Destinados
14 A terrível verdade
Notas iniciais

Depois de beijos longos e amorosos, em alguns momentos quase desesperados e, em outros, muito suaves, Bella respirou fundo e se desvencilhou de meu abraço para sentar na terra de frente pra mim.
Eu sorri, tendo a certeza de que a expressão em minha face era aparvalhada, sentindo esse contentamento sem tamanho por finalmente ver Bella me olhar com olhos de quem ama e sabe que ama a pessoa em sua frente.
– Sem mais desculpas, major... – ela inquiriu, e, como sempre, a reação de meu corpo à palavra foi imediata. Ela sorriu reconhecendo o desejo desmedido que sua voz incitava ao proferir minha patente, mas não se deixou distrair – Você prometeu me explicar sobre o que sente, e agora eu quero entender como e quando isso se desenvolveu...
Eu podería ter corado, se fosse humano. Eu estava constrangido pela iminência da admissão de que havia descoberto que a amava muito antes de termos qualquer intimidade...
Respirei fundo, e coletei a primeira memória.
– A primeira vez que eu te vi... Que eu realmente te vi... Eu meio que perdi o controle sobre meu dom... Não é uma coisa fácil de explicar... Apenas escute e depois nós discutimos sua impressão, ok? – ela assentiu, e eu suspirei – Quando Edward te levou pra casa a primeira vez, eu estava tenso. Muito tenso... – Me interrompi, recordando um dos principais motivos.
Eu ainda a considerava uma ameaça na época, Edward havia exposto nosso segredo para sua namorada humana e isso nos colocava na linha de fogo dos Volturi. Eu estava disposto a avalia-la com frieza, e considerar se deveria ou não persistir no plano que havia elaborado previamente, que culminaria em sua eliminação, em prol da segurança da família. Não contava que ela fosse me desarmar tão imediatamente ao nosso primeiro contato real.
– Todos temiam que eu não fosse capaz de controlar minha sede, – continuei usando a justificativa mais fácil e óbvia, menos de três segundos depois de minha breve pausa, que não foi sequer detectada por Bella – afinal eu sempre fui o elo mais fraco, então todos estavam extremamente nervosos, e obviamente isso se refletia em mim. Eu estava acostumado a bloquear tudo que eles sentiam, me concentrando apenas em controlar o ambiente quando necessário... E por isso estava completamente desconectado de minhas próprias emoções. Eu não percebi na época, mas, eu já nem as reconhecia... – Bella uniu as sombrancelhas e um sentimento de compaixão inundou o ambiente. Eu apenas expirei – Eu já tinha te visto de relance pela escola, seu nome era incansavelmente citado na casa, Edward estava... – obcecado, eu pensei – Fascinado por você... E toda a família parecia extasiada com isso... Eu não compreendia... – ri irônicamente – Na verdade pouco me importava, eu não costumava me importar com muitas coisas... Então agi como sempre... – dei de ombros – Mantive distância.
Mágoa me alcançou, sutil... Eu fitei o olhar de Bella e esperei que ela absorvesse minha dúvida. Ela corou e baixou a cabeça.
– Parece sem sentido, mas... É incômodo pensar que você não me notava...
Eu ri baixo.
– Você também não me notava, Bella... – devolvi com suavidade – Provavelmente eu te assustava... Essa é a reação que obtenho até mesmo dos de minha espécie...
Ela levantou a cabeça rapidamente e me olhou com gravidade.
– Não, eu nunca tive medo de você... – eu neguei, e sabia que ela identificava meu ceticismo – Pode perguntar ao Edward. Ou até mesmo à Alice. Você sempre me intrigou, na verdade... Sua postura altiva, seu silêncio, sua distância... É verdade que eu não me permitia te observar, mas não por temor. Eu me sentia intimidada pelo jeito agudo com que você me olhava todas as vezes que eu te olhava... Além disso... Você era o marido da Alice, e eu estava... Apaixonada pelo Edward... – a voz dela foi perdendo a firmeza até que ela se calou com um dar de ombros.
– Então você compreende porque eu não me importava... – afirmei, e ela assentiu discretamente – Ao menos não no começo. Enfim, naquele dia tudo mudou. – retomei meu relato – Pra mim você era apenas uma garota humana comum, por quem Edward estava perdendo a cabeça... Mas então quando você estava ali, bem na minha frente, e eu olhei pra você, realmente olhei pra você... Entendi porque todos se encantavam com a tal “Isabella Swan”...
Ela corou novamente, talvez pela intensidade com que eu falei seu nome, ou o peso que conferi à expressão. Era óbvio que ela não se enxergava com clareza, e que não assumia o quanto era capaz de envolver as pessoas... Sorri.
– Eu fiquei levemente maravilhado por poder enxergar todas as suas emoções através de seu olhar... – continuei – Eu não consegui te sentir, estava bloqueando tudo à minha volta, mas, seu olhar... Ele se comunicou comigo... – suspirei novamente, o eco da lembrança trazendo sensações intrigantes para meu âmago – E quando eu ouvi sua voz... Você falou comigo tão... Tranquilamente... Seu tom era puro e leve... Eu simplesmente perdi o controle sobre minhas defesas, você me desarmou completamente... – expirei – E tudo explodiu à minha volta... Eu podía sentir tudo e todo mundo... Mas não como estava acostumado, não através de meus filtros, tudo veio a mim confuso, misturado... Era como se... Como se você tivesse anulado meus muros de repente. E eu me vi perplexo... – respirei fundo, olhando momentâneamente para o horizonte e voltando pra ela – Edward sempre me pedia para evitar estar muito perto quando você estava presente, então não existía oportunidade de convivência entre nós dois... As poucas vezes em que eu estive no mesmo ambiente que você, me sentia confuso... Tentava me proteger ao máximo, é verdade... mas não era muito bem sucedido. De qualquer forma suas emoções eram inocentes e simples... E quando me alcançavam me faziam sentir... Leve...
Ela sorriu, sentindo satisfação.
– Quando a ameaça de James pairou sobre você, e nós buscávamos uma maneira de te manter conosco, eu soube... Eu não compreendi mas eu soube. Eu tinha que te manter viva a qualquer custo. Fui eu quem disse a Alice que nós deveríamos levar você, que você devería ficar sob nossa proteção, minha e dela, porque eu era a melhor pessoa para evitar que uma tragédia acontecesse. Naquele momento eu acreditei que era minha lealdade à família, a Edward, que me movia... Mas, mais tarde eu entendi que já era efeito do que eu sentia por você...
Bella respirou fundo e se abraçou, arrepios correndo por seus braços enquanto seus olhos, fixos nos meus, aumentavam.
Ela não estava somente atenta, mas ansiosa, e alguma compreensão fluía dela pra mim me dando a certeza de que ela começava a enxergar a profundidade e a significância do laço que existía entre nós dois.
– Quando Edward se despediu de você – continuei – Eu absorvi, com estranhamento, uma inveja, um desagrado que a princípio, eu não identifiquei a origem. Aquilo era ciúme, e nascía em mim, mas eu estava absorto de minhas próprias emoções na época, então, ignorei... – ela quase sorriu, mas se conteve – Se lembra do que te disse naquela noite?
– “Sabe que está enganada...” – Bella recitou minha afirmação com perfeição, e eu sorri, surpreso e satisfeito por sua memória intacta – Você disse que eu valía tudo aquilo...
– E eu estava certo disso... – murmurei – Mas o mais incrível sobre essa afirmação foi que, e eu só entendi isso muito tempo depois, eu falei por mim mesmo... Não pelos outros, ou por Edward... Eu sabía, fundo dentro de mim, que manter sua vida valería até mesmo a minha em troca...
Ela arfou e abaixou os olhos para nossas mãos, seus dedos entrelaçados nos meus intensificando o aperto demonstrando sua aquiescência.
Eu esperei até que ela me olhasse novamente para continuar.
– Naquele quarto de hotel em Phoenix você quase me enlouqueceu... – ela riu – Qualquer momento em sua presença significava a perda do controle sobre as emoções ao meu redor. Eu manipulei sua tensão com um esforço gigantesco, você não faz a menor ideia... Eu não conseguia manter minhas defesas, eu estava sempre de guarda baixa, vulnerável... E isso me deixou, pouco a pouco, mais confuso e intrigado com você... – eu pausei, tentando reinar sobre as emoções que me tomavam, um reflexo de minhas lembranças – Eu não sei se você percebeu, mas... Eu evitei você o máximo que pude depois disso...
– Eu percebi. – ela afirmou – Mas imaginei que era muito complicado pra você, ter de lidar com sua própria sede somada à dos outros, além da de Edward, que tinha uma reação ainda mais intensa em relação a meu sangue...
Eu assenti.
– Eu procurava não dar atenção à isso, mas... Olhando para trás, eu vejo que na verdade eu evitei confrontar a mim mesmo. Eu não estava preparado pra aceitar o que estava acontecendo, o que estava se revelando. Eu acreditava piamente que Alice era minha outra metade, que não havia ninguém além dela pra mim, mas... – eu sacudi minha cabeça de leve, só então percebendo o quanto eu fugi daquilo inconscientemente – Bella, quando eu te ataquei no seu aniversário... – ela estremeceu, provavelmente em reação à todas as lembranças que provoquei com a menção da festa fatídica – Eu não almejava drenar você, provar seu sangue, eu... Eu só percebi o que realmente me movia quando estava a poucos centímetros de realizar o ato mas... Não era sede... Era esse... Impulso... Essa ânsia de...
Eu me interrompi, com medo da intensidade do que iría revelar.
Bella se aproximou e me beijou suavemente nos lábios, encostando a testa na minha.
– Eu não estou assustada, Jazz... – afirmou – Nem vou correr gritando se você me disser que tudo que quería era me transformar...
Eu me afastei bruscamente e arregalei meus olhos pra ela, chocado.
– Era justamente isso que eu estava impulsionado a fazer... – murmurei com o tom espantado. Como ela podía ser tão perceptiva?
Seus olhos me disseram que ela entendia perfeitamente o que eu havia passado.
– Naquela hora alguma coisa dentro de mim se acendeu, e eu compreendi tudo... – murmurei, ainda entorpecido pela surpresa – Tudo que eu não me dei ao trabalho de analisar, de especular, de entender... Eu fiquei horrorizado com a descoberta... Como eu podería estar apaixonado, profundamente apaixonado, pela garota que Edward tinha escolhido como sua companheira...? Não fazía sentido, eu não vi acontecer, eu mal me relacionava com você, nós mal nos falávamos, mas eu não podía negar a veracidado do fato... Era você. O tempo todo foi você... E eu não tinha como mudar isso...
Bella sorriu, e assentiu com um sorriso cálido nos lábios...
– Eu passei os dois dias seguintes me debatendo... Mas eu sabía que não existia outra alternativa a não ser partir... Eu imaginava que você me temia... – falei baixo, analisando sua reação e ela negou silenciosamente, uma certa indignação ondulando até mim – E não a condenava por isso, eu tinha dado motivos suficientes para que você me repugnasse... Por isso, e pelo fato de você amar Edward, e ele a você... Eu tentei ir embora... Eu sabía que nunca mais estaría livre, eu estava acorrentado a você pela eternidade, mas você pertencía a ele... E eu não acreditava que sería possível que você me visse de outra forma... Na minha cabeça você nunca me enxergaría como qualquer outra coisa além do monstro que eu mostrei ser...
– Jasper... – ela murmurou ainda negando. Eu não me impedi.
– Eu estava decidido. Eu partiría e encontraría uma forma de lidar com aquilo... Mas então Edward fez o que eu tentei convencê-lo a não fazer... E você precisava de mim... E eu fiquei... – finalizei com um dar de ombros.
– E fatalmente eu descobri sua presença, e então nossa ligação teve espaço pra se desenvolver e nós... Eu... Me apaixonei por você... – ela murmurou, perdida em meu olhar, como eu estava perdido no dela.
Eu especulei internamente se devería falar a ela sobre Isabell... Sobre as cartas que havia encontrado, sobre a foto, mas... Alguma coisa dentro de mim me disse que não era o momento, então eu me resguardei. Ela já tinha informação suficiente para compreender que nós estávamos conectados de uma forma que não havía como evitar ou fugir.
Eu sentí o pico de sua curiosidade, e arqueei uma sobancelha pra ela.
– Porque acha que se apaixonou por mim? – ela desviou o olhar para as mãos por um momento depois me olhou com hesitação – Eu digo... Você mesmo admitiu que não tinhamos contato algum, você não me conhecia direito, então...
Eu ri baixo, negando com a cabeça.
– Eu não sei.... Não tenho certeza sobre o que me puxou pra você, mas eu tenho algumas teorias... – Ela me fitou com dúvida. Uma pergunta silenciosa – Acho que começou com a maneira como você me fazía sentir... Sentir a mim mesmo, reconhecer minha própria essência, ainda que de forma inconsciente, quando todos à minha volta praticamente me sufocavam, mesmo Alice... Não que eles fizessem isso deliberadamente, mas... Você sempre foi como ar fresco, Bella... Estar perto de você significava... Silêncio... Significava sentir paz, suas emoções eram sempre tão fáceis, simples e inocentes... Era como se eu estivesse num refúgio, protegido, quando você estava por perto... Não acontecia sempre... Os outros inventavam caçadas ou Alice me arrancava da casa com um motivo qualquer quando você vinha... Mas todas as vezes que eu estive em sua presença depois daquela primeira vez, você iluminou meu dia, por mais breve que fosse a minha ou a sua permanência... – suspirei alto, olhando o céu momentaneamente – Eu não prestei atenção nisso por muito tempo... Eu estava cego... Mas é a verdade e hoje eu posso enxergar cada segundo, cada passo que me guiou até você...
Seu sorriso terno me preencheu de paz e amainou o nervosismo que ainda me dominava.
Ela negou em silêncio, e minha mão correu por suas mechas soltas, enquanto eu apreciava a textura macia contra meus dedos, desejando nunca mais me afastar da sensação.
– Porquê não me contou tudo isso antes...? – ela perguntou com calma, nenhuma acusação implícita.
– No começo eu tive medo que você se assustasse com a intensidade de meus sentimentos por você... – confessei – Existía também essa culpa, esse remorso por Alice e Edward... – pausei, respirando fundo e sondando Bella. Ela continuava calma, apesar de interessada ao extremo – Depois, quando nossa relação se tornou mais densa, e eu tive esperanças de que se aprofundasse, eu estava esperando pela melhor oportunidade para te contar, te explicar, e então... Edward voltou... E você estava dividida, e eu não sabía exatamente o que fazer...
Bella suspirou e voltou para meu colo, envolvendo meu pescoço com seus braços.
– A primeira vez que eu sentí seu amor por mim... Aquilo realmente me assustou. – Ela admitiu – mas eu fiquei maravilhada com a capacidade que você tinha de amar depois de todo o tormento que viveu, durante tantas décadas... Eu não sabía se era capaz de corresponder à altura... Eu tive... Medo. Acho que, muito mais por isso, eu senti necessidade de ter certeza absoluta sobre o que eu sentia... Eu tinha que descobrir se meu amor por você era tão real quanto o seu por mim, se eu não estava envolvida, fascinada, com a ideia de amar e ser amada por você... – ela expirou, um pouco tensa – O fato de eu ainda ter sentimentos por Edward me confundiu também... E então eu sabia que tinha de ser cuidadosa com minha decisão... Doeu muito quando você foi embora, eu pensei que não aguentaria, mas estar com Edward nublava isso, e acho que meu discernimento também... – eu abaixei a cabeça, incapaz de disfarçar a dor que sentia ao recordar que ela havia escolhido ele, ao menos naquele momento – Não, não fique triste... – Bella murmurou segurando meu queixo. Eu voltei meus olhos pra ela – Eu acho que tava me iludindo, talvez por me sentir intimidada, por acreditar que não merecia você ou que não conseguiria te amar da mesma forma, eu não sei... Tudo que sei é que... Todas aquelas semanas sem sua presença foram uma tortura... – ela arfou com a mão sobre o peito – Jasper, eu não sei explicar... Não sei te dizer o motivo que me levou a confiar que era Edward... Quando te vi na minha frente outra vez ontem, naquele mísero segundo quando toquei seu rosto na sala... Eu me senti completa... – Seus olhos cintilaram, e seu amor me envolveu de tal forma que me senti aquecido – E isso me fez questionar tudo que eu conclui em sua ausência... Depois... Depois você me questionou sobre minha aversão à possibilidade de você voltar com Alice, e eu... Eu não podía mais me enganar... – ela suspirou e algum receio transbordou dela – Eu amo Edward, e acho que isso nunca vai mudar... – ela falou com hesitação, e eu controlei o quanto aquilo me feriu, eu já sabía disso e não podería cobrar dela – Mas... – ela enfatizou a palavra – Eu enxerguei que o sentimento que tenho por ele é fruto de uma fantasia adolescente... Primeiro amor e essas coisas... Com você é diferente... É como se eu... Não, não é “como se”, eu pertenço a você. O amor que sinto por você não nasce em meu coração, nasce em minha alma... É o sentido de eu estar aqui em sua frente agora... Eu demorei pra entender, mas... Você é meu destino, Jasper...
Eu sorri e segurei seu rosto em minhas mãos.
– É exatamente assim que me sinto, Bella...
Respirei fundo antes de tocas seus lábios com os meus, e então sua boca encaixou na minha, e logo nossas líguas estavam entrelaçadas, se buscando, e nada mais importava além da sensação de realização que se assentava dentro de nós dois...
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– Por que será que posso sentir você? – ela indagou com as sobrancelhas arqueadas numa expressão especulativa, quando caminhávamos na mata, fazendo lentamente o caminho de volta – Será que o que sentimos é tão verdadeiro, e me liga tão profundamente a você que nos faz compartilhar seu dom?
Nossas mãos estavam unidas entre nós, e eu observei seus dedos delicados entre os meus antes de responder em tom de dúvida.
– Não tenho certeza, mas acho que, de alguma maneira, é isso sim... – “além do fato de você ser a reencarnação de um amor que eu nem me lembrava que havia tido”, pensei – Essa ligação que existe entre nós dois é tão... – Suspirei – Eu ainda me sinto confuso com isso, Bella... – admiti – O que me importa realmente é que eu te tenho agora... E não vou te perder... O resto é só... detalhe...
– Eu acho que existe algo mais entre eu e você... – sua voz era tímida, mas eu reconheci o sorriso nela, e a satisfação que pulsava dentro de Bella, provavelmente em reação à possibilidade de nossa conexão ser especial.
– Talvez... – dei de ombros, especulando internamente, mais uma vez, se devería ou não contar a ela sobre o que tinha descoberto no Texas.
Acreditei que era melhor esperar um pouco mais, conversar com Alice, e com Carlisle, antes de expor minha teoria para Bella.
Caminhamos em silêncio por mais algum tempo, mas ambos estávamos confortáveis. Existía essa vibração de curiosidade no ar, mas eu sabía que ela esperaría que eu falasse o que, eu tinha certeza, ela percebía que eu estava escondendo.
– Não acha que vai ser estranho agora...? – ela perguntou quietamente depois de mais alguns minutos – A família voltando, Edward e Alice por perto e nós dois...
Sua insegurança me atingiu e eu parei, me virando de frente pra ela com o olhar firme.
– Tirando o fato de que nos beijamos enquanto você ainda está com ele... Nós não estamos fazendo nada errado, Bella. – assegurei – Alice já sabe de tudo, eu não tería como esconder isso dela, e Edward... – eu suspirei enquanto ela estremecía, e remorso fluía sem pudor – Ele vai ter de entender... E eu sei que ele quer ver você feliz, mesmo que isso signifique a tristeza dele. Não é como se ele não fosse capaz de superar, talvez leve algum tempo, mas... Não há muito o que fazer, a não ser que você...
Ela reconheceu a mágoa se elevando dentro de mim, e seus olhos encontraram os meus com brusquidão. Ela me fitou com uma determinação inquestionável.
– Não existe a menor possibilidade de eu voltar atrás. – afirmou – Antes eu estava iludida, e confusa, mas agora eu tenho certeza. Então não se sinta inseguro.
Eu expirei e assenti, aceitando suas palavras como uma promessa.
– Temos que correr se quisermos chegar em Forks com o dia ainda claro... – falei e ela anuiu – Te levo pra sua casa...?
– Não. Eu preciso conversar com Edward o quanto antes.
Eu absorvi sua súbita tensão e projetei calma para ela, assentindo enquanto a colocava em minhas costas e disparava por entre as árvores.
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Assim que alcançamos o córrego eu percebi Edward na janela de seu quarto.
Eu sabia que, pelo horário, ele não teria como ter ido até o colégio buscar Bella e dar por falta dela. E fui assegurado disto quando a surpresa dele, provavelmente por ver a noiva em meus braços quando saltei as pedras, encontrou seu caminho até mim.
Coloquei Bella sobre os próprios pés ouvindo Edward trovejar pelas escadas.
– Ele está irritado. Acho melhor deixar essa conversa pra depois... – falei a ela, absorvendo todo o aborrecimento dele.
Bella tocou meu rosto com carinho no exato instante em que Edward estacou no meio da sala, nos observando em choque.
– Eu tenho que fazer isso agora... – ela afirmou – Eu não posso adiar mais...
Eu assenti e elevei meu olhar para a figura furiosa em nossa frente, assim como ela.
– Bella... – ele murmurou, e seu tom denunciou o ciúme descontrolado que ele sentia.
Bella voltou o olhar pra mim, segurança pulsando em seu interior. Me beijou no rosto devagar.
– Não se afaste... – sussurrou.
Eu neguei silenciosamente, e ela se afastou, parando na frente de Edward e elevando a cabeça para olha-lo. Quando ele a encarou, seu olhar enterneceu, e com uma angústia sem tamanho, eu percebi o amor que Bella sentia por ele inundar a sala e me atingir como um ferro quente. Remorso fluiu em seguida, porque ela sabia que eu era capaz de identificar o que ela guardava naquele momento.
Me mantive perfeitamente parado, contendo a mágoa, enquanto ela subia as escadas lentamente, sendo guiada por Edward, que segurava sua mão de maneira firme.
Assim que ouvi a porta do quarto sendo fechada, Alice surgiu em minha frente.
– Ele vai dificultar as coisas, não vai? – perguntei baixo o suficiente para apenas ela me escutar.
Ela deu de ombros.
– Não posso ver coisas que ainda não foram decididas, lembra? – ela respondeu no mesmo tom – Mas se você está pedindo minha opinião... – ela segurou minha mão e me olhou com ternura – Não. Não vai.
Eu suspirei.
– Tem certeza que quer permanecer e ouvir essa conversa? – ela indagou com cautela.
Eu apenas assenti quietamente, meus olhos fixos no topo da escada, onde Bella e Edward haviam desaparecido apenas um minuto antes.
“Você fugiu da escola pra encontrar ele?” A voz de Edward me alcançou, seu tom linear, a despeito da tensão e do ciúme que transbordavam até mim.
“Sim... Eu precisava conversar com ele...” Bella respondeu tensa.
Edward suspirou, e Alice se moveu em minha frente. Eu busquei seu olhar, curioso com a emoção que ela emitiu, e notei que uma visão toldava sua consciencia do presente momento.
Foquei minha atenção nela sem desfocar da conversa no andar de cima.
“O que você ainda tem pra conversar com ele, Bella? Eu pensei que tudo já estava resolvido...” Edward murmurou, medo se elevando superior ao ciúme.
“Edward, eu... Eu me precipitei quando aceitei seu pedido...” A voz de Bella chegou a mim carregada de receio e remorso. “O que eu quero dizer é que... Eu não deveria ter dito sim... Eu estava confusa, eu deveria ter pensado melhor, eu...”
“Nós temos todo tempo do mundo, Bella...” Edward a interrompeu suavemente, desespero substituindo todas as outras emoções, ainda que seu tom de voz permanecesse inalterado. “Não precisamos nos casar imediatamente se você está em dúvida, eu posso esperar...”
“Edward, o que estou tentando dizer é que...” Ela pausou. “Meu Deus, isso é tão difícil...” Ela murmurou muito baixo, mas todos nós ainda podiamos ouvi-la. “Eu te amo, mas...”
“Mas...?” Edward indagou sem disfarçar o ultraje.
“Eu estou apaixonada pelo Jasper.” Ela falou de uma vez, me dando a certeza de que se forçou a verbalizar a verdade numa única respiração antes que perdesse a coragem.
Meu coração morto se encheu de ternura, pela maneira firme com que ela sustentou seu sentimento por mim, sem temer as consequências. Eu senti o sorriso se formando em meu lábios, mas então Alice segurou meu rosto com força, recapturando minha atenção.
– Vamos dar uma volta. – ela demandou com urgência.
Eu a encarei inquieto e intrigado, e ela entendeu o questionamento mudo.
– Você não vai reagir bem ao que ele vai fazer. – ela murmurou.
Meu corpo retesou, e minhas mãos voaram para os braços de Alice na intenção de tira-la de meu caminho.
– Ele não vai machuca-la! – ela se apressou – Mas é melhor que você não ouça mais nada dessa conversa.
– Porque Alice? – eu inquiri – O que ele vai falar que vai me fazer reagir mal?
– Só... Só vamos dar uma volta, Jazz... Por favor...
Eu a ignorei, me concentrando ainda mais no que se passava no quarto.
“Você está desistindo de nós dois?” A voz de Edward era extremamente magoada. Ele demorou um momento para continuar e eu imaginei que Bella havia confirmado sem palavras. “Por ele? Você não vê o quanto isso é absurdo?”
“Não é absurdo, Edward... É real, aconteceu...” Bella replicou quietamente. “Eu o amo... E quero ficar com ele... Eu sinto muito...”
“Você não sabe o que está fazendo... Não está pensando direito...” Edward devolveu num tom forçadamente calmo. “Você me ama. Como eu amo você... Pense sobre isso. Nós temos planos, nós estamos noivos, Bella... eu aceitei transformar você, porque quero passar a eternidade ao seu lado...”
“Eu ainda amo você, mas não o suficiente para ignorar a verdade... Eu sinto muito por te magoar, mas eu quero estar com ele, Edward... Eu quero estar com ele...”
– Jasper, por favor... – Alice suplicou em minha frente, e eu continuei a não lhe dar atenção.
No andar de cima Edward suspirou, e eu pude ouvir o som de seu corpo pesando na cama, provavelmente se sentando ao lado de Bella.
“Jasper é, em muitos sentidos, meu irmão, e eu tenho um apreço muito grande por ele mas... Você não faz ideia do quão perigoso ele pode ser, Bella...”
“Tanto quanto você...”
“É diferente...”
“Diferente como? Será que ele é mesmo mais perigoso pra mim do que você, pra quem meu sangue tem um apelo muito mais intenso, Edward?”
Ele expirou, e eu me senti inquieto com a determinação que ele começou a vibrar.
Alice apertou os dedos em meu rosto.
– Vamos agora... – ela suplicou, eu neguei – Isso vai dar muito errado, Jasper...
– Shhhh, Alice. – a calei com meu olhar grave – Nada do que você me diga vai me tirar daqui.
Ela me soltou e cruzou os braços no peito.
– É eu posso ver isso. – resmungou – Não diga que não avisei.
“Jasper não é perigoso, Edward. Não mais que qualquer um de vocês e ele tem a própria sede sob controle, agora muito mais do que antes.” Bella afirmou com certeza, e eu me senti contente com sua confiança.
“Bella você não conhece tudo sobre ele... Jasper tem um passado terrivel, uma historia sangrenta que define o quanto ele pode ser muito mais monstro que qualquer um de nós.”
Eu trinquei meus dentes, com raiva.
Ele sabia que eu estava ouvindo, e não estava nem uma vírgula constrangido em me criticar, me condenar, por meu passado, e usa-lo como argumento.
“Se esta falando do passado dele com Maria, poupe meus ouvidos.” Bella replicou irritada, e mais uma vez eu me senti orgulhoso e satisfeito. “Eu conheço toda a historia. Ele mesmo me contou como foi transformado e o que fez durante tantas décadas. Ainda que ele não tivesse sido induzido àquilo, ele não é mais aquela pessoa. Ele mudou e isso está ok por mim. Eu não me importo com o passado dele, eu me apaixonei por quem ele é hoje.”
Edward foi atingido por uma dor capaz de me colocar de joelhos. Eu teria cedido ao chão, não fosse a intensidade do contentamento que pulsava em mim pelas palavras de Bella.
“Ele é temido em nosso mundo Bella. Vampiros poderosos tem medo dele. Jasper não é só perigoso... Você sabe como o chamam? Qual a denominação que todo e qualquer vampiro, até mesmo os mais jovens, conferem a ele?”
“Eu não estou interessada nos títulos ou apelidos que outros vampiros dão a ele, Edward, eu não me importo com...”
“Deus da guerra.” Ele a interrompeu. “Consegue imaginar porque?”
Bella suspirou, e eu identifiquei o quanto ela estava aborrecida e enfadada pela insistência de Edward.
Alice expirou forte ao meu lado. Eu fingi não perceber.
“Sim, consigo. E reafirmo o que disse. Jasper não é mais assim. Eu sei quem ele é, isso é tudo que me importa.”
Silêncio pairou entre eles, e eu podia experimentar a tensão se elevando. Por puro instinto eu soube que algo ruim estava por vir, e prendi a respiração quando Edward iniciou sua frase seguinte.
“Ele queria matar você.”
Eu estremeci. E com desgosto entendi porque Alice queria tanto que eu não ouvisse a conversa.
Incapaz de conter o medo que me dominou eu me preparei para subir as escadas e interromper a revelação que Edward estava prestes a fazer, nem que fosse a força, mas Alice foi mais rápida que eu, e se colocou em minha frente.
– Você só vai piorar as coisas se passar por aquela porta.
Seu olhar me dizia que ela estava em modo de contenção de estragos. O que quer que ela tivesse visto minutos antes, ela estava evitando ao bloquear meu caminho.
Relaxei minha postura tensa, e permiti que ela me impedisse.
“Não. Ele não queria me matar. Foi um mal entendido.” Eu ouvi Bella dizer.
– Ela vai me odiar... – eu murmurei, e voltei meu olhar, intensidade total, para o de Alice.
– Eu não sei... – ela sussurrou incerta e compadecida de mim – Mas acredite quando digo que seria pior se eu não estivesse aqui pra te conter.
“Um mal entendido?” Edward questionou num riso sarcástico “Você nem sabe do que eu estou falando.”
“Do meu aniversario.” Bella assumiu iludida, e eu senti todo meu corpo latejar com o terror por sua reação.
Eu sabia bem ao que Edward estava se referindo, e me condenei por não ter dito, eu mesmo, sobre meu estúpido plano de eliminação a Bella.
Derrotado eu ouvi Edward rir baixo, determinação, raiva, mágoa, inveja, ciúme e desespero o movendo.
“No dia em que evitei que você fosse esmagada por aquela Van no estacionamento da escola, Bella... Eu arrisquei o segredo de nosso mundo... Eu coloquei toda a família em risco... E Jasper, sendo o melhor estrategista que pode existir, planejou a única forma que ele enxergava possível para conter os danos...”
Bella estava em silêncio, enquanto eu arfava e Alice me segurava pelos ombros com toda sua força, esperando, como eu.
“Alice teve uma visão... E eu vi, junto com ela... Você ser cruel e friamente assassinada enquanto dormia... Por Jasper.”
Eu fechei os olhos e me deixei inundar pela desalento, o eco do arquejar surpreso de Bella reverberando em meus ouvidos enquanto Alice me abraçava, tentando em vão me confortar.
E então a incredulidade, seguida por uma mágoa sem tamanho, me alcançou... E eu tive certeza de que estava perdendo Bella de novo... Provavelmente, sem chance de recuperação dessa vez.
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