Destinados

23 EXTRA III - Corpo e alma


Notas iniciais
Mais um extra básico pra encaixar pecinhas no grande quebra-cabeças... Espero que curtam.

Os primeiros raios de sol mal iluminavam o céu, a maior parte do ambiente quase completamente coberto ainda pela leve penumbra da madrugada que se despedia no horizonte...

Faltava apenas um dia... Um único dia...

Na manhã seguinte Collin estaria partindo para a guerra, e eu estaria sozinha, vazia, perdida...

Sem ele eu era nada... Ninguém. Eu sabia, tinha certeza, que assim que ele fosse embora, minha vida desabaria.

Mas eu me resignei em acatar sua vontade, em apoiar sua decisão, em compreender seus motivos... E ali estava eu, caminhando devagar, me forçando a esconder a dor e contrariação para que ele não enxergasse meu descontentamento, respirando fundo para acalmar meu coração enquanto me dirigia ao nosso lugar, para o que seria, provavelmente, nosso penúltimo encontro.

Desde o dia anterior, quando Collin e eu revelamos às nossas famílias nosso relacionamento de mais de sete meses e contamos que tínhamos ficado noivos apenas algumas horas antes, nós tínhamos liberdade e a aprovação de nossos pais para nos encontrarmos. Mas aquela não era um rotina que queríamos mudar, ao menos não tão perto de nos separarmos. Então, como em todas as manhãs antes dele ir para a lida, e eu seguir para a mercearia para ajudar mamãe, eu estava indo me encontrar com ele em nosso pinheiro. E como em todas as manhãs ele estava lá me esperando, sentado na grama e recostado na grande árvore, a testemunha de nosso amor.

Eu parei há uma distância segura, e o observei com cuidado. Ele parecia um tanto triste, mas tinha essa sugestão de sorriso em seus lábios perfeitos que aqueceu um pouco meu coração... Talvez ele estivesse revivendo o momento em que selamos nosso compromisso, como eu havia feito durante toda a noite...

Olhei para o anel simples em meu dedo anular esquerdo, e sorri levemente.

Mesmo em meio à toda dor pela perspectiva de perde-lo, mesmo experienciando o maior e mais contundente medo que já havia vivido até ali, saber que ele me queria como eu o queria, de toda a alma e coração, e para sempre, me propiciava uma segurança poderosa.

Respirei fundo e elevei meu olhar para a figura de meu noivo, que ainda estava distraído afagando a relva rasteira, o sorriso, que antes era só uma ameaça, agora mais pronunciado e visível.

O farfalhar da saia de meu vestido o alertou de minha aproximação, e então seus olhos gloriosamente verdes alcançaram os meus, e sua feição se transformou na mais pura representação de deslumbre.

Eu senti minhas bochechas queimarem e meus joelhos enfraquecerem como sempre, como em todas as vezes em que ele me olhava daquela forma, e continuei andando para ele, até estar próxima o suficiente.

Collin se levantou e tomou minhas mãos. Suspirou quando eu o fitei, e sorriu abertamente quando pressionei meus dedos nos dele.

– Você é tão linda... – ele murmurou me olhando fixamente nos olhos, e eu estremeci um pouco com sua intensidade.

Eu elevei minha mão livre para afastar um cacho largo e perfeito que havia caído displicentemente em sua testa. Ele fechou os olhos sob meu toque e suspirou.

Me aproximando um pouco mais, selei meus lábios nos dele por um momento longo, expirando devagar quando ele circulou minha cintura e me pressionou contra o próprio corpo.

Sua boca então encaixou na minha num movimento suave, e minhas mãos se fecharam na nuca dele com força.

Nós estávamos praticamente colados um no outro, mas a proximidade ainda era insuficiente. Eu queria que fosse possível me fundir a ele, mesclar meu corpo no dele e nos transformar em um só, e então nunca teríamos de nos separar...

A ponta da língua de Collin deslizou em meu lábio inferior, e eu arquejei antes de lhe dar a passagem que ele pediu em silêncio, sentindo a vibração da mais intensa ânsia reverberar por toda minha pele quando nossas línguas se encontraram...

Chegava a ser insana a maneira como eu precisava dele, ainda mais naquele momento, como eu sentia que sem ele não poderia respirar, viver... Meu coração trovejava em meu peito, cada pequena parte de meu corpo tremia com a intensidade de minhas emoções, o desespero por sua iminente partida me engolfando num turbilhão de terror até que era demais pra mim...

Arfando eu parti o beijo com alguma dificuldade, só então notando a umidade em minhas bochechas. Meu olhos caíram e fitaram meus pés, enquanto eu lutava para enxergar alguma coisa através das lágrimas que não paravam de se reproduzir.

Collin suspirou alto e segurou meu queixo com cuidado, elevando meu rosto para o dele.

– Eu te amo, Isa... – murmurou sério – Eu vou voltar...

Eu neguei num movimento fraco, afastando-me do toque de seus dedos longos, contendo os soluços que ameaçavam explodir por minha garganta.

Tentei me desvencilhar de seus braços, que me rodeavam firmemente, mas Collin não me deixaria ir, eu sabia disso.

– Eu sei o quanto está machucando... – ele falou num tom melancólico que me assegurou de que ele estava sofrendo tanto quanto eu – Mas eu não posso mais voltar atrás...

– Eu sei... – sussurrei.

Ele me abraçou, enterrando a cabeça em meu pescoço, e eu o circulei com toda a força que tinha, sabendo que esses momentos, em que eu ainda era capaz de tê-lo comigo, estavam chegando ao fim...

O desespero por assimilar esse fato me moveu, e num movimento quase brusco eu nos afastei, segurei seu rosto com força e o beijei novamente, como nunca antes tinha beijado.

Meus lábios eram sôfregos nos dele, exigiam muito mais do que ele jamais tinha me dado, e a hesitação inicial de Collin era mais do que prova do quanto ele estava surpreso por minha atitude atípica e impulsiva.

Mas logo os lábios dele respondiam aos meus, e estávamos trocando o beijo mais intenso que havíamos trocado desde o nosso primeiro.

Eu me sentia um pouco tonta... Sensações novas e atordoantes me dominavam, mescladas ao medo agudo de perde-lo... E antes mesmo que eu fosse capaz de pensar, racionalizar sobre aquilo, uma força estranha se apoderou de mim, me fazendo entender do que eu precisava, a decisão se formando em minha mente de forma súbita mas sólida, em consequência do desejo que se elevara como nunca antes...

Eu ignorei como ele reagiria, ou que consequências aquilo me traria, e simplesmente deixei que as palavras expressassem o que meu coração e minha alma tinham acabado de realizar que almejavam...

– Eu quero ser sua... – disse num suspiro baixo, ainda nos lábios dele.

– Você é minha... – Collin murmurou distribuindo beijos nos cantos de minha boca, não compreendendo exatamente o que eu havia dito – Eu sou seu, nós somos um do outro... Nada vai mudar isso...

Eu me afastei um pouco, ainda segurando seu rosto em minhas mãos, me certificando de que nossos olhares estivessem conectados antes de esclarecer.

– Eu quero ser sua, Collin. – falei com segurança, e seus olhos verdes se estreitaram um pouco, demonstrando sua confusão – Eu quero ter você, e me entregar a você, completamente, totalmente, antes que você vá embora...

O tom quase dourado que tingia sua pele, resultado das muitas horas por dia sob o sol forte, desapareceu como se ele tivesse tomado um choque. Seus lábios partiram para que um arquejo mudo escapasse, e suas mãos em minha cintura perderam força.

– Isa... – ele uniu as sobrancelhas – Você...?

– Eu sei que você me garantiu voltar, – me apressei a justificar – Sei que devo confiar nisso, em seu retorno mas, algo dentro de mim, Collin, algo muito forte dentro de mim me diz que eu preciso fazer isso... Ter você... Antes que seja tarde...

Ele fechou os olhos com força por um momento, depois me fitou intensamente.

– Eu quero isso... – ele murmurou – Deus sabe o quanto eu quero isso, o quanto eu esperei que chegasse o momento em que nós dois... – ele pausou para respirar fundo – Eu espero por isso desde antes de entender o que isso poderia significar, Isa... Mas... Eu me guardei pra você, como eu sei que você se guardou pra mim, pra que quando isso acontecesse fosse o mais especial que pudesse ser... Eu não quero que o fato de eu estar indo embora seja a razão pra... Apressarmos as coisas...

– Não é por isso... – neguei com veemência – Não é porque você vai embora e eu estou com medo de você nunca voltar, Collin... Eu... – respirei fundo, enxergando que o fato era sim motivador – Talvez seja um pouco disso sim, – aceitei – talvez eu esteja impulsionada por meus receios, mas... – pressionei meus dedos em suas têmporas para enfatizar meu ponto – Eu te amo mais do que tudo, Collin... – suspirei – E se esse for o último momento em que vamos estar juntos... Eu preciso ter você pra mim... Em todas as maneiras possíveis...

– Não é o último momento... – ele argumentou.

– E se for? – eu provoquei.

– Não é. – ele afirmou com firmeza – Não é, eu me recuso a considerar isso. Eu vou voltar.

– Mas e se você não voltar? – meu tom já era irritado.

– Isa. – sua voz expressava autoridade – Eu não vou repetir.

Eu expirei, minhas mãos deslizando do rosto dele e caindo flácidas dos lados de meu corpo.

Em meio à irritação por ele não querer entender a razão de minha insegurança, meus medos e anseios, tinha essa sensação estranha de estar sendo rejeitada que me feriu mais do que eu previa.

– Eu quero você... – ele sussurrou num tom doce de repente, me abraçando forte outra vez – Isa, não é porque eu não quero, eu só... – sua voz morreu em um suspiro alto, e eu me vi maravilhada com a maneira como ele me lia tão bem e enxergava através de mim com tanta facilidade.

– Do quê você tem medo...? – eu indaguei num murmúrio – Se você me quer... – minhas bochechas esquentaram com a realização de minha atitude, eu estava insistindo, praticamente me oferecendo a ele, e então eu não conseguia prosseguir, minha voz perdendo força.

– Não é medo... – ele se afastou para me olhar, pousando uma de suas mãos sobre minha pele corada e afagando o local com a ponta dos dedos – Eu só... Eu só queria me casar com você antes...

Tocada por seu cuidado, eu sorri.

– Eu queria que fosse assim também... – confessei – Mas isso não fará diferença... Nós pertencemos um ao outro desde que nascemos, se lembra? – eu usei um dos muitos argumentos que ele usava para me convencer de que éramos o destino um do outro – Nós estaríamos apenas consumando esse fato...

Ele sorriu e negou brevemente.

– Deveria ser eu a estar tentando te convencer a me ceder sua virtude... Não o contrário... – ele falou com a voz num tom divertido.

– Eu não estou tentando te convencer a me ceder sua virtude, Jasper Collin Whitlock. – forcei um tom de reprimenda que não o convenceu – Apenas acredito que não há coisa alguma que nos impeça de nos tornarmos um só... Nossas almas já se pertencem... E ainda que você repita todas as suas promessas de retorno, eu não posso evitar a sensação de que, talvez, esse seja mesmo nosso último momento...

Ele inspirou profundamente ao colar nossas testas e fechar os olhos. Ficou em silêncio por um longo tempo, os dedos ainda acariciando meu rosto enquanto a outra mão me mantinha colada a seu corpo por minha cintura.

Eu esperei. De olhos fechados e angustiada, preocupada muito mais com a possibilidade de ele se firmar na negação de meu pedido, do que no constrangimento que eu havia ignorado ao abordar o assunto.

– Você é tão pura... – ele sussurrou e eu abri os olhos, percebendo que ele permanecia sem se mover ou olhar pra mim – Tão inocente e pura, Isa... Eu... Não queria macular essa pureza... Eu queria fazer de você minha esposa, aos olhos de Deus e nossas famílias, para só então te tomar pra mim... – ele suspirou e se afastou um pouco, finalmente me fitando – Me diga porque, realmente porque quer isso...

Eu nunca havia parado pra pensar muito naquilo, já que Collin nunca havia ultrapassado qualquer limite em nosso envolvimento físico. Havia os momentos em que os beijos eram mais profundos, mais intensos e apaixonados, em que suas mãos seguravam minha cintura com um pouco mais de força e ele me colava ao próprio corpo para impossivelmente perto, mas, nada mais que isso...

O desejo era real e pulsava em mim sempre que estávamos próximos, mais ainda quando nos tocávamos, e eu o queria, claro que queria, mas entendia muito pouco sobre a dinâmica de um envolvimento mais íntimo entre um homem e uma mulher, e até então, não tinha tido a necessidade de considerar que aquilo poderia acontecer entre eu e ele a não ser depois que nos casássemos...

Mas, talvez, saber que eu ficaria sem tê-lo por perto, por um período indeterminado, correndo o grande risco de nunca mais o ver, tenha me feito ansiar... Era como se essa força invisível estivesse me guiando e dizendo que eu tinha que viver isso, eu precisava me tornar dele, e fazê-lo meu, com o ato mais íntimo entre um casal, para que nossa união fosse selada irrevogavelmente, antes que nos separássemos... Eu sabia que somente dessa forma nós seríamos e permaneceríamos um só, ainda que fôssemos afastados um do outro...

– Eu quero selar nossas almas em uma só, Collin... – permiti que meus pensamentos fluíssem através de minhas palavras – Eu quero forjar a mais inabalável conexão que pode haver entre nós... Antes de você partir. Assim eu estarei verdadeiramente com você, onde quer que esteja, e você estará comigo, em mim, pra sempre... Eu não quero que você vá sem levar um pedaço de mim com você... Nem ficar aqui sem um pedaço seu comigo... – expirei baixo – Você entende...?

Seu olhar enterneceu com minha explicação, e seu semblante era compreensivo e apaixonado, me mostrando que sim... Ele compreendia...

– Você tem certeza...? – sua voz era trêmula e insegura, e seus olhos me avaliavam com cautela – Eu vou voltar, Isa... E nós vamos nos casar. Eu posso esperar...

Eu não posso... – determinei, e soube que ele havia identificado minha segurança.

Com um arquejo baixo ele nos aproximou novamente, nunca desconectando o olhar agudo que mantinha sobre o meu. A mão que nunca havia deixado meu rosto deslizou até minha nuca, afagando os fios que tinham se soltado de meu coque, e então se entrelaçando às mechas presas devagar.

Eu fechei os olhos quando ele se inclinou para mim, tomando meus lábios com cuidado e carinho, enquanto desfazia, suavemente, o penteado rotineiro que eu usava...

Meus cachos caíram em cascata, cobrindo minhas costas e roçando minha cintura, pesando nas mãos dele, que continuava a afagá-los, aprofundando o beijo...

Eu era capaz de perceber a hesitação em seus movimentos, na tensão que enrijecia seus ombros, no leve tremor de suas mãos que ainda não se arriscavam a carinhos mais ousados...

Eu também estava hesitante... E como não estaria? Eu não fazia ideia de como agir... Mas tinha essa segurança me impulsionando, essa certeza sobre minha decisão, que apesar de recente, de último minuto pra ser mais exata, era tão categórica e poderosa, então nada me demoveria, a não ser ele...

– Eu não tenho certeza se posso fazer isso... – ele sussurrou em meus lábios ao partir sutilmente o beijo – Isa, eu não quero te machucar...

Expirando eu me afastei só um pouco.

Collin era dos rapazes mais durões, quase rudes, da vila. Ele era altivo, de personalidade forte, seguro... Todos o respeitavam, o admiravam por ser tão maduro e responsável, por agir sempre com firmeza e convicção, ainda que ele fosse apenas um jovem homem de vinte e dois anos...

Mas comigo... Mesmo antes de descobrirmos o que sentíamos um pelo outro, mesmo antes de nos declararmos e cedermos à vontade de nossos corações e nos tornarmos um casal, ele era suave e cauteloso, cuidadoso, amável, sutil em tudo que fazia, em todas as pequenas e grandes atitudes...

Era como se em minha presença ele se curvasse, se desfizesse da armadura, de suas defesas, e se mostrasse completamente, se doasse completamente, deixando sempre em minhas mãos o poder de decidir, de definir cada passo que tomávamos...

Eu nunca havia considerado a possibilidade de estarmos naquele situação, mas, pensando sobre isso rapidamente naquele momento, eu deveria saber que não seria diferente...

– Você não vai me machucar... – assegurei a ele, tomando seu rosto em minhas mãos mais uma vez e o forçando a me olhar.

Ele sorriu um sorriso quase triste e negou com a cabeça.

– Você não entende o que isso envolve... – ele disse com a expressão constrangida e o rosto corado – Eu vou te machucar...

Seus olhos se fecharam fortemente enquanto eu internalizava a informação e compreendia o que estava preocupando ele.

– Olhe pra mim... – pedi – Por favor.

Tomando força em minha determinação, me alimentando do amor imensurável que sentia por ele, respirei fundo assim que ele fez como pedi.

– Nenhuma dor física se compara à dor que vou sentir amanhã – murmurei – e que vai permanecer me ferindo cada minuto de todos os dias até que você retorne... – ele expirou e tentou olhar para longe de mim, mas eu não permiti – Collin, você realmente acredita que isso me impediria de ter você? A perspectiva de sentir dor? Se aguentar algo doloroso fosse te manter comigo aqui pra sempre, eu passaria a vida sendo afligida, e ainda seria a pessoa mais feliz do universo...

Ele sorriu, mas seu olhar ainda era triste e preocupado.

– Não é só isso... – murmurou – Se eu fizer isso... Eu vou estar maculando você... Eu não posso te deixar depois de te... Fazer mulher, Isa... Não é certo... Por favor... Vamos... Esperar...

– Até você voltar...? – indaguei baixo, mas o ultraje era forte em meu tom.

– Até nos casarmos...

– Isso pode não acontecer... – eu choraminguei, já começando a me desesperar.

Collin suspirou, respirou fundo, e apoiou a cabeça em meu ombro como se estivesse muito cansado.

Eu espelhei suas ações, e quando estava com meu rosto em seu ombro e voltado pra seu pescoço, tentei uma última vez.

– Por favor... – sussurrei em seu ouvido, e senti ele estremecer – Eu te amo tanto, Collin... Eu... Preciso ter você... Me faça sua... Nos torne um só... Por favor...

Não tenho certeza se foram minhas palavras, meu tom, o significado que aquele pedido carregava, ou todos esses fatores unidos... Mas assim que eu me calei, Collin pressionou as mãos com mais força contra mim, me colando a ele como se pudesse me assimilar, e depois se afastou minimamente.

Seus olhos estavam em chamas. Seu semblante era concentrado e grave. A expressão que carregava era determinada.

E sem dizer coisa alguma, ele selou nossos lábios num beijo profundo, respondendo ao meu pedido com um sim silencioso...

*

A brisa morna da manhã que havia acabado de se estabelecer fazia cócegas em meus ombros e pescoço, e o perfume da pele de Collin me rodeava com força, me mantendo entorpecida...

Eu abri os olhos devagar, com medo de que tivesse vivido apenas um sonho, e me deparei com o céu azul mais perfeito que já tinha visto...

Talvez fosse assim porque tudo tinha mudado, talvez meus olhos agora enxergassem mais beleza no mundo ao meu redor porque eu me sentia... Completa.

Era a sensação mais inexplicável de minha vida...

Movi minha cabeça um pouco para baixo, em direção ao meu peito, e observei os raios tímidos do sol, que penetrava em feixes por entre os galhos do pinheiro, brincarem nos cachos dourados onde meus dedos estavam entrelaçados...

Collin respirava devagar agora... Seus lábios pousados levemente em minha pele, em meu colo, enquanto seu peso sobre meu corpo me mantinha imóvel.

Não que eu quisesse me mover... Eu abriria mão de qualquer coisa para permanecer daquele jeito com ele indefinidamente, sentindo sua pele quente contra a minha, me cobrindo em todas as extremidades possíveis...

Nós ainda estávamos despidos e conectados... As mãos dele ainda me seguravam com força pela cintura, minhas pernas ainda estavam envolvendo o corpo dele... Mas só existia essa pacificidade entre nós... Essa cumplicidade silenciosa, a realização de que éramos finalmente um só, e nada mais, nem mesmo a distância, seria capaz de quebrar o amor que havíamos acabado de forjar e selar ali, embaixo de nosso pinheiro...

Ele suspirou, enfraquecendo a pressão de seus dedos em minha pele, acariciando as laterais de meu corpo devagar, e eu pude sentir seu coração acelerar outra vez, estimulando o meu a imitar a reação.

– Eu te amo... – ele murmurou antes de deixar um beijo terno em meu pescoço.

Collin elevou a cabeça um pouco, até que fosse possível encontrar meu olhar, e eu me surpreendi com o novo brilho em seus olhos, tão profundo e contundente...

– Eu te amo. – ele repetiu, me olhando fundo, com uma intensidade opressora.

Eu arfei com a potência de meus sentimentos, e do que eu via refletido nele.

– Você é minha vida... – balbuciei, perdida e entregue.

Ele se inclinou pra mim lentamente, me beijando com suavidade por um longo momento, depois se afastou e me fitou com lágrimas nos olhos.

– Como eu posso te deixar agora...? – murmurou quando a primeira lágrima escapou por entre os cílios espessos – Como eu vou suportar me afastar de você quando...

Eu o calei pousando um dedo em seus lábios.

– Shhhhh... – elevei meu rosto ao dele pra lhe dar um beijo singelo – Agora somos um só... Eu estarei com você, aqui... – pousei minha mão em seu peito, sobre o coração, e ele seguiu meu movimento com o olhar – E você estará em mim, em minha alma, até que estejamos fisicamente juntos outra vez...

Ele expirou e me olhou com uma expressão dolorosa.

– Agora você acredita que vou voltar...? – indagou baixinho, a voz melancólica.

– Agora eu sei que estaremos juntos novamente... Não importa quanto tempo passe... Meses... Anos... Uma vida... – ele uniu as sobrancelhas numa careta de confusão – Não importa o que aconteça... Eu sei, eu tenho certeza, dentro de mim... – disse com uma segurança nova e sólida – Nosso amor, nossa ligação, é capaz de vencer até mesmo a morte...

Collin arquejou e seu corpo estremeceu sob minhas mãos.

– Eu juro que não vou morrer, Isa... – prometeu – Eu não vou morrer, eu vou me manter vivo pra você... E não vou descansar até que nós dois estejamos juntos, definitivamente...

Eu sorri e deslizei meus dedos em seu rosto corado.

– Em retorno em lhe farei uma promessa eterna... – os olhos dele ficaram um pouco maiores, completamente focados em mim – Eu te amarei para sempre. Pra sempre, Collin. Através do tempo, da vida e da morte, eu serei eternamente sua. Mil vidas podem vir, mil mortes me levar... Eu voltarei mil e uma vezes, e mais mil e uma se preciso for... Até te encontrar de novo... Até que nossas almas estejam novamente unidas numa só, como há pouco...

– Não fala assim... – ele praticamente suplicou – Eu sinto como se estivesse pra perder você...

– É justamente o oposto... Eu estou selando um pacto com você. –afirmei tranquila, movida pelo amor imenso que me inundava – Minha alma nunca vai descansar, enquanto não estiver completa. E ela só é completa com você...

Collin então me cobriu novamente com seu corpo, me apertando contra ele como se , dessa forma, nunca fôssemos nos separar...

– Eu vou voltar... – prometeu mais uma vez com o rosto enterrado em meus cabelos – Nem que eu tenha de dobrar o destino e enganar a morte, eu juro por esse ar que eu respiro agora... Eu vou voltar pra você.

E naquele instante o mundo pareceu parar para ouvir nossos votos de amor eterno... A certeza em nossos corações e palavras projetaram uma aura de segurança que nos envolveu completamente, nos fazendo ainda mais unidos do que antes, assegurando a nós dois que seríamos eternamente um do outro, a despeito de qualquer obstáculos que tivéssemos de enfrentar...

E então nada mais tinha importância além de nós dois... E nós nos perdemos mais uma vez em nós mesmos e em nossa conexão extraordinária... Uma conexão que nunca poderia ser quebrada...

Notas finais
Me deixem saber o que acharam ok?