Destinados
21 A sombria ameaça
Notas iniciais

– V-você a viu? – o medo na voz de Bella me acordou para o fato de que ela estava em perigo, e eu não poderia deixa-la sozinha.
Mas eu precisava investigar, tentar encontrar o rastro e, o mais rápido possível, a vampira, e não poderia fazer isso com minha garota ao meu lado.
– Eu vou te levar de volta pra mansão. – murmurei, considerando que a melhor forma de mantê-la protegida em minha ausência seria deixa-la com Edward e Alice – Ligue pro Charlie, diga que vamos nos atrasar um pouco.
Liguei e acelerei o carro, fiz a volta na pista e retornei para a propriedade, alcançando a casa em menos de cinco minutos.
Quando estacionei e me voltei para Bella, ela me olhava com os olhos impossivelmente arregalados, a respiração errática, o coração retumbando. Ela vibrava tanto medo que eu me sentia um tanto sufocado, e eu imaginei que estava revivendo as emoções que experienciou quando foi atacada por James.
Tomei suas mãos nas minhas.
– Eu não vou permitir que nada te aconteça Bella... – falei com segurança, e algumas lágrimas escaparam dos olhos dela – Eu vou te manter segura.
– Ela está aqui por causa de James, não é? Pra se vingar, vingar a morte dele? – seu tom era frágil.
– Eu acredito que sim, não vejo outra explicação... – afirmei com sinceridade – Mas nós somos um clã relativamente grande, ela não tem chance alguma, mesmo que tenha ajuda, no que eu não acredito. Eu acho que ela está sozinha.
– Você acha que ela quer atacar vocês?
– É o mais lógico a se pensar. Fomos eu e Emmet que matamos James, mas toda a família estava envolvida, e você... Se ela está mesmo atrás de vingança, não vai parar até conseguir, e não vai se satisfazer apenas comigo e Emmet... – especulei um tanto pensativo, depois suspirei – Eu preciso ir atrás dela, agora enquanto o rastro está fresco. Se eu encontra-la posso resolver isso antes que se torne mesmo um problema.
– Não! – Bella quase gritou, assustada – Não, você não pode ir até lá sozinho! E se ela... E se ela...
Eu sorri, aninhando seu instinto de proteção comigo, e segurei seu rosto com delicadeza.
– Hey, eu já lidei com centenas de vampiros recém-criados, muito mais fortes que ela. Ela não tem como me abater sozinha... – assegurei – Eu tenho outros truques em minha manga que apenas controle de emoções, pequena.
– Mas Jazz, ela... Eu não... Se você for e... – ela tagarelou incoerente, e eu a abracei e apertei um pouco.
– Shhhh, não entre em pânico. Nada vai acontecer comigo, eu juro. – me afastei para olha-la – Eu vou apenas seguir o rastro e ver onde vai dar. Se a encontra-la, resolvo isso antes mesmo que ela perceba minha presença. – deixei um beijo em sua testa – E você vai ficar aqui com Edward e Alice até eu voltar, ok? Preciso ter certeza de que estará segura.
Ela assentiu fracamente, o olhar incerto, e então saímos do carro.
Eu dei apenas dois passos e Alice estava na minha frente, Edward logo atrás dela.
– A Victória está aqui? – indagou com o ar surpreso, o que pra mim foi um choque – Eu vi você procurando por ela na floresta mas... – ela arquejou – De repente seu futuro sumiu!
Ao meu lado Bella arquejou, e segurou meu braço com toda sua força.
– Você não pode ir sozinho. Por favor Jasper! – seu tom expressando todo o pânico que a dominaram ao ouvir as palavras de Alice, que estava com tando medo quanto ela.
– Eu vou com você. – Edward sentenciou, me olhando fundo nos olhos, os dele ferozes – Se ela está aqui deve ser por conta da morte de James. Ela quer vingança.
Eu deduzi exatamente isso. Pensei assentindo pra ele. E se esse for o caso...
Edward projetou concordância e olhou rapidamente de mim pra Bella, e de volta pra mim, entendendo o receio em minha postura e em minha mente.
Alice arfou, e Edward retesou ao lado dela.
– Seu futuro acaba de sumir também! – ela arquejou, voltando o olhar pra ele.
– O que isso significa? – Bella perguntou frenética, seu nervosismo se elevando.
Eu segurei o braço de Alice.
– Tome conta dela, e tente acalma-la. – falei para que só os vampiros presentes ouvissem – Eu preciso resolver isso.
– Você não entende, Jazz? Alguma coisa grave vai acontecer! – ela devolveu no mesmo tom – Eu não consigo ver você ou Edward depois que vocês atingirem certa altura da floresta!
– Nós somos mais fortes que ela, Alice. – Edward me deu suporte – E nós não podemos simplesmente sentar e esperar que ela venha nos atacar. Bella é um ponto fraco, não podemos arriscar que ela se aproxime.
– Hey, chega desse conversa de vampiros! – Bella esbravejou e todos nós voltamos nossos olhares pra ela – Não discutam o que vão fazer nesse tom indiscernível pra mim, eu estou bem aqui e estou tão envolvida nisso quanto vocês! E ninguém vai sair daqui atrás de uma vampira vingativa quando Alice não consegue...
Edward me olhou com cautela antes de se aproximar dela e segurar seus ombros, interrompendo-a.
– Não corremos qualquer risco juntos, Bella. Jasper é forte e experiente nesse tipo de coisa, e eu posso antecipar as ações dela acessando sua mente. – tentou tranquiliza-la – Precisamos fazer isso, ou ela virá até aqui, o que nos coloca numa situação muito mais agravante.
– Mas, Edward... Alice não pode ver o futuro de vocês, isso só pode significar que...
– Pequena, nós vamos fazer isso. – determinei com o tom firme, e ela olhou pra mim com os olhos rasos – Temos que fazer. – olhei pra Edward, o alertando com meu pensamento. Depois voltei o olhar pra ela – Me perdoe... – pedi com remorso.
Eu não tinha outra alternativa.
Bella não teve tempo de argumentar contra o que percebeu que eu faria, e eu me posicionei rapidamente ao seu lado, há tempo de pega-la nos braços, quando seu corpo desfaleceu em consequência da onda potente de letargia que enviei pra ela.
– Alice, por favor... – encarei-a com súplica no olhar, culpa me afogando por ter feito aquilo com Bella.
Ela me olhou com insegurança, receio. Mas estendeu os braços depois de um suspiro resignado, e reinou sobre suas incertezas ao aninhar Bella em seu colo.
– Me prometa que vai voltar. – exigiu, depois fitou Edward – Vocês dois. Me prometam.
Edward sorriu enviesado pra ela, enquanto eu tentava controlar a angústia por deixar Bella, mesmo que só por algumas horas.
– Nós vamos voltar antes que Carlisle chegue com os outros. – foi Edward quem afirmou, me direcionando um olhar firme.
Eu assenti, apressando-o com meus pensamentos, e então corri pra dentro da floresta, sabendo que ele logo me seguiria.
– Faça Bella ligar pra Charlie assim que ela despertar. – Pedi a Alice num tom que eu sabia que ela era capaz de ouvir, mesmo à distância – Ajude-a com uma desculpa.
Voei por entre as árvores, alcançando meu limite de velocidade, e então estaquei quando registrei o odor.
– Ela tem rondado o terreno. – murmurei para Edward, que eu já tinha percebido ao meu lado – Esse rastro é recente, mas a essência está forte demais pra ser a primeira vez dela por aqui.
– Ela deve estar tentando encontrar uma brecha, ou está avaliando nossos padrões para planejar um ataque. – ele especulou – Acha que está sozinha?
– Eu não estou reconhecendo nenhum outro cheiro além do dela... – comentei enquanto avaliava a área, meu faro, audição e visão concentrados e apurados como quando eu vivia nos campos de Maria.
– Vamos segui-lo. – Edward sugeriu, já correndo na direção que o perfume doce e selvagem da vampira trilhava mais pra dentro da mata.
Nós continuamos, atentos e puramente instintivos. No caminho eu abri minhas memórias para Edward, mostrando a ele o dia em que vi o flash vermelho no fundo do oceano, e o momento em que notei o cheiro familiar enquanto fugia de Forks com Alice em meu encalço, no dia em que Bella tinha me revelado sua decisão em dar uma nova chance a eles.
Meu irmão murmurou sua irritação enquanto investigávamos. Concluiu o mesmo que eu, que Victória possivelmente estava na região há mais tempo do que podíamos supor, buscando um meio de fazer justiça contra o clã que assassinou seu companheiro.
Inferno! Esbravejei em pensamento ao notar que a trilha seguia para as terras dos quileutes, refreando o instinto de avançar.
– Não temos como prosseguir. – Edward murmurou, parando bem em frente à fronteira invisível, indignação e impaciência pulsando pra fora dele.
– Ela não tem como saber do tratado... – debati – Tem?
– Não tenho certeza... Não é como se nosso acordo com os índios fosse um segredo. Mas eu duvido muito que ela tenha contato com outros clãs, já que é uma nômade. Ela não teria como obter essa informação a não ser que tivesse conversado com os Denali ou algum outro clã amigo de Carlisle...
– Se ela está rondando a cidade, pode ter ouvido algo sobre isso...
– Na tribo, você que dizer? – ele me perguntou, não precisando realmente da resposta já que ele podia ouvir o que eu pensava – Porque eles ficariam discutindo sobre isso?
– Bom, eles sabem o que somos... – dei de ombros – E o tal Jacob Black parece ser bem antipático quanto ao relacionamento de Bella com nossa família...
– Ele estaria considerando algum meio de nos afastar dela. – ele vocalizou o que ia em minha mente – E o tratado seria o meio mais rápido de alcançar isso.
– Sim. – concordei – Talvez ele tenha discutido sobre isso com os anciões, algum meio de usar o acordo que seu tataravô fez com Carlisle para conseguir o que quer. E Victória pode ter simplesmente estado no lugar certo, na hora certa.
– É uma possibilidade. – ele aceitou – Mas então, o que faremos? Não podemos atravessar, e se ela está sabendo do tratado, vai usar isso para escapar de nós.
Eu racionalizei a situação por um momento.
Se ela estava se escondendo nas terras quileutes, eles deveriam saber disso de alguma forma, e talvez estivessem agindo para proteger a cidade.
– Eles não se transformam mais há quase dois séculos, Jasper... – Edward sentenciou, atento às considerações que eu fazia em minha cabeça.
– Pode ser que não, mas eles ainda conhecem bem os meios para proteger sua gente e destruir esse tipo de ameaça... – afirmei.
– Sem o poder da metamorfose eles nem chegariam perto dela... – ele desdenhou – Eu não acredito que...
Sua súbita interrupção me deu a certeza de que ele tinha sentido o mesmo que eu.
Meu olhar se voltou automaticamente para a direção de onde emanava o odor ácido e insuportável de amônia e cedro, e eu fitei com perplexidade a monstruosa figura que se aproximava lentamente da linha do tratado.
O que você falou sobre eles não se transformarem há mais de dois séculos? Ironizei em pensamento, e ouvi Edward estalar os lábios em irritação.
O lobo tinha a altura e porte de um urso, o olhar feroz e ameaçador brilhando raiva incontida. Eu encarei as íris castanhas com estranheza. Eu conhecia aqueles olhos de algum lugar...
– Jacob... – Edward sussurrou num misto de surpresa e asco, e prontamente eu identifiquei o garoto transformado em cão.
Jacob parou em nossa frente e elevou a cabeça gigantesca, expirando pelo focinho enorme enquanto projetava animosidade.
– Ele quer saber o que estamos fazendo aqui. – Edward disse ao meu lado.
– Estamos seguindo o rastro de uma vampira nômade. Ela está em suas terras. – Informei ao lobo, que me encarava atento como nenhum animal era capaz.
– “A sangue-suga de cabelos de fogo?” – Edward verbalizou o pensamento do quileute numa voz entorpecida.
– Victória. – eu disse com indignação – Sim.
Uma troca esquisita ocorreu entre meu irmão e o garoto-lobo. Eles se fitaram por um momento e então Jacob correu para as árvores, desaparecendo em meio às sombras das folhagens.
Eu abri a boca pra perguntar o que tinha acontecido, mas o índio ressurgiu num piscar de olhos em nossa frente, capturando minha atenção.
– Bella está em perigo? – seu tom era altivo, exigente.
– De certa forma, sim. – afirmei – Essa mulher era companheira do vampiro que estava atrás de Bella, e que nós matamos meses atrás. E nós acreditamos que está aqui em busca de vingança.
– Se ele quer se vingar está atrás de vocês, não de Bella. – ele deduziu equivocado.
– A questão é que matamos ele pra proteger Bella. – Edward se pronunciou, demonstrando todo seu desprazer em estar conversando com o garoto – E sabendo que nós fomos capazes de matar um de nossa espécie pra mantê-la segura, ela vai considerar que Bella é importante pra... Nós. Um trunfo, um meio de nos atingir. Ela é humana e frágil, por tanto corre perigo.
– Ela corre perigo porque se relaciona com vocês... – Jacob replicou com desprezo, encarando Edward com a mesma antipatia que meu irmão direcionava a ele – Vocês a colocaram e estão colocando novamente em risco.
– Jacob, não vai adiantar ficarmos aqui medindo forças. – intercedi – Se conseguirmos alcança-la resolvemos o problema em dois tempos. O caso é que ela está em suas terras.
– E vocês não podem passar. – ele determinou com arrogância – Nós estamos cuidando disso. Há algum tempo estamos de olho nas indas e vindas de sua “coleguinha”.
– Ela não é nossa “coleguinha”... – Edward cuspiu irritado projetando o corpo na direção do rapaz. Eu estendi meu braço em frente ao seu peito, o impedindo de dar um passo.
– Há quanto tempo? – indaguei.
Jacob olhou pra mim com indiferença.
– Quatro, cinco meses... – murmurou – Ela vai e volta, passa semanas sem aparecer e então, seu fedor cobre nossas margens.
Eu encarei Edward, recordando fugazmente o que havíamos especulado ainda há pouco sobre ela ter ouvido algo em relação ao tratado. Ele assentiu.
– Nós temos um problema então... – divaguei, e o garoto emanou curiosidade – Acreditamos que ela sabe do tratado, e se for o caso, nenhum de nós poderá captura-la. Ela continuará pulando de um território a outro sempre que estivermos atrás dela, e nem nós, nem sua tribo, será capaz de acabar com isso.
– Fale por você. – ele sussurrou arrogante – Nós estamos mantendo patrulhas, e nenhum de nós vai descansar enquanto não eliminarmos essa ameaça.
Eu debati internamente uma possibilidade, mas não acreditei que era o momento de discutir aquilo, muito menos que Jacob fosse a pessoa, ou o lobo certo, com quem devêssemos argumentar.
Ao meu lado Edward franziu a testa, vibrando incredulidade e dúvida. Eu apenas neguei e alertei-o em pensamento de que era hora de voltarmos.
Me voltei para Jacob, que ainda me fitava como se visse algo extremamente nojento.
– Seu pai é o líder da matilha, não é? – incitei.
Ele riu baixo e sarcasticamente.
– Quem te disse que existe uma matilha?
– Você afirmou que estão fazendo patrulhas. Duvido muito que meros índios humanos fossem capazes de suportar o frio e as longas horas de vigília que isso acarreta.
Seu semblante ficou mortificado por um mero segundo, mas ele logo se recompôs.
– Pra quê você quer saber quem é nosso alfa? – questionou cheio de empáfia.
– Para debatermos a possibilidade de unirmos forças. – disse com tranquilidade – Nós temos um objetivo em comum aqui.
Jacob gargalhou alto, e Edward ficou ainda mais irritado com a petulância do garoto, mas conseguiu se controlar. Eu apenas esperei que a diversão passasse e ele internalizasse que eu estava falando muito sério.
–O quê? – ele indagou ainda rindo – Você tá mesmo sugerindo isso?
Eu assenti em silêncio.
Por um instante ele ficou mudo, me olhando com atenção, me avaliando. Depois suspirou.
– Sam. – sentenciou – Sam é o líder, mas eu duvido que ele queira sequer te ouvir, quanto mais fazer um acordo com vocês.
– Bom, isso é algo com que eu devo me preocupar, não você. – disse com indiferença, dando de ombros – Obrigado pela informação Jacob. Acredito que vamos nos ver em breve.
E antes que ele tivesse a chance de dizer alguma coisa eu me apressei em direção à casa, notando que Edward me seguia de perto.
– Você está mesmo considerando um acordo com um bando de lobisomens? – ele indagou desnecessariamente enquanto devastávamos o caminho com nossa rapidez, o tom claramente incrédulo por estar confirmando meu posicionamento ao invadir minha mente.
Se Victória sabe do tratado terá vantagem sobre nós e sobre eles. Argumentei. Nós não podemos atravessar a fronteira, nem eles, e se ela tem essa informação vai ficar alternando entre um território e outro, nunca a pegaremos.
Por mais alguns segundos ele ficou calado, uma pequena gama de emoções emanando dele pra mim, mas eu estava ansioso demais pra voltar pra Bella para me preocupar em compreender a confusão de sentimentos que ele tentava, em vão, controlar.
Apenas quando estávamos há poucos metros da casa, quase alcançando o córrego que rodeava a propriedade, foi que eu identifiquei instintivamente os que mais sobressaíam. Edward estava oscilando entre hesitação e determinação.
Antes que eu pudesse perguntar, ele segurou meu cotovelo e me fez parar numa brecada.
– Hey, será que podemos conversar antes de entrarmos? – ele perguntou, e seu olhar era inseguro no meu quando me virei para encara-lo.
De repente ele estava constrangido e receoso.
O que houve, Edward?
Seu semblante não me revelava coisa alguma, absolutamente neutro, mas era impossível esconder de mim o que ele sentia, e então eu sabia qual era o assunto.
– Antes que você se coloque na defensiva, me escute. – ele pediu com um tom nervoso, e eu assenti – Eu não quero brigar ou mesmo discutir, eu só... Eu só preciso...
Compreendendo a razão para a culpa e leve embaraçamento dele, eu suspirei.
– Eu não estou aborrecido com você, Edward. – verbalizei o que ele podia comprovar em meus pensamentos – Eu compreendo perfeitamente suas últimas reações.
– Eu só queria deixar claro que o fato de eu estar magoado com toda essa nova situação não muda a fraternidade que existe entre nós. – ele falou com segurança – Você é capaz de assimilar o quanto perder Bella está sendo difícil pra mim, não só porque pode perceber, como ninguém mais, o que estou sentindo, mas também por sentir o mesmo que eu.
Eu me aproximei dele destemidamente, e apoiei ambas as mãos em seus ombros. Nos olhamos fundo nos olhos.
– Durante algum tempo eu me debati sobre o que fazer em relação ao que sentia por ela... Justamente por entender o que isso acarretaria. – ele assentiu – Quando eu percebi que ela correspondia aos meus sentimentos, muito antes de você voltar, eu me vi confuso sobre como agir, Edward, não foi uma decisão fácil pra mim, ainda que eu acreditasse que você não tinha intenção de retornar. Mas a profundidade...
– Eu sei. – ele me interrompeu – Talvez eu compreenda melhor que você mesmo esse sentimento que você guarda por ela, e que eu percebi que ela guarda por você. E é somente por esse motivo que estou fazendo todo o esforço para aceitar.
A compreensão que ele projetava pra mim era infinitamente mais profunda do que eu esperava, e apesar de chocado, imediatamente enxerguei que havia muito mais ali que simples aceitação.
Antes que eu lhe fizesse a pergunta que se formou em minha cabeça, ele expirou pesadamente, fechou os olhos com força e segurou meus antebraços, voltando a me olhar.
– Eu conversei com a Alice sobre isso hoje, e vou te explicar sobre o quê estou falando. – suspirou – Só te peço que aguarde a chegada de Carlisle. Ele tem um conhecimento mais aprofundado que eu sobre essa... Teoria...
Teoria?
– Eu prometo que vou explicar tudo mais tarde. – me assegurou – Agora, neste exato momento, eu só quero pedir desculpas por ter agido como um adolescente contrariado. – negou com um sorriso hesitante – Tudo que eu quero é que Bella seja feliz... E se eu estiver certo... – suspirou novamente – Você é o único que pode realizar isso.
Eu o encarei completamente confuso, tentando destrinchar suas emoções e fazer com que elas fizessem algum sentido, e me dessem alguma pista sobre o que ele estava falando.
– Mais tarde. – ele prometeu outra vez – Eu acho que você precisa voltar pra Bella agora...
E então a onda de pânico, que só naquele momento eu notei já estar me alcançando provavelmente há alguns minutos, me fez atento ao fato de que minha garota havia despertado de seu sono induzido.
Sem dizer palavra, me apressei para a casa, a mente em branco, já emitindo vibrações de calma para Bella.
Quando Edward e eu passamos pelas corrediças de vidro ela já estava de pé no centro da sala, os olhos enormes e cheios de tensão, enquanto Alice segurava sua mão para impedi-la de trovejar por onde entrávamos.
Eu corri pra ela a tomando em meus braços com um suspiro de alívio, e ambos sentimos quando nossa conexão permitiu que nossas emoções amainassem.
– Você está bem? – ela murmurou em meu peito, a voz levemente embargada.
Eu assenti em silêncio sabendo que o que eu sentia era o suficiente para deixa-la mais tranquila. Bella se afastou minimamente e me olhou nos olhos, irritação, indignação se elevando repentinamente.
– Nunca mais me nocauteie daquela maneira, Jasper! – falou com o tom duro, e eu segurei uma risada – Foi completamente injusto!
– Eu só estava tentando te proteger... – murmurei encostando minha testa na dela – Mas eu sei que agi errado. Mesmo você não me dando outra escolha eu... – respirei fundo – Me desculpe, Bella, mas eu tinha que fazer isso e você não me deixaria ir...
Percebi que Edward e Alice já não estavam na sala quando Bella me fuzilou com o olhar altivo.
– Eu compreendo suas razões... E acho que fui um pouco... Intensa demais, mas Jazz... Você precisa entender que eu tenho medo... De perder você... – sua voz era só um sussurro fraco no final da declaração.
– Como eu tenho medo de perder você. Justamente por isso eu precisava seguir o rastro... – suspirei – Olha, não vamos falar sobre isso. Me perdoe, eu prometo que não farei algo assim sem te alertar antes. E como último recurso. – adicionei quando ela uniu as sobrancelhas numa careta brava – Não fica zangada comigo... – pedi num tom suave, deslizando meu nariz no dela devagar – Por favor...
O coração de Bella assumiu um ritmo errático e suas emoções se alteraram. A ternura sendo a mais intensa de todas.
Ela assentiu quietamente e eu beijei seus lábios com suavidade antes de rodea-la com meus braços outra vez.
– Você ligou para o Charlie? – ela negou – Vamos, eu preciso te levar ou ele vai ficar uma fera comigo. Não quero contrariar meu sogro e perder a confiança que ele deposita em mim.
Bella riu baixo enquanto entrelaçávamos nossos dedos e caminhávamos para fora da casa.
– O quê?
– É tão... Fofo, você chamando meu pai de sogro... – ela deu de ombros.
– Mas é isso que ele é pra mim, não é? – ela anuiu com o olhar brilhante – E se depender de minha vontade, e de meus planos, vai continuar sendo pro resto da vida dele...
Logo estávamos no carro, seguindo para a casa dela num silêncio cúmplice.
*
*
*
– Mas porque eu não consegui ver o que iria acontecer, eu não entendo! – Alice se mostrou irritada assim que Edward e eu terminamos de contar o que havia acontecido na floresta.
– Isso nunca aconteceu antes? – eu indaguei inquieto.
– Não! – ela expirou pesadamente – Nunca. Eu não consigo entender, será que estou perdendo meu dom?
– Não seja absurda, Alice... – Edward retrucou ao meu lado – Você pôde ver a chegada de Carlisle com perfeita clareza há poucos minutos. Deve ter sido um lapso ou algo assim...
– Não, não foi um lapso, Edward. Eu simplesmente não podia ver, como se minha visão tivesse sido extirpada de mim, como se eu... Como se eu estivesse sendo bloqueada...
– Essa é uma possibilidade que deveríamos considerar. – ele pensou alto – Não somos os únicos vampiros com dons, talvez... Talvez tenha sido exatamente isso que aconteceu...
Alice pulsou choque e medo de repente, e eu não precisava ter o poder de Edward para entender o que ela estava pensando.
– Você acha que alguém pode estar manipulando meu dom? – ela murmurou com evidente receio saturando sua voz – Mas porque alguém faria isso?
– Não tenho a menor ideia... – ele devolveu – Mas Victória está aqui, obviamente procurando por vingança. Talvez ela não esteja sozinha como pensamos, – ele falou voltando o olhar em minha direção – talvez ela tenha vindo preparada, com um parceiro talentoso lhe dando suporte...
Eu expirei, subitamente contrariado.
– Se for isso as coisas ficam ainda mais complicadas para nós... – resmunguei, e ambos assentiram – Será bastante complicado capturá-la se ela estiver contando com mais uma vantagem...
Edward entrou numa profunda introspecção, projetando angústia e dúvida, um anseio brutal... Eu entendi que ele estava vasculhando a própria mente por uma solução ou ideia, no mínimo, e me coloquei a pensar também.
Ao meu lado Alice retesou levemente, e então Edward estava fora de sua concentração e espelhava a postura de minha ex, automaticamente tragado para a nova visão que eu deduzi estar acontecendo.
Dois segundos depois ambos me encaravam com intensidade.
– O quê? – perguntei, nervoso de repente.
Edward baixou os olhos tentando esconder a confusão em seus olhos. Como se eu não fosse capaz de identifica-la pelas suas emoções... E então Alice estava com os lábios entreabertos para me falar alguma coisa, mas foi interrompida.
Nossas cabeças se voltaram para a porta assim que ouvimos o movimento veloz do lado de fora. A porta se abriu para um Carlisle ansioso, de olhar defensivo, uma Esme claramente radiante, mas um tanto tensa, e uma Rosalie angustiada ao lado de um Emmet muito, muito contente.
– Estamos de volta, família! – Emm vociferou com seu tom sempre divertido, enquanto todos eles entravam, tentando, sem sucesso algum, amainar suas emoções que estavam em todo lugar, me sufocando.
Edward, Alice e eu nos levantamos, cada um com um sentimento diferente quanto ao retorno do restante dos membros de nosso clã. Eles dois se apressaram para abraçar Carlisle e Esme, alegria e satisfação borbulhando neles, enquanto eu me mantive parado onde estava, atordoado entre constrangimento e hesitação.
E então, para minha mais absurda surpresa, Carlisle estava em minha frente, as mãos em meus ombros, o olhar grave no meu.
– Sei que há muito a ser dito... – suas palavras soando graves e firmes – Mas eu espero que você possa ser capaz de me perdoar por ter te abandonado, filho. Senti muito a sua falta...
A ternura e sentimento de paternidade, muito mais que sua sentença sincera, me pegaram de guarda baixa, e eu senti meus olhos arderem secos. Se eu fosse humano estaria com lágrimas nos olhos, completamente chocado com a primeira demonstração de afeto explícita dele.
Carlisle sempre havia sentido por mim o mesmo que por meus supostos irmãos adotivos. Eu, mais do que ninguém, podia garantir isso. Fundo em seu âmago ele guardava por mim o mesmo senso de proteção e cuidado, carinho, que guardava por Edward, Alice, Rosalie e Emmet. Mas era a primeira vez, desde que eu e Alice fomos acolhidos entre eles, que Carlisle era abertamente afetuoso comigo, como um verdadeiro pai.
Eu não soube como reagir, e Carlisle, não esperando por uma réplica minha, simplesmente me puxou para si, e me circulou num abraço de aço, projetando remorso e amor sincero para mim.
Envolvido pelo sentimento eu me deixei levar, e o abracei de volta, enviando a ele os sentimentos correspondentes.
– Obrigado. – ele murmurou antes de me soltar, compreendendo que minha projeção era minha resposta a seu pedido de desculpas – Eu sabia que seria generoso comigo como é com todos... – eu neguei brevemente – Podemos conversar? – eu assenti.
Os outros, que só então eu notei estarem em silêncio nos observando, se aproximaram.
Esme me abraçou com sua eterna pureza, amor, carinho e saudade me cobrindo em seu abraço. Depois Rose, a quem eu sempre considerei, um pouco mais que aos outros, como minha irmã, beijou meu rosto e me envolveu com seus braços quase suaves, demonstrando com suas emoções o quanto sentiu minha falta, e o quanto lamentou nosso afastamento.
– Estou feliz por vê-lo novamente... – suspirou em meu ombro – Pensei que nunca mais nos veríamos.
Eu segurei o rosto dela em minhas mãos.
– Eu daria um jeito de entrar em contato cedo ou tarde. – assegurei – Você sabe que eu te amo, não é? – Rose assentiu sorrindo.
Emmet então estava puxando a esposa de meus braços com raiva fingida em seu olhar e expressão.
– Qual é, cara! Pensei que você fosse meu brother! – seu tom forçadamente ultrajado não foi capaz de mascarar a diversão que ele vibrava, e todos riram baixo emanando contentamento – E depois de meses sem nos vermos você flerta com minha mulher?! Tá querendo perder a cabeça?
– Me desculpe, bro... – entrei no jogo sorrindo, alegre por estar absorvendo as emoções sempre leves de Emmet – Não quis te ofender...
Ele me puxou para seus braços gigantescos e me apertou contra seu corpo massivo, e rimos juntos.
– Senti falta do meu irmão emo pra caralh... – ele começou mas não terminou.
– Emmet! – Esme o repreendeu com a voz cheia de sua autoridade materna – Olha o linguajar!
– Desculpe, mãe... – ele disse com o tom envergonhado, me soltando e baixando a cabeça.
Todos rimos um pouco mais. De nós cinco, Emmet era quem mais sofria com as repreensões de nossa suposta mãe, mas também era o mais mimado e próximo a ela, perdendo talvez somente para Edward. Essa aura de família sempre me fazia sentir um pouco humano, e repentinamente eu me vi feliz pela volta deles.
Carlisle segurou meu antebraço com suavidade, e eu voltei meu olhar ao dele enquanto os outros começaram a subir as escadas para acomodarem suas bagagens.
– Vamos ao meu escritório. – pediu, e eu assenti, o seguindo assim que ele soltou meu braço e tomou a frente.
Notei Edward e Alice logo atrás de mim e suspirei.
Tão rápido havia chegado o momento de contar a novidade sobre mim e Bella, e de expor minhas loucas teorias sobre nossa conexão e Isabell... Mas também seria o momento em que eu provavelmente encontraria algumas respostas, que eu tinha certeza de que meu suposto pai possuía, e ouvir o que Edward tinha a contar.
Ansioso eu entrei no gabinete que não visitava há mais de seis meses, sendo ladeado por minha ex-esposa e meu irmão adotivo. Pronto para mais algumas novas descobertas.
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