Destinados
34 A resignação momentânea
Notas iniciais

Grunhidos altos…
Rugidos e sibilos baixos e ameaçadores…
Uma única respiração errática, um único coração acelerado…
E meu completo, perplexo, silêncio.
Estes eram os sons que preenchiam tudo à minha volta enquanto eu, totalmente consciente de que, ao menos naquele exato momento, não podia reagir, permitia que a aceitação me inundasse e tomasse conta de meus sentidos.
Há vinte e poucos metros de mim minha garota arfou baixo, entendendo o que a emoção que vibrava a partir de mim significava.
— Não. — havia sido só um sussurro, mas ela sabia bem que eu, como todos os presentes naquela mata, conseguiria ouvir.
Projetei calma, segurança através de nossa conexão, e me blindei das demais emoções ao meu redor. Todos estavam tensos demais, ansiosos demais, e a sobrecarga de sentimentos me esmagaria se eu não reinasse sobre ela.
As únicas vibrações que eu ainda conseguia sentir eram as de Bella, mas isso não me surpreendeu, visto que estávamos terminantemente ligados para sempre. Eu poderia bloquear ao mundo, mas nunca mais à ela… E o que ela me enviou de volta só fez tudo um pouco mais difícil.
Indignação, contrariedade, negação…
Eu estava consciente de que, a princípio, ela não compreenderia o que eu estava fazendo… Talvez naquele momento ela estivesse me achando um fraco, desistindo tão fácil da batalha que nem havia começado realmente.
Mas eu estava sendo apenas cuidadoso.
Maria era das mais poderosas vampiras que eu conhecia. Apesar de não ter poder algum, dom nenhum, ela sabia bem como administrar um exército… E apesar de eu ser conhecido como o senhor da guerra, por minhas habilidades estratégicas, e de ter mais experiência com recém-criados que qualquer um ali, não havia como, não existia uma estratégia de última hora boa o suficiente para abater 38 deles…
— Cinquenta e dois anos… — A voz potente de Maria atravessou o espaço entre nós e me causou angústia pura e simples — Eu esperei cinquenta e dois anos por este momento.
O rapaz de porte esguio que estava levemente em frente à minha criadora moveu-se para o lado, e então uma menina, de não mais que dezesseis anos, se fez ver, parada há apenas alguns metros atrás dele. Seus olhos, de um vermelho acinzentado estranho, estavam fixos em Maria quando ela, sorrindo vitoriosa, caminhou a passos largos e lentos em minha direção.
Ao meu lado Edward se empertigou, mas eu estiquei meu braço em sua frente de pronto.
Não! Não reaja, não fale, permaneça completamente quieto. O adverti em meu pensamento.
Não pude absorver o que ele sentia em reação à minha atitude ou ao que estava acontecendo já que estava com meus muros levantados.
Alerte Alice. Eles não podem se mostrar. De forma alguma. Adicionei, sabendo que, da maneira deles, Edward e minha ex-mulher tinham uma forma única de se comunicar sem que ninguém mais percebesse.
Eu sabia que Peter não seria tolo a ponto de se expor. Mas Emmett com certeza estaria tremendo para gerar uma briga, e isso nos colocaria, a todos, numa posição muito ruim.
— E eu passei os últimos cinquenta e dois anos desejando, ardentemente, que ele nunca acontecesse. — repliquei a fala de Maria.
Semicerrando os olhos, ela estava em minha frente, próxima demais para o considerado confortável ou cortês.
— Até mesmo sua arrogância e sua empáfia me fizeram falta, Major. — Ela falou num tom supostamente sensual, seus dedos deslizando em meu pescoço e segurando a gola da minha camisa. Ao longe Bella arfou, ainda mais indignada. Eu retesei — Sua altivez, sua agressividade sempre faziam o sexo ser espetacular. — Ela falou alto o suficiente para alcançar os ouvidos humanos de minha namorada.
Pela minha visão periférica vi, com certo nível de desespero, Bella dar dois passos. Voltei meu olhar reprovador a ela no mesmo momento em que Victória segurou seu braço sem muito cuidado.
— Ah, sim… — Maria voltou o rosto naquela direção — Sua… Companheira. — seu tom transbordava desdém — Eu acreditei que você permaneceria com aquela coisinha pequena e esquisita… Mas não me surpreende que tenha abandonado ela e roubado a garota humana de seu irmão… — ela estava mais bem informada do que eu antecipava… Seus olhos se voltaram para mim com uma ponta de divertimento — Você sempre apreciou as presas humanas com as quais eu lhe premiava… Sei o quanto gosta de se aninhar em seus corpos quentes e frágeis…
— Chega, Maria. — Sibilei — Diga o que quer e vamos encerrar logo isso.
Ela sorriu diabolicamente e segurou meu rosto pelo queixo, aproximando seus lábios dos meus.
O ciúme potente de Bella poderia nocautear quase todos aqueles recém-criados se fosse uma arma.
— Não sabe o que quero, Major? Qual a surpresa? Eu não me daria o trabalho de atravessar o país, criar um exército novinho, me associar com uma inimiga sua apenas para ver esse rosto magnífico que você possui. — ela riu — Eu vim para tomar de volta o que é meu. Para levar você para casa.
Eu olhei para Bella, sabendo que ela estava entendendo o que a resignação em minhas emoções queriam dizer. Ela negou com a cabeça.
Tire Bella daqui. A mantenha em segurança. Falei à Edward em meu pensamento, não me dando ao trabalho de certificar que ele concordava ou não com minha óbvia decisão.
Voltei meu olhar a Maria.
— Deixe a garota ir. — Falei com frieza — Quando ela estiver segura longe de Victória, eu irei com você.
— Não! — Bella gritou do outro lado, desespero rapidamente a consumindo, Victória imediatamente segurando-a com mais violência.
Meus olhos relampejaram na direção delas.
— Se você machucá-la, ainda que eu morra em seguida, me certificarei de que seu corpo não possua mais uma cabeça. — Rosnei na direção da vampira ruiva, meu olhar incisivo sobre ela.
Ela folgou seu aperto em Bella, e Edward, tão impossivelmente impaciente que sua emoção estava a ponto de transpor meus muros, não pode mais se conter.
— Liberte-a de uma vez, vocês já conseguiram o que queriam. — Ele esbravejou dando dois passos para a frente.
— Edward. — o repreendi.
— Não. — ele foi categórico — Isso já se prolongou mais que o necessário. Você já garantiu que vai com ela…
— Liberte a garota, Victória. — foi Maria quem falou com a voz determinante, seus olhos nunca desviando dos meus — Estou ciente da presença de três outros vampiros há sessenta e sete metros de nós, bem como dos quatro cachorros gigantes escondidos no fundo da mata è esquerda, logo atrás de Victória. — seu tom era de aviso — Se você tentar qualquer um de seus truques… — ela ameaçou em um sorriso cínico — Ela será a primeira a morrer. Seguida pelos outros rapidamente. Sabe que não existe a menor chance de proteger a todos, não sabe?
Contive o medo que se alastrou dentro de mim com muita dificuldade…
Então notei os olhos do rapaz em mim, sobrancelhas franzidas, uma expressão de curiosidade em sua face. Ele parecia intrigado ao extremo, mas eu não teria certeza enquanto continuasse me blindando de tudo.
Voltei meu olhar para o rosto severo à minha frente.
— Não vou tentar coisa alguma. — garanti com indiferença — Eu tenho palavra e você sabe bem disso.
Senti, mais do que realmente vi, Bella correr em minha direção, mas ela nunca poderia vir para mim, não quando Maria estava exatamente em minha frente.
Edward, perceptivo e sagaz, se colocou na trajetória dela e a pegou antes que alcançasse o local em que eu estava.
Meu impulso era olhar para ela, mas mantive meu olhos na vampira em minha frente, para garantir que ela mantivesse a sua parte da barganha.
— Você não pode… — Ela estava chorando, e pela minha visão periférica pude constatar que lutava contra o abraço restritivo de Edward — Não pode ir com ela, Jasper!
Eu não podia voltar meus olhos aos dela, ou eu colocaria tudo a perder… A dor do afastamento, que eu sabia que nos atingiria em breve, já ameaçava me engolir somente com sua perspectiva.
— Eu tenho que ir. — falei de maneira firme, ainda sem olhá-la — Não há outra maneira.
— Não! — ela gritou, e sua dor me atingiu como uma tsunami, fazendo a minha se propagar — Você não pode me deixar! Você sabe que temos de ficar juntos!
Tranquei minha mandíbula e contive, com mais uma rodada descomunal de esforço, meu próprio desespero.
— Preciso de um minuto com ela. — falei entre dentes a Maria, num tom que apenas ela e os outros vampiros presentes seriam capazes de ouvir — Depois disso partiremos.
Ela me olhou com desconfiança.
— Tem minha palavra. — reafirmei — Se eu não cumprir o que estou prometendo você pode soltar seus demônios contra nós. — minha voz era séria.
— Um. minuto. — ela pontuou as palavras e então se moveu rapidamente para longe, prostrando-se em frente ao seu batalhão de novos vampiros.
Me voltei para Edward e segurei seu ombro. Ele relaxou sob meu toque.
Me deixe falar com ela, mas não se afaste. Pedi. Ele assentiu e a soltou.
O corpo de Bella se chocou ao meu e, por um mísero segundo me preocupei se ela não havia se machucado.
— Não faz isso. — ela implorou em meio a lágrimas que banhavam sua face perfeita.
Segurei seu rosto em minhas mãos e a olhei com ternura, permitindo que ela sentisse toda a potência do amor que eu guardava por ela.
— Eu não tenho escolha, pequena… — murmurei — Se eu não for com ela, todos nós, e eu digo, todos nós, estaremos mortos em meros minutos. — o rosto dela se contorceu em mais desespero, e seu corpo cedeu. Ajoelhei no chão de terra junto com ela, compartilhando de seu desamparo — Estou fazendo isso por você, para te manter segura, sim… Mas também para manter a todos seguros… — e nesse momento eu vi que ela entendeu que não estávamos sós ali, que os outros estavam perto, ainda que ela não os visse — Sou eu em troca de nove outras vidas… Faça a conta. — pedi com ternura — Não tenho o que considerar. Não existe outra alternativa.
— Eu não posso… — a voz dela partiu — Não posso ficar sem você.
— Onze segundos… — Edward alertou baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse.
— Eu tenho que ir. — foi a vez da minha voz partir — Vá com Edward, e se mantenha segura.
— Está na hora, Major. — A voz de Maria se fez ouvir, altiva, do outro lado da mata — Seu minuto acabou.
— Não faça nenhuma loucura. Por favor, Bella. — implorei a ela, fazendo ela sentir meu receio — Me prometa que não fará nada que coloque sua vida em risco.
— Não vá. — seus soluços eram dolorosos de ouvir e me partiam ao meio.
— Jasper… — Edward me advertiu, os olhos fixos nos recém-criados que estavam indóceis.
— Bella… Por favor… — e projetei nervosismo e impaciência.
Ela apenas negou com a cabeça, fazendo com que as lágrimas respingassem em mim.
Meu coração morto pareceu pesado demais em meu peito.
— Eu tomarei conta dela. — Edward me garantiu — Não deixarei que faça nenhuma bobagem, agora vá.
Eu ainda não podia senti-lo, ainda estava bloqueando a todos, mas seus olhos me disseram o quão desamparado e com medo ele estava.
Me levantei à revelia, depois de forçar, com cuidado, os dedos de Bella para longe de minha blusa que até então ela segurava com toda sua força.
Edward a envolveu e a carregou. Ela não resistiu e se aninhou, em prantos, contra o peito dele. O olhei com veemência.
— Não se preocupe. Você tem minha palavra. — ele garantiu em tom solene — Se necessário for eu darei minha vida pela dela.
Sei disso. Pensei ao invés de falar, minha voz estranhamente perdida. Não tentem me salvar, não venham atrás de mim.
Ele me olhou duro, e sua expressão era controlada demais.
Me prometa, Edward. Por Bella.
Ele assentiu curtamente uma única vez.
Vá. Agora. E não pare até chegar na mansão.
E então eu me virei para meu fatídico destino.
Os olhos de Maria dançavam sua satisfação enquanto eu ainda podia ouvir o pranto baixo de minha garota…
E a cada passo que eu dava para longe dela, e para mais perto da vampira sádica de quem um dia fugi, a cada metro de distância que Edward colocava entre mim e Bella, nossa ligação me puxava tortuosamente para trás, me exigindo que tomasse o caminho inverso, que voltasse, que não me afastasse nem mais um passo.
Forcei meus pés pesados até o outro lado da mata.
Com a mão direita sobre o centro de meu peito me virei uma última vez, encontrando apenas o espaço vazio onde antes ela estava nos braços de meu irmão.
— Se corrermos chegaremos no Texas antes do anoitecer de amanhã. — Maria falou ao me ter em sua frente.
Eu fitei Victória e o tal rapaz ao lado direito dela, e depois a menina em seu lado esquerdo e assenti ao voltar meus olhos para seu rosto severo, antes de baixar minha cabeça e aceitar que eu era, novamente, um de seus peões.
*
— O que quer que eu faça? — Indaguei áspero ao entrar na imponente sala do casarão naquela madrugada.
Havíamos chegado nas terras de Maria duas horas antes, e eu tinha passado todo esse tempo me familiarizando com o entorno isolado e vasto, e com os três exércitos que seu “capataz” Lionel, um vampiro truculento e mau-humorado, me havia apresentado.
— O mesmo que fazia antes de me apunhalar pelas costas, querido. — ela respondeu com o tom irônico e despreocupado, bebericando sangue humano, puro e fresco, em sua taça de cristal.
Em outros tempos eu me sentiria tentado ao máximo pelo perfume adocicado e morno… Até temi que, ao me deparar com a oferta, que obviamente iria acontecer uma vez que eu ali estivesse, eu fosse fraquejar e me render…
Eu não esperava me sentir surpreendentemente enojado.
— Você já tem um capataz, Maria. — retruquei com impaciência.
— Você será meu Major, como já foi um dia. Além do mais, ele não tem seus poderes de sedução. — ela riu — Nem a sua voz de comando. Me diga, como os exércitos se comportaram quando você entrou nos galpões?
Trinquei os dentes, enfadado com aquele joguinho ridículo.
— Intimidados. — respondi com indiferença.
— Vê? E eles nem mesmo sabem quem você é.
— Eles são vampiros, podem enxergar as marcas em meus braços e pescoço com perfeição. — pontuei — O instinto básico de sobrevivência deles os diz que eu sou muito perigoso, visto que obviamente enfrentei centenas dos de nossa espécie e ainda estou aqui de pé. Além disso, eu não sou tolo, e assim como você tenho completa habilidade em impor minha presença.
Ela riu escandalosamente alto, apertando os olhos como se eu tivesse contado uma piada muitíssimo engraçada.
Exasperado era como me sentia.
Esperei que ela se acalmasse e então a olhei com irritação, arqueando uma sobrancelha para ela em questionamento.
— Lionel é um inútil. — ela desprezou — Se não fosse por Kaya e Áries eu estaria tendo que lidar com eles eu mesma, e isso é muito cansativo…
— Kaya e Áries. — repeti com interesse indisfarçado — Então esses são os nomes dos seus novos marionetes. — meu tom saturado de ironia.
— Não são marionetes, são aquisições, investimento, garantias. Meu suporte, podemos dizer assim... Como você. — ela revelou com arrogância.
— E para quê precisa deles, Maria? — minha impaciência era clara — Já tem seu território estabelecido, não existe ameaça a ele.
— Justamente por ser quem sou e ter o que tenho é que não existe ameaça ao meu território. Acha que seria assim se eu não fosse tão bem preparada e resguardada? Ora vamos, Whitlock. Você sabe bem como tudo isso funciona, afinal foi com sua ajuda que garanti minha soberania por aqui.
— Neurótica como sempre. — falei por sob minha respiração, sabendo que ainda assim ela ouviria — Imaginei que com o tempo perderia essa mania de perseguição. Obviamente eu estava enganado.
— Sou apenas precavida e inteligente, querido. — replicou com convencimento ao piscar para mim.
— Ainda não consigo apreender minha utilidade para você.
Maria se levantou devagar, a ponta de sua língua umedecendo seus lábios enquanto ela me olhava de cima a baixo, como se estivesse me despindo em sua mente.
Eu não precisava realmente absorver a pura e latente luxúria que ela emanava para compreender o que ela estava pensando, querendo e antecipando… Seus gestos e todo seu joguinho ridículo de sedução era tão óbvio quanto minha apatia.
Meu estômago afundou estranhamente com a perspectiva de qualquer forma, e minha mente acelerou através de possibilidades para evitar aquilo. Eu não a queria de forma alguma, eu sentia asco por ela. E mesmo que não fosse desta forma eu sabia que meu interesse não seria despertado, fizesse ela o que fizesse. Existia apenas uma mulher no universo que instigava meu desejo, e ela estava há milhas de distância, sentindo uma dor pungente e massacrante que eu estava tentando, sem sucesso algum, sufocar…
— Nós vamos retomar tudo exatamente de onde paramos. — Ele sussurrou no que ela acreditou ser um tom sensual, sua mão livre deslizando ao longo de meu pescoço e mais uma vez se infiltrando na gola de minha camisa.
Segurei sua mão e a afastei de minha pele, meus dedos apertando seu pulso sem qualquer cuidado.
— Não. — afirmei categórico.
Por uma fração de segundo ela sentiu surpresa. Mas logo foi tomada por indignação e arrogância.
Sua risada grave poderia ter me causado arrepios se eu ainda fosse humano.
— Acha mesmo que está em posição de negar a mim o que quer que seja, Jasper? — e seus olhos brilharam com crueldade — Acha mesmo que eu simplesmente te traria aqui sem qualquer garantia de que você faria exatamente o que eu mandar e não fugiria na primeira oportunidade?
Estreitei meus olhos, trincando meus dentes e minha mandíbula com raiva.
— Eu sei onde ela mora… — ela destilou seu veneno num tom baixo e ameaçador — Com o pai, delegado da pacata Forks, Charles Swan… — todo meu corpo enrijeceu — Sei onde a mãe dela, Renée Dwyer, vive com o novo marido, Phil, em Jacksonville… — seu sorriso enviesado e vitorioso fez minha ira arder — Eu sei que sua nova família — ela enfatizou a palavra com sarcasmo — estará tentando protegê-la, assim como os lobos da reserva, os Quileutes. — engoli em seco, controlando a fúria e o desespero que ameaçavam me desestabilizar — Entenda… Sua antiga companheira… Alice, não é? Nunca me veria chegando, como não viu antes… E Edward nunca conseguiria antecipar minhas atitudes… Ele não têm como proteger a todos, nem a si mesmos... A única coisa assegurando a segurança de sua Bella, — ela praticamente cuspiu o nome — da família dela e da sua, neste momento, é a minha satisfação em ter você novamente aqui, comigo. — ela libertou seu pulso de minha mão num movimento brusco e segurou meu queixo com força — Se você quer que sua humanazinha permaneça viva e que cada uma das criaturas com quem você tanto se importa nunca paguem por um erro seu e sofram as consequências de minha frustração… Você vai sim me manter muito satisfeita.
— Então é para isso que estou aqui? — questionei controlando meu asco — Para ser seu brinquedo sexual.
— Ora Jasper… Você me cansa… — ela revirou os olhos num ato claro de impaciência — Claro que não. Você será meu brinquedo também. Mas eu preciso de você em campo, treinando meus recém-criados e os mantendo sob controle. Como eu disse… Exatamente de onde paramos.
Após um suspiro entediado ela se virou, caminhou até um dos aparadores, pousou sua taça vazia sobre o vidro e sentou-se no largo sofá.
— Como pode desejar alguém que sente repulsa por você? — Indaguei num tom grave e contido.
Ela deu de ombros.
— Não me importo. Só quero ter o que quero ter. E terei, porque é assim que as coisas funcionam comigo. Eu sempre consigo o que quero, Major… Sempre. Você sabe bem disso.
Temi que meus dentes estilhassassem, tão forte trinquei minha mandíbula. O desespero praticamente me afogou, e em resposta eu senti o medo absurdo que inundou Bella, provavelmente imaginando o que eu estaria enfrentando para estar me sentindo tão desamparado.
Tentei, mas não consegui retrair a angustia, o pavor que a noção de que eu estava ali, preso, de mãos atadas, estava me causando. A assimilação de que seria meu afastamento definitivo que manteria minha Bella e sua família, assim como a minha, em segurança, estava me tirando o chão… Além disso… Ter de ceder aos desejos de Maria...
Como eu faria?
Eu não queria ter de me sujeitar a tocar aquela que foi a razão para décadas de arrependimento, de nojo por mim mesmo… Eu não queria, e não podia trair Bella de forma tão imunda e vil… Eu estaria terminantemente violando nossa conexão, nosso elo, a pureza do amor que compartilhávamos se fizesse aquilo… Eu estaria condenando nossa história a um fim terrível…
Meu coração morto pareceu se contorcer dentro do meu peito, e eu teria vertido lágrimas se ainda possuísse a capacidade de chorar…
Mas eu não tinha uma alternativa, eu me encontrava numa situação extremamente delicada. Estava com a vida de todos que amava em minhas mãos, e não tinha como lutar contra aquilo tudo sozinho…
Maria olhou para mim com um ar curioso, me avaliando. Eu prendi o ar em meus pulmões e me concentrei no som que se propagava a partir de meu peito.
Bella nunca me perdoaria…
A desesperança tomou conta de mim como um tufão.
Eu parecia não ter uma escolha…
Então uma presença se fez sentir logo atrás de mim. E eu me virei, repentinamente interessado, para ter certeza de quem era.
Um fio de esperança enlaçou meu coração paralisado. Eu podia usar aquilo de alguma forma em meu favor.
— O que quer, Áries? — O tom de Maria era indiferente, assim como sua postura e olhar, mas ela nunca poderia esconder de mim a lascívia que surgiu em seu cerne, ainda que tão sutil.
O rapaz, que só então eu percebi o quanto se assemelhava a uma versão mais jovem de mim com seus cabelos dourados e traços sulistas, manteve-se sério, aparentemente frio e distante, inutilmente tentando mascarar seu latente desejo, direcionado à vampira morena que o encarava com arrogância, enquanto minha mente já trabalhava a mil por hora.
— Vim apenas confirmar se realmente não precisará de mim esta noite. — Sua voz era baixa e contida, mas deixou clara a evidente frustração que ele sentia.
Hum… Então aquilo seria ainda mais fácil de ser usado. Obviamente já existia algo entre eles.
— Quantos anos tem, rapaz? — indaguei apenas por curiosidade.
Ele me olhou com certo desdém, mas suas emoções me mostraram que ele estava sendo cauteloso quanto a qualquer atitude direcionada a mim.
— Vinte e dois. — respondeu com altivez.
Eu quase ri.
— Dezenove. — Maria o corrigiu parecendo enfadada — Você parou de envelhecer no momento em que te transformei três anos atrás, Áries.
Ele fez uma mesura com a cabeça em direção à sua criadora, os olhos fixos no chão enquanto continha a raiva e constrangimento que o tomaram.
Era a hora perfeita de agir. Ambos estavam distraídos o suficiente para nem mesmo me ver chegando. Ao menos naquela noite eu escaparia de meu infortúnio.
Concentrado em ambos os cernes eu projetei, cuidadosamente, uma crescente vibração de desejo, pulsando a emoção aos poucos para que Maria não fosse alertada. Ela conhecia bem o meu dom e poderia identificar meu ato se eu não fosse cauteloso o suficiente.
Quando eles então se olharam mais uma vez, eu intensifiquei a projeção, e a mantive constante enquanto me aproximava de Maria.
— Dispense o menino de uma vez. — falei com forçada impaciência, internamente torcendo para que o que eu estava prevendo acontecesse — Quanto antes seus desejos forem atendidos, mais cedo posso começar a cuidar dos recém-criados.
Maria voltou seu rosto em minha direção com uma dose pequena de contrariedade, mas isso logo se transformou em dúvida quando seus olhos carmim encontraram os meus.
Senti, com alguma apreensão, a vontade dela por mim forçar uma sobreposição à projeção que eu estava mantendo.
Ela iria dispensar Áries, e eu seria obrigado a ceder…
Não se eu fosse mais rápido.
Atrelado ao desejo que eu estava incitando em ambos, um pelo outro, eu enviei uma onda de inquietude, de urgência, para acelerar o processo.
— Não hoje à noite, Major. — Maria verbalizou com o tom pesadamente influenciado por minhas manipulações. Eu controlei um suspiro aliviado sob uma máscara de indiferença — Hoje você pode passar o resto da noite lamentando a perda de sua humanazinha… — ela voltou os olhos ao garoto, que estava praticamente brilhando de tanta luxúria que vibrava — Me sirva uma taça, Áries. E sente-se aqui. — Ela olhou para mim brevemente — Ao amanhecer quero você aqui. Temos muito que planejar.
Eu entendi que aquela era a dispensa que eu tanto almejava, e assenti uma única vez antes de trovejar para fora e para o mais longe o quanto possível do casarão.
Corri sem pensar, sem prestar atenção na direção, sem me preocupar com onde iria parar. Corri até que o céu desapareceu de minha vista, escondido sobre as folhagens espessas das árvores que dominavam a área por onde eu passava… A escuridão estranhamente me proporcionou uma sensação momentânea de alívio, e eu, desesperadamente precisando de minha conexão com Bella, diminui a velocidade até que estava caminhando a passos humanos, me focando nas batidas constantes que reverberam em meu peito e me diziam que minha outra metade estava ali comigo, de certa maneira.
Parei, e me mantive estático como só os de nossa espécie são capazes.
Fechei meus olhos e me deixei consumir pela saudade e pelo amor… Observei o arco que me envolvia, estendido até onde eu não podia mais enxergar, tornar-se mais brilhante e latente, pulsando as ondas que eu enviava à minha garota.
E logo eu era atingido pelas vibrações recíprocas, atreladas à uma melancolia intensa…
— Eu queria estar com você agora, minha pequena… — murmurei para o nada, essa força me puxando em uma direção que eu não poderia seguir — Eu queria estar com você...
Mais tristeza me alcançou, vinda de longe, de onde meus olhos, ainda que de visão tão perfeita e apurada, não podiam alcançar…
Eu dei dois passos, de forma quase inconsciente, o que é surpreendente em se tratando de minha natureza…
E então mais dois… e mais dois… E me deixei guiar pelo caminho que o impulso inexplicável que havia me dominado me movia.
Aos poucos, e com algum estranhamento, eu comecei a sentir uma familiaridade atípica, um reconhecimento sutil, desses que são tão comuns a humanos quando se encontram em um local que já estiveram antes, mas suas memórias falhas não permitem que a lembrança emerja.
Em minha frente uma clareira pequena se abriu… Um pequeno círculo de árvores altas permitia que a luz da lua cheia penetrasse tímida e iluminasse o ambiente de forma suave.
Um feixe de luz tilintou, partículas de poeira, reflexos e sombras dançaram ao meu redor… No tronco largo e forte do que eu reconheci como um pinheiro, bem em minha frente, uma inscrição capturou meu olhar.
Eu li, e entendi muito bem o que havia ali. Mas a surpresa, a perplexidade, forçou a minha aproximação e meu ceticismo…
Corri meus dedos pelas letras cravadas, desgastadas pelo tempo… Tão pequenas, tão imperfeitas… Tão significativas…
Lia-se: “IG & JC”...
— Isabell… — o murmúrio me deixou sem que eu realmente o permitisse...
Meus olhos correram das raízes espessas e longas até a copa alta do pinheiro em minha frente… E uma memória perdida me alcançou por completo.
— A partir de agora ele será para sempre o nosso pinheiro… — Eu disse com seriedade após baixar a pequena faca com a qual cravei a inscrição de nossas iniciais — A testemunha mais verdadeira do nosso amor.
Nos olhos dela eu vi a tristeza por minha partida iminente, e silenciei minha dor.
— Me prometa que será aqui que vamos nos reencontrar… — ela pediu com os olhos cheios d'água — Me prometa que será aqui que você vai voltar pra mim.
— Eu prometo. — meu tom era solene ao circular sua cintura e puxá-la para mim — Aqui, exatamente aqui, sob essa árvore, eu vou voltar para meu destino… Eu vou reencontrar minha razão de viver… Eu vou recobrar cada pedaço perdido meu e vou juntá-los a cada pedaço seu que eu deixar para trás…
— Não esqueça de mim, Collin… — ela implorou enquanto pequenos diamantes deixavam seus olhos…
Eu os colhi com a ponta dos dedos enquanto negava com a cabeça, antes de segurar seu rosto entre minhas mãos.
— Meu coração me trará de volta, Isa… Minha alma irá te encontrar… E nós estaremos juntos outra vez...
Sem que eu me desse conta meus joelhos cederam, e logo eu estava prostrado no chão, sobrecarregado como nunca antes pela potência de uma memória que eu não esperava recuperar…
Eu havia cumprido minha promessa... Em parte. Meu coração me levou até Bella, minha alma, que eu não duvidava mais ter, havia encontrado minha outra metade, e nós nos conectamos mais uma vez como eu havia prometido a Isabell… Mas fomos novamente separados, e estávamos, uma vez mais, partidos…
Elevei meu olhar para a copa da árvore majestosa, observando as marcas do tempo em seu tronco, as provas de seu desenvolvimento ao longo das décadas… O Pinheiro havia permanecido ali, firme, através de praticamente um século e meio, marcando o exato lugar onde eu e Isabell nos tornamos um, onde nossa conexão foi estabelecida pela primeira vez, onde prometemos um ao outro que nos reencontraríamos.
Sem intenção alguma eu havia encontrado nosso pinheiro e recuperado mais um pedaço de nossa história…
Eu não estava ali por acaso… Não… De alguma forma o destino havia criado toda aquela situação, e me levado ali, onde meu passado, minha verdade, minha origem resguardada me esperava, para que eu a tomasse de volta e compreendesse que nada podia ser capaz de quebrar o vínculo que existia entre Bella e eu.
Me levantei devagar, olhando ao redor em busca de mais alguma coisa que me fosse familiar… Eu não tinha certeza, pois essa parte de minha memória ainda era obscura para mim, mas eu supunha que as terras de minha família deveriam ser próximas de onde Isabell e eu costumávamos nos encontrar…
O rancho era tudo que eu havia conseguido recuperar das posses dos Whitlock, mas os campos de algodão, que não eram assim tão vastos, ficavam numa região posterior, a alguns quilômetros da casa de minha família.
Caminhei em direção ao norte, devagar, analisando a sutil mudança na vegetação… E quando percebi a mata fechada começar a dar espaço para uma mais aberta, novamente me pus a correr, até que me vi cercado por folhagens finas, que alcançavam minha cintura, e exalavam um perfume brando que tinha cheiro de… Casa.
Eu estava no campo de algodão que um dia havia sido de minha família… Eu tinha certeza. A memória não veio a mim, mas a sensação que aquele aroma causava em meu cerne era inconfundível. Eu estava onde já havia estado antes. Além disso, eu reconhecia os arredores, minha propriedade não estava assim tão distante…
A vontade de fugir, de correr até chegar em Forks, pegar Bella e partir para mais longe, me consumiu. Mas eu me contive com o pensamento de que nunca conseguiria proteger a todos se fizesse o que queria sem planejar direito…
Eu precisava arquitetar uma saída… E para isso precisava de tempo e cuidadosa observação dos padrões de Maria.
Já havia feito isso uma vez, há 52 anos…. Claro que na época eu não tinha alguém com quem me preocupar ou considerar…
Mas eu sabia que podia encontrar uma brecha novamente, e conseguir sair dali, e voltar para onde era meu lugar…
Recuperar mais um pequeno pedaço de minha memória humana havia reacendido a esperança em mim. Eu era destinado a estar com Bella, eu não podia simplesmente aceitar estar longe dela… Pela razão que fosse.
Eu só precisava de paciência e uma estratégia impecável.
Sorri diabolicamente.
Eu era mestre em estratégias… Tudo que precisava naquele momento era colocar minha cabeça no lugar e assumir um pouco da frieza do senhor da guerra, assim eu seria capaz de planejar com objetividade.
Me virei de volta para o caminho de onde tinha vindo e, como um raio, me lancei de volta.
Hoje ainda estaria sob o domínio de minha criadora. Hoje ainda estaria partido, sem minha metade, sentindo dentro de mim um vazio assustador que me atormentaria impiedoso. Hoje ainda estaria sem chão e de mãos atadas…
Mas tudo isso era transitório, temporário… E eu não descansaria enquanto não encontrasse uma maneira de pôr fim à ameaça chamada Maria… E dessa vez, de forma definitiva.
Fale com o autor