Destinados
15 A promessa definitiva
Notas iniciais

– Jasper... – Eu ouvi a voz de Alice como se ela estivesse há milhas de mim – Não fique assim, as coi...
Antes que ela terminasse a frase eu já estava fora da casa, elevando meus muros o mais alto e mais forte que pude.
Eu sabia que era ridículo fugir, não adiantava coisa alguma. Não iria apagar o que havia acontecido nem resolver o problema, mas eu precisava de um momento para me preparar e não conseguiria fazer isso dentro da casa, com Alice e Edward por perto.
Eu sentia como se estivesse para implodir, como se meu corpo estivesse rachando de cima a baixo, de dentro pra fora, suas fissuras se aprofundando e se estendendo, até que eu atingisse um nível onde apenas estilhaços restariam numa pilha.
Bella, há essa altura, provavelmente estava se preparando pra me dizer adeus, ou talvez nem dizer mais nada... Ela não iria querer olhar na minha cara depois daquilo, muito menos me ouvir.
Eu retornaria para tentar me explicar, é claro. Pedir, implorar, suplicar de joelhos se fosse preciso, por um minuto que fosse da atenção dela para esclarecer os meus motivos. As chances de ela me conceder o privilégio eram ínfimas, mas eu rastejaria aos pés dela da mesma forma, me humilharia o quanto fosse necessário. Mas não agora. Não estando tão completamente vulnerável.
Eu precisava me refazer antes de confrontar a realidade e perder a razão de minha existência...
Corri o mais rápido que minha capacidade me habilitava, instintivamente seguindo para o único lugar que me provia um pouco de paz...
Ajoelhei na terra com um baque ao alcançar nosso lugar, nosso canto como minha Bella denominava com tanta ternura...
Minha Bella...
Eu havia acabado de recupera-la, estava naquele mesmo local há menos de uma hora com ela em meus braços, fazendo promessas de amor, e já a perdia novamente... Eu me sentia rodando em círculos, os lugares, a história, as situações se repetindo, indo e voltando pro mesmo lugar...
Eu nem tinha tido tempo de chama-la de minha verbal e explícitamente...
Respirando aos arquejos, mesmo que o oxigênio não fizesse qualquer diferença em meu sistema, me dobrei sobre minhas pernas sentindo o pânico tomar proporções arrasadoras, me deixando desorientado. Fechei os olhos com força, pressionando as pálpebras, e arfei todo o ar que tinha em meus pulmões.
– BELLAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!
O grito rasgou minha garganta sem que eu pensasse em fazer isso, e então a dor começou a borbulhar em meu âmago, e eu me deixei ser tragado pelo desespero, me trancando em mim mesmo enquanto nadava no mar de dor que me consumiria, ainda mais intensamente muito em breve...
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~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~BELLA~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
As palavras de Edward ainda se repetiam em minha cabeça, e eu tentava, a todo custo, suprimir a mágoa que começava a me engolir, mas ela era mais forte do que eu...
Num primeiro momento, assim que a afirmação dele pesou em minha mente, e eu reconheci a surpresa e a incredulidade emergir em mim, eu não tive tempo de conter a dor. Ela foi automática e irreprimível. E agora, sabendo a provável repercussão dela, eu precisava retrai-la, mas algo dentro de mim havia se partido, e estava sangrando, eu não tinha capacidade de estancar...
Eu sabia bem o que Jasper, no andar de baixo da casa, estaria imaginando equivocadamente, eu podia sentir o medo que ele estava sentindo, e isso me preocupava muito, mas, eu tinha certeza de que ele entenderia, ele sabia o quanto eu o amava, eu havia mostrado isso a ele não mais que algumas horas atrás...
Sim ele compreenderia... Afinal ele sabia que eu amava Edward, mesmo eu tendo decidido e aceitado que não estávamos destinados um ao outro, mesmo consciente de que esse amor não era forte o bastante para me unir a ele. Por isso eu sofria naquele momento, por isso sangrava e sentia a mágoa me rasgar fundo enquanto enxergava a imprudência com que o homem, com quem cheguei a considerar me casar, estava lidando com a situação.
Eu olhei fundo nos olhos dele, cética de sua atitude desdenhosa, decepcionada com sua falta de consideração, não só por seu irmão, que ele havia acabado de delatar sem piedade, mas por mim. Principalmente por mim.
Ele não gastara um só segundo para pensar na dor que me causaria, se eu fosse estúpida o suficiente para me deixar influenciar por algo que havia acontecido quando Jasper nem ao menos sabia quem eu era... Edward sequer considerou que sua ação, evidentemente desesperada, e, eu tinha que adimitir e lamentar, maliciosa, poderia me custar o sentido de minha vida...
Se eu fosse tola o suficiente, imatura o suficiente, como ele ainda acreditava que eu fosse...
Mas eu não era mais a menininha iludida que ele deixou pra trás na mata há quase seis meses. Eu não era mais manipulável e influenciável como fui durante os sete meses que deixei meu coração me cegar e falar por mim... Ele não era mais a voz da minha consciencia como foi por algum tempo, como eu permiti que fosse, nem tinha mais a autoridade e dominio sobre meus atos...
Não.
Eu era agora, e sabia, em minha alma, que seria pra sempre, a Bella de Jasper... A garota que ele considerava decidida e madura o suficiente para enxergar a verdade, a realidade por trás das dissimulações, a razão por trás de situações mal interpretadas, capaz de se defender e se levantar por suas próprias crenças...
Isso não impedia a dor de me alcançar, entretanto. A dor por entender que Edward não era o ser perfeito e altruísta que eu assumi que ele era. A dor por perceber que ele tinha falhas e que essas falhas poderiam ser maiores e mais graves que as de outras pessoas...
Talvez eu estivesse exagerando. Talves eu estivesse considerando a situação de forma desproporcional mas, o desgosto era tão grande naquele momento...
Suspirei, sentindo as lágrimas encherem meus olhos mas controlando-as. Eu não queria chorar.
– Como pode... – murmurei.
Edward segurou minhas mãos nas suas, o olhar terno no meu.
– Eu sei... – ele disse num tom compadecido, entendendo erroneamente minha reação – Me desculpe por ser eu a te revelar isso, Bella... Sei que está doendo, mas você precisava enxergar a realidade...
Eu me afastei dele, sentindo meu coração latejar por conta do desapontamento.
– Eu enxergo... – falei um pouco mais firme – E ela não é bonita... Eu nunca pensei que isso era possível...
Ele se levantou, o semblante cauteloso e compreensivo, mas eu conseguia enxergar a satisfação brilhar contida por trás. Uma faísca de raiva ardeu sobre o dissabor, me fazendo estremecer, e eu senti meu rosto se contorcer numa careta.
– Ele te influenciou, amor, não se culpe... – Edward falou, e seu tom amoroso me causou uma certa aversão – Eu sei que você pensa que o que sente é verdadeiro, mas não é, e eu posso provar isso... Eu posso cuidar de você e nós ficaremos bem... Eu não permitirei que ele se aproxime de você novamente, eu juro.
– Como você pode, Edward...? – perguntei num murmúrio – Não se sente envergonhado? Eu entendo que esteja ferido por estar me perdendo, mas... Tentar manipular a situação a seu favor, usando uma situação que nada tem haver com o que está acontecendo agora...?
Ele me olhou em confusão.
– Bella.... – ele murmurou um pouco espantado – Como não tem haver? O que é preciso pra você enxergar o risco que está impondo a si mesma? Jasper é...
– Por favor, pare com issso... – eu o cortei levemente ríspida – Jasper nem sabia quem eu era... Você mal sabia quem eu era... Ele provavelmente estava agindo de acordo com os próprios princípios, tentando proteger a familia do que ele viu como uma ameaça, atitude que qualquer pessoa teria na mesma situação, até mesmo eu, até mesmo você.
– Eu nunca... – ele tentou.
– Você quis me matar no dia em que me conheceu, Edward... – falei num suspiro por cima de suas palavras – Esqueceu disso? Você mesmo me contou que, em apenas alguns minutos na minha presença, contemplou dezenas de formas de me encurralar e drenar meu sangue.
– Eu estava fora de mim... – ele justificou.
– Isso é muito pior, não acha?
– Não, Bella! Não foi culpa minha, eu não tinha controle sobre o que estava acontecendo comigo naquele momento, enquanto Jasper... Jasper estava fazendo planos, traçando estratégias para tirar sua vida da maneira mais cruel...
Eu suspirei. Ele parecia realmente acreditar no que defendia e eu não o convenceria, estava mais do que certa disso.
– Edward, enquanto você estava movido apenas por cobiça, ele teve um motivo... Muito nobre, diga-se de passagem... – expirei resignadamente – A questão é... Se eu não retive seu “quase” deslize contra você, porque faria isso com ele? – ele tentou responder mas eu o calei com uma mão levantada entre nós – Isso não me colocaria contra ele... Como eu te disse antes, o passado de Jasper, o que ele fez antes de nos descobrirmos, não me importa. Eu sei quem ele é hoje, eu sei quem ele é desde que nos encontramos, e é por esse homem que estou apaixonada, e nada, eu vou repetir, nada, vai abalar a confiança e o respeito que tenho por ele, muito menos meu sentimento, que dirá minha decisão.
– Mas Bella, você não vê que...
– Chega, por favor! – elevei um pouco a voz, ficando irritada – Não diga mais nada. Não aumente a decepção que estou sentindo agora, a mágoa que está dissolvendo o que sinto por você...
De repente a angústia e o medo intenso que eu já sentia, se elevaram. Eu não tinha dúvidas de que era Jasper, e eu estava mais do que certa do motivo para ele se sentir daquela forma, mas eu ainda não tinha concluído minha conversa com Edward, então coloquei a mão no peito, me protejendo da dor precariamente, e o olhei.
Os lábios dele formavam uma linha tensa, e seus olhos brilhavam de uma forma estranha, como se ele estivesse aterrorizado.
Dei dois passos em direção a ele, me esforçando para não perder o controle.
– Eu vim aqui pra te dizer que não podemos mais ficar juntos, mesmo que isso estivesse arrancando um pedaço de meu coração. Eu não tinha qualquer intenção de magoa-lo, ainda que soubesse que isso seria impossível... Eu estava preocupada com você, porque, sim, eu ainda te amo... E minha consideração por seus sentimentos me damandaram agir corretamente. E você retribui, em meio ao seu rancôr por estar me perdendo, com uma frieza que eu nunca imaginei que era capaz, desconsiderando meus sentimentos e usando todos os erros e atitudes passadas de seu irmão para evitar algo que está além do seu controle... – eu neguei – Você está sendo cruel...
– Bella, eu não... – ele pausou, respirando fundo e anulando a expressão de desalento em sua face perfeita – Eu não estou sendo cruel, estou te alertando, tudo que quero é te proteger...
– Eu não preciso de proteção, sei cuidar muito bem de mim. – assegurei – Eu entendo que você esteja atordoado e ferido, eu sei que foi de repente... Mas você sabia de tudo, sabia desde o começo quando eu te dei outra chance... Eu fui honesta com você sobre como me sentia em relação a Jasper...
– E você me afirmou que não tinha certeza...
– Mas eu tenho agora...
Não sei se foi a maneira firme com que disse, ou se ele viu em meu olhar a forma como eu estava segura daquilo, mas a frase, tão simples, causou uma destruição evidente em Edward.
Ele arfou e sua expressão oscilou entre chocada e desolada em uma fração de segundos. Meu coração se contraiu, mas eu tinha de ir até o fim.
– Eu tomei essa decisão consciente... – tentei manter meu tom o mais suave que fui capaz – eu sei o que quero, sei muito bem e com absoluta certeza... – pausei respirando fundo, sentindo a aflição sem tamanho se propagar indócil dentro de mim. Jasper não estava lidando muito bem com aquilo, mas eu ainda não podia ir até ele – Eu sinto muito por estar ferindo você, eu posso perceber o quanto está magoado, mas eu não tenho como evitar isso... – continuei, notando os olhos de Edward parecerem estranhamente secos – Eu não posso continuar... Nosso relacionamente está... Rompido. – me forcei a concluir – Quanto às suas observações sobre seu irmão, eu vou acreditar que agiu da forma que agiu, sem pensar, movido por um impulso, pela dor que estou te afligindo. Vou desconsiderar cada palavra e tentarei esquecer o que fez. Por tudo que vivemos juntos, eu confiarei que esse homem na minha frente ainda é o rapaz doce e altruísta que eu amei profundamente, que eu ainda amo de certa forma... E vou assumir que você apenas estava fora de si ao usar argumentos tão descabidos para tentar me convencer a voltar atrás. Eu sei que sua intenção verdadeira nunca foi me magoar ou difamar seu irmão...
Ele me encarou incrédulo e desamparado, e eu expirei tentando me centrar.
– Eu não quero te arrancar da minha vida, Edward, porque você ainda significa muito pra mim, apesar de tudo que aconteceu. Mas teremos de encontrar um meio termo pra nós dois... Eu estou realmente magoada com você, mas compreendo o que lhe motivou. Isso não abalará a ligação que sempre existirá entre nós, mas, entenda, não atente mais contra minha relação com Jasper... Ele é meu destino, e nada vai me separar dele... – Ele abaixou a cabeça e passou a arfar – Me desculpe, mais uma vez, por estar te ferindo, mas eu não posso ir contra mim mesma...
Notei que seu corpo estremecia, seu rosto uma máscara de desamparo. Meu instinto clamou que eu o confortasse, mas eu já estava além de extremamente preocupada com o que estava absorvendo de Jasper, então precisava me apressar.
Encerrei a pequena distância que ainda pendia entre nós e pousei minha mão em seu rosto.
– Sinto muito... Me perdoe... – murmurei deixando minha mão se demorar um pouco mais na pele gélida dele.
Depois caminhei para a porta e virei a maçaneta, tentando ignorar o remorso que ameaçava me esmagar.
Assim que estava do lado de fora uma onda de pânico me sufocou. Desespero e ansiedade sem tamanho me tomaram, quase fraquejando minhas pernas, e eu sabia que a situação com Jasper era muito pior do que considerei possível... Ele devia ter entendido minha mágoa da pior maneira, e estaria acreditando que era com ele que eu estava decepcionada.
Levei minha mão ao coração, me mantendo com esforço, e corri escada a baixo, desesperada para estar com ele e lhe tranquilizar, mas tudo que encontrei foi Alice, um sorriso singelo nos lábios, o olhar demonstrando orgulho.
Não entendi sua expressão e nem me dei ao trabalho de especular ou perguntar. Eu precisava de Jasper, ele precisava de mim, eu podia sentir, e tinha que ser imediatamente.
Abri minha boca para perguntar onde ele estava mas, Alice sendo Alice, foi mais rápida.
– Eu te levo até ele... – ela falou com o tom tranquilo, quase alegre – Vem, sobe nas minhas costas. – finalizou com dois tapinhas no próprio ombro.
Eu estava confusa com sua atitude, mas não questionei ou falei qualquer coisa. Eu estava nervosa demais, meio tonta, com as emoções de Jasper que me alcançavam e corriam por mim me machucando. Tudo que queria e precisava naquele momento era estar com minha vida, conforta-lo e acalma-lo, e mergulhar na completude que me envolvia quando estava com ele.
Envolvi a cintura de minha melhor amiga com as pernas, repetindo em minha mente que logo tudo estaria esclarecido, e então estávamos voando pelas árvores, a floresta passando por mim como um borrão.
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Não tenho ideia de quanto tempo eu fiquei ali, dobrado sobre mim mesmo, me embalando para frente e para trás enquanto soluços secos sacudiam meu corpo.
Tentei me acalmar e centrar minha mente. Eu estava reagindo de forma exagerada, eu tinha consciencia disso, mas não encontrava em mim a força pra me recompor. Eu sabia que precisava estar inteiro quando fosse procurar Bella, precisava de um mínimo de estabilidade para expor a ela o que realmente tinha acontecido e porquê. Mas o desalento sem tamanho que me oprimia não permitiu que eu me reerguesse.
Minha mente trabalhou veloz, pintando vários cenários horríveis onde Bella fechava a porta na minha cara sem me dar ouvidos, me amaldiçoava por ter escondido aquilo dela, me esmagava com a mágoa por eu ter considerado um dia mata-la com frieza, me ignorava depois de exigir que eu nunca mais a procurasse e esquecesse que ela existia...
Eu estava condenado.
Minha existência seria uma escuridão sem fim, um buraco negro de onde eu nunca seria libertado, e permaneceria caindo no vazio eternamente.
A dor se propagou com esses pensamentos, e eu quase podia sentir meu corpo se quebrando em milhares de cacos espontâneamente.
Porque eu tinha sido tão estúpido? Porque eu não tinha contado a ela de uma vez naquela tarde? Eu teria tido a chance de explicar... Ela poderia decidir, ainda assim, que eu não era merecedor de seus sentimentos, de sua presença, mas ao menos eu teria tido a oportunidade de esclarecer a situação...
Agora eu não sabia... Na verdade eu tinha quase certeza que não conseguiria faze-la me ouvir...
Eu estava perdido... Perdido...
– Jasper... – A voz doce de Bella me alcançou, e só então eu me dei conta da mão morna e suave que tocava minha nuca.
Meu coração teria parado e acelerado em seguida se ainda funcionasse.
Eu estava delirando?
Sim, porque essa era a única explicação possível.
Tive medo de olhar e a alucinação desaparecer como fumaça, então apenas me encolhi um pouco mais, me embalando mais forte, os soluços se intensificando e fazendo meu peito arder estranhamente.
– Meu amor, olhe pra mim... – A voz de Bella exigiu com suavidade, e o toque em minha nuca se tornou mais consistente.
Eu ainda estava com medo de que fosse só uma criação de minha cabeça, mas os pedidos de Bella sempre funcionaram como comandos. Ainda que essa Bella não fosse real, eu atenderia seus desejos, isso me ferindo ou não.
Levantei minha cabeça lentamente, hesitando, e o perfume da pele, do sangue dela, me envolveu, em toda sua potência, me conscientizando de que eu havia me privado de respirar sem perceber. Então, antes mesmo de encontrar seus olhos, eu sabia que não era um delírio... Ela estava realmente ali, ajoelhada em minha frente.
Em um milésimo de segundo eu internalizei que aquela poderia ser a única oportunidade que eu teria de me explicar. Determinado a agarrar com unhas e dentes a suposta chance, eu me atirei em seu colo num movimento brusco, envolvendo sua cintura com meus braços num círculo estreito, controlando a força, por muito pouco, para evitar machuca-la.
– Bella, me perdoe... – minha voz soou rouca e falha em meio à súplica, terror transbordando de mim – Por favor, por favor, me perdoe... – as palavras começaram a sair numa velocidade incontrolável – Me deixe explicar, eu juro que tenho uma justificativa, pode não ser uma justifica plausível pra você, mas eu garanto que tive um motivo, muito forte, pra considerar fazer aquilo, eu não sabia quem você era, eu não sabia o que você representaria em minha vida, se eu soubesse eu nunca teria cogitado aquilo, eu juro, por favor, não me deixe agora, só me permita te contar como realmente aconteceu, por favor, por favor, eu te amo, você é minha vida, eu não vou conseguir sem você, Bella, por favor, me escute, só me escute... – As ideias atropelaram minha consciencia, cada pedido desesperado saindo num jorro descontrolado que eu não estava certo se ela estava conseguindo acompanhar – Por favor... – implorei no limite de minhas forças – Eu faço qualquer coisa, mas, por favor, só me permita explicar, só uma chance, é tudo que lhe peço...
Minha voz morreu com minha última reserva de energia, e eu pressionei minha testa contra o abdomen dela, esperando pelo pior.
O pavor ameaçou insurgir novamente, mas não houve tempo para tanto. Uma onda do mais puro dos sentimentos me envolveu, sua força impelindo a angústia a retroceder.
Eu arrisquei elevar meu rosto, e encontrei o olhar de Bella carregado de compreensão, compaixão e amor. Um amor imenso e real, o amor que nos ligava, que era gêmeo ao que eu sentia por ela.
Eu não compreendi, eu esperava repulsa ou ódio... Ciente de sua palma delicada ainda seguramente colada à minha nuca, eu fiquei ali, encarando seu rosto perfeito, sua expressão de pura preocupação, por um momento que me pareceu longo demais, tentando enxergar sentido no que ela emanava, e demonstrava em seu semblante.
– Você fugiu... – ela falou fazendo biquinho, fingindo uma mágoa que não sentia, claramente tentando suavizar a tensão que era projetada por mim.
– E-eu... – gaguejei ridiculamente, confuso – Eu...
– Eu sei, eu senti seu pânico... – seu tom saturado de entendimento e aceitação me deixou mais tenso ao invés de me acalmar como deveria – Eu imaginei que você poderia entender errado... Mas acreditei que não se deixaria convencer...
– Você estava tão... – minha voz partiu e falhou, e eu pigarreei baixo para força-la a sair –Magoada que eu... Eu achei que... E então eu precisava de... Eu... Eu não tinha espírito pra enfrentar aquilo de imediato... – balbuciei incoerentemente.
Bella estalou os lábios e negou, o olhar um pouco triste.
– Jasper... Você não confia no que sinto por você? – perguntou num tom contido, doce, mas eu captei a tênue nuance de ofensa permeando sua voz – Eu nunca usaria seu passado contra você... – ela falou com ternura, e seu carinho funcionou como um bálsamo, apesar de não ter conseguido me tranquilizar – Eu nunca duvidaria de seu amor por mim ou me permitiria influenciar pelo veneno de outras pessoas... – ela suspirou, e eu não contive minha incredulidade.
– Eu sei o quanto te feriu saber que...
– Jasper, eu não estava magoada com você... – ela me interrompeu com brandura – Nem mesmo por um segundo. A decepção que me atingiu foi em reação à atitude de Edward... Foi com ele que me senti triste, não com você... Achou mesmo que eu ouviria as palavras enciumadas dele...? Depois de tudo que te mostrei e disse hoje mais cedo?
Eu respirei fundo, assumindo que talvez ela estivesse se enganando, tentando se convencer de que Edward estava mentindo para evitar perde-la.
A verdade precisava ser assegurada, pelo bem de Bella, ainda que eu estivesse mortificado com a provável consequência. Eu não me aproveitaria da confiança que ela inocentemente depositava em mim. Eu não macularia a pureza de seu sentimento com uma omissão, mesmo que fosse a alternativa mais conveniente para escapar da dor de ve-la me dar as costas e me negar mais uma vez.
– O que ele falou é verdade... – murmurei com o tom engasgado, terror se elevando dentro de mim novamente.
Pra minha completa perplexidade, Bella sorriu emanando pura segurança, enquanto se sentava sobre os calcanhares.
– Eu sei que sim... – ela afirmou com um dar de ombros – Edward não mentiria sobre algo tão significativo. Mas, me responda uma pergunta... Qual foi o motivo que te levou a planejar meu assassinato? – indagou com o tom surpreendentemente tranquilo, enquanto eu estremecia com a palavra pesada que ela escolheu.
Engoli com dificuldade, respirei fundo e me forcei ao mínimo de calma. Era esse o momento pelo qual eu havia implorado, e eu não poderia desperdiçar a chance que ela estava graciosamente me dando.
Me afastei um pouco, imitando a posição dela, mas sua mão em meu pescoço não permitiu que a distância fosse maior, e me proveu um pouco do suporte que eu precisava para continuar.
– Eu estava tentando proteger a família... – murmurei, fazendo grande esforço para explicar devagar – Existe todo um sistema de leis em nosso mundo, por mais absurdo que isso possa parecer pra você, que é imperativo se respeitar... A regra primordial é que nossa existência seja mantida em segredo, e as consequências por conta de uma transgressão nesse caso são severas. – eu respirei fundo – Quando Edward te salvou do acidente ele expos a todos nós, e eu temi por nossas vidas. – eu dei de ombros, me sentindo extremamente envergonhado por ter considerado encerrar a vida dela, e de uma maneira nada sensível – Só estava pensando em manter nossa segurança... – desviei meu olhar do dela, focando em minhas mãos – Eu sei que é horrível... Sei que agora enxerga com clareza o monstro que eu sou realmente...
Me calei e esperei pela decepção dela me atingir em resultado à minha adimissão, mas não aconteceu. Ao invés disso eu senti a mão de Bella deslizar de minha nuca para meu queixo, fazendo força para mover minha cabeça. Eu facilitei e elevei meu olhar ao dela.
– Por acaso você já havia tido qualquer contato comigo? – eu neguei em silêncio – Sabia quem eu era? – eu repeti o gesto – Você mal sabia meu nome, não é mesmo? – eu assenti fracamente, ela suspirou – Vê? Sua atitude foi honrável, não condenável...
Eu não podia crer no que estava ouvindo. Não fazia sentido, ela estava sendo absurda...
– Bella, eu planejei matar você enquanto dormia... – confessei com nojo de mim mesmo, disposto a colocar alguma lucidez na mente invertida dela – Eu iria me esgueirar por sua janela no meio da madrugada e quebrar seu pescoço... E com toda certeza aproveitaria que já estaria ali pra drenar seu corpo sem qualquer piedade...
– Um plano muito ruim, se você me permitir opinar... – ela comentou com uma diversão que me confundiu – O estranho fato de meu corpo não ter uma gota de sangue levantaria suspeitas... – Eu a olhei incrédulo. Ela estava fazendo piada do que eu havia acabado de contar? Estava ignorando a gravidade do meu ato como se fosse nada? – Jasper, você estava agindo por amor à sua família... – falou com o humor já dissipado – Qualquer pessoa agiria da mesma forma pra proteger os que ama, não consegue enxergar isso? Além do mais, você não foi em frente...
– Apenas porque Alice me implorou pra não machucar você... – revelei com desgosto – E ainda assim eu considerei agir pelas costas dela...
Bella suspirou.
– Foi uma outra época, uma outra ocasião, você era um homem diferente, existiam razões plausíveis envolvidas... Não importa... Quem somos agora, e o que somos agora um pro outro que é realmente importante...
Meu ceticismo transbordava, meu espanto me sufocava, a confusão dentro de mim se aprofundava, impedindo que o alívio, que começava a forçar seu caminho por entre essas emoções, me alcançasse.
– Como você pode não estar horrorizada com isso? – eu questionei atordoado – Você deveria estar com raiva, com medo de mim...
Ela se infiltrou entre meus braços, se sentando em meu colo, e eu a rodeei pela cintura de forma automática. Suas mãos pequenas seguraram meu rosto a centímetros do seu, e sua respiração banhou minha face com seu aroma delicado.
Bella roçou o nariz no meu antes de colar nossas testas, o olhar perfurante alcançando minha alma.
– Bom, eu não sou estúpida, e consigo enxergar o que faz sentido, o que tem lógica, e não tem motivo algum para eu temer o homem que me ama, principalmente por algo que está num passado do qual eu mal fazia parte... Além desse fato, que é simplesmente racional... – ela deixou um beijo delicado em meu lábios, que eu não tive a chance de corresponder por estar absolutamente entorpecido – Eu te amo... – ela sussurrou em minha boca, fazendo eletricidade se alastrar por minha pele, e minha mente ficar em branco.
Eu fechei os olhos antes mesmo que o calor de seus lábios penetrasse os meus, cedendo minhas defesas, me entregando sem cerimônia ao amor que ela projetou e com que me cobriu enquanto nossas bocas se encaixavam.
O alívio então conseguiu me contagiar e se espalhar, anulando tudo que me segurou com os dois pés atrás ao longo de nossa breve conversa.
Minhas mãos, que estavam até então levemente pousadas na base de sua coluna, voaram para sua nuca, meus dedos entrelaçando-se nas mechas macias de seu cabelo e a pressionando ainda mais contra mim.
O beijo se manteve amoroso, apesar de intenso, por mais um momento. Mas eu estava tão mexido com tudo que tinha acontecido naquele dia, tão vulnerável pela carga de emoções que havia absorvido e vibrado até ali, e Bella estava projetando tanto desejo, tanta entrega, minha necessidade dela era tão enorme, que minha ânsia por ela, sempre tão presente quando eu a tinha em meus braços, pulsou forte e pra fora de mim, impossível de ser contida. O contato de nossos lábios se tornou mais apaixonado, mais exigente, e nossas línguas quase brigavam por espaço, tentando provar mais, provocar mais, e eu precisei concentrar toda a minha consciencia da fragilidade de Bella para não machuca-la.
Relutante eu quebrei o beijo minutos depois e afastei seu rosto do meu, arquejando. Ela ainda tentou manter a conexão, mas eu era mais forte, e tinha plena noção de que, se eu permitisse, aquilo iria longe demais.
Bella arfava, ainda com os olhos fechados, enquanto eu a observava embevecido, ainda maravilhado com sua maturidade e benevolência.
– Wow... – ela murmurou – Esse foi o melhor beijo que você já me deu...
Eu não fui capaz de evitar rir baixo, nem de sentir uma satisfação arrogante. Ela abriu os olhos e me fitou, um sorriso lindo brincando em seus lábios um pouco inchados e mais avermelhados que o normal.
– Melhor agora? – ela indagou, analisando minha feição.
Ela podia sentir que todo o tormento por que estava passando até antes de nosso beijo havia sido substituido por alívio e por uma calma, uma serenidade, que só mesmo ela era capaz de me prover.
– Eu não compreendo sua reação... – adimiti – Mas estou feliz por você sempre agir da forma que eu menos espero... – eu sorri timidamente – E eu te amo também...
Ela riu um pouco.
– Prometa que nunca mais vai duvidar de meu amor por você. – ela exigiu com o tom delicado, a feição séria de repente.
– Eu não... – comecei.
Ela me calou com a ponta de um de seus dedos.
– Você não confiou na profundidade de meu sentimento. – a voz repreensiva – Se tivesse não teria assumido precipitadamente, e equivocadamente, que a decepção que absorveu era direcionada a você. – suspirou – Você precisa trabalhar essa insegurança, eu sei que fui eu que a provoquei, mas sei também que já dei provas de que ela é depropositada... – aproximou o rosto do meu, olhando fundo em meus olhos – Prometa.
O que eu poderia fazer? Ela estava coberta de razão, eu não tinha como contestar o que ela havia afirmado. Eu tinha mesmo entrado em pânico, sem nem mesmo esperar para ver o que aconteceria, sem parar pra pensar que existia uma alternativa ao que eu achava que iria suceder...
– Prometo. – disse com o tom solene.
– Você é um bobo por sequer cogitar a possibilidade de eu me afastar de você. – ela murmurou deixando que o sorriso retornasse – Sinto muito, mas eu estou acorrentada e não tenho intenção de escapar, então você vai ter que me aturar pro resto de sua longa vida... – falou com divertimento evidente.
Foi inevitável rir, e meu peito parecia ter se expandido com todos os sentimentos leves e prazerosos que me preencheram subitamente.
Suspirei, me deixando relaxar.
– A propósito, como soube onde eu estava e como chegou até aqui? – questionei, ciente de que era uma viagem de dois dias a passos humanos, e ela não teria como estar ali tão rápido sem a ajuda de um de nós.
– Alice... – ela disse quietamente.
Eu assenti sorrindo.
– Ela está mesmo bem com nós dois, não é? – Bella indagou com suavidade.
– Sim. – respondi curtamente. Ela não precisava saber que minha ex ainda sofria por nosso rompimento, apesar de ter aceitado minha decisão e a nova situação com graça e generosidade.
– Eu confesso que me sinto meio insegura com ela perto de você... – Bella desabafou com o rosto corado e os olhos baixos, constrangida.
Eu segurei seu queixo e a fiz olhar pra mim.
– Eu me sentiria um pouco ofendido se fosse diferente... Mas você não precisa se sentir assim. Niguém te ameaça em relação a mim, Bella. É você que eu amo... Você me tem na palma da mão... – confessei sem qualquer hesitação ou receio, apenas constatando a verdade.
Bella ficou séria outra vez, e um senso de proteção, atrelado a um forte comprometimento, preencheu o ambiente entre nós dois.
– Então também vou fazer uma promessa... – suas íris queimaram fundo, quase como se pudessem ver o que havia dentro de mim – Vou te manter seguro e amado, protegido, e não vou deixar que nada mais te machuque ou te faça sentir vulnerável... – a voz categórica, enfática.
Aquilo era um voto, um pacto, mais que um juramento ou promessa. Ela estava se comprometendo comigo num nível muito além do convencional, eu podia comprovar por suas emoções, que me envolviam e engolfavam num mar de plenitude... Me deixei arrebatar, e aninhei a certeza de que nada mais nos separaria...
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