lágrimas fazendo seu olhar raso.
— Na primeira gaveta de cima, sob os lenços, existem duas outras cartas. Pode pegá-las para mim?
Ele se levantou, seguiu para a cômoda mais uma vez e logo estava de volta com os envelopes. Os estendeu a mim com certa hesitação, mas ao invés de pegá-los eu apenas lhe entreguei a carta que havia acabado de escrever.
Jackson me olhou em clara confusão.
— Guarde-as. — pedi, no limite de minhas forças — Coloque-as onde estejam seguras, onde não sejam perdidas. — ele assentiu, e seu olhar era atento e comprometido.
— Colocarei no quarto dele, onde sei que estariam se ele estivesse ainda aqui. — seu tom era solene.
Ele olhou para a mesinha ao seu lado e, sorrindo um sorriso tristonho, tocou a fita de seda que eu costumava usar em meus cabelos.
— Posso usar isto para mantê-las juntas? — ele indagou em uma voz suave e terna.
Eu apenas assenti, já fraca demais para continuar a falar.
Meu cunhado então dobrou a última carta, amarrando-a em seguida com os outros dois envelopes, fazendo um laço pequeno no topo dos papéis frágeis. Seus dedos se apertaram em volta do maço brevemente, e ele voltou o olhar para mim.
— Guardarei-as como se fossem um tesouro. Prometo que nunca serão perdidas, Isabell. — eu sorri com a seriedade em sua jura. Ele suspirou profundamente — Quando estiver com ele, diga que sinto muito… Por não ter conseguido cumprir minha promessa.
— Você cumpriu sua promessa, Jackson. — eu afirmei com o que me restava de energia — Você me lembrou, todos os dias, o quanto ele me amava e queria que fosse tão forte quanto ele… Sua parte você fez sim, não tenha dúvidas. Mas a minha parte eu não pude cumprir… Porque minha vida não tem sentido sem ele…
Uma lágrima solitária, grossa e brilhante, escorreu de um de seus olhos enquanto ele assentia.
— Diga a ele que o amo, que nunca vou me esquecer das coisas que ele me ensinou, que tentarei ser tão bom e forte, tão digno quanto ele foi. Diga que nunca esquecerei ele. — seu pedido num tom embargado e sutil.
Foi minha a vez de assentir.
Não recordo bem o que se sucedeu então… Meu olhos, pesados demais, cansados demais depois de todo o esforço que eu fizera, se fecharam pesadamente.
O tempo que passou até que a luz surgisse eu não sei precisar…
Nem sei dizer de que forma aconteceu…
Sei apenas que, em determinado momento tudo passou a ser energia e cores, luzes… E eu não era mais corpo…
Era só alma, livre, flutuando, voando, seguindo para o brilho latente que surgiu ao longe, bem em frente a mim…
Eu estava liberta.
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