Destinados
27 As possibilidades
Notas iniciais

Já era o final do dia, e eu logo teria de sair para buscar Bella.
Me apressei pelo corredor que levava ao escritório de Carlisle, depois que Esme me informou que ele queria conversar.
– Muito obrigado, Marcus. Aguardarei seu enviado. – Carlisle murmurou no telefone enquanto eu entrava e me sentava na cadeira em frente à sua mesa – Darei sim. Até logo.
Estreitei meus olhos e movimentei minha cabeça brevemente, demonstrando minha perplexidade.
– Marcus em... – incitei assim que ele desligou.
– Marcus Volturi. – Carlisle confirmou – Eu liguei mais cedo para Decklan, um amigo de longa data e grande conhecedor de todos os escritos da biblioteca do castelo Volturi, o responsável por todas aquelas inúmeras prateleiras, na verdade.
– Você o procurou a respeito da lenda... – afirmei, mas soou como uma pergunta.
– Sim. Eu queria confirmar com ele se o pergaminho ainda existia, e se estava sob sua tutela. Eu precisava apenas de algumas informações, mas ele se prontificou a ler todo o documento para mim. – sua voz soava surpresa e pensativa.
– E onde Marcus Volturi entra nisso?
– Bom... Eu estava aguardando Decklan retornar ao telefone, ele havia me pedido para aguardar alguns minutos enquanto ele pegava o pergaminho, e então Marcus estava na linha, oferecendo o envio do documento para mim, para que eu o estudasse com mais cuidado.
Enruguei a testa em confusão.
– Porque ele faria isso? – indaguei baixo – Sei que os Volturi o consideram como família, mas sei também, pelo tanto que já absorvi de suas emoções todas as vezes que os menciona, que a relação de vocês é um tanto... Tensa.
– Sim, é verdade. Com Aro e Caius, pelo menos. – Carlisle confirmou com o olhar distante, uma de suas mãos apoiando o queixo, o ar contemplativo – Mas com Marcus minha relação sempre foi apenas... Distante. Ele não se relaciona muito com quem quer que seja. Então estou tão ou mais surpreso que você por ele ter agido tão solicitamente.
Assenti, observando as emoções de Carlisle mudarem.
– Mas eu chamei você para conversar por conta de uma pequena descoberta que fiz. – seu tom era entusiasmado – Algo que relaciona ainda mais você e Bella.
Uma leve onda de choque correu por meu corpo. O que mais poderia nos ligar, além do inacreditável fato dela ser, supostamente, a reencarnação da garota que havia sido minha noiva, há mais de um século, quando eu ainda era humano? Ou além do inexplicável compartilhamento de meu dom com ela? Ou além do poder que Bella tinha sobre mim, como se eu nunca, jamais, pudesse negar a ela o que quer que fosse?
Um tanto ansioso e satisfeito, Carlisle abriu uma gaveta e retirou papéis que pareciam cópias de documentos muito antigos. E então os virou de forma que estivessem de frente para mim.
Eu li o primeiro da fina pilha, ainda um tanto confuso, com atenção. Se tratava de uma certidão de nascimento. A criança ali registrada recebera o nome de Marjorie, e era filha de Emilia Stweart e Stephan Oconnel Bartley.
Voltei meu olhar para Carlisle com perplexidade exalando por cada poro de minha pele pétrea.
– Esse sobrenome... – murmurei.
– Ele era irmão de Isabell. Observe os dois documentos seguintes. – Ele me orientou com sua calma característica.
Fiz como ele disse, e encontrei as certidões de Stephan e Isabell, filhos de Damian Carstel Bartley e Lianne Marie Oconnel Bartley.
– Marjorie Leah Stweart Bartley era sobrinha de Isabell, única filha do irmão dela, Stephan. – Carlisle esclareceu.
Eu assenti, muito consciente do vinco em minha testa, e puxei o papel seguinte da pilha, encontrando a certidão de casamento de Marjorie com Mathew Linewell Swan, e em seguida, a certidão de nascimento do filho deles, Geoffrey Charles Swan.
– A sobrinha de Isabell se casou com um Swan... – murmurei atônito, só então olhando para Carlisle novamente – Esse garoto, Geoffrey...
– Era o pai de Charles Swan. – Ele atestou a suspeita que cresceu de imediato em minha mente – Eu conferi. Geoffrey era o avô paterno de Bella.
Respirei fundo, ainda que o oxigênio que preencheu meus pulmões não me acalmasse ou fizesse qualquer diferença.
– Ok, Carlisle. – disse tentando organizar meu raciocínio – Aqui nós temos parte da árvore genealógica de Bella. Entendo que, com esses documentos, comprovamos que ela é, indiretamente, uma descendente de Isabell. – Ele assentiu, parecendo esperar algo mais de mim – Mas no que isso nos liga? Não existe qualquer relação comigo, aqui temos apenas a origem dela.
– Ainda tem mais um documento na sua frente, Jasper. – ele indicou com o olhar – Porque não o confere?
Abaixei meu olhar para um desgastado pergaminho onde uma escritura antiga estava registrada. Tratava-se de um testamento, no qual um senhor Henry Flint Carstel deixava para suas filhas, Johana e Judith, todos os seus bens. Sem compreender muito bem quem eram aquelas pessoas indicadas no documento, e no que isso poderia comprovar uma relação entre mim e Bella, continuei a ler ferozmente as letras rabiscadas, até alcançar uma lista de beneficiários do tal Henry, além das filhas, que, pela diferença na letra, escrita e desgaste, deduzi que havia sido incluída ao documento muito tempo depois.
Expirei alto.
Com precisão, as famílias de ambas herdeiras estavam ali descritas. Eu li novamente, nome por nome, em voz alta, apenas para ter certeza da conclusão óbvia.
“... Damian Carstel Bartley, filho de Simone e Gerard Carstel Bartley, neto de Johana Flint Carstel Bartley, e Bertha Jules Carstel Simmermore, filha de Agnes e Paul Carstel Simmermore, neta de Judith Flint Carstel Simmermore.”
– Reconhece algum dos nomes aí descritos? – Carlisle indagou com o tom ansioso.
– Além do nome do pai de Isabell, Damian... – pausei, me forçando a assimilar tudo aquilo – Eu nunca esqueceria o nome Bertha... – falei numa expiração pesada, concentrado ainda nos escritos – Ainda que ela faça parte de uma vida que não me pertence mais, na qual eu não pensava por mais de meio século... Eu nunca esqueceria o nome da minha mãe...
Então o encarei, esperando que ele concluísse o que eu já havia compreendido, mas estava tendo dificuldade para assimilar.
– A sua bisavó, – Carlisle começou a explicar – Judith, era irmã da bisavó de Isabell, Johana. Sua mãe, Bertha, que se tornou uma Whitlock após casar com seu pai, Monroe, e o pai de Isabell, Damian, eram primos de segundo grau. Você e Isabell eram primos de terceiro grau. – ele expirou no mesmo momento que eu – Vocês descendem da mesma família, Jasper. Você e Isabell... E Bella, descendem dos Carstel. O que significa que, ainda que de uma maneira muito distante, você e Bella compartilham antepassados.
Sacudi a cabeça, completamente confuso, apesar de ter compreendido absolutamente tudo que estava ali exposto. Minhas dúvidas nada tinham haver com nossas origens, mas sim com o propósito de tudo aquilo.
– Mas o que isso tudo significa? – questionei verdadeiramente angustiado – Isso tem alguma relação com a lenda ou com o fato de compartilharmos meu dom? Eu... – sacudi a cabeça mais uma vez, totalmente perdido naquele tumulto de informações.
Carlisle suspirou ainda sorrindo.
– Eu não tenho certeza, mas acredito que a ligação de vocês vem de antes de suas bisavós. Eu ainda vou investigar mais, tenho um contato trabalhando nisso. – me assegurou – Eu tenho o pressentimento que, indo mais fundo nessas origens descobriremos, não apenas o quão antiga é essa conexão, mas também a finalidade dela. – ele falou vibrando certeza.
Eu o olhei por um momento indefinido, absorvendo sua convicção e tentando aninha-la, mas apenas consegui ficar mais ansioso.
– O pergaminho que contém a lenda chegará em breve. Então poderemos considerar mais algumas possibilidades. – Carlisle comentou percebendo a tensão que eu era incapaz de disfarçar – Não se preocupe tanto com isso. Aproveite esses próximos dias para ficar com Bella. – ele aconselhou – Segundo as visões de Alice você estará muito ocupado daqui a quatro dias...
– A viagem a Seattle. – resmunguei, me dando conta.
– Alice teve uma nova visão esta manhã enquanto caçávamos. Parece que vocês ficarão fora por quase duas semanas. – ele me informou com certa cautela – Ela vai te explicar tudo assim que retornar.
Assenti, subitamente tenso com a perspectiva de ficar duas semanas longe de Bella.
Me levantei projetando gratidão e aceitação, para que Carlisle compreendesse o que eu queria dizer sem que eu precisasse falar. O ridículo nó em minha garganta não me permitiria sem que eu soasse estúpido.
Ele acenou com a cabeça, um sorriso compassivo nos lábios, e então se voltou aos documentos que, há pouco, eu esmiuçava.
Sai como um trovão, não me detendo nem mesmo com a chuva torrencial que caía do lado de fora.
*
– ...Poderíamos ficar na lancha mesmo, afinal eu sou a única que precisa dormir e ali tem espaço de sobra pra mim... – Bella concluiu sua ideia para nosso final de semana, me olhando com seus olhos brilhantes, entusiasmados.
Eu deixei que o silêncio ocupasse o espaço onde, antes, sua voz havia dançado em torno de expectativas doces para um momento só nosso, um plano que ela desenhou em sua mente com a intenção de nos permitir ficar a sós, longe de tudo e todos, para compensar a última semana de momentos em família, sempre tensos e breves, permeados pela preocupação com os planos de Victória.
Ela sabia que eu tinha algo, ou muito, para falar. Ela podia sentir minha ansiedade e nervosismo, meu desconforto. Mas preferiu esperar e me dar a oportunidade de decidir de que maneira eu queria expor o que estava me desestabilizando.
A verdade é que eu nem sabia por onde começar...
Eu tinha que conversar sobre a descoberta de Carlisle, a previsão de Alice, e nosso relacionamento físico. Eu tinha que explicar a ela que possuíamos a mesma linhagem familiar, expor a péssima notícia de que, não só teríamos menos tempo juntos, como ficaríamos longe um do outro por mais do que o planejado e esperado anteriormente, e ainda teria de determinar algo que ia de encontro com o que eu e ela queríamos...
Respirei fundo, notando Bella imitar meu gesto enquanto acalmava suas emoções.
Estávamos em seu quarto, o que era incomum. Mas desde que eu sabia o objetivo da vampira ruiva, só se eu fosse louco para expor Bella em nosso canto, no penhasco.
Puxando-a comigo nos sentei na cama estreita, apoiando minhas costas na cabeceira de madeira, e Bella em meu peito. Imediatamente ela se ajeitou para que seu rosto estivesse alinhado com o meu, seus olhos me fitando com atenção.
– Eu acho que o melhor é começar pelo pior... – murmurei, sabendo que ela estava em sintonia comigo.
Bella assentiu, confirmando o que eu já sabia. Ela havia percebido que precisávamos tratar de alguns assuntos.
– Segundo Carlisle, Alice teve uma visão hoje pela manhã. Nós vamos ficar fora mais do que o esperado. – expirei enquanto Bella assentia, seu desagrado disciplinadamente controlado – Ainda não conversei com ela mas... Ao que parece, ficaremos fora por cerca de duas semanas.
Com os olhos subitamente rasos, Bella respirou fundo, desviando sua concentração de mim para a bainha de sua blusa. Seu coração, repentinamente descompassado, traduzia sua imediata tristeza e angústia com a perspectiva de nosso afastamento prolongado.
– Você tem de fazer o que você tem de fazer... – sua voz tremulou até mim – Não preciso falar em voz alta o quanto isso me deixa mal... E nem o quanto eu compreendo que não tem outro jeito.
Ela então voltou os olhos pra mim, um sorriso hesitante nos lábios.
– E eu não preciso falar que estou tão infeliz com isso quanto você... – devolvi com ternura enquanto ela negava apenas para me assegurar – Tem mais...
Seu coração perdeu uma batida, a tensão se espalhando pelo quarto como um campo de força insustentável.
– Partimos em quatro dias. – me apressei, projetando calma – Ainda preciso me inteirar dos detalhes, mas o tom de Carlisle era terminante quando me passou a informação.
Bella suspirou mais forte, o coração ainda retumbando apesar de minha insistente tentativa em acalma-la com as vibrações. Eu segurei seu rosto com a ponta de meus dedos, mergulhando no castanho profundo de seus olhos expressivos, transmitindo a ela o quanto eu valorizava cada instante, cada toque, cada olhar.
– Podemos antecipar todos os planos que você fez pra nosso final de semana. – ofereci – Eu adoraria passar quarenta e oito horas inteiras com você em Vancouver, numa lancha no meio do lago, apenas nós dois longe de toda essa loucura. – ela sorriu mais sinceramente dessa vez, os olhos brilhando mais forte com a possibilidade – Só não tenho certeza sobre o que Charlie vai pensar disso...
– Ele não se importou quando fomos a Seattle. – ela argumentou.
– Quando fomos a Seattle passamos o dia, Bella. – rebati com um sorriso enviesado – Você sugeriu passarmos dois dias, o que inclui duas noites, sozinhos, navegando no Vancouver Lake. Você sabe que eu não durmo, mas seu pai vai deduzir que sim, e mais, que obviamente vamos dormir juntos. E quando eu digo, dormir, não quero dizer no sentido literal da palavra...
Bella corou enquanto eu ria baixo, deduzindo as intenções por trás de seu plano. O que me proporcionou a deixa perfeita para nosso próximo assunto.
– Fazia parte de seu plano? – indaguei com carinho, meu tom controlado e baixo para não constrangê-la ainda mais.
– O quê? – ela fingiu incerteza.
– Dormirmos juntos... – disse sério, depois suspirei – Bella, tudo bem você me expor o que realmente quer, não precisa ficar constrangida.
Com uma determinação firme em seu íntimo, ela me encarou altiva, decidida. Se moveu do meu lado para ficar de frente pra mim, os olhos mais iluminados e expressivos.
– Eu quero que aconteça. – falou com o tom seguro – Sei que é cedo, que apenas começamos a namorar, que você quer ir devagar em nosso relacionamento... – ela deu de ombros – Mas eu quero você. E sei que me quer também. Desse jeito. – ela pontuou com uma arqueada sugestiva de suas sobrancelhas – E eu me sinto pronta, Jasper. Não porque já tenho dezoito, mas porque... É você... – sua voz suavizou em meio a um sorriso tímido – É você. O homem que me faz sentir assim... Feliz e completa... Mesmo quando as perspectivas para o futuro imediato são horríveis... Mesmo quando tenho todos os motivos lógicos pra estar tensa, preocupada, infeliz, nervosa, você... Você me deixa bem... Com um coração batendo forte e bochechas quentes... – eu arfei uma risada baixa – Com a pele desejando, com o corpo vibrando... É você que me faz sentir assim e eu... Eu quero ser... Sua... – sussurrou a última palavra.
Nunca antes eu havia sentido falta de um coração vivo em meu peito... Naquele momento, tudo que eu mais desejava era ser humano pra perceber o retumbar arrítmico contra minhas costelas, demonstrando o quanto as afirmações dela, da minha garota, me faziam impossivelmente feliz...
Fechei os olhos.
Eu não tinha um coração pra acelerar, mas tinha meu dom pra expressar toda a potência de meu amor por ela.
Bella arfou, como sempre arfava, ao receber a primeira onda da projeção. Eu fazia isso com mais frequência agora, porque não haviam mais motivos para esconder a intensidade de meu amor por ela. Mas ela sempre reagia da mesma maneira.
Abri os olhos e a fitei com intensidade, enquanto a segunda projeção a alcançava. Com as pontas dos dedos segui cada contorno de sua face que meu olhar memorizava, captando cada minúscula reação dela à inquestionável evidência de que ela me possuía completamente, delineando seus olhos semi-cerrados, seus lábios entreabertos, e então puxando seu rosto, pelo queixo delicado, para mim.
Nossas bocas se encaixaram devagar, e eu permiti que o deslumbre permeasse a projeção que já tomava proporções desenfreadas. Mil vezes que eu a beijasse, mil vezes eu me sentiria maravilhado... Pelo sabor, pela maciez, pela emoção que me provocava... Pelo tanto que me tornava vulnerável a ela...
Em meio a um suspiro ela me fez um pedido... Implícito na movimentação de sua língua, que deslizava tímida em meu lábio inferior, Bella me pedia que aprofundasse o beijo... E eu, completamente entregue a ela, fiz o que ela queria...
E então logo estávamos, os dois, arquejando, a vibração intensa do desejo me fazendo sentir como se estivesse tonto.
Segurei a nuca de minha garota com cuidado, quebrando o beijo com pequenos selinhos em seus lábios ansiosos.
– Preciso pensar sobre isso... – murmurei entre beijos – Você tomou sua decisão mas eu preciso ser razoável. – a afastei minimamente para poder conectar nossos olhares – É perigoso, Bella... E eu não posso simplesmente me deixar levar... Preciso ter certeza de que... De que consigo fazer isso sem machucar você...
– Você não vai me machucar, Jazz... – ela afirmou, tentando puxar meu rosto para o dela novamente – Eu sei que não.
– Você não tem como ter certeza... – repliquei.
– Claro que tenho. – ela falou com o tom mais firme, me olhando com segurança – Em todo o tempo que estamos juntos você nunca fraquejou... Mesmo antes, logo no começo quando você ainda lutava pra resistir à proximidade ao meu sangue... Lembra daquela primeira vez que eu corei forte?
– Bella... – me afastei um pouco, encostando mais uma vez na cabeceira da cama e negando com a cabeça – Isso é... Diferente... – expirei – Meu controle com você por perto, quando estamos juntos, nos beijando, nos tocando... É, digamos que, satisfatório. Mas mesmo ele não me assegura totalmente... Estar com você... Desse jeito... De verdade... Vai ser diferente e eu não tenho certeza se terei total controle sobre meus instintos... – expliquei.
Ela se sentou ereta, os olhos estreitados em mim.
– Como assim?
– Quando estamos juntos... Dessa maneira... – suspirei – Já é bastante complicado pra mim... Raciocinar. Minha mente fica praticamente em branco. Mesmo quando apenas começamos um beijo eu perco o foco, tudo que eu consigo sentir, perceber, assimilar é você... – as palavras saíam intensas – Eu tento... Muito. Tento mais do que é comum pra mim... Pensar. Me manter consciente... Mas é quase impossível. Como um vampiro... Com minhas habilidades e experiências... Eu tenho total e absoluto controle de minha mente, consigo pensar e me focar em uma centena de coisas ao mesmo tempo... – A olhei firme para pontuar a frase seguinte – Exceto quando estamos em contato físico. – ela corou, um sorriso de satisfação ameaçando brotar em seus lábios – Por isso eu sempre interrompo quando as coisas se tornam... Intensas demais. – expliquei – E numa situação assim... Se nosso contato físico for mais intenso... Meu instinto vai estar dominando ainda mais, e minha racionalidade já estará praticamente vencida... – neguei com a cabeça – Eu tenho medo de perder completamente a noção... E não só acabar drenando todo o sangue do seu corpo, mas também... De me permitir ser intenso demais e... Machucar você de uma maneira irreversível, Bella. – hesitei – Você conhece minha história. Eu contei tudo a você... Você sabe bem o que aconteceu com as mulheres humanas com quem já estive... Eu...
Dois dedos frágeis cobriram meus lábios.
– Shhhhh... – Bella me silenciou – Sabemos que a referência que você está usando não é coerente... Existe uma diferença gigantesca entre essas mulheres e eu... – Ela me beijou com suavidade – Você me ama, Jasper... Eu sou sua outra metade... Lembra?
Eu sorri.
– Sim... Você é minha outra metade o que nos leva a outro ponto crucial... – expirei brevemente – Justamente por isso é ainda mais perigoso... Qual é meu instinto mais forte em relação a você? – indaguei, tentando rememora-la de tudo que havia contado sobre minha descoberta no dia de seu aniversário, e a lenda que Carlisle explicou – O que me movia quando ataquei você em seu aniversário, vida?
Bella me olhou com ternura enquanto traçava as maçãs de meu rosto com os polegares. Suspirou alto e sorriu, tranquila, plácida.
– Em algum momento você vai ter de me transformar, Jazz... – ela falou com suavidade – Carlisle não afirmou que, segundo a lenda, você não conseguiria fazer isso sem que eu permitisse? – eu assenti fracamente – Então! Mas, caso aconteça... – deu de ombros – Eu não lamentaria que fosse num momento íntimo... No nosso primeiro momento íntimo...
Expirei pesadamente, aceitando que ela tinha razão, mas ainda hesitante.
– Eu preciso pensar... – repeti – Você entende?
Bella anuiu me oferecendo um sorriso cálido.
– Sim.
– E me preparar pra isso... Eu não posso simplesmente... Tomar você pra mim, assim...
Ela riu um pouco, esbanjando confiança.
– Claro que pode... Você é o único que pode, na verdade.
Eu fiquei ainda mais sério enquanto negava.
– Não correndo o risco de roubar sua decisão sobre o “quando” Bella... – pausei, e ela compreendeu onde eu queria chegar – Eu quero transformar você, mas quando estiver pronta. Quando tiver certeza de que é capaz de deixar tudo para trás... Seus amigos, sua vida como você a conhece... Charlie...
Absorvendo e assimilando minhas palavras, e a razão por trás de minha argumentação, Bella abaixou a cabeça. Respirou fundo amainando, deliberadamente, e sem qualquer auxílio meu, a sensação de perda, o medo e a culpa que a dominaram de súbito.
Eu aguardei até que ela se refizesse da realização que eu a obriguei experienciar. Quando tive certeza de que ela havia aninhado a essência de meu receio, toquei seu queixo e, cuidadosamente, ergui seu rosto para mim.
– Eu não vou roubar sua decisão... – assegurei num sussurro, e ela assentiu.
– Mas ainda podemos passar os dois dias em Vancouver? – ela murmurou esperançosa.
– Se Charlie concordar. – prometi.
Bella suspirou, ainda com a feição um tanto quanto aflita, e se aninhou ao lado do meu corpo outra vez, apoiando a cabeça em meu peito. Eu a rodeei com meus braços, beijando seus cabelos e mantendo meus lábios ali, inalando seu perfume.
– Eu confio em você, Jazz... – praticamente balbuciou – Sei que vai agir conscientemente... É o que você sempre faz.
Eu enviei uma onda de gratidão a ela, em retorno à confiança sólida que ela projetou pra mim junto com suas palavras.
– Eu te amo... – sussurrei, e senti seu coração acelerar – Muito.
E até que ela pegasse nos sono, ficamos assim, apenas abraçados, sentindo um ao outro enquanto minha mente considerava todas as possibilidades.
*
Eu me debati muito se fazer isso seria conveniente. Se não causaria dor, mágoa... Se não a afastaria de uma vez por todas de mim...
Mas ela era, indubitavelmente, a pessoa na qual eu mais confiava.
Não por ser ela quem era, ou por suas capacidades. Mas porque ela me conhecia muito bem, eu acreditava até que melhor do que eu mesmo...
Expirando pesadamente me virei para escrivaninha, não me surpreendendo ao nota-la já atenta a mim, um sorriso ameno nos lábios perfeitos.
– Não entendo porque tanto conflito – ela falou num tom suave – se no fundo você sabe que podemos conversar sobre qualquer coisa...
Passei as mãos pelos meus cachos, contendo o leve constrangimento. Era difícil pra mim saber que ela tinha total consciência sobre o assunto.
Alice se levantou, ignorando por um momento seus croquis, e caminhou até mim com tranquilidade.
– Jazz... – meneou a cabeça – Você não vai me magoar. – me assegurou – Eu me preparei para isso.
Eu franzi o cenho.
– Se preparou para quando eu perguntasse isso? – meu tom incrédulo.
– Não seu bobo. – ela riu, completamente confortável – Me preparei para ver isso. Ou acha que quando a decisão fosse tomada eu não receberia as imagens em primeira mão?
Intensifiquei meu olhar sobre ela, procurando a rachadura na fachada. E não precisei me concentrar demais, porque estava lá, quase bem escondida por baixo das inúmeras camadas de controle.
Ela realmente me conhecia bem demais. A ponto de saber como quase driblar meu dom.
– Eu posso sentir, ainda que fundo em seu íntimo, o ressentimento, Allie. – murmurei com cautela.
Ela deu de ombros.
– Eu não disse que não me incomodo, um pouco, com isso... – afirmou, desviando o olhar para longe de mim – Eu ainda... – se interrompeu, mas não a tempo de evitar que eu reconhecesse o sentimento – Não importa. – me olhou novamente, um sorriso exageradamente largo estampado em seu rosto – Você pode me perguntar, eu tenho as respostas.
Eu abaixei a cabeça por um momento, permitindo que meu cabelo formasse uma cortina em volta de meu rosto.
Eu odiava magoa-la dessa forma. Odiava coloca-la nessa posição, de ter que sufocar o que sentia por mim, de ter que fingir que tudo estava bem, que ela podia lidar com isso...
Os dedos delicados dela correram pelas ondas de minhas mechas, prendendo algumas atrás de minha orelha.
– Eu já te falei que não precisa se sentir culpado... – a voz dela era sincera, assim como a emoção que me alcançava – É claro que eu sinto, Jazz, mas não é como se eu fosse desabar. Eu amo você e a Bella demais... De verdade. – eu a olhei, enxergando a veracidade de suas palavras em seus olhos âmbar – Eu aceitei. – me assegurou – Eu assumi minha nova posição em sua vida. Então me deixe atuar nela como me cabe... Por favor. Eu estou bem com isso. Eu juro.
Suspirei alto, a puxando para um abraço forte.
– Eu te amo, Allie. – sentenciei – Eu não gosto de colocar você nessa posição, eu odeio magoar você.
Ela nos afastou com delicadeza, sorrindo mais uma vez.
– Eu sei. Mas eu sou grandinha. – piscou pra mim, segurando minha mão e nos direcionando à cama que um dia foi nossa – Sei bem com o que sou capaz de lidar e não me disporia se não quisesse. – fez com que nos sentássemos de frente um pro outro na borda – Agora... Me faça as perguntas. Eu tenho as respostas.
Expirando pesadamente de novo, me preparei para verbalizar tudo que martelava minha mente.
– Você não vai mata-la. – Alice respondeu, conhecendo a primeira e mais importante pergunta.
– Nem machuca-la? – indaguei rapidamente quando percebi que ela não me daria chance de falar caso eu não me antecipasse.
Ela negou com a cabeça, a ansiedade pulsando em seu interior, suspeitando eu que para responder logo a última questão.
Me surpreendeu o fato dela ter controlado o impulso e esperado que eu perguntasse com todas as letras.
Puxei o ar.
– Existe algum risco de eu transforma-la no... Processo? – minha voz soou atormentada.
Pela dualidade de emoções que a tomou de repente, e a expressão de inquietude explícita em sua face, eu reconheci a resposta antes mesmo que ela falasse.
– Sim. – seu tom era enfático.
Eu fechei os olhos, me forçando a conter a aflição que ameaçava meu controle.
– Você viu as possibilidades? – indaguei ainda sem a olhar – É isso?
Assim que ela suspirou, eu a encarei.
– Eu vi muitas possibilidades, Jazz. – Alice afirmou – Provavelmente porque você ainda não tomou uma decisão definitiva. Eu vi vocês juntos num barco... E também no penhasco... Em ambos os cenários eu vi você cedendo ao impulso... E a transformando enquanto vocês... – ela se interrompeu sugestivamente – E em outro momento vi você fazendo justamente o oposto, se controlando, focando em Bella e vencendo o instinto... – foi a vez dela de expirar pesado – Tudo depende de você. E no momento em que tudo acontecer. Tudo que posso te afirmar é... – ela segurou meu rosto e me olhou fundo – De uma forma ou de outra, você e Bella se pertencem. Eu não preciso de uma lenda, de minhas visões, do poder de Edward ou mesmo do seu pra ter certeza disso. É cristalino pra quem quer que olhe pra vocês... E nada vai mudar isso, Jazz. Nem mesmo Bella se tornando uma de nós.
– Eu não quero roubar dela essa decisão, Allie. – confessei – Eu quero que ela tenha tempo, que viva o quanto achar que precisa. É ela quem deve decidir quando se tornar uma de nós, não eu, não meu impulso, meu instinto.
– Então seja mais forte que ele. – ela sentenciou, me contagiando com sua confiança – Eu sei que você é capaz de superar esse instinto. Você foi capaz de superar o desejo por sangue por ela. Claro que pode fazer o mesmo em relação ao impulso.
– Você acredita mesmo nisso? – perguntei, mesmo absorvendo sua convicção.
– Você tem alguma dúvida? – ela ergueu uma sobrancelha perfeita pra mim – Quando, nos mais de cinquenta anos que nos conhecemos, eu tive alguma incerteza quanto a você?
– Nunca. – eu murmurei, baixando meu olhar.
Alice segurou meu queixo e me forçou a olhar nos olhos dela.
– Você é capaz. – repetiu – Sabe disso. Só depende de você.
Eu permaneci calado por mais um momento, assimilando, aceitando as palavras dela.
Se Alice confiava em mim... Se Carlisle confiava em mim... Se Bella confiava em mim... Então quem era eu pra duvidar?
*
O som contagiante da risada de Charlie preencheu o ambiente, e eu me forcei a amenizar o embaraço.
Sentindo a presença de Bella mais forte, e ouvindo sua pick-up parando na frente da casa, relaxei um pouco na poltrona.
– Ela chegou. – Charlie comentou ainda sorrindo, voltando sua atenção ao jogo que passava na TV logo em seguida.
Pouco depois Bella passou pela porta, estranhamento a tomando quando me viu na sala. Eu não tinha avisado a ela que iria conversar com seu pai no horário em que ela estava no trabalho.
– Hey, Bells. – ele saudou.
– Oi pai. – ela devolveu sem realmente olha-lo, vindo em minha direção – Pensei que só nos veríamos à noite. – disse com o tom indagativo pra mim.
Foi Charlie quem respondeu.
– O Jasper queria conversar comigo, Bells. – ela se virou surpresa para o pai – Sobre a viagem de vocês.
Bella sentou ao meu lado exalando apreensão. Eu pousei minha mão sobre a sua, enviando serenidade a ela.
Charlie prosseguiu quando notou a súbita mudez da filha.
– Não fique tão nervosa, Bella. – ele contemporizou – Eu sou um homem razoável. E confio no rapaz aí. – apontou um dedo pra mim com um sorriso brincalhão – Se ele precisa ficar fora por duas semanas para resolver coisas da faculdade, nada mais natural vocês terem um tempo juntos antes dele viajar. Além do quê, você já é bem grandinha. Sabe bem o que faz. – piscou um olho pra ela – Só vou repetir pra você o que disse ao seu namorado. Estou muito novo pra ter netos, então, se protejam.
Bella corou profundamente, e eu até interrompi o fluxo de ar, apenas por precaução.
Como aconteceu momentos antes por conta de meu constrangimento, Charlie gargalhou alto.
– O que acontece com vocês jovens? – ele falou por entre risos – Ficarem constrangidos quando eu sou prático. – negou com a cabeça – Se eu fosse seu avô, as coisas seriam bem diferentes... – Charlie finalizou retoricamente, a risada já atenuando.
Com a menção eu me dei conta de que não tinha conversado com Bella sobre as últimas descobertas de Carlisle... Mas nós ainda teríamos tempo.
– Obrigada. – ela sussurrou em meu ouvido antes de deixar um beijo suave em meu rosto, a timidez pelas palavras do pai esmaecendo.
Eu apenas deixei que ela sentisse que eu estava tão contente quanto ela, com nossa iminente viagem, enquanto ela relaxava ao meu lado.
Voltamos nossos olhares para a TV, para onde toda a concentração de meu sogro estava focada, sem realmente enxergar o que passava, apenas para passarmos tempo com ele.
Em silêncio e plena sintonia, nos comunicávamos, trocando as emoções que a perspectiva de dois dias completamente a sós nos provocava.
Ela mal podia esperar... E eu me sentia exatamente como minha garota.
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