Destinados
28 A convergência das almas
Notas iniciais

Os raios alcançavam minha pele em ondas brandas, mornas.
Com meus olhos ainda fechados, eu suspirei num sorriso.
Apesar dos feixes de luz que me aqueciam, o calor que me envolvia, e que era infinitamente mais prazeroso que qualquer outra sensação que eu experienciava naquele momento, nada tinha haver com o sol que já ia alto no céu limpo de Vancouver.
Eu sabia que os olhos que eu amava estavam em mim. Eu poderia senti-los me observando a qualquer distância... E perceber sua intensidade se alastrando por minha pele, penetrando por meus poros, acendendo uma chama latente, apesar de suave e contida, no fundo de minha alma.
Seu cheiro invadiu minhas narinas, e eu inspirei devagar, profundamente, enchendo meu peito com o aroma, quase picante e um tanto amadeirado, que me lembrava canela, um dia de verão no campo, e a brisa fresca que sopra folhas de um pinheiro...
Era tão irreal... Era tão familiar...
Não só o perfume viciante, mas as imagens que ele me incitava. Imagens que me deixavam confusa por serem um tanto desconexas, quase estranhas pra mim, mas que, ao mesmo tempo, eram como uma volta pra casa... Era cheiro de lar... Apesar de eu não ter muita certeza como isso poderia ser...
Abri meus olhos vagarosamente e virei meu rosto na direção que me atraia. Não me surpreendi ao encontra-lo encostado na grade da lancha, os braços cruzados sobre o peito largo, os pés descalços cruzados nos calcanhares, a cabeça levemente inclinada para baixo, com o queixo quase apontando para o tórax...
Jasper estava tranquilo, relaxado, mas seus olhos estavam fixos em mim traindo a análise minuciosa que ele fazia. Ele ainda estava esperando uma reação minha, eu podia notar, mas continuava a respeitar meu tempo, meu espaço.
Um cacho sedoso, brilhante e perfeito deslizou de trás de uma de suas orelhas até ficar na frente de um de seus olhos intensamente dourados.
Suspirei, de repente perdida, deslumbrada com a visão em minha frente.
Eu nunca me acostumaria com a beleza dele...
A pele tão pálida e pétrea parecia suave, ainda que eu já conhecesse muitas das suas imperfeições, e refletia a luz do sol em pequenos, esparsos e imperfeitos feixes de cor onde a camiseta e bermuda não cobriam. Minúsculos arco-íris o faziam brilhar graciosamente, elevando em torno dele uma aura radiante... Ele parecia um anjo...
Num movimento suave e visivelmente espontâneo, Jasper agitou a cabeça, afastando a mecha de seu rosto e fazendo todos os outros cachos perfeitos oscilarem languidamente em volta de sua face. Depois ergueu o queixo, me olhando de cima, uma sobrancelha arqueada em dúvida ao sentir a mudança súbita em minhas emoções.
Consegui conter um novo suspiro, mas não pude evitar o rubor que senti cobrir minhas bochechas e pescoço em consequência ao pensamento que me tomou.
Ele era um Adônis... Perfeito, esculpido em pedra, másculo e forte e atraente e... Mais que isso... Um homem de alma pura e sensível, generoso, cuidadoso, altruísta e protetor...
E era meu... E me amava... Tanto quanto eu o amava. Como eu podia ser tão sortuda?
Devagar, ainda em silêncio e com uma sugestão de sorriso brincando em seus lábios cheios, ele se afastou da grade, e começou a se aproximar de mim, nunca desviando o olhar âmbar de meu rosto.
Eu me embriaguei daquela visão fantástica, absorvendo cada movimento de cada contorno de seu corpo, cada reflexo dourado em seu cabelo, cada traço marcante em seu rosto, tudo me fazendo arder internamente, intensificando o desejo constante em mim...
– Eu nunca vou me acostumar com a maneira com que você me olha... – ele falou ao se agachar ao meu lado, o tom quase divertido apesar de eu ser capaz de notar tanto a satisfação discreta, quanto a incerteza sólida que ele emanava.
Me sentei, encostando as costas e cabeça no vidro do para-brisa da lancha, antes de dar de ombros levemente.
– De que forma? – me fiz de inocente, só pra provocá-lo um pouco.
Ele sorriu, reconhecendo a malícia por trás de minha atitude indiferente.
– Como se eu fosse a visão mais incrível da face da Terra... – sua voz era quase constrangida e, como sempre, um tanto cética.
Naquele momento eu podia apostar que, se Jasper fosse humano, estaria corado e com vergonha.
Eu não compreendia como ele podia não se achar bonito. Ele tinha um espelho, ou vários, naquela mansão, graças a Alice... E com sua visão aguçada de vampiro era capaz de reconhecer no reflexo o quanto era Lindo. Ou melhor dizendo, maravilhosamente, inacreditavelmente magnífico. E não só fisicamente.
Mas não... Ele acreditava, firmemente, que era extremamente imperfeito.
Era inconcebível pra mim o fato de Jasper não conseguir enxergar e reconhecer o próprio valor... O quanto ele era bom, o quanto tinha caráter, o quanto estava sempre colocando a todos em primeiro lugar, se preocupando com o bem estar de todo mundo antes do dele... Não entrava em minha cabeça como ele podia ter tão baixa autoestima e se desconsiderar com tanta veemência. Como alguém tão bem esclarecido podia ser tão incoerente?
– Você é a visão mais incrível da face da Terra. – sentenciei com firmeza, elevando meu queixo pra ele em desafio.
Com suas mãos gélidas, e mais rápidas do que eu poderia desviar, ele aproveitou meu gesto e segurou meu rosto, com toda a delicadeza que ele era capaz de demonstrar quando se tratava de mim.
– Eu acredito que você precisa de óculos, senhorita Swan... – seu sotaque texano, tão musical, charmoso e arrebatador, permeou sua voz quando ele sussurrou já em meus lábios, antes de sela-los com os dele.
Um beijo breve e suave... Um beijo de carinho, de afeto.
Suspirei quando ele se afastou tão rápido. Meu desejo era ter aprofundado o contato, óbvio. Mas meu namorado tinha outras ideias.
– Seu café-da-manhã está pronto. E o sol está ficando muito forte. – ele olhou para o céu vincando a testa em preocupação – Vamos entrar um pouco.
Eu assenti apesar de me sentir insatisfeita com apenas quarenta minutos de banho de sol. Mas não era como se eu tivesse a intenção de me bronzear no sol de primavera de Vancouver. Eu nem conseguiria se quisesse. Além do mais, eu só havia seguido para a proa da lancha, logo depois que acordei e passei por minha rotina matinal, para pensar um pouco sobre tudo que Jasper tinha me contado na noite anterior.
Eu ainda estava digerindo o fato de descendermos de uma mesma linhagem familiar...
Era complicado pra mim entender, assimilar tudo...
Ser, supostamente, a reencarnação da garota que havia sido o primeiro amor do meu namorado quando ele ainda era humano mais de um século atrás, já era surreal... Na verdade estar namorando um vampiro já era muito mais que surreal, mas... Saber que eu era descendente de sangue de Isabell, e ainda por cima, parente distante de Jasper... Não. Definitivamente não era algo fácil de internalizar. Ainda mais quando nenhum de nós dois, ou mesmo Carlisle, conseguia compreender o porquê disso tudo.
Claro que, após me relatar tudo com cuidado, e se assegurar de que eu não surtaria completamente, Jasper me deu espaço para absorver as informações, se mantendo em silêncio e um tanto distante, ainda que disponível, até que eu demonstrasse estar pronta para discutir o assunto.
Afastei a lembrança por um momento e segurei na mão que ele me oferecia, me levantando e tendo de inclinar minha cabeça quase que totalmente para olhar no rosto dele.
Envolvendo minha cintura, Jasper tirou meus pés do chão, alinhando nossos rostos bem próximos, mantendo todo meu peso com apenas um braço em volta de mim.
Suspirei pelo que eu acreditava ser a milésima vez, só naquela manhã. E então tive meu desejo realizado.
Dessa vez nossos lábios se encaixaram entreabertos, o beijo começando já um tanto intenso.
Rodeei o pescoço de Jasper com meus braços, uma brisa leve passando por mim e movimentando meus cabelos ao redor de nós dois. A língua gélida dele desenhou os cantos da minha boca antes de se enroscar com a minha, suave, devagar, provocando mais do que saciando... Ele mordeu de leve meu lábio inferior enquanto expirava. E logo os selinhos cobriam não só minha boca, mas meu queixo e nariz, o beijo partido antes que eu pudesse protestar.
Então meus pés estavam no chão. E eu estava na frente da pequena mesa da diminuta cozinha da lancha.
Ri baixo negando com a cabeça.
– É tão fácil te distrair, senhorita Swan... – Jasper sussurrou no meu ouvido antes de morder o lóbulo de minha orelha e se afastar um pouco – Parece que não sou o único a perder o foco durante nossos beijos. – finalizou com uma piscada de olho.
Eu ri torto, mordendo meu lábio enquanto o observava sentar no banco adjunto e dar dois tapinhas em suas pernas. Me posicionei em seu colo, dois de seus dedos imediatamente, e delicadamente, puxando e afagando o local onde meus dentes mordiam.
– Você não faz ideia do que essa mania sua provoca em mim... – balbuciou fitando minha boca com o olhar perdido. Depois sacudiu brevemente a cabeça, como que para se situar, e me olhou nos olhos, sério. – Coma. – Demandou.
Eu sorri, me sentindo profundamente satisfeita por atingi-lo daquela forma, e então me voltei para as frutas e pães na minha frente.
Enquanto comia em silêncio, retomei meus pensamentos anteriores e reconstitui mentalmente tudo que aconteceu até ali.
Havíamos partido de Forks no meio da tarde do dia anterior, chegando ao porto de Vancouver no começo da noite. Embarcamos na lancha alugada, navegando sem pressa pelo Vancouver Lake sob a luz tímida da lua crescente, o horizonte como nosso destino.
Aportamos um par de horas depois, numa ilhota ao norte do lago onde apenas dois veleiros estavam ancorados. Foi então que Jasper me contou tudo que Carlisle tinha descoberto e eu, sobrecarregada com as informações, meio que entrei num estado de entorpecimento, perdendo um pouco a percepção sobre as coisas ao meu redor. Me lembro vagamente de ter pedido a Jasper que me abraçasse e se deitasse ao meu lado quando me recolhi atordoada.
Acordei naquela manhã me sentindo ainda confusa e aturdida. Minha mente estava uma bagunça e eu precisava de tempo, de espaço pra raciocinar. Então Jasper provou, mais uma vez, o quanto parecia me compreender melhor até que eu mesma.
Apenas segundos depois de abrir meus olhos e encontrar os braços dele me rodeando amorosamente, entendi que, ainda que eu não tivesse pedido ou exposto o que precisava desesperadamente, ele sabia... E em silêncio, sem perguntas ou cobranças, me proporcionou conforto e alento.
Trocamos apenas um beijo suave, sem palavras ditas. Ele projetou amor, serenidade, paciência, comunicando através de nossa conexão única que esperaria... E logo eu estava sozinha na cabine.
Eu aceitei de bom grado o espaço e o tempo que ele me ofertou. E fiz uso dele para colocar minha cabeça no lugar. Mas naquele momento eu me sentia um tanto culpada, consciente de que a última coisa que Jasper merecia era ficar na expectativa, principalmente quando eu sabia que ele estava tão confuso quanto eu com toda aquela história...
Me permiti sentir seu carinho em meus cabelos, minhas costas, enquanto eu me alimentava e ruminava tudo que havia se passado desde que conversamos.
Ele ainda esperava, ainda me analisava silenciosamente tentando decifrar o que eu estava pensando, qual era a minha impressão sobre tudo aquilo. O sentimento de ternura que ele emanava era sólido no entanto, e eu sabia que ele esperaria o tempo que eu tomasse, sem me pressionar.
Engoli devagar o pedaço de maçã que mastigava, me preparando. Respirei fundo e me virei no colo dele.
– Me desculpe por ontem à noite. – murmurei sentida – Eu não queria ter ficado tão fora do ar de repente.
Ele sorriu suavemente, negando com a cabeça.
– Sua reação foi compreensível, Bella. É muito pra assimilar, eu sei disso. É o que sinto também.
Assenti brevemente, confirmando a ele que sabia.
– Jazz, isso tudo é tão... – expirei revirando um pouco os olhos – Insano... Surreal, que... – arfei uma risada irônica – Parece loucura considerar surreal algo num mundo onde existem vampiros e lobisomens, mas... É mesmo muito... Muito pra digerir...
As mãos dele estavam em meu rosto, as pontas dos dedos deslizando nas têmporas com tamanha suavidade que eu mal sentia.
– Não precisamos discutir isso agora, vida. – afirmou sereno – Não precisamos nem mesmo pensar sobre isso agora...
– Mas eu sei que você está ansioso pra saber o que penso... – falei com cuidado – Eu sinto sua expectativa.
Ele assentiu e desviou o olhar por um momento.
– Eu apenas não quero que isso faça você correr pras montanhas... – ele falou num riso fraco, mas eu percebi o leve receio em seu argumento – São tantas as coisas que complicam nossa relação que...
Foi minha vez de tocar seus lábios com meus dedos, o calando. Ele voltou os olhos para meu rosto.
– Jasper, eu nunca fugiria de você. Principalmente não por conta da comprovação de que nossa conexão é mais do que sentimental. – expirei – É claro que estou confusa, são muitas informações pra assimilar... Reencarnação, lenda, compartilhamento de dom, sermos descendentes da mesma família... Tudo isso no mundo já incrível dos vampiros, mas... – segurei o rosto dele e fixei meu olhar nos olhos que ele mantinha atentos em mim – Eu te amo. – falei intensa e senti o peito dele vibrar, pulsando o sentimento reflexo.
Ele sorriu mais abertamente e eu deixei um beijo leve em seus lábios.
– Eu também te amo, Bella. – murmurou.
Assenti, refletindo o sorriso dele, e enterrei minha cabeça em seu pescoço, inspirando seu aroma intoxicante.
– Você quer nadar? – ele indagou num tom brando, animado, mudando o assunto, toda a ansiedade de minutos atrás dispersada.
– Só depois que navegarmos um pouco. Queria encontrar um ponto onde estivéssemos mais isolados... – falei me afastando um pouco e encostando nossas testas.
– Bom... – ele pensou por um breve instante – Tem uma outra ilhota ao leste, subindo o lago. Não tem um ancoradouro como essa aqui, mas isso não é um problema. Confia em mim?
Me afastei um pouco mais, sorrindo quase incrédula.
– Você precisa mesmo me perguntar isso?
Ele sorriu largo, estreitando os olhos e deixando que as covinhas em suas bochechas aparecessem.
Eu suspirei colando nossas testas novamente, projetando meu amor por ele com a precisão que havia adquirido ao longo das últimas semanas.
– Você está se superando cada vez que faz isso. – ele murmurou, maravilhado e orgulhoso com meu controle sobre o dom que compartilhávamos.
– Tenho um expert me orientando. – comentei encerrando a distância entre nossos lábios.
O silêncio se fez por muitos minutos depois disso...
*
Me ajeitei em seu colo, aumentando um pouco mais a pressão que fazia em volta da cintura dele com minhas pernas.
Ele tentou esconder, mas eu pude ouvir, bem baixinho, o grunhido em resposta à minha movimentação.
Sorri na pele de seu ombro, onde minha cabeça estava apoiada, e então afastei um pouco o tronco para olha-lo com certo divertimento.
Jasper devolveu meu olhar com o mesmo brilho, e sorriu seu sorriso matador.
– Se você não fosse tão humana e frágil... – ele sibilou brincando, negando com a cabeça sem desviar o olhar do meu.
– O que você faria? – provoquei, afastando minhas mãos de seu pescoço e alinhando as palmas com a superfície translúcida da água que nos rodeava.
Ele riu uma risada breve e grave, absolutamente sugestiva, mas não me respondeu. Ao invés disso espalmou minhas costas, os polegares firmes nas laterais de minha cintura, e me encorajou a relaxar o corpo para trás.
Eu fechei os olhos ao contato com a água, sentindo meus cabelos dançarem em volta de minha cabeça, meu corpo leve, minha pele absorvendo o calor brando do sol.
– Linda... – ouvi a voz dele no mais baixo dos sussurros.
Sorri sem abrir meus olhos, uma sensação quase opressora em meu peito, a sensação de que eu poderia explodir de tanto contentamento.
– Eu me sinto assim também... – ele respondeu quietamente ao detectar minhas emoções – O tempo todo... Você sabe.
Eu apenas assenti, curtindo o momento, a atmosfera pacífica em torno de nós, a reciprocidade se sentimentos.
E por causa disso a memória sobre nossas últimas conversas, sobre a lenda, sobre nosso parentesco distante, sobre nossa conexão inexplicável, voltou a mim como uma inundação de ideias e informações.
Desta vez eu apenas deixei que elas fluíssem, sem me preocupar muito em fazê-la ter algum sentido, apenas contemplando tudo com um certo distanciamento. E então percebi que não importava...
– Não importa. – verbalizei, repentinamente convicta.
– O quê não importa? – ouvi a voz de Jasper com seu tom subitamente intrigado.
Seguindo meu movimento, ele me deu apoio com as mãos em minhas costas para realinhar meu corpo com o dele. O olhei transmitindo toda a certeza que sentia e então falei o que tinha acabado de concluir.
– Não importa o motivo. – falei com segurança – Tanto faz se somos destinados, almas gêmeas, parentes... – neguei com a cabeça – Eu não ligo pra nada disso. Se existir ou não uma razão, uma finalidade pra a conexão incrível que há entre nós dois, tanto faz. – dei de ombros, e ele sorriu verdadeiramente satisfeito com minha conclusão – Isso não vai mudar como me sinto por você, eu não preciso de algo sobrenatural pra explicar meu amor, minha admiração, minha vontade pelo homem incrível que você é, Jazz...
Ele expirou pesadamente em meio ao sorriso que ainda mantinha, e eu percebi a intensidade do contentamento que ele vibrava.
Continuei.
– Eu sei, de alguma forma, que toda a razão de ser de tudo isso vai se revelar na hora certa... – afirmei e ele assentiu, demonstrando que concordava comigo – Eu sinto isso.
– Será que vai existir algum momento, algum dia, que você não vai me surpreender totalmente...? – ele comentou em resposta, pensativo.
– Eu espero que não. – confessei numa risada.
Nos abraçamos, e permanecemos na água por apenas mais alguns minutos depois disso. Meu corpo, humano e frágil, como Jasper gostava de salientar, não suportou a temperatura do lago por muito mais que meia hora, e então nós subimos de volta pra lancha assim que comecei a arrepiar e estremecer de frio.
*
– ... E aquela ali... – ele posicionou meu dedo indicador, tão esticado quanto meu braço que ele apoiava com o seu, na direção de mais um pontinho quase invisível de luz – É Bellatrix, a quarta estrela de Orion.
Eu fixei meu olhar na constelação, forçando minha vista humana a enxergar mais que um brilho do tamanho da cabeça de um alfinete, mas era praticamente impossível.
– Você consegue vê-las bem daqui? – questionei pensativa, ainda concentrada no céu que observávamos desde depois do jantar.
Estávamos na popa da lancha, deitados numa manta pesada de lã, com outra tão pesada quanto nos envolvendo, muito mais para o meu benefício que para o dele, é claro.
– Depende do que você define por bem.
– Consegue ver o formato, a cor, os detalhes da superfície...?
– Consigo ver a forma e a cor de seu brilho com certa clareza, sim. Talvez um pouco da textura de sua superfície – ele murmurou com a voz risonha de repente – mas não sou um telescópio, Bella... – ele riu mais pronunciadamente, me contagiando – Mesmo com uma visão afinada como a minha, a essa distância não é tão fácil.
– Hum. – murmurei, me virando pra ele.
– Cansou de olhar estrelas? – perguntou ainda divertido.
– Acho que tem algo que quero olhar mais... – sorri, recebendo o mesmo gesto em resposta.
Nos olhamos em silêncio por alguns instantes, apenas apreciando a proximidade, o silêncio confortável...
Eu estava tão impossivelmente feliz... E sabia que ele também estava, porque podia sentir.
Jasper levantou uma de suas mãos e tocou minha face, traçando uma de minhas sobrancelhas com o polegar. Meu coração acelerou, e eu pude sentir meu sorriso esvanecendo devagar como o dele. Meus olhos focaram seus lábios... E então os lábios dele estavam nos meus...
Começou como todos os nossos beijos começavam. Suave, tentativo, lento. Eu mergulhei nas sensações, permitindo que minhas emoções e sentimentos transbordassem e permeassem o ambiente em volta de nós. Mas em meio à troca, que era sempre um tanto contida, ainda que poderosa, algo mudou de repente.
Eu reconhecia o desejo em Jasper... Isso não era novidade pra mim. Sempre que nos beijávamos, que nos tocávamos, a emoção se elevava até certo ponto, sempre atrelada a cautela, controle, cuidado... Naquele momento no entanto, no exato instante em que ele aprofundou o beijo, eu senti... Eu compreendi e assimilei uma diferença. Uma pela qual eu ansiava.
Aquiescência... Atrelada a determinação.
Percebendo minhas mãos em seu tórax, e o movimento que eu tentava realizar com minha cabeça, Jasper entendeu o que eu queria, e permitiu que eu quebrasse o beijo.
O olhei de forma indagativa, nem me dando ao trabalho de projetar minha dúvida e espanto. Ele podia detectar sem esforço.
Fechando e abrindo os olhos brevemente, ele sorriu.
– Sim. – expirou a resposta a minha pergunta silenciosa – Eu também quero que aconteça. – murmurou.
Meu coração perdeu uma batida, apenas para dobrar seu ritmo prontamente.
De maneira lenta e calculada Jasper se levantou comigo já em seus braços. Inclinou o rosto sobre o meu e selou nossos lábios outra vez, retomando o beijo.
Senti o vento zunindo ao meu redor e entendi que estávamos nos movendo, mas não dei atenção. Quando meus pés tocaram o chão, segundos depois, meu corpo de repente livre da lã pesada, eu soube que estávamos na cabine.
Os lábios de Jasper ainda estavam nos meus, me fazendo sentir tonta.
– Não abra os olhos ainda. – ele murmurou depois de um selinho demorado, se afastando.
Eu fiz como ele me pediu e me mantive parada onde estava, respirando devagar e com os olhos fechados, apreciando o calor ameno que o pequeno aquecedor portátil no canto do cômodo proporcionava.
Tentei detectar a movimentação dele, mas obviamente não fui bem sucedida. Não seria capaz disso nem mesmo com os olhos abertos, que dirá...
Mas então sua presença me envolvia. E uma onda de ansiedade pulsou pra fora dele e me atingiu, me deixando nervosa de súbito.
Jasper me virou delicadamente, mantendo as mãos em meus ombros depois que me posicionou como queria, com as costas viradas pra ele.
– Pode abrir. – sussurrou em meu ouvido, a voz um tanto trêmula, o que era incomum.
Respirei fundo e abri os olhos. E arquejei.
– Jazz... – balbuciei antes de cobrir minha boca com ambas as mãos.
– Eu queria que fosse especial... – a voz dele tinha um tom quase solene.
Olhei em volta maravilhada.
Velas brancas preenchiam pequenos castiçais de vidro, de várias cores e formatos, lisos e decorados, que ocupavam vários cantos da cabine, a iluminando fracamente com uma luz dourada e aconchegante. No centro da pequena cama, coberta por um lençol simples e branco, diferente do estampado floral que estava ali quando chegamos, havia uma única flor, um laço de fita branco amarrado em seu caule longo e extremamente verde.
Num piscar de olhos Jasper a pegou e estava em minha frente, oferecendo a tulipa vermelha para mim. Olhei dele para ela, e de volta para os olhos intensos dele.
– Eu nunca me preocupei muito em saber o significado que as flores têm quando a ofertamos a uma pessoa... – deu de ombros, a voz ainda séria e quase formal – Mas com você em minha vida eu tenho me importado mais com os detalhes... – ele sorriu, nem tentando me esconder o quanto estava vulnerável naquele momento. Aproximou mais a flor de mim – Significa amor eterno...
Peguei a tulipa pelo caule, hipnotizada por ela, pela sua simbologia, pela significância do momento... Concentrei toda a ternura que sentia e a vibrei enquanto expirava.
Jasper arfou baixo um riso breve. Os olhos cintilando nos meus ao assimilar meu sentimento.
Fascinada com tudo aquilo, com o cuidado dele, com a maneira como ele havia sido capaz de transformar um ambiente tão simples no lugar perfeito... E sem precisar de muito... Suspirei, finalmente me dando conta do aroma que me envolvia.
Eu não sabia como, se era por conta do cômodo estar fechado, se por conta do calor ameno e confortável que o cobria, ou se eu estava muito consciente dele ali, prostrado em minha frente emanando expectativa... Mas o cheiro de Jasper permeava o ar suavemente, um pouco mais intenso que de costume, me deixando um pouco mais tonta que o último beijo que ele havia me dado...
– Canela... – sussurrei entorpecida depois de inspirar profundamente.
– Hã?
– Seu cheiro... – expliquei – Está em todo lugar.
Sem replicar meu comentário desconexo ele segurou meu rosto com uma das mãos, os olhos mais brilhantes do que eu jamais tinha visto. Com o braço livre rodeou minha cintura e puxou meu corpo para o dele, imediatamente tirando meus pés do chão.
Com nossos rosto alinhados ele expirou, pulsando paixão, desejo e o mais puro amor que eu poderia sentir na vida.
– Você é tudo pra mim, garota... – sussurrou me olhando sério – Você é meu mundo, Bella. Tudo que eu quero. Tudo que eu preciso. – ele pausou, claramente contendo um pouco de toda a intensidade que nos rodeava – Eu quero que tenha certeza de que sou seu. Completamente seu. Que por você e pra você eu faço qualquer coisa. Sem limites... – respirou fundo como se precisasse muito de ar – Você decidiu se entregar a mim mas... Sou eu... Eu me entrego a você com tudo que sou, agora. Despido de qualquer reserva, de qualquer proteção – e eu podia perceber as barreiras, que ele mantinha tão bem elevadas o tempo todo, caírem por terra enquanto ele falava – e você pode fazer de mim o que você quiser.
Eu estremeci com a força de suas palavras, e com o significado, a entrega por trás de cada uma delas.
Segurei seu rosto em minhas mãos.
Sem dizer nada, sem encontrar as palavras certas pra expressar toda a profundidade de meus sentimentos, eu fiz o que, agora, sabia que era mais eficiente que falar. Projetei. Deixei que nossas emoções se entrelaçassem e expandissem, tomassem conta de tudo ao redor, e o beijei, profunda e intensamente.
Em resposta à minha atitude, Jasper puxou minhas mãos para que eu rodeasse seu pescoço. Me manteve segura pela cintura com um dos braços, enquanto usava o outro para puxar minhas pernas, uma de cada vez, para rodear seu quadril. Tudo isso sem partir o beijo, que progressivamente se tornou mais profundo, mais exigente, verdadeiramente lascivo.
Notei vagamente que estávamos nos movendo, mas minha atenção estava concentrada demais nos movimentos provocantes da língua de Jasper em minha boca pra me preocupar se estávamos ou não indo pra algum lugar.
Minha mente estava em branco... Eu só sentia. Eu era só sensações e anseios, emoções e sentimentos... Eu já estava entregue. Eu já era dele.
Percebi a maciez em minhas costas, em contraste com o peso suportável que ele me permitiu sentir de seu corpo sobre o meu. Estávamos deitados na cama, me dei conta. Meu coração acelerou quase que insuportavelmente, e eu apertei meus olhos, contendo um pouco de minha excitação.
Arfei quando Jasper separou nossas bocas, pronta para protestar, e arquejei o resto de ar que ainda tinha em meus pulmões quando olhei em seus olhos e enxerguei as chamas por trás de suas íris já mais escuras, o tom dourado dando lugar a um âmbar acentuado.
Sem desconectar o olhar agudo que trocávamos, ele libertou minhas pernas de seu aperto firme, elevou o torso, e com uma das mãos empunhou a gola da camisa, puxando-a pela cabeça num movimento preciso.
Eu puxei o ar com força, nem me preocupando em conter a intensificação de meu desejo ao visualizar seu tórax inacreditavelmente perfeito. Me sentei rapidamente e levantei minhas duas mãos até ele, tocando-o com delicadeza, apreciando a suavidade e rigidez contra a pele fina de meus dedos, sorrindo ao perceber que Jasper estremecia por conta do contato... Desenhei cada traçado de músculo com lentidão, me deliciando com as reações que estava causando com meus gestos. Percorri cada centímetro de pele até seu pescoço, mandíbula trincada, lábios entreabertos expirando curtamente. Até reencontrar os olhos sedentos...
Tomei um instante para assimilar a expressão no rosto dele.
Eu sabia que Jasper estava controlado, eu era capaz de reconhecer sua essência pela nossa troca constante. Se houvesse qualquer mudança na forma do desejo que ele emitia pra mim eu detectaria. Então eu reconhecia o tipo de sede que ele expressava através, não só das vibrações, mas de seu semblante.
Sua feição era aguda, quase carregada, o olhar oscilando entre meus lábios e olhos, ânsia e paixão descritas claramente na maneira como ele me fitava.
Num gesto um tanto quanto involuntário, eu umedeci meus lábios com a ponta de minha língua, prendendo o inferior no processo. Um gesto muito natural e automático pra mim quando eu me via nervosa ou ansiosa, o que era totalmente o caso.
Jasper grunhiu.
Um som profundo, grave e vibrante que nasceu do centro de seu peito. Um som que teria sido assustador e animalesco, não tivesse sido tão baixo... E tão sexy.
Meu corpo inteiro tremeu. Literalmente. Tremeu de cima a baixo em consequência. E então meu lábios eram dele novamente.
Me perdi em meio à voracidade desse beijo... Era completamente diferente de todo e qualquer outro que tivéssemos trocado... E eu estava adorando. Mais uma vez me deixei levar, moldando meu corpo ao de Jasper, implicitamente pedindo que ele me desse um pouco mais dele mesmo, um pouco mais pra matar a minha sede.
Não sei se absorvendo minha vontade, ou se por puro instinto, mas mais uma vez ele realizou meu desejo.
Devagar, parecendo se controlar com todo afinco, eu senti as mãos de Jasper deslizarem por minha cintura e começarem a subir. De repente seus lábios não estavam mais nos meus, estavam tocando superficialmente uma de minhas orelhas, o hálito frio dele me fazendo arrepiar.
– Sua pele é tão quente, Bella... – ele disse em meio a um suspiro torturado – E macia... E seu cheiro... – ele inspirou – Eu amo seu cheiro...
Eu expirei o ar que havia prendido, e ele voltou pra minha boca, me beijando mais suavemente agora, usando a breve pausa que fez para falar, para amainar um pouco os ânimos.
Respirando fundo e soltando o ar devagar, ele elevou o torso novamente, dessa vez me encarando com admiração e ternura, uma certa brandura dominando suas feições.
– Eu preciso ser cuidadoso com você... – ele balbuciou enquanto puxava minha blusa por minha cabeça sem encontrar qualquer resistência de minha parte – Me prometa que vai falar se eu for intenso demais... – pediu, e seu olhar de repente era angustiado.
Eu assenti, sentindo ele pousar ambas as mãos em meu abdômen e acariciar devagar.
– Você não vai me machucar, Jazz... – assegurei, deixando que ele sentisse toda a segurança que eu sentia – Eu confio em você.
Segurei as mãos que ainda faziam círculos preguiçosos e aleatórios na altura de meu estômago, e as encaixei na base de meus seios, indicando a ele o que eu queria.
Seguindo os próprios movimentos com o olhar, Jasper deslizou as pontas dos dedos pelas laterais de meu busto delineando um caminho até meus ombros, baixou as alças de meu sutiã com uma lentidão tortuosa, e continuou até me revelar pra seu olhar desejoso.
Eu suspirei ao ser atingida pela onda crescente da excitação dele, que intensificou a minha, e fechei os olhos, antecipando seu próximo movimento.
Mas ao contrário do que já havia acontecido nas raras vezes em que pudemos aproveitar um pouco de privacidade e intimidade, não foram as mãos dele que senti em minha pele.
Minhas costas arquearam com a sensação nova e surpreendente. Um tiro de calor correu por meu corpo em resposta à frieza cortante e, ao mesmo tempo, excitante que cobriu um de meus seios...
Abri os olhos entorpecida, levantando minha cabeça para confirmar. Os cachos dos cabelos dele roçavam minha pele e escondiam parte de seu rosto, mas eu ainda podia enxergar seus olhos fechados, sua boca me sugando, me tomando devagar, com cuidado, se movendo delicadamente...
Fechei meus olhos outra vez e me permiti afundar, perdida no toque gélido dos lábios, da língua de Jasper em minha pele sensível, manipulando meu corpo como nunca tinha feito antes...
Suas mãos acariciavam cada centímetro de pele aquecida... Sua boca cobria e tomava cada ponto sensível... Sua pele fria contrastava com o ardor da minha, me arrepiando, me instigando, me enlouquecendo continuamente.... Ele estava em todo lugar... Ele me cobria, me rodeava, me envolvia, e eu me moldava a ele ansiosa, entregue... Meu corpo pulsava por ele enquanto eu permitia que gemidos baixos escapassem por minha garganta...
Eu estava tão imersa, tão presa na percepção de cada pequeno novo prazer ao toque dele, que não percebi quando, ou como, Jasper me despiu completamente... Tão entorpecida eu estava com tudo que, apenas quando percebi o corpo dele abandonar o meu, e então abri os olhos confusa, já sentindo falta de seu peso, de sua temperatura, me dei conta de que estava completamente nua na frente dele pela primeira vez...
Ele estava ajoelhado no colchão, sentando nos próprios calcanhares, as mãos espalmadas nas coxas ainda cobertas por sua calça jeans, o peito nu e escultural subindo e descendo ritmadamente enquanto ele puxava e expirava o oxigênio que seu corpo nem sequer precisava.
Eu teria corado... Teria cedido ao instinto de cruzar um braço na frente de meus seios e espalmar uma mão na frente de meu sexo... Mas Jasper me olhava de uma maneira tão... Arrebatada e ao mesmo tempo terna, que não me senti constrangida de forma alguma, me senti lisonjeada. Era quase como se ele estivesse contemplando algo que sonhou em ver a vida inteira, seus olhos estreitados e brilhando realização, júbilo, enquanto ele projetava ondas intensas de veneração...
Era exatamente assim que eu me sentia em relação a ele quando me concentrava em sua beleza, interior e física. Eu o admirava da mesma maneira como ele estava me admirando naquele momento... Eu podia reconhecer a sensação gêmea nele.
E foi ai que me dei conta do quanto nosso amor era mais que real... Muito além de verdadeiro... Ele era mesmo único. Não somente no sentido prático da palavra singular, sem nem um outro que fosse semelhante, mas também no sentido de que era um sentimento só, dividido por dois, compartilhado por dois. Nós nos amávamos da mesma exata maneira. Nós nos amávamos igual. Não havia diferença entre o sentimento dele por mim e o meu por ele... Porque era um só. Nosso sentimento era um só.
– Você consegue sentir...? – a voz dele quebrou o silêncio, me trazendo de volta de minha epifania.
Eu assenti, entendendo, pela compreensão que ele emanava, que ele estava realizando a mesma coisa que eu.
Então ele deslizou até o pé da cama e ficou de pé. Os olhos concentrados nos meus.
Eu ouvi o zíper. Eu percebi o movimento da calça deixando seu corpo. Eu engoli em seco o súbito embaraçamento e nervosismo que me acometeram. Eu baixei meus olhos contemplando o corpo dele completamente pela primeira vez.
O ar me faltou. Eu senti meu rosto, pescoço e tórax esquentarem denunciando o rubor profundo. Eu perdi a coerência de pensamento.
Oh, meu Deus! Foi tudo que consegui formar em minha mente.
Jasper tomou uma respiração profunda, passou a mão pelos cachos com a óbvia intenção de afastá-los do rosto, sem muito sucesso porque eles simplesmente oscilaram de volta. Engoliu visivelmente e, cauteloso, voltou para a cama, pairando sobre mim.
– Sabe o que fazer se perceber alguma mudança em mim... Não é? – sua voz era grave, e evidenciava o controle que ele tentava manter. Assenti – Se quiser que eu pare, em qualquer momento, Bella, é só falar. – Assenti novamente, e ele então cobriu meu corpo com o dele, me calando com um novo beijo.
Esse beijo, que começou em meus lábios, se prolongou e continuou por meu corpo, marcando cada cantinho dele com uma nova descoberta...
As sensações eram impossíveis de descrever... Eu nem tinha vocabulário pra nomina-las, pra dizer a verdade. E não teria capacidade alguma de fazer isso, ainda que soubesse as palavras certas pra usar...
Então a maciez de seus cabelos fazia cócegas na parte interna de minhas coxas, e eu senti o riso borbulhando na minha garganta em resposta. Mas o som não chegou a sair... Porque a sensação intensa que eu havia experienciado minutos antes, quando ele havia tomado meus seios em seus lábios, me assaltou, dessa vez triplicada, provocando um arquejo alto e pronunciado de minha parte.
Arfei. Arquejei. Inspirei com força. Expirei com mais força ainda. E então repeti o ciclo desesperadamente.
Não havia ar suficiente... Respirar estava se mostrando uma tarefa árdua... Mas eu nem ligava...
Eu estava quase esquecendo meu nome. Eu nem sabia mais onde estava. Eu não me importava se o mundo lá fora acabasse...
Tudo que eu percebia ao meu redor era Jasper.
Jasper... Jasper...
Eu repetia o nome dele em minha cabeça e em meus gemidos baixos, descontroladamente.
Seus lábios eram hábeis, apesar de delicados, em meu sexo, e faziam essa sensação estranha e agonizante, e maravilhosa, crescer e dilatar, amplificando minha percepção do contato da pele dele com a minha...
Essa agonia delirante nascia fundo em meu ventre... Pulsava e se espalhava por minha pele, borbulhava em meu sangue...
Eu estava ardendo... Eu estava levitando... Eu subia e subia cada vez mais alto sem me preocupar onde iria chegar...
E de repente soube que faltava pouco... Que eu não iria aguentar...
Era tudo muito novo pra mim, eu nunca tinha sentido nada, nem de longe, parecido mas... Eu sabia... Eu havia escalado a altura mais incrível e já alcançava a beira do precipício, eu podia sentir...
Arfei alto. Meu corpo tensionou e arqueou para longe da cama como puxado por fios invisíveis em direção ao teto. Era como se eu estivesse explodindo... Eu havia pulado, me jogado lá de cima do precipício... E então estava em queda livre...
Espasmos incontroláveis me estremeciam o corpo... A sensação mais indescritível e maravilhosa do universo me cobrindo e permeando cada célula em mim enquanto Jasper ainda me tomava, mais suavemente agora, lentamente diminuindo a intensidade dos movimentos, até parar por completo e começar a deslizar para cima, deixando beijos leves por todo o caminho desde minha pélvis até meu pescoço. Seus braços fortes me envolveram, me segurando protetoramente, me abraçando com tanto carinho, marcando como ainda mais especial aquele momento.
– Eu te amo, vida... – ele sussurrou em meu ouvido antes de se afastar um pouco para olhar pra mim.
Eu assenti, ainda envolvida pela miríade de sensações.
– Eu quero você... – balbuciei com a voz trêmula – Eu quero você agora... Me faça sua agora, Jasper.
Ao meu pedido explícito, ele fechou os olhos por um momento breve, expirando devagar e assentindo. Abriu os olhos, aproximou o rosto do meu e colou nossas testas.
Cuidadosamente ele deixou um pouco de seu peso me pressionar contra o colchão, seu corpo se encaixando no meu de uma maneira fluida, fazendo com que estivéssemos em contato dos pés à cabeça.
Nervosismo crepitou dentro de mim.
Aquela era a hora. O momento havia chegado. Um pequeno movimento dele e não havia mais como voltar atrás...
Respirei fundo.
– Basta me pedir... – Jasper falou de forma carinhosa, se referindo à promessa de parar se eu quisesse.
É claro que ele havia compreendido minha súbita ansiedade, entendido minha breve hesitação. Mas minha decisão estava tomada, e havia sido tomada conscientemente, por amor. Eu não queria recuar...
Envolvi seu pescoço com minhas mãos e o pressionei para que se inclinasse. Ele aquiesceu com um suspiro ansioso e cobriu meus lábios com os dele.
E então seu sexo estava contra o meu, na mais leve das pressões, enquanto nosso beijo se aprofundava.
Eu me movi de encontro ao corpo dele, me moldando, indicando que ele podia continuar, mas então suas mãos estavam encaixadas em meus quadris, contendo meus movimentos.
A pressão aumentou...
Eu prendi a respiração em expectativa enquanto ele se projetava vagarosamente pra mim, até encontrar resistência... Então ele respirou fundo, partiu o beijo para me fitar, trancou os olhos nos meus e, num impulso curto e profundo, nos encaixou completamente.
Eu não tive tempo de sentir a dor. Eu já sabia que ele a anularia para evitar meu incômodo. Mas arquejei assim mesmo, alto e claro, em surpresa e brusca exultação quando o percebi fundo em mim.
Finalmente éramos um...
Jasper se manteve parado por um instante, eu acreditei que permitindo que meu corpo tivesse um momento para se acostumar com a invasão desconhecida. Ele me fitava concentrado, atento ao meu rosto, me analisando, os olhos cintilando diferente enquanto sua feição se transformava de controle para perplexidade...
Ele arquejou e meu coração acelerou desenfreadamente.
Rosa... Azul... Púrpura... Pérola... Carmim...
As cores dançavam em feixes nas íris dele.
Eu me vi confusa por não ter notado se ele tinha fechado os olhos para observar os arcos, mas o pensamento me fugiu quando seu primeiro movimento alcançou algum ponto sensível dentro de mim.
Meu gemido baixo se misturou ao dele, e o fogo brando que queimava constantemente em minha alma, o desejo permanente que eu sentia por ele, ultrapassou o limite do extraordinário.
Jasper assumiu um ritmo lânguido, as mãos firmes, mas ainda cuidadosas em meus quadris, os olhos um tanto desfocados, mas ainda nos meus, enquanto eu entrelaçava meus dedos nos cachos em sua nuca...
Comecei a imitar tentativamente seus movimentos, projetando meu corpo de encontro ao dele, e fui recompensada com uma série de grunhidos mais pronunciados, em sincronia com meus gemidos baixos e incessantes.
Sorri satisfeita em meio às ondas de prazer que me inundavam. Ele também estava mergulhado e entorpecido na volúpia do momento...
Num movimento quase humano Jasper se sentou no colchão me trazendo com ele. Eu arfei alto com a intensificação do contato, da sensação de tê-lo conectado a mim, e segurei mais forte em seus cabelos. Ele tomou minha boca com a dele sofregamente, e eu me movi de forma tentativa...
Mais um grunhido alto, dessa vez partindo o beijo em resultado...
Seus lábios desceram até minha clavícula, um arrepio poderoso percorrendo todo meu corpo quando ele retomou o controle das movimentações.
Eu estava escalando outra vez... E de maneira mais rápida, e mais intensa também... Tanto que não pude evitar fechar os olhos...
E me chocar quando fiz isso.
Meu coração, já muito acelerado, assumiu um ritmo quase doloroso quando percebi as luzes, a princípio, um tanto difusas, mas tomando forma e força à medida que eu observava.
Aquilo não era possível...
Mas sim. Era sim.
Eu estava vendo.
E quanto mais Jasper se movia contra mim, quanto mais excitada eu me sentia, quanto mais a sensação agonizante crescia, mais claramente eu conseguia enxergar...
Arcos... Elipses... Uma dança de luzes coloridas bem em frente a meus olhos fechados.
– Jasper... – eu o chamei num arquejo segundos antes de abrir meus olhos e concentra-los nos dele.
Minha intenção era falar, ou tentar ao menos, o que eu havia acabado de experienciar. Mas as palavras ficaram presas em minha garganta... Porque eu não podia acreditar no que estava acontecendo...
Jasper me fitava, seus olhos trancados nos meus refletindo os inúmeros feixes de luz que eu tinha visto, e que ainda via, ao nosso redor.
Ele sorriu... Sem cessar os movimentos que me mantinham escalando, ele sorriu um sorriso de puro entendimento.
– Você consegue ver também, não é...? – ele indagou entre arquejos.
Eu apenas assenti, atônita e envolvida demais para falar.
Jasper então me beijou mais uma vez. O ato permeado de paixão, de amor, de ternura, de uma quase euforia, enquanto eu observava, com toda atenção que as sensações alucinantes me permitiam direcionar, os arcos de nossos sentimentos que eu sempre tive curiosidade em ver...
Eles giravam em torno de nós dois, tão velozmente que eu não conseguia acompanhar, sobrepondo um ao outro, quase se tocando, as cores surgindo e se misturando umas com as outras, se transformando e ressurgindo, repetindo o ciclo de maneira estonteante...
Então seguidos tiros de calor vibraram por todo meu corpo, o de Jasper se apertando ainda mais contra o meu, enviando uma corrente poderosa de energia que me causou arrepios agudos e gemidos altos dele.
Enterrei minha cabeça em seu pescoço, sendo rodeada pelo aroma que era tão Jasper, o meu verdadeiro lar, apertando os olhos já fechados com mais força.
O precipício estava novamente sob meus pés... E eu conseguia perceber que sob os dele também... Dessa vez havíamos escalado juntos, e nos aproximávamos do ápice em sincronia...
Prendi o ar em antecipação, e senti Jasper tensionar.
Por um único segundo tudo parou ao nosso redor. Tudo estava em suspenso em meio ao silêncio espesso que dominou o ambiente...
E de repente tudo era som, luz, emoção e êxtase...
Nossos gemidos se combinaram, preenchendo com nossas vozes embevecidas tudo ao nosso redor... Nossos corpos vibraram juntos, absorvendo os espasmos um do outro em perfeita harmonia... Nossas emoções entrelaçadas, mais do que nunca compartilhadas, nos mergulhando ainda mais um no outro...
E então as elipses... Os arcos de cores que eu ainda via por trás de minhas pálpebras intensamente cerradas... Que não eram mais plural... Eram agora, como eu havia percebido em relação ao nosso sentimento, singular.
Apenas uma elipse dançava, agora bem mais devagar, em torno de nossos corpos colados... Um único circulo de luz branca, perfeito e denso, circundando e mantendo nós dois unidos.
Finalmente um só...
Permanecemos ali, abraçados, conectados, estonteados com a experiência, até que nossas respirações assumissem um ritmo regular, e meu coração se acalmasse. Então Jasper afastou um pouco o corpo do meu, para que pudéssemos nos olhar.
Apenas nos fitamos por um momento que não pude mensurar. Não dissemos nada porque não havia necessidade... Palavra alguma seria capaz de expressar, de apreender o que tínhamos experienciado juntos ali... E nós simplesmente compreendíamos...
As mãos dele seguraram meu rosto com delicadeza, nossas testas encostando espontaneamente, nossos olhos se buscando...
E com o beijo mais singelo e, ao mesmo tempo, mais significativo de todos, selamos aquele momento.
Eu era ele. Ele era eu. Nossas almas não eram mais metades...
Estávamos completos.
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